Ota Benga e "Vem Sean Penn"

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A maioria dos que lerem este post certamente terá nascido no fim do século XX, provavelmente dos anos 80 em diante. Estarão mais do que familiarizados com a ideia de que o mundo está vivendo grandes mudanças, cada vez mais velozes. Em nosso próprio cotidiano, nas propagandas que vemos ou lemos, sempre há o anuncio de algo novo, ainda mais quando falamos em tecnologia. De forma geral, foi no século XX que as alterações pisaram no acelerador. Mudanças por vezes tão radicais, que não conseguimos enxergar como eram certas coisas anteriormente ao nosso tempo. Quero mostrar, por meio de dois exemplos, os impactos do século passado no comportamento humano.

As duas fotos do início do texto representam pessoas comuns, sem significado histórico. A primeira delas é de Ota Benga, um Pigmeu aprisionado no Congo Belga em 1904, e levado dois anos depois a um zoológico Humano nos Estados Unidos. “Zoológico Humano” é um termo que pode soar estranho a maioria, mas era um tanto comum a existência de um local onde pessoas consideradas “menos desenvolvidas” eram expostas como animais, na maioria das vezes para cientistas, aristocratas e curiosos. Visitavam os zoos uma nata dos mais abonados cidadãos dos países ricos. O costume era apenas um dos prenúncios do que ocorreria no primeiro quarto do século passado: o aumento do poder da teoria cientifica do Racismo e da Eugenia.

A década de 20 e de 30 não tardaria a expor a força de tais grupos. Órgãos políticos e científicos internacionais surgiram sob as asas dessas teorias. Entre as ciências que inicialmente caminharam juntas com os Racistas está a Demografia, que havia acabado de nascer. Fácil foi para esses grupos enxergarem no Nazismo a possibilidade de porem em prática o que achavam correto. Logo, o mundo receberia sua primeira versão moderna de inserção, a visão de um ser humano universal. Por incrível que pareça, uma das bandeiras do Nazismo era a universalidade. Porém, isso só seria alcançado se as pessoas de “Raças” menos desenvolvidas e deficientes físicos e mentais fossem caçados, quando não, exterminados.

A ascensão e a queda do Nazismo foi também a demonstração real das consequências de uma sociedade Eugênica e Racista. O fim da Segunda Grande Guerra também marcou a fundação de órgãos como a ONU e a refundação de tantos outros, antes sedimentados no Racismo. As mudanças no mundo foram muito além do surgimento de novas instituições. Também houve uma mudança comportamental das sociedades e de seus grandes líderes. A inserção de valores humanitários se transformou em uma bandeira mundial, defendida no campo da política internacional. Assim, o combate ao Racismo, o respeito aos deficientes e até mesmo o combate de ideias nocivas atuais, como os que querem a utilização de métodos contraceptivos forçados em pessoas de países pobres, tem forte oposição. A “tolerância” se transformou em tema central das discussões políticas internacionais, sendo recorrente no discurso de líderes e instituições de todos os tipos.

Assim, chegamos ao século XXI, no qual entre tantos outros exemplos, está o de Ariel Goldenberg, ator brasileiro com Síndrome de Down. Durante as últimas semanas se transformou em celebridade, enquanto buscava a realização do sonho de conhecer o ator americano “Sean Penn”. Como veem, Ariel é uma pessoa bastante comum, com sonhos bastante comuns. As notícias que seu nome aparece fazem partes dos sites de celebridades e de fofocas. Mas mesmo assim, o exemplo dele pode ser usado como reforço de que cada dia os esforços políticos e da sociedade fazem com que quebremos o preconceito ao que classificamos como diferentes. Algo que para alguns pode ser bastante comum, mas olhando para apenas cem anos atrás vemos o salto do comportamento humano sobre o tema.  Ariel e Ota Benga, o presente e o passado. Entre eles a história, que nos faz compreender a dimensão das mudanças humanas no último século, muito além da tecnologia.


