CIA nova no Twitter

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Twitter

E em meio a todo o debate sobre espionagem no meio virtual, eis que a agência de inteligência dos Estados Unidos acaba de inaugurar suas contas no Twitter e no Facebook. De forma irônica, a primeira publicação da CIA no twitter foi “Não podemos confirmar ou negar que este seja nosso primeiro tweet”, em alusão ao posicionamento ambíguo que é frequentemente assumido pela agência sobre seus processos internos.

Águia certeira disfarçada de pássaro azul, tal com a charge acima sugere? Parece que sim. Ao mesmo tempo em que “estreou” nas duas maiores redes sociais do mundo, o serviço secreto estadunidense anunciou a busca por ferramentas capazes de identificar sarcasmo (!) em publicações no Twitter.

Com mais de 500 mil seguidores em menos de dois dias na mencionada rede social, a rapidez com que a CIA está conquistando seguidores parece querer camuflar os maus lençóis em que o governo de Obama se encontra para dirimir os reflexos das críticas de espionagem nacionais e internacionais.

No próprio território do Tio Sam, as principais empresas de tecnologia se unem para incrementar os sistemas de segurança, com o objetivo de evitar a intrusão do governo a suas fontes de informação. Do lado de baixo do Equador, o Marco Civil da Internet no Brasil foi aprovado recentemente para inovar no sentido de promover a neutralidade da rede, bem como o direito à privacidade “on-line”, hoje fatalmente banalizado.

Já na Alemanha, que Snowden mostrou ser tão vulnerável à espionagem quanto o Brasil, foi anunciado essa semana que a justiça do país realizará investigações aprofundadas a respeito das escutas ao próprio telefone celular da líder Angela Merkel, em uma situação cujos custos diplomáticos já se mostram incalculáveis.

Em se tratando de redes sociais, a realidade demonstra que nunca a interatividade virtual alcançou níveis tão elevados como hoje, revelando, paradoxalmente, o potencial de alcance e seus riscos em uma disputa acirrada pelo poder cujas consequências se revelam pouco a pouco, mas cada dia mais: agora ainda com uma nova companhia no Twitter…


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Somos todos humanos

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post racismo

Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e em direitos. Se a Declaração Universal dos Direitos do Homem fosse respeitada por todos aqueles a quem ela se refere, certamente não teríamos tantos casos de racismo sendo noticiados na mídia internacional ainda hoje.

Às vésperas do maior evento do futebol mundial, temos visto uma série de manifestações racistas no esporte, gerando debate sobre um tema que não deveria nem mais entrar na pauta, já que distinção alguma existe (ou deveria existir) entre os seres humanos.

O jogador da seleção brasileira Daniel Alves, ao comer uma banana que lhe foi lançada em campo durante o importante torneio de futebol espanhol, provocou uma polêmica reação liderada por Neymar (a partir de uma ação de uma agência de publicidade, vale registrar) em que o lema “#somostodosmacacos” rapidamente causou grande repercussão nas redes sociais.

O que aconteceu com Daniel Alves não representa um caso isolado no esporte, mas, muito pelo contrário, infelizmente – e não apenas no futebol – casos semelhantes têm acontecido com frequência no Brasil e no mundo inteiro.

Fato é que o esporte tem um poder de mobilização talvez muito maior que qualquer outra área, e que racismo não é uma problemática que se restringe às quadras e campos, mas que ainda aflige especialmente os mais vulneráveis espaços da sociedade. Merece, portanto, ser combatido não apenas com frases em redes sociais, mas também e principalmente por ações no dia-a-dia.

Em situação internacional emblemática essa semana, a ministra francesa da Justiça não cantou o “A Marselhesa”, o tradicional hino da França, em cerimônia de comemoração da abolição da escravidão no país. A polêmica se alastrou devido à frase do refrão do hino em que se entoa “nossa terra do sangue impuro se saciará”, em alusão às lutas contra exércitos estrangeiros…

Independentemente da situação, vemos que a questão racial ainda persiste como uma fonte de rancor, violência e distinções na sociedade. Campanhas publicitárias representam apenas estratégias para uma reflexão que precisa ser intrínseca a todas e a cada uma das pessoas para que a raça deixe de se tornar critério, razão ou fundamento de qualquer ação ou discussão. Acima de tudo, somos todos humanos.


