A desumanidade nossa de cada dia

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Broimp

 

A selvageria das execuções do grupo Estado Islâmico chama a atenção do mundo. Quando decapitações (nenhuma exclusividade deles, a propósito) não eram chocantes o suficiente, a imolação do piloto jordaniano causa comoção e uma reação de países ocidentais clamando pelo confronto ao grupo e da Jordânia executando terroristas convictos prisioneiros (mesmo não tendo, a rigor, nada a ver com o ISIS). É a improdutiva lei de Talião, pura e simples.

Por que isso chocou tanto? Na história da humanidade, se existe uma coisa que o ser humano demonstra saber fazer muito bem é matar uns aos outros. Decapitações são até benevolentes quando comparados a outros métodos de execução, e mesmo queimar gente viva não parece tão cruel. Entre outros, por exemplo, destaco o “necklacing” africano (em que um pneu cheio de óleo é colocado ao redor de uma pessoa e ateado fogo para que queime lentamente), a morte por animais selvagens nas arenas romanas, fervura (com a pessoa mergulhada em óleo ou água fervente e virando um pastel humano), evisceração (arrancar órgãos de pessoas vivas, especialmente o coração), empalação (atravessar com uma estaca de baixo para cima, famosa por conta de um certo Vlad Tepes, o lorde romeno que inspirou o Drácula de Bram Stoker) e, possivelmente o mais aterrador, aquele chamado escafismo, praticado pelos persas (em que uma pessoa é largada em um barco, besuntada em mel e nos próprios dejetos, para que seja devorada por aves, insetos e vermes num suplício que duraria mais de uma semana).

Isso serve para aliviar a barra dos radicais? De modo algum. Mas por que causa tanta indignação? Polícias do mundo todo cometem atos de tortura que, se não causam a morte, são tão dolorosos ou degradantes quanto os mencionados. Prisioneiros em campos de concentração nazistas passaram por horrores indescritíveis antes das câmaras de gás. Pessoas pobres sofrem privações e fome que são uma violência inadmissível no século XXI. O problema em si não é o modo como as execuções ocorrem, mas como são divulgadas. A tortura policial ocorre às escondidas. A tortura nazista é parte dos livros de história e da memória dos sobreviventes (apesar de ser uma das causas para o fortalecimentos dos regimes de Direitos Humanos, inegavelmente). Os miseráveis são “invisíveis” nas periferias e sarjetas. Mas as mortes do ISIS? Circulam pela internet e fazem parte do cotidiano do noticiário. É claro que o ultraje resultante é maior.

Geralmente, a morte como pena serve como punição exemplar. Lembrem da casa do Tiradentes sendo demolida e o terreno salgado, para humilhar sua descendência e mostrar para o resto do povo como seria ruim se revoltar contra a Coroa de novo. As mortes do ISIS seguem esse padrão de mensagem? Aparentemente, nem tanto. “Aceitem nossas condições, libertem nossos colegas, reconheçam nosso califado, senão…”.

Não importa como a morte ocorre – poderia ser um fuzilamento, enforcamento, o que importa é a ideia de haver pessoas sendo mortas como uma moeda de barganha com a comunidade internacional. Em menor escala, é o que ocorre quando países negociam a troca de espiões capturados ou cidadãos presos – mas sem que, geralmente, essas vidas estejam em risco. Mesmo quando são pessoas condenadas à morte, como no recente caso dos brasileiros presos na Indonésia, a causa da pena capital é relacionada ao próprio indivíduo, não sendo uma ameaça a seus Estados de origem. O caso do ISIS é inovador no sentido que praticamente está havendo uma negociação de sequestro internacional com um grupo que almeja se tornar um Estado, quebrando todas as “regras” que os próprios Estados seguem, e que de maneira indireta consegue um pouco de sua intenção justamente pelo reconhecimento recebido e a importância que a questão consegue na política e mídia internacionais. O emprego de métodos não-convencionais e chocantes é apenas uma ferramenta, e não o objetivo da execução em si.

