Catalunha: anseios separatistas e as RI

Por

Fonte: abola.pt


Catalunha: Independência ou Morte? Calma, calma. A frase é mais para chamar a atenção. O que a Catalunha, comunidade autônoma da Espanha cuja capital é Barcelona, realmente quer é independência. Todo ano, mais especificamente no começo do mês de Setembro, a região volta a ser manchete nos noticiários e não tem sempre a ver com questões futebolísticas. Vamos aos fatos. Aproveito para dizer que hoje a análise será um pouco mais acadêmica e se guiará pela seguinte pergunta: Como podemos assinalar os episódios das manifestações separatistas catalãs no universo das Relações Internacionais (RI)? 

Em outro texto que escrevi e foi divulgado no Mundorama, me remeto a um episódio que também ficou conhecido no ano de 2012. O artigo intitula-se “Sinais dos novos tempos? As manifestações separatistas e a crise dos Estados na União Europeia”. Sei que é chato ficar se “auto-copiando”, mas no primeiro parágrafo está escrito assim: 

“No último dia sete de outubro [de 2012], em pleno jogo de futebol entre os dois maiores clubes da Espanha – Real Madrid e Barcelona –, grande parte da torcida da comunidade autônoma de Catalunha gritava em um só tom: “Independência!”. Aos dezessete minutos e catorze segundos do primeiro tempo, cerca de noventa e cinco mil vozes entoaram o grito fazendo referência ao ano de 1714, quando os catalães foram derrotados pelas tropas do Reino Espanhol na Guerra de Sucessão.” 

Fonte: operamundi.uol.com.br

E agora em 2013 não foi diferente, mas a movimentação não se remeteu aos esportes. No último dia onze, milhares de catalães fizeram um cordão de 400 km para pedir a Madrid o reconhecimento da independência da comunidade. Fez parte das celebrações da “Diada”, conhecida como o Dia Nacional Catalão. O que eles querem é a realização de um referendo realizado pelo governo central espanhol para colocar um ponto final nessa história e, de acordo com seus desejos, tornar a Catalunha uma região verdadeiramente autônoma e livre. Obviamente, a Espanha reluta e diz que quaisquer tentativas de separação são constitucionalmente ilegais. Nada que abale os anseios da população que, em sua maioria, apoia a independência. 

Realizada a explicação dos fenômenos expostos, cabe a pergunta para saber o que eles suscitam no debate acadêmico das RI. Dividirei em tópicos para abordar alguns dos cenários em que as reinvindicações catalãs podem aparecer. 

1) Surgimento de novos atores internacionais – Sabe-se que a ótica estatocêntrica sempre predominou nesse universo de pesquisa. O Estado-nação reconhecido por possuir população, território, governo e monopólio do uso da força enquadra-se como um dos (ou o único) sujeitos internacionais. Todavia, nos últimos anos houve uma transformação dessa visão e novos atores internacionais emergiram com real capacidade de influenciar o Sistema Internacional. Organizações Internacionais, ONGs e empresas transnacionais representam tal mudança. Mas até mesmo indivíduos, mídia, grupos terroristas e atores subnacionais (a exemplo da comunidade autônoma catalã) são expressamente reconhecidos na literatura como novíssimos atores internacionais. Os atores que estão dentro dos países, ou seja, intra-estatais, fazem parte da nova realidade das RI; 

2) O Regionalismo – Não há uma definição específica para o termo “regionalismo”, entretanto ele se encontra como um tema correlato aos meandros da Globalização. Sabe-se que esta deixou tudo mais dinâmico, mais rápido e mais “tecnológico”. Só que não existe um “poder global” ou um ator internacional com força global, nem mesmo as Nações Unidas (ONU). Fala-se muito em forças globais também, mas as decisões políticas são tomadas em outros níveis, principalmente nos nacionais. E não podemos esquecer que os Estados nacionais têm uma ligação constante e direta com os atores intra-estatais, os quais se encontram mais próximos das populações. O Regionalismo atesta o intenso jogo político com ligações dentro e através das fronteiras dos Estados. No caso espanhol, suas comunidades autônomas têm um maior poder político se comparado com outros países e regiões unitárias, a exemplo da Grã-Bretanha. O diálogo e as disparidades entre instâncias internas e nacionais são mais constantes e a Catalunha registra esse aspecto; 

3) A União Europeia (UE) como ponto de apoio – O Regionalismo pontuado anteriormente é muito ligado ao debate da UE. Não só a Espanha, mas também a Áustria, Alemanha e Bélgica (três federações) abrem espaços de influência política para seus atores subnacionais. E estes, por suas vezes, veem o bloco regional como um possível trampolim para maximizar seus interesses. É daqui que surge a ideia de “Europa das Regiões” ou algo do tipo. Como a UE possui traços de supranacionalidade, ou seja, instituições com poderes de mando que se sobrepõem aos Estados, é cada vez maior o anseio das regiões em levar suas demandas para órgãos como o Conselho de Ministros. Casos além da Catalunha como o País Basco, Flandres e Escócia são bem estudados na área das RI para compreender esse fenômeno; 