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Imagem da Semana

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senna
E a imagem dessa semana não poderia deixar de ser também uma homenagem ao ícone Ayrton Senna, cuja trágica morte há exatos 20 anos ainda parece um acontecimento bastante recente na mente dos brasileiros e dos fãs mundiais do automobilismo.

Exemplo de esportista e cidadão, a fatalidade que levou sua vida no Grande Prêmio de San Marino, em Ímola (Itália), ainda é lembrada com tristeza e consternação, tendo ocorrido no auge de uma carreira já vitoriosa, mundialmente (re)conhecida, mas ainda bastante promissora, com seus apenas 34 anos de idade.

Na curva Tamburello do circuito italiano, foi realizada uma grande homenagem na última quinta-feira, 1º de maio, no horário exato de sua batida em 1994 (foto). Senna tem sido lembrado em inúmeras ocasiões e de formas diversas pelos seus admiradores no mundo inteiro, especialmente esse ano. Reconhecido como um dos maiores pilotos da história da Fórmula 1, ele foi (e é) responsável por levar as cores do Brasil a todos os cantos do mundo e inspirar multidões há 20 anos (e ainda hoje).


Direitos on-line

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Marco Civil
Hoje, uma forma interessante de avaliar nossa vida pode ser dividi-la em dois momentos diferentes: on-line e off-line. No seio de uma sociedade em que estamos cada vez mais conectados e com as ferramentas da internet se ampliando e se tornando mais acessíveis, o debate sobre os direitos e deveres no mundo on-line não pode ser evitado.

A recente polêmica envolvendo Snowden e as denúncias de espionagem norte-americana impulsionou no Brasil a urgência em relação a uma preocupação antiga envolvendo a regulamentação no cenário virtual. Nessa semana, marcos importantes para o país foram registrados. Com a proximidade do “Encontro Multissetorial Global Sobre o Futuro da Governança da Internet” ou simplesmente “NetMundial”, um seminário internacional previsto para os dias 23 e 24 de abril em São Paulo, as discussões sobre o inédito Marco Civil da Internet se tornaram, não por acaso, urgentes em Brasília.

Se os direitos e deveres dos cidadãos em sua vida off-line são regidos pela Constituição Federal, o Marco Civil pretende ser, para a vida on-line, também uma “carta de direitos e obrigações”. Pioneira no Brasil e no mundo, a iniciativa problematiza uma questão recorrente e global acerca da necessidade de regulamentação deste território de inesgotáveis possibilidades.

O projeto de lei foi sancionado pela presidenta Dilma na abertura do evento, demonstrando que o tema do combate à espionagem se tornou de fato uma prioridade de seu governo nos últimos meses, e tramitou em regime de urgência para aprovação “em tempo recorde” (foto) pelo Senado, a tempo de ser celebrado durante o “NetMundial”.

Criticado, em certa medida, por ativistas que consideraram que a minuta do texto de lei foi suavizada em sua versão aprovada, temendo pela proteção dos direitos humanos, o texto versa, essencialmente sobre os seguintes temas: neutralidade, privacidade, qualidade do serviço, exclusão de conteúdo e armazenamento de dados (lei o texto completo aqui). Após sua publicação realizada essa semana no Diário Oficial, a lei entrará em vigor daqui a dois meses.

Os dois dias de discussão do evento culminaram também em um documento inédito com recomendações sobre os princípios de governança da internet e as perspectivas futuras para a evolução na governança desse ecossistema virtual, a partir das contribuições de mais de 90 países participantes do evento (leia o documento completo, em inglês, aqui).

Certamente, discutir a temática dos direitos humanos no cenário virtual não é um tema simples e que se esgotaria em dois dias de evento. Pelo contrário, o seminário foi considerado apenas um pouco de partida, cujos resultados talvez tenham sido superestimados, mas cujo potencial não pode deixar de ser notado.

Nos próximos meses, poderemos entender na prática como o novo marco influenciará as nossas vidas enquanto cidadãos brasileiros e de que forma este possa vir a ser aperfeiçoado, porém o que já está mais do que claro é que o território virtual não é mais desconhecido, mas sim objeto importante de muitos debates para a garantia dos nossos direitos on-line…


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As reais imagens de Sochi

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Sochi Simbolo

Na última sexta-feira houve a abertura oficial dos Jogos Olímpicos de Sochi 2014, na Rússia. O que apareceu na televisão foi eloquente, bonito e alegre como normalmente são todas aberturas de grandes eventos. A delegação de doze atletas brasileiros foi saudada como carinho, a delegação estadunidense entrou ovacionada parecendo esquecer-se do boicote ocorrido em ocasião passada e a delegação russa fechou tudo com o “espetáculo de encher os olhos”.

