Mais um!

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Fonte: CSMonitor.com


Desde 2007, com as entradas da Bulgária e da Romênia na União Europeia, costumava-se chamar o bloco de “Europa dos 27”. A partir de hoje já não mais usaremos essa alcunha, pois a Croácia foi oficialmente aceita como vigésimo oitavo membro da UE. A adesão formal será colocada em prática no próximo dia 1º de Julho, mas a reunião entre Chefes de Estado e Governo realizada em Bruxelas, na Bélgica, já relatou o fim desse processo que durou vários anos e meses. 

Já está no ar, inclusive, um site oficial da UE que trata da entrada da Croácia no bloco. O pedido de adesão ocorreu ainda em 2003, mas, como requisito obrigatório para qualquer país, os croatas tiveram que provar eficácia política, econômica e social para fazer parte do processo integracionista. Caráter democrático, direitos humanos respeitados e proteção às minorias são algumas das questões em pauta. 

Pode-se dizer que o primeiro antecedente histórico da UE foi a consolidação da Comunidade Europeia do Carvão e do Aço (CECA) ainda em 1951. Naquele contexto posterior à Segunda Guerra Mundial, Bélgica, Países Baixos, Luxemburgo, Alemanha, França e Itália (a chamada “Europa dos Seis”) aglutinaram suas economias e tentaram promover certo equilíbrio e paz na região. Genericamente, a iniciativa deu certo e anos mais tarde foi criada a Comunidade Econômica Europeia (CEE em 1957). A UE, por si só, foi oficialmente designada em 1992 com o Tratado de Maastricht. 

A entrada da Croácia é um caso prático do que comumente se denomina na academia de “enlargement” da integração regional, ou seja, o processo de alargamento e de adesão de novos países a determinado bloco. Na Europa isso é visível, conforme foi citado no parágrafo anterior. E isso tenderá a acontecer nos próximos anos, pois existe essa tentativa de soma dos países da Europa Oriental à UE. Macedônia e Sérvia são candidatas futuras para adentrar no regionalismo. A Turquia parece um sonho/pesadelo distante, pois, em termos práticos, é a fronteira entre europeus e o Oriente Médio. 

Por motivos óbvios, autoridades europeias e croatas estão com uma visão otimista sobre o andamento das negociações. De fato, a Croácia tende a colher bons frutos com a integração. O problema continua a ser financeiro: sua economia é pequena e está em recessão, a taxa de desemprego chegou à casa dos 21% nos últimos tempos. Para a população parece haver duas posições díspares: adesão à UE sim, mas adesão ao Euro não! 

No curto prazo, a entrada da Croácia, um pequeno país dos Bálcãs, no (muitas vezes sim e muitas vezes não) mais bem sucedido exemplo de integração regional, pode parecer pouca coisa. Entretanto, representa, também, uma estratégia para voltar a falar de uma Europa que cresce, se esparrama e possui prestígio no continente. Politicamente, a UE é um exemplo a ser seguido, embora falar do bloco como uma unidade (n=1) seja, muitas vezes, símbolo de um grau exagerado de otimismo. A questão econômica ainda assusta, mas os croatas não representam uma mudança nesse sentido. Continua nas mãos da Alemanha e da França, majoritariamente. 

PS: Aos interessados nesse e outros debates mais amplos, recentemente escrevi uma resenha do livro “Integração Regional: uma introdução”, do diplomata e professor Paulo Roberto de Almeida. Para acessá-la no Mundorama, basta clicar aqui.


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Onde está Snowden?

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Bom, na verdade, já se sabe. Enquanto no Brasil estamos ocupados com ludopédio e protestos, o mundo assiste a mais um roteiro de filme de espionagem da vida real. Nesse lapso de pouco mais de duas semanas, enquanto as ruas do Brasil fervilhavam, o ex-agente da CIA Edward Snowden pôs fogo na política norte-americana quando vazou dados para jornais sobre o sistema de monitoramento de dados de comunicação, incluindo conversas e dados pessoais, mantido pelo governo dos EUA. 

Pois é, a fonte anônima dos jornais que revelaram o escândalo não ficou nessa condição por muito tempo. Assim como no caso de dados vazados do Wikileaks, logo se descobriu quem fora o responsável e o jovem agente com cara de nerd passou a frequentar as manchetes de todo o mundo. Aliás, falando em Wikileaks e a volta dos que não foram, temos muitas similaridades, e esse caso acabou por trazer a organização novamente para o noticiário. 

