Gerenciar riscos para evitar desastres

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Vanuatu

Um dos piores desastres socioambientais da história do Pacífico Sul atingiu o arquipélago de Vanuatu neste final de semana. Muitos de nós talvez nunca tenhamos ouvido falar de Vanuatu até hoje, mas trata-se de um país formado por cerca de oitenta ilhas na Oceania e que está absolutamente devastado após a ruidosa passagem do ciclone Pam.

Mapa Vanuatu

Com ventos de mais de 300 km/h, o impacto do desastre ainda está sendo avaliado, mas dezenas de vítimas fatais já são contabilizadas pelas Nações Unidas. Existe a certeza, contudo, de que é crítico o isolamento do país após a passagem do ciclone que afetou o fornecimento de energia elétrica, o acesso à água e aos alimentos, além de ter provocado destruição física das construções, principalmente na capital Port Vila.

A Cruz Vermelha da Nova Zelândia estima que mais de 100 mil pessoas tenham sido direta ou indiretamente afetadas pelo desastre, o que torna urgente o apoio humanitário à população local, liderado pelos vizinhos Austrália e Nova Zelândia no momento.

Desastres socioambientais são passíveis de acontecerem (e até previsíveis) em diversas regiões do mundo, o que faz parte de uma realidade que não podemos controlar. Contudo, o debate deve se voltar justamente à construção de resiliência principalmente nos locais mais vulneráveis para que o impacto possa ser reduzido ao máximo.

Coincidentemente, está acontecendo essa semana em Sendai, no Japão, a Terceira Conferência Mundial em Redução de Riscos de Desastres, coordenada pelas Nações Unidas e fruto de amplo diálogo com Governos, iniciativa privada e sociedade civil sobre o tema.

A importância do assunto é inegável já que as estatísticas demonstram que, desde 2005, mais de 700 mil pessoas morreram e cerca de 1,7 milhão de pessoas foram afetadas por desastres no mundo. No âmbito intergovernamental, o principal objetivo do encontro é aprovar um novo marco de ação, atualizando Quadro de Ação de Hyogo no contexto pós-2015.

Mais que gerenciar o desastre em si, a prioridade deve ser gerenciar os riscos de desastres, de acordo com o Escritório das Nações Unidas para a Redução de Risco de Desastres (UNISDR). De fato, situações de desastre como a que está sendo vivida em Vanuatu deixam clara a necessidade de prevenção e gestão de riscos para evitar ou, pelo menos, minimizar o impacto das catástrofes desse gênero na vida daqueles que mais sofrem suas consequências.


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A arte na guerra

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Chamou a atenção nessa semana a destruição de artefatos assírios no Iraque pelo grupo Estado Islâmico, em vídeos divulgados pela internet. Não tem como não lembrar de um caso semelhante (e um pouco mais explosivo) quando o Taleban dinamitou estátuas gigantes de Buda em Bamiyan, no Afeganistão em 2001. O ultraje da comunidade internacional pelo ocorrido, com a depredação de peças históricas de valor incalculável para a arqueologia fez inclusive que a Unesco pedisse uma reunião extraordinária no CS da ONU para buscar uma solução para a crise iraquiana (que desde a derrubada de Saddam Hussein vê inúmeros artefatos do berço da civilização desaparecerem de museus, destruídos ou pilhados para coleções particulares).

O nome desse fenômeno é iconoclastia, originalmente de acepção religiosa que basicamente significa a rejeição ao culto a imagens, dentro ou fora de seu “conjunto” cultural. E a versão mais conhecida atualmente é a do islamismo, que rejeita inclusiva e representação gráfica de seu fundador. No contexto religioso tem um caráter de afirmação da fé, mas ao mesmo tempo se reveste de um caráter politico (como quase sempre acontece com a religião, de qualquer modo).

Não é novidade alguma. Alguns dos grandes eventos da história recente, especialmente os ligados a fins de conflitos ou quedas de regimes tem aquela imagem clássica de uma estátua sendo derrubada e destruição de arte e imagens ligadas ao regime anterior. Não sem razão – o significado cultural e discursivo desse tipo de imagem é muito forte, e por isso recorrente. Por exemplo, antes de os russos verem as estátuas Lenin indo ao chão nos anos 90, já em 1917 os revolucionários haviam feito o mesmo com imagens da família do Czar.