4) Protodiplomacia – Aqui sim há uma definição delimitada para esse termo. A protodiplomacia é a “condução de relações internacionais por governos não-centrais que têm por objetivo o estabelecimento de um estado plenamente soberano. Catalunha é um exemplo “protodiplomático”, pois almeja a separação, tem alcunhas identitárias e deseja constituir-se em região livre dos poderes centrais espanhóis. Esse termo não pode ser confundido com a paradiplomacia, a qual vem sendo amplamente estudada nas RI. Uma rápida busca em bibliotecas ou no Google Scholar ajuda na compreensão da terminologia; 

5) A questão cultural e o constitucionalismo – Progressivamente o âmbito cultural vem sendo estudado nas RI. Se o Estado está em crise e é um “signo sob rasura”, por que não afirmar que o aspecto cultural e costumeiro dos catalães se divergem dos espanhóis de modo geral? E se eles querem criar um “novo Estado”, por que não dizer que estão insatisfeitos com os preceitos constitucionais estabelecidos pelo direito interno do governo espanhol? Debates assim trazem à discussão novas formas de resolução de litígios e novos modos de se observar esses temas na prática.

 Fonte: Google

Não me alongarei mais no debate. De maneira rápida e um tanto quanto superficial, mostrou-se como um modesto fenômeno enseja uma série de reflexões nas RI. Pensemos assim sobre qualquer coisa que aconteça, seja com uma multidão, conforme observado nos casos catalães, ou com uma simples pessoa que tenta trazer à tona seus anseios. Miúdos gestos na prática, mas grandes observações na teoria e na literatura. Para tudo se tem espaço nas RI. Um cordão humano catalão de 400 km é o exemplo pontual de enormes implicações históricas e pode ser estudado tendo em vista os novos atores internacionais, o regionalismo, os blocos regionais, os governos subnacionais e os anseios culturais. Existem outras inúmeras áreas e abrangências, mas fiquemos por aqui hoje. Fim!


Categorias: Cultura, Europa, Política e Política Externa


O caminho para a destruição

Por

Desde 1994 a ONU tem um trauma. A falta de capacidade em evitar o genocídio em Ruanda e o modo como o mundo todo descobriu aquele massacre feito na base do facão é sempre a primeira justificativa quando se pensa em alguma resposta mais dura a crises humanitárias. Hoje, vemos a Síria em guerra civil e evidência lamentável do uso de armas químicas. A chamada “opinião pública” mundial clama por ação, e parece que Reino Unido, França e possivelmente os EUA estariam buscando uma resposta conjunta que pode sim render uma ação armada. 

Existe muita ironia em tudo isso. Basta lembrar a intervenção na Líbia. A ONU aprovou uma zona de exclusão aérea (por muito menos que o uso de armas químicas), o conflito se acirrou e hoje o país não tem governo. O resultado da intervenção, no fim das contas, é contestado e muita gente culpa os países ocidentais pelo aumento substancial das mortes e instabilidade que dura até hoje no país. 

O caso da Síria é bem diferente, em quase todos os sentidos, a favor e contra a intervenção. A favor, existem evidências do uso de armas químicas (a questão é saber exatamente de que lado), um sangrento prolongamento das hostilidades e, principalmente, o recurso ao conceito da “responsabilidade de proteger” (que a ONU trouxe lá no meio dos anos 2000 e visa justamente evitar esses genocídios), que já tem efeitos práticos na missão da ONU no Congo (que hoje tem um “braço armado” capaz de revidar às ameaças contra a população, coisa inédita). Contra, é claro, temos um elemento político. China e Rússia são totalmente contra uma intervenção de qualquer natureza, por diversos motivos – e alguns são bem pragmáticos, como o fato de não se saber exatamente ainda qual dos lados usou as armas, e defender a permanência de Assad por simplesmente não ser possível prever como seria instalado um novo governo caso ele seja derrubado, ou como isso afetaria a estabilidade da região. Há também a crítica dos “interesses escusos” das potências (que já vimos na Líbia), em que a defesa dos direitos humanos vira uma desculpa para o bom e velho imperialismo versão século XXI. E vozes na própria ONU ainda defendem que o caminho das negociações seria ainda a melhor opção. 

