A visita indesejada

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Vamos falar mais de Snowden. Afinal, o ex-nerd da CIA está movimentando mais as manchetes do noticiário internacional que os desastres naturais no sudeste asiático ou o Egito estar virando uma Argélia 2.0

A historia começa com o seu sumiço, fuga cinematográfica e asilo temporário numa sala de transição no aeroporto de Moscou. Um novo capítulo surgiu quando o presidente boliviano fez um gracejo e tocou o terror em países europeus que negaram seu espaço aéreo à comitiva de Evo por suspeitarem de que estivesse levando o ex-agente e resultou num furor diplomático dos países sul-americanos. O que podemos tirar desse caso? Acho que temos três pontos principais. 

Primeiro, Snowden vai conseguir asilo? Muito provavelmente, não. Sim, países sul-americanos concederam asilo, mas isso SE ele conseguir chegar lá. Com vistos cancelados, o único jeito de ele sair é voltando para casa para esperar a punição (e muita gente nos EUA acha que ele não foi culpado de traição), ou numa mirabolante fuga com luxos que, tenho certeza, nenhum dos países que oferecem o asilo podem fornecer. E de qualquer jeito, não se arriscariam a muito mais que cutucar a onça norte-americana com o discurso de sempre (e já se deram conta disso). Pelo jeito, ele vai reviver a história do iraniano Mehran Nasseri, que viveu quase 20 anos num terminal de Paris e inspirou aquele filme do Tom Hanks. 

Segundo, mesmo que consiga seu asilo, a que custo? Digamos que Snowden consiga chegar a um de seus asilos. Sejamos francos, ele vai ser aceito não por seu papel de paladino da liberdade, mas apenas para espezinhar os EUA. O ex-agente (diz que) fez o que fez como uma advertência aos seus cidadãos sobre as violações a liberdades individuais. E conseguir asilo em países como Venezuela ou Bolívia, onde existem muitas dúvidas sobre essas garantias, problemas com a imprensa e afins, seria um resultado no mínimo irônico, com Snowden salvo não pelo que defende, mas como um “desafio” aos EUA. Do mesmo modo, fugir para a China ou a Rússia (como pretendia no começo) seria constrangedor nesse aspecto. 

Terceiro, e talvez o ponto mais angustiante… essa situação toda de vigilância tem salvação? Por que vemos violações de direitos humanos aqui e acolá, minorias desrespeitadas… e quando vemos os países que seriam mais “corretos”, defensores de liberdades e ideais, eis que surgem essas denúncias. Mesmo os europeus, que ficaram escandalizados com a notícia de terem sido espionados pelos EUA, mantêm eles próprios mecanismos de controle de informação tão sofisticados quanto os norte-americanos. Quando pensamos que todo mundo está errado… quem vai estar certo? 

A liberdade individual ainda é um conceito viável nesse cenário? Enquanto isso, um idealista Snowden, que mesmo nos EUA tem uma imagem contraditória, paga o pato da hipocrisia internacional.


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Suspeitas e verdades

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Vivemos em tempos turbulentos. Há pouco mais de uma semana, ninguém sugeriria uma relação entre suspeita envolvendo espionagem estadunidense, pouso forçado de um avião presidencial, e um verdadeiro incidente diplomático de grandes proporções. Estes três elementos foram recorrentemente vistos em um mesmo texto nos últimos dias e o assunto ainda vai chamar a atenção por um tempo dada não apenas a gravidade do caso, como também as polêmicas que este envolve.

Para quem não acompanhou o acontecimento, a verdade é que há alguns dias o presidente boliviano Evo Morales foi forçado a pousar emergencialmente na Áustria após ter o espaço de voo negado por França, Espanha, Itália e Portugal diante da suspeita de que o polêmico Edward Snowden estaria também a bordo. O ex-agente da CIA alcançou o patamar de “procurado internacional” desde que tornou públicas informações sigilosas envolvendo o sistema de monitoramento de dados de comunicação do governo dos Estados Unidos. (Veja ótimos posts recentes no blog sobre esse assunto aqui e aqui.)

