Arte regenerada

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Em 19 de julho de 1937 foi inaugurada pelo Partido Nacional Socialista alemão em Munique uma exposição chamada “Entartete Kunst”, Arte Degenerada. O objetivo de Hitler, no auge do Partido: disseminar a aversão pela arte moderna, indigna de apreciação e confiscada dos grandes museus do país. Os autores dessa impiedosa arte? Os mestres Henri Matisse, Pablo Picasso, Marc Chagall, bem como os pintores alemães Emil Nolde, Franz Marc, Max Beckmann e Max Liebermann, dentre tantos outros.

Todos tinham em comum traços modernos que não se adequavam à “arte oficial” do Terceiro Reich e que, portanto, deveriam ser retirados de circulação no meio artístico, em um temível esforço nazista de “purificação” até mesmo dos ambientes artísticos, sob os mais controversos argumentos.

Quase 80 anos depois, revelou-se que foram encontrados na mesma cidade de Munique cerca de 1.500 obras daqueles grandes mestres confiscadas à época, esquecidas no apartamento do filho de um colecionador que as teria adquirido após o confisco nazista. Segundo as fontes, o pai de Cornelius Gurlitt teria sido encarregado por Goebbels, ministro da Propaganda no regime de Hitler, de vender para outros países as pinturas enquadradas no quesito de “arte degenerada”.

Avaliada em aproximadamente um bilhão de euros (!!!), a descoberta revela, por um lado, que o tempo histórico para a superação total das Grandes Guerras não deve ser subestimado: conflitos de tais proporções apresentam consequências inimagináveis e que devem ser sentidas por gerações até que seus resquícios façam parte apenas dos livros de história.

Por outro lado, vale destacar justamente a importância da arte como forma de expressão poderosa, capaz de influenciar multidões e desde sempre determinante no que se refere à comunicação de posicionamentos e ideais. Neste sentido, é interessante perceber que, tantos anos depois, os artistas perseguidos pelos nazistas possuem tamanho reconhecimento histórico enquanto aqueles que obedeceram forçosamente às regras estéticas do Partido caíram junto àqueles que defendiam seus princípios.

Materialização da liberdade, a verdadeira arte revela-se, pois, regenerada, cada dia mais viva… 


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Qual pátria de chuteiras?

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Num ano em que pressões migratórias causam tragédias entre a África e a Europa, temos caso um pouco menos trágico, mas que vai chamar muito mais atenção da mídia que centenas de africanos mortos em praias do Mediterrâneo, devido à Copa do Mundo. Ontem, o jogador de futebol Diego Costa informou que não tem intenção de defender a seleção brasileira e isso está causando revolta tanto entre a comissão técnica (segundo a qual ele está “abrindo mão do sonho de milhões de garotos”) quanto nos torcedores. E se não parece uma questão das mais relevantes, traz alguns pontos de reflexão bem pertinentes. 

Talvez a principal “acusação” contra o jogador é de que seria “antipatriótico”, um “traidor”, e se ele realmente for jogar pela Espanha deve-se esperar todo tipo de apupos em 2014. Paixão de torcedor é uma coisa meio irracional mesmo (o termo “paixão” tem a mesma origem de “doença”), mas quando a comissão cria um clima de hostilidade devido à escolha da pessoa, já temos uma questão mais espinhosa. 

Jogadores mudando de país não são novidade alguma. O grande Puskas, maestro da Hungria de 1954, teve de fugir da opressão soviética e defendeu a seleção da Espanha (que parece ter esse costume de trazer talentos de fora) em outra Copa. Mudar de país e depois se envolver com a seleção local parece uma progressão aceitável. Claro que existem casos que chegam a ser cômicos, e até moralmente questionáveis, como os times de tênis de mesa nas Olimpíadas – das delegações que chegam às etapas avançadas, o espectador vai ver um monte de nomes chineses, já que maioria são atletas naturalizados para esta função especificamente. 

Claro, não parece ser o caso de Diego. O jogador que saiu cedo do país (e até cidadania espanhola tem). A “revolta” parece ser muito mais recalque ou mesmo temor pela má fase dos atacantes do time nacional. Mas… e se ele realmente tivesse escolhido a Espanha por fatores “imorais” como o dinheiro? Seria condenável? 