Os membros do Wikileaks apoiam declaradamente Snowden. O ocorrido mostra muita semelhança com o vazamento de documentos secretos há alguns anos, feito também por um jovem supostamente bem-intencionado (o soldado Bradley Manning – que por sinal está sendo julgado, acusado de traição e pode pagar caro pela aventura). E assim como o criador do Wikileaks, Julian Assange, que viveu uma peripécia se escondendo na embaixada do Equador (e ficando lá até hoje) enquanto espera asilo político, Snowden viajou o mundo – literalmente. Fugindo do Havaí, foi para a China, supondo que teria alguma proteção. Se deu mal, por que Pequim não quer azedar relações com Washington e logo teve de se escafeder de Hong Kong para ficar num aeroporto na Rússia, esperando seu próximo destino. 

Apesar de mostrar não ter intenções de entregar Snowden, nada garante que os russos vão proteger o ex-agente. O Equador já não parece muito inclinado a se meter em mais confusão com o Tio Sam como antes. Não surpreendentemente, a Venezuela aparece como uma opção viável, mas de todo modo Snowden tem a maior potência militar do mundo em seu encalço, e a julgar por seu possível “amadorismo”, não deve ir longe a não ser que consiga ter a sorte de Assange e se encastelar numa embaixada. 

Se é um espião ou não (como muita gente está acusando), não dá pra saber. Snowden dá a impressão de ser uma pessoa bem-intencionada que acabou trocando os pés pelas mãos e tendo um impacto inimaginável. A crítica pesada contra esse programa veio em má hora para Obama, que está às turras com o Congresso e de cabeça cheia com a economia. Pela primeira vez em muitos anos a política externa está tendo um peso relativamente menor na agenda doméstica da política norte-americana, e o foco nesse tipo de assunto desgasta o presidente da mudança. 

Se Snowden vai ser pego ou não, é um mistério (e pode ser que não seja feito muito esforço para isso). Mas, espião ou não, desastrado ou bom samaritano, o fato é que ele causou um tumulto além das expectativas. Mais do que alertar seus concidadãos sobre uma situação de violação a direitos individuais, o ex-agente conseguiu acender um debate inflamado, se tornou o homem mais procurado do planeta, e pode ter um grande peso não apenas na discussão do momento, mas nos rumos das próximas eleições e até mesmo nas relações dos EUA com países que venham a aceitar o asilo. Nada mal.


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Há um ano...

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…víamos uma coincidência interessante aqui no blog. 2012 foi ano de Eurocopa, e o torneio vencido pela Espanha e realizado em conjunto pela Ucrânia e pela Polônia serviu de pano de fundo para uma onda de protestos nesses países. A situação da Europa naquele momento (e que se estende até hoje) dispensa explicações, e num ambiente de insatisfação, os governos daqueles países passaram por maus bocados para lidar com os manifestantes. 

Não parece familiar? Pois é, nessa semana de Copa das Confederações realizada no Brasil, o que vemos é uma série de protestos relativamente localizada, mas bastante pontual e expressiva, com os “levantes” contra aumentos de tarifas de ônibus em diversas cidades servindo de estopim para movimentos de protesto mais sérios e amplos. Com isso, já tivemos (e provavelmente teremos muitos ainda) protestos antes de jogos da competição, e a exemplo do caso europeu de um ano atrás, motivações aparentemente desligadas dos eventos estão por trás de um movimento de contestação que tem como alvo um problema muito maior. 

Reproduzo o último parágrafo, que poderia muito bem caber em um texto feito nessa semana. 

“O mais interessante disso tudo é ver como os protestos não são contra o evento em si, mas atitudes do governo, e até mesmo da própria sociedade, em decorrência da sua realização. Incompetência do governo, gastos desenfreados e corrupção, sociedade acomodada […] Será que podemos esperar algo parecido para 2014? Não custa sonhar.” 

Não prece uma realidade muito distante, afinal. Isso aí pessoal, postando e relembrando…


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O mundo mágico do futebol

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A semana foi movimentada no cenário do esporte mais popular do mundo, com a proximidade da Copa das Confederações (um evento “teste” para a Copa do Mundo do ano que vem e que vai por à prova boa parte da organização do evento e todo o dinheiro desperdiç… digo, investido pelo Brasil) e, com grande estardalhaço, da ida do atual “showman” do esporte brasileiro para um grande time da Espanha. A milionária transferência de Neymar para o Barcelona ocupou boa parte das manchetes esportivas e sua apresentação foi um verdadeiro espetáculo.