Talvez o mais impressionante da situação tenha sido a decisão destas potências europeias de impedir o trânsito de um chefe de Estado apenas diante de uma suspeita – infundada e cuja origem “oficial” ainda é desconhecida, apesar de não ser difícil de acreditar que haja um dedo yankee nessa história.

O impacto internacional desse incidente diplomático ainda está sendo sentido e a América Latina – fazendo valer finalmente sua voz em peso – tem expressado duras reprimendas e exigido esclarecimentos por parte dos países europeus envolvidos. A verdade é que Evo Morales representa, de fato, a Bolívia, e a Bolívia nada menos representa do que a América Latina no cenário internacional. Princípios básicos do Direito Internacional foram absolutamente desconsiderados nesse contexto diante do qual se pode visualizar a “aliança” – ou para os mais críticos a “subserviência” (interessante posicionamento por parte do sociólogo Boaventura de Sousa Santos aqui) – de certos países em relação aos Estados Unidos.

Ontem a Organização dos Estados Americanos (OEA) aprovou por consenso resolução que condena a situação, alguns dias após a Declaração de Cochabamba divulgada em nome da União de Nações Sul-Americanas (Unasul) e declarações individuais por parte de vários Estados (veja a reação do Brasil aqui).

Com pedidos de asilo já agora aceitos na Bolívia, na Venezuela e em Nicarágua, o nome de Snowden certamente ainda será ouvido por muito tempo. Tentativas do governo estadunidense de calá-lo ou impedi-lo de se locomover de alguma forma ainda revoltam ao tornarem clara a perspectiva – com frequência suspeitada – de que muito mais do que imaginamos permanece ainda sob o controle dos Estados Unidos, em um mundo tão globalizado que tenha paradoxalmente liberdades tão (tacitamente?) restritas. Diante de tantas suspeitas, esta talvez seja a mais pura verdade… 


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Onde está Snowden?

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Bom, na verdade, já se sabe. Enquanto no Brasil estamos ocupados com ludopédio e protestos, o mundo assiste a mais um roteiro de filme de espionagem da vida real. Nesse lapso de pouco mais de duas semanas, enquanto as ruas do Brasil fervilhavam, o ex-agente da CIA Edward Snowden pôs fogo na política norte-americana quando vazou dados para jornais sobre o sistema de monitoramento de dados de comunicação, incluindo conversas e dados pessoais, mantido pelo governo dos EUA. 

Pois é, a fonte anônima dos jornais que revelaram o escândalo não ficou nessa condição por muito tempo. Assim como no caso de dados vazados do Wikileaks, logo se descobriu quem fora o responsável e o jovem agente com cara de nerd passou a frequentar as manchetes de todo o mundo. Aliás, falando em Wikileaks e a volta dos que não foram, temos muitas similaridades, e esse caso acabou por trazer a organização novamente para o noticiário. 

Os membros do Wikileaks apoiam declaradamente Snowden. O ocorrido mostra muita semelhança com o vazamento de documentos secretos há alguns anos, feito também por um jovem supostamente bem-intencionado (o soldado Bradley Manning – que por sinal está sendo julgado, acusado de traição e pode pagar caro pela aventura). E assim como o criador do Wikileaks, Julian Assange, que viveu uma peripécia se escondendo na embaixada do Equador (e ficando lá até hoje) enquanto espera asilo político, Snowden viajou o mundo – literalmente. Fugindo do Havaí, foi para a China, supondo que teria alguma proteção. Se deu mal, por que Pequim não quer azedar relações com Washington e logo teve de se escafeder de Hong Kong para ficar num aeroporto na Rússia, esperando seu próximo destino. 

