Palco amazônico, marcha boliviana

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Amazônia. Por si só essa floresta já atrai os mais diversos olhares. Segundo Aziz Nacib Ab’Sáber, importante geógrafo brasileiro, “Trata-se [a Amazônia] de um grandioso anfiteatro de terras baixas, encerrado entre o arco interior das terras subandinas e o Planalto das Guianas e o Planalto Brasileiro”.

E eis que esse anfiteatro está sendo palco de mais uma polêmica discussão ambiental internacional. No momento, a peça em cartaz trata da construção de uma estrada amazônica em território boliviano – com fins estritamente comerciais e financiamento brasileiro.

Mais de mil indígenas nativos da Amazônia boliviana realizam há duas semanas uma marcha contra a construção dessa estrada, potencial causadora de inúmeros danos ao Meio Ambiente, segundo eles. Ao que consta, o projeto inicial da estrada divide ao meio o Território Indígena Parque Isiboro Sécure (TIPNIS), sendo o impacto ambiental a maior crítica dos manifestantes. O diálogo com as autoridades governamentais bolivianas ainda não possibilitou consenso a respeito do impasse, fazendo com que a marcha dos indígenas siga em direção a La Paz, capital do país.

Este não é o primeiro impasse em relação a impactos ambientais e prejuízo à biodiversidade local envolvendo o Brasil que vieram à tona em tempos recentes. Também as obras da usina hidrelétricas de Belo Monte têm gerado enorme discussão e revolta, questionando o custo benefício de um empreendimento deste porte (veja o post no blog sobre o assunto aqui e uma notícia atual aqui).

Como conciliar interesses econômicos com a preservação ambiental? A resposta a esta pergunta parece constituir um desafio diário. Em tempos nos quais o conceito de sustentabilidade tem sido cada vez mais utilizado por empresas e governos para determinar políticas e investimentos, cabe questionarmo-nos até que ponto este assunto se restringe ao âmbito da retórica, sem que efetivamente se reflita em decisões práticas.

A marcha dos indígenas bolivianos ainda deve acontecer por dias até que as possibilidades de diálogo sejam retomadas para a busca de uma solução adequada ao problema. O presidente Evo Morales demonstrou-se disposto a encontrar uma alternativa ao impasse. Resta saber se todos aplaudirão ao final de mais este de mais este desafio em palco amazônico.

[UPDATE: “Após distúrbios, Bolívia suspende construção de estrada que tem recursos brasileiros”, 27/09/2011.]


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O novo Código Florestal: preservar para desmatar

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[Este post foi escrito junto com Plinio Cesar Rodrigues Rosa, graduado em Ciências Biológicas pelo Instituto de Biociência, Letras e Ciências Exatas – Unesp, campus de São José do Rio Preto. Gostaria de deixar os meus agradecimentos ao Plinio, um grande amigo meu, por esta contribuição prestada ao blog.]

De certa maneira, este post complementa aquele escrito pelo Álvaro, analisando mais os aspectos internos acerca da implementação do novo Código Florestal.

Que nome vocês dariam para o novo Código Florestal: Código do Descrédito, do Atraso, do Descaso, da Impunidade? A lista não termina. Não há como negar que a nova legislação representa um retrocesso imensurável e preserva interesses clientelísticos. É pior que a Lei de Distribuição de Sesmarias (há cerca de 450 anos!) e a Lei de Terras de 1850. Em ambas as ocasiões, procurou-se assegurar e consolidar o território brasileiro; agora, pretende-se destruí-lo. Justo no Ano Internacional das Florestas, nossos governantes optaram por seguir na contramão da história. (vejam a novo Código)

Convém recordar que o Brasil, assim como os demais países que almejam crescimento e desenvolvimento, do ponto de vista socioeconômico e ambiental, não pode abrir mão do desenvolvimento sustentável. Assim, para buscar seus interesses nacionais, afetando minimamente o meio ambiente, o país criou leis específicas, com destaque para o Código Florestal de 1965. No entanto, há quase duas semanas, a Câmara dos Deputados aprovou o novo Código Florestal, faltando a aprovação do Senado e da presidenta, para que possa entrar em vigor. (vejam as polêmicas e este artigo)