Mortes horríveis, vidas desperdiçadas de todos os lados. Mais que a obtenção de resultados políticos, o caso das execuções do ISIS reforça, uma vez mais, o velho argumento realista de que o ser humano, em geral, não presta mesmo.


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Imagem da Semana

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Obama

A imagem da semana revela uma situação inusitada envolvendo o presidente Obama – ou mais especificamente suas duas filhas adolescentes. Seguindo a tradição estadunidense, Obama presidiu, na última quarta-feira, uma cerimônia típica da véspera do Dia de Ação de Graças, em que são “perdoados” dois perus que normalmente seriam consumidos no dia seguinte.

O inusitado da situação, na verdade, envolveu a postura das filhas presidenciais, Sasha e Malia, durante a cerimônia. As meninas trocaram olhares entediados e foram duramente criticadas por Elizabeth Lauten, assessora de imprensa do congressista republicano Stephen Fincher, em sua página no Facebook: “Eu sei que vocês duas estão no terrível período da adolescência, mas vocês são parte da família presidencial – tentem mostrar alguma elegância. Pelo menos respeitem o papel que desempenham”.

Filhas Obama

A situação está gerando tamanha comoção que Elizabeth já se desculpou publicamente e anunciou que pedirá sua demissão no dia de hoje


A injustiça recorrente

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Rioting erupts in Ferguson, Missouri after police involved shooting of an unarmed teen

O enredo é conhecido, bem como o desfecho. Periferia de um centro urbano, jovem negro abordado pela polícia, algo sai muito errado. Os policiais atiram contra o suspeito, que acaba morrendo. Na versão oficial, era alguém perigoso, que reagiu e foi alvejado por resistir à voz de prisão. Segundo a família e conhecidos, era uma pessoa de ficha limpa, honesta, que se tornou a mais nova vítima de uma polícia despreparada. A indignação na comunidade explode rapidamente, com protestos nas ruas, pneus queimados para interromper o trânsito e as forças policiais são mais uma vez enviadas para conter a turba. Enquanto parte dos manifestantes aproveita a baderna para promover quebra-quebras, destruir vidraças e saquear lojas, a polícia reprime com violência desproporcional parte das manifestações, o que gera indignação na mídia local e internacional. Quando as coisas parecem esfriar, os policiais envolvidos na morte são absolvidos em júri popular e mais uma vez a tensão cresce, com a população indignada pelo fato de que as acusações parecem distantes da realidade.

Brasil? Poderia muito bem ser uma manchete daqueles programas de fim de tarde, mas é exatamente o que está acontecendo nos Estados Unidos, por conta da morte de Michael Brown, o jovem em questão. Durante a semana, até a Guarda Nacional foi enviada à antes pacata cidade de Ferguson para conter os distúrbios. Se o caso mostra que a truculência e despreparo policial para lidar com multidões, bem como a violência policial injustificada contra inocentes não são exclusividade tupiniquim (na verdade, parece ser a regra para o mundo todo), também serve de alerta para uma realidade de exclusão e preconceito ainda latente em um país que mantinha leis segregacionistas até o século passado.

Mais que o ultraje pela morte do inocente, percebe-se uma campanha de demonização da vitima. Mesmo que não fosse mal-intencionada, a culpa é sempre do que resistiu ou não obedeceu a ordens da lei. Provas e depoimentos inconsistentes, canais de notícias veiculando fatos enganosos ou pouco confiáveis sobre Brown, tudo leva a crer que a criação da imagem de um “vilão” para justificar a força letal é símbolo de um racismo que ainda possui grande apelo, mesmo que inconsciente, naquela sociedade.

