Comemorando?

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Que hoje foi feriado por conta do Dia do Trabalho todos sabemos e apreciamos, é claro. Mas será que essa data pode ser vista como ‘comemorativa’ pelo mundo?

O 1º de maio é simbólico desde 1886, quando nos Estados Unidos os movimentos de luta pelos direitos dos trabalhadores ganharam força – contudo, comemoração talvez ainda não seja o tom que marca esse dia. Antes de comemorar, trata-se principalmente de reconhecer os esforços trabalhistas por melhores condições, em uma busca que persiste até os dias de hoje.

Impressionantes denúncias de trabalho escravo em Bangladesh desafiam qualquer princípio de justiça social que se acredite consolidado em pleno ano de 2013. Recordes históricos de desemprego assolam o continente europeu – especialmente a Espanha – e reavivam inquietudes sobre o futuro econômico de vários países.

Pela primeira vez na história, mais de seis milhões de trabalhadores espanhóis (em relação a uma população total de aproximadas 47 milhões de pessoas) encontram-se desempregados. [O assunto foi tratado de forma similar no ano passado no blog, em cujo texto as informações se mostram ainda atuais.]

Na Grécia, uma greve geral marcou o dia de hoje, especialmente após anúncio do governo de transferir o feriado para a próxima semana. O protesto, contudo, resume a insatisfação generalizada em relação aos cortes orçamentários recentemente aprovados pelo governo – os quais preveem, até o final do próximo ano, a demissão de 15.000 funcionários públicos (!).

Protestos também em vários outros países, tais como Turquia, Taiwan, Filipinas e Coreia do Sul, refletem as dificuldades enfrentadas em diferentes contextos, alinhando-se com o fator comum de hoje celebrar internacionalmente o Dia do Trabalho.

Comemorar talvez não seja o melhor termo para caracterizar os ânimos desta data, pelo menos não por enquanto. Trata-se realmente de reconhecer as melhoras alcançadas e lutar por mudanças substantivas em áreas frequentemente não priorizadas pelos governos. Com uma crise econômica que ainda assombra a Europa, compreende-se facilmente porque as notícias revelam uma perspectiva muito mais negativa que positiva em relação ao 1º de Maio.

Esperemos que, no futuro, tenhamos mais razões para celebrar que para criticar, resultado de todos os esforços de reivindicação e proposição de melhoras por parte dos trabalhadores pelo mundo afora… 


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A dama que era rainha

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Hoje o mundo lamenta (apesar de ter quem comemore) a passagem da primeira mulher (e até agora única) a ocupar o cargo de primeira-ministra da Grã-Bretanha, Margaret Thatcher, que faleceu aos 87 anos de derrame hoje pela manhã. Quando grandes personagens morrem, a repercussão é sempre sobre sua importância e legado. Thatcher estava afastada há mais de 10 anos da vida pública por motivo de saúde, então realmente não tinha aquela importância na atualidade… mas não é à toa que ela geralmente é referida como uma das pessoas que acabou com a Guerra Fria, com gente da estirpe de Reagan, o papa João Paulo II e Gorbachev (inadvertidamente, mas enfim), o que não é pouca coisa, e sua história é muito rica. 

No governo de 1979 a 1990, por três mandatos, a conservadora Thatcher fez de tudo. Conseguiu que um apelido pejorativo da imprensa soviética fosse adotado pelo resto do mundo, e ganhamos assim a “Dama de Ferro”, antes apenas o nome de um instrumento de tortura. Contribuiu para a queda da URSS ao “aprovar” Gorbachev como interlocutor aceitável com o “demônio” que considerava o governo soviético. Escapou de um atentado intacta e com isso apertou a repressão ao terrorismo político do IRA. Conseguiu reverter uma onda de aprovação negativa e retomar o nacionalismo britânico de um jeito que não se via desde os tempo do Churchill (e com um pouco de ajuda da atrapalhada ditadura argentina) ao vencer a palhaçada da guerra das Malvinas. Jogou a pá de cal no domínio britânico de Hong Kong ao assinar o acordo que confirmava a devolução da ilha para a China em 1997. Isso pra ficar em seu legado na história mundial. 