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O ápice da miséria

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“É preciso estudar as misérias dos homens, 

incluindo entre essas misérias as ideias que eles têm

 quanto aos meios para combatê-las. “

A Vontade de Poder – F. Nietzsche

Procurando em qualquer dicionário, a miséria significa falta de recursos, penúria, pobreza, estado indigno e vergonhoso, falta de necessidade à vida. E não por menos Victor Hugo escreveu Les Misérables e retratou grande parte dessas características nos cinco volumes da extensa obra. Para quem já leu o livro ou assistiu ao musical lançado em 2012, logo reconhece as figuras de Fantine e Cosette, mãe e filha retratadas em inúmeras passagens como símbolo da pobreza miserável. É uma carência econômica e sentimental, mas em nenhum ponto moral. Até o personagem central, Jean Valjean, retrata este ponto com maestria: condenado por roubar um pão, passou dezenove anos na prisão e depois se reergueu, alcançando o posto de dono de fábrica e prefeito. 

A miséria no sentido de falta de recursos é dolorida. Dói ver as carências e as necessidades das pessoas que não estão lá por livre e espontânea vontade. Todavia, nada se compara à miséria de ideais. É dela que vem a intolerância, o “pó embaixo do tapete”, o “lobo em pele de cordeiro”. E, neste caso, a pele figura-se como muitas outras: um belo terno e uma gravata para passar na porta sem ser barrado por quaisquer seguranças. 

É assim que se transpassa o enredo de “Os Miseráveis” para a atual conjuntura da Comissão de Direitos Humanos e Minorias (CDHM) da Câmara dos Deputados. Não é uma pobreza financeira, muito pelo contrário, mas uma pobreza de respeito ao outro, o qual ainda é muito visto como “o diferente”. Na verdade não é, mas para a grande massa “impensante” do Brasil acaba sendo. O ódio acaba nascendo em virtude do olhar sorrateiro, daquele que vê com repulsa, mas vira o rosto quando é percebido. 

Não se pode generalizar em momento algum. Não se trata de uma miséria da CDHM como um todo, e sim somente de um pequeno grupo que deve estar presente. Todavia não deve mandar e desmandar nas diretrizes propostas pela comissão. Como já é sabido por grande maioria, o Deputado Domingos Dutra (PT-MA) renunciou ao posto de presidente da comissão no dia 07 do presente mês promovendo um discurso no qual chamou de farsa e ditadura o que viria a acontecer dali pra frente. 

Fonte: camaraempauta.com.br

Entrou em cena o “homem da vez”: o Deputado vulgo Pastor ou Pastor vulgo Deputado Marco Feliciano (PSC-SP) (foto), declaradamente homofóbico e racista. Disse, no Twitter, que os africanos são descendentes de ancestrais amaldiçoados por Noé. Totalmente contraditório com o que está escrito na página inicial do seu partido, o Social Cristão. “O ser humano em primeiro lugar”, é a grafia oficial da organização. 

Como consequência da indicação de Marco Feliciano, uma série de protestos da sociedade civil e dos próprios deputados tomou proporções gigantescas. Logo na primeira sessão comandada pelo pastor, houve confusão generalizada e até o Deputado Jair Bolsonaro, sempre polêmico e intransigente, estava lá apoiando o novo presidente.

O caso da CDHM é apenas o ápice de um problema bem maior, cujas raízes estão fincadas no alto grau de ligação entre política e religião no Brasil. Teoricamente, o Estado é laico, ou seja, neutro em questões religiosas. Entretanto, na prática o que acontece é o oposto: há, inclusive, casos de reuniões evangélicas na própria Câmara entre os deputados. Se isso contraria a Constituição e deixa de abranger inúmeros outros credos e ideais, é, no mínimo, miserável no sentido de não ter valor. 

Fica-se, portanto, o recado dado. Não se trata de um pastor, uma religião, um partido. Trata-se de um movimento maior e não democrático. Um movimento extremamente conservador e ortodoxo em sua essência, o qual, por conseguinte, barra o avanço da democracia brasileira. Pode ser evangélico, católico, testemunha de Jeová ou qualquer credo, isso independe do cerne da questão. O episódio da CDHM é o ápice da miséria partidária e política que vivenciamos. O Estado deve ser laico e ponto! Caso contrário, os direitos jamais serão humanos e nunca haverá democracia no sentido mais puro da palavra. Continuará imperando até o que denominaram de “Jesuscracia”. Pode não ser verdade e seria engraçado se não fosse trágico.


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Sua Santidade, o Papa?

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Hoje foi iniciado o Conclave, espécie de reunião e ritual que sempre define o novo Papa. Como de costume, há uma grande cobertura midiática sobre o evento e há uma multidão acampada na Praça de São Pedro que o acompanha ao vivo. Mesmo com o abrandamento da influência da igreja Católica no mundo, a escolha do próximo líder religioso e chefe de Estado do Vaticano ainda é assunto dos mais importantes. 