Apesar de mostrar não ter intenções de entregar Snowden, nada garante que os russos vão proteger o ex-agente. O Equador já não parece muito inclinado a se meter em mais confusão com o Tio Sam como antes. Não surpreendentemente, a Venezuela aparece como uma opção viável, mas de todo modo Snowden tem a maior potência militar do mundo em seu encalço, e a julgar por seu possível “amadorismo”, não deve ir longe a não ser que consiga ter a sorte de Assange e se encastelar numa embaixada. 

Se é um espião ou não (como muita gente está acusando), não dá pra saber. Snowden dá a impressão de ser uma pessoa bem-intencionada que acabou trocando os pés pelas mãos e tendo um impacto inimaginável. A crítica pesada contra esse programa veio em má hora para Obama, que está às turras com o Congresso e de cabeça cheia com a economia. Pela primeira vez em muitos anos a política externa está tendo um peso relativamente menor na agenda doméstica da política norte-americana, e o foco nesse tipo de assunto desgasta o presidente da mudança. 

Se Snowden vai ser pego ou não, é um mistério (e pode ser que não seja feito muito esforço para isso). Mas, espião ou não, desastrado ou bom samaritano, o fato é que ele causou um tumulto além das expectativas. Mais do que alertar seus concidadãos sobre uma situação de violação a direitos individuais, o ex-agente conseguiu acender um debate inflamado, se tornou o homem mais procurado do planeta, e pode ter um grande peso não apenas na discussão do momento, mas nos rumos das próximas eleições e até mesmo nas relações dos EUA com países que venham a aceitar o asilo. Nada mal.


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Impacto Internacional

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Fonte: Anonymous/Brasil


Impossível não falar ou comentar sobre a onda de manifestações, protestos e atividades levada às ruas brasileiras na última semana. Indo direto ao assunto, o objetivo desse texto é reunir alguns pontos de vista de jornais internacionais com o intuito de observar como as mídias estrangeiras estão noticiando os últimos acontecimentos aqui no Brasil. Obviamente, o foco é o movimento de ontem (20/06). 

No francês “Le Monde”, uma das notícias mais acessadas e com o maior número de “curtidas” no Facebook versa exatamente sobre as manifestações que reuniram mais de 1 milhão de pessoas nas ruas. O jornal destacou os números em Salvador, São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília. Obviamente, colocou na manchete a fatalidade que ocorreu com um jovem atropelado em Ribeirão Preto. Citaram-se fontes da “Folha de São Paulo” e, por fim, alertou para o tamanho do movimento dizendo que a presidente Dilma Rousseff cancelou sua viagem para o Japão previamente marcada para o próximo dia 26 de Julho. 

O “Al Jazeera”, jornal da maior emissora de televisão do Quatar, destaca o fato de Dilma ter se reunido, em caráter de emergência, com ministros de Estado. Mostrando entender bem mais do assunto do que muitos brasileiros, o periódico enfatizou na primeira frase da reportagem que os protestos aumentaram de tamanho em virtude da falta de qualidade dos serviços públicos e dos altos custos com a Copa do Mundo de 2014. Ao final, noticiam que nem mesmo o Governo do Brasil está entendendo o movimento… 

O muito conhecido “The New York Times”, em matéria intitulada “Despertar social no Brasil”, afirmou que a onda de protestos em nossas ruas não é motivo de surpresa. Mesmo mencionando a relevância da existência de um regime democrático aliado a um crescimento econômico razoável, disse não haver uma lógica entre discurso político e o dia-a-dia da população. Termina dizendo, mesmo de forma indireta, que Dilma terá que rever alguns conceitos para conseguir a reeleição do Partido dos Trabalhadores (PT) no mais alto escalão do poder executivo. 

No liberal “The Economist”, o artigo mais recomendado e popular é o “Protests in Brazil: the streets erupt”. Interessante que o jornal cita o Movimento Passe Livre (MPL) e o coloca como um grupo radical com uma visão irrealista sobre o transporte público (!!!). Observou, ainda, que muitos protestos ocorreram de forma pacífica. Ademais, disse que os movimentos de rua vivenciados pela Grã-Bretanha, França, Turquia e Suécia nos últimos dias/meses são diferentes do Brasil, pois este último é uma democracia estável e vem crescendo economicamente. 