O Reino Unido vai levar o caso ao Conselho de Segurança, pedindo ações rígidas, mas qualquer medida nesse tom será barrada por Rússia e/ou China. Esse “travamento” na ONU vai acabar levando à ação unilateral, seja individualmente, seja por meio da OTAN, ou coisa do tipo. A movimentação já existe, com navios e porta-aviões de prontidão na região, e as evidências dos ataques químicos acabam sendo um marco do “ponto sem retorno”. Algum dos lados do conflito fez algo abominável para a sociedade internacional, e na visão das democracias ocidentais uma ação precisa ser tomada. Mas o quê vai ser feito? Uma invasão com tropas e tudo mais? Uma zona de exclusão aérea? Bloqueio naval? Qualquer opção vai render um banho de sangue para os dois lados e potencialmente tornar ainda mais letal o conflito. E não significa necessariamente que a intervenção vá ter sucesso. 

De qualquer jeito a reação será negativa. Em caso de intervenção, mesmo que milagrosamente dê certo e acabe com o conflito, vai haver protestos contra imperialismo, denúncia de interesses escusos e possivelmente desestabilização da região como um todo (o Irã pode fazer alguma bobagem, retaliação sino-russa, e por aí vai). Caso nada seja feito, mais uma vez a ONU perderá credibilidade por não ter evitado uma tragédia. A única solução que evitaria qualquer desfecho negativo seria a pacificação pela negociação, mas levando em conta quem está lutando, e o ponto a que chegaram as coisas, esse caminho é agora um sonho.


Categorias: Ásia e Oceania, Assistência Humanitária, Conflitos, Defesa, Direitos Humanos, Estados Unidos, Europa, Oriente Médio e Mundo Islâmico, Paz, Polêmica, Política e Política Externa, Segurança


A "punição exemplar"

Por

Antigamente, se via muito a aplicação da chamada “punição exemplar”. Execuções horrendas, como esquartejamentos, serviam justamente para confirmar o poder de quem manda na ordem do momento (seja um governo, democrático ou não, seja um tirano) e colocar medo naqueles que estariam envolvidos para evitar a recorrência dos atos que levaram à punição. Basicamente, a mesma ideia do encarceramento, mas de um jeito horripilante e com muito mais impacto. É diferente do “bode expiatório”, quando colocamos toda a culpa em um certo indivíduo para livrar a cara de outros.

Pois bem, como hoje em dia não pega muito bem desmembrar gente em público (apesar da tradição da pena de morte em alguns lugares persistir), ou quando a situação escapa de “dentro” do Estado, o jeito encontrado para alcançar aqueles dois objetivos se tornaram bem mais sutis. Estamos vendo um pouco disso nos casos recente de vazamento de informações internacionais. O mais quente é o do brasileiro David Miranda, detido pela polícia britânica durante sua passagem pelo aeroporto de Londres por cerca de nove horas em decorrência de artigos no mínimo questionáveis da lei antiterrorismo do país. Durante esse período, para não ser preso, o brasileiro teve de responder questões pessoais, entregar senhas e teve seus pertences confiscados. O que isso tem a ver com terrorismo? Miranda é parceiro de Glenn Greenwald, o jornalista que jogou na mídia a bomba das revelações de Edward Snowden, e aqui as coisas começam a ficar estranhas. 

O governo britânico justifica que a detenção foi feita com base legal e no interesse dos cidadãos britânicos, de que os dados nos pertences poderiam comprometer a segurança nacional. Mas é muito suspeito que justamente ele tenha sido “sorteado” para essa busca. Há um claro interesse por trás desse ato, simbolismo, mas o difícil é saber de quem partiu. A CIA? Os EUA? Serviços de inteligência? Aqui já estamos na área das conspirações, mas parece claro que temos um fenômeno recorrente. Pensem nas nebulosas acusações de abuso sexual contra Julian Assange que fizeram dele morador permanente da embaixada do Equador em Londres. Ou o jogo de gato e rato de Snowden com a inteligência dos EUA e sua demonização na mídia de lá. Ou a papagaiada do avião de Evo. São casos em que, se os governos não têm meios de agir diretamente contra os que atingiram seus interesses, ocorrem ataques “indiretos”. A mensagem é clara – de um jeito ou de outro, alguém vai pagar. Quem quiser enfrentar o mundo e revelar segredos dos países vai ter que ser muito liso e torcer pra que não envolvam suas famílias ou coisa do tipo no meio. E isso pra não contar quando existe o peso da lei – como o caso do soldado Manning, envolvido com os vazamentos do Wikileaks lá em 2010, que acaba de ter a sentença anunciada e conseguiu escapar de 90 anos na prisão para “apenas” 35

Mas é, estamos falando de conspirações ou suposições com base em fortes suspeitas… mas o que temos de concreto? Na semana passada o ministro das Relações Exteriores, Antonio Patriota, já tinha “puxado a orelha” do Secretário de Estado dos EUA sobre a vigilância. O caso de Miranda foi a gota d’água, e o Brasil condenou veementemente (e de um jeito até atípico) a atitude da Grã-Bretanha. Por muito menos que isso já rompemos relações com eles (nos bons tempos do Império), mas não deve ser para tanto. Talvez isso mostre o maior dano que os envolvidos na espionagem tenham: o diplomático. Esse demora para ser consertado, e a “punição exemplar” acaba tendo um efeito muito pior do que o dano que tenta evitar…