O interesse pelo conclave foi aumentado pela renúncia do atual Papa Bento XVI. Durante mais de 600 anos, apenas a morte havia sido capaz de destronar os eleitos ao cargo. O fato ganha ainda mais repercussão pela série de denúncias contra a igreja Católica, que podem ter influenciado na decisão de deixar o cargo. As causas de sua desistência ainda fogem ao conhecimento do público e, ao que parece, as suas motivações serão um mistério nunca revelado, alimentado apenas por teorias que mesmo somadas não serão capazes de elucidar toda a realidade. Mesmo assim, o acontecimento torna ainda mais visível as manchas causadas pelos erros de alguns membros da Igreja, denunciados por meio da imprensa e do vazamento de documentos secretos do Vaticano

Os casos denunciados, a maioria de pedofilia e corrupção estão longe de serem os maiores escândalos da história da Igreja. Manchas como a condescendência em relação à escravidão negra, a perseguição de outras crenças nas Inquisições ou o apoio regional ao Nazismo e outros modelos políticos catastróficos estão entre os erros maiores durante sua história, reconhecidos muitas vezes por seus próprios lideres. 

Evidente que todas as instituições estão sujeitas aos erros de seus membros. A religião não foge á regra. O problema é que a Igreja não soube lidar ainda com a transição entre instituição inatingível até alvo fácil das mais variadas críticas e acusações. Aliás, todas as dificuldades atuais da igreja só são aumentadas pela falta de capacidade em admitir a sua face humana. Tentativas forçadas de acobertar crimes de padres, denúncias de corrupção e de desrespeito à crença do celibato pioraram ainda mais os casos que vieram ao conhecimento popular. A Igreja não consegue lidar com a sua perda de poder, a limitação que agora a atinge. 

A queda do número de fiéis também parece um fenômeno bastante explicável em relação a falta de novas maneiras de atração a religião. Durante décadas, a massificação de sociedades inteiras como seguidoras da mesma fé foram sustentadas pelos papéis exercidos pelo Estado, a Família, a Escola e da própria Igreja, os antes tradicionais Aparelhos Ideológicos. O mundo moderno é exatamente o oposto, é o da pulverização desse tipo de controle de identidades. O presente chega a transformar o Conclave em espetáculo midiático e os segredos dos corredores do Vaticano em espaço para um reality show de espionagem e denúncias. 

A falha de Bento XVI quanto ao diálogo bem sucedido entre Igreja e sociedade também são claros. A sua defesa ao sexo apenas para reprodução, o não uso de métodos anticoncepcionais ou a abstinência sexual antes do casamento foram tratados pela maioria com revolta ou indiferença. Isso apenas para citar a decadência do poder papal em influenciar a sexualidade das pessoas. A igreja Católica ainda busca transmitir uma solidez anacrônica, para a maioria inaceitável. Enquanto isso, o restante de sua influência ideológica patina, quase desaparece, restando apenas seu ainda vasto poder político e financeiro, a maioria de origem tão obscura quanto as denúncias que pipocam na imprensa. Mais obscuro ainda é o futuro da Igreja como formadora dos valores morais e éticos ocidentais.

Os desafios do próximo chefe de Estado do Vaticano e líder da maior religião do mundo são muito maiores do que aparar arestas das denúncias e crises da igreja Católica. Na verdade, ele terá que provar que sua instituição consegue se inserir e sobreviver à nova realidade mundial, muito mais hostil aos seus interesses e regras, e ainda por cima sem o poder gigantesco que no passado justificaram os seus malfeitos.


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Culpado ou inocente?

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Fonte: operamundi.uol.com.br

“Nós nascemos iguais…”. Essa frase, dita assim, resume algumas ideias de Alexis de Tocqueville e se remete diretamente a um pensamento histórico norte-americano. Estou falando da chamada Tradição Liberal. Para os estudiosos de Política Externa dos Estados Unidos, tal corrente é algo já há muito sabido. A velha máxima de “Liberdade, Igualdade e Fraternidade” conhecida por muitos faz parte de um movimento mais amplo, mas fácil de entender. É o Excepcionalismo Americano, cujas ideias se resumem da seguinte forma: os EUA são um país diferente de qualquer outro do mundo. Lá, todos são iguais. 

