Há um ano...

Por

Há um ano, as discussões no blog passavam por diferentes cantos do mundo. Destacando alguns dos principais pontos, temos um interessante post sobre François Hollande, então com apenas seis meses cumpridos de mandato na França, em que já se destacavam alguns elementos contraditórios em sua forma de governar. A partir de um discurso tido como esquerdista, Hollande foi eleito por franceses esperançosos por mudanças após a emblemática era Sarkozy. Após um ano e meio de governo, ele está sendo avaliado hoje como o presidente com menor apoio da população em 30 anos (!) – pior que o próprio Sarkozy… os anos vão delineando a política de uma forma imprevisível (ou alguém imaginava isso?) na França.

Já previsível, contudo, era a falta de perspectivas para o término do conflito na Síria. Infelizmente, o título do post de um ano atrás (“Nada de novo na Síria”) poderia ser o título de um post sobre o tema essa semana. Se naquele momento o número de vítimas fatais era estimado em 36 mil, neste ano vimos a cifra quintuplicar, chegando a mais de 115 mil mortos atualmente e milhões de refugiados nos países vizinhos e pelo mundo afora. Com metade da população na miséria, estamos vendo a destruição de um país sem que nenhuma medida efetiva consiga evitar os danos. Em um pós-guerra que ainda não consegue ser visualizado, as dificuldades certamente persistirão por anos a fio até que esses momentos façam parte de lembranças longínquas.

Já na América Latina, há um ano apresentávamos um embate argentino que persiste entre o governo e os meios de comunicação, mais precisamente o Grupo Clarín (a “Rede Globo” da Argentina). A batalha envolve a “Lei da Mídia” promulgada em 2009 e contra a qual o grupo tem lutado incessantemente, já que a legislação obrigaria o Clarín a se desfazer de licenças tanto de rádio como de televisão, respeitando uma série de limitações que visam evitar o monopólio dos meios de comunicação. Ontem, poucos dias depois de derrota na Corte Suprema de Justiça do país, foi apresentado (a contragosto) pelo Grupo Clarín plano de adequação voluntária à lei. O assunto ainda deve gerar discussão por lá – e bem que a moda podia contagiar os demais países da região…

Postando, relembrando e avaliando o que o tempo traz de novo em temas já discutidos no blog, seguimos com o “Há um Ano…” na Página Internacional! 


Categorias: Américas, Conflitos, Europa, Há um ano...


Que se lixe a troika

Por

É mais um dos episódios desencadeados pelos fortes ajustes econômicos de um país endividado. Nesse caso, não há a necessidade de tradução. Os portugueses organizam manifestações com o objetivo de protestar contra o orçamento do país para 2014, no qual estão previstos cortes agressivos nos salários e nas pensões.  

Há cerca de duas semanas, o ex-presidente do Banco Central Europeu, Jean Claude Trichet, comentava a crise econômica na zona do euro. Para ele, muitos dos países do bloco atravessaram anos gastando mais do que arrecadavam, de forma a resultar em déficits públicossignificativos. Todo déficit público exige financiamento de alguém. Quando veio a crise econômica, os financiadores enxergaram riscos na continuação do financiamento dos déficits, em especial de alguns países, e decidiram impor condições estritas. 

Entre os afetados, estão Grécia, Espanha e Portugal. Os portugueses, assim, encontraram-se endividados e forçados a implementar um ajuste impopular. Na realidade, gastar mais do que se ganha provoca consequências tanto econômicas quanto sociais. No âmbito social, promove serviços e condições de vida superiores às que a economia do país permitiria. No âmbito econômico, gera desequilíbrios de duradouras consequências.  

A analogia com o endividamento privado, por exemplo de uma família, pode ajudar-nos a entender. Um agente privado endividado vai ter que cortar despesas, caso deseje retornar ao equilíbrio. Contudo, na mesma analogia surge outro questionamento. Para pagar uma dívida, deve-se trabalhar e gerar receita, para a família na forma de salário. Sem trabalho, por mais profundo que sejam os cortes, pouco se avança.  