Muitas vezes, os jogadores que mudam de time ao tilintar das moedas são chamados de mercenários. Dá pra fazer uma analogia bem interessante sobre isso. Lá atrás, na sua obra mais conhecida, “O Príncipe”, Maquiavel recomendava aos governantes que nunca delegassem a defesa nacional a mercenários, justamente por que eles não teriam comprometimento com o Estado, e não estariam dispostos dar a vida apenas pelo vil metal – pior ainda, poderiam mudar de lado pelo mesmo motivo. 

Devemos a isso a acepção negativa que existe até hoje para o termo “mercenário”, mas é totalmente despropositado quando pensamos em esporte, e quanto mais em outras questões mais pungentes como guerras e catástrofes. Seja um jogador de futebol, de tênis de mesa, ou um engenheiro, ou um médico, ou apenas refugiados africanos em busca de melhores condições de vida – escolher um país diferente para residir e trabalhar, e sim, por causa de uma possibilidade de renda maior, e porventura decidir (de acordo com a lei) se tornarem cidadãos do outro país, não é nenhum tipo de imoralidade. 

Já que falamos de autores clássicos, vamos lembrar também de Immanuel Kant e seu cosmopolitismo – para o filósofo, todos os homens nascem iguais, são “cidadãos do mundo”, e possuem todos os mesmo direitos. Barreiras como idioma e nações são artificiais – todos teríamos o mesmo direito a poder transitar ou habitar em qualquer pedaço da Terra. E quando pensamos que o próprio nacionalismo, que parece alimentar o tipo de crítica levantado contra o jogador, é apontado por muitos atores como uma artificialidade, uma construção social que legitima o poder do Estado, fica ainda mais frágil manter qualquer tipo de censura. 

As pessoas são livres para escolherem onde querem ser felizes, seja para fugir de uma situação insustentável, seja para jogarem futebol. Já não bastasse a rejeição ao “estrangeiro” (vejam o caso dos médicos “importados” pelo Brasil), lidar com rejeição dos seus conterrâneos não deixa de ser uma violência. E a discussão que isso levanta vai muito além dos gramados.


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O grampo que une?

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Se informação é poder, hoje poderíamos afirmar que Edward Snowden lidera o ranking internacional de poderosos do mundo, que sabem o quanto valem seus trunfos e estudam as melhores estratégias para apresenta-los. E Snowden está conseguindo fazer mais barulho do que qualquer um jamais imaginou… a verdade é que o assunto da espionagem que antes “passava batido” por todos os grandes interlocutores mundiais veio a foco recentemente e, para azar de Obama, parece estar longe de sair dos holofotes.

A partir das informações vazadas por ele com a ajuda do jornalista Greenwald, o movimento questionador – impulsionado por Dilma após as revelações de espionagem a nível pessoal e estratégico no Brasil – está agora ecoando mais fortemente em território europeu. A revelação de possíveis escutas a celulares e grampos telefônicos a líderes de mais de 35 países geraram nítido desconforto nas relações com Estados Unidos e se tornaram o centro das atenções da Cúpula da União Europeia em Bruxelas na última semana. 

Merkel exigiu inclusive explicações por telefone por parte de Obama, o qual nega os feitos e se justifica como pode. Aliás, situação complicada de qualquer forma para ele já que, por um lado, se ele tinha conhecimento das operações da Agência de Segurança Nacional (NSA), as negativas e alegações de insinuação constituem uma grande farsa. Por outro, se efetivamente a Casa Branca não tivesse acesso a essas informações, trata-se de um lapso de quase cinco anos do presidente em um dos temas mais caros ao país. A primeira opção parece muito mais plausível.

Depois da Alemanha e da França, a última denúncia na Europa envolve a espionagem, por parte da NSA, de 60 milhões de ligações telefônicas na Espanha entre dezembro de 2012 e janeiro de 2013 (!). Uma bomba atrás da outra, com um Snowden que alerta a que veio e que tem em suas mãos informação e informação privilegiada – sinônimo de poder para alterar o status quo internacional.

É claro que nenhuma das grandes potências é totalmente neutra nesta história e também tratam atenciosamente deste tema na agenda e os aliados dos Estados Unidos que se cuidem, sendo alertados pelo próprio governo dos Estados Unidos sobre isso.