Não é à toa que exista forte patriotismo no país. Fugir desta lógica implica em quebra social e em uma postura um tanto quanto “repressiva” (não sei se este é o termo correto para se aplicar aqui) por parte do governo. É só observar, por exemplo, que em todas as eleições presidenciais norte-americanas existem várias pessoas com aquelas bandeirinhas do país sendo agitadas para todo mundo ver. O mesmo ocorre com os filmes hollywoodianos, quase sempre aparece a bandeira dos EUA em alguma cena. 

Obviamente, tanto a Tradição quanto o Excepcionalismo acabam sendo bem mais um discurso do que uma prática, mas o primeiro influencia o último e vice-versa. Três episódios recentes colocaram boas dúvidas quanto à imagem de “bom mocinho” dos EUA, sejam eles a Prisão de Guantánamo, a Prisão de Abu Ghraib e o caso Wikileaks. Sobre os dois complexos penitenciários, talvez tenha sido bem melhor George W. Bush ter assumido a culpa e afirmar que aquilo fora uma faceta vergonhosa para a política norte-americana. Não o fez e isso feriu ainda mais a moral de seu governo.

Já o Wikileaks vem causando bem mais polêmica na atualidade. A penúltima delas foi, inclusive, tema de destaque aqui na Página Internacional, conforme pode ser visto no texto “Assange no Equador?”. Disse penúltima porque a última é o tema ao qual quero chegar neste texto: anteontem, dia 28 de Fevereiro, o soldado norte-americano Bradley Manning (foto) declarou-se culpado por ter vazado uma série de informações diplomáticas sigilosas dos EUA ao site Wikileaks.

Culpado ou inocente? Há ainda denúncias que colocam Manning como “ajudante do inimigo”, dentre eles a própria al-Qaeda, e, caso a justiça norte-americana confirme esta hipótese, o soldado poderá ter decretada sua prisão perpétua. Não só parece como é contraditório o caso Wikileaks. Manning está preso desde 2010 e seu futuro é incerto. Ele tornou público nada mais nada menos do que 260 mil páginas de documentos sigilosos!

Não há resposta certa para a pergunta do título. Por fim, repito aqui as palavras do parlamentar norueguês Snorre Valen sobre o Wikileaks ser “uma das maiores contribuições para a liberdade de expressão e transparência” no século XXI. E isso não se remete a um dos pilares da Tradição e do Excepcionalismo por mim apontados anteriormente? Na frase “Nós nascemos iguais…”, o “nós” exclui Manning e quem mais colocar à prova a estratégia de política externa estadunidense.


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Post do Leitor

Post do Leitor – Victor Uchôa

[O leitor Victor Uchôa, graduando em Ciências Sociais pela Unicamp, nos brindou com um excelente texto sobre a cruel, porém real, realidade do tráfico internacional de pessoas. Lembrando a todos que  quiserem ter seus posts aqui no blog que basta enviar um e-mail para [email protected]. Boa leitura!]


Humanos de segunda classe

A atual novela “Salve Jorge” trouxe à tona pela primeira vez ao grande público o problema do tráfico de pessoas no Brasil. Assim, o assunto se transformou em uma espécie de moda das discussões cotidianas. Entretanto, a necessidade de adequação da trama ao gosto do público fez com que ela fosse ineficaz em demonstrar a dimensão do problema, tanto em quantidade de pessoas exploradas, quanto as reais condições em que vivem. Esse crime é tratado pela ONU como o mais hediondo praticado pela humanidade. 

Em nosso país são movimentados aproximadamente 32 bilhões de dólares ao ano com essa atividade, sendo o mais rentável dos crimes, superando em muito o tráfico de drogas. No mundo, é o terceiro negócio que envolve maior movimentação financeira, também chegando a envolver cerca de 2,4 milhões de pessoas exploradas por ano. Mesmo assim, o assunto seguiu longe dos noticiários nacionais, que deram maior atenção a praticamente todos os outros tipos de ações criminosas, a despeito da dimensão desse problema. Essa falta de interesse da imprensa é facilmente explicável. 