Mas… a sensação é de que tem alguma coisa errada. E não é em termos futebolísticos – mesmo que tenha havido outras contratações mais vultosas em termos absolutos e tendo quem diga que foi um negócio da China pelo preço que o Barça pagou. Ou a descoberta de que o negócio possivelmente já estivesse fechado há mais de um ano. O problema aqui é vermos como futebol parece viver uma realidade descolada da vida comum, em uma Espanha que enfrenta crise econômica ainda grave. Nessa semana, por exemplo, apesar dos sinais de recuperação, atestou mais um mês de crescimento negativo na Zona do Euro. Apenas a Alemanha (que curiosamente está mandando no cenário futebolístico europeu) teve crescimento, e ainda assim minúsculo. A crise se reflete no esporte, com jogadores preferindo ir para times menores, mas em centros onde o dinheiro está fluindo, como Rússia ou países árabes. E os times que conseguem torrar grana nos países em crise são justamente os que têm grandes fundos de investimento ou milionários excêntricos por trás – como o Paris Saint-German, novo passatempo dos banqueiros catarianos.

Talvez a questão seja o modelo de gestão, já que os dois grandes da Espanha vivem de muito mais que rendas de torneios e cotas de televisão, mas de sócios e marketing pelo mundo. Os outros times de lá, que vivem o mundo real, acabam penando nesse cenário. Desse modo, é interessante ver o conto de fadas que aparece pela televisão, que contrasta com a realidade de protestos, reforma econômica e insatisfação. Quando falamos em futebol, vemos um dos poucos aspectos realmente globais da sociedade atual (basta lembrar que existem mais países filiados à FIFA que à ONU…). E o mundo todo tem dinheiro de sobra para sustentar essa indústria bilionária. Pena que não possam fazer o mesmo pela Espanha como um todo.


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O perigo que vem de fora

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Vamos continuar o tema da postagem do último sábado, sobre a crise na Síria. Mas, dessa vez, o foco vão ser os fatores externos que determinam os rumos do conflito. Todo mundo sabe que o problema todo começou com a violência de Assad contra os protestos e coisa degringolou com a formação de grupos armados de oposição. Mas parece que todo mundo ao redor tem seu interesse por lá. 

Quem está do lado de quem? Grosso modo, do lado de Assad, temos a Rússia, China, Irã, Iraque e Líbano. A oposição tem apoio formal de Grã Bretanha, França, Qatar, Arábia Saudita, além dos EUA (apesar de meio indecisos). Temos o Líbano, que tem várias partes interessadas. E claro, Israel, que não quer nada com os rebeldes e prefere encarar a Síria de frente. 

Qual o rolo de tudo isso? Bom, começamos com o Hezbollah libanês, que está do lado do governo sírio. É considerado grupo terrorista por EUA e Israel, e pode vir a ser por Inglaterra e França. Isso já justificaria o apoio dos europeus aos rebeldes. Mas boa parte dos mesmos rebeldes são grupos sunitas radicais – muitas vezes financiados pelos países do Conselho de Cooperação do Golfo, chefiado pela Arábia Saudita e que de uma organização que não servia pra quase nada virou um importante ator na região após a fracassada “primavera árabe”. Pior, o grupo de oposição sírio não é nada homogêneo, e inclui mesmo organizações ligadas a grupos extremistas como a Al Qaeda. Para os europeus e norte-americanos, armar esses grupos é dar um tiro no pé, um pouco como o que foi feito no Afeganistão nos anos 80 – olha no que deu. É por essa lógica que a Rússia trabalha, pensando que dos males, o menor – manter Assad é a punica garantia de que não vá surgir um conflito longo pelo poder, instabilizando a região, ou pior, a ascensão de grupos radicais. E nem falamos de Israel, que está literalmente em pé de guerra com a Síria por conta de escaramuças na fronteira. 

