What about Lula?

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O jornal “A Cidade” promoveu em seu portal uma enquete: qual é o futuro político do presidente Lula? 47% do total de votos acha que ele deve ocupar um cargo em algum organismo internacional; 38%, que ele vai voltar a disputar a Presidência da República; 12%, que ele vai se aposentar; e 3%, que ele vai trabalhar em alguma ONG.

Depois de, nos bastidores, ser questionado sobre uma possível candidatura à secretário-geral da ONU, Lula descartou uma ação no partido ou no novo governo, afirmando, porém, que pretende usar sua experiência no governo para trabalhar pela integração dos países da América Latina e da África. Lula chegou a ser cogitado como sucessor natural de Néstor Kirchner como secretário-geral da Unasul, tendo inclusive recebido publicamente apoio de Fernando Lugo. Descartou essa possibilidade também.

Então, o que resta ao presidente que “nunca antes, na história desse país, o Brasil teve”? O que será do Lula quando ele acordar no dia 2 de janeiro de 2011 em São Bernardo do Campo?

Especula-se que o presidente iria “descansar durante o mês de Janeiro”. Depois disso, Lula criaria um novo instituto, no Brasil, com fins humanitários. Nas Nações Unidas, segundo consta, teria recebido propostas de coordenar com Angela Merkel um novo plano para combate ao aquecimento global. Também Lula já se propôs a articular uma reforma política com outros partidos e em parceria com ex-presidentes.

Num futuro mais longínquo, poderia suceder Dilma – caso o governo dê com os burros n’água -, presidir o Corinthians, ou apenas tomar umas cervejinhas por aí na praia.

Ao assumir a presidência em 2002, uma das preocupações de analistas com o seu governo seriam os rumos da política externa, e sua própria figura como representante do Brasil perante os outros países. Ao contrário do que os temores poderiam confirmar, os objetivos brasileiros no cenário internacional cresceram junto com a retórica utilizada, de não-alinhamento, integração regional, multiculturalismo e liderança regional.

Muito de tudo isso não passou de retórica. Que me perdoe Chico Buarque, que exaltou o fato de “com Lula o Brasil não fala fino com Washington nem grosso com a Bolívia”. Falar fino ou grosso não passa disso: falar. Não quer dizer que somos “mais iguais” que nenhum dos dois lados. De qualquer forma, a habilidade política de Lula é notória e poderia ajudar na coordenação de importantes projetos no cenário internacional.

Resta-nos torcer para que o seu insistente repertório de opiniões sobre todos os assuntos não encubra o novo governo, e que ele não se engaje no projeto de governar o Brasil até sua morte, como fez Getúlio, figura com a qual ele insiste em se comparar.


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Respostas à cólera

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O terremoto no Haiti chamou muito a atenção da mídia. A epidemia de cólera no país que atinge recentemente o país, nem tanto. O fato é que mais de 800 pessoas já morreram e o caos se instaurou numa nação já devastada.

Mas o que está, afinal, sendo feito? Infelizmente, ao menos pelo que nos chega, muito pouco. Vide pela “Estratégia Nacional de Resposta à Epidemia“. Sim, o governo haitiano publicou um documento com a estratégia para conter a doença, que se alastra pelo país. 

A ‘estratégia’ tem 3 páginas. Sendo que uma delas é a capa do documento. E o Ministério da Saúde de lá teve ajuda da Organização Mundial da Saúde para elaborar a estratégia, que conta com 8 hospitais e 80 centros de saúde.

A Organização Mundial da Saúde, por sua vez, além de ajudar o governo haitiano a escrever as três páginas de sua estratégia nacional, constatou o óbvio e alertou que a situação do país pode fazer com que a epidemia se torne ainda maior.

Mas não foi só isso. Também emitiu alguns comunicados, chamados de “Respostas”. O último deles informa que a Organização está estudando o vibrião que causa a doença no Haiti e que ele é similar a outro encontrado no sul da Ásia. Interessante…

E a Organização Panamericana da Saúde? Minha surpresa, ao acessar o site da organização para o Brasil, foi ver que há somente uma pequena notícia no canto inferior direito do site.