Por sua vez, o espanhol “El País” colocou como destaque da sua seção “América” a matéria sobre o que pode ser o maior protesto da história brasileira. Focou o episódio trágico da tentativa de invasão e depredação do Palácio do Itamaraty, em Brasília. De tal sorte, pontuou sobre as ondas de aversão a partidos de esquerda no cerne das manifestações e colocou algumas perguntas-chave para saber qual será o futuro do Movimento Passe Libre (MPL). Talvez ninguém saiba… 

Outro inglês, o “The Guardian”, estima em 2 milhões o número de brasileiros nas ruas no dia de ontem. Traz uma visão mais interna dos protestos, pois cita frases de manifestantes e participantes do movimento. Para refletir, fica essa citação: “Victor Bezerra, a law student, said the police action was like something from the dictatorship era. ‘These are bad days for Brazil. The police were acting just like they did 30 years ago.’” 

O argentino “Clarín” coloca na manchete a frase “Crise Brasileira”. Focou na hostilização de manifestantes de esquerda (PSTU, PSOL e UNE) e, ao contrário dos outros jornais, noticiou protestos que ocorreram, também, em Manaus (AM), onde se reuniram cerca de 60 mil manifestantes e não ocorreu um único momento de tensão, tudo foi encaminhado de forma pacífica. 

Essas foram algumas das principais notícias ao redor do mundo. É claro que existem outros inúmeros jornais, mas os comentados acima refletem um pouco sobre o impacto internacional do Brasil nos últimos dias. O resumo da ópera parece se resumir deste modo: todo mundo sabe o porquê das manifestações terem começado, mas ninguém tem ideia de quais serão seus resultados a curto, médio e longo prazos.


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O mundo mágico do futebol

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A semana foi movimentada no cenário do esporte mais popular do mundo, com a proximidade da Copa das Confederações (um evento “teste” para a Copa do Mundo do ano que vem e que vai por à prova boa parte da organização do evento e todo o dinheiro desperdiç… digo, investido pelo Brasil) e, com grande estardalhaço, da ida do atual “showman” do esporte brasileiro para um grande time da Espanha. A milionária transferência de Neymar para o Barcelona ocupou boa parte das manchetes esportivas e sua apresentação foi um verdadeiro espetáculo.

Mas… a sensação é de que tem alguma coisa errada. E não é em termos futebolísticos – mesmo que tenha havido outras contratações mais vultosas em termos absolutos e tendo quem diga que foi um negócio da China pelo preço que o Barça pagou. Ou a descoberta de que o negócio possivelmente já estivesse fechado há mais de um ano. O problema aqui é vermos como futebol parece viver uma realidade descolada da vida comum, em uma Espanha que enfrenta crise econômica ainda grave. Nessa semana, por exemplo, apesar dos sinais de recuperação, atestou mais um mês de crescimento negativo na Zona do Euro. Apenas a Alemanha (que curiosamente está mandando no cenário futebolístico europeu) teve crescimento, e ainda assim minúsculo. A crise se reflete no esporte, com jogadores preferindo ir para times menores, mas em centros onde o dinheiro está fluindo, como Rússia ou países árabes. E os times que conseguem torrar grana nos países em crise são justamente os que têm grandes fundos de investimento ou milionários excêntricos por trás – como o Paris Saint-German, novo passatempo dos banqueiros catarianos.

Talvez a questão seja o modelo de gestão, já que os dois grandes da Espanha vivem de muito mais que rendas de torneios e cotas de televisão, mas de sócios e marketing pelo mundo. Os outros times de lá, que vivem o mundo real, acabam penando nesse cenário. Desse modo, é interessante ver o conto de fadas que aparece pela televisão, que contrasta com a realidade de protestos, reforma econômica e insatisfação. Quando falamos em futebol, vemos um dos poucos aspectos realmente globais da sociedade atual (basta lembrar que existem mais países filiados à FIFA que à ONU…). E o mundo todo tem dinheiro de sobra para sustentar essa indústria bilionária. Pena que não possam fazer o mesmo pela Espanha como um todo.