O resultado disso tudo? A Rússia e o Irã vendem armas para o governo sírio. Países ocidentais e do Golfo armam os rebeldes de um modo ou de outro. A articulação para a tal conferência Genebra II (que pretende juntar representantes das duas partes) parece fadada ao fracasso: a Rússia não vê com bons olhos o armamento dos rebeldes; estes não querem participar sem que Assad renuncie. No meio de tudo, os dois lados estão usando todos os meios disponíveis e temos relatos de armas químicas, com vantagem para o governo. Nenhum dos lados vai ceder. Com isso, parece que a saída por meio da intervenção direta é o caminho menos desejável, mas ironicamente parece o que mais poderia dar certo no momento, pois serviria para remover a causa do conflito (Assad) e ao mesmo tempo daria maior controle sobre a sucessão (para evitar o surgimento de um Estado radical). Mas isso se Israel não for para o ataque antes. 

As possibilidades são inúmeras, assim como as consequências. A guerra na Síria é civil, mas tudo que decorre dela tem impacto regional. O caos decorrente vai ser generalizado por aqueles lados, e vai ter seus efeitos muito além, de Washington a Moscou. Não seria nada inesperado caso venha a se tornar algo maior.


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O maior espetáculo da Terra

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Não deu nem dois meses e já temos mais notícias sobre terrorismo na mídia ocidental. Enquanto nos EUA mais um suspeito de envolvimento com os atentados na maratona de Boston era investigado e, segundo o FBI, acabou morto após atacar o agente que o interrogava, surgem notícias aterradoras da Inglaterra, em que um homem foi aparentemente decapitado na rua por dois agressores. 

A grande diferença? Bem todos se lembram do jogo de gato e rato que foi identificar os autores do atentado de Boston, com mobilização até na internet pra descobrir os possíveis culpados na multidão. Naquele caso, o anonimato jogava a favor dos agressores e da sensação de “terror” decorrente. Mas na Inglaterra? As informações são difusas, mas ao que se sabe os próprios agressores incentivaram as testemunhas a filmar a violência. O vídeo de um deles, com as mãos ensanguentadas e dizendo uma mensagem jihadista é curto, mas chocante. Pela violência do ataque, o fato da vítima ser um militar (que remete à participação do Reino Unido em intervenções mundo afora) e o impacto visual, não é difícil suspeitar de mais um caso de terrorismo “celular”, aquele em que não é uma organização, mas indivíduos que resolvem dar sua mensagem à força para o mundo.

Falamos disso no caso do ataque em Boston, mas dessa vez existe a novidade da exposição dos autores. Os suspeitos, que seriam de origem nigeriana, não se importaram em esconder a identidade, entraram em confronto com a polícia e foram baleados – as informações são desencontradas, mas podem ter morrido no tiroteio. Em poucas horas tivemos o ataque, a vítima, a repercussão e o desfecho. Hoje em dia, quando qualquer pessoa tem um celular na mão, a oportunidade para o terror não tem hora. Antigamente, quando as comunicações eram demoradas, o terrorismo era muito mais dirigido às figuras importantes (matar o presidente dos EUA, o arquiduque da Áustria, e por aí vai) pra causar impacto real. Hoje em dia não. Basta dois jovens com uma bomba cheia de pregos para matar 3 e mutilar dezenas num espetáculo de violência que choca o mundo em questão de minutos, pelas câmeras das próprias testemunhas. 

Ainda é possível questionar se esse ataque na Inglaterra foi mesmo terrorista, e podemos estar redondamente enganados. Mas tudo leva a crer que sim. A grande questão aqui é se estamos vendo uma nova era de terrorismo, em que a facilidade em conseguir conhecimento para causar destruição e o isolamento dos indivíduos gera novos terroristas sem a necessidade de uma organização própria. Basta um desequilíbrio emocional ou uma ideia fixa para que um cidadão comum se torne uma arma (e a sociedade moderna cria pessoas assim aos montes). Ou talvez uma era em que o impacto mais importante seja não pelo número de vítimas, mas pela brutalidade e impacto visual das mortes ou das consequências do ataque, que parecem ser a razão desses dois casos. O tempo dirá.


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Para quando envelhecermos…

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“O Brasil é um país de jovens”. Essa foi uma das frases mais comuns ao se discutir nossa população por décadas. E não havia nada de mentiroso nessa afirmação. A população cresceu, dobrou em quarenta anos. Havia muito mais crianças do que adultos. E a quantidade de nascimentos em nosso país começou a chamar a atenção. Alguns enxergavam nisso um grande problema, fruto da irresponsabilidade e geradora de uma superpopulação incontrolável em tamanho. A culpa pela criminalidade, pela pobreza, pela falta de desenvolvimento, tudo foi considerado diante do crescimento da população. Já outros, mais otimistas, viam na juventude do povo brasileiro o prenúncio de um futuro glorioso. A esperança do futuro se encontrava com o futuro das pessoas.