O novo Código florestal propõe uma grande diminuição nas áreas de APPs (Áreas de Preservação Permanente) a serem protegidas. Elas possuem suma importância no equilíbrio da natureza, já que preservam os recursos hídricos, a paisagem, a estabilidade geológica, a biodiversidade, o fluxo gênico de fauna e flora (essencial para a contínua evolução da vida e o equilíbrio dos ecossistemas), protegem o solo e asseguram o bem-estar das populações humanas. As APPs de cursos d’água de até 10m terão uma redução de 50%, de 30m de mata ciliar para 15m. As APPs de topo de morros, que são extremamente frágeis, com ecossistemas únicos e fundamentais para evitar desmoronamentos, poderão ser suprimidas. Outras APPs afetadas são as restingas, tipos de vegetação encontrados somente próximos ao mar, e que possuem biodiversidade específica, além de protegerem dunas e manguezais. Pela nova lei, extinguir-se-á a proteção das restingas, que eram de 300m a partir do nível máximo das marés.

A Reserva Legal também foi prejudicada com o novo Código Florestal. Ela corresponde a uma porcentagem de área de uma propriedade (excetuada as de APPs) que deve ser protegida com mata nativa, com a função de uso sustentável dos recursos naturais, conservação e reabilitação dos processos ecológicos, proteção do solo, além da conservação da biodiversidade local. O novo Código não muda a porcentagem da Reserva Legal (que varia de acordo com as regiões do país) a ser mantida nas propriedades, porém inclui as áreas de APPs nos cálculos da porcentagem, o que poderá degradar mais áreas de Reserva Legal.

O novo Código Florestal também permite que órgãos estaduais autorizem a supressão da mata nativa, enquanto no Código de 1965 apenas os órgãos federais poderiam autorizar. Essa atitude permitirá a alguns Estados, que possuem interesses exclusivamente econômicos, degradarem ainda mais o meio ambiente.

Segundo o professor da USP Gerd Sparovek, com o novo Código, a área a ser desmatada será equivalente a do Estado do Paraná. Além do grande desmatamento, o novo Código aprovou a anistia de multas a crimes ambientais cometidos até 22 de julho de 2008. Conforme uma reportagem da revista Isto É, pelo menos vinte e sete políticos tinham pressa em aprovar o novo Código Florestal, pois tinham multas que chegam até 56 milhões de reais relativas a crimes ambientais. Essa legislação “beneficia quem desmatou em detrimento de quem cumpriu a lei”, nos dizeres do biólogo e ambientalista João Capobianco, em artigo publicado no Le Monde Diplomatique Brasil.

Em suma, à guisa de uma conclusão, a introdução do novo Código Florestal acarreta conseqüências ambientais muito trágicas para o país e pode ser comparada com a divertida história do Barão de Münchhause. Diz a história que o barão tentou se salvar do afogamento num pântano puxando os próprios cabelos. É exatamente o que o Brasil faz em relação ao meio ambiente: preserva-o destruindo-o.


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Tragédia nacional, mobilização internacional?

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“Tragédia nacional” foi o modo como Obama caracterizou o tornado que devastou Missouri na última semana. Uma tragédia que demanda uma resposta também de proporções nacionais (ou será que internacionais?) por parte dos Estados Unidos, país que sofre com desastres naturais há décadas.

Sabe-se que a localização geográfica dos Estados Unidos é mais propícia à ocorrência de desastres naturais, mas o impacto destes nos últimos tempos tem surpreendido a todos (veja um interessante “Especial on-line” a respeito neste link). Com o último tornado ocorrido na cidade de Joplin, em Missouri, 2011 já se torna o ano em que mais mortes devido a tornados foram causadas nos Estados Unidos desde que o Serviço Nacional de Meteorologia começou as medições: foram mais de 500 vítimas no total, sendo aproximadamente 140 só da cidade de Joplin (as fotos comparando o “antes” com o “depois” são impressionantes, veja aqui!).

As medidas de socorro a desastres necessárias a este tipo de situação são tomadas pelo governo americano e a população constantemente se mobiliza em apoio ao trabalho voluntário para a reconstrução das cidades destruídas. Ok, mas será que o conhecido ditado “é melhor prevenir do que remediar” não poderia ser aplicado neste caso? De fato, existem ocorrências que são praticamente impossíveis de serem evitadas, mesmo com todas as precauções existentes.