O trafico internacional de pessoas envolve basicamente a exploração de crianças e mulheres, que são forçadas por meio da violência e da fraude a se mudarem de seus países, na esperança de uma oportunidade. Diferentemente das personagens principais da ficção, a falta de direitos e de cidadania é iniciada na própria terra natal. Muitos dos refugiados e imigrantes de países periféricos não possuem a documentação que garante os direitos civis em seus próprios países. A exclusão tem rosto de dupla cidadania. No caso brasileiro, a maioria dos casos ocorre com mulheres, negras e de baixa renda, o que é comumente reconhecido na sociologia como uma espécie de santíssima trindade da vulnerabilidade. 

A insignificância dos explorados explica uma questão que pode surgir. Como uma teia criminosa tão ampla e tão óbvia se mantém com certa tranquilidade, permanecendo ilesa a justiça dos países e dos holofotes da mídia? A resposta é simples. Refugiados e imigrantes pobres de países periféricos são facilmente tratados como pessoas sem importância, tanto pelas autoridades dos países em que foram retirados, quanto dos que se tornaram seu destino final. Eles praticamente não existem. Assim, a grande maioria dos casos é completamente desconhecida, não tratados pela imprensa, enquanto os casos noticiados são as raridades que fogem a regra de exploração dos seres humanos em piores condições possíveis. O número de casos expostos é bastante reduzido. O tráfico de pessoas consegue ser o mais rentável dos crimes, enquanto tem rosto de problema pouco prolifero. 

O sucesso na exploração de pessoas em péssimas condições econômicas e jurídicas não tem como seu único exemplo o tráfico de pessoas. O mesmo pode ser visto no Brasil em um caso que em muito se parece a esses crimes, como os bolivianos que participam de trabalhos análogos a escravidão em fábricas de tecidos, ou com a prostituição infantil, que em sua maioria envolve crianças em situação de extrema pobreza. Recentemente, nosso próprio STF livrou uma dezena de acusados de estuprarem uma criança de 12 anos, por esta supostamente se prostituir. A justiça brasileira pode achar plausível que uma pessoa nessa idade possa tomar decisões autônomas de sua vida, e que a relação sexual com um adulto seja feita com consentimento. 

Claro, desde que essa criança seja parte das pessoas sem rosto ou dignidade. Pesquisas financiadas pelo escritório das Nações Unidas contra Drogas e Crime (UNODC) atestaram que um dos principais motivos para a facilidade da manutenção desses esquemas criminosos é da falta de importância dada ao tema pela sociedade civil. Afinal, grande parte da população acredita que foram essas mulheres culpadas pelo seu mal, ora por ganância, ora por pura vontade de servir como prostitutas. 

Outra ideia comum é a de que tais pessoas estejam em melhores condições sofrendo exploração do que anteriormente, vivendo como miseráveis em seus países. Uma tragédia justifica a outra. A falta de direitos outorgada por viverem em um país como imigrantes ilegais é por fim legitimada pelo discurso de criminalização da vítima, ato bastante comum no Brasil, sobretudo quando os crimes são sexuais e contra mulheres. Não à toa o nosso país é campeão mundial em pessoas exploradas. E Assim, o ato mais hediondo do mundo e o terceiro mais rentável fecha sua área de proteção graças à falta de interesse da sociedade dos países envolvidos sobre quem são tais explorados. Afinal, quem daria grande importância aos males de humanos de segunda classe?


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Queda de braço

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Estava pronto para começar meu post sobre toda a situação do teste nuclear da Coréia do Norte quando uma notícia me chamou a atenção. E não teve jeito. Pyongyang terá que esperar. Porque a bola da vez é a nova disputa judicial da Apple. Sim, a gigante estadunidense está tendo problemas no mercado brasileiro. 

Infelizmente as reclamações do preço do iPhone não são o problema por aqui. Mesmo porque não chegam a impedir o brasileiro de classe média-alta de adquirir esse tão sonhado smartphone. Também não se cogita proibir a venda do iPhone no Brasil e não há nenhuma reclamação severa sobre o produto que pudesse impedi-lo de circular por ai. Então qual é o tal problema da Apple no país? 

O entrave é de registro. Acontece que, nas terras brasileiras, alguém teve a brilhante ideia de nomear um telefone de iphone bem antes da Apple. A Gradiente, famosa empresa brasileira de eletroeletrônicos, entrou com um pedido de registro exclusivo do nome no Instituto Nacional de Propriedade Industrial (INPI) no início dos anos 2000, que lhe foi concedido “logo” em 2008. Já a Apple somente tentou registrar a marca no Brasil em 2007, quando lançou o primeiro aparelho com esse nome. 