Há pouco tempo também causou grande comoção a morte de Trayvon Martin, morto em circunstâncias parecidas. O caso de Brown causa mais comoção pelo fato de que alia ao racismo o elemento da injustiça pelo modo ambíguo com que o julgamento dos acusados está sendo conduzido. Mas nesta semana mesmo temos um novo candidato a caso de comoção nacional, com um elemento ainda maior de tragédia por se tratar de uma criança. Apesar de ser uma situação delicada (o menino estaria com uma réplica de arma de fogo ameaçando pessoas numa praça) um vídeo de segurança que capturou a ação mostra que os policiais atiram segundos após chegarem ao local – enquanto segundo a versão oficial teriam dado voz de prisão e apenas atirado quando o menino (mais uma vez) resistiu. Do modo como esse tipo de evento é retratado, fica difícil saber em que ponto terminam os fatos e começam as desculpas, e até mesmo se o menino efetivamente estava ameaçando as pessoas ou apenas brincando de uma maneira pouco saudável.

Dúvidas à parte, fica a certeza de que continuarão a ocorrer muitos fatos semelhantes pelo mundo afora, com jovens negros e pobres “resistindo” à voz de prisão e terminando estirados em calçadas. Mas aqui fica marcada a grande diferença disso para o Brasil – enquanto por aqui essas mortes são até comemoradas e os protestos ficam limitados à região ou bairro onde ocorreu o assassinato, nos EUA a onda de protestos contra o ultraje policial e legal está se alastrando por diversas cidades e terá um impacto social muito maior.


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O Papa é (mais que) pop

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Papa

A frase consagrada em 1990 pelo grupo “Engenheiros do Hawaii” parece mais atual que nunca quando se trata do Papa Francisco. Se ser “pop” é sinônimo de atrair a atenção dos demais para seus atos e mobilizar esforços por causas nobres, estando em posição de destaque, o Papa argentino é mais que pop.

266º líder máximo da história da Igreja, o primeiro latino-americano, Francisco assumiu o pontificado em março de 2013 e nesse um ano e meio já mostrou a que veio. Com suas declarações conciliatórias e demonstrações de humildade nos menores gestos (na foto acima, o Papa cumprimenta um integrante da Guarda Suíça), não caberia em apenas um post uma análise completa acerca da importância de seu papel nos dias de hoje, em que lideranças assim são tão caras e raras.

Entretanto, cabe um comentário reflexivo acerca de duas importantes participações do Papa Francisco em fóruns de grande repercussão internacional nos últimos dias.

Na última quinta-feira, discursando para representantes de mais de 170 países durante a Segunda Conferência Internacional sobre Nutrição, realizada na sede da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), o Papa se fez presente em momento importante de concertação política em torno do tema da fome da desnutrição no mundo.

Ressaltando a necessidade de não se tratar alimentos como quaisquer mercadorias, sua fala privilegiou, dentre outros, o argumento de que os tomadores de decisão na área precisam se guiar pela preocupação com o “sujeito real”, aquele que sofre de fato os efeitos da desnutrição (confira seu discurso completo aqui). Ainda hoje 805 milhões de pessoas sofrem de fome crônica no mundo, revelando que o problema é real e precisa de tratamento urgente por parte dos governos (reveja post no blog sobre o tema aqui e o último relatório da FAO aqui).

Em seguimento à sua participação na reunião em Roma, hoje o Papa discursou no Parlamento Europeu, em Estrasburgo, e comparou o continente europeu a uma “avó cansada”, insistindo para que o bloco não se preocupe apenas com questões econômicas. Um discurso forte, digno de nota, em que o Papa demonstra estar disposto, em suas próprias palavras a procurar “uma solução política para as crises em curso” (leia aqui post recente no blog sobre grandes crises pouco noticiadas).

Sua visita ao Parlamento acontece 26 anos depois da visita do Papa João Paulo II no mesmo espaço, em um contexto ainda de Guerra Fria em que a Europa permanecia dividida. Criticando uma Europa hoje “envelhecida”, o Papa reforça a necessidade de que a Europa reassuma seu protagonismo internacional, com ênfase para a questão da imigração, instando o continente a trabalhar para que o mar Mediterrâneo não se torne um “grande cemitério” (leia posts no blog aqui e aqui).

