Fé derretida

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Você confia nos outros? Uma questão tão simples quanto essa é cada vez mais central para governos, sociólogos e cientistas políticos. É que a confiança nas relações interpessoais e nas instituições tradicionais, muito além de ser um problema cotidiano sem importância, pode ser um dos termômetros que definem quem somos e qual sociedade temos. A falta de fé na honestidade de autoridades, parceiros comerciais, empresários e consumidores já aparece como um dos principais fatores que atravancam o desenvolvimento econômico e democrático de diversos países.

E a confiança tem estado em baixa no mundo todo. Inúmeras pesquisas realizadas em países da União Europeia apontam que praticamente 3 em cada 4 pessoas acredita que a corrupção está impregnada na sociedade. Com ou sem razão, tais níveis de descrença pode ser um verdadeiro desastre para o futuro. A UE tem visto esses resultados como um anúncio de dificuldade econômica. Afinal, a confiança é determinante para os índices de empreendedorismo na sociedade. As relações comerciais dependem principalmente de boas relações interpessoais. E quanto maior a dinâmica das relações econômicas, maior o desenvolvimento.

Mas não só na economia que a crise de confiança age de forma negativa. Há comprovações por meio de pesquisas que ela está ligada também ao aumento da criminalidade, da aceitação de comportamentos nocivos, para a expansão de crimes fiscais e de práticas comerciais abusivas. Em países no topo da escala de desconfiança social, ela também age como promotora de grupos e ideias anti-democráticos, que prosperam em momentos de crise moral e econômica.

Para entendermos os desdobramentos da falta de confiança na sociedade temos que analisar pesquisas recentes, em que ela é igualada ao que foi cunhado de “crise siciliana”. Isso por que a configuração social e familiar dessa região da Itália criou facções tradicionais que defendiam a proteção incondicional aos parentes de sangue, mesmo que isso envolvesse a prática de crimes e de ações desonestas enquanto se relacionavam com o restante da sociedade. Ali surgia o código de honra da máfia siciliana.

E o que isso tem a ver com o momento atual? É que as pesquisas apontam que tal comportamento tende a ser copiado quando vivemos crises de confiança humana. Exemplo disso são pesquisas realizadas pela Confederação da Indústria (CNI), que mostram que 80% dos brasileiros não confiam em ninguém além de familiares. Entre essas pessoas, a crença de que o desrespeito à lei e de que comportamentos oportunistas em relações comerciais sejam aceitáveis é mais presente. Para se ter ideia, 55% desses brasileiros acreditam que crimes leves, como viajar sem pagar a passagem, ou até mesmo a sonegação de impostos, são atitudes pouco nocivas à sociedade.

Mais do que uma forma de proteção diante da corrupção humana, esse tipo de ideal moderno nascido da máfia é válvula para uma separação maior entre as pessoas. Em última instância, até mesmo serve como álibi a práticas indesejáveis.

Assim, podemos dizer que a crise de confiança é também a crise de valores éticos em que uma sociedade foi alicerçada. Não à toa durante as manifestações nacionais, assim como em muitas outras indignações populares que se espalharam pelo mundo recentemente, notamos que a insatisfação generalizada mais do que apontar um governo ineficiente, demonstrou que vivemos uma espécie de crise de tudo. Praticamente ninguém ficou impune à insatisfação e a descrença das ruas. Sejam governos, religiões, meios de comunicação e representações públicas.

Mas nada disso é novidade. A modernidade parece ser o espaço da luta entre os valores éticos tradicionais e as relações interpessoais voláteis, líquidas. Uma espécie de conceito freudiano às avessas, em que a falta de engessamento das práticas e dos aparelhos sociais dão o tom da nossa crise, e não o contrário, como profetizou o pensador ainda no início do século XX.

Não à toa, a falta de confiança estabelece uma corrida legalista por justiça, fazendo com que aja apoio massivo da populações por mudanças nas leis, sempre visando uma maior rigorosidade das mesmas. Em meio a essa turbulência, a defesa da educação como caminho para a mudança social e de valores recentemente alçados a centrais, como o da cidadania, ficam em segundo plano. Nas situações mais alarmantes, até mesmo a democracia corre o risco de retrocesso, ainda mais em países em que a perda da confiança é total, como parece ser o caso da Grécia. Nesses casos, grupos totalitários e contra-reformistas ganham novamente voz, exatamente pelo discurso de esperança do retorno de um “passado” menos incerto.