Mas até então não se falava disso. A Gradiente passava por uma barra pesada desde 2006 e só conseguiu voltar ao mercado de fato em 2012. E quando lançou seu novo iphone em dezembro de 2012, a polêmica começou. É interessante que o INPI não pode proibir a venda do iPhone da Apple no Brasil. Só quem poderia fazê-lo seria o judiciário, que duvido que tomaria uma postura dessas (porque quase todos os representantes desse poder devem com um desses no bolso…). Toda essa queda de braço gira em torno daquilo que as grandes empresas mais querem: monopólio. No caso, a Apple quer o monopólio sobre esse nome mundo afora. E o interessante é que, no Brasil, houve 4 entradas de registro para o nome iphone antes de 2008 no INPI, e, por mais incrível que pareça, nenhum deles foi da Apple. O monopólio foi, então, garantido à Gradiente. 

Por isso, a Grande Maçã quer derrubar esses nomes um a um. O argumento que levantou contra a Gradiente foi o fato de a empresa não ter lançado nenhum produto com o nome iphone desde que conseguiu o registro. Portanto, para eles, em 4 anos, essa exclusividade já teria caducado. Caberá à Gradiente mostrar nos próximos meses que vendeu iphones ou apresentar algum argumento mais contundente nessa queda de braço. 

O que parece ficar de lição nesse duelo é o apetite insaciável de megaempresas na busca de “exclusividade” e o a oportunidade que uma empresa que retorna lentamente ao mercado viu no nome iphone e em uma possível briga judicial com a Apple. Porque, convenhamos, a Gradiente já imaginava um entrave desses. Essa foi uma excelente oportunidade para se lançar ao mercado novamente, e, acima de tudo, de ser mais lembrada pelos consumidores, se fizesse as jogadas corretas. O vídeo que divulgou na internet explicando o tal Gradiente Iphone parece resumir bem essa tentativa. Resta saber se o poder de megaempresa da Apple é capaz de derrubar seu monopólio sobre o nome e se bater de frente com a Grande Maçã foi uma estratégia de marketing bem sucedida.

[Não é a primeira vez que a Apple tem que enfrentar registros com o nome iphone por ai. Clique aqui para conferir outro interessante]


Categorias: Brasil, Mídia, Polêmica


O risco não compensa…

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Quando ouvimos as longas e, por vezes, cansativas palestras sobre citações e plágio no início da universidade, muitas vezes nos perguntamos o motivo da insistência dos professores e funcionários a este respeito, pois “não copiar” o trabalho alheio parece ser um conceito muito claro a ser compreendido. Acontece que não.

Denúncias de plágios cometidos por políticos de alto escalão (frequentemente em suas teses de doutorado) costumam fazer alarde em meio à opinião pública pela gravidade da situação, prejudicando a imagem de governos e derrubando nomes fortes de suas posições.

Hoje a Universidade de Dusseldorf anunciou que a Ministra da Educação (!) da Alemanha será obrigada a renunciar a seu título de doutorado devido a plágio. Ela nega e afirma que não deverá deixar o cargo, mas a polêmica repercute negativamente para todo o governo Merkel. Aliás, no ano passado outro ministro alemão renunciou ao cargo após denúncias similares – o então Ministro da Defesa foi, à época, acusado de plágio também em seu doutorado pela Universidade de Bayreuth…

Na Hungria, uma polêmica nacional no ano passado levou à renúncia do presidente do país após pressão devido à sua acusação de plágio no doutorado de duas décadas atrás (!). Também o Vice-primeiro-ministro húngaro foi acusado de plágio pela Universidade Eotvos Lorand pouco tempo depois.

Para finalizar a lista de personalidades políticas nesta situação, também o Primeiro-Ministro da Romênia foi acusado de ter quase metade de sua tese “duplicada” em 2012, além do caso do então Ministro da Educação e da Ciência no país.

Com esta enorme lista de casos (conhecidos) pelo mundo afora, envolvendo a imagem nacional e internacional dos países, a questão do plágio assume uma proporção muito maior do que se poderia jamais imaginar [interessante artigo a respeito aqui]. Dada a importância da originalidade na pesquisa científica para o seu desenvolvimento contínuo, a conclusão é que o risco – absolutamente – não compensa. 