Em outros comunicados, a PAHO (Pan American Health Organization) detalha melhor o que está fazendo. Em resumo, contabilizando (ou divulgando através do site, pelo menos) os atingidos pela doença e dando suporte ao governo.

Mas o que essas organizações podem fazer além disso? Muito pouco! O papel delas se resume a pesquisa, acompanhamento em casos de surtos e a apoio aos países nestes casos. O que já é alguma coisa, diga-se de passagem. 

Então quem pode ajudar? Teoricamente, os países podem enviar dinheiro, remédios, mantimentos e pessoal capacitado para trabalhar nestes casos. O Brasil emitiu um comunicado convidando profissionais a prestar auxílio às vítimas. O Hospital Albert Einstein, por exemplo, atendeu ao pedido.

Mas há outras questões envolvidas do que tão somente depositar uma grana, enviar remédios ou comida. Como fazer a ajuda chegar, de fato, às vítimas? Num país com as mínimas condições de infraestrutura, pioradas pelo terremoto, não é nem uma questão de ‘malandragem’ ou corrupção (não que isso seja inexistente) a ajuda não chegar, é quase impossível, mesmo, conseguir uma logística adequada.

E como desgraça pouca é bobagem, como dizia minha avó, um furacão ainda atingiu o Haiti na semana passada. E agora?

Isso tudo sem nem falar nos problemas políticos que estão relacionados à ajuda humanitária internacional.

O fato, caros, é que não sabemos ainda como trazer ‘respostas’ concretas e coordenadas em nível internacional para casos como este do Haiti.


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O bilhete dourado

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Desde a década de 1970, a comunidade internacional criou frutíferos espaços de discussão sobre o modelo de desenvolvimento sobre o qual estávamos baseados. Pensando as esferas econômico, social, ambiental e mesmo cultural, afigurava-se um entendimento que as bases para a construção da bonança econômica de muitas regiões e países não era sustentável, e mais que isso, traziam uma perspectiva que sua continuidade não era exeqüível. Era premente, portanto, o surgimento de uma nova Era, assentada na sustentabilidade.  

Dessa maneira, formaram-se comitês, grupos de trabalho; aprovaram-se protocolos e convenções sobre a proteção ao Meio-Ambiente. Tal temática logrou até mesmo ser adotada como uma das vertentes da segurança internacional, à medida que poderiam desencadear querelas entre Estados ou mesmo inter-estatais. Antes de tudo, explorar recursos naturais em prol do desenvolvimento econômico passou a ser componente do Regime Internacional dos Direitos Humanos, parte integrante de nossa missão de garantir a dignidade humana sem desprover as próximas gerações das condições para seu pleno bem-estar.  

As empresas são parte fundamental da equação que todos tentam resolver. Em grande medida, corporações multilaterais ditam a definição de políticas públicas e a regulação a sua própria atuação. São mais poderosos que muitos Estados e suas instituições. A revolução proporcionada pela globalização tem como importantes agentes as empresas de presença ou alcance mundial. Viajando pelo mundo, uma pessoa encontrará a mesma rede de serviços de entrega, os mesmos restaurantes, as mesmas revistas e, em muitos casos, o mesmo padrão de consumo ou preferência de produtos.  

O modelo antigo de desenvolvimento, pautado na exploração de recursos não-renováveis, na despreocupação com o Meio-Ambiente e na falta de regulação estatal, continuava sendo amplamente questionado. Antes de mudar sua gestão, grandes corporações buscaram refúgios, ou seja, países que permitiam a continuidade de práticas não mais aceitas nos ditos países desenvolvidos. Aos olhos de consumidores exigentes – essencialmente europeus – tais empresas vendiam um modelo diferente do que realmente aplicavam. Ao mesmo tempo, desrespeitavam direitos trabalhistas, poluíam indiscriminadamente o Meio-Ambiente e não contribuíam para o desenvolvimento comunitário ou para a mitigação dos efeitos nefastos que criavam.  

Criaram-se os Objetivos do Milênio para os líderes mundiais. Logo, o setor privado viu formarem-se iniciativas que concerniam a suas atividades, tal como o Pacto Global, a ISO 26000 (que será publica em dezembro) e o fortalecimento do conceito de Responsabilidade Social Empresarial (RSE). Desde então, ter uma gestão ou práticas responsáveis passou a ser um ativo para a valorização de uma marca. Existem empresas que adotam de forma espontânea tais mecanismos, por acreditar que estes fariam seus processo mais eficientes e resultados mais efetivos. Por outro lado, para muitas outros setores corporativos a Responsabilidade Social Empresarial (considerando suas 7 áreas base) é uma somente estratégia de compatibilização com a nova e emergente onda de sustentabilidade. 