Acontece que a fecundidade alta foi e passou no Brasil, como ocorreu no resto do mundo. Por incrível que pareça, por mais radical e rápido que tenha ocorrido, sem que muita gente percebesse. Continuamos debatendo nossos problemas econômicos seguindo a máxima, “o Brasil é um país de jovens”. Agora, à luz dos censos realizados nos últimos dois anos, muito ainda se chocam ao saber que o Brasil agora é um país de idosos ou quase isso.

Toda a discussão sobre o peso do crescimento populacional, da construção de creches, escolas aos montes, garantir o futuro das crianças, ainda parece bastante urgente. Logo não será mais.  Na verdade, o futuro chegou e nem notamos. E nossos problemas passaram a ser outros mais novos ao mesmo tempo que não resolvemos os velhos. E no contraste total nos encontramos entre mazelas que vão contra a população jovem e problemas contra idosos, mais comuns antigamente somente entre os países desenvolvidos. Garantir direitos a seguridade social para uma massa cada vez maior, construir um sistema universal de saúde pública, já problemático, para quem mais o utilizará. Como refazer os planos, financeiros e políticos, evitar a quebra do sistema público? Como viabilizar a economia para a nova realidade?

Ultimamente na Europa, como tudo é motivo para crise ou pelo menos para se falar dela, o sistema de aposentadorias voltou ao centro das discussões. Falam sobre o peso dos benefícios sobre a arrecadação do Estado, ou até mesmo o peso dos rendimentos garantidos pelo Estado na economia. Polêmica, a questão da nova realidade demográfica mundial é tema muito conhecido e não solucionado, mais motivos de embates entre a esquerda e a direita do que debate em busca de caminhos possíveis. A Europa o conhece muito bem, há 30 anos. Aqui no Brasil liberais e esquerdistas ainda discutem a privatização das estradas, dos pedágios, da validade bolsas de auxílio. Lá na Europa o foco é o que fazer com os aposentados, para onde vão os maiores gastos com benefícios.

No Brasil o tema vai e volta. No governo FHC surgiram novas possibilidades de aposentadoria após certa idade, enxugamento dos beneficiados que não contribuíram, novos tipos de somas para novos beneficiários. Tudo isso não mudou a ideia dos liberais de que o país é de certo modo “bonzinho” nos benefícios dados pelo Estado. A diminuição no número de jovens e as alterações demográficas possibilitaram que o país fugisse ao desemprego em épocas de crise e crescimento baixo. Mas não perdoará problemas de todo o sistema financeiro com os idosos no futuro, tão fortes ou piores do que ocorrem na Europa. Mas o que fazer?  

O problema não é apenas novo no Brasil, longe disso. É uma questão que engloba toda a América Latina. No Chile, com receio de problemas futuros e influenciados pelo governo de Pinochet, extremamente liberal, o governo cortou os benefícios de pensão aos cônjuges de aposentados. Em uma sociedade em que poucas mulheres trabalhavam formalmente, isso empurrou milhares de viúvas idosas à pobreza. Aqui no Brasil quase 40% da população idosa recebe pensão, mais de 10 milhões de pessoas. Seria essa uma solução aos nossos problemas de gastos? Cortar recursos a uma população enorme, aumentar provavelmente a desproteção deles, mas solucionar as contas? Hoje a discussão começa a se tornar importante, em pouco tempo ela será emergencial. A questão é como o Brasil e o mundo lidarão com tantos idosos, quando o futuro chegar junto com a nova geração.


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O martírio do Sr. Normal

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A mudança que um ano teve na vida do presidente francês foi impressionante. Claro que existem as dificuldades de se governar em tempos econômicos difíceis, mas François Hollande não deve ter imaginado o que viria. O seu nível de popularidade atingiu 24%, o menor desde a fundação da chamada Quinta República francesa, em 1958. Ele conseguiu desagradar a esquerda, que seu partido socialista tende a representar, além de seus opositores regulares da direita. Um outro partido de esquerda fala inclusive da necessidade de fundar a Sexta República. 