Retomando a comparação anterior, a temida austeridade é isso. Os governos diminuem os serviços oferecidos aos cidadãos, cortam gastos com encargos e salários, além de aumentarem os impostos. Assim, gradualmente retomam o equilíbrio ao diminuir o déficit público. Por outro lado, nestes períodos há uma retração dos agentes privados devido à incerteza. Por isto, o governo tem papel importante para não deixar a economia afundar mais do que deveria. 

Os países endividados, porém, não escolhem o que fazer. A troika (Banco Central Europeu, Comissão Europeia e FMI) traça metas ambiciosas para cortes das despesas. A margem para o governo agir e impedir a economia de colapsar fica restrita. Portugal, como os demais afetados, deveria pensar em reformas para incrementar sua competitividade e modernizar sua economia, fortalecendo suas bases para o futuro. Se no curto prazo os portugueses veem a economia entrar numa profunda recessão, poderia haver ao menos um melhor planejamento a médio-longo prazo.  

Os credores, no caso português a troika, querem mais é receber o que lhe devem. Enquanto isto, a crença nas instituições europeia diminui no mesmo sentido dos gastos sociais. No âmbito político, este fenômeno poderia ensejar um fortalecimento da extrema direita. Em Portugal, tendo em vista o não distante regime Salazar, esta tendência parece não se consolidar por enquanto. Consolida-se o “que se lixe a troika” e o repúdio à outrora promotora de boas novas, a União Europeia.


Categorias: Economia, Europa


Arte regenerada

Por

Em 19 de julho de 1937 foi inaugurada pelo Partido Nacional Socialista alemão em Munique uma exposição chamada “Entartete Kunst”, Arte Degenerada. O objetivo de Hitler, no auge do Partido: disseminar a aversão pela arte moderna, indigna de apreciação e confiscada dos grandes museus do país. Os autores dessa impiedosa arte? Os mestres Henri Matisse, Pablo Picasso, Marc Chagall, bem como os pintores alemães Emil Nolde, Franz Marc, Max Beckmann e Max Liebermann, dentre tantos outros.

Todos tinham em comum traços modernos que não se adequavam à “arte oficial” do Terceiro Reich e que, portanto, deveriam ser retirados de circulação no meio artístico, em um temível esforço nazista de “purificação” até mesmo dos ambientes artísticos, sob os mais controversos argumentos.

Quase 80 anos depois, revelou-se que foram encontrados na mesma cidade de Munique cerca de 1.500 obras daqueles grandes mestres confiscadas à época, esquecidas no apartamento do filho de um colecionador que as teria adquirido após o confisco nazista. Segundo as fontes, o pai de Cornelius Gurlitt teria sido encarregado por Goebbels, ministro da Propaganda no regime de Hitler, de vender para outros países as pinturas enquadradas no quesito de “arte degenerada”.

Avaliada em aproximadamente um bilhão de euros (!!!), a descoberta revela, por um lado, que o tempo histórico para a superação total das Grandes Guerras não deve ser subestimado: conflitos de tais proporções apresentam consequências inimagináveis e que devem ser sentidas por gerações até que seus resquícios façam parte apenas dos livros de história.

Por outro lado, vale destacar justamente a importância da arte como forma de expressão poderosa, capaz de influenciar multidões e desde sempre determinante no que se refere à comunicação de posicionamentos e ideais. Neste sentido, é interessante perceber que, tantos anos depois, os artistas perseguidos pelos nazistas possuem tamanho reconhecimento histórico enquanto aqueles que obedeceram forçosamente às regras estéticas do Partido caíram junto àqueles que defendiam seus princípios.

Materialização da liberdade, a verdadeira arte revela-se, pois, regenerada, cada dia mais viva… 


Categorias: Europa, Mídia


Qual pátria de chuteiras?

Por

Num ano em que pressões migratórias causam tragédias entre a África e a Europa, temos caso um pouco menos trágico, mas que vai chamar muito mais atenção da mídia que centenas de africanos mortos em praias do Mediterrâneo, devido à Copa do Mundo. Ontem, o jogador de futebol Diego Costa informou que não tem intenção de defender a seleção brasileira e isso está causando revolta tanto entre a comissão técnica (segundo a qual ele está “abrindo mão do sonho de milhões de garotos”) quanto nos torcedores. E se não parece uma questão das mais relevantes, traz alguns pontos de reflexão bem pertinentes. 