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O fim que é recomeço

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E nesta mítica sexta-feira 21/12/12, o assunto no blog não poderia ser outro que o fim de uma era histórica, segundo o calendário maia – ou o suposto “fim do mundo”, segundo os fins comerciais e midiáticos dos nossos tempos… 

Tantas profecias e especulações em relação ao um possível “fim do mundo” parecem refletir a influência hollywoodiana sobre o imaginário mundial, alimentando uma fantasia que atormenta alguns [leia aqui ou aqui], diverte outros tantos [confira aqui o trailer do fim do mundo narrado por Galvão Bueno], e certamente gera altos lucros a determinados setores da sociedade. São impressionantes os milhões de turistas e de investimentos públicos e privados para as celebrações na Guatemala e no México, onde estão concentrados os maiores aglomerados populacionais de origem maia. [Estima-se entre 6 e 9 milhões a população maia atual na América Central, especialmente nestes dois países.]

Ao mesmo tempo, os herdeiros vivos desta antiga e inigualável civilização infelizmente não merecem a mesma atenção que suas lendas manipuladas por nossa sociedade do consumo. Vivendo em estado de miséria – que afeta 73% da população descendente maia na Guatemala, por exemplo – os povos de origem maia sofrem hoje em dia racismo e discriminação, além da falta de terras para o cultivo de alimentos e a problemas em relação aos serviços de saúde e educação.

Ironicamente, uma exposição sobre a cultura maia foi realizada recentemente em um dos museus mais importantes de Paris, atraindo a atenção de toda a alta sociedade europeia… valorizamos o passado e esquecemos o presente? Parece que sim.

Ao fim de uma longa era de aproximados 5.200 anos, segundo as históricas previsões maias, a data de hoje simboliza apenas um recomeço, com a esperança de melhores dias que sempre cultivamos a cada final de ano. Acreditando em uma nova era de espiritualidade renovada, esperemos, pois, que toda esta atenção voltada aos maias durante esse ano de 2012 possa vir a promover um real impacto positivo nas condições de vida de seus descendentes atuais, nada semelhantes a todo o “glamour” das comemorações oficiais deste dia…


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Em boca fechada não entra mosca

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O Reino Unido deu o que falar na última semana. A terra da Rainha foi palco de dois eventos que acabaram tendo sua repercussão internacional, já que os protagonistas eram de fora, e em ambos os casos teve gente que perdeu a chance de ficar calada. 

O mais trágico, com certeza, foi o caso do trote de uma rádio australiana passado para o hospital onde estava em tratamento a duquesa Kate Middleton, e que (ao que tudo indica) motivou o suicídio da enfermeira que atendeu a ligação e acreditou nos radialistas que fingiam ser membros da família real pedindo informações. Uma brincadeira inofensiva? Sim, mas como a doença era grave e coloca em risco o futuro herdeiro da Coroa, o “vazamento” de informações pode ser um problema terrível numa terra onde o noticiário é movido a fofoca. Sem contar a perda de credibilidade do hospital, o que deve ter motivado essa atitude extrema da enfermeira. O fato é que trotes e pegadinhas são as formas mais simplórias (e antigas) de fazer “humor”. Até que ponto é válido se aproveitar da boa-fé ou da reação de estranhos, sem seu consentimento, pra fazer audiência? Esse caso mostra que tem que se pensar nas conseqüências, e apesar de o programa até ter sido retirado do ar, as palavras que saem da boca não voltam mais. 

Mas o que mais repercutiu por aqui foi uma análise da revista britânica “The Economist” (confira aqui), em que o autor faz uma crítica aos problemas que o Brasil está enfrentando para manter o crescimento (e possivelmente para garantir um segundo mandato para Dilma). Relativamente despretensioso, o texto causou furor por, lá no final, o autor considerar que Dilma devesse demitir a equipe econômica para dar um novo rumo ao Brasil. Uma leitura atenta mostra que essa sugestão aparece muito mais uma hipótese de “teste” de pragmatismo da presidente do que um conselho propriamente dito. O texto é até razoável nas suas críticas. Mas o que pegou mesmo foi a mídia divulgando apressadamente que a maior revista de economia do mundo pediu a cabeça do nosso Ministro da Fazenda. 