O renomado sociólogo Zygmunt Bauman, um dos primeiros defensores de que vivemos em uma época única em que as relações humanas e os valores morais colidem, inicia um dos seus livros com a seguinte pergunta: ” Quantos de nós seríamos capazes de seguir um código moral ao pé da letra? E de forma flexível?” O momento atual é caracterizado pela falta de fé na política, nas pessoas e instituições, fenômeno mundial de importância muito maior do que para uma agradável discussão filosófica. Com a grande complexidade que rege o tabuleiro das práticas sociais, a quebra da confiança se apresenta como uma das principais peças que definirão o futuro das relações humanas e das sociedades modernas.


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Há um ano...

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Há um ano

Ao revisitar os textos que foram publicados há um ano no blog, três temas merecem destaque. O primeiro e mais triste deles foi o post de luto pela tragédia de Santa Maria, ocorrida na madrugada de 27 de janeiro de 2013. Com um saldo final de 242 jovens mortos e mais de 600 feridos, o incêndio na boate “Kiss” configura uma das mais graves tragédias na história recente brasileira e mais um exemplo de que a justiça é morosa e ingrata com aqueles que esperam o desenrolar de seus processos.

Um ano depois, sob homenagens e protestos, os familiares das vítimas se queixam de impunidade ao perceber as dificuldades nos trâmites processuais que deixam dúvidas sobre a possibilidade real de punição dos responsáveis pelo desastre. Será que daqui a um ano a situação será muito diferente? Espera-se que sim, avalia-se que possivelmente não.

Outro tema de destaque envolvia os altos níveis de poluição na China, já que o tamanho das partículas do ar no país estava 20 vezes superior ao recomendado pela Organização Mundial de Saúde para um período de 24 horas. Um ano depois, nada mudou – muito pelo contrário (alguém surpreso?).

Pesquisas do início deste ano apontam que a poluição da China pode ser vista do espaço (!) e, ironicamente, que se comprova sua influência negativa na qualidade do ar da costa oeste dos Estados Unidos (!!). Sim, a poluição dos produtores chineses cruza o Pacífico (literalmente) e prejudica seus próprios consumidores norte-americanos… é a globalização em todos os seus sentidos.

Por fim, esse é o período em que tradicional e anualmente ocorre o Fórum Econômico Mundial, em Davos. Enquanto no ano passado o assunto ainda era a “sobrevivência do euro” e as medidas necessárias à sua salvaguarda, tal como apontado em nosso post de 2013, esse ano o tom já foi um pouco diferente.

Com a valorização do euro, aparece a ameaça contrária (mas nem por isso positiva) de deflação (ideia associada a períodos de recessão, processo inverso à inflação, entenda melhor aqui), tal como declarado pela diretora do Fundo Monetário Internacional (FMI) em Davos. Já o presidente do Banco Central Europeu refutou o grau de criticidade da declaração, garantindo estar preparado para gerenciar a situação. A ver como a moeda europeia se comporta frente aos novos desafios à sua estabilização…

Postando e relembrando, esta é a nossa Página Internacional!


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O novo espetáculo aéreo

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“FX”, em inglês, é uma sigla muitas vezes utilizada para designar “efeitos especiais” (“effects”). Até onde eu saiba, o F-X2 não tem nenhum significado em específico com relação à sigla, mas causou uma boa repercussão, assim como um verdadeiro espetáculo, há algumas semanas, quando o programa de revitalização da aviação de caça do Brasil foi finalmente concluído, com a opção pela compra dos aviões suecos. 

A história por trás dessa aquisição vai longe (são mais de dez anos), e creio que todos os leitores conheçam minimamente, ou tenham visto em algum momento na mídia, sobre como foi o processo de aquisição F-X2. Com a oferta de aviões norte-americanos, suecos e franceses, tivemos todo tipo de reviravolta. Em 2009, a opção favorita em diversos sentidos, a francesa, teria sido escolhida em definitivo apenas para que a informação fosse completamente retificada semanas depois. Desde então, e com a saída de Lula e Sarkozy de cena, a opção norte-americana, mais sólida, parecia a vencedora. Mas, no fim das contas, foi a zebra que levou o troféu, com a vitória do Gripen sueco. 

A análise das opções era bem simples, e boa parte das reportagens sobre o assunto se fia nisso. Escolher os caças franceses seria interessante pelo histórico de operação (usamos aviões da França desde os anos 70) e familiaridade com as partes. O avião americano seria o melhor em termos de uso comprovado e confiabilidade. E o sueco seria o que mais se adéqua às necessidades de desenvolvimento da indústria de defesa. Aqui está o diferencial da escolha. Muitas análises colocam um peso determinante na questão da espionagem norte-americana: há quem diga até que a escolha já tinha sido feita (estamos em ano de Copa e tudo mais), e que a compra dos Boeings foi cancelada após o estardalhaço das denúncias de Edward Snowden. 