Talvez a principal “acusação” contra o jogador é de que seria “antipatriótico”, um “traidor”, e se ele realmente for jogar pela Espanha deve-se esperar todo tipo de apupos em 2014. Paixão de torcedor é uma coisa meio irracional mesmo (o termo “paixão” tem a mesma origem de “doença”), mas quando a comissão cria um clima de hostilidade devido à escolha da pessoa, já temos uma questão mais espinhosa. 

Jogadores mudando de país não são novidade alguma. O grande Puskas, maestro da Hungria de 1954, teve de fugir da opressão soviética e defendeu a seleção da Espanha (que parece ter esse costume de trazer talentos de fora) em outra Copa. Mudar de país e depois se envolver com a seleção local parece uma progressão aceitável. Claro que existem casos que chegam a ser cômicos, e até moralmente questionáveis, como os times de tênis de mesa nas Olimpíadas – das delegações que chegam às etapas avançadas, o espectador vai ver um monte de nomes chineses, já que maioria são atletas naturalizados para esta função especificamente. 

Claro, não parece ser o caso de Diego. O jogador que saiu cedo do país (e até cidadania espanhola tem). A “revolta” parece ser muito mais recalque ou mesmo temor pela má fase dos atacantes do time nacional. Mas… e se ele realmente tivesse escolhido a Espanha por fatores “imorais” como o dinheiro? Seria condenável? 

Muitas vezes, os jogadores que mudam de time ao tilintar das moedas são chamados de mercenários. Dá pra fazer uma analogia bem interessante sobre isso. Lá atrás, na sua obra mais conhecida, “O Príncipe”, Maquiavel recomendava aos governantes que nunca delegassem a defesa nacional a mercenários, justamente por que eles não teriam comprometimento com o Estado, e não estariam dispostos dar a vida apenas pelo vil metal – pior ainda, poderiam mudar de lado pelo mesmo motivo. 

Devemos a isso a acepção negativa que existe até hoje para o termo “mercenário”, mas é totalmente despropositado quando pensamos em esporte, e quanto mais em outras questões mais pungentes como guerras e catástrofes. Seja um jogador de futebol, de tênis de mesa, ou um engenheiro, ou um médico, ou apenas refugiados africanos em busca de melhores condições de vida – escolher um país diferente para residir e trabalhar, e sim, por causa de uma possibilidade de renda maior, e porventura decidir (de acordo com a lei) se tornarem cidadãos do outro país, não é nenhum tipo de imoralidade. 

Já que falamos de autores clássicos, vamos lembrar também de Immanuel Kant e seu cosmopolitismo – para o filósofo, todos os homens nascem iguais, são “cidadãos do mundo”, e possuem todos os mesmo direitos. Barreiras como idioma e nações são artificiais – todos teríamos o mesmo direito a poder transitar ou habitar em qualquer pedaço da Terra. E quando pensamos que o próprio nacionalismo, que parece alimentar o tipo de crítica levantado contra o jogador, é apontado por muitos atores como uma artificialidade, uma construção social que legitima o poder do Estado, fica ainda mais frágil manter qualquer tipo de censura. 

As pessoas são livres para escolherem onde querem ser felizes, seja para fugir de uma situação insustentável, seja para jogarem futebol. Já não bastasse a rejeição ao “estrangeiro” (vejam o caso dos médicos “importados” pelo Brasil), lidar com rejeição dos seus conterrâneos não deixa de ser uma violência. E a discussão que isso levanta vai muito além dos gramados.


Categorias: Brasil, Europa, Mídia, Polêmica


O grampo que une?

Por

Se informação é poder, hoje poderíamos afirmar que Edward Snowden lidera o ranking internacional de poderosos do mundo, que sabem o quanto valem seus trunfos e estudam as melhores estratégias para apresenta-los. E Snowden está conseguindo fazer mais barulho do que qualquer um jamais imaginou… a verdade é que o assunto da espionagem que antes “passava batido” por todos os grandes interlocutores mundiais veio a foco recentemente e, para azar de Obama, parece estar longe de sair dos holofotes.