Afinal, sua principal herança foi no âmbito interno. Thatcher era amada e odiada (quando terminou o mandato, em 1990, estava brigada até com o próprio partido) na mesma proporção, ao salvar a economia britânica, controlando a inflação e valorizando a moeda, ao mesmo tempo em que arruinava setores ineficientes, se bicava com sindicatos e nadava em privatizações. Talvez sua maior sacada tenha sido com relação à União Europeia. Ela era totalmente contra a adesão britânica, e parte da rejeição do país ao Euro com certeza veio da lembrança da grande ministra. Quando vemos a situação do bloco hoje, não é de espantar que uma política durona e perspicaz pudesse estar certa desse modo. Claro que ela não acertou sempre – era contra a reunificação da Alemanha, que hoje vai bem obrigado. 

De todo modo, hoje se encerra um capítulo de um dos períodos mais agitados da história. Os feitos e a herança política de dela, seja na austeridade que legou ao governo de seu país, seja na figura de mulheres de personalidade forte e questionadoras no poder, são duradouros e vão afetar a história por muito tempo, dessa dama que parecia muito mais com uma rainha de jogo de xadrez.


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A corrupção bate à porta do rei

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Não bastasse o caso Bárcenas, tratado no blog pelo Cairo há dois meses, um outro escândalo de corrupção abate a Espanha. Deste vez, contudo, atinge o centro da monarquia do país. O genro do rei, marido de sua filha Cristina Federica de Borbón y Grecia, está sob investigação por denúncias de desvio de dinheiro público e tráfico de influência.  

Na história recente da família real espanhola, a filha do rei Juan Carlos será a primeira a testemunhar em um processo judicial. A justiça espanhola afirma ter encontrado evidências que Cristina tinha conhecimento das irregularidades conduzidas por seu marido. Ele e seu sócio teriam, de acordo com as acusações, desviado 6 milhões de euros por meio do Instituto Nóos, uma entidade sem fins lucrativos.   

As acusações mancham a imagem dos membros da monarquia e ameaçam corroer a popularidade do rei. Por enquanto, não há perspectiva que ele transmita o trono para o primeiro da linha de sucessão. O caso ganha proporções na medida em que a situação econômica espanhola está longe de ser das melhores. Mais um exemplo de investigação que diminui a confiança nas instituições do país.  

O ex-jogador de handebol e genro do rei, Iñaki Urdangarin, ganhou os noticiários. De início, as denúncias não pareciam imputar participação da infanta Cristina. A casa real passou a excluí-lo dos eventos oficiais e limitar sua visibilidade. A justiça é para todos, esta foi a resposta do monarca. Sem privilégios, a sétima na linha de sucessão, terá de comparecer perante o juiz do caso no dia 27 de abril.  

Seja por ingenuidade ou cumplicidade, a infanta responderá ao processo e enfrentará rumores de supostas pressões pela abdicação de seus direitos dinásticos. Afastá-la de eventos e de obrigações oficiais, em caso de condenação, não parece que será suficiente. Uma família real que já foi vista como modelo, talvez em contraste com a dos britânicos, viu a casa – ou castelo – cair.  


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A Ilha de Lost

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No destaque, a Ilha de Chipre. Fonte: GoogleMaps

Até semana passada muito pouco se comentava sobre uma pequena ilha situada no Mar Mediterrâneo logo ao sul da Turquia. Além disso, quase ninguém sabe que tal ilha também faz parte da União Europeia e da Zona do Euro. Evidentemente, estou falando de Chipre, país que talvez venha a ser o primeiro a deixar a moeda única e a declarar falência econômica em meio a mais de sessenta anos de integração no continente, tendo como marcos iniciais os anos da década de 1950, nos quais o Tratado de Roma deu inicio à Comunidade Econômica Europeia (CEE). 