Talvez a chave aqui seja o interesse cultural. É sabido que os nazistas, entre suas conquistas territoriais, tomavam obras de arte clássicas das regiões conquistadas (especialmente de judeus…) e buscavam criar um museu gigantesco de cultura europeia (enquanto arte “degenerada” como a moderna era destruída impiedosamente). Boa parte das obras que compõem a enorme coleção egípcia do Louvre vieram da conquista napoleônica do país africano. Quando há o interesse, a arte é preservada – e por vezes até mesmo buscada. Então no fim tudo se resume a cultura?

Pode ser política. Quando o Taleban destruiu os Budas, além do teor religioso da implosão houve a explicação oficial de que se tratava de um protesto contra as políticas e fundações ocidentais que repassavam mais dinheiro para a conservação das estátuas que para a população faminta do país. O ISIS é um grupo fundamentalista que assusta até a Al Qaeda, então certamente a explicação iconoclasta cabe como uma luva, mas podemos pensar em algo mais? Há um perigo em identificar o grupo com a alcunha de “Estado” por ser um recurso discursivo para reforçar sua intenção de legitimidade no sistema internacional. Destruir artigos assírios, considerados os “pais” do povo iraquiano, mais que atentar contra ídolos, deixa claro um sentido de ruptura com a cultura iraquiana tradicional. Não há espaço no califado para aquilo que não seja, essencialmente, islâmico, e o objetivo é a diferenciação do “outro”.  A preocupação com a cultura e preservação histórica é legítima, mas a destruição desses itens está muito mais próxima das decapitações e imolações que o noticiário deixa transparecer…


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Enquanto isso, no Afeganistão…

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Afeganistao

Enquanto a folia de Carnaval termina no Brasil, um relatório das Nações Unidas revela, em números, uma triste realidade que ainda aflige o Afeganistão. Ocorre que, durante o ano de 2014, foi registrado o mais alto número de civis mortos ou feridos em confrontos no país no comparativo dos últimos cinco anos.

No ano em que as tropas da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) encerraram oficialmente suas atividades no Afeganistão e os Estados Unidos iniciaram a retirada das suas tropas – após mais de uma década passada desde o fatídico 11 de setembro – os números revelam que o desafio da estabilidade persiste no país. [Confira o relatório completo aqui, em inglês.]

Segundo as Nações Unidas, por meio de sua Missão no Afeganistão (UNAMA, na sigla em inglês), o número de vítimas civis foi de 10.548 em 2014, dentre as quais estão registradas 3.699 mortes, 25% a mais que o ano anterior (2013).

Uma das razões apresentadas para justificar a alta cifra são os combates em solo, que envolvem armamento bélico em meio a grandes aglomerações, causando grande número de vítimas civis. Os talibãs são responsabilizados pela maior parte das casualidades, de acordo com o relatório.

A realidade demonstra que o Afeganistão, após tantos anos de intervenção da comunidade internacional (especialmente dos Estados Unidos), ainda vive uma situação de precariedade institucional, com inúmeras dificuldades que se refletem na vida da população civil. Os civis ainda se encontram em situação de extrema vulnerabilidade, em meio a uma fase de transição do país em que as responsabilidades parecem não estar claras, de modo que os maiores prejudicados são aqueles que menos vínculos possuem com as (já históricas) hostilidades políticas afegãs…


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E que venha 2015…

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Never give up

Em sua essência, a palavra “Natal” nos remete à ideia nascimento, vida. Nesta véspera de uma data tão simbólica, vale uma reflexão justamente sobre as vidas ceifadas ou prejudicadas durante o ano de 2014 devido a crises humanitárias, nas mais diversas localidades, vítimas das mais diversas tragédias. Tragédias estas que, advindas notadamente de desastres socioambientais ou conflitos políticos, possuem como consequência comum o custo humano envolvido. As cifras de mortos, feridos, refugiados, deslocados atingem níveis alarmantes e elevam as necessidades de financiamento de organizações humanitárias a montantes nunca antes vistos na história.

No início de dezembro, a Organização das Nações Unidas (ONU) lançou um apelo para 2015 no valor de aproximados 16 bilhões de dólares, em benefício de pelo menos 57 milhões de pessoas que se encontram em situação de extrema vulnerabilidade (veja o apelo aqui).

Algumas crises podem ser destacadas pela sua gravidade e seu enorme impacto social no ano de 2014, dentre as quais a crise na Síria, que completa quase quatro anos e devido à qual praticamente dois terços de toda a população do país se encontra em situação de necessidade de assistência humanitária. Os milhões de refugiados, principalmente nos países vizinhos, mas também pelo mundo afora (inclusive no Brasil), deixam claro que o problema não se restringe apenas à realidade síria, mas já alcançou níveis regionais e globais de intensa preocupação.