A partir das informações vazadas por ele com a ajuda do jornalista Greenwald, o movimento questionador – impulsionado por Dilma após as revelações de espionagem a nível pessoal e estratégico no Brasil – está agora ecoando mais fortemente em território europeu. A revelação de possíveis escutas a celulares e grampos telefônicos a líderes de mais de 35 países geraram nítido desconforto nas relações com Estados Unidos e se tornaram o centro das atenções da Cúpula da União Europeia em Bruxelas na última semana. 

Merkel exigiu inclusive explicações por telefone por parte de Obama, o qual nega os feitos e se justifica como pode. Aliás, situação complicada de qualquer forma para ele já que, por um lado, se ele tinha conhecimento das operações da Agência de Segurança Nacional (NSA), as negativas e alegações de insinuação constituem uma grande farsa. Por outro, se efetivamente a Casa Branca não tivesse acesso a essas informações, trata-se de um lapso de quase cinco anos do presidente em um dos temas mais caros ao país. A primeira opção parece muito mais plausível.

Depois da Alemanha e da França, a última denúncia na Europa envolve a espionagem, por parte da NSA, de 60 milhões de ligações telefônicas na Espanha entre dezembro de 2012 e janeiro de 2013 (!). Uma bomba atrás da outra, com um Snowden que alerta a que veio e que tem em suas mãos informação e informação privilegiada – sinônimo de poder para alterar o status quo internacional.

É claro que nenhuma das grandes potências é totalmente neutra nesta história e também tratam atenciosamente deste tema na agenda e os aliados dos Estados Unidos que se cuidem, sendo alertados pelo próprio governo dos Estados Unidos sobre isso.

Em meio a um debate que conta com jargões variando entre “restabelecimento da confiança” e “necessidade de averiguar denúncias”, as nações “amigas” dos Estados Unidos se veem em um momento delicado de gerenciamento das relações. Em momento de descontração na reunião europeia, Merkel chegou a afirmar ao belga presidente do Conselho Europeu que “sermos todos grampeados nos une” (!). Será? Talvez o próprio laço que sele esta união seja estadunidense sem que eles saibam… 


Categorias: Estados Unidos, Europa, Mídia, Polêmica, Política e Política Externa


Uma deportação controversa

Por

Um dos temas internacionais que mais desafia o senso comum é a imigração. De pronto, infere-se que são os mais pobres que escolhem este caminho com maior frequência, em especial seguindo a rota sul-norte. Na realidade, segundo dados das Nações Unidas, somos surpreendidos pela prevalência de migrações dentro dos territórios nacionais, assim como os movimentos inter-regionais, e não dos países menos para os mais desenvolvidos.  

Mais surpreendidos ainda somos quando, no exemplo do caso de mexicanos migrando para os Estados Unidos, percebemos um aumento diretamente proporcional da imigração em relação à renda. A pobreza, neste sentido, apresenta outra face perversa: a imobilização. A baixa qualificação e renda são fatores impeditivos para a mobilidade. 

Mesmo no caso de conflitos, principais fontes de mobilidade compulsória, observa-se que o fluxo de refugiados de áreas como Síria, Afeganistão, Iraque e Somália tende a se concentram em países vizinhos ou na própria região. Em sentido contrário, a população de maior nível educacional encontra melhores oportunidades. Outro elemento importante do debate é uma Europa, cujo processo de transição demográfica foi concluído e que deve precisar, no futuro não distante, de um fluxo imigratório para sustentar seu crescimento econômico. 

Nesta semana, um caso muito ilustrativo ocorreu na França. Uma jovem de origem cigana, Leonarda Dibrani, foi surpreendida por uma ligação durante uma excursão escolar. Tratava-se de um oficial da polícia francesa. Sua família, naquela manhã, ia ser deportada para o Kosovo e faltava encontrar a filha. Ao encontra-la no ônibus da excursão, a polícia deteve a menina na frente dos colegas e a deportou em sequência.