A Crise do Euro já é sabida há tempos. Mas ninguém esperava uma mudança de planos nesta altura do campeonato. Espanha, Portugal, Itália, Grécia e outros países já haviam testemunhado dias difíceis com altas taxas de desemprego e falta de prosperidade econômica. A maré baixou, mas veio outra tormenta, uma tormenta cipriota. Neste momento tanto o Eurogrupo quanto o Banco Central Europeu (BCE) estão pressionando os líderes do país a adotarem uma medida econômica para amenizar o pedido de 10 bilhões de euros dos cofres europeus.

O grande problema é dual. Primeiro, quem perde com isso é a população do Chipre, pois os credores do país (Comissão Europeia, Fundo Monetário Internacional e BCE) só darão o resgate financeiro apresentado no parágrafo acima caso Nicósia, capital e maior cidade cipriota, contribua com 7 bilhões de euros, dos quais grande parcela proveria de taxação sobre depósitos bancários. Resumo da questão: o contribuinte teria uma parcela razoável de seus depósitos tomada por impostos. E, segundo, era muito conhecido, mas pouco divulgado que Chipre é um verdadeiro paraíso fiscal! O país gira em torno de depósitos financeiros externos e a Rússia detém 40% deste montante. Para quem esperava uma ajuda dos russos, nada foi feito.

Banco do Chipre. Fonte: zerohedge.com

Bancos foram fechados e vários protestos foram realizados em frente ao Parlamento do Chipre. O Banco Popular, por exemplo, possuía rumores de que viria à falência e fecharia dentro de poucas horas. Já imaginou o desespero dos correntistas? Soa como algo surreal. Pois bem, agora a “Ilha de Lost” já é bastante conhecida. De um lado, resta acreditar que os governos estejam realmente preocupados não somente com o rumo da integração econômica, mas também com o bem-estar da população cipriota. Do outro, isso é mais um desafio para a União Europeia. Ela tem que mostrar a que veio e chegar a um resultado plausível o mais rápido possível para uma economia que representa apenas 0,2% de toda receita do bloco

PS: Na matéria da Revista Época-Negócios intitulada “O que está acontecendo no Chipre?” tem-se um resumo de fácil compreensão para entender a frágil situação econômica do país. Após Grécia, Portugal, Espanha e Irlanda, ele é o quinto a pedir ajuda financeira à UE.


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O orçamento da discórida

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O debate acerca do próximo orçamento da União Europeia foi um campo de batalha. De lados opostos, posicionaram-se os pró-austeridade e os defensores de políticas distintas para enfrentar o atual cenário econômico. Em novembro, não houve acordo. Em fevereiro, por sua vez, a inclinação para austeridade venceu.  

Enquanto Reino Unido e Alemanha pregam maior responsabilidade fiscal, visando diminuir o déficit; França, Itália e Espanha parecem mais preocupadas com o crescimento econômico e a geração de empregos. Não que os pró-austeridade não queiram uma economia próspera, pelo contrário. Existe, em realidade, visões opostas quanto ao caminho para alcançá-la.  

O orçamento europeu, discutido a cada sete anos, representa 1% da produção econômica dos países-membros e 2% do total de seus gastos públicos totais. A despeito da aparência de pouca relevância, grande parte do montante visa programas de bem-estar social, pensões e saúde, de acordo com a Comissão Europeia. Por isto, sua importância. O embate terminou com a definição de €959,99 bilhões como teto do orçamento, menos do que os €960 bilhões que o presidente francês havia dito ser seu limite.

   

Eis que, após esta longa batalha, surge o Parlamento Europeu para fomentar mais discórdias. Foram 506 votos contrários ao acordo orçamentário. Os 161 votos a favor da proposta dão mostras da opinião majoritária. Para eles, a preocupação essencial é estabelecer a flexibilidade dos gastos previstos não realizados para outras prioridades; assim como aprovar uma reunião para rever o orçamento após as eleições de 2014, caso ocorra uma recuperação econômica até lá.  