Em meio a um debate que conta com jargões variando entre “restabelecimento da confiança” e “necessidade de averiguar denúncias”, as nações “amigas” dos Estados Unidos se veem em um momento delicado de gerenciamento das relações. Em momento de descontração na reunião europeia, Merkel chegou a afirmar ao belga presidente do Conselho Europeu que “sermos todos grampeados nos une” (!). Será? Talvez o próprio laço que sele esta união seja estadunidense sem que eles saibam… 


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Fala muito!

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A crítica sempre esteve ligada, de certo modo, ao anonimato. O medo de rejeição, e principalmente o temor de represálias leva os insatisfeitos desde muito tempo atrás a se exporem ocultando sua identidade. Se a crítica é aceita pela coletividade, passa a fazer parte desse fenômeno de massa – se não, não causa mal algum ao autor. Mas e se for descoberto? 

Esse fenômeno é potencializado hoje, já que a vida em rede já faz parte da vida política contemporânea. Redes sociais, fóruns de discussão e redes de telecomunicações têm um impacto formidável na opinião pública. A eficiência disso, é claro, depende de quem está envolvido, e de muitos outros fatores. Basta lembrar da “revolução” de julho no Brasil, que saiu do Facebook para durar umas… duas semanas, e desaparecer quase que por completo, mostrando apenas resquícios desse ativismo em protestos pontuais (apesar de recorrentes). 

Isso tudo vem da atividade em grupo, mas resta algum papel para o indivíduo? A noção de uma “massa” vem justamente do fato de que se faz parte de uma coletividade, com interesses que estão acima dos pessoais, e a noção do anonimato é fundamental em alguns casos. É interessante notar como o anonimato volta a ter importância nesse contexto, já que é um ambiente propício a essa condição. 

 Em um caso recente, um funcionário da Casa Branca foi demitido por manter uma conta anônima em que espinafrava membros do governo. Descoberto, foi demitido e lhe resta a infâmia. Enquanto isso, no Brasil, contas “fakes” (falsas, com pessoas imitando personalidades) fazem sucesso, e uma delas imita a presidente Dilma por meio de uma sátira bem-humorada, sendo que o humorista criador da conta até já esteve em conversa pessoalmente com a “vítima”. Descoberto, não foi arrasado, e sim premiado pelo uso “inteligente” das redes sociais. 

Vê-se que depende muito de contexto, é claro, e do uso que é dado a cada ferramenta, mas nem mesmo o anonimato serve de blindagem, já que pode ser revertido a qualquer momento nessa nuvem de informação.


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Gafe norte-americana

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Associar o nome “Bush” com a ideia de “gafe” em uma mesma frase talvez não seja exclusividade do dia de hoje, mas fato é que a situação em questão foi especialmente desagradável.

No dia em que Nelson Mandela, depois de três meses internado em estado crítico, deixou o hospital em Pretória para receber cuidados domiciliares, foi divulgado um comunicado de imprensa de George Bush pai em que expressa suas condolências pelo falecimento do líder sul-africano

De responsabilidade de seu porta-voz, chamado Jim McGrath, o comunicado homenageava Mandela ao dizer que ele “foi um homem de grande coragem moral que mudou o curso da história em seu país”, lamentando sua morte. A gafe foi rapidamente percebida pelo porta-voz, que se desculpou pelo “erro estúpido”, tentando justificar-se ao afirmar que informações do jornal “The Washington Post” foram mal interpretadas. Pouco, contudo, pode ser feito em relação às consequências de palavras já ditas – e publicamente divulgadas.

Este acontecimento sugere duas reflexões diferentes. Em primeiro lugar, fato é que o estado de saúde instável de Mandela, com seus 95 anos, preocupa. Sua volta pra casa não transparece a melhoria esperada por todos, visto que seu tratamento continuará intensivo e foi revelado que o ex-presidente sofre de complicações múltiplas.

Entretanto, nada justifica a gafe de McGrath e, consequentemente, de Bush pai. E a segunda reflexão é efetivamente sobre o papel dos assessores e dos porta-vozes. Estes são os principais responsáveis por toda a comunicação e pela forma como a informação chega, por um lado, aos assessorados e, por outro, ao público em geral. Trata-se de uma função cuja importância é poucas vezes reconhecida no dia-a-dia, mas imediatamente visível em caso de erros e problemas – talvez como todas as funções, aliás, mas mais facilmente midiatizada e com consequências negativas proporcionalmente mais impactantes.