Seu principal concorrente há um ano, Nicolas Sarkozy, afirmou que se perdesse nunca mais os franceses iam ouvir falar dele. Mesmo com os seus recentes escândalos (ter recebido doações de Kadafi para sua candidatura em 2007 e ter abusado da boa vontade de uma herdeira idosa), ele parece ensaiar um retorno. Hollande não parece simpatizar nem com a ideia e muito menos com a figura. Em um evento público recente, o presidente respondeu a esta inocente pergunta de uma criança “E o Sarkozy, onde ele está?” com a categórica frase “Você nunca mais o verá”.  

Pois bem, talvez o reencontro não seja tão improvável quanto pensa (ou gostaria) Hollande. Sejamos justos, o próprio candidato “normal”, como se autodenominava o agora presidente, sabia que os dois primeiros anos do seu mandato seriam difíceis e que os frutos seriam colhidos nos três finais. Vai explicar isto para alguém agora. Um jornal encontrou um novo apelido para o incumbente: “o Sr. Fraco”. Em outro levantamento jornalístico, somente 17 das 31 promessas de campanha teriam sido cumpridas. Contudo, o pior evento até agora foi o escândalo das contas no exterior de seu ministro do orçamento. O governo exemplar que fora prometido contrastou com as mentiras descaradas de um políticode sua confiança.  

Partindo de mais de 60% de aprovação, passando pela cruzada contra os ricos, pela a aprovação do casamento entre pessoas do mesmo sexo (pelo Parlamento, vale lembrar), chegando finalmente em uma economia cambaleante. Isto já bastaria. Foi além, com o aumento do desemprego, parte de sua base de apoio mudou de time. Além disto, manifestaçõescontrárias à expansão do casamento para todos se tornaram barulhentas. Aquela normalidade frente à excepcionalidade (referência à Sarkozy-Bruni) prometida passou a ser questionada. Pelo menos os gastos de sua companheira são três vezes menores que os da estrela Carla Bruni, isso ele pode dizer. 

É nessas horas que o Sarkozy deve chegar a sua conclusão “serei forçado a voltar” e que a Angela Merkel, chanceler da Alemanha, deve pensar “eu bem que preferia o Sarkozy, olha no que deu”. Tem ainda extrema direita da Frente Nacional no retrovisor. Mesmo assim, Hollande tem mais 4 anos para virar o jogo. De imediato, fica sua promessa de inverter a curva do desemprego até o final do ano, diminuir o número de soldados franceses no Mali, além de outras medidas para reativar a economia e rever benefícios sociais.  

Ao menos, como diria Tiririca, parece que “pior que tá não fica”.     

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Mais corrupção

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Há pouco mais de um ano, a Bianca fez uma série de posts sobre a Bósnia por ocasião dos 20 anos do início do conflito na região. Como então tratado, o país enfrenta questões relativas à reconciliação, divisões políticas e problemas econômicos. Ainda assim, nutre o anseio de entrar na União Europeia.

   

A Bósnia é formada por duas entidades que funcionam de forma autônoma. Em uma destas, um evento ajudou a corroborar uma percepção de sua população. Não bastasse as dificuldades já mencionadas e as marcas de um conflito recente, um grupo de membros do governo da Federação da Bósnia-Herzegovina (umas das entidades que compõe o país) adicionou mais uma questão na conta.   

A organização internacional Transparency International mantém um ranking anual sobre a corrupção mundo afora, baseada em como a sociedade entende o funcionamento do setor público. A Bósnia soma 43 (escala de 0-100) no levantamento, resultando em uma alta percepção de corrupção por seus cidadãos. Segundo o estudo, o quadro se traduziria no fracasso de serviços públicos básicos, atrasos em obras de infraestrutura, subornos para aceder a ajuda médica, entre outros. 

No último dia 26, a Federação da Bósnia-Herzegovina viu seu presidente, um assessor da presidência e o chefe da Comissão de Anistias serem presos. Foram, no total, 18 prisões realizadas pela polícia como parte de uma operação anticorrupção, ante suspeitas de diversos crimes. Os três políticos mencionados são acusados de receber suborno em troca de anistias oferecidas a narcotraficantes e de abuso de poder.  

Não deve chegar a ser uma grande surpresa, afinal o país detém o indecoroso título de país mais corrupto da Europa. O procurador de justiça de Sarajevo indica algo mais preocupante. Para ele, a justiça e os investigadores não dispõem de meios suficientes para enfrentar o poderio da corrupção vinda de entidades governamentais. Além disto, o problema se estende a aspectos do cotidiano, como por meio de propinas para facilitar tratamentos médicos e “gorjetas” para professores.  