Categorias: Estados Unidos, Europa, Mídia, Polêmica, Política e Política Externa


Caixa dois aqui, caixa dois lá

Por

Durante o julgamento do mensalão, que cumpriu na visão de muitos um anseio da sociedade, as defesas de alguns réus admitiram a existência de caixa dois em campanhas do PT como forma de descaracterizar outros encargos mais graves. Dessa forma, acreditavam minorar as denúncias imputadas às figuras envolvidas. A ministra do STF, Carmem Lúcia, perplexa diante da conduta, recriminou a estratégia e disse: caixa dois é crime também, não é menos ilícito e nem é pouco.  

Pois bem, isso me leva a outro caso recente. Na França, segundo denúncia do jornal Le Monde, o UMP, partido do ex-presidente Sarkozy, teria recebido doações não declaradas nas duas últimas campanhas presidenciais. Na primeira, o partido venceu a socialista Ségolène Royal. Já no ano passado, novamente contra o Partido Socialista, perdeu para Hollande. Assim, o UMP e o PT fizeram, basicamente, a mesma coisa. Claro, limitando o olhar para o caixa dois somente.  

Na primeira semana de julho, o Conselho Constitucional do país condenou o UMP por ter ultrapassado o teto de gastos eleitorais em 20 milhões de euros e não ter declarado parte do que efetivamente despendeu. Eis que entra o elemento interessante. No caso francês, o partido foi condenado e não terá acesso a subsídios públicos no total de 11 milhões de euros. Não é pouco, ainda mais para um partido endividado. Neste contexto, Sarkozy voltou para consertar a situação. Primeiro, criticou a decisão, que na visão dele coloca o pluralismo político em risco e, depois, colocou a mão no bolso.  

A justiça francesa determinou igualmente um prazo para o partido reembolsar o Estado, inicialmente final de julho e depois estendido até setembro. Para isto, os líderes da UMP encabeçam uma campanha de arrecadação de fundos para cobrir o rombo e salvar o partido. Alguns colegas de partido criticam Sarkozy por querer posar de herói, após uma discreta doação de 7500 euros, mesmo tendo sido o responsável direto pela irregularidade. Até o momento, faltam 2 milhões. Entre as hipóteses consideradas para arrecadar o total necessário está vender a sede do partido.   

Os modelos de financiamento, brasileiro e francês, são similares. Aqui, existe o repasse público via fundo partidário e a compra de inserções nos meios de comunicação que são oferecidas, sem custos, para os partidos. Além disso, é permitida a doação privada. Lá, há subsídios públicos e uma permissão de doações privadas até um valor máximo. No casos em questão, trata-se de ilícitos que guardam como semelhança o caixa dois. Aqui, advogados de réus, perante o STF, se referiam à prática como se não fosse muito grave. Lá, o principal partido de oposição se enrascou e teve que juntar moedas. Na França, a Carmem Lúcia não precisaria lembrar ninguém que caixa dois é crime.  

Caso alguém tenha se sensibilizado, segue o link para fazer uma doação para o UMP. 


Categorias: Europa, Política e Política Externa


Post do Leitor

Post do leitor – Isabela Pinotti

[Com a recente onda de protestos aqui no Brasil e o anúncio da presidente Dilma Rousseff sobre uma futura reforma política, a leitora Isabela Pinotti, graduada em Relações Internacionais pela Universidade Estadual Paulista (UNESP/Franca), nos traz uma interessante análise sobre o processo de participação popular através da internet para a construção de uma nova constituição na Islândia. Caso queira publicar seu texto no blog, mande um e-mail para [email protected]. Boa leitura!]

A participação política nos tempos da era digital 


 

A edição de agosto da revista Superinteressante trouxe uma entrevista com o cientista político islandês Eiríkur Bergmann, um dos integrantes do conselho formado para elaborar uma nova Constituição na Islândia. Se você não sabe o que se passou no país nórdico nos últimos tempos, aqui vai um breve resumo: a Islândia era considerada um país com ótima economia e índices sociais invejáveis. Entretanto, o jogo virou após a crise financeira de 2008. A economia do país foi à bancarrota, o desemprego cresceu, assim como a dívida pública. A Islândia teve que pedir socorro ao Fundo Monetário Internacional (FMI), mas pedir ajuda a este organismo internacional significa aceitar seu pacote de medidas de austeridade. Os islandeses não quiseram beber deste remédio amargo e foram às ruas protestar. A renúncia do primeiro ministro e a convocação de novas eleições não foram suficientes para arrefecer os ânimos, a população já clamava por uma nova Constituição. É aí que entra Bergmann e os outros vinte e quatro integrantes da comissão responsável pela elaboração de uma proposta de nova Carta Magna. 