Até aí tudo bem. No máximo divulgou-se que houve uma falha na abertura dos anéis olímpicos, porque o último deles permaneceu fechado e, adivinhem, representa o continente americano. Talvez tenha sido até proposital para as teorias da conspiração dizerem que o suposto erro representa os velhos tempos de Guerra Fria com o embate entre Estados Unidos e União Soviética.

Brincadeiras à parte, vamos às reais imagens de Sochi:

1) Corrupção

Somente uma parcela mínima da mídia divulgou que a olimpíada russa custou mais que o dobro da Copa de 2014 e Rio 2016 juntas, somando um valor não-oficial de 50 bilhões de dólares! Isso, inclusive, foi postado no texto “Imagem é tudo” aqui na Página Internacional. Segundo dados da ONG Fundação Anti-Corrupção, esse montante representa de 1,5 a 2,5 a mais do que o normal se comparado com outras olimpíadas de inverno. Em Pequim (2008) foram gastos 43 bilhões de dólares, em Vancouver (2007) 7 bilhões, em Londres (2012) aproximadamente 14 bilhões e no Rio de Janeiro (2016) estima-se um total de gastos/investimentos nessa ordem também de 14 bilhões de dólares.

2) Preconceito contra homossexuais

Em janeiro, o presidente russo, Vladimir Putin, disse publicamente que os visitantes gays que desejavam ir aos jogos de Sochi não deveriam temer o país, mas que os mesmos precisavam “deixar as crianças sozinhas”. Dias atrás a ONG Human Right Watch (HRW) publicou um vídeo em que são mostrados diversos ataques a gays e lésbicas no país. As imagens são revoltantes e diversas organizações acusam o governo conservador russo de perseguir os homossexuais e não investigar seriamente os ataques feitos contra os mesmos. Essa questão vai muito além das olimpíadas, mas até mesmo Thomaz Bach, presidente do Comitê Olímpico Internacional (COI) afirmou na abertura que os jogos são “festival de esportes que abraça a diversidade humana e sua grandiosidade”.

3) Exclusão social

Em matéria intitulada “Sochi tem o ouro. Vila ignorada tem a poeira”, o New York Times trouxe a notícia do total descaso do governo para com regiões vizinhas de Sochi, citando o caso do vilarejo de Akhshtyr, o qual é situado entre dois complexos esportivos dos jogos. Lá não há combustível, a qualidade da água é horrível e não existem estradas de escoamento ou que permitam a saída tranquila e viável dos moradores. As imagens podem ser encontradas no link da notícia e revelam o outro lado de Sochi, literalmente.

Cidade Sochi

Obviamente, a abertura dos jogos é legal de assistir e os esportes ganham uma nova roupagem nessas épocas. Entretanto, muito mais do que isso, é preciso atentar-se e aludir algumas questões que ficam “embaixo do tapete”. Era para eu ter escrito o texto da “Imagem da Semana” aqui na Página Internacional, mas acabei escrevendo sobre as reais imagens de Sochi que não aparecem na TV. Corrupção, preconceito e exclusão social são algumas delas.


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Imagem é tudo

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A Rússia está nos holofotes essa semana, seja pelo improvável duelo de olhares entre seu presidente e um filhote de leopardo, seja pelo início no dia de hoje das Olimpíadas de Inverno, na cidade de Sochi, seja pela escalada da crise ucraniana que gradualmente está se tornando um romance de espionagem da Guerra Fria.

Se o caro leitor acha que a gastança do Brasil com a Copa e Olimpíadas já causa alvoroço e indignação por esses lados (como já esperávamos há alguns anos…), o caso de Sochi é ainda pior. Basta dizer que o dinheiro gasto para a realização dos jogos supera a quantidade de TODAS as edições anteriores somadas. Entre outras coisas, até a neve tem que ser “produzida” para o evento – já que, entre tantas cidades literalmente congeladas no país, escolheram uma em que o sol brilha forte nessa época do ano. As denúncias de superfaturamento e corrupção deveriam ir lado a lado com o quadro de medalhas, mas com a liberdade de imprensa bastante comprometida naquele país, resta à comunidade internacional observar o boicote de alguns atletas e políticos internacionais ao evento como protesto. E isso para não entrar na questão da ameaça dos possíveis ataques terroristas, já que a localização dos jogos é perfeita para isso.