No meio de tudo isto, há ainda questões políticas mal resolvidas. David Cameron puxou a fila dos que ameaçam abandonar o barco. A líder da extrema-direita na França, Marine Le Pen, também defende um referendo sobre a continuidade de seu país na União. Isto sem contar os eurocéticos italianos. Afinal, o candidato pró-austeridade, Mario Monti, sofreu uma derrota retumbante nas eleições da Itália.  

Para Cameron, sem as amarras da União Europeia, seu país estaria livre para praticar suas políticas de austeridade. Sobraria, para questões internas, o tempo que ele gasta tentando outros países a segui-lo. Na Alemanha, a agenda 2010, do então primeiro-ministro Schroder, serve de inspiração para os possíveis novos caminhos. Naquela época, as suas reformas sociais e do mercado de trabalho resultaram em derrota eleitoral. De fato, a austeridade é um capital eleitoral difícil de carregar.

Já o economista Paul Krugman, Prêmio Nobel de Economia em 2008, não entende quais são os sucessos das políticas de austeridade. Para ele, o foco deveria ser a continuidade do combate ao desemprego e a reanimação da economia. O debate seguirá, mas o ímpeto de maior controle de gastos deve seguir entre os líderes europeus. Restará, porém, driblar a oposição do Parlamento Europeu. O mais difícil parecia ter sido logrado. Parecia.

Imagem: fonte


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O Grillo falante

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Na história do Pinóquio, o boneco de madeira que queria ser menino de verdade passou por muitas aventuras acompanhado de um grilo falante, uma alegoria de sua consciência. O tal grilo ajudava-o a discernir o “bem” do “mal” enquanto o garoto aprendia com a vida. Coincidência ou não com nosso tema de hoje, o texto foi escrito por um italiano de Florença, Carlo Collodi, no final do século XIX. 

E é justamente sobre a Itália que vamos falar. 

Enquanto o livro de Collodi apresentou aos leitores boas alegorias educativas, a crise na Europa tem revelado e dado força a figuras peculiares quase alegóricas (clique aqui para mais sobre isso no blog). A maior ilustração desse cenário foram as eleições parlamentares do país na última semana de fevereiro, que parecem ter revelado um personagem muito parecido com a consciência de Pinóquio, Beppe Grillo. 

A semelhança vai muito além do nome. Como na história, se o boneco ignorasse sua consciência, situações complicadas poderiam ocorrer com ele. Da mesma forma, a política italiana não pode mais ignorar Grillo e seu partido, o Movimento 5 Estrelas, depois desse pleito. O ex-comediante conseguiu cativar os eleitores italianos com um discurso de grande mudança das instituições políticas tradicionais do país. Vociferando por rupturas na lei eleitoral, por reduções de salários de políticos, pelo fim de um reembolso de políticos pós-eleições, pela limitação de apenas dois mandatos por candidato e por investimentos maiores em programas sociais, conquistou grande parte a Itália. 

Olhando os números, o Movimento 5 Estrelas conquistou 108 cadeiras na Câmara (do total de 630), com 25,5% dos votos. Ficou apenas atrás da coalizão do sempre polêmico Berlusconi (29,18%, 124 cadeiras) e da de Pier Luigi Bersani (29,54%, 340 cadeiras). No Senado, teve um desempenho parecido; com 23,79% dos votos e 54 cadeiras, ainda atrás de Bersani (31,63%, 113 cadeiras) e de Berlusconi (30,71%, 116 cadeiras). 

Ora, analisando os números Grillo não parece ter tanta importância assim. Se as eleições dependesse de valores absolutos essa análise poderia estar certa. O problema é que, especificamente no Senado, cada região tem um peso diferente e nem sempre aquele com maior número de votos leva a maioria. E nessas eleições,  Berlusconi conseguiu alguns dos mais importantes nessa disputa.