Segundo especialistas, a principal fortaleza da RSE é a voluntariedade de sua adoção. Há a obrigação de seguir a legislação ambiental e trabalhista, por exemplo, contudo não existe regulações para a interação com a comunidade e fornecedores, ou adoção do comércio justo, entre outras. Qualquer empresa pode escolher se quer avaliar (através de indicadores de institutos especializados) seu índice de Responsabilidade Social, para assim adotar novas técnicas de gestão para dirimir seus pontos débeis. Ter um certificado de empresa socialmente sustentável pode ser visto como um mero investimento, aumentando a atração da marca e consequentemente atraindo novos consumidores. Por tal razão, tal certificado não existe (a ISO 26000 não é “certificável”). O bilhete dourado, no final das contas, não é tão fácil de encontrar. Cada vez mais, as empresas falsamente responsáveis ou que utilizam tal conceito como ferramenta de marketing antes que de ações efetivas, serão desmascaradas.  


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Estômago vazio, oficina da penúria

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Fome: s.f. Necessidade de comer, causada pelas contrações do estômago vazio / Penúria, miséria, míngua de víveres.

Ao definir o conceito de “fome” de acordo com o dicionário, apresenta-se uma perspectiva que atinge a realidade de 500 milhões de pequenos agricultores no mundo. Esta afirmação de Olivier de Schutter, especialista da Organização das Nações Unidas (ONU) em direito à alimentação, permeou os noticiários recentes e pode promover reflexões.

Segundo Schutter, “30 milhões de hectares de terras cultiváveis são perdidos todos os anos para a especulação com terras, para a degradação ambiental e para conversão ao uso industrial ou urbano”. Esta quantidade de terras corresponde a “uma Itália (!) em áreas cultivadas”, o que se mostra assustador em qualquer análise, ainda que leiga, sobre a temática.

A combinação dos três fatores supracitados torna a problemática da fome extremamente grave no que tange as Relações Internacionais. Dificuldades em termos de degradação do Meio Ambiente (advindas ainda da necessidade de conscientização generalizada da população a respeito do assunto); consequências da especulação (notadamente por investidores estrangeiros interessados apenas na visão do lucro empresarial); e aspectos concernentes à urbanização (os quais desvalorizam, por assim, dizer, o campesinato e promovem o êxodo rural exacerbado que desestrutura as bases sociais) estão diretamente relacionados neste sentido – e justificam, por assim dizer, a conclusão apresentada pela ONU no dia de hoje, apresentando uma realidade entristecedora.

A fome no mundo deve ser analisada, neste contexto, a partir de uma perspectiva mais complexa do que a mera justificativa de “falta de alimentos” pode proporcionar em uma visão simplista (alguns aspectos para reflexão podem ser vistos aqui, por exemplo). É preciso se entender a amplitude dos interesses envolvidos para que a solução ao problema da fome venha a ser compartilhada efetivamente por todos os cidadãos em benefício de si próprios e de seus semelhantes.

A esperança existe, afinal, a própria Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) divulgou no mês passado estatísticas afirmando que o número de pessoas subnutridas no mundo teve em 2009 a primeira queda em 15 anos, apesar de a quantidade de pessoas nesta categoria ainda configurar um número assustadoramente alto. Espera-se que possamos, pois, reverter este quadro existente – proporcionando à sociedade, cada vez mais, condições necessárias à sua sobrevivência plena. Plenitude esta que certamente não envolve a perspectiva de penúria ou de contrações do estômago vazio…

[Update: Uma petição no sentido de mobilizar a população sobre a questão da fome está circulando na internet e será apresentada às Nações Unidas no próximo mês. Aos interessados, o link é: www.1billionhungry.org – participemos e divulguemos aos contatos!]