Comentário ainda sobre a necessidade de se manter a “porta aberta” ao diálogo com o Estado Islâmico, apesar das dificuldades no contexto iraquiano. [Lembrando que esse assunto gerou recentemente enorme polêmica em interpretações realizadas sobre o discurso da Presidenta Dilma na abertura da Assembleia-Geral das Nações Unidas, em Nova York…]

Diante dessas situações, vemos um Papa que, mais que pop, se mostra disponível e atuante no cenário global. Líder religioso cuja projeção se estende muito além do mundo católico, o Papa Francisco tem garantido visibilidade às mais diversas causas humanitárias, revelando que os desafios internacionais nos dias de hoje exigem ação coordenada e disposição redobrada…


Categorias: Direitos Humanos, Europa, Mídia, Paz


Indignação à mexicana

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Existe muita indignação com o grupo Estado Islâmico pelo modo ultrajante pelo qual elimina seus opositores e prisioneiros, degolando pessoas em pleno século XXI. Mas o ultraje deveria ser muito maior quando se pensa que muito mais pessoas sofrem esse destino, ou pior, bem ali no quintal do Tio Sam, por obra dos carteis de narcotraficantes mexicanos.

Desde 2010 temos notícias escabrosas de covas coletivas cheias de pessoas decapitadas, sejam imigrantes ilegais ou pessoas com dívidas do tráfico. Mas parece que foi preciso um novo grau de crueldade para que a indignação internacional finalmente fizesse com que o mundo volte os olhos para a situação do México. Há algumas semanas, estudantes de uma escola rural participavam de um ato em prol de melhorias na educação no estado de Guerrero, e logo veio a repressão policial. Nada de novo, infelizmente, mas o desfecho foi trágico – levados em camburões, 43 estudantes estão desaparecidos até hoje, apesar de dezenas de cemitérios clandestinos e corpos carbonizados terem sido encontrados. A suspeita é de que o governo esteja envolvido com um cartel criminoso e tenha enviado os estudantes para os traficantes realizarem seu trabalho sujo.

A situação do México já era considerada calamitosa há muito tempo do ponto de vista humano – mais de 10 mil mortos na “guerra” contra o narcotráfico desde a década passada. Porém, o aumento da violência escancara uma realidade comum até mesmo ao Brasil – a participação de agentes da lei no crime, mas de maneira muito mais profunda. Denúncias de militares eliminando civis são exemplares não apenas de despreparo das forças de segurança, mas de um governo em que a corrupção e o crime se imiscuem com o Estado.

O que mudou para que esse caso causasse tanta comoção? Talvez o fato de serem apenas estudantes, jovens lutando por seus direitos. Ou o fato de que, estando desaparecidos, ainda haja uma esperança, por menor que seja, da possibilidade de resgate. O fato é que a conivência de setores do Estado para com essa violência está gerando uma onda de protestos pelo mundo, inclusive no Brasil, além de reprimendas oficiais da OEA e da ONU. E claro, apesar da reação do governo federal, inflamou os protestos no próprio México, se espalhando da região para o país todo.

Fora o aspecto humanitário, acima de tudo, este ocorrido deixa uma importante informação sobre os protestos – desde a tal Primavera Árabe de 2011, quase todos os protestos que ocorrem ao redor do mundo estão tendo, em certo grau, uma repressão violenta. Do Bahrein à Ucrânia, de Hong Kong ao México, o desejo de mudança parece não ser compreendido pelos governantes, sob o risco de inadvertidamente fortalecerem o próprio movimento que visam a debelar. Esperamos que seja o caso do que está acontecendo no México.

 


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Imagem da Semana

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Independentemente dos resultados das eleições de hoje por todo o país, a imagem do dia reflete uma triste, apesar de recorrente, situação em época eleitoral: lixo espalhado pelas ruas, principalmente nas proximidades de locais de votação pelo Brasil afora. A foto acima é do Rio de Janeiro e ilustra o extremo de uma situação de poluição eleitoral.