Contudo, pensando a longo prazo, percebe-se que os esforços internacionais na área de Meio Ambiente são extremamente necessários para que as conseqüências negativas gerais das mudanças climáticas sejam evitadas ou, pelo menos, amenizadas. E não é de hoje que os Estados Unidos “desapontam” neste quesito. O que fazer quando os interesses estratégicos suplantam a mobilização ambiental?

Com a proximidade da Cúpula Rio+20 (que ocorrerá no Brasil exatamente 2o anos depois da primeira grande reunião das Nações Unidas sobre Meio Ambiente, a famosa Rio 92), aumentam as perspectivas de maior comprometimento internacional com a causa ambiental, partindo-se do pressuposto de que “prevenir” é, sim, possível (e muito melhor) que “remediar”. Alguém duvida que os esforços de hoje repercutirão diretamente no cenário internacional de amanhã? Resta apenas saber se o apoio dos países à(s) causa(s) ambiental(is) – tantas vezes restrito à retórica – pode se configurar efetivamente em ações para a prevenção de desastres, especialmente diante de acontecimentos tão trágicos e constantes como os tornados nos Estados Unidos nos últimos meses…


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"Belo Monte" de problemas

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Eis que um “Belo Monte” de problemas para o governo brasileiro vem à tona novamente nesta semana. Tudo porque a Organização dos Estados Americanos (OEA), por meio do seu Conselho Internacional de Direitos Humanos (CIDH) divulgou uma nota oficial (veja o texto original aqui) pedindo a paralisação imediata das obras da usina hidrelétrica de Belo Monte, iniciadas no último mês às margens do Rio Xingu, no Pará.

O principal argumento utilizado por esta Organização Internacional é a existência de prejuízo potencial no que se refere aos direitos das comunidades tradicionais da bacia do rio Xingu. Esse manifesto ocorre aproximadamente cinco meses após a denúncia formal feita por movimentos sociais, índios e camponeses que temem pelo ecossistema da região.

Entretanto, sabe-se que a discussão (e a polêmica) sobre Belo Monte não é recente. Remonta, de fato, à década de 1980, quando os primeiros projetos da usina foram divulgados. Após fortes manifestações contrárias de ambientalistas e comunidades indígenas, o projeto foi adiado e voltou à pauta apenas em 1994 com alterações notáveis (reduzindo a área a ser represada e, por consequência, seu impacto ambiental). Mesmo assim, os críticos consideram ainda hoje que os problemas ambientais advindos dessa obra permanecem enormes e não fazem valer o “custo-benefício” de sua construção.

Em números mais exatos, o custo financeiro da obra atinge a exorbitante casa dos aproximados 20 bilhões de reais – sem que se mencionem os inestimáveis custos sócio-ambientais. Em contrapartida, esta represa tem potencial para se tornar a terceira maior do mundo (e a maior do Brasil, já que Itaipu pertence também ao Paraguai), diversificando ainda mais a matriz energética do país e beneficiando a população em geral com o início de suas atividades – previsto, a princípio, para 2015.

Apesar da grande polêmica, as obras já estão em andamento no Pará e o Ministério das Relações Exteriores se posicionou oficialmente afirmando “perplexidade” diante deste (inesperado) impasse internacional. O ministro Patriota se utilizou de termos como “injustificável e precipitada” para caracterizar a nota oficial da OEA e expressar o descontentamento do Itamaraty. O governo afirma que foram feitos todos os estudos necessários a respeito do impacto das obras nos níveis social e ecológico, tendo as obras sido autorizadas por vários organismos que lidam com o controle de danos ao Meio Ambiente, tal como o Ibama, por exemplo.

Contudo, dados recentes apontam que 70% das obras para reduzir os impactos de Belo Monte ainda não começaram – sendo que as estatais e as construtoras responsáveis foram acertadas há um ano atrás. Trata-se de obras de infra-estrutura básica que poderão auxiliar as comunidades da região em que a usina se desenvolverá e minimizar as consequências negativas da construção. O que pensar diante dessa situação?