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Mantendo a promessa: os Objetivos do Milênio das Nações Unidas

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Há cerca de um mês, os líderes mundiais se reuniram em Nova York para avaliar o cumprimento dos ODM, assim como para corrigir as estratégias para o mesmo até o prazo estabelecido (2015). Antes do começo da conferência, Ban-ki Moon, o secretário-geral das Nações Unidas, destacou que muitos dos objetivos têm apresentado um progresso pouco significativo. Admitindo ainda, que a crise financeira impactou negativamente as políticas públicas nacionais e as estratégias internacionais para combater e mudar tal panorama.  

Aqui mesmo na Página Internacional, em um post do Giovanni, já tratamos da baixa efetividade do maior fórum no bojo da comunidade internacional para tratar das temáticas globais. Ao mesmo tempo, no entanto, são crescentes os espaços para debate formados por iniciativas da sociedade civil. O TEDxChange é mais um desses. Também em Nova York, foi organizado um evento para discutir as ODM e apresentar o testemunho de pessoas trabalhando para ajudar a aproximar o cumprimento destes objetivos da realidade. 

O professor sueco Hans Rosling tocou pontos importantes. Os objetivos do milênio seriam, em sua opinião, um marco importante em termos do compromisso internacional adotado. Vai, neste sentido, além da retórica e promessas vazias de valor, uma vez que estabelece objetivos mensuráveis a serem entregados em um determinado período de tempo. Mais que isso, representaria a consciência da necessidade de investir na sustentabilidade do planeta, evitando conseqüências ambientais ainda mais perversas do que as já vistas. Mortalidade infantil, saúde da mulher, planejamento familiar e acesso a educação para mulheres têm, para o professor sueco, uma grande vinculação com a sustentabilidade mencionada. Por outro lado, este é um investimento de longo prazo, mais que objetivos de 5 ou 10 anos. Muito do progresso demandado para países em desenvolvimento na atualidade, tomou décadas de investimentos para países atualmente desenvolvidos. 

Em seqüência, Melinda Gates, comparou o modelo de negócio bem sucedido da Coca-Cola com melhorias das condições de vida para a população de países pouco desenvolvidos. Por que a Coca-Cola pode ser encontrada em qualquer parte, desde os melhores restaurantes do mundo desenvolvido até no rincão de maior concentração de pobreza nos países menos desenvolvido? A resposta estaria baseada em inovação local, utilização de dados em tempo real e marketing. A mesma lógica, segundo a expositora, poderia ser aplicada aos ODM. Primeiro utilizando modelos de iniciativas criados a nível local, como forma de garantir maior aplicabilidade e relevância, tal como a utilização de dados em tempo real como forma de corrigir políticas antes que grandes relatórios e análises sejam elaborados por especialistas. O último ponto seria marketing, qual seja, assim como a Coca-Cola faz, levar a mensagem correta às comunidades para que iniciativas e projetos que os beneficie seja aceitos. Desta maneira, melhorias sociais podem ser mais efetivas e eficazes. 

Uma breve análise nos leva um entendimento. Não importa quão boa seja uma regulação, promessa ou compromisso. São os passos e medidas adotados para seu cumprimento que farão que haja sucesso ou fracasso. Por isso, a dependência dos líderes mundiais para a consubstanciação das ODM não deveria ser a única saída. Uma crise econômica pode ser suficiente para findar investimentos no desenvolvimento de países e comunidade pobres. Assim, são exatamente modelos locais auto-sustentadas e que geram e regeneram um impacto local que podem ser mais efetivos. No longo prazo, tais modelos diminuiriam a necessidade de investimento estrangeiro e financiaria mudanças reais em uma comunidade, não as efêmeras que muitos dos recursos advindos de países desenvolvidos geraram, por exemplo, em países africanos.  

Tudo isso me faz recordar a história contado por Irene Khan, secretária geral da Anistia Internacional, em uma palestra a qual tive acesso. A África do Sul, alguns anos atrás, criou uma das legislações mais progressistas do mundo para a proteção da mulher. Porém, Khan teve acesso a um relato sobre uma jovem mulher que vivia em uma favela de Johanesburgo. Esta jovem sofria constantemente com a violência de seu marido, até que chegou um dia que tal violência terminou ocasionando sua morte após um forte espancamento. Irene Khan, assim, concluía que a lei era extremamente boa, faltava pensar o acesso da mulher a seus mecanismos. A primeira sem a segunda pouco ou nada valia. O mesmo se aplica para as ODM. De compromissos e promessas estamos bem, faltam, muitas vezes, ações que validem e façam valer todos os documentos aprovados pelos países junto aos organismos das Nações Unidas. 