Agora o país vive um impasse. Como nenhuma coalização foi capaz de obter a maioria no Senado e na Câmara, para que se escolha um primeiro-ministro é preciso uma aliança de partidos maior, para se obter um voto de confiança. Mas Grillo já mostrou ter outra característica em comum com o nosso personagem do Pinóquio, sabe falar. E bem. Negou-se a fazer alianças com as coalizações com Bersani a menos que ele concorde com suas exigências de mudanças

A temporada de negociações está aberta até as próximas semanas, quando os novos representantes tentarão selar alianças e se apresentarão à Câmara e ao Senado. O presidente do país não quer novas eleições; Bersani e Grillo negaram aliança com Berlusconi (nesse caso não acredito que haja o tipo de pragmatismo para uma parceria do estilo Lula-Haddad-Maluf…); Bersani não parece não estar muito otimista; e Grillo já até se ofereceu para tornar-se primeiro-ministro

Esse cenário inesperado é resultado da grande insatisfação pública e do espaço que se abre em tempos de crise. Como na história do Pinóquio, se os representantes da Itália não negociarem com Grillo, a nova consciência (para alguns a “desconsciência” ) italiana, o cenário futuro não é bom. Mesmo porque, quem poderá negar que em novas eleições o Movimento 5 Estrelas não ganhará mais representantes? Se a Itália quiser ser um “menino de verdade” é preciso negociar e ouvir nosso Grillo falante. Do contrário, o cenário não parece ser positivo.

[Para mais, 1, 2, 3, 4, 5]


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Post do Leitor

Post do Leitor – Victor Uchôa

[O leitor e graduando em Ciências Sociais pela Unicamp, Victor Uchôa, nos brindou com um um excelente texto sobre a política e eleições na Europa. Lembrando a todos que, se quiserem postar na Página Internacional,  basta enviar um texto para [email protected]! Boa leitura!]

As margens da solução

A esperança é a última que morre, afirma o ditado popular sem que ninguém o conteste. Pelo menos até o surgimento da crise econômica europeia. O continente está há meia década mergulhado em problemas sem soluções, tempo suficiente para que fossem feitas as mais diversas análises. Ainda assim, o tema e a crise estão longe de serem esgotados. 

A eleição italiana ocorrida no final de semana foi a mais recente demonstração de como esse momento afeta a confiança da população quanto aos atuais líderes governamentais. Independentemente da vitória apertada da coalização de centro-esquerda, seguida de perto pelo partido conservador de Silvio Berlusconi, o que mais chama atenção é o comportamento do eleitorado quanto à aceitação de partidos até então inexpressivos. Uma coalizão liderada por um humorista alcançou o terceiro lugar e uma forte representação na câmara. 

Desde o início da crise, as eleições em grande parte dos países europeus, com exceção a Grã Bretanha, vêm apresentando uma tendência de crescimento dos pequenos partidos. O caso francês do crescimento do antes secundário partido nacionalista Frente Nacional, liderado pela família Le Pen, é o maior exemplo desse fenômeno. O crescimento das pequenas legendas diante dos anteriormente detentores do poder parece bastante comum. Ainda mais em tempos de crise e piora de qualidade de vida, em que o descontentamento é crescente. Mas se observarmos mais de perto, veremos uma anormalidade. O que não é comum é o posicionamento político desses partidos. 

Nos últimos 20 anos, a política europeia construiu uma forte estabilidade entre as bandeiras defendidas pelos partidos políticos dominantes em cada país. A alternância do poder funcionou mais como revezamento de líderes do que de ideias. Não à toa sempre ouvimos e lemos sobre a vitória de um partido de centro-esquerda, de centro-direita ou de apenas centro. O termo “centro” poderia ser facilmente substituído por “igual ao anterior”. A verdade é que, enquanto governo, foram todos mais ou menos idênticos. Na maioria das vezes a grande divergência entre esses partidos se deu quanto ao alcance das políticas assistencialistas e a dimensão do apoio a políticas liberais, o que definia qual palavra viria à frente do termo “centro”. Isso até a crise. 

A piora econômica não somente desacreditou a população europeia quanto à política. Ela ameaça detonar a convergência de ideias dominantes criada pelos países europeus, e com ela toda a estabilidade. Os partidos que crescem são, na maioria das vezes, os de extrema-direita, marxistas, comunistas ou até mesmo de identidade próxima ao nazismo. Por vezes ocorrem casos menos “ameaçadores”, como foi o italiano, em que a surpresa foi a aceitação da população de promessas populistas. 