Deu no que deu. A página da reportagem está entulhada de comentários dos mais questionáveis de brasileiros, dos mais variados espectros políticos (nada muito diferente da praga que se vê nas redes sociais todo dia). Os editoriais dos jornais brasileiros ficaram furiosos. Até a presidente se dignou a comentar sobre o assunto, e isso acabou fortalecendo Mantega no cargo. 

Esse é um baita exemplo de caso em que todo mundo perdeu a chance de mostrar que calar é ouro. O jornalista do Economist poderia ter tido algum cuidado com a escolha das palavras, mas no fim das contas é o que menos tem culpa nisso, já que é o seu trabalho ser instigante, e a liberdade de imprensa está aí pra isso. Os defensores/detratores mais exaltados do governo fazem um desserviço ao país com alguns comentários escabrosos que andam aparecendo por lá. A grande mídia nacional fez o pior de tudo ao focar suas manchetes num trecho de duas linhas de uma reportagem que nem se propunha a causar essa repercussão (e ignorando completamente o resto da crítica do autor, essa sim que renderia uma discussão interessante). E até mesmo a presidente perdeu a chance de sair com elegância dessa saia justa, ainda mais por de quebra alfinetar os países europeus com essa resposta. Se realmente uma revista estrangeira não tem influência nas decisões do governo, sequer deveria se dignar a responder sobre esse assunto (e, pelas suas palavras, dar a impressão de que a coisa seria diferente caso fosse uma revista nacional…). 

Haja mosca.


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Quando um não fala…

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Durante esta semana dois fatos me chamaram a atenção. Primeiro: é Furacão Sandy pra todo lado. Abria a seção dita “Internacional” em sites de jornais – a exemplo de Estadão, Le Monde, New York Times, The Economist, El Pais – e sempre havia uma notícia sobre o ciclone. Nada contra, realmente é um fenômeno de consequências muitas vezes irremediáveis, mas isso me remeteu ao segundo ponto. Este, por sua vez, tomou forma quando vi somente no Facebook algumas notícias sobre os casos dos índios Guaranis Kaiowás no Mato Grosso do Sul e do referendo para aprovação de uma nova constituição na Islândia. 

Novamente afirmo, nada contra o Sandy, até porque ele deve, sim, estar presente nos noticiários em qualquer tipo de mídia (inclusive aqui na Página Internacional no post logo abaixo). Contudo, o meu principal argumento vem do segundo fato levantado: no Brasil, a grande mídia oculta acontecimentos importantes. Normalmente quando se abre a página “Internacional” dos jornais tem-se um “arrepio” por parte de qualquer estudante da área. Talvez por um simples motivo: aquilo é tudo, menos internacional no sentido mais puro da palavra. 

Tudo bem o NYT falar repetidamente do furacão, mas por que o Estadão coloca uma notícia sobre ele e deixa em segundo plano a questão dos índios Guaranis Kaiowás? Sinceramente, não dá pra entender. Nem vou falar das mídias televisivas, porque, em sua grande maioria, são horríveis e porque eu também não acompanho estes noticiários. Notadamente, são canais mais conservadores (alguns liberais) e, por mais óbvio que seja, defendem seus pontos de vista. Todavia, fazer isso por omissão e não por contraposição de fatos é ignorância pura! 

E a principal questão é que as pessoas se interessam pelos outros fenômenos. O maior exemplo disso foi o já citado Facebook. Normalmente usado para bisbilhotar vida alheia ou colocar “n” fotos tiradas com um “IPAD geração 50”, a plataforma online tem um caráter valorativo gigantesco, inclusive para tocar nestes pontos mencionados no presente texto. Foi assim com a questão dos índios que se tornou “viral” e, em menor número, com o referendo realizado na Islândia para aprovação de uma nova constituição elaborada por dirigentes escolhidos pelo e para o povo em sua totalidade. Pude observar esta movimentação repetidamente esta semana na rede social. 

Agora, se você não sabe o que está acontecendo no Mato Grosso do Sul e/ou com os cidadãos islandeses, fique atento. No caso das notícias internacionais, além do Estadão e da Folha que são os mais circulados, leia Diplomatique Brasil, Carta Capital e até a Veja. Sim, até a Veja, porque, para criticar, é preciso ler. O mais importante é ler o máximo de canais possível, independentemente de posição ideológica. O nosso verdadeiro problema internacional, guardadas suas devidas proporções, não é o Sandy, mas sim o descaso com os índios. Afinal, nada mais interno que seja internacional e vice-versa.


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