Parece existir uma nítida e infeliz contradição entre, de um lado, a preservação ambiental da região e a proteção dos povos indígenas; e, de outro, um projeto político histórico e a perspectiva de baixo custo na geração de energia elétrica para o país a longo prazo. Os argumentos de ambos os lados são amplamente defendidos, porém o necessário equilíbrio entre as partes parece estar longe de ser atingido. A única certeza é que um “Belo Monte” de questões políticas, sociais e ambientais são evidenciadas neste contexto – questões, aliás, muito mais complexas do que se pode imaginar à primeira vista…

[Vale esclarecer que esta nota emitida pela OEA não implica em nenhuma consequência prática de imediato para o Brasil. Porém, se porventura a justificativa brasileira não for aceita pela Comissão, o caso pode ser levado à Corte Interamericana de Direitos Humanos da OEA, a qual tem o poder de condenar o país e determinar sanções em geral.]


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Otimismo x Ação?

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“Being an optimist does not mean simply looking at the world through rose-tinted glasses, and declaring everything to be for the best, despite an endless array of misfortunes. Being an optimist, as I see it, means to refuse to make do with the status quo, and instead to consciously look for ways to make the world a better place and help address the practical challenges faced by people here and now. I call this ‘optimism by action’, and I believe that such a philosophy of life can provide the catalyst for our much-needed transformation to sustainable development”.

(Mikhail Gorbachev)

Otimismo: característica notadamente importante àqueles que acreditam em mudanças e trabalham para torná-las possíveis. Ação: meio através do qual tais mudanças se manifestam. Seriam estas duas palavras contraditórias? Em tese, não. Na prática, freqüentemente sim. A infindável discussão em busca de consenso acerca de um acordo ambiental para suceder o Protocolo de Kyoto que o diga…

O desenrolar (mal-sucedido) destas discussões desde 2007 já foi abordado aqui no blog (vejam os seguintes posts, por exemplo: 1, 2 e 3) e sabe-se que o desenvolvimento deste acordo tem predominado apenas no plano das idéias há meses, sendo que poucos foram os avanços dignos de destaque na mídia. Contudo, ao adotar-se o otimismo, deve-se acreditar que tais avanços são possíveis, desde que a mobilização político-estratégica internacional aos poucos volte sua atenção a esta demanda.

Deve-se destacar que, ao longo do século XX, vivenciou-se no cenário internacional uma considerável expansão da consciência ambiental, sendo que, segundo Castells, teórico de importância destacada para a análise das Relações Internacionais, a presença constante de temas ambientais na mídia dotou-lhes de uma legitimidade bem maior que a atribuída a outras causas. Entretanto, não basta que exista otimismo e legitimidade apenas no plano teórico enquanto na prática os obstáculos às ações efetivas ainda se mostram tão amplos.

Hoje foi anunciado pelas Nações Unidas que haverá uma “sessão extra” de negociações com a presença de representantes de quase 200 países na capital asiática de Bangcoc durante o mês de abril, precedendo a sessão já anteriormente prevista de conversações durante o mês de junho na Alemanha e no final do ano na África do Sul. Este será mais um momento em que as partes poderão avançar nas discussões para a efetivação deste acordo até o final de 2011. Seria esta uma perspectiva exageradamente otimista? Talvez sim… porém urge a busca por ações que possibilitem a assinatura deste acordo internacional com metas plausíveis para o desenvolvimento sustentável durante a próxima década.

Diante do caos climático vivenciado em tantas partes do mundo de maneiras tão distintas – provocando secas, enchentes e catástrofes de amplitude notável – espera-se que seja possível, a exemplo da citação inicial deste post, construir a perspectiva de “otimismo pela ação”. Apenas desta forma estes conceitos essenciais podem deixar de parecer antagônicos e virem a se complementar, almejando-se que os Estados busquem esta construção no sentido de promover avanços na discussão ambiental (e em tantas outras áreas de atuação).


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Uma vez mais…

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Uma vez mais, os desastres naturais ocupam as manchetes do início de ano. Claro que a desgraça doméstica ocupa uma porcentagem muito maior na nossa mídia, e não poderia deixar de ser diferente, com mais de 600 mortes e milhares de desabrigados. Contudo, parece que a natureza resolveu causar no mundo todo, das tempestades de neve em Nova Iorque às enchentes que cobrem uma área igual à da Alemanha e França somadas na Austrália. Isso abre uma série de questionamentos.