A extrema direita foi a que menos amenizou as suas defesas ideológicas para vencer a batalha eleitoral. Ao contrário, as utilizou como trunfo. A afirmação de que as mazelas sofridas pelas nações europeias ocorrem por culpa dos imigrantes, das minorias ou até mesmo de conspirações internacionais contra seus países, como a criação da zona do Euro, são cada vez mais comuns. A Europa ressuscita fantasmas do passado para garantir o futuro. 

O retorno dessas ideologias antes limitadas ao gosto de pequenas minorias sem poder de decisão política abre algumas questões. A convergência de ideias entre os partidos foi por muito tempo contestada como antidemocrática. Até mesmo hoje, quando o sistema financeiro internacional reage mal às pesquisas eleitorais que colocam na liderança partidos fora do estabelecido, há quem enxergue uma imposição de interesses de grupos poderosos sobre a vontade do povo. 

Distante da discussão de que o ressurgimento de certos partidos e ideais segue uma tendência mais plural e democrática de divisão de poder político, uma dúvida mais urgente ainda paira. Com a chegada desses partidos ao poder, teremos mais soluções ao momento difícil da população europeia ou esta será assombrada por outros fantasmas ainda piores? Os partidos fora do centro crescem à custa da esperança do fim da crise. Cabe a eles, pois, a tarefa de fazer com que a população que os elegeu continue acreditando que a esperança é a última que morre.


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Carnes, ovos e tomates

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Protesto contra o governo na cidade de Sofia, na Bulgária

Fonte: Retirado de vídeo disponível em pt.euronews.com


A questão da carne de cavalo comercializada em lasanhas à bolonhesa virou polêmica pelo mundo na última semana. Cogita-se que pelo menos quinze países europeus tenham encontrado traços desta carne não declarada em pratos congelados. O problema não é ser de cavalo, até porque existe mercado pra isso e, por exemplo, o Brasil foi o 12º maior exportação de carne de equídeos (cavalo, jumento e mula) no ano passado. Entretanto, a discussão gira em torno da substituição de uma carne por outra sem aviso prévio e direto ao consumidor. 

E agora isso está sendo descoberto em países do leste europeu. Romênia e Bulgária entraram nesta lista ontem mesmo. É ruim para o mercado internacional e principalmente para dois atores: União Europeia e Brasil. O bloco regional, um dos maiores importadores de carne bovina, está encontrando resistência de consumo. Nosso país, o segundo maior exportador de carne bovina do mundo, poderá encontrar dificuldades comerciais no curto prazo. 

Mas, e os outros ingredientes? Então, voltando à Bulgária, ontem o seu parlamento aceitou o pedido de renúncia do primeiro-ministro conservador, Boiko Borisov. Em razão das medidas de austeridade econômica e do aumento das tarifas de energia, a população ficou revoltada, foi às ruas e protestou veementemente contra o governo. A expressividade foi tamanha que parece ser o maior protesto nos últimos quinze anos. Na capital, Sofia, jogaram ovos e tomates nos prédios governamentais. 

Borisov disse, no dia da renúncia, as seguintes palavras: “The people gave us power, and today we are returning it […]”. Democracia? Talvez sim, talvez não. O que o povo quer é o básico: nova constituição, diminuição dos custos parlamentares, envolvimento civil na política e assim por diante. Nem mesmo a oposição socialista esperava a saída do ministro, mas, às vezes, parece pura manobra política. 

Com carne, ovo e tomate, lá na Bulgária, a princípio, parece que as coisas não terminam em pizza. Isso porque o país é o mais pobre da Europa com salário médio de 350 euros. Mas a batata na Europa continua assando, seja na economia, mais aliviada, ou na política, mais agitada ultimamente.