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Sobre patos e tanques

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Patos amarelos no lugar de tanques. Essa foi uma das formas que internautas encontraram para, driblando a censura, relembrar uma data que marcou tristemente a história chinesa em termos de direitos humanos. Ontem completaram-se 24 anos desde o massacre ocorrido na Praça da Paz Celestial (Tiananmen) e esta foi uma das maneiras de disseminar o assunto nas redes sociais na China.

O número de vítimas do massacre, na verdade, nunca foi confirmado (sendo estimado em cerca de 4 mil mortos e 60 mil feridos por certas fontes) e qualquer recordação pública deste acontecimento é ainda hoje refreada pelo governo, assunto tabu mesmo mais de duas décadas depois. Tanques de guerra (!) – hoje ironizados pelos patos amarelos, inspirados na obra de um artista holandês que fez sucesso em Hong Kong recentemente – foram enviados pelo Partido Comunista para reprimir protestos inéditos por liberdade e democracia.

Protestos estes pacíficos que, iniciados por universitários, reivindicavam mudanças, maior transparência e liberdade a nível nacional. Sua repressão e as informações sempre nebulosas por parte do governo neste sentido demonstram que o gigante chinês ainda encontra no respeito aos direitos humanos sua maior fraqueza.

No último domingo, faleceu o prefeito de Pequim à época, o qual foi um dos principais responsáveis pela brutalidade na repressão aos protestos, condenado à prisão por crimes de corrupção. Mudam-se os indivíduos, mas não a influência do Partido Comunista no país. A influência que ontem foi responsável por tantas mortes após reivindicações pacíficas hoje tenta de todas as formas invisibilizar as memórias deste acontecimento trágico, evitando o reconhecimento de sua importância.

A verdade é que os esforços governamentais parecem levar a um efeito contrário, indesejado pelo governo, de motivar os estudantes de hoje a buscarem novas formas de manifestação, tornando o assunto, de alguma forma, cada vez mais visível para as sociedades chinesa e internacional. Grandes patos amarelos que representam a ironia de um regime que ainda comanda uma gigantesca potência sem o devido (e necessário) respeito aos direitos humanos de sua população. 


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O papel de cada um

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Parece o tipo de coisa que só acontece na América Latina. Dentre o noticiário bizarro da semana tivemos a notícia de que a Venezuela está importando toneladas de papel higiênico para conter uma crise de abastecimento e evitar que a coisa fique suja por lá. Mas por que um bem tão fundamental de nossas vidas diárias está desaparecendo na Venezuela? 

O problema é bem mais embaixo. Existe uma crise de abastecimento no país, com racionamentos e tudo mais, que em boa parte decorre da política de congelamento de preços (bastante popular em países em crise, como a Argentina, e velha conhecida nossa). O estopim da crise é político:  as eleições, a briga entre governo e oposição e o legado do falecido Chávez. Seu sucessor, Nicolás Maduro, acusa a oposição e empresários de estar movendo uma campanha de desinformação sobre a falta do produto, que leva multidões a correrem atrás desse item de tamanha importância. Do outro lado, a reclamação é justamente sobre a política de preços: dizem que as indústrias estão operando a toda capacidade, mas não consegue atender a demanda por falta de insumos e a instabilidade do câmbio. A culpa seria do preço fixo, que reduz o lucro e aperta o produtor, que acaba rendendo menos ou simplesmente saindo do mercado – e isso vale dos pequenos agricultores às fábricas de papel que vão parar nos rolos. 