Mas tenho lá minhas dúvidas se isso foi realmente um determinante. É óbvio que foi um fator de peso extremamente relevante, mas pode ter sido ao mesmo tempo uma “desculpa conveniente”, por assim dizer. Primeiro, a oferta sueca era a mais barata, e isso pesa demais em contexto de crescimento econômico limitado. Ademais,todas as ofertas propunham a instalação de linhas de montagem no país, mas apenas a oferta do caça sueco contemplava um item indispensável para o planejamento da defesa nacional, que é o desenvolvimento de tecnologia. Mais que a famigerada (e nebulosa) transferência de tecnologia de que Paris tanto falava, montar o caça sueco vai trazer (e desenvolver) know-how nacional, e isso é um dos pontos principais dos documentos de defesa nacional, principalmente a Estratégia Nacional de Defesa. Após as desavenças com Washington, não havia clima para manter um negócio dessa magnitude, e pode ter sido o “empurrão” necessário para uma opção que já era aventada mas não tinha o interesse político para ser concretizada. E isso já mudou, é claro – durante sua visita em Davos, nessa semana, a presidente Dilma teve tempo para, entre conversas com presidentes e primeiros-ministros, uma reunião com um dos chefões da SAAB. 

Nem tudo é perfeito. Tecnicamente os caças que existem são protótipos, e só virão pra valer prá lá de 2018. Enquanto isso, a Suécia vai mandar caças emprestados para “quebrar o galho”, especialmente nesse período de Copa e Olimpíadas. E o próprio aparelho tem seus críticos – sendo o mais leve dos concorrentes, teria pouca autonomia de voo (carrega menos combustível), além de menos carga útil. Mas no estado de urgência em que a aviação de caça da FAB se encontra, já havia passado (e muito) da hora de se fazer a escolha. A grande questão para o futuro é saber se a compra dos Gripen vai ter o efeito esperado, fazendo com que haja desenvolvimento industrial sensível para que possamos evitar que tenham o mesmo destino dos Mirage e F-5, revitalizados e empregados muito além de sua vida útil por falta de reposição.


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Votação cá e acolá

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Todo ano pode ser definido como ano de votação, obviamente. Mas 2014 mostra-se um tanto quanto diferente nesse sentido. Por quê? Respondo com quatro pontos principais: a) haverá eleições presidenciais aqui no Brasil; b) Afeganistão, Líbia e Iraque, considerados três países com fortes pressões e tensões internas, abrigarão eleições presidenciais, parlamentares e constituintes, respectivamente; c) eleitores da União Europeia vão escolher novos nomes para o Parlamento Europeu; d) Escócia fará um referendo para decretar uma possível independência em relação ao Reino Unido e a Catalunha continuará suas pressões para fazer o mesmo com a Espanha.

Como já é bem sabido, em outubro iremos às urnas para escolhermos os novos presidente, governadores, deputados e senadores. No final do ano passado a pesquisa Ibope mostrava que Dilma Rousseff seria reeleita no primeiro turno. Todavia, atualmente não se sabe qual será o desfecho final após a formação da coalização entre Eduardo Campos e Marina Silva. O ex-presidente Lula já vem conversando com Dilma e terá grande impacto na campanha presidencial. Um ponto interessante para se destacar é a realização da Copa do Mundo no nosso país. Ela e os prováveis protestos terão peso decisivo nas urnas. Conforme afirma o professor e historiador Flávio de Campos, o desempenho do futebol brasileiro dentro de campo influenciará diretamente a vitória ou o fracasso de Dilma em Brasília.

No Afeganistão ocorrerão eleições presidenciais novas, pois o atual presidente, Hamid Karzai, não poderá se reeleger. Já no Iraque a situação está um pouco pior, haja vista que as eleições parlamentares tomarão forma em abril após o Supremo Tribunal Federal iraquiano derrubar a lei que permitia somente dois mandatos. Assim, o atual primeiro-ministro, Nouri al-Maliki, está de olho em seu terceiro governo. Por sua vez, na Líbia, após todo caos e estado de guerra interno, serão escolhidos 60 representantes para formarem uma Assembleia Constituinte que criará um novo documento base do país.