Se a Lei das Eleições (n. 9.504/97) determina que o recrutamento de eleitores ou a chamada propaganda de “boca de urna” pode resultar em multa e detenção, a poluição nas ruas revela uma forma velada de influenciar os eleitores indecisos na última hora, o que, indiretamente, não deixa de constituir também crime eleitoral.

Aliás, toneladas de materiais (panfletos, cavaletes, faixas, etc.) têm sido apreendidas em todo o país durante o período pré-eleitoral por estarem dispostas em locais/horários irregulares. O Distrito Federal bateu o recorde nacional: 350 toneladas de propagandas ilegais – cuja destinação final, ao menos, deverá ser a reciclagem

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Perfumes revolucionários?

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Perfumes

Uma das notícias intrigantes da última semana havia sido o anúncio, por parte da empresa pública de cosméticos cubana Labiofarm, do lançamento de duas novas fragrâncias intituladas… Ernesto e Hugo. A dita “homenagem” ao cubano Ernesto Che Guevara e ao venezuelano Hugo Chávez chamou a atenção – não pelo tipo de fragrância ou pelo interesse dos amantes de perfumes pelo mundo afora, mas principalmente pelo impacto político de se transformar o nome dos líderes revolucionários comunistas em marcas para venda no mercado internacional…

Segundo o laboratório, a escolha dos títulos se deu após pesquisas junto ao público e as famílias de Che e Chávez teriam autorizado o uso de seus nomes para este fim. Nas palavras de Mario Valdés, diretor da área de investigação e desenvolvimento da Labiofarm, “Hugo tem notas cítricas e amadeiradas que dão uma expressão de masculinidade” e “Ernesto tem algo de essências frutadas com elementos de carvalho, que dá um sentido varonil” […]. Por mais que possa parecer irônico, os produtos foram efetivamente anunciados com previsão de lançamento no mercado no início de 2015.

Ontem, contudo, o governo cubano se pronunciou por meio de nota no jornal estatal Granma, caracterizando como “irresponsável” o anúncio dos perfumes, proibindo sua fabricação sob a justificativa de que “os símbolos da revolução são e sempre serão sagrados”.

Discussões entre o governo cubano e suas empresas à parte, o episódio traz a particularidade de mostrar como importantes símbolos políticos podem ter sua imagem capitalizada por empresas que alcançam um nicho de mercado em ampla expansão. Quem nunca viu alguém usando uma camiseta com a clássica estampa de Che Guevara sem nada saber sobre sua história em si? A ideia de “revolução” se torna, cada dia mais, uma mera marca para ser comercializada em prateleiras pelo mundo afora enquanto a real importância política de figuras marcantes (ainda que polêmicas) parece se banalizar diante de aparências que maquiam a complexidade dos interesses políticos e econômicos em jogo…

[PS: Dois outros modelos femininos estavam também sendo produzidos pelo laboratório: Amalia, em referência a Amalia Simoni, importante nome feminino durante a Revolução Cubana, e Alba, em alusão à “Alternativa Bolivariana para as Américas”…]


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Alguém falou em participação social?

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Participacao Social
Alguém falou em participação social? O assunto em pauta é fortalecer as instâncias consultivas de participação da sociedade civil na gestão de políticas públicas? A questão que se coloca é impulsionar a aproximação do cidadão comum das ferramentas políticas existentes em seu próprio benefício?

As respostas às três perguntas são: sim, sim e sim! O tema é essencial, mais atual que nunca e está (como deveria) em pauta, mas gerando divergências políticas que demonstram a sensibilidade suscitada por esse tipo de resposta positiva.

O Decreto 8.243/2014 foi publicado no último dia 23 de maio, após assinatura pela presidenta Dilma durante o grande evento “Arena da Participação Social”, em Brasília (confira o texto completo aqui). O Decreto instituiu o Plano Nacional da Participação Social (PNPS) e o Compromisso Nacional pela Participação Social (CNPS), celebrando o diálogo e buscando consolidar a participação social destacadamente um método de governo. (Leia mais aqui e aqui.)