Mas o que está chamando a atenção mesmo é o caso da Ucrânia, por que a briga com os EUA remonta aos tempos da bipolaridade. Resumindo a ópera, a população ucraniana protesta desde novembro do ano passado contra a decisão do governo de cancelar um acordo com a União Europeia, supostamente sob pressão russa, e a tensão se desenrola há meses. EUA e Rússia fazem parte dos esforços de negociação para resolver o impasse, mas um vazamento nessa semana esquentou o clima: provando um pouco de seu próprio veneno, a secretária de Estado adjunta dos EUA foi flagrada em conversa com o embaixador norte-americano nos EUA, na qual ofendia (pra dizer o mínimo) os esforços da UE em participar do processo. A troca de acusações vai para todos os lados: os EUA acusam a Rússia de espionar e vazar a conversa, a Rússia acusa os EUA de ajudar a oposição e a UE fica indignada com tudo isso.

O que vemos aqui é uma clara mensagem do governo russo de exibição de poder. O caso da Ucrânia mostra que mais uma vez a Rússia expande e tenta manter sua esfera de influência. Os EUA espionam todo mundo? “Nós também podemos”, responde entrelinhas Moscou (na verdade todos fazem isso, mas já é outra história). A China fez a mais imponente Olimpíada de todos os tempos? Putin faz nevar em uma cidade ensolarada para os Jogos de Inverno. E encerramos esse raciocínio com a imagem do presidente entre os leopardos. A ideia, oficialmente, é de divulgar uma iniciativa ecologicamente correta sobre um santuário para a preservação desses animais, mas é claro que aparecer amansando feras selvagens adiciona mais um capítulo no imaginário desse presidente “folclórico”, por assim dizer. Sua ideia de reerguer a Rússia no plano internacional é clara. E para isso, um país precisa demonstrar recursos de poder, seja duro ou brando. E a Rússia está demonstrando que domina ambos, com foco na figura desse presidente enigmático e matreiro.


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Tra(d)ição

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A capacidade dos estadistas em contornar crises é um dos ossos do ofício, mas quando isso envolve problemas pessoais sempre existe uma carga dramática maior. Ontem, o presidente François Hollande da França fez um discurso semestral de balanço, no qual apontou as dificuldades e metas para a economia francesa (um tema bastante importante, já que está sendo obrigado a retomar muitas políticas de seu impopular antecessor), mas a imprensa queria saber mesmo é de seu possível caso extraconjugal com uma atriz e como fica a primeira-dama nisso tudo (perguntas das quais habilmente se esquivou).

Para situar um pouco o leitor, temos Hollande, o presidente francês, que é separado e vive numa espécie de “união estável” com a jornalista Valérie Trieeweiler (a da foto, que a rigor é a primeira-dama, apesar de não ser “oficialmente”). Porém, revistas de fofocas descobriram escapulidas de Hollande com a atriz Julie Gayet, e isso tudo resultou numa crise doméstica com Trieewieler, que está hospitalizada após uma crise depressiva. 

Parece que essa avidez por detalhes sórdidos da vida pessoal dos chefes de Estado é uma coisa bem europeia. Na França mesmo, Sarkozy dividia a vida entre a coluna política e a social por causa de seu badalado relacionamento com Carla Bruni. Já na Inglaterra, o caso mais famoso, isso chega a ser patológico e move uma “indústria” de imprensa marrom inteira. Mas basta lembrar do estardalhaço amoroso do governo Clinton para ver que não é exclusividade do velho mundo (apesar de quem os EUA têm uma tradição em garimpar escândalos de seus presidentes, mas isso é outra história).

É estranho pensar sobre isso quando falamos, por exemplo, do Brasil (quando a coisa mais parecida foi lá na época do Itamar Franco, quando tiraram fotos indiscretas da Lilian Ramos junto do então presidente no carnaval de 1994). Temos tudo para oferecer histórias picantes, mas nada estoura, seja pela falta de uma imprensa dedicada a isso (e muito mais preocupada com conchavos políticos e denúncias para todos os lados) ou mesmo de “material humano”. Na verdade, é interessante reparar que a maioria das mandatárias pelo mundo nem chega a ter um “primeiro-cavalheiro”, como a própria Dilma (tínhamos o finado Nestor Kirchner da Argentina, mas hoje o mais relevante é o Dr. Joachim Sauer, um discreto professor universitário que deve ser mais famoso pelo trabalho como químico quântico do que por ser esposo da primeira-ministra alemã Angela Merkel), o que evita uma enormidade de problemas quanto a mexericos sobre a vida pessoal. 