Seguem, pois, as expectativas pela melhora do herói Mandela, lamentando o erro crasso do porta-voz norte-americano e esperando que mensagens de condolências como esta desacertadamente divulgada não sejam necessárias tão cedo… 


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Cegueira não tem fim

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Em todos os lugares, de tempos em tempos um tema qualquer polariza a discussão sobre os caminhos adotados pela política nacional. Grupos se concentram em lados opostos, à esquerda e à direita, liberais e social-democratas, conservadores ou progressistas. Apresentam caminhos diferente para a solução de problemas em comum. Desses embates surgem propostas e posições que irão definir o futuro das decisões políticas importantes. Na saúde, nos transportes, na educação, nos direitos das minorias etc.

Mas a polarização tem um efeito colateral. Dela, surgem grupos que mais parecem caricaturas. Logo, começam a colocar ideias por vezes esdrúxulas, em outros momentos perigosas. E assim formulam as mais absurdas respostas para a realidade e os problemas sociais. Qual a política de emprego? “Expulsar os imigrantes, metralhar os patrões.” Qual a solução para a violência? “Execuções em praça pública, condenações sem julgamentos”.  

Nos dias atuais, ao menos no processo decisório, as caricaturas quase nunca aparecem. Não aparecem por que já perderam o embate da discussão, não foram levadas suficientemente a sério pela maioria. E cada dia são menos levadas. As caricaturas sempre ficam em segundo plano, longe do centro debate. Exceto no Brasil. Aqui, há uma recente tendência que a caricatura apareça mais que o bom senso em grande parte das vezes. E com uma recorrência que deveria nos assustar.

Como eu poderia provar essa afirmação? Com o assunto do momento: a vinda de médicos estrangeiros ao Brasil, por meio de um programa federal de “cooperação internacional”, em que se abrem vagas para estrangeiros trabalharem no Sistema Único de Saúde. Uma decisão que tem gerado bastante polêmica. Vamos compreendê-la melhor.

Tudo começou quando Alexandre Padilha, então ministro da saúde sem grande destaque, foi alçado pelo ex-presidente Lula como uma dos nomes futuros de seu partido. Padilha supostamente sairia do ministério rumo à disputa para algum cargo executivo, de preferência o governo do Estado de São Paulo. Mas ele precisava de uma propaganda positiva. Mas como fazer a propaganda de um homem que gerencia a mais criticada área pela população? Aqui no Brasil é possível. Basta criar uma “marca”.

As marcas servem para cobrir gestões medíocres ou instáveis. A partir delas é que criou-se a ideia de um ministro que é “pai do Real” ou de uma suposta “mãe do PAC”. Se personaliza tudo. Quem se interessa por política interna sabe que aqui a propaganda política não morre órfã. Padilha, que não era pai de nada, resolveu ser pai do Programa Mais Médicos.

Foi um ano de negociações, sempre com muitos empecilhos e criticas, em que o ministro buscou transformar seu filho em realidade. Até que ocorreram as manifestações de junho. Na ânsia de dar resposta satisfatória ao povo, a presidente decidiu tomar um série de medidas de melhoria em várias áreas, inclusive na saúde.

Anunciou então 50 bilhões de reais em investimentos, mais de 12 mil novas vagas de graduação em medicina nas universidades públicas federais e a vinda de milhares de médicos estrangeiros. Notem, a medida da vinda de médicos estrangeiros foi anunciada como a principal delas. Óbvio, 12 mil vagas nas universidades e 50 bilhões em investimentos valem menos politicamente do que ser pai de algum projeto.  

A partir daí houve a polarização, tão comum nas democracias. Parte dos médicos acusavam a medida de populista. Outros defendiam investimentos além de novas contratações, ou a melhoria das condições de trabalho nas cidades pobres, para que surgissem vagas mais atraentes. Outros argumentavam que o aumento de formandos por si só solucionaria o problema da falta de médicos, não precisando de medidas emergenciais. O assunto seguia interessante. A vinda dos médicos estrangeiros era mais um bom debate no efervescente momento dos protestos. Aos poucos os médicos foram perdendo espaço. Pesquisas mostravam que o apoio ao plano do governo saíra de 7% de desvantagem para os contrários à medida, para 8% de vantagem.