A quem culpar? É justo falar apenas da natureza? O elemento da imprevisibilidade e a força das intempéries são, claro, o elemento principal dessas catástrofes. Por ouro lado, também é muito fácil culpar as pessoas e os governos. No fim das contas, a responsabilidade pode ir de elementos que vão do aquecimento global à ocupação irregular de terrenos. É uma questão tão ampla que acaba sendo impossível determinar exatamente um motivo principal, e a prevenção se torna impossível sem que seja necessário aplicar um plano muito ambicioso e complexo para sanar esse emaranhado de possíveis causas. A única coisa perceptível (e até mesmo um lugar-comum nesse tipo de discussão), no fim das contas, é que pra variar são os mais pobres que pagam o pato.

É fácil comparar tragédias desse tipo ocorridas em países com governabilidade distinta. Basta vislumbrar a reação do Chile e do Haiti aos terremotos que os castigaram ano passado: o Chile já está recuperado, enquanto o Haiti sofre com revoltas, eleições problemáticas, epidemia de cólera e a volta da praga Baby Doc, que roubava dinheiro de ajuda humanitária. Um artigo interessante mostra que existe uma relação perceptível entre corrupção e fragilidade democrática e o número de mortes em desastres naturais.

Outro ponto é o da percepção. Vejam as inundações na América do Sul. A Colômbia enfrenta uma catástrofe de dimensões semelhantes, ou até mesmo piores que as do Brasil – as chuvas torrenciais dos últimos meses, até o momento, causaram menos mortes, mas já arruinaram produção agrícola e deixaram mais de 2 milhões de pessoas desabrigadas. Situação semelhante ocorre na Venezuela. Se esse tipo de notícia passa como nota de rodapé por aqui, quanto mais nossas enchentes devem ser exibidas em alguns segundos do noticiário internacional nos EUA ou Europa, como se fosse algum tipo de incômodo passageiro num mundo distante – enquanto as inundações na Austrália tomam grande parte de seus noticiários.

E é essa justamente a questão: todo ano esse tipo de notícia se repete, pelo mundo inteiro. E as pessoas se acostumam. É sabido que muitos morrerão e pouco se faz. Nos países mais pobres (e propensos à corrupção/democracia frágil), esse filme será repetido indefinidamente enquanto não houver a solução das mais variadas vicissitudes sociais, que vão de habitação a corrupção política – e isso não tem prazo para ocorrer… Enquanto isso, nos países mais abastados, seus problemas são suficientes, cada um na sua, e a falta dessa percepção global dos problemas pode levar a agravar o quadro atual. Debater e (quiçá) reverter as mudanças climáticas? A existência de refugiados climáticos? Fome pela destruição de áreas agrícolas? Uma hora esse tipo de situação sairá do controle. E quando uma atitude for tomada, poderá ser tarde demais.


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COP-16: entre vanguardas e intenções

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[Antes de iniciar esse post, gostaria de agradecer à contribuição de três importantes amigos com quem dialoguei para obter mais esclarecimentos sobre arte: Camila Labaki de Oliveira, Maria Izabel Xavier Camargo Lima e Alexandre Paciulli Abrahão. A vocês, meus sinceros agradecimentos pelo auxílio.]


As Conferências-Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COPs) têm sido capazes de criar intrigantes obras vanguardistas de arte. De um lado, a COP-15, em Copenhague, teria esboçado uma bela obra realista, tentando expor ao mundo algo próximo da realidade política, a real inflexibilidade dos principais líderes mundiais ao tentar desenvolver propostas concretas.

De outro, haveria a COP-16, em Cancun, que pintou em sua declaração final uma obra digna do cubismo. Traços por demais quadrados, esféricos e cilíndricos. Traços que fazem menção ao mundo, mas que são bem distantes dele. E assim, tem-se analisado as obrigações dispostas no acordo celebrado pelos 194 países membros da conferência, com reservas apenas por parte da Bolívia.

Ao final de doze dias de intensas negociações, diferentemente de sua homóloga no ano passado, a conferência de Cancun pareceu concentrar de maneira conjunta expectativas diferentes, pessimismos e otimismos (frente ao ocorrido em 2009) e apresentar supostas flexibilizações relativamente maiores nas posturas dos grandes poluidores.