A persistente crise entre Israel e Palestina, cuja amplitude constitui um dos maiores impasses internacionais das últimas décadas, ocasionou um dos mais sangrentos combates na Faixa de Gaza esse ano: durante 50 dias, as notícias de bombardeios, vítimas e refugiados, notadamente palestinos, foram diárias. A trégua atual, infelizmente, ainda não traz uma perspectiva duradoura de solução para o conflito.

Também alcançando nível global, a crise humanitária na África Ocidental advinda do surto epidêmico do vírus Ebola tem demonstrado claramente a incapacidade internacional em lidar com uma emergência de saúde pública deste porte. Com quase 20 mil pessoas infectadas e 7 mil mortos segundo as últimas estimativas oficiais, o impacto da crise – principalmente nos países mais afetados (Guiné, Libéria e Serra Leoa) – foi subestimado por um período muito longo de tempo até que medidas condizentes com as necessidades começassem a ser tomadas.

A República Centro-Africana, o Sudão do Sul e o Iraque, países fragilizados e com conturbado histórico de conflito político integram a lista de crises cuja gravidade é visível, porém que se prolongam indefinidamente, já que a solução envolve um complexo jogo de poder e interesses em que o custo humano não se enquadra como uma das variáveis. A Ucrânia, país europeu, também integra a lista e sofre hoje uma situação de crise de destacadas proporções.

As secas no Chifre da África, notadamente na Somália, bem como na América Central (Guatemala, El Salvador, Honduras), trazem à tona o tema da insegurança alimentar e nutricional em contextos de impossibilidade de produção local de alimentos. As crianças, que constituem um dos grupos mais vulneráveis nas sociedades, se veem destacadamente afetadas, com índices de má-nutrição que alcançam tristes recordes.

Segundo o Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), 2014 foi um ano “devastador” para as crianças. A estimativa é de que 230 milhões de crianças vivam atualmente em áreas de conflitos armados, sendo que aproximadamente 15 milhões estão sofrendo consequências diretas nas principais crises mencionadas.

Com perspectivas tão “sombrias” para o ano vindouro no que se refere às crises humanitárias, celebrar a vida parece uma realidade ainda muito distante para milhões de pessoas no mundo, infelizmente. Esperemos que 2015 possa contrariar as expectativas negativas e trazer consigo esperança: esperança de que novos caminhos para o diálogo e para a cooperação internacional se abram e de que a paz se torne, mais que um desejo, uma realidade…


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Ambiente inóspito

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Quem navega a internet sabe que a Austrália é famosa pela fauna bizarra e letal, inglês com sotaque e gírias indecifráveis e por usarem as cores do Brasil nos esportes apesar de sua bandeira ser azul e vermelha. Nesta semana, o país vem ao noticiário com notícias bem chamativas – e polêmicas.

Primeiro, foi o primeiro país a fechar oficialmente as portas a cidadãos do oeste africano afetados pela epidemia de ebola. A medida, com a intenção de evitar o contágio do vírus no país, é polêmica pois vai contra instruções da própria OMS (Organização Mundial de Saúde) e os fatos – apesar do pânico, o número de pessoas infectadas fora da África não chega a uma dezena. A paranoia deu certo (como mostrou bem o caso suspeito que mobilizou o Brasil há umas duas semanas), e quase todos os países estão tomando medidas preventivas e de isolamento satisfatórias quando há suspeitas. A chance de uma epidemia em outros continentes é remota. E negar vistos é considerada uma atitude grave no cenário internacional – claro que os países podem escolher quem pode ou não entrar, mas na maioria, desde que tenha o visto, a circulação de pessoas é livre. Negar esse direito equivale à privação de um direito universal, e definitivamente não é uma medida que ajuda na luta contra a epidemia, pois significa que o envio de pessoal australiano para ajudar nas áreas afetadas (onde números oficiais contam mais de 5 mil mortos mas estimativas chegam a quatro vezes mais) também fica proibido.