O interessante é que a comissão resolveu integrar toda a população no processo de elaboração da proposta através da internet, mais precisamente por meio do Facebook. Segundo Bergmann, foi criada uma página na rede social para que as pessoas pudessem expor suas opiniões e sugestões. Também era possível entrar em contato com os membros do conselho através de e-mail, Twitter e até mesmo por ligações telefônicas. Ou seja, muitos canais foram abertos para que as pessoas passassem de simples espectadoras para reais atores do cenário político nacional. Os islandeses não desapontaram e atenderam massivamente ao chamado da comissão. 

Observando a experiência da Islândia e os protestos ocorridos em junho no Brasil, organizados não por partidos políticos ou sindicatos, mas principalmente através das redes sociais e articulados entre a própria população, é possível pensarmos sobre o nascimento de um novo tipo de participação democrática: aquela intermediada pela internet. E, justamente por essa tecnologia estar se tornando cada vez mais acessível, possui o poder de englobar cada vez mais pessoas a um processo político que antes se restringia e interessava a poucos. 

O governo Dilma propôs uma reforma política após os protestos, e fiquei imaginando como seria interessante se essa reforma, em vez de ser submetida a um referendo depois de pronta, fosse construída com a participação da população brasileira, expondo, através de canais criados na internet e fora dela, suas reais necessidades e carências, que são diversas devido às enormes diferenças regionais.

No entanto, é preciso atentar-se aos números. A Islândia é um país de 320 mil habitantes, com uma população relativamente homogênea, que apresenta altas taxas de alfabetização (99%) e de acesso à internet (95%). Já o Brasil, composto por 200 milhões de pessoas com costumes e necessidades extremamente díspares, amarga uma taxa de 22% de analfabetismo (isso sem contar os analfabetos funcionais). Além disso, o acesso à internet, apesar de estar muito difundido nas regiões sul e sudeste, ainda não está ao alcance de todos nas demais regiões.

Em um cenário como este, é quase utópico pensar que toda a população brasileira (ou a maior parte dela) atenderia ao chamado para uma participação democrática como a elaboração de uma reforma política (e conhecendo os políticos brasileiros, não seria estranho se usassem este caminho para conseguir a inclusão de seus interesses pessoais e partidários). Mesmo assim, seria importante que canais fossem abertos para a participação do povo brasileiro, que já provou em junho estar insatisfeito com a configuração política atual e mostrou que tem força e poder para operar mudanças. 

Para maiores informações clique aqui e aqui.


Categorias: Brasil, Europa, Post do leitor


Briga de gente grande

Por

A Guerra Fria pode não ter sido a melhor coisa pro mundo em sua época, mas podemos dizer que realmente fosse um fenômeno de compreensão bem mais fácil. Na dúvida, se ocorria algum problema no cenário internacional, a possibilidade era de que remetesse de algum modo à rivalidade entre EUA e URSS. E aquela rivalidade que teria sumido junto com a União Soviética nos anos 90 pode estar escondida por aí, ter um capítulo novo e ser bastante relevante no cenário caótico contemporâneo. 

Contrariando algumas expectativas (inclusive minhas), o fujão Edward Snowden acabou conseguindo seu asilo temporário… na Rússia! Qual o seu destino (ficar por lá, buscar asilo num país sul-americano ou o que for) é um mistério, mas a consequência imediata foi um choque nas relações entre Moscou e Washington. Obama ia visitar Putin… mas já cancelou a viagem. Ainda assim vai participar da reunião de cúpula do G20, em São Petesburgo, mas vai ser um daqueles encontros bem constrangedores. 

O fato é que a Rússia sempre trocou farpas com os EUA faz algum tempo, em questões pontuais. Vale sempre lembrar a questão do escudo de mísseis da OTAN, cria americana que quase levou a Rússia às vias de fato. Ou a famosa questão da lista Magnitski (uma “lista negra” feita por Washington que congela bens e impede a entrada nos EUA e países europeus de alguns cidadãos russos supostamente envolvidos em violações de Direitos Humanos e na morte do jurista homônimo), considerada uma afronta na Rússia. Isso para ficar nos problemas mais famosos.

Ao mesmo tempo, a relação entre os países é importante de um ponto de vista positivo. As negociações para redução de armas estratégicas passam diretamente pelos detentores dos maiores arsenais nucleares do mundo. Os países colaboram ativamente com relação ao combate a terrorismo. Mas é o suficiente para garantir uma aproximação mais sólida? Eventos como esse asilo do Snowden parecem mostrar que não. 