Pouco a pouco, os contrários a vinda dos médicos foram mudando de argumentação. Foram criando uma polêmica atrás de outra. Primeiro, contestaram a competência dos postulantes às vagas. Depois do sistema Revalida. Até que surgiu o anuncio da vinda em massa de médicos cubanos.

O problema é que pega mal a palavra Cuba aqui no Brasil. Inclusive, essa é uma palavra que parece mal-assombrada no país. Toda vez que entra em cena temos a percepção do ressurgimento de muitos esqueletos há muito enterrados. Esqueletos ideológicos. Não demorou muito para pessoas começarem a criar um suposto plano de infiltração de terroristas de jaleco, disfarçados para impor uma certa revolução vermelha.

Em qualquer país tais suposições não freariam o plano,  nem ganhariam repercussão. Mas aqui as caricaturas, por vezes, pesam mais que o bom senso. Os jornais passaram a noticiar a vinda de médicos como um embate ideológico sobre o apoio ou não à ditadura cubana. Houve quem ousasse tecer um plano para o governo brasileiro “financiar” a ditadura cubana, sabe-se lá por qual motivo.

E daí surgiram anomalias cada vez maiores. Um diretor regional de medicina dizendo que chamaria a policia aos estrangeiros e, pasmem, não socorreria erros médicos dos mesmos. Em uma ordem, o médico rasga o juramento que fez ainda na universidade, e diante da posição que ocupa, não mede esforços em fazer política com vidas.

Mas o assalto dos absurdos continuou. “Médicos cubanos são mercadorias, estão despreparados”, “a medicina cubana esta superada”. Até que surgiu a noticia de que seriam “quase escravos”, trabalhariam por 30% do salário. O restante seria entregue ao governo cubano. Enfim uma discussão valida. Afinal, seria correto essa forma de remuneração? 


Voltamos a boa discussão por um momento. Até que os médicos cubanos chegaram, afirmando amores ao Brasil. Dizendo que trabalhariam até de graça, que concordavam com a forma de pagamento. Seria o fim da polêmica de que os cubanos seriam escravos prestes a fugir do domínio do regime. Como combater o apoio dos próprios cubanos a suas contratações?

O resultado é o da foto acima. Uma dúzia de médicos recepcionando estrangeiros da forma mais vergonhosa possível. Criando uma espécie de corredor polonês, vaiando, ofendendo, pedindo a saída deles do país. Se houvesse um retrato do preconceito em exposição em uma galeria de arte, seria o acima. O que levaram tais médicos a se comportarem dessa forma? Diria eu, que o resultado do triunfo da mediocridade sobre o bom senso.

A caricatura vence o bom senso no Brasil por muitas vezes. Quando li que os médicos cearenses ofendiam os cubanos os chamando de “escravos”, já sabia do que se tratava: uma velha ação muito comum no Brasil. Imaginem que a mulher apanha do marido. Dias depois ela volta a viver com ele e apanha novamente. A partir de então se criminaliza a vitima, e o marido está livre para futuras surras. Algo do tipo “Os cubanos são escravos. Mas apoiam o modelo do seu governo? Então merecem a senzala.” A senzala, o corredor polonês, a xenofobia de perto. O brasileiro leva muito a sério o raciocínio binário.

Após o fato ocorrido, uma jornalista ainda colocou em uma rede social uma comparação entre a aparência de médicas cubanas e das empregadas domésticas. Em uma só frase foi racista, preconceituosa e um bocado ignorante. No fim ainda se esquece que os cubanos vieram exatamente para atender gente humilde, que ela mesmo humilha. Em sua “defesa” aos mais pobres, ainda afirma: “coitado desse povo, ser tratado por essa gente!” Coitado mesmo, que depende da decisão e ação de uma suposta elite, que tão facilmente cai no limbo do pensamento medíocre. A caricatura perfeita do preconceito, da xenofobia, do corporativismo e da intolerância. 

Esse debate surpreende pelo baixo nível até a quem já está acostumado as discussões sobre política em nosso país. E isso é de impressionar! O limbo intelectual tomou conta do centro do debate. Já não é a primeira vez que isso ocorre, seria otimismo demais dizer que será a última. E para quem se interessa pela melhoria do país, resta se contentar com opiniões desse tipo pipocando por todos os lados. Poderíamos até mudar a letra daquela velha música, para mostrar o que as vezes sentimos nesses momentos: “Cegueira não tem fim. Paciência, sim!”