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O Timor Leste é um sucesso?

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Felizmente podemos dizer que sim. Qual seria a razão?

Mais um dos lugares esquecidos que aparecem de vez em quando, é considerado por muitos o caso de maior (senão o único) de sucesso de uma intervenção da ONU. Antiga colônia portuguesa, foi dominado pela Indonésia até 1999 quando lutou por sua independência e a conseguiu, porém o país restante estava praticamente desprovido da infraestrutura governamental e até mesmo do conhecimento operacional necessário para a gestão de um país.

Bem resumidamente, a ONU  sob a liderança do grande Sérgio Vieira de Melo (e de quem o seguiu) foi capaz de estabelecer processos mínimos de governança e construir a infra-estrutura necessária para que um dia o Timor possa andar com as próprias pernas e parar de depender da ajuda internacional. Mesmo após uma guerra civil fazer o país ter que recomeçar tudo mais uma vez, a missão continua com resultados expressivos, além de uma política de transição e gestão do conhecimento visando a saída da ONU.

Claro que ocorreram vários problemas e erros por parte das Nações Unidas (como não poderia deixar de ser…) mas pode-se dizer que o saldo é positivo. Mas porque o Timor deu certo se outros deram tão errado? Apresentarei alguns pontos, quem quiser contribuir com comentários está mais do que convidado!

Kosovo está na área vital para a produção energética europeia. O Haiti é assolado por desastres naturais, presença de tráfico de drogas, que é um dos crimes que o mundo não quer realmente combater. O Tibet – está dentro da China. Chade e Sudão ainda tem problemas étnicos, culturais, religiosos e políticos entre eles, minando qualquer grande sucesso das ações internacionais. Já o Timor Leste está na ponta da Indonésia, um dos quintais do “Ocidente”. Não tem expressivas jazidas minerais como o Oriente Médio muito menos é berço das grandes religiões mundiais. Ou seja, aos olhos de quem possui o poder, o Timor Leste pouco importa.

Em função da sua pequena importância estratégica, a ganância internacional não fincou lá suas garras tão fortemente, permitindo que aqueles que desejavam consertar a triste situação do país pudessem trabalhar da melhor forma possível. Além disso, as missões da ONU no Timor tinham e tem como característica a escuta atenciosa das demandas locais: se no Iraque os EUA enfiaram goela abaixo uma ideia de “democracia”, o Timor sempre foi consultado e suas particularidades levadas em questão. Contudo, isso não vem da burocracia estrita e clássica da ONU, mas sim das pessoas que lá trabalham. Para comprovar isso, ao invés de ter que exclusivamente garantir a segurança nacional, a UNMIT (atual missão da ONU no Timor Leste) possui como foco a estabilização política e a construção de estruturas governamentais capazes de gerir o país quando a ONU sair.

É esperançoso ver que mesmo após a guerra civil e as tentativas de assassinato, o Timor Leste continua sua longa e árdua caminhada rumo ao desenvolvimento e está cada vez mais próximo de uma – relativa – independência dos organismos internacionais. O triste é perceber que isso só é possível em função de sua pouca relevância…

PS: Gostaria de agradecer ao Diogo Souto Maior pela apresentação e conversa que inspirou esse post.


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Biodiversidade em questão

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“A soma de todos os diferentes tipos de organismos que habitam uma região tal como o planeta inteiro, o continente africano, a Bacia Amazônica, ou nossos quintais”. Esta é a definição que Andy Dobson nos oferece ao conceito de biodiversidade e que parece bastante completa.

Esta idéia, amplamente divulgada e compreendida sob diversos aspectos no mundo, tem representado o foco midiático da Organização das Nações Unidas (ONU) neste ano: 2010 foi proclamado o “Ano Internacional da Biodiversidade” por esta instituição para chamar a atenção aos problemas e desafios existentes neste sentido – seja no mundo, no ambiente interno de cada país, ou em nossas próprias residências.