Afinal, qual a importância de saber se tal presidente fez voto de castidade ou vive com concubinas? Quando vida pessoal vira assunto de Estado? Existe muita história atrás disso, mas a estrutura do poder atual é uma repercussão da vida em sociedade. Espera-se “retidão” do cidadão que teve os poderes do estado investidos nele. Como confiar a cambaleante política econômica a uma pessoa que trapeia a própria companheira? Obviamente uma coisa não absolutamente nada a ver com a outra, mas existe o tal conceito do homem público, que vive para o Estado, e sua vida particular passa a fazer parte disso, especialmente aos olhos daquela entidade nebulosa chamada opinião pública. Talvez seja justamente esse resquício de patriarcalismo que facilite a vida das chefes de Estado, já que estão “entrando” no sistema de maneira relativamente recente e não precisam obedecer às “regras” do jogo – mas essa é uma discussão que vai longe. 

Enquanto isso, Hollande fica com a dor de cabeça, Trieeweiler com a depressão, Gayet com a fama, os jornais com a audiência e temas frugais, como economia e intervenções militares na África, esquecidos.


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Copa do Mundo para quem? A ótica da cidade-mercado

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Fonte: boleirosdaarquibancada.com


A pergunta do título deste texto já apareceu há muito tempo aqui no Brasil. Foi estopim e frase de impacto utilizada nas manifestações que ocorreram em junho por motivos bem conhecidos por todos nós: aumento da tarifa de ônibus, PEC 37, falta de saúde pública e, com destaque para o que vou dizer, a Copa das Confederações e a Copa do Mundo de Futebol. Recebi dia desses em casa um folheto com a lista de estádios e as datas dos jogos da Copa. Chega a ser engraçado, pois vários estádios são ilustrados por projeções de computador em imagens 3D. Muitos estão atrasados e têm investimentos caríssimos. Mas tudo em prol da paixão do brasileiro, o futebol, não é mesmo?  

Acabei de assistir a um vídeo (veja aqui) realizado pelo muito conhecido Instituto Pólis, ONG que desenvolve projetos e estudos nas áreas de cidadania, políticas públicas e desenvolvimento local, e apoiado pelo Ministério da Cultura e outras instituições. Cumpre dizer que o vídeo, em espécie de documentário com algumas entrevistas, é curto e excelente! Posso resumi-lo da seguinte maneira: comemorou-se muito a escolha do Brasil para sediar a Copa do Mundo agora em 2014, mas qual a “verdadeira verdade” que vem ocorrendo com as populações pobres e carentes que moram nos entornos dos grandes estádios das capitais? Especialistas esportivos, cientistas sociais e funcionários das Nações Unidas comentam brevemente tal realidade. No final, o que se vê é uma triste utilização da força e da coerção por parte do Estado para banir, deslocar e interceptar quaisquer tentativas das comunidades e bairros adjacentes em continuar alocadas em seus territórios. 

Pois bem, a maioria tem conhecimento do que falei no primeiro parágrafo. E, acredito, várias pessoas, mesmo que de maneira sutil, sabem do que é comentado no vídeo supracitado. Meu objetivo agora é trazer o que é mostrado para a ótica das relações internacionais. Sabe-se que o Brasil é, atualmente, um “global player” e que a escolha para ser sede da Copa ilustra esse fato. Mas como podemos observar as mudanças ocorridas nas cidades em virtude do evento? Afinal, as cidades, principalmente a partir do final do último século, também estão se internacionalizando. Tais atores participam de redes, irmanamento e detêm progressiva inserção externa. 