 

De volta ao Kosovo, a jovem deu uma entrevista para uma rádio francesa expressando seu desejo de retornar à França com sua família. Na nova pátria, sua família não tem casa e a menina não pode frequentar a escola por não falar o idioma local. A deportação despertou uma onda de protestos contra o procedimento virulento para retirar a família de solo francês.  

Neste sábado, o presidente francês, François Hollande, ofereceu à menina o retorno ao país, sob a condição de retornar sozinha. Este processo coincide com uma promessa de maior firmeza do Ministério do Interior, o ministro Manuel Valls declarou há duas semanas que os ciganos instalados na França estavam destinados a retornar para a Bulgária.   

A população cigana é alvo frequente, não só na França. O aspecto nebuloso no caso da família cigana é que se cumpria o aspecto fundamental, qual seja, a incorporação ao país receptor. Leonarda frequentava a escola e falava fluentemente francês. O não aceitar aspectos culturais e educacionais franceses talvez seja a principal crítica contra os imigrantes. No caso em questão, fez-se valer um regulamento interno em prejuízo a direitos fundamentais.  

Quantas outras situações como esta não devem ocorrer mundo afora? Para muitos governos continua mais fácil alimentar o senso comum sobre imigrantes, fazer doações para refugiados (mas estabelecer cotas para recebe-los) e buscar meios legais de deportar populações indesejadas. Sorte que muitos não concordam, no caso de Leonarda muitos estudantes, que desejam vê-la trocar o banco da praça no Kosovo pelo banco escolar na França.  


Categorias: Europa


Prêmio discordante

Por

Peso na consciência é uma coisa complicada, especialmente se você tiver criado um dos explosivos mais potentes e perigosos da humanidade. Foi assim que Alfred Nobel, o criador da dinamite, resolveu gastar alguns dos seus milhões que ganhou com a invenção para tentar se redimir com a humanidade e premiar grandes invenções, pesquisas, ou simplesmente pessoas que ajudassem o ser humano a ser um pouquinho melhor. Nascia o prêmio Nobel, que está sendo entregue em sua edição 2013 nesse mês de outubro. 

Os prêmios científicos são muito interessantes, mas geralmente o mais chamativo é um bem subjetivo, o tal Nobel da Paz. Muita gente já ganhou esse de um modo bem contestável (basta lembrar do Obama em 2009, que continua massacrando gente com drones, ou indo mais atrás, Ted Roosevelt, aquele do ursinho de pelúcia e do “Big Stick”, que ganhou o prêmio pela mediação na guerra russo-japonesa), mas parece que esse ano a concorrência está boa. A principal aposta é na menina paquistanesa Malala Yousafzai, aquela que levou um tiro na cabeça por criticar o Taleban e defender escola para todos. Parece justo – mesmo por que o Taleban continua ameaçando ela de morte após sua quase milagrosa recuperação. Mas outros candidatos são um pouco mais controversos, como… o presidente russo, Vladmir Putin. Esse mesmo, o homem que prende ativistas, tem dezenas de denúncias de opressão e violação de direitos humanos contra e que vende armas para o ditador favorito da mídia atual. Sua indicação seria justamente por seu papel na mediação do conflito da Síria (apesar de absolutamente nada ter sido alcançado de concreto, fora o tênue compromisso de remover as armas químicas de lá). 

Não seria novidade – muitos desses prêmios são para acordos de paz. Claro que, geralmente, são para acordos já finalizados (com exceção do histórico prêmio de 1994, e que com a morte de Rabin deu no que deu). Mas o Nobel a Paz, o mais prestigiado deles, está ficando meio desacreditado nos últimos anos. Obama em 2009, a União Europeia ano passado, parece até piada. A indicação (e até uma possível vitória) de Putin seria basicamente um escolha de politicagem. Digamos que o controverso prêmio de Obama em 2009 abriu um precedente e agora Putin pode ser “recompensado” por sua busca de trazer a Rússia novamente a um primeiro plano. 