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From Russia with love

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Ontem, teve grande repercussão no noticiário a visita a Brasília do primeiro-ministro Medvedev da Rússia. Se falou de muita coisa, de rodada Doha e eleição da OMC ao embargo russo de carne bovina de estados brasileiros (que aliás, continua). Mas o que chamou a atenção mesmo é que vamos comprar equipamento de defesa antiaérea (aqueles famosos SAM) deles. 

É interessante como hoje o Brasil parece diversificar (outro jeito de dizer “atirar pra todos os lados”) os fornecedores militares. Há alguns anos a expectativa era de uma aproximação cada vez maior com a França nesse setor, mas parece que era muito mais um negócio de compadres entre Lula e Sarkozy – sem os dois na parada, o principal negócio (o F-X2, de compra de caças) esfriou e não parece mais favorável a Paris. Ao mesmo tempo, nos aproximamos da Rússia, comprando helicópteros e outros equipamentos. Quando se falava em reaparelhar o Brasil e defender de “potenciais” ameaças sul-americanas, um dos pontos que os mais exaltados sempre levantavam era que deveríamos evitar ter o mesmo fornecedor dos vizinhos pra evitar que alguém de fora tivesse o poder de decidir os rumos de um eventual conflito por essas bandas. No fim das contas a possibilidade de conflito é bem remota, e as ameaças de verdade ainda são combatíveis de um jeito mais simples, como reforço de patrulha nas fronteiras e tudo mais. 

E certamente o Brasil não parece inclinado a depender de um único fornecedor, ainda mais com os planos de Defesa em longo prazo que temos desde a END de 2008. A aproximação com a Rússia é uma boa, ainda mais em um setor que ainda está mal das pernas que é o da defesa do espaço aéreo. A Índia está se dando muito bem fazendo o mesmo, e Medvedev até comentou que a tal transferência de tecnologia pode acontecer se o Brasil pagar o suficiente. Mais direto impossível, mas do discurso pra prática existe um abismo, e do lado de cá não estamos mais em 2008 e a montanha de dinheiro que parecia disponível na época parece cada vez mais uma miragem. 

A aproximação bilateral é vantajosa para os dois países, em muitos sentidos, mas tem muito chão pela frente pra que haja uma eventual cooperação militar. Se nessa brincadeira conseguirmos negociar a suspensão do embargo da carne, já vai estar ótimo.


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Carne de cavalo?

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Já que não foi assunto da segunda-feira, de hoje não pode passar no blog um breve comentário sobre a polêmica questão da carne de cavalo mascarada de carne bovina que está ilustrando as manchetes de toda a Europa nestes dias.

A situação ilustra de forma notável as relações comerciais internacionais e a forma como os problemas locais hoje podem alcançar imediatas proporções globais. Resumo (dos primeiros atos?) desta ópera europeia: escândalo no Reino Unido; cavalos desaparecidos na Irlanda; reclamações com empresas de comidas congeladas na França; matadouros detectados na Romênia, país fornecedor de carne; investigações, processos e acusações em todo o continente; e reunião extraordinária de emergência da União Europeia marcada para esta tarde na Bélgica.

Ufa! A extensão deste problema ainda não está 100% clara e a cadeia alimentícia de consequências é complexa. Na verdade, o escândalo começou em janeiro com problemas detectados em relação à carne de hambúrgueres no Reino Unido e na Irlanda. Na última semana, contudo, testes realizados em comidas congeladas provenientes da França reativaram a polêmica ao demonstrarem que o recheio de carne dita “bovina” de lasanhas congeladas poderia ser até totalmente composto, na verdade, por carne equina.

As investigações judiciais em relação à proveniência da carne e as rotulagens dos produtos estão ocorrendo e as medidas/sanções a nível europeu estão sendo discutidas agora em Bruxelas. Trata-se certamente de um grave problema internacional, o qual demanda mobilização de todas as partes para descobrir as fraudes, avaliar as proporções exatas do problema, e evitar ainda que toda a produção de carne europeia seja afetada, o que pode gerar graves consequências a uma Europa já economicamente pouco estável nestes últimos tempos… 


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