Obviamente, não falo de todas as cidades. Entretanto, cito as chamadas megacidades, as quais possuem mais de 10 milhões de habitantes, e as cidades globais, conceito criado pela socióloga holandesa Saskia Sassen para caracterizar tais entes políticos com extensa articulação empresarial e monetária. Exemplos? Tóquio, Londres, Nova Iorque… Mas ainda posso citar São Paulo, símbolo nacional. E de cidades globais, lembro-me de Dubai, nos Emirados Árabes Unidos. “Cidade show” com ilhas artificiais, o maior edifício do mundo e por aí vai. Tudo isso para quê? Para mostrar e consolidar sua imagem internacional. Afinal, não foi por acaso que Dubai conseguiu ganhar a disputa para sediar a EXPO 2020

Mas volto ao Brasil, à Copa e às nossas cidades. Os jogos serão realizados em estádios nas capitais. Pego três casos: São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília. Há indícios de desapropriação de casas e bairros na capital paulista e na capital carioca (conforme mostrado no vídeo para o caso do Rio). Em Brasília não há esse tipo de problema, porque no grande centro da capital federal, onde está o Estádio Mané Garrincha, não existe periferia. Quem mora no plano piloto não são pobres ou carentes. Tudo em prol para mostrar as belezas para as autoridades que lá chegam. Triste realidade… 

Com a Copa do Mundo, o Brasil estará em evidência e sob os holofotes internacionais. Qualquer erro será imperdoável! Há problema na questão das cidades promoverem suas inserções internacionais e melhorarem suas imagens? Não, até porque é algo comum hoje em dia nas relações internacionais. O cerne da questão encontra-se na mercantilização de tal inserção externa, ou seja, no que se denomina de cidade-mercado: de maneira grosseira, lógica segundo a qual a cidade não se preocupa com questões políticas, sociais, culturais, mas sim com o fomento e atração de capitais e negócios em benefícios daqueles que possuem a famosa “grana” ou “bufunfa”. 

E depois que a Copa acabar? Parece que ninguém se importa com isso e com os elefantes brancos que alguns estádios tornar-se-ão. Infelizmente, aqui no Brasil algumas cidades estão mexendo em suas estruturas institucionais, focando especialistas e dinheiro para uma perspectiva de curto prazo. No Rio de Janeiro, conforme observado no vídeo, não existe preocupação com a derrubada de casas. Removem pessoas que residem em comunidades há mais de 30 anos para um evento com duração de um mês… 

Dito isso, repito a pergunta: Copa do Mundo para quem? No caso das cidades, poderia haver um pensamento e uma estrutura de longo prazo para suas internacionalizações muito além dos jogos de futebol. Contudo, a lógica da cidade-mercado vem prevalecendo em várias delas. Serão essas cidades os palcos dos jogos e possivelmente os palcos dos protestos e manifestações iminentes nos próximos meses. Lembremos que em outubro teremos eleições presidências. E são elas que poderão acabar nos pênaltis. Não nos estádios e nas cidades-mercados, mas sim nas urnas eletrônicas… 

PS: Para os interessados no debate sobre cidade-mercado, vide texto de Luiz Cesar Ribeiro e Marianna Olinger intitulado “A favela na cidade-commodity: desconstrução de uma questão social”. O debate não está focado nas Relações Internacionais, mas demonstra como as favelas e bairros pobres passaram da ótica social para a visão de mercado nas cidades hospedeiras.


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Quem vai ficar com Snowden?

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Já comentamos anteriormente que Edward Snowden é como aquele presente que ninguém quer ganhar – ele fez revelações bombásticas que tiveram muito impacto na política internacional, mas quando ele precisar de ajuda, não haverá muitas mãos amigas dispostas a tirá-lo do sufoco. Em junho, ele conseguiu se refugiar na Rússia, e ganhou um ano para ficar por lá. Toda aquela discussão sobre possibilidades de asilo ficou para um segundo momento – por enquanto. Pois tão logo termine o prazo, Moscou não parece tão inclinada a se indispor com Washington novamente e Snowden vai precisar se virar. 

É nesse contexto que surgiu a tal carta aberta aos brasileiros, de sua autoria, revelada ontem. Pra quem não viu, Snowden fala aos brasileiros que poderia ajudar nas investigações sobre as violações de privacidade da NSA, impedido apenas por que enquanto não estiver em um asilo definitivo sempre estará cercado. Para bom entendedor, meia palavra basta, e apesar de não expressar o desejo de asilo no Brasil em momento algum (e dessa intenção ser negada pelos seus interlocutores), a intenção é bem clara. 