O interessante de tudo isso é ver a imagem atual dos países – e pode explicar muito as razões por trás da decisão de Moscou. Os EUA estão com a imagem muito arranhada: ataques com drones, indecisões na Síria, espionagem internacional e violação de privacidade por todos os lados… Mesmo iniciativas promissoras, como a possível retomada do processo de paz na Palestina, são eclipsadas por notícias negativas como a ameaça terrorista a embaixadas norte-americanas. E a Rússia não vai muito longe disso – o noticiário internacional não é muito favorável a eles também, indo das críticas às violações de direitos humanos à gozação pelas histórias de pescador (literalmente) de Vladmir Putin. 

Dando uma mão a Snowden, a Rússia parece querer mostrar uma imagem de defensora de liberdades, talvez com a intenção muito mais de mostrar uma imagem positiva do que de espezinhar os EUA mais uma vez. Enquanto isso, o nerd fujão que pôs o mundo em alvoroço passeia de taxi em algum lugar da Rússia…


Categorias: Ásia e Oceania, Estados Unidos, Europa, Mídia, Polêmica, Política e Política Externa


O que dizer da Alemanha?

Por

Fonte: dw.de

Em meio a um cenário crítico e cético da economia na Europa, mais especificamente na União Europeia, parece haver uma “luz no fim do túnel”. Parece, pois talvez não seja uma saída para um continente mergulhado em crises financeiras, altas taxas de desemprego, estagnação econômica e resgates de euros provenientes dos fundos estruturais do bloco regional. 

Particularmente, sou um entusiasta da União Europeia e já escrevi sobre isso aqui na Página Internacional. Mas, quando o assunto é a moeda única e as crises provenientes do mesmo, temos que ter o pé no chão e ver que faltam muitos passos para a Europa voltar àquela pujança econômica de tempos atrás. Pois bem, agora em Julho, em contrapartida e inesperadamente, a economia do Euro voltou a crescer em virtude de uma alta no chamado Índice de Gerentes de Compra (PMI, em inglês), que avalia o setor privado dos países. Pode-se dizer que a confiança está voltando de maneira lenta e gradual por aquelas bandas. 

Talvez bem lenta e bem gradual, sendo franco. Todavia, o que chama a atenção é o papel de um ator que, desde 2008 com o início das turbulências na economia global, vem “levando a Europa nas costas”. E aqui está ele: a Alemanha. O país colocou o Reino Unido e a França como atores importantes, mas coadjuvantes, na recuperação desde a crise. Aglutinando confiança empresarial, crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) e apoio da população ao atual governo de Angela Merkel, a qual vem liderando as pesquisas para a próxima eleição em Setembro, os alemães estão na dianteira econômica da União Europeia. 

Em reportagem especial da “The Economist” publicada pela Revista Carta Capital da última semana (ano XVIII, n. 758) e intitulada “A relutante potência hegemônica europeia” é abordado de maneira completa o que fora dito nos parágrafos anteriores. Nela há um paradoxo: mesmo com a sua força econômica, a Alemanha parece não seguir corretamente (ou querer e desejar) a liderança do bloco. O motivo? Economia forte, mas desconhecimento da história do país, mais uma vez assombrado pelos anos do Nazismo, população majoritariamente idosa e uma concentração de renda alta. 

De acordo com dados do “Pew Research Center”, a Alemanha é o país com maior número de opiniões favoráveis sobre a União Europeia e o Euro, ultrapassando Itália, Espanha, Reino Unido, Grécia e França. Mais do que isso, os alemães, cerca de 55%, acreditam que a economia interna foi fortalecida pela integração. Dados da Comissão Europeia e do Fundo Monetário Internacional (FMI) apresentam as menores taxas de desemprego e os maiores balanços orçamentários e de conta corrente proveniente aos alemães, ultrapassando, inclusive, os Estados Unidos. 

Então, o que dizer da Alemanha? Tem muitos pontos positivos, e outros extremamente negativos, sejam eles padrão de vida estagnado, riqueza assimétrica, poupança com dividendos negativos. A julgar pela reportagem em questão e as notícias recentes divulgadas nas mais diversas mídias, o crescimento econômico alemão tende a continuar nos próximos anos. Alguns problemas internos de características históricas, culturais e, obviamente, financeiras, acabam por atrasar sua suposta liderança na região. Não se sabe ao certo se Reino Unido e França, as outras duas maiores economias da Europa, caíram de produção e isso ajudou na valorização dos alemães ou se estes últimos tiveram méritos próprios para tanto. O que se tem total certeza, até o presente momento, é que, para uma Europa crescer, é necessário o fermento alemão.


Categorias: Economia, Europa


It’s a boy!