Discutir questões ambientais nas Relações Internacionais certamente constitui um dos aspectos que, apesar de – teoricamente – representarem práticas consensuais de ação, na prática demonstram a urgência da demanda por ações coordenadas para proposições efetivas. Tal como os problemas, também as soluções ambientais devem ser transfronteiriças.

A proposta de promulgar “anos internacionais” constitui uma interessante estratégia da ONU para midiatizar questões específicas de forma a enriquecer a visibilidade e mobilizar os diferentes setores da sociedade em prol de uma causa específica. E, apesar de não parecer, vale ressaltar que a taxa de perda de espécies chega a cem vezes à da extinção natural e cresce exponencialmente…

No ano de 2002, houve uma Conferência das Partes (COP) para estabelecer metas a serem alcançadas em 2010. Oito anos se passaram e haverá mais uma COP da Biodiversidade no próximo mês para avaliar os resultados e entender o contexto atual nesta esfera. Diante de frustrações como aquela vivenciada por ocasião da Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas ao final do ano passado, talvez otimismo não seja exatamente o tom da discussão da realidade.

Quiçá será um dia. Ou assim esperemos, trabalhando para visualizar este futuro sobre o qual não podemos apenas teorizar, mas que deve ser construído diariamente em termos de sustentabilidade por meio de ações conjuntas no mundo. Ações estas que começam, é claro, pela mudança em nossos próprios quintais.


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65ª Assembléia Geral da ONU: entrada para raros, saída para raridades

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Há uma semana, deu-se início a 65ª Assembléia Geral da Organização das Nações Unidas (aqui), na qual entram os raros e da qual saem raridades. Não no sentido de Fernando Anitelli e sua trupe de “O Teatro Mágico”, transformando qualquer espetáculo num grande sarau, mas com nações e diferenças que devem dialogar em prol do mundo todo, sem lirismos nem fantasias. Ninguém coopera porque é bonzinho e ninguém guerreia porque é naturalmente mau, há interesses em jogo, que excedem os discursos poéticos e entremeiam o binômio realidade/transformação.

No novo milênio, os líderes e representantes de todas as nações do mundo lançaram os chamados Oito Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODM) e então se dedicaram a persecução de cada um deles até 2015. Esforço raro, notável e necessário. É também, como de práxis desde 2001, objeto de avaliação durante esta Assembléia. O tempo está encurtando e menos da metade dos países alcançarão essas metas audaciosas.

E a paz e segurança internacionais, objetivo primordial da Carta da Organização? Hoje, o Secretário-Geral, Ban Ki-Moon, abordou várias dimensões dos problemas para o cumprimento desse objetivo (aqui), bem como das iniciativas que se têm adotado, indo muito além da questão nuclear iraniana ou do secular conflito israel-palestino. É bem verdade que Ahmadinejad não poderia deixar de polemizar e atrair a atenção da mídia, por meio de idéias como “guerra ilimitada” ou “fim do capitalismo”. Mas suas declarações impactantes não devem parar por aí, porque na sexta é que se discutirá sobre o desarmamento.

Outro assunto caro para esta Assembléia Geral é a biodiversidade – não nos esqueçamos, este é o Ano Internacional da Biodiversidade, declarado pela ONU. Não faz muito tempo, Jeffrey Sachs, renomado economista norte-americano e idealizador dos ODM, declarou que era preciso mudar para sobrevivermos, o que inclui o aproveitamento responsável da biodiversidade, compatível também com o desenvolvimento humano. Aqueles que estão presente neste período de sessões estariam cientes disso? Saberiam como fazê-lo? Muitas vezes, até sabem, mas escrevem fórmulas que não ultrapassam os limites de uma resolução, declaração ou qualquer outro documento oficial.

Sempre o ceticismo ronda as Assembléias Gerais das Nações Unidas, caracterizadas como um espaço de encontro de cavalheiros de suas cortes nacionais para discutir o mundo de modo sofisticado – atualmente, há também ingresso para os representantes da sociedade civil organizada. Substituamos ceticismo por raridade. Entram os raros, um seleto grupo que responde por praticamente sete bilhões de pessoas. Saem decisões raras, que abrangem todo o conjunto de povos. As Nações Unidas ainda não estão à altura dos desafios vindouros do século XXI, conforme questionou Kofi Annan, ex-Secretário Geral da ONU, em 2000.