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A "punição exemplar"

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Antigamente, se via muito a aplicação da chamada “punição exemplar”. Execuções horrendas, como esquartejamentos, serviam justamente para confirmar o poder de quem manda na ordem do momento (seja um governo, democrático ou não, seja um tirano) e colocar medo naqueles que estariam envolvidos para evitar a recorrência dos atos que levaram à punição. Basicamente, a mesma ideia do encarceramento, mas de um jeito horripilante e com muito mais impacto. É diferente do “bode expiatório”, quando colocamos toda a culpa em um certo indivíduo para livrar a cara de outros.

Pois bem, como hoje em dia não pega muito bem desmembrar gente em público (apesar da tradição da pena de morte em alguns lugares persistir), ou quando a situação escapa de “dentro” do Estado, o jeito encontrado para alcançar aqueles dois objetivos se tornaram bem mais sutis. Estamos vendo um pouco disso nos casos recente de vazamento de informações internacionais. O mais quente é o do brasileiro David Miranda, detido pela polícia britânica durante sua passagem pelo aeroporto de Londres por cerca de nove horas em decorrência de artigos no mínimo questionáveis da lei antiterrorismo do país. Durante esse período, para não ser preso, o brasileiro teve de responder questões pessoais, entregar senhas e teve seus pertences confiscados. O que isso tem a ver com terrorismo? Miranda é parceiro de Glenn Greenwald, o jornalista que jogou na mídia a bomba das revelações de Edward Snowden, e aqui as coisas começam a ficar estranhas. 

O governo britânico justifica que a detenção foi feita com base legal e no interesse dos cidadãos britânicos, de que os dados nos pertences poderiam comprometer a segurança nacional. Mas é muito suspeito que justamente ele tenha sido “sorteado” para essa busca. Há um claro interesse por trás desse ato, simbolismo, mas o difícil é saber de quem partiu. A CIA? Os EUA? Serviços de inteligência? Aqui já estamos na área das conspirações, mas parece claro que temos um fenômeno recorrente. Pensem nas nebulosas acusações de abuso sexual contra Julian Assange que fizeram dele morador permanente da embaixada do Equador em Londres. Ou o jogo de gato e rato de Snowden com a inteligência dos EUA e sua demonização na mídia de lá. Ou a papagaiada do avião de Evo. São casos em que, se os governos não têm meios de agir diretamente contra os que atingiram seus interesses, ocorrem ataques “indiretos”. A mensagem é clara – de um jeito ou de outro, alguém vai pagar. Quem quiser enfrentar o mundo e revelar segredos dos países vai ter que ser muito liso e torcer pra que não envolvam suas famílias ou coisa do tipo no meio. E isso pra não contar quando existe o peso da lei – como o caso do soldado Manning, envolvido com os vazamentos do Wikileaks lá em 2010, que acaba de ter a sentença anunciada e conseguiu escapar de 90 anos na prisão para “apenas” 35

Mas é, estamos falando de conspirações ou suposições com base em fortes suspeitas… mas o que temos de concreto? Na semana passada o ministro das Relações Exteriores, Antonio Patriota, já tinha “puxado a orelha” do Secretário de Estado dos EUA sobre a vigilância. O caso de Miranda foi a gota d’água, e o Brasil condenou veementemente (e de um jeito até atípico) a atitude da Grã-Bretanha. Por muito menos que isso já rompemos relações com eles (nos bons tempos do Império), mas não deve ser para tanto. Talvez isso mostre o maior dano que os envolvidos na espionagem tenham: o diplomático. Esse demora para ser consertado, e a “punição exemplar” acaba tendo um efeito muito pior do que o dano que tenta evitar…


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Briga de gente grande

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A Guerra Fria pode não ter sido a melhor coisa pro mundo em sua época, mas podemos dizer que realmente fosse um fenômeno de compreensão bem mais fácil. Na dúvida, se ocorria algum problema no cenário internacional, a possibilidade era de que remetesse de algum modo à rivalidade entre EUA e URSS. E aquela rivalidade que teria sumido junto com a União Soviética nos anos 90 pode estar escondida por aí, ter um capítulo novo e ser bastante relevante no cenário caótico contemporâneo. 