A fragmentação política, que não se encerra na divisão em duas entidades, torna a situação dramática. A própria Federação da Bósnia Herzegovina se divide em outras 10 regiões, cada qual com seu governo e polícia. Pior, a cooperação e a colaboração entre as entidades são escassas. Uma esperança surgiu em 2003, com a criação de uma agência aos moldes do FBI americano para investigar crimes de guerra e o crime organizado. Em parte, foi resultado de fruto de uma missão da União Europeia para fortalecer as instituições bósnias.  

O anseio de lograr um lugar na União Europeia talvez possa despertar ao menos parte das reformas necessárias. Isto passará por entendimento político interno, porém poderá também ser impulsado por exigências da entidade europeia. Um outro possível combustível é o nacionalismo, à medida que outros países dos Balcãs avancem na direção do bloco regional e a Bósnia fique para trás. De positivo, por enquanto, fica o avanço em investigações deste gênero e a garantia de levar a justiça os suspeitos.  

Para uma nota final, fica um desdobramento do tema. Os 43 pontos somados pelo país tema do post o deixam em 72º; um posto à frente do Brasil, que somou 42. Será que estamos tão mal assim?  

Imagem: fonte

Reveja a série sobre a Bósnia: 1, 2, 3 e um artigo do Le Monde com mais detalhes: 4


Categorias: Europa, Política e Política Externa


Jardinagem econômica

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O noticiário econômico dessa semana é contrastante. Enquanto o mundo se assombra com um recorde histórico de queda de juros do Banco Central Europeu (BCE), no Brasil, andou acontecendo bem o oposto. A comparação desses dois casos é muito interessante pra entender essa dinâmica de taxas de juros, que muita gente vê no jornal e não entende bulhufas. 

A palavra-chave aqui é inflação, aquele mal que as novas gerações nem desconfiam que exista, mas é um trauma pra quem tem mais de 30 anos. Basicamente, existe muito dinheiro circulando e ele perde valor – e os preços das coisas aumentam. Quando em alta, e combinada com baixa produção, desemprego, etc., é um pesadelo, e quando muito baixa também (a chamada deflação, quando há uma queda tão grande de preços que em médio/longo prazo o comércio “quebra” por falta de consumo). 

Ok, e o Brasil e a União Europeia com isso? Aqui entra a taxa básica de juros. É a partir dessa taxa básica que são calculadas as outras, como de cartões de crédito e moradia. O BCE reduziu essa semana sua taxa para um nível histórico de inacreditáveis 0,5%. Significa que é menos atrativo investir nos países do Euro (por que o dinheiro rende menos), mas as pessoas vão colocar mais dinheiro em circulação (já que não compensa deixar parado) e consumir mais. O problema da crise na Europa é justamente uma queda de preços (a inflação está em baixa por lá, cerca de 1,7%), e a redução dessa taxa tem a intenção de… aumentar a inflação! Realmente os problemas de primeiro mundo são muito diferentes dos nossos. Por que aqui no Brasil a taxa de juros aumentou (após alguns anos de queda histórica também, diga-se de passagem), para os atuais 7,5%. O problema é o oposto – para respeitar o limite anual das metas de inflação, de 4,5% (estourado, em cerca 6,59%), o país precisa frear um pouco o consumo e controlar os preços. 

Nada é perfeito. No caso do BCE, os problemas da Europa são muito maiores (como se viu nos protestos violentos de ontem), envolvendo a capacidade de produção e o controle dos gastos do Estado, que mexe no vespeiro do bem-estar social. Apenas reduzir a taxa de juros não teria outros efeitos práticos sem outras medidas de incentivo, ou mesmo de redução da austeridade fiscal. Já no Brasil, o cenário de gastos elevados e inflação galopante é terrível para o crescimento do país. Porém, a opção foi pelo “menos pior”, já que a outra seria valorizar o Real e controlar a inflação por meio da taxa de câmbio – que invariavelmente causaria uma fuga de divisas: se já tivemos um semestre com gastos recordes no exterior, imagine com um Real forte. 

Isso tudo mostra como políticas macroeconômicas são um emaranhado de remédios amargos, posições conflitantes e fatores diversos que tornam um pesadelo a vida dos gestores. Por outro lado, ao vermos as soluções opostas tomadas pelos dois lados para um mesmo problema, confirma-se o velho adágio de que a grama do vizinho é sempre mais verde.


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