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Fim de temporada

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Estará chegando ao fim a novela mexicana que se tornou o programa nuclear iraniano? Se depender do tanto de reviravoltas que andam ocorrendo, parece que estamos lá pelos últimos capítulos. Indícios estão pipocando nessa semana.

Todos conhecem o caso da senhora Sakineh Mohammadi Ashtiani, condenada à morte por lapidação no Irã. Mais estranho que a declaração de Lula oferecendo asilo a ela no Brasil (após fazer vistas grossas a diversas violações e violadores de direitos humanos por aí e até mesmo dizer que devia-se respeitar a lei de cada país), foi a disposição de Teerã em considerar a proposta, algo impensável há alguns meses. Se vier a aceitar, certamente será uma cartada estratégica com a intenção de melhorar um pouco a imagem internacional do Irã.

Afinal, a coisa anda feia por aqueles lados – as sanções chegaram a todo vapor, da ONU e unilateralmente por parte de EUA e UE. Pra piorar, surgiu a notícia de que os EUA já teriam um plano de ataque pronto para completar seu tour de incursões militares na Ásia. Apesar dos desdobramentos negativos e pouca probabilidade de ação militar, é uma opção caso os outros meios de negociação falhem e Ahmadinejad sabe que não importa o quanto chantageie, os cowboys não tem medo de chegar atirando. Tanto que, aquele que há pouco tempo tresloucadamente dizia que o polvo Paul era o símbolo da decadência do Ocidente, já baixou a bola e chamou Obama para uma conversa.

Enquanto isso, seu governo se mostra aliviado pelo fato a AIEA dar sinais de querer retomar a negociação de troca de urânio com o Grupo de Viena, proposta por Turquia e Brasil-sil-sil. Parece que todas as partes envolvidas, fazendo suas pressões aos seus modos, dão sinal de querer voltar ao debate, o que aparentemente era inviável algumas semanas atrás. Uma hora a bravataria dá lugar ao bom senso, espera-se.


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Diplomacia unificada?

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Eu só acredito…

VENDO!


É, agora dá pra acreditar! – União Européia prepara um serviço diplomático unificado

Ou seja, agora existirão “Embaixadas Européias”, representantes oficiais da UE em diferentes países além das representações individuais de cada país-membro. Mesmo meio a cortes de gasto em diversos serviços diplomáticos, a União Européia mostra a que veio e dá mais um passo a sua evolução como Bloco. Claro que com uma boa e velha inchada no orçamento, daquelas que nunca faltam em projetos governamentais!

Além do mais, a turma do protecionismo conseguirá grandes avanços diplomáticos com essa iniciativa, junto com outras temáticas que todos os países concordam. Isso se conseguir contornar suas próprias controvérsias intra-bloco. Afinal,

Suíça diz: energias limpas?

França: Veja bem, tem outros assuntos a discutir, como a Guerra do Iraque!

Reino Unido: ahn… e Cuba?

Espanha: Cuba é amiga! Como a Turquia!

Grécia: Turquia é amiga de quem?

E assim vai. Por mais que vejamos posições unificadas no comércio, dificilmente veremos em assuntos polêmicos como política ou do papel do Estado na Economia. São países e interesses demais em jogo até mesmo para suas decisões internas, para protestar e negociar fica ainda mais difícil!

Outro problema será o de representação desse bloco, já que com certeza os países menores ou menos vocais se sentirão menos representados e darão chilique uma hora ou outra. E com isso, as manchetes de sempre: “Clima de desunião marcam Cúpula da UE” ou outras semelhantes. CLARO, é igual reunião do clube dos 13, eles podem querer que o futebol cresca mas sempre com o time deles na frente!

A foto é antiga mas a amizade continua!

“O espírito de cooperação internacional está perdido!” – Errado. Ele nunca realmente existiu, o pessoal só tolera seus vizinhos porque isso é o melhor pra eles. E não tem churrasco de bairro que conserte essas relações.

Controvérsias e polêmicas de lado, devemos nos inspirar nesses esforços de cooperação e torcer que um dia isso seja possível nos outros continentes. E aí Lula, como andam os avanços da Unasul?


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