Contrariando algumas expectativas (inclusive minhas), o fujão Edward Snowden acabou conseguindo seu asilo temporário… na Rússia! Qual o seu destino (ficar por lá, buscar asilo num país sul-americano ou o que for) é um mistério, mas a consequência imediata foi um choque nas relações entre Moscou e Washington. Obama ia visitar Putin… mas já cancelou a viagem. Ainda assim vai participar da reunião de cúpula do G20, em São Petesburgo, mas vai ser um daqueles encontros bem constrangedores. 

O fato é que a Rússia sempre trocou farpas com os EUA faz algum tempo, em questões pontuais. Vale sempre lembrar a questão do escudo de mísseis da OTAN, cria americana que quase levou a Rússia às vias de fato. Ou a famosa questão da lista Magnitski (uma “lista negra” feita por Washington que congela bens e impede a entrada nos EUA e países europeus de alguns cidadãos russos supostamente envolvidos em violações de Direitos Humanos e na morte do jurista homônimo), considerada uma afronta na Rússia. Isso para ficar nos problemas mais famosos.

Ao mesmo tempo, a relação entre os países é importante de um ponto de vista positivo. As negociações para redução de armas estratégicas passam diretamente pelos detentores dos maiores arsenais nucleares do mundo. Os países colaboram ativamente com relação ao combate a terrorismo. Mas é o suficiente para garantir uma aproximação mais sólida? Eventos como esse asilo do Snowden parecem mostrar que não. 

O interessante de tudo isso é ver a imagem atual dos países – e pode explicar muito as razões por trás da decisão de Moscou. Os EUA estão com a imagem muito arranhada: ataques com drones, indecisões na Síria, espionagem internacional e violação de privacidade por todos os lados… Mesmo iniciativas promissoras, como a possível retomada do processo de paz na Palestina, são eclipsadas por notícias negativas como a ameaça terrorista a embaixadas norte-americanas. E a Rússia não vai muito longe disso – o noticiário internacional não é muito favorável a eles também, indo das críticas às violações de direitos humanos à gozação pelas histórias de pescador (literalmente) de Vladmir Putin. 

Dando uma mão a Snowden, a Rússia parece querer mostrar uma imagem de defensora de liberdades, talvez com a intenção muito mais de mostrar uma imagem positiva do que de espezinhar os EUA mais uma vez. Enquanto isso, o nerd fujão que pôs o mundo em alvoroço passeia de taxi em algum lugar da Rússia…


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Mercado virtual, discussões reais

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A matéria é antiga, mas começou a repercutir pra valer essa semana. Um projeto em tramitação no congresso brasileiro legisla sobre um tema polêmico, pois obrigaria empresas de distribuição de mídia digital a se instalarem em território brasileiro para poderem oferecer seus serviços. Assim, “lojas” on-line como o famigerado serviço Steam (que tanto estrago causa nos bolsos de milhões de jovens quando faz suas promoções) teriam que ter servidores e toda a estrutura de distribuição no Brasil, dando assim suporte aos consumidores e, consequentemente, estando sujeitas a tributação. 

O tema é polêmico e arde no ouvido da maioria dos consumidores de plantão. Boa parte dessa mídia digital são jogos, mas podem ser músicas e tantos outros serviços oferecidos na legalidade pela internet, e quem já mexeu alguma vez na vida com importação sabe das colossais taxas de importação brasileiras (algo em torno de 60%). Quem é crítico logo ressalta o aspecto protecionista de um projeto desses, que seria apenas mais um meio de arrumar dinheiro fácil para o Estado e, bem, o consumidor que se lasque. Por outro lado, um aspecto positivo seria justamente o fato de dar suporte em caso de problemas (muito comuns) nessa terra sem lei que é o e-commerce. 