Mas o assunto não teve repercussão unânime, pelo contrário. Enquanto o Decreto foi celebrado pelo governo, por movimentos sociais e pela sociedade civil em geral enquanto meio para fortalecimento da democracia, a oposição vem criticando duramente a forma como o texto foi aprovado e alguns mais extremistas insinuam até mesmo uma “invasão”/ “competição” do Poder Legislativo por parte dos/com os movimentos sociais.

Se o ideal seria que texto semelhante sobre a matéria fosse aprovado por projeto de lei tramitado via Congresso Nacional, todos sabemos que o plano ideal está, infelizmente, bem distante da realidade…

O texto foi aprovado por decreto presidencial (via Poder Executivo, pois) já que não cria novas instâncias participativas, mas apenas reforça sua importância e as articula em formato de sistema, definindo diretrizes mínimas a serem observadas nos espaços em questão – todos de caráter consultivo e não deliberativo, e que não ferem, portanto, a autonomia legislativa dos representantes eleitos para cumprirem tal função.

No furor desse debate, argumentos alegando o “sucateamento total e absoluto do Congresso Nacional” motivaram até projetos de decreto legislativo na Câmara (PDC 1.491/2014) e no Senado (PDL 117/2014) para anular o decreto aprovado. Houve quem defendesse que “a democracia se dá por meio dos seus representantes no Congresso, legitimamente eleitos”. Mas quem é que está dizendo o contrário?

Falar em participação social vai gerar polêmica sempre e em qualquer situação, e a aprovação de um texto como tal às vésperas de um processo eleitoral tampouco passa despercebida. Contudo, desmerecer a iniciativa ou seus objetivos não parece condizente com a própria concepção de democracia participativa. Alguém falou em participação social? Que bom! E que continuem não apenas falando, mas principalmente aplicando-a no dia-a-dia político…

[Sobre o tema, vale ainda destaque sobre o Fórum Interconselhos, iniciativa de monitoramento participativo acerca da implementação de políticas públicas no Brasil, que foi premiada internacionalmente pelas Nações Unidas há poucos dias (leia mais aqui). Sendo o Decreto 8.243/2014 um reforço às estratégias participativas já empregadas pelo Brasil, alguém realmente duvida que, apesar de a jornada ser longa, estamos no caminho certo?]


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Escândalo à la française

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Fonte: Premium Times

Fonte: Premium Times

O jornal Le Monde, o maior e mais lido na França, apresentou hoje em sua capa diária uma manchete em que diz “O choque da acusação de corrupção”, fazendo menção direta ao mais novo escândalo político do país. Trata-se da detenção provisória por um período de 24 horas pelo suposto envolvimento de Nicolas Sarkozy, ex-presidente francês que governou entre 2007 e 2012, com tráfico de influências, financiamento de campanha ilegal e violação de sigilo de investigação.

Sua pena pode chegar a até cinco anos de prisão e abrangerá pagamento de aproximadamente 500 mil euros aos cofres públicos. Se o problema fosse apenas pessoal, não haveria tantos alardes. Entretanto, o escândalo alcançou advogados e o partido político de Sarkozy, o centro-direita “União por um Movimento Popular” (UMP), acusado de contratar empresas para produzir ordens de pagamentos falsas a fim de cobrir excessos de gastos na então campanha do ex-presidente em 2012. Vale lembrar que a crise não surgiu agora e vem de meses passados, quando Jean-François Copé, então líder do UMP, renunciou ao cargo.

Mesmo tratando-se de um caso esporádico, Sarkozy não é o primeiro ex-presidente a passar por essa situação. Seu antecessor, Jaques Chirac, foi acusado duas vezes em 2007 e 2009 por abuso de confiança e “apropriação indevida de fundos públicos” antes de ser condenado a dois anos de prisão. Todavia, a custódia daquele advindas de investigações iniciadas em fevereiro do presente ano, ou seja, sua detenção provisória por tempo determinado, é algo inédito no cenário político francês.