Por

It’s a boy. Este foi o anúncio ontem estampado em letras colossais em um dos mais altos edifícios de telecomunicações de Londres, ilustrado em todas as manchetes inglesas, comentado e festejado pela sociedade britânica como o acontecimento do ano. E hoje descobrimos que ele se chama George. George Alexander Louis, o terceiro na linha de sucessão ao trono e o mais novo integrante da tradicional família real britânica.

Entender o furor que novidades relativas à monarquia ainda causam no Reino Unido já foi assunto extremamente comentado à época do casamento do Príncipe William com Kate Middleton, em 2011, e o nascimento deste novo herdeiro apenas nos faz relembrar argumentos já conhecidos.

A monarquia, em verdade, representa parte da identidade nacional britânica, caracterizando-se por ter sido um regime político estável, poucas vezes desafiado (alguns se lembrarão das aulas de história sobre a Revolução Inglesa) e que ainda hoje inspira muita confiança na maior parte da sociedade.

O simbolismo retratado pela Casa Real, seu glamour e tudo que a envolve ainda representa muito para os ingleses, mesmo em pleno ano de 2013. A principal crítica talvez seja relativa aos gastos reais – estimados em cerca de 98 milhões de reais por ano – mas que ainda assim não constituem argumento suficiente para questionar o poder real no país, ainda reconhecido pela maioria como apropriado para o século XXI.

A “plebeia que se tornou princesa”, tal como muitos se referem a Kate Middleton, tem certamente ainda contribuído para aproximar a realeza do cidadão comum, que se vê ali representado e que se rejubila com o nascimento do bebê real.

Depois de protagonizarem o “casamento do século”, ainda ouviremos notícias sobre o filho de William e Kate por muito tempo, na certeza de que a monarquia se vê fortalecida e, ao mesmo tempo, renovada na geração do neto de Lady Di. Os desafios que esta forma de governo enfrentará quando o pequeno George estiver em idade e condições de assumir o trono talvez ainda sejam difíceis de serem previstos, mas fica já a certeza de que seu nascimento por si só representa o fortalecimento do regime no país – e (por que não?) do país perante o mundo que acompanha de perto, e com grande interesse, todos os passos reais. 


Categorias: Europa, Mídia, Política e Política Externa


A visita indesejada

Por

Vamos falar mais de Snowden. Afinal, o ex-nerd da CIA está movimentando mais as manchetes do noticiário internacional que os desastres naturais no sudeste asiático ou o Egito estar virando uma Argélia 2.0

A historia começa com o seu sumiço, fuga cinematográfica e asilo temporário numa sala de transição no aeroporto de Moscou. Um novo capítulo surgiu quando o presidente boliviano fez um gracejo e tocou o terror em países europeus que negaram seu espaço aéreo à comitiva de Evo por suspeitarem de que estivesse levando o ex-agente e resultou num furor diplomático dos países sul-americanos. O que podemos tirar desse caso? Acho que temos três pontos principais. 

Primeiro, Snowden vai conseguir asilo? Muito provavelmente, não. Sim, países sul-americanos concederam asilo, mas isso SE ele conseguir chegar lá. Com vistos cancelados, o único jeito de ele sair é voltando para casa para esperar a punição (e muita gente nos EUA acha que ele não foi culpado de traição), ou numa mirabolante fuga com luxos que, tenho certeza, nenhum dos países que oferecem o asilo podem fornecer. E de qualquer jeito, não se arriscariam a muito mais que cutucar a onça norte-americana com o discurso de sempre (e já se deram conta disso). Pelo jeito, ele vai reviver a história do iraniano Mehran Nasseri, que viveu quase 20 anos num terminal de Paris e inspirou aquele filme do Tom Hanks. 

Segundo, mesmo que consiga seu asilo, a que custo? Digamos que Snowden consiga chegar a um de seus asilos. Sejamos francos, ele vai ser aceito não por seu papel de paladino da liberdade, mas apenas para espezinhar os EUA. O ex-agente (diz que) fez o que fez como uma advertência aos seus cidadãos sobre as violações a liberdades individuais. E conseguir asilo em países como Venezuela ou Bolívia, onde existem muitas dúvidas sobre essas garantias, problemas com a imprensa e afins, seria um resultado no mínimo irônico, com Snowden salvo não pelo que defende, mas como um “desafio” aos EUA. Do mesmo modo, fugir para a China ou a Rússia (como pretendia no começo) seria constrangedor nesse aspecto. 

Terceiro, e talvez o ponto mais angustiante… essa situação toda de vigilância tem salvação? Por que vemos violações de direitos humanos aqui e acolá, minorias desrespeitadas… e quando vemos os países que seriam mais “corretos”, defensores de liberdades e ideais, eis que surgem essas denúncias. Mesmo os europeus, que ficaram escandalizados com a notícia de terem sido espionados pelos EUA, mantêm eles próprios mecanismos de controle de informação tão sofisticados quanto os norte-americanos. Quando pensamos que todo mundo está errado… quem vai estar certo? 