São esses dois lados da moeda que trazem as discussões interessantes que o tema levanta. O primeiro é a questão do protecionismo. Faz tempo que uma reforma tributária é necessária, mas deve demorar muito para sair. E isso afetaria as taxas de importação, que OMC à parte, servem para resguardar alguns setores e acabam afetando outros que não têm muito a ver. O exemplo do mercado de jogos é bem ilustrativo – não existe um mercado nacional forte, e os grandes lançamentos e sistemas vêm de fora. Isso está mudando gradualmente, mas a dependência desse setor do mercado externo ainda vai longe. Como justificar a taxação? Proteção à “indústria de jogos” nascente? O consumidor deve pagar a mais por algo que não é oferecido naturalmente no mercado interno? Por outro lado, existe também a questão do custo de oportunidade, já que a tributação é meio que uma compensação pelo dinheiro que está sendo mandado embora do país, e a defesa desse mecanismo em grande parte se baseia nisso. 

No meio dessa discussão, fica o consumidor, que é o protagonista da segunda questão. E-commerce é legal e prático, mas toca num problema importante que é a jurisdição nacional. Temos um código de proteção do consumidor avançado e que, apesar dos pesares, na teoria protege o consumidor em quase todas as situações, mas nada pode fazer quando falamos em transações internacionais. Coisas mais triviais como garantias, reembolsos ou devoluções podem se tornar um pesadelo. No caso de distribuição de mídia digital, esse problema é menos comum, mas ainda assim existe. O problema é definir como funciona o serviço, já que não se troca mercadorias físicas, apenas… dados. Eis a raiz do problema, e que vai muito além do comércio. Num mundo interligado por redes, onde começa e termina o território ou jurisdição de um Estado? Como taxar um serviço consumido no Brasil mas que é oferecido por um meio físico que se encontra no exterior? E nem tocamos nas questões que andam chamando a atenção nesse ambiente “virtual”, como a liberdade de expressão e a vigilância governamental.

Enquanto isso, a polêmica matéria está parada desde março (e pode ser que não passe, seja pelo aspecto técnico da discussão, seja devido a alguns problemas de constitucionalidade e pelo teor vago do seu objeto), mas traz discussões que não devem ser esquecidas quando pensamos em uma economia do século XXI. A integração de redes traz esses desafios ao próprio conceito de Estado, e é um jogo que os governantes vão ter que aprender a jogar e dar um jeito de resolver cedo ou tarde.


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It’s a boy!

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It’s a boy. Este foi o anúncio ontem estampado em letras colossais em um dos mais altos edifícios de telecomunicações de Londres, ilustrado em todas as manchetes inglesas, comentado e festejado pela sociedade britânica como o acontecimento do ano. E hoje descobrimos que ele se chama George. George Alexander Louis, o terceiro na linha de sucessão ao trono e o mais novo integrante da tradicional família real britânica.

Entender o furor que novidades relativas à monarquia ainda causam no Reino Unido já foi assunto extremamente comentado à época do casamento do Príncipe William com Kate Middleton, em 2011, e o nascimento deste novo herdeiro apenas nos faz relembrar argumentos já conhecidos.

A monarquia, em verdade, representa parte da identidade nacional britânica, caracterizando-se por ter sido um regime político estável, poucas vezes desafiado (alguns se lembrarão das aulas de história sobre a Revolução Inglesa) e que ainda hoje inspira muita confiança na maior parte da sociedade.

O simbolismo retratado pela Casa Real, seu glamour e tudo que a envolve ainda representa muito para os ingleses, mesmo em pleno ano de 2013. A principal crítica talvez seja relativa aos gastos reais – estimados em cerca de 98 milhões de reais por ano – mas que ainda assim não constituem argumento suficiente para questionar o poder real no país, ainda reconhecido pela maioria como apropriado para o século XXI.

A “plebeia que se tornou princesa”, tal como muitos se referem a Kate Middleton, tem certamente ainda contribuído para aproximar a realeza do cidadão comum, que se vê ali representado e que se rejubila com o nascimento do bebê real.

Depois de protagonizarem o “casamento do século”, ainda ouviremos notícias sobre o filho de William e Kate por muito tempo, na certeza de que a monarquia se vê fortalecida e, ao mesmo tempo, renovada na geração do neto de Lady Di. Os desafios que esta forma de governo enfrentará quando o pequeno George estiver em idade e condições de assumir o trono talvez ainda sejam difíceis de serem previstos, mas fica já a certeza de que seu nascimento por si só representa o fortalecimento do regime no país – e (por que não?) do país perante o mundo que acompanha de perto, e com grande interesse, todos os passos reais. 


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