O prêmio Nobel, no fim das contas, não tem muita utilidade prática, mas é cheio de simbolismo, e essa desvirtuação não deixa de ser um pouco lamentável. Claro que, para quem não liga muito para o assunto, sempre temos o divertido IgNobel, que faz o contrário e premia pesquisas e pessoas que não contribuíram em nada para o progresso da humanidade. Em 2013, o IgNobel da paz foi para Alexander Lukashenko, presidente de Belarus, que tornou proibido bater palmas em público. Putin vai ter que se esforçar pra ganhar disso.


Categorias: Ásia e Oceania, Assistência Humanitária, Direitos Humanos, Europa, Organizações Internacionais, Política e Política Externa


Homens ao mar, e à própria sorte

Por

Hoje está repercutindo o naufrágio de um navio de refugiados do Quênia e da Eritreia, em que cerca de 90 pessoas morreram. Não se sabe a causa, mas a história é familiar – embarcações geralmente malcuidadas e superlotadas que trazem refugiados buscando melhores condições de vida, como as folclóricas lanchas cubanas rumo a Miami, mas muito comuns especialmente partindo do norte da África e cruzando o Mediterrâneo em direção a França, Itália e Grécia. Nesse caso, a ação da guarda costeira italiana em salvar os náufragos foi louvável, já que nem sempre isso acontece. 

A recusa sumária a refugiados é considerada infração do direito internacional. A Grécia, por exemplo, já teve problemas envolvendo denúncias recentes de estar desviando barcos de refugiados da Síria. Porém, a grande dificuldade nesses casos acaba sendo a precariedade da embarcação e a quantidade de pessoas que buscam uma nova condição de vida. 

O problema fica mais grave quando o refugiado parte para uma aventura ainda mais arriscada, como clandestino. Várias histórias de horror envolvem a morte de pessoas nessa situação, como a do navio MC Ruby, que até virou filme, em que refugiados ganeses foram mortos em 1992 pela tripulação ucraniana para que não pagassem a multa de trazer clandestinos para um porto europeu. Mas não precisa ser necessariamente um privilégio de países africanos – em 1996 o caso do Maersk Dubai trouxe algo semelhante, mas eram refugiados romenos que foram atirados em alto-mar pelo comando taiwanês do navio (e que resultou na revolta e denúncia da tripulação filipina, que acabou protegendo e salvando outro clandestino da morte). 

Essas histórias mostram o pior que o ser humano pode fazer. Basta lembrar que a maior tragédia náutica da história foi o afundamento de um navio alemão na 2ª Guerra Mundial, o Wilhelm Gustloff, com mais de 10 mil refugiados alemães a bordo e torpedeado impiedosamente por um submarino soviético. Isso passa pela crueldade para com os refugiados, desde o interesse econômico (de evitar uma multa e impedir a entrada de novas pessoas em uma economia em crise) e pela própria origem da migração: quando pessoas querem fugir para países com a economia mal das pernas como a Itália, a Grécia, ou mesmo países em situação de conflito como o Iraque (para onde muitos sírios estão indo), significa que a coisa está feia. 

O trágico é imaginar a contraposição entre as condições cada vez mais rígidas de controle de entrada e as dificuldades progressivamente maiores que esses imigrantes buscam devido à piora da situação de vida em seus países de origem. Não basta sobreviver a essa verdadeira epopeia de viajar em condições terríveis, uma verdadeira epopeia – essa é apenas a primeira etapa de um processo longo de aceitação, reconstrução, ou no pior dos casos de deportação, para recomeçar tudo do zero. O drama dos refugiados é uma questão de segurança internacional, sob diversos aspectos, e a tendência é que esse tipo de tragédia se repita, infelizmente.


Categorias: África, Assistência Humanitária, Defesa, Direitos Humanos, Economia, Europa, Paz, Segurança


Merkel outra vez

Por

Nesse final de semana ocorreram as eleições legislativas da Alemanha. Evento obviamente mais do que importante para a Europa, tendo em vista a dimensão econômica do país e a sua estabilidade ímpar diante das incertezas da crise europeia.