Segundo, o país está endurecendo leis contra terrorismo. Pode parecer uma coisa positiva, mas a exemplo do Ato Patriota de Bush há acusações de ser uma justificativa para ameaçar direitos civis, discriminar indivíduos de religiões específicas e “imunidade civil” para agentes da lei – o que poderia liberar geral, por exemplo, a prática de tortura, à sombra do Estado. Desnecessário dizer que isso revoltou defensores de direitos civis e organizações islâmicas pelo mundo. Isso vem no momento em que a Austrália se junta à coalizão internacional contra o ISIS, e a medida que tem como objetivo “proteger” o país pode ter o efeito oposto, trazendo atenção internacional e ódio daqueles a que se dirige. Basta ver o que aconteceu no Canadá semana passada para entender que não é nada impossível uma ação desta natureza em um país aparentemente pacífico e longe da carnificina do Oriente Médio.

Essas duas notícias mostram um pouco de intransigência – o governo conservador do premiê Tony Abbott mostra claramente que, em momentos de crise, uma guinada conservadora pode ser a medida considerada mais segura pelos governos para preservar sua integridade. Porém, os resultados são os mais adversos possíveis.


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Aniversariante da semana

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ONU

24 de outubro de 1945 é o dia oficial de nascimento da Organização das Nações Unidas (ONU) e, portanto, na última sexta-feira celebramos seu 69º aniversário. Isto significa que há quase 70 anos entrou em vigor a Carta da ONU, em que “os povos das Nações Unidas” declaram seus compromissos diante dos princípios, da estrutura e dos objetivos da organização.

Ban Ki-moon iniciou sua mensagem oficial esse ano dizendo que a ONU é mais necessária que nunca no momento atual. De fato, em tempos tão críticos em que o mundo se defronta com desafios que vão desde uma assustadora epidemia de Ebola até históricos conflitos políticos como Gaza, uma estrutura que favoreça o diálogo internacional e impulsione esforços multilaterais se faz imprescindível.

Entretanto, nem tudo são flores e a teoria da luta por esforços compartilhados se distancia da prática de defesa de interesses individuais que tende a prevalecer. Inegável sendo que o papel da ONU é extremamente importante, imprescindível é reconhecer a necessidade de reforma de sua estrutura.

O tradicional Conselho de Segurança com o poder de veto – e, portanto, de determinação da agenda propositiva – restrito a Estados Unidos, Rússia, China, França e Reino Unido nos faz acreditar que não estamos em 2014, e sim em 1945…

Celebrar é importante e a existência da ONU foi determinante nas últimas décadas para o delineamento das pautas e decisões multilaterais entre os seus 193 países-membros. A comunidade internacional, nos mais variados espaços onusianos destinados a temas políticos, econômicos, sociais, ambientais, etc., pode se posicionar e debater os assuntos que, cada dia mais, se tornam transfronteiriços.

Às vésperas do ano em que celebraremos seu 70º aniversário, contudo, vale a reflexão sobre como tornar essa estrutura única mais eficiente e menos demagógica, alcançando na prática o seu propósito essencial de garantir a paz e a segurança internacionais


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Há um ano...

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Há um ano

Há um ano, três assuntos principais eram destaque na nossa Página Internacional.

Um dos assuntos envolvia a possibilidade de que o mundo presenciasse, pela primeira vez, um “calote histórico” da dívida pública nos Estados Unidos, pois o Tesouro estava à beira de um colapso, sem acordo e sem recursos para cumprir seus pagamentos ao mercado financeiro. Aos 45 minutos do segundo tempo, na data limite, o acordo passou pelo Congresso estadunidense e foi assinado por Obama, evitando o default do país. Apesar disso, o abalo econômico foi expressivo; e democratas e republicanos seguem no embate que envolve principalmente a reforma de saúde do governo democrata (“Obamacare”), ainda profundamente criticada pela oposição

Outro tema à época envolvia o Prêmio Nobel da Paz, cuja subjetividade leva à premiação de Obama (2009) ou União Europeia (2012)… se no ano passado a aposta na menina paquistanesa Malala foi frustrada com o prêmio sendo destinado à Organização para a Proibição de Armas Químicas (Opaq), em 2014 o comitê organizador, com um pouco de atraso, agraciou Malala Yusafzai, juntamente com o ativista indiano Kailash Satyarthi. Malala, com o seu grande exemplo, apesar de seus apenas 17 anos, se tornou a pessoa mais jovem a ganhar um Prêmio Nobel na história.

Por fim, há um ano o que chamou a atenção mundial foi o anúncio de que a Organização das Nações Unidas (ONU) está sendo processada (!) pela população do Haiti, por meio do Instituto para a Justiça e democracia no Haiti (IJDH), devido à epidemia de cólera que se alastrou no país em 2010 por meio por integrantes das tropas de paz da ONU vindos do Nepal em missão ao Haiti. A doença havia sido erradicada no país há mais de um século, porém, desde 2010, mais de 700.000 pessoas foram infectadas, com mais de 8.500 casos fatais.