Ainda haverá eleição na maior democracia do mundo, a Índia. Barack Obama lidará com um forte embate entre democratas e republicanos para uma nova formação do Congresso estadunidense. Na América do Sul, Uruguai e Colômbia também terão eleições gerais. José Mujica, que vem ficando famoso por suas reformas no país, não poderá se reeleger e o ex-presidente colombiano Álvaro Uribe poderá ser estrela nas prévias legislativas. Para não me alongar muito, cumpre dizer que, do mesmo modo, haverá pleitos na África do Sul, Indonésia e Turquia.

A Europa será palco de muitas novidades. Em maio o Parlamento Europeu terá nova composição de seus deputados, os quais são eleitos diretamente pelos cidadãos. A instituição colabora com o Conselho de Ministros na formação das diretrizes legislativas do bloco e essa próxima eleição trará consigo novos desafios para seus membros, dentre eles combater as elevadas taxas de desemprego em alguns países. Paralelamente, a Escócia fará um referendo em setembro para decidir se se tornará independente do Reino Unido a partir de 2016 e a Catalunha continuará a demandar sua independência da Espanha através de referendo, conforme analisei previamente aqui no blog.

Muitas surpresas estão por vir, acredito. Para nós, sem dúvidas, a eleição presidencial brasileira terá seu gostinho especial. Mas, sem dúvidas também, é sempre bom acompanhar um pouco do que se passa ao redor do mundo. Líbia, Uruguai e Escócia, principalmente e cada um à sua maneira, representarão alguns novos rumos que a política internacional vem adquirindo na última década.


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Tra(d)ição

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A capacidade dos estadistas em contornar crises é um dos ossos do ofício, mas quando isso envolve problemas pessoais sempre existe uma carga dramática maior. Ontem, o presidente François Hollande da França fez um discurso semestral de balanço, no qual apontou as dificuldades e metas para a economia francesa (um tema bastante importante, já que está sendo obrigado a retomar muitas políticas de seu impopular antecessor), mas a imprensa queria saber mesmo é de seu possível caso extraconjugal com uma atriz e como fica a primeira-dama nisso tudo (perguntas das quais habilmente se esquivou).

Para situar um pouco o leitor, temos Hollande, o presidente francês, que é separado e vive numa espécie de “união estável” com a jornalista Valérie Trieeweiler (a da foto, que a rigor é a primeira-dama, apesar de não ser “oficialmente”). Porém, revistas de fofocas descobriram escapulidas de Hollande com a atriz Julie Gayet, e isso tudo resultou numa crise doméstica com Trieewieler, que está hospitalizada após uma crise depressiva. 

Parece que essa avidez por detalhes sórdidos da vida pessoal dos chefes de Estado é uma coisa bem europeia. Na França mesmo, Sarkozy dividia a vida entre a coluna política e a social por causa de seu badalado relacionamento com Carla Bruni. Já na Inglaterra, o caso mais famoso, isso chega a ser patológico e move uma “indústria” de imprensa marrom inteira. Mas basta lembrar do estardalhaço amoroso do governo Clinton para ver que não é exclusividade do velho mundo (apesar de quem os EUA têm uma tradição em garimpar escândalos de seus presidentes, mas isso é outra história).

É estranho pensar sobre isso quando falamos, por exemplo, do Brasil (quando a coisa mais parecida foi lá na época do Itamar Franco, quando tiraram fotos indiscretas da Lilian Ramos junto do então presidente no carnaval de 1994). Temos tudo para oferecer histórias picantes, mas nada estoura, seja pela falta de uma imprensa dedicada a isso (e muito mais preocupada com conchavos políticos e denúncias para todos os lados) ou mesmo de “material humano”. Na verdade, é interessante reparar que a maioria das mandatárias pelo mundo nem chega a ter um “primeiro-cavalheiro”, como a própria Dilma (tínhamos o finado Nestor Kirchner da Argentina, mas hoje o mais relevante é o Dr. Joachim Sauer, um discreto professor universitário que deve ser mais famoso pelo trabalho como químico quântico do que por ser esposo da primeira-ministra alemã Angela Merkel), o que evita uma enormidade de problemas quanto a mexericos sobre a vida pessoal. 

Afinal, qual a importância de saber se tal presidente fez voto de castidade ou vive com concubinas? Quando vida pessoal vira assunto de Estado? Existe muita história atrás disso, mas a estrutura do poder atual é uma repercussão da vida em sociedade. Espera-se “retidão” do cidadão que teve os poderes do estado investidos nele. Como confiar a cambaleante política econômica a uma pessoa que trapeia a própria companheira? Obviamente uma coisa não absolutamente nada a ver com