É muito difícil analisar a situação vendo de fora, mas a hipótese do desabastecimento é bem mais plausível que uma conspiração opositora. Por mais que a intenção seja louvável, políticas como congelamento de preços sempre dão resultado ruim em longo prazo. Pode parecer pouca coisa, mas a falta de um item de primeira necessidade é um sinal grave de fragilização da cadeia de produção, que vai muito além da indústria. A Venezuela compra boa parte de seus alimentos e outros gêneros de fora; uma safra ruim somada a problemas de produção e eventual queda nos preços do petróleo podem arruinar o país. Claro que existem inúmeros fatores que afetam isso, mas ter estruturas amparadas no mercado de petróleo é um risco muito grande e que Maduro precisa resolver se enfrenta ou pensa em novas alternativas. E por isso a tensão política na Venezuela ainda vai se sustentar por algum tempo, pois estamos falando de um choque muito forte de personalidades e projetos de nação, que vão alem da análise econômica. O governo e empresários estão se reunindo para tentar chegar a um consenso; enquanto isso, haja papel.


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O fenômeno do Femen

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Um grande público ocupa as ruas da cidade. Próximo à barreira de proteção, manifestantes protestam contra as mais diversas causas, com cartazes, bandeiras e apitos. Protegidos pela força policial, eis que surgem presidentes, ministros e representantes do poder público. As câmeras focalizam tais personalidades até o momento que surgem várias mulheres com palavras escritas pelo corpo, na maioria louras, de boa aparência, e o mais polêmico: sempre estão com os seios á mostra.

Essa é uma das cenas mais comuns nos dias atuais. Os protestos ocorrem todos os dias, contra os assuntos mais variados. São contra a política econômica, o machismo, a polícia, a indústria de cosméticos ou a realização da Copa do Mundo de futebol. A única coisa que não muda é a forma de protestar. E assim vão se tornando famosas, dignas de curiosidade. Aos poucos recebem apoiadores e pessoas que às odeiam, desmerecem suas causas ou a falta delas. Assim surge o fenômeno Femen. 

Nascido em 2008, o Femen se tornou um grupo internacional de grande repercussão e de ideias inconclusas. Até o momento não se sabe quais são as pautas de suas lutas. Praticamente em todos os tipos de eventos podemos nos surpreender com um momento de protesto, desde a posse do novo Papa à reuniões de blocos econômicos. Aliás, a falta de clareza das propostas aliada a grande quantidade de aparições gera uma das maiores críticas ao grupo: que ele não tem nada a dizer. Assim, alguns a definem como um grupo que utiliza mulheres bonitas para a sua própria promoção e de seus membros.

A falta de proposta é uma crítica só menos negativa do que a afirmação que escolhem quais mulheres ficarão nuas, utilizando-se do padrão de beleza das participantes. A acusação de seleção das mulheres que ficarão seminuas ultrapassa uma simples crítica. É ela a principal responsável para que uma considerável parcela das feministas desconsidere o Femen como representante de suas lutas, mesmo este sendo o grupo mais famoso e de maior sucesso atualmente. 

A liberdade sexual e do corpo está ligada ao movimento feminista no século XX, na tentativa de se quebrar os dogmas contrários a nudez e o prazer feminino. Entretanto, o problema do Femen está vinculado a uma teoria intitulada de “tabuleiro das relações de poder”. Nela, acredita-se que qualquer ação humana ou tecnologia é imparcial e utilizada com uma finalidade, mas que a finalidade pode ser mutável. Por exemplo, a internet sempre será imparcial, mas pode ao mesmo tempo ser imparcial tanto para o controle individual como para grupos como o anonymous quebrarem monopólios da indústria de produção artística, disponibilizando músicas e filmes gratuitos, ou invadindo sites de notícias que julgam manipuladores da informação. A nudez feminina, que surgiu como arma da liberdade feminista, também pode ser usada por vários motivos. Desde a afirmação da mulher, como também para denegri-la, ou no caso que acusam o Femen, como ferramenta para se criar um padrão de beleza opressor a maioria delas. 