Dada a peculiaridade do tema, o assunto se reveste de um teor político sensível, pois as vítimas de cólera não foram compensadas e a ONU, por sua própria natureza, possui teoricamente imunidade internacional. Contudo, o tema segue em aberto e há poucos dias um juiz de Nova York decretou audiçõespara este mês durante as quais será discutido se a ONU pode ou não responder em tribunal neste tipo de situação. A ver se, em um ano, o assunto já terá sido resolvido nas instâncias correspondentes…

Postando e relembrando, este é o “Há um ano…” na nossa Página Internacional!


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Peregrinação

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Religiosos do mundo todo realizam viagens a lugares místicos ou sagrados para seu credo com a intenção de se aproximar da respectiva divindade, cumprir alguma penitência ou simplesmente fazer turismo. Nos últimos dias a presidente da Argentina, Cristina Kirchner, perfaz seu calvário em busca da solução para o poço de problemas financeiros que se tornou seu país.

Primeiramente, um encontro com o papa Francisco no sábado. Após a troca de presentes (incluindo uma pintura da onipresente Evita, de modo irônico a resgatar a fonte inicial dos problemas platinos, a praga do peronismo) ficou claro que, apesar das rusgas no passado, o papa demonstra apoio à presidente em suas reivindicações com esta oportuna passagem pelo Vaticano. Como visto há algumas semanas, a Argentina tenta em vão pagar sua dívida com credores internacionais, que impediram o repasse dos recursos por discordarem do valor dos juros. Talvez, mais que o apoio do “soft power” eclesial, Cristina precise de um milagre para dobrar Paul Singer, o líder dos credores.

Daí vem a segunda parte da sua peregrinação – em Nova Iorque, onde se prepara para a Assembleia Geral da ONU daqui a dois dias, Cristina teve reunião hoje com George Soros. Outrora um dos “vilões” da economia internacional (e apontado por muita gente como culpado pela crise asiática de 1997) o megainvestidor tem muito interesse na solução do impasse, já que é um dos credores favorável ao pagamento. Sua intercessão no “clube dos magnatas” pode vir a ser bem mais oportuna para a solução dos problemas de Cristina.

Porém, de nada adianta resolver a questão das contas quando permanece a crise doméstica. Há quatro dias foi aprovada (na verdade “ressuscitada”) uma lei que controla preços e taxas de lucro, semelhante a uma implantada na Venezuela no começo do ano. A tentativa desesperada de conter a inflação galopante (na casa de 40%) a expensas do setor privado pode resultar, assim como no país bolivariano, em desabastecimento e mercado negro. Mas isso não abala a presidente, que tem entre seus planos a inusitada (apesar da não inédita) ideia de mudar a capital de Buenos Aires para a pacata Santiago del Estero, no noroeste do país, com menos de 300 mil habitantes e longe de tudo – inclusive dos protestos. Afinal, se a ideia deu certo no Brasil, por que não? A cada dia o noticiário mostra que, com tais políticas, cada vez mais um milagre seja necessário dentro da Casa Rosada.


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O Estado da Insegurança Alimentar no Mundo

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Fome no mundo

Que a fome é um dos mais graves problemas sociais no mundo ninguém desconhece, mas não deixa de ser assustadora a estimativa de que, ainda nos dias de hoje, uma em cada nove pessoas no planeta sofre de fome crônica, totalizando aproximadamente 805 milhões de indivíduos em tal situação.

O dado foi divulgado essa semana com o lançamento do relatório “O Estado da Insegurança Alimentar no Mundo” (SOFI 2014, na sigla em inglês), por parte da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), em conjunto com o Programa Mundial de Alimentos (PMA) e o Fundo Internacional para o Desenvolvimento Agrícola (FIDA).

As agências romanas, que lidam mais diretamente com o tema da alimentação no sistema das Nações Unidas, publicizaram as últimas tendências no que se refere ao combate à insegurança alimentar e nutricional. Apesar de os números ainda demonstrarem que grandes esforços internacionais ainda são necessários na luta contra a fome, as perspectivas não deixam de ser positivas.

Na última década, cerca de 100 milhões de pessoas deixaram de passar fome, em um percentual mundial que baixou de 18,7% para 11,3%, segundo os dados do relatório. Nos países em desenvolvimento, a diminuição é ainda mais expressiva, caindo de 23,4% para 13,5%. Lembrando que a redução pela metade da fome no mundo se enquadra no primeiro dos “Objetivos do Milênio” até 2015, meta já alcançada por 65 países em desenvolvimento no mundo, dentre os quais se encontra o Brasil.