A liberdade individual ainda é um conceito viável nesse cenário? Enquanto isso, um idealista Snowden, que mesmo nos EUA tem uma imagem contraditória, paga o pato da hipocrisia internacional.


Categorias: Américas, Estados Unidos, Europa, Mídia, Polêmica, Política e Política Externa


Terra em transe

Por

Há exatos quatro meses atrás, quando escrevia ainda como leitor da Página Internacional, publiquei um post sobre um assunto que na época muito me interessava. Utilizando a eleição italiana como pano de fundo, discuti sobre a insatisfação com a política que varria a Europa, o que levava ao crescimento do que o jornal Le Monde batizou de “aumento dos cantões ideológicos”.

O fenômeno diz respeito ao aumento de seguidores e eleitores dos partidos de extrema-direita e de extrema-esquerda nas eleições parlamentares europeias. O momento de total descrença na politica e economia nacional e internacional geravam uma enorme crise de representação em relação aos partidos tradicionais.  A busca pelos partidos menores seria uma resposta à essa falta de identidade. No caso italiano, seguia ao aumento dos cantões a expressiva votação em Beppe Grillo, comediante italiano e líder de um partido político populista e sem expressão até as eleições de 2013.

Interessante é que, já naquela época, o fenômeno de descrença total na politica e nos partidos havia começado, e agora nada é mais atual do que essa discussão em nosso país. Os efeitos do descontentamento se expandiram pela Europa e começam a acertar a América Latina. Há duas semanas atrás surpreendeu o Brasil, que viu a maior série de protestos de sua história.

Mas o caso brasileiro é bastante específico. Diferente dos tais cantões, parece que os partidos radicais por aqui estão extintos ou se transformaram em caricaturas. Os que tentaram entrar nas manifestações sofreram. Foram expulsos por manifestantes que defendiam um movimento apartidário (anti-partidário, muitas vezes agressivo e autoritário). Foi a derrota dos partidos com pautas alternativas ao sistema econômico e político dominante. A única vitória foi de uma ou outra personalidade, como Marina Silva e Joaquim Barbosa, alçados por uma parte cada vez maior da sociedade como salvadores da Pátria e futuros presidentes.

Independente das diferenças na importância dos partidos radicais após descontentamentos na Europa e no Brasil, muitas características são idênticas nessas sociedades. Ambas as realidades passaram por momentos de crescimento econômico seguido de uma piora no quadro. No caso da UE, podemos citar o exemplo da Espanha, vista como a menina dos olhos do bloco e país mais promissor até a crise lançar quase a metade da sua população no desemprego. No Brasil, a ascensão social e ao consumo não garantiu a melhoria nos serviços. Ainda temos um péssimo transporte público e calamidades na saúde e educação. 

A melhoria de vida também não garantiu a cobertura dos direitos que deveriam ser de todos. A polícia no Brasil por vezes ainda continua a agir de forma criminosa e anti-democrática, sendo talvez o maior combustível do aumentos das revoltas e da participação da classe média e do apoio da mídia aos protestos, ao sentirem como atua essa corporação ainda nos dias de hoje.

A insatisfação não é só fruto da piora econômica e da falta de serviços e de direitos. É da total impotência da sociedade e dos políticos perante elas. Amputados pelas necessidades de um sistema financeiro maior que a democracia, os países da Europa não mediram esforços em aceitar medidas de austeridade contrárias ao salário minimo, garantias de aposentadoria e renda. A extrema-esquerda e extrema-direita cresceram exatamente sobre isso e de um discurso cada vez mais contrário ao FMI e a UE. 

No Brasil, a politica de toma-lá-da-cá reinante e medidas econômicas beneficiárias aos bancos e alguns ramos do empresariado também tem causado certo desgaste entre os políticos e a opinião pública, ainda mais quando não se observa melhoras reais dentro do país. A FIFA e suas exigências mirabolantes é a cereja do bolo da revolta.  São muitos influenciando os rumos do governo, são poucos observando a própria vontade ser representada.

Existe uma piada bastante popular no mundo das ciências humanas nos últimos dias. Estão se perguntando onde estão os economistas, que durante 20 anos dominaram as discussões e as análises sociais nos fóruns internacionais e em debates televisivos sobre política. Mas na verdade, a falta de argumentos dos economistas segue o silêncio de todos os outros tipos de analistas, incapazes de formular um modelo alternativo ao que agora parece falhar, não conseguir calar as vozes que clamam por profundas mudanças. De quatro meses para cá a situação piorou consideravelmente e não sabemos nada sobre como será o futuro. Devemos começar a pensar desde já: o que fazer? 


Categorias: Brasil, Economia, Europa