A verdadeira intenção do grupo, seu poder de defender ideias claras e de ser popular em seus protesto além do recente momento em que é o “grupo da moda” ainda não foi provado. Na verdade, a maneira como ficará marcado ainda será construído nos próximos anos. O Femen não seria o primeiro grupo injustiçado durante seu tempo que no decorrer dos anos provaria sua importância para a luta de um ideal ou de ideais. Também não seria a primeira decepção de um movimento que se acaba da mesma maneira que surgiu. O que se sabe é que ele é assunto recorrente e está incomodando a muitos com suas constantes aparições, tem muito sucesso em chamar a atenção. Veremos no futuro em que será utilizado esse sucesso e a continuação dessa história de fama, aparições na mídia, protesto e nudez. 


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(Im)Parcialidade

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sf (parcial+i+dade1 Qualidade de parcial. 2 Facção, partido. Tendenciosidade.

sf (imparcial+i+dade1 Caráter ou qualidade de imparcial. 2 Equidade, justiça, neutralidade.

Fonte: Michaelis

Na semana em que a Venezuela presenciou uma conturbada e apertada vitória eleitoral do ex-vice-presidente de Hugo Chavez, ou seja, Nicolás Maduro, e o tão comentado atentado à bomba nos Estados Unidos, mais precisamente na cidade de Boston, é sempre complicado buscar alguma outra notícia, analisar, comentar e depois escrever o texto aqui na Página Internacional. 

Mesmo assim, o que mais me chama atenção é sempre o modo como as mídias, notadamente televisivas, constroem seus argumentos. É até uma tarefa relativamente fácil criticar ou, segundo algumas pessoas, “falar mal”. Só que no caso dos telejornais, por exemplo, parecem que os jornalistas imploram para serem “atacados” por des-elogios. 

Primeiro foi o caso da suposta guerra nuclear a ser proferida pela Coreia do Norte. Vi até em um jornal do SBT o comentarista dizendo mais ou menos assim: “Agora vamos falar bem da Coreia e, é claro, nos referimos à Coreia do Sul”. Tudo bem se o jornalista em si tiver seu posicionamento ideológico ou até mesmo o diretor do jornal ser ultra-pró-norte-americano. Mas, como telejornal, como organização de difusão de informações, promover juízos de valores, comentários maliciosos ou quaisquer outras posições visivelmente imparciais é um pouco antiético. Sem contar as chamadas de cinco segundos que diziam: “Coreia do Norte ameaça com bomba nuclear”. E, para um analista internacional que se preze, sabe que desde o fim da Guerra da Coreia os dois países do norte e sul vivem em estado de conflito, pois somente um armistício fora assinado e, em virtude de sua porosidade, fora cancelado por Kim Jong-Un. Uma guerra assim é praticamente impossível de acontecer, mas o importante são pontos no Ibope, certo? 

Praticamente não comentarei o caso das eleições venezuelanas. Basta dizer que só faltou o Datena mostrar vídeos dos atentados supostamente proferidos por partidários e simpatizantes de Capriles.

Daí me vem os acontecimentos de Boston. Não retiro o mérito das notícias, até porque os ataques realmente são preocupantes e foram terroristas, no meu ponto de vista, pois tiveram como alvos civis inocentes. Repudio todo tipo de ação assim. Entretanto, voltando ao foco do texto, liguei a TV na Globo e marquei o tempo: cerca de 15 minutos. Para um jornal de meia hora, praticamente metade só focou nas imagens de Boston e nas operações do FBI e da SWAT (a proporção das operações chega até a assustar, conforme pode ser visto nestas imagens).

De certo modo, é até relativamente relevante pensar que assuntos ditos internacionais ocupem boa parte dos noticiários. Como a grande maioria sabe, a população não procura informação nem de política interna, então imagine as de Política Internacional. 