Todavia, um olhar mais acurado pode mostrar que países como Japão, Estados Unidos e Rússia ainda mantiveram as posturas rígidas, como no ano passado, só que agora, pela pressão intensa da opinião pública e da comunidade internacional, aceitaram um acordo. Esses países foram capazes de postergar a discussão sobre a renovação do Tratado de Quioto, que expira já em 2012.

E mesmo o acordo, que poderia ser considerado por muitos uma surpresa, apresentou medidas limitadas. Os países reconhecem a importância de impedir o aumento da temperatura para além de 2º C, e, segundo especialistas, as reduções de emissões propostas poderão proporcionar um aumento médio de 3,2º C.

Dentre esses grandes pintores, um novo ambicioso artista emergiu sem grande sucesso com suas obras: a Bolívia. A postura mais polêmica que buscou uma resolução ambiciosa e, mesmo depois da conferência, ainda deseja aplicá-las.

O cubismo da COP-16 repercute nesses pequenos traços de sua declaração e oposição a real determinação dos líderes mundiais de limitar as mudanças. Apesar da declaração mais parecer uma carta de intenções e apresentar limitações, representa um passo importante. Entre um realismo e um cubismo, intenções e práticas, o quadro pintado é mais representativo que verossímil e, como disseram ativistas do Greenpeace, salvaram o processo, mas não o clima.


Categorias: Meio Ambiente, Política e Política Externa


Engenharia demais?

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Há cerca de dois anos eu li um artigo sobre geoengenharia. Tratada justamente da crescente preocupação com o Meio-Ambiente e das possíveis ameaças que poderia ser geradas a partir das mudanças climáticas. O cenário já não era nada promissor: derretimento das geleiras e calotas polares; nível dos oceanos aumentando; alteração dos ciclos migratórios de diversas espécies; entre tantos outros efeitos provindos da tendência climática apresentada. A partir disso, o artigo questionava a possibilidade de atingirmos um ponto limite, o qual demandaria a adoção de medidas extremas.

A conclusão que se chegava, naquele momento, é que nenhuma opção poderia ser descartada. Qualquer recurso disponível deveria ser amplamente estudado, questionada e, por fim, preparado para utilização se e quando o cenário fosse para tal. A geoengenharia, ou seja, “a manipulação deliberada de aspectos físicos, químicos ou biológicos do ecossistema global na tentativa de confrontar as mudanças climáticas”, a partir da definição do Instituto de Engenharia, um dia poderá ser indispensável para a humanidade. De maneira simplificada, funcionaria no sentido de possibilitar o esfriamento do planeta e a diminuição da quantidade de carbono na atmosfera, tudo de maneira artificial.  

Entre as possíveis técnicas empregas pela geoengenharia, diversas parecem pouco ortodoxas. Cientistas analisam a possibilidade de instalar refletores para raios solares; fertilizar o oceano para aumentar a absorção de gás carbônico através de algas; criar árvores sintéticas que capturem mais gases que as naturais; e até mesmo provocar erupções vulcânicas. Acredito que só o simples exemplo das possíveis estratégias já serve para deixar muitos receosos e incertos da efetividade de tais medidas sem a contrapartida tão apregoada. A contrapartida, contudo, deveria ser o primeiro compromisso. Ainda não há um acordo internacional amplamente aceito para mitigar e controlar as mudanças climáticas. Uma grande parte disso se deve a grande querela internacional com relação a metas de redução de emissões de gases do efeito estufa. A geoengenharia, de qualquer forma, não pode ser a solução de todos nossos problemas.  

Não sou especialista no tema, mas essa discussão traz algumas reflexões inerentes. Primeiro, lembro de minhas aulas de biologia no ensino médio. Não havia casos em que ao tentar controlar um tipo de praga (um espécie em desequilíbrio com seu habitat) se acabava criando um novo problema na forma de um predador da antiga praga? Segundo, como funcionaria a implementação de tais medidas? Qualquer país teria autonomia para investir iniciativas de geoengenharia em seu território com ou sem a anuência da comunidade internacional? Por fim, o avanço nestes estudos não poderia gerar um efeito de paralisia na luta por um modelo mais limpo de desenvolvimento?  

A discussão é muito nova e segue em gestação. No entanto, a preocupação é genuína. Seguramente poucos seriam os países com a capacidade financeira e científica para trabalhar ativamente por soluções no campo da geoengenharia. Alguns temas impedem o egoísmo na comunidade internacional, exigindo um concerto entre diversas nações na forma de um acordo abrangente para tratá-los. As mudanças climáticas podem ser tomadas como o exemplo básico disso. No âmbito climático, uma ação tomada na Europa não estará circunscrita ao seu território, mas poderia gerar efeitos significativos em outro continente e vice-versa. Portanto, a solução deve ser global. Todos nós seguimos esperançosos que um dia, em uma COP qualquer, todos entendam de uma vez por todas que o grande passo para combater as mudanças climáticas seria pagar sua conta e aceitar sacrifícios em prol da humanidade. Isso deveria vir muito antes de técnicas da engenharia.  

Para saber mais: 1,2,3,4


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Biodiversidade em questão

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“A soma de todos os diferentes tipos de organismos que habitam uma região tal como o planeta inteiro, o continente africano, a Bacia Amazônica, ou nossos quintais”. Esta é a definição que Andy Dobson nos oferece ao conceito de biodiversidade e que parece bastante completa.

Esta idéia, amplamente divulgada e compreendida sob diversos aspectos no mundo, tem representado o foco midiático da Organização das Nações Unidas (ONU) neste ano: 2010 foi proclamado o “Ano Internacional da Biodiversidade” por esta instituição para chamar a atenção aos problemas e desafios existentes neste sentido – seja no mundo, no ambiente interno de cada país, ou em nossas próprias residências.

Discutir questões ambientais nas Relações Internacionais certamente constitui um dos aspectos que, apesar de – teoricamente – representarem práticas consensuais de ação, na prática demonstram a urgência da demanda por ações coordenadas para proposições efetivas. Tal como os problemas, também as soluções ambientais devem ser transfronteiriças.

A proposta de promulgar “anos internacionais” constitui uma interessante estratégia da ONU para midiatizar questões específicas de forma a enriquecer a visibilidade e mobilizar os diferentes setores da sociedade em prol de uma causa específica. E, apesar de não parecer, vale ressaltar que a taxa de perda de espécies chega a cem vezes à da extinção natural e cresce exponencialmente…

No ano de 2002, houve uma Conferência das Partes (COP) para estabelecer metas a serem alcançadas em 2010. Oito anos se passaram e haverá mais uma COP da Biodiversidade no próximo mês para avaliar os resultados e entender o contexto atual nesta esfera. Diante de frustrações como aquela vivenciada por ocasião da Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas ao final do ano passado, talvez otimismo não seja exatamente o tom da discussão da realidade.

Quiçá será um dia. Ou assim esperemos, trabalhando para visualizar este futuro sobre o qual não podemos apenas teorizar, mas que deve ser construído diariamente em termos de sustentabilidade por meio de ações conjuntas no mundo. Ações estas que começam, é claro, pela mudança em nossos próprios quintais.


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Há um ano...

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Há um ano, estávamos discutindo três temas importantes, cada um à sua maneira, e que acabam sendo paradoxalmente recorrentes um ano depois.

Giovanni discutia acerca da Estratégia Nacional de Defesa e seus pontos principais, uma discussão que aparentemente tem aplicação pratica apenas daqui a algumas décadas (prazo para a aplicação de toda a grana envolvida e para se ver os resultados ), mas cuja motivação podemos ver na urgência em proteger o pré-sal e todo aquele Oriente Médio na costa brasileira. Sabem como é.

O interessante foi ver como os posts de Ivan sobre a “filtragem” de notícias na mídia internacional e da Adriana sobre questões culturais – e que deu uma senhora discussão – se relacionariam hoje. Lembram de como a mídia está se alvoroçando no caso da iraniana condenada à morte? O que menos importa no circo internacional é a vida da coitada, e sim a repercussão política dos envolvidos, com a condenação veemente do sistema iraniano. Não defendo, mas lembrem do relativismo cultural. Sabem como é.

Por fim, tínhamos dois posts (um do leitor Antonio Mota e outro do Luis Felipe) acerca dos problemas de mudança climática. Mas a discussão destes teve um rumo meio diferente. Um ano depois? Claro que vieram um monte de problemas econômicos e os temas menos importantes foram aparentemente esquecidos pela grande mídia. Sabem como é.

E isso aí pessoal, postando e relembrando.


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