Os resultados mostraram uma grande estabilidade também quanto ao quadro político nacional.  Angela Merkel não esteve nem por um instante ameaçada de perder as eleições. A vitória dela e de seu partido, a terceira seguida, é o simbolo máximo da continuidade que desejou o povo alemão. Para levarmos em conta mais do que analisar quem venceu, todo o restante do cenário também faz jus a essa conclusão.

O partido social-democrata, a oposição direta ao seu governo, ficou em segundo lugar novamente. A única vitória da oposição foi de não dar ao partido de Merkel a maioria das cadeiras do Parlamento. De qualquer modo, mais uma derrota deverá ligar o sinal vermelho para a social democracia europeia. Suas ideias, a muito tempo dadas como superadas por muitos economistas e cientistas políticos, agora parecem não ter forças também nas urnas. A Noruega, que passou os últimos outo anos sob um governo social democrata, nesse ano também derrotado nas urnas, é a prova máxima da diminuição de influência que vivem esses partidos.

Mas não só a social democracia parece ser menos empolgante. No caso alemão, o partido liberal, apoiador de Merkel, não alcançou ao menos 5% dos votos, o que o tirou pela primeira vez desde 1990 de qualquer representação. Mais ideológico do que o partido de Merkel, e mesmo assim defensor das mesmas ideias, mostra à primeira ministra e ao seu partido que o sucesso nas urnas em próximos pleitos dependerá mais da saúde econômica do país do que da politica em si. É a vitória do resultado econômico sobre o debate ideológico, fenômeno muito visto no mundo, inclusive no Brasil.

Outro resultado importante é do Partido Verde Alemão, talvez o mais organizado e forte do mundo, que amargou mais uma diminuição de eleitores. Parece queimar a língua de especialistas que diziam que haveria cada vez uma maior preocupação de jovens com a ecologia e a sustentabilidade. Agora, esse assunto parece perder espaço para as preocupações com a economia, o emprego, a saúde e educação.

Finalmente, a Alemanha parece blindada a ascensão de partidos radicais, os ditos cantões da politica europeia. Se em muitos outros países eles prosperam, na Alemanha não conseguem nem o mínimo para terem representantes no parlamento, como é o caso do partido de esquerda Die Linke e do anti-euro AFD. Isso é mais uma pista que o crescimento de tais partidos exigem uma certa crise econômica e instabilidade politica, das quais a Alemanha parece mais distante.

Diante do cenário de estabilidade alemã, ainda não faltaram casos curiosos. Houveram muitos momentos bizarros durante a disputa, como o casos de racismo. Felizmente, a boa notícia é a eleição de dois representantes negros, pela primeira vez na história. Vale lembrar que durante as eleições, houveram algumas manifestações racistas, como o caso da empresa Ferrero, que usava em seus comerciais o slogan infame “a Alemanha vota branco”.

E assim, aparentemente sem grandes mudanças, segue a maior economia da Europa. Merkel igualará ao fim do mandato a mesma quantidade de tempo no poder de Margareth Tchatcher, talvez a líder mais próxima para se ter alguma comparação. Resta saber, ao fim de mandato tão longo, os benefícios e prejuízos trazidos ao povo alemão por essa continuidade por tão duradoura de um cenário, um partido e uma pessoa no poder.


Categorias: Europa, Política e Política Externa


Imagem da Semana

Por

Às vésperas das eleições parlamentares alemãs, a imagem da semana não poderia ser diferente. Angela Merkel tenta manter a maioria no Parlamento para que seu partido continue na liderança da maior economia da União Europeia em um contexto conturbado para o continente que se reflete na opinião pública alemã. Os principais temas de preocupação dos eleitores são a crise da zona do euro, o desemprego e as políticas sociais. (Entenda melhor o sistema eleitoral alemão aqui.)

Na disputa, de um lado o Partido Cristão Democrata (CDU), de Merkel; de outro, o Partido Social Democrata (SPD), oposicionista. Mas nem tudo é tão simples por lá. Partidos fictícios (cartaz da foto acima, em Berlim), campanhas ultradireitistas e até brasileiro naturalizado alemão candidato a deputado movimentam os embates. Resta apenas aguardar o resultado neste domingo para avaliar seu impacto nacional, regional e internacional.