O estudo do caso brasileiro demonstra que os esforços empreendidos notadamente a partir do Programa “Fome Zero” têm garantido bons resultados e uma redução de 75% da pobreza extrema no país entre 2001 e 2012. Entretanto, dadas as proporções continentais de nosso país, o número de pessoas que permanece em situação de fome ainda é representativo: cerca de 16 milhões de pessoas (8,4% da população brasileira) – o que representa, por exemplo, o total de habitantes de Portugal e Finlândia somados…

O problema da fome tem solução, isto é fato. Engano é apenas pensar que se trata simplesmente de uma questão de doação de alimentos – pelo contrário, a fome representa um problema complexo que requer ações múltiplas e coordenadas em seu combate. O acesso aos alimentos deve ser viabilizado em consonância com o acesso à terra, a serviços públicos de qualidade, à tecnologia, etc. – um esforço integrado que viabilize a consecução do direito humano à alimentação adequada para a totalidade dos cidadãos do planeta.

[No site da FAO podem ser encontradas maiores informações sobre o tema: http://www.fao.org/publications/sofi/en/]


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O “sim” da discórdia?

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Quem assistiu o filme “Coração Valente” de 1996 deve achar que a relação entre Escócia e Inglaterra não seja das melhores. De fato, em alguns momentos predomina o atrito, mas na média a cooperação entre esses dois países sempre foi a regra (e benéfica para ambos). Tanto que a Escócia é, ainda hoje, membro do Reino Unido, tendo governo próprio e podendo mandar time para disputar a Copa do Mundo, mas com a Rainha da Inglaterra como chefe de Estado e mandando seus atletas para as Olimpíadas junto com ingleses, galeses e norte-irlandeses. Isso pode estar com os dias contados.

Pesquisas recentes mostram que o movimento separatista ganha força e a ideia de uma Escócia independente no sistema internacional é uma realidade plausível. Nesta quinta-feira ocorrerá uma consulta popular de resultado imprevisível já que pela primeira vez na história uma sondagem favorável à separação (ou o grupo do “yes”) mostrou um resultado vitorioso, mesmo que pela margem mínima de 51%.

O que significaria uma Escócia independente? Em termos políticos, apesar da extinção do Reino Unido como o conhecemos hoje, as mudanças seriam poucas, mas em termos econômicos, isso pode abalar a estabilidade dos dois lados. Como membro do Reino Unido, a Escócia faz parte da União Europeia e mantém a Libra como moeda oficial. Se tornando independente, essas duas situações podem ser comprometidas já que a Escócia não estará mais ligada ao Banco da Inglaterra (o BC deles), e tecnicamente precisaria cumprir todas as condições para ingressar na UE já que estaria surgindo como um novo Estado, e isso é algo difícil na atual conjuntura econômica. Do lado inglês, a saída da Escócia significa uma fratura territorial (quase um terço do território) e populacional significativa.

Então por que está acontecendo esse movimento? Afinal, parece que as consequências serão majoritariamente negativas. A razão disso tudo está um pouco no nacionalismo, um pouco na economia. Os escoceses rejeitam duramente os partidos ingleses e as políticas tomadas na última década, além de assumirem um perfil mais alinhado aos países europeus continentais com políticas de bem estar social. A crise econômica enfrentada pelo país é vista como consequência dessas políticas, e com isso cresce o movimento de insatisfação. Ao mesmo tempo, os “unionistas” preferem continuar nessa condição ao afirmar que a saída do Reino Unido piorará a situação com fuga de capitais e bancos – o maior banco da Escócia já avisou que mudará para Londres caso o referendo de separação seja aprovado.

Tudo indica uma situação de completa incerteza – as porcentagens não são definitivas e tanto o “yes” quanto o “no” podem vencer; a Escócia está saindo entre outros motivos por temer a saída do Reino Unido do Euro mas pode não ter condições de ingressar por conta própria no bloco; a crise econômica, principal fator de incentivo à secessão, pode ser agravada. Com isso, a única certeza é que com movimentos mais expressivos como a Catalunha, os Bascos, a rixa na Bélgica e a crise na ucrânia, seja o Reino Unido, uma das uniões mais estáveis e duradouras do sistema internacional, que esteja sob o risco mais concreto de se fragmentar.


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