Buscar refúgio no Brasil não seria má ideia, se até carrascos nazistas conseguiram se esconder por aqui, quanto mais uma pessoa bem-intencionada (até onde se sabe) como Snowden. A chave disso tudo é que Snowden está enrascado – os países ocidentais, mesmo que ultrajados com a espionagem norte-americana, jamais vão conceder asilo pelo risco que correm de sofrer retaliação dura do Tio Sam. Mesmo a Venezuela, que em outros tempos aventava essa possibilidade, não tem mais a figura de Chavez (pelo menos, pessoalmente) para espezinhar os EUA e certamente não iria querer enfurecer seu maior comprador de petróleo em tempos de crise econômica. Restariam os países que são declaradamente “contra” os EUA, como um Irã ou Coreia do Norte, mas pelo fato de Snowden ter feito o que fez pelo bem da liberdade de informação e proteção de direitos individuais, essa possibilidade parece bastante improvável, pra não dizer ridícula. 

Uma boa aposta seria justamente o Brasil. Foi o país que mais mostrou indignação com a espionagem (a ponto de gerar um mal-estar na Assembleia Geral da ONU), está junto da Alemanha em uma possível revisão da governança da internet, e tem todo um histórico de proteção a refugiados. Já existem movimentações para aceitar essa “proposta”. A grande dúvida é se o Brasil poderia realmente aceitar a vinda de um procurado com embasamento relativamente sólido em sua acusação, e arrumar mais uma briga com Washington de lambuja. Planejar sua política externa com a previsão de decadência da potência americana (como o Brasil andou fazendo, e equivocadamente) é uma coisa, dar abrigo a um dos homens mais procurados dos EUA e ensejar uma crise diplomática e política severa, outra bem diferente. A única certeza disso tudo, apesar de ter feito um grande serviço ao mundo (dependendo do ponto de vista), Snowden está frito. E pode levar um país junto dele.


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Black Friday

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E chegou o grande dia esperado por milhares de brasileiros. Ir a alguma loja física ou praticar o e-commerce com descontos de até (grifo meu) 70% sobre o preço real. Já peço desculpas pelo bordão: “Só que não!”. Teoricamente a Black Friday é o dia do ano com as maiores promoções e descontos do comércio, mas na prática, aqui no Brasil, isso está longe de ser real. 

A “sexta-feira negra” foi criada nos Estados Unidos em 2005 como tentativa dos comerciantes e empresários em alavancar as vendas sempre no final de novembro e logo após o feriado de Ação de Graças, o qual é muito comemorado e exaltado por lá. Para os norte-americanos, estar com orçamento no “black” significa um bom sinal e é sinônimo de lucros (não sabia disso até hoje e não me pergunte o porquê). Com o passar dos anos, o dia tornou-se internacional, diga-se de passagem, e atualmente ocorre em vários outros países como Canadá, Austrália e Reino Unido. 

Obviamente, rumou ao Brasil, até porque não só programas de tevê como “Big Brother” e “The Voice” são copiados por estas bandas. Carece de fontes, mas se estima que tal evento foi inaugurado aqui em 2010, sendo que me lembro somente do realizado em 2012. Virou sinônimo de piada, falsas propagandas e “feriado pré-natal” em virtude de vários lojistas aumentarem o preço na véspera e jogarem descontos em valores mais altos. 

Como se já não bastasse, agora em 2013 a Black Friday virou “meme”, algo viral e que ficou popular em muito pouco tempo na internet e redes sociais. A sexta-feira virou Black Fraude, “Tudo pela metade do dobro”, “Black Friday é uma cilada, Bino”, “Black is a Trap” e assim por diante. Hoje, no Facebook, só se fala disso e nada mais. É gente tentando vender e o PROCON tentando orientar os consumidores para não trocarem coelhos por lebres. 

Nada mais internacional do que a Black Friday, né? Saiu da terra do Tio Sam, vem rumando para outros países e serve como mais um dia para todo mundo comprar coisas que, por vezes, seria desnecessário. É aquela história de já aproveitar o fim do ano com presentes de Natal e propagar a ideia de que adquirir itens “x” é bom demais (e em algumas ocasiões não deixa de ser verdade). Até o Greenpeace lançou a campanha Green Friday para criticar o consumismo da “sexta-feira negra” e defender a preservação das florestas. 

Pode esperar que daqui uns tempos surgirão Yellow Friday, Blue Friday, Purple Friday, etc. O nome em inglês fica mais bonito e sempre haverá pessoas comprando a ideia. Tomara que essas não virem fraude, independentemente do motivo de suas existências.


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