Por fim, chego ao meu argumento final. Jornalismo imparcial é impossível. Menos parcial é possível e passível de acontecimento. É correto atentar às notícias de Boston? Sim. Mas, por exemplo, por que ninguém fala que lá no Congo, na África, a ONU presenciou uma onda de estupros de bebês? Por que quase não se comenta que os Estados Unidos poderá assinar um acordo de nada mais nada menos que 10 bilhões de dólares para fortalecer seus aliados (Israel, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos) contra o Irã? Por que não noticiam que no Iraque existe um “corredor da morte” em que 150 pessoas esperam pela execução?

Se é para fortalecer os noticiários internacionais da TV, então que o façam de maneira coerente e pluralista. Do contrário, o jornalismo brasileiro continuará a ser mediano e fortemente criticado. Acabei de ver que um terremoto de 7 graus atingiu, hoje, o Japão. Esperem pra ver isso nos telejornais hoje. E, talvez, apenas isso.


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Considerações sobre o inexplicável

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No fim dessa semana trágica pra os EUA, em que mais uma tragédia acontece com a explosão de uma fábrica de fertilizantes no Texas, já podemos fazer algumas considerações sobre os ataques terroristas em Boston na segunda-feira, que já foram explorados à exaustão pela mídia. 

Primeiro, já podemos ter uma ideia da motivação. O terrorismo é uma forma muito eficiente de expressão política, e a ausência de uma declaração de autoria é no mínimo suspeita. Existem quatro linhas principais de investigação da autoria, e a mais provável é a de que seja um grupo interno. Se fosse de fora, não teria o que temer (bom, teria, mas essa é a intenção oras). É possível ir até mais além – no mundo de hoje, basta um maluco com conexão á internet e acesso a loja de ferramentas pra montar uma bomba dessas. A situação pode ter sido muito mais simples, com um ou dois indivíduos querendo passar sua mensagem violenta e agora entocados ao se darem conta da idiotice que fizeram. 

Segundo, a falta de um culpado concreto até o momento gerou um movimento muito interessante de “vigilantismo” virtual, com comunidades on-line pesquisando todas as fotos e vídeos disponíveis, identificando os menores detalhes, da posição na multidão às mochilas das pessoas que estavam na plateia. Muita coisa vem de contribuição anônima, e essas “pistas” podem ser imagens manipuladas (sempre lembro da foto do falso Osama morto nessas horas). Em algumas vezes a velocidade da internet faz essas discussões e caírem em fontes tradicionais, o que rende erros crassos como o anúncio da CNN de ontem de que suspeitos haviam sido presos. Em tempos de web 3.0, a participação coletiva ajuda tanto quanto atrapalha. Agora imaginem, se pessoas com algum tempo livre conseguem juntar esse tipo de informação e até levantar suspeitos, imagine o governo dos EUA. 

E aqui chegamos ao terceiro ponto. Uma análise muito interessante (veja aqui) mostra como, apesar de chocar o mundo quando acontece, as ações do governo dos EUA (bem ou mal) e a carga de desapego que o terrorismo exige fazem dos EUA um lugar ainda muito seguro contra o terrorismo, especialmente doméstico. O presidente Obama faz muito bem ao reagir de maneira contida e dura, mas sem estardalhaço. Ocorreu um crime, e os culpados serão buscados até as últimas consequências. Com a rede de informação que existe lá, não admira que o(s) autor(es) do atentado não tenha se pronunciado ainda. Se derem a menor bandeira, vão ser encontrados, e perderam totalmente o sentido de uma possível reivindicação com a aleatoriedade do ataque. 

Como dizem os números, é mais fácil ser atingido por um raio que morrer num ataque terrorista nos EUA. Fora as medidas de segurança momentâneas, não parece haver motivo para preocupação no resto do país.  Os ataques deixaram imagens horríveis, deve-se lamentar as vidas perdidas e os feridos que sofreram traumas e amputações, vai haver uma certa apreensão por um tempo, mas a vida volta ao normal – e ano que vem já se fala em uma maratona ainda maior. Com esse tipo de resposta, podemos dizer que os trauma do 11 de setembro tenha deixado suas lições, e que os terroristas não tiveram sucesso nenhum no fim das contas.


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