Na mídia do país havia rumores de que Sarkozy pretendia voltar à vida política o quanto antes, seja através da ocupação do cargo de liderança do UMP ou por meio de uma nova disputa presidencial em 2017. Obviamente, posto que as investigações e os interrogatórios estão sendo realizados no presente, não se pode prever se ele realmente terá uma punição mais severa. Entretanto, a imagem de “bom mocinho” tão importante para um candidato à presidência parece ter ido por ralo abaixo.

Não é a primeira vez que Sarkozy se envolve em escândalos. O Caso Tapie, a vitória na eleição de 2007, os gastos com pesquisas de opinião em 2012, o envolvimento irregular com o a empresa de cosméticos L’Oreal e o financiamento da campanha do ex-premier Edouard Balladur fazem parte do currículo sujo do político. Se existem perdas por um lado, por outro, ocupado pelo atual presidente socialista François Hollande, parece haver ganhos. Hollande já mencionou em reunião semanal do Conselho de Ministros que seu governo preza por “independência da justiça” e “presunção de inocência”.

E quem tem a perder são os franceses. Em um cenário político em que Hollande só consegue ganhar os holofotes não por mérito próprio, mas sim por malfeitorias de seu adversário direto, o futuro de boas novas parece estar longe de se concretizar.


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Conversando com a Teoria

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Os jogos dos jogosusa-germany

A Copa de 2014 está divertida de assistir e cheia de zebras, mas nos deu uma oportunidade interessante de analisar um fenômeno das Relações Internacionais por causa do último jogo entre Portugal e EUA. O empate das equipes fez com que os EUA alcançassem a Alemanha em número de pontos, e como as equipes se enfrentam na última rodada, basta um empate entre as duas para que avancem à fase seguinte, deixando Portugal de fora mesmo que ganhe de goleada sua última partida.

A memória de resultados combinados em outros jogos da história (incluindo em copas do mundo) aterroriza os fãs do esporte, mas seria mesmo o caso? Ambos os times vão abrir mão da oportunidade de poder eliminar um adversário forte? Dá pra confiar no outro lado sem que alguém tente marcar um gol no final para azedar tudo?

Aqui entra a Teoria dos Jogos, de que já ouvimos falar algumas vezes no blog. Em algumas situações, atores racionais em uma situação de dependência mútua não podem ter certeza de que a cooperação vai acontecer, ou de que podem confiar na outra parte sem que haja alguma traição. No caso do jogo, temos uma situação parecida com o modelo de “assurance” (o tipo de jogo do qual saiu o famoso modelo do “stag hunt”), em que cada ator pode perseguir seu objetivo isoladamente ou cooperar para conseguir algo maior. Ênfase no “parecida” pois nesse caso se pressupõe uma cooperação, enquanto o jogo de futebol é claramente competitivo. Também se parece um pouco com o modelo do “dilema do prisioneiro”, mas sem a conotação negativa das resultados.

Claro que é uma visão bem simplificada, mas que exprime bem o dilema dos atores. Apesar de ir contra a moral, as regras e o espírito do jogo, as condições para que os atores cooperem (trapaceando) são ótimas nessa situação: é muito fácil forjar um empate. E mesmo assim não se pode garantir que isso vá acontecer – a própria condição de serem os atores “racionais” para que esse lógica de jogos funcione pode ser contestada de maneira bem clara quando pensamos em valores como honra e espírito esportivo. É hipotético, mas não consigo ver os norte-americanos aceitando tal coisa (para os alemães, infelizmente, há precedentes, e mesmo assim isso pode servir justamente de motivação para que NÃO cooperem).

Ora, a Copa do Mundo em si é um evento de Relações Internacionais dos mais significativos (32 seleções vistas por bilhões de pessoas mundo afora). Mas esse caso mostra algo que vai além do esporte. A chave disso tudo é o problema de não saber qual será a reação exata das outras partes. E essa lógica, que serve para um jogo de futebol, ajuda a explicar também, por exemplo, porque apesar das negociações de trégua e controle de fronteiras, Ucrânia e Rússia permanecem com tanques às portas uma da outra.


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