Gerenciar riscos para evitar desastres

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Vanuatu

Um dos piores desastres socioambientais da história do Pacífico Sul atingiu o arquipélago de Vanuatu neste final de semana. Muitos de nós talvez nunca tenhamos ouvido falar de Vanuatu até hoje, mas trata-se de um país formado por cerca de oitenta ilhas na Oceania e que está absolutamente devastado após a ruidosa passagem do ciclone Pam.

Mapa Vanuatu

Com ventos de mais de 300 km/h, o impacto do desastre ainda está sendo avaliado, mas dezenas de vítimas fatais já são contabilizadas pelas Nações Unidas. Existe a certeza, contudo, de que é crítico o isolamento do país após a passagem do ciclone que afetou o fornecimento de energia elétrica, o acesso à água e aos alimentos, além de ter provocado destruição física das construções, principalmente na capital Port Vila.

A Cruz Vermelha da Nova Zelândia estima que mais de 100 mil pessoas tenham sido direta ou indiretamente afetadas pelo desastre, o que torna urgente o apoio humanitário à população local, liderado pelos vizinhos Austrália e Nova Zelândia no momento.

Desastres socioambientais são passíveis de acontecerem (e até previsíveis) em diversas regiões do mundo, o que faz parte de uma realidade que não podemos controlar. Contudo, o debate deve se voltar justamente à construção de resiliência principalmente nos locais mais vulneráveis para que o impacto possa ser reduzido ao máximo.

Coincidentemente, está acontecendo essa semana em Sendai, no Japão, a Terceira Conferência Mundial em Redução de Riscos de Desastres, coordenada pelas Nações Unidas e fruto de amplo diálogo com Governos, iniciativa privada e sociedade civil sobre o tema.

A importância do assunto é inegável já que as estatísticas demonstram que, desde 2005, mais de 700 mil pessoas morreram e cerca de 1,7 milhão de pessoas foram afetadas por desastres no mundo. No âmbito intergovernamental, o principal objetivo do encontro é aprovar um novo marco de ação, atualizando Quadro de Ação de Hyogo no contexto pós-2015.

Mais que gerenciar o desastre em si, a prioridade deve ser gerenciar os riscos de desastres, de acordo com o Escritório das Nações Unidas para a Redução de Risco de Desastres (UNISDR). De fato, situações de desastre como a que está sendo vivida em Vanuatu deixam clara a necessidade de prevenção e gestão de riscos para evitar ou, pelo menos, minimizar o impacto das catástrofes desse gênero na vida daqueles que mais sofrem suas consequências.


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Falando em corrupção…

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Filipinas

O ano de 2015 começa para o Papa Francisco em uma importante viagem ao continente asiático, passando pelo Sri Lanka e pelas Filipinas. Depois de ter visitado o Sri Lanka e canonizado o primeiro santo do país, beato Joseph Vaz, hoje o Papa fez seu primeiro discurso desde a chegada às Filipinas, criticando principalmente a corrupção que vem sendo denunciada no país.

As Filipinas se situam em uma zona geográfica especialmente sensível, constantemente sujeita a tufões, ciclones e tsunamis, ainda mais em um contexto de mudanças climáticas em que as pessoas se encontram cada dia mais vulneráveis. No final de 2014, o país enfrentou o tufão Hagupit/Ruby, que havia sido previsto inicialmente com ventos de aproximadamente 300 quilômetros por hora, em região próxima àquela que foi atingida, no final de 2013 pelo tufão Haiyan/Yolanda que levou consigo a vida de pelo menos sete mil pessoas.

Se a força da natureza não pode ser controlada, os meios para reduzir o impacto de seus danos na vida das pessoas pode (e deve) ser tema de discussão de governos e da população civil. Esforços de prevenção se mostram, invariavelmente, muito mais eficazes que medidas para remediar os danos já causados.

Para tanto, deve haver engajamento político e planejamento estratégico de longo prazo, evitando esforços duplicados e falta de coordenação local. Se hoje em dia contamos com tecnologia suficiente para prever a chegada de eventos naturais tal como tufões com tempo hábil para a tomada das medidas necessárias, não existe explicação razoável para um desastre de grandes proporções que não envolva a falta de vontade política em trabalhar para que ele não aconteça.

Por outro lado, após a ocorrência de uma tragédia de grandes proporções como em que a mobilização internacional como o tufão Haiyan/Yolanda em 2013, chocantes foram as denúncias de que apenas aproximados 20% dos recursos alocados (em montante que soma milhões de dólares) teria sido alocado pela Defesa Civil do país em benefício das vítimas até setembro do ano passado, nove meses depois do desastre. Esta situação demonstra o despreparo/desinteresse de um governo diante de um quadro em que, além dos feridos e das vítimas fatais, centenas de milhares de pessoas se veem desabrigadas e absolutamente vulneráveis a novos desastres.

Pregando o diálogo entre os povos e a importância da união, a sétima viagem internacional do Papa Francisco está sendo também marcada por uma enfática crítica à desigualdade, à corrupção e aos desvios de verbas. Dada a gravidade do problema e, principalmente, das consequências para as pessoas mais pobres e suscetíveis a desastres, esperemos que o tema não seja exclusivamente parte de discursos, mas sim da prática dos governos…


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Onde há fumaça…

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china eua

Enquanto a Agência Espacial Europeia faz história no espaço, aqui na Terra tivemos uma notícia tão surpreendente quanto a expectativa do pouso de uma sonda em um cometa longínquo. O que antes parecia impossível abismou a comunidade internacional, de um jeito positivo, quando EUA e China declararam um esforço conjunto para, entre outras modalidades de cooperação, reduzir as emissões de gases estufa pela primeira vez na história.

Quem acompanha o noticiário internacional sabe das motivações por trás da recusa em assumir os compromissos do protocolo de Kyoto, a base para o esforço global em reduzir os problemas de mudanças climáticas. Os maiores responsáveis pelas emissões sempre foram contrários às reduções “arbitrárias” que danificariam seu crescimento econômico. Por isso a surpresa com o anúncio, mas existe muito mais por trás dessa cooperação (nem tão) inusitada.

Primeiro, os países ainda não entraram no esforço “global” por assim dizer. Quando necessário, quiseram adequar suas reduções aos próprios termos, ou seja, à revelia da comunidade internacional. Não se trata de intransigência, mas pragmatismo – fica o recado para o mundo de que algo precisa ser feito, e será, mas do jeito que os gigantes quiserem. O fato de China nem estabelecer um teto para essa meta, mas apenas dizer que vai reduzir as emissões até 2030, bem vago mesmo, é indicativo disso. Ao mesmo tempo, é histórico por ser o primeiro movimento claro e oficial de ambos em direção a políticas ambientais mais sustentáveis, mas as expectativas podem não corresponder à realidade quando for necessário avaliar os resultados de tais políticas.

E claro que existe um jogo político. O anúncio das metas de redução veio em um grande pacote de cooperação sino-americano, que passa por acordos econômicos e militares. Isso se deu após uma reunião de cúpula dos países asiáticos, e Obama acabou tendo algumas conversas breves e pouco amistosas com Putin por ocasião disso. A relação gélida com Moscou contrasta com a aproximação clara de Washington com Beijing, eleito como o grande rival e parceiro na região nos últimos anos. Mais do que uma novidade bem vinda para o cenário ambiental, essa declaração conjunta pode significar uma mudança drástica mas já em curso nas relações de poder daquela região do mundo.


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Esfriando a economia?

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O ano novo é uma época com extremos climáticos. No Brasil, por exemplo, estamos acostumados a um calor infernal e, principalmente no sudeste, chuvas que destroem propriedades e vidas (e que infelizmente não são novidade e viram notícia recorrente nessa época). Na Ásia é bem comum vermos tufões e tempestades tropicais. Mas a grande notícia vem dos EUA, com a massa de ar polar que trouxe as mais baixas temperaturas em décadas e praticamente paralisou boa parte do país nos últimos dias. 

O impacto é direto na vida das pessoas. Com temperaturas que em algumas localidades chegaram a 50 graus negativos, a pele humana sofre queimaduras e congela em poucos minutos, e o mero ato de sair ao ar livre vira um problema. Escolas sem aulas, muita gente não consegue chegar ao trabalho, comércio fechado. E claro que, além das perdas em vidas humanas, isso causa um impacto econômico. Uma seguradora afirma que quase 1/3 da economia norte-americana é “sensível” ao clima e um prolongamento dessa situação deve afetar de algum modo o crescimento da economia. São vendas que não acontecem (especialmente na época de liquidações pós-Natal), milhares de voos cancelados, além do impacto na agricultura. 

Há quem diga que o impacto é reduzido, as previsões são otimistas (ou indiferentes) quanto ao impacto do frio e houve até mesmo um aquecimento (com o perdão da ironia) de alguns setores, como o de calefação e utilidades domésticas (para remoção de neve do quintal, entre outras coisas). Mas não precisamos ir longe para ver o impacto econômico não apenas doméstico dessa friagem. Primeiro, a produção de petróleo está interrompida em alguns estados, e isso deve influenciar, por exemplo, o preço da gasolina – que aumentando nos EUA, adivinhe oque acontece no resto do mundo. Segundo, a decisão pela escolha da lavoura de 2014, por soja ou milho, decisão que vai depender em certa parte da temperatura e que vai afetar a produção de outros países – inclusive o Brasil. É claro que essa onda de frio não vai derrubar a economia americana (que já está em recuperação), mas serve de alerta, e não apenas para os EUA. No mundo globalizado, em que uma lavoura arruinada pelo clima pode trazer prejuízos para muitos países em um efeito dominó, qualquer geada por aqueles lados é motivo de atenção.


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Um elogio e duas matérias

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Pois bem, eu estava sem ideias para escrever até receber minha Revista “Pesquisa” da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP). É um dos melhores periódicos do Brasil, sem dúvida alguma. A FAPESP é referência em pesquisas científicas e acadêmicas e ela tenta passar um pouco do conhecimento produzido em seus projetos nessa revista. Para quem não conhece, fica a dica. É só clicar nesse link aqui

Foi daí que comecei a dar uma lida na edição de Agosto (n. 210) e logo na capa vi o título “A era dos extremos”. Logo pensei na célebre obra de Eric Hobsbawm sobre o seu breve século XX. Abri e vi que o escritor pontuou o livro em questão no primeiro parágrafo e meu interesse aumentou. A matéria é sobre mudanças climáticas aqui no Brasil e atesta que até 2100 a temperatura em todo país aumentará entre 3º a 6ºC. Ainda assim, as chuvas tenderão a aumentar 30% no Sul-Sudeste e diminuir até 40% no Norte-Nordeste. 

O projeto financiado pela fundação tem como título “Brazilian Model of the Global Climate System” e está sob coordenação de Carlos Nobre, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). Bem verdade, representa uma extensa rede de pesquisas nacional. São vários pesquisadores e instituições envolvidas, sendo que se destaca o fato do Brasil ser o único país do hemisfério sul a possuir seu sistema próprio de monitoramento do clima. Para se ter uma breve noção da complexidade disso tudo, foram analisados até o tamanho das gotas de chuva para saber se haverá mais ou menos precipitações. Os dados desse primeiro relatório indicam com maior importância que a temperatura aumentará em todas as latitudes brasileiras. Ou seja, aquela história do aquecimento global ser mito é pura mentira. A reportagem completa pode ser acessada aqui

E não menos importante, já mudando de assunto, essa mesma edição da Revista “Pesquisa” da FAPESP trouxe outra matéria intitulada “Gosto pela Diplomacia”. Como resultado do projeto “Brasil, as Américas e o Mundo – política externa e opinião pública”, coordenado pela Professora Maria Hermínia de Almeida do Instituto de Relações Internacionais (IRI) da USP, fora observado que cada vez mais a política externa brasileira entra no interesse nacional, contrariando a tendência de tempos passados. De fato, brasileiros nunca se interessaram muito por política interna e menos ainda pela externa ou Internacional. 

Fonte: Revista Pesquisa (FAPESP) – n. 210, Agosto/2013

Mas essa constatação mudou nos últimos anos. Além da política externa estar presente no dia-a-dia da população, progressivamente há a negação de que o Itamaraty é “um caso bem sucedido de insulamento burocrático”. A maioria dos entrevistados acredita que o Brasil terá grande peso nas Relações Internacionais daqui pra frente e afirma que aos BRICS pertencerá o futuro. Dos resultados mais surpreendentes destaca-se um: houve um consenso entre a opinião do público em geral e dos especialistas! Será que isso denota uma gradual ruptura no Ministério das Relações Exteriores (MRE) no sentido de que, ao contrário do que muitos imaginavam, a população sabe o que está dizendo sobre nossa política externa? Para a leitura completa da publicação, clique aqui

Ficam aqui registrado meu elogio à FAPESP e minha menção às duas reportagens. Se tiver interesse, leia, pois são muito boas e apresentam uma discussão bem mais profunda e especializada comparado com o que escrevi de forma resumida acima.


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A moratória do bem

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Em 2007, o presidente do Equador, Rafael Correa, surpreendeu ao anunciar a decisão de não explorar um campo de petróleo na região amazônica de seu país. Para isto, escolheu apresentá-la na Assembleia Geral das Nações Unidas, especialmente para lembrar que os benefícios ambientais do projeto teriam que ser ressarcidos de alguma forma pela comunidade internacional. Do discurso, nasceu a Iniciativa Yasuni-ITT.  

O parque nacional Yasuni, região da moratória petroleira estabelecida, já havia sido reconhecido por sua riqueza em biodiversidade pela Unesco, organismo da ONU. Contudo, a Amazônia equatoriana também já foi palco de importantes interesses das grandes empresas que exploram petróleo. Desta forma, tornou-se alvo de crescentes discussões da sociedade civil em torno da proteção de seu imenso inventário biológico, do avanço da poluição como resultado da extração de seus recursos, assim como do reconhecimento dos direitos das comunidades autóctones.  

A moratória do bem – em oposição àquela dos endividados – estimou uma compensação total de US$ 3,5 bilhões para ressarcir o país por preservar os recursos lá contidos e pela não emissão de gases do efeito estufa de sua produção estimada. O projeto foi bem recebido pela comunidade internacional, mas o projeto não chegou perto de levantar os US$ 350 milhões por ano que estabeleceu como objetivo. Desde então, o presidente Correa prolongou a moratória, mesmo com os parcos avanços, devido à queda do preço do petróleo.  

Uma outra questão importante é a gestão dos fundos levantados. Inicialmente, o governo equatoriano queria administrar sozinho os recursos. Para a comunidade internacional, o gerenciamento de fundos deveria recair no PNUD, vinculado as Nações Unidas. Por fim, chegou-se a um modelo misto, por meio de um comitê formado por representantes dos doadores internacionais, entidades governamentais do Equador e de sua sociedade civil. Os recursos seriam utilizados para transição energética do país, proteção da biodiversidade e o desenvolvimento de suas comunidades amazônicas.  

Até março de 2013, haviam sido arrecadados US$ 336 milhões. O presidente tem a expectativa que haja uma contribuição maior dos países que mais poluem e prometeu uma avaliação do projeto para junho. Apesar de responder a uma demanda interna em relação à proteção do meio-ambiente, trata-se ainda de uma plataforma política contra os grandes interesses empresarias que dominaram o país – retórica recorrente de Correa. Foi uma moratória unilateral, com apoio internacional, e que pode, da mesma forma que foi estabelecida, ser finalizada.  

O seu insucesso parece ser mais uma demonstração que cuidar dos próprios problemas suplanta, na maioria das vezes, iniciativas que visam o bem comum, mesmo quando impulsada por importantes organizações internacionais. Infelizmente.  


Categorias: Meio Ambiente


Você conhece Ordos?

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Avenidas vazias na cidade de Ordos, na China.

Fonte: Time.com


Não, não. Não é algum lugar da Terra Média d’O Senhor dos Anéis. Muito menos o nome de um dos sete reinos de “Game of Thrones”. Até hoje eu nem sabia da existência de Ordos. Sim, é uma cidade e ela não é mera ficção. Ordos está localizada na Mongólia interior, ou seja, na China. Começou a ser construída em 2003 e foi projetada para abrigar mais de um milhão de habitantes. Hoje, em 2013, comporta apenas trinta mil pessoas. É uma cidade fantasma! 

Há relatos sobre a existência de algumas dezenas de cidades abandonas por diversos motivos. Pripyat, na Ucrânia, tornou-se inabitada em virtude da explosão nuclear de Chernobyl e Craco, na Itália, foi desabitada em 1975 em razão de um intenso terremoto que abalou toda estrutura física da mesma. Há ainda outros exemplos de lugarejos tomados pelo tempo, principalmente por causas econômicas. Mercados escassos de mineração, fim de reservas fósseis e assim por diante acabaram por desabitar cidades inteiras. Mas Ordos é diferente. 

E por que? Porque ela é uma cidade moderna e bem planejada. Em matéria publicada na revista Carta Capital da semana passada (ano XVIII, número 735), a colunista Janaína Silveira diz que lá há museu, biblioteca, montadora de carros, aeroporto, centro de exibições… Apenas com a visualização de algumas fotos é possível observar a grandiosidade do projeto. Distritos vazios, avenidas sem movimento e monumentos com cavalos (símbolos da cultura mongol) em praças desocupadas podem ser vistos no site do jornal “Time”.

Ao contrário das outras cidades fantasmas, Ordos nem chegou a ter uma população numerosa. Todavia, o motivo da sua construção é bem fundamentado: a região é rica em carvão, petróleo e gás. Sozinha possui 150 bilhões de toneladas de carvão mineral, um sexto de todas as reservas chinesas. E é este o principal motivo de ter trazido esta notícia ao blog. Com esta onda em prol do desenvolvimento de energias sustentáveis e renováveis, não seria um “tiro no escuro” dos chineses? As perspectivas variam bastante, alguns acreditam que sim, mas outros preveem um futuro de bonança para a cidade. 

Em Pequim, os reflexos da poluição são sempre visíveis. Pessoas estão andando com máscaras nas ruas em dias nos quais é impossível até observar os grandes prédios cobertos por uma densa camada de fumaça. Os níveis de poluentes na capital foram considerados perigosos pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Grande parte da pujança econômica chinesa e do seu elevado crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) advém das amplas indústrias e do uso irrestrito de combustíveis fósseis.

Juntando-se a isso, Ordos também é exemplo da bolha imobiliária do país. Interessante, não? Olhando a foto acima, daria um bom cenário para as gravações do “The Walking Dead”.


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Névoa cinzenta

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As palavras poluição e China – frequentemente vistas na mesma frase – têm ilustrado as manchetes internacionais nos últimos dias. Os níveis altíssimos de poluição em Pequim voltaram a assustar, obrigando empresas aéreas a cancelarem voos e moradores a ficarem em casa para se protegerem da impressionante névoa cinzenta…

Para se ter uma ideia, o tamanho das partículas do ar estava 20 vezes superior ao recomendado pela Organização Mundial de Saúde para um período de 24 horas… com uma visibilidade de apenas 200 metros nas ruas, o pacote do governo com medidas para conter a poluição atmosférica (prometido há duas semanas) se faz mais do que urgente.

Com taxas de câncer de pulmão crescendo assustadoramente no decorrer da última década e os atuais níveis alarmantes de poluição, o governo tem até aconselhado a população a reduzir as atividades realizadas ao ar livre (!).

Acontece que a situação vivenciada atualmente pela China não é nova, e crises parecidas já ocorreram nos Estados Unidos (1948), na Bélgica (1930) e na cidade de Londres (1952). Daí foi criado o termo “smog das palavras inglesas para fumaça (smoke) e neblina (fog). Nestas oportunidades, as crises contribuíram para a criação de medidas contra a poluição, muitas vezes consequência direta do processo de industrialização acelerada.

Se quiser, a superpotência chinesa certamente tem condições de enfrentar o problema que pode mesmo representar um obstáculo ao crescimento econômico do país. Sendo o segundo maior emissor de gases de efeito-estufa no mundo, a redução das emissões de dióxido de carbono depende de muita vontade política para que compromissos ambientais sejam assumidos. Enquanto isso não acontece, tem até chinês vendendo ar puro em lata contra a poluição… qual sabor você preferiria: “Taiwan pós-industrial” ou “Tibete fresco”? […]


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Um Clima Indigesto

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O mês de dezembro passou. Foi-se o peru, o presente de natal e até mesmo esse período rechonchudo de festas. Mas de toda a comida festiva, o que tem sido mesmo difícil de engolir é o resultado da última Conferência do Clima da ONU no início de dezembro. Também conhecida como COP (Conferência Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas), a 18a edição foi sediada em Doha, no Catar, e, como acontece todos os anos, teve sempre um volume muito grande de expectativa ao seu redor. A indigestão, que a conferência tem causado, foi resultado do sabor desgostoso que seguiu os poucos momentos de prazer da degustação de sua declaração final

O tema da vez era a postergação da validade do Protocolo de Quioto até 2020. Como nenhuma das COPs conseguiu produzir um acordo internacionalmente vinculante, era só questão de tempo até que o tema viesse à tona. Foi discutido em 2010 e 2011, mas sem sucesso. A pressão levou ao resultado. Dezembro de 2012 era a expiração do tratado e foi justamente nesse mês que optou-se por continuar com ele. 

Em um ano de muitos fenômenos climáticos alarmantes, um tratado era conveniente. Segundo a Organização Meteorológica Mundial (OMM), entre janeiro e outubro de 2012 registrou-se o período mais quente desde que começou-se a medição em 1850. Isso fez com que as calotas polares perdessem 11,83 milhões de metros quadrados, 49% maior à perda média de 1979-2000. Mas, como já disse, o momento de euforia da aprovação não foi grande o suficiente. 

Se anteriormente o Protocolo de Quioto estabelecia uma redução média de 5,2% em relação aos níveis de 1990 para os países desenvolvidos e o estabelecimento do mercado de carbono e de “hot airs” (dentro do Mecanismo de Desenvolvimento Limpo) para que alguns países pudessem vender suas reduções acima dos níveis para outros que reduziriam menos, a nova versão do tratado teve algumas perdas nesses quesitos e não parece suficiente por remeter-se a níveis de gases de efeito estufa mais de 20 anos atrás. 

Primeiro, observou-se a saída de importantes países desenvolvidos. Japão, Nova Zelândia, Canadá e a Rússia deram adeus ao protocolo. Isso significa que os países que sobraram são responsáveis por apenas 15% das emissões do mundo. Segundo, não será permitida a venda desses “hot airs”, impedindo-se que sejam distribuídas autorizações de emissões por aí, razão que levou alguns desses grandes países a deixar o protocolo. 

A inconsistência entre as expectativas e os resultados das conferências do clima tem se tornado uma regularidade. Mais do que isso, quase que uma fórmula certeira. Infelizmente, parece que os países envolvidos estão ficando presos em paradoxos de negociação. As intenções da Conferência são interessantes, e os avanços significativos (para uma década atrás). O problema é que inflexibilidade tem se tornado o maior entrave. E o maior inimigo nem mais é a mudança no clima, mas sim as negociações. 

A crise econômica foi a desculpa geral dos países desenvolvidos para não insistir nas reduções e não se vincularem ao novo acordo. Os países em desenvolvimento têm um misto de revanchismo e busca de justiça. Não querem ter que cortar suas economias agora que estão começando a crescer em virtude de erros e excessos de países desenvolvidos anteriormente. Ou seja, apesar de assinarem, ainda defendem um princípio de responsabilidades diferenciadas. 

E esse é o grande paradoxo. O princípio da inflexibilidade, a formula que torna toda reunião do clima aquela refeição que no começo até parece boa, mas depois nos faz pensar que não caiu bem no estômago. Quioto vigora, capengando, aos trancos e barrancos, até 2020. A data para um novo acordo internacional que vincule todas as partes é 2015 (como estabelecido em Durban). Ou muda-se a estratégia geral das partes e/ou o método de tomada de decisão (que é sempre consenso), ou estaremos fadados a mais fracassos em sequência. E, acima de tudo, teremos sido vencidos por nossas próprias negociações.

[Para relembrar o que foi falado no blog sobre a COP 1516 e 17, clique nos links ao lado]

[Para mais sobre o tema: 1, 2, 3, 4]


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Sandy passando e causando

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Começamos o texto de hoje com um pouco de cultura inútil. Você sabe por que tempestades e furacões atlânticos costumam receber nomes nos EUA? Seria para facilitar a divulgação de avisos para a mídia e a população, em uma lista que se repete a cada seis anos. A exceção são os nomes de furacões que resultaram em tragédias. Então, nada de Andrews ou Katrinas no futuro. A bola da vez é o furacão Sandy, que pela repercussão pode muito bem ser um candidato a essa lista ingrata de nomes “aposentados”. 

Se formos pensar, furacões e outros tipos de cataclismos são alguns dos poucos eventos realmente internacionais. Não são localizados como deslizamentos ou incêndios, e literalmente “viajam” por um monte de lugares diferentes causando transtorno e destruição. A grande sensação do Sandy é que seu trajeto está muito atípico, saindo do roteiro “comum” passando pelo corredor entre Flórida e Louisiana, e com projeção de ir parar lá pros lados de Nova Iorque. Isso está causando um alvoroço tremendo. Cortes de energia estão previstos (podendo chegar a uma semana no pior dos casos), avisos de enchente e evacuação por toda costa leste, e centenas de vôos cancelados por todo o país – afetando inclusive os internacionais. 

Essa é provavelmente a maior conseqüência internacional desse furacão, mas tem outra bem mais sutil. Estamos a dias da eleição presidencial dos EUA (que na verdade já começou, já que por lá existe a opção de antecipar o voto, coisa de primeiro mundo), e isso tudo está afetando a reta final de campanha dos candidatos. A coisa parece pesar mais para Obama – ele e Romney tiveram que alterar seus planos e deixar de visitar estados estratégicos, cancelando comícios e tudo mais, mas como presidente atual, o povo espera que tenha uma atitude com relação à tragédia, se acontecer. É só lembrar da falta de ação do Bush filho fez na época do Katrina pra pensar em como isso pode ter um impacto real no resultado das eleições… 

Fica a expectativa da passagem do furacão que na verdade está perdendo força e muito provavelmente virando uma tempestade forte. O interessante disso tudo é que os danos, até o momento, são muito mais potenciais que reais, e a perda de vidas deve ser mínima, se ocorrer. Isso, pelo menos, na passagem pelo continente. Por que o Sandy já passou pelo Caribe e levou mais de 60 pessoas junto, sendo que onde a coisa foi pior (mais destruição e mortes), como desgraça pouca é bobagem, foi no Haiti. Mas claro que isso não dá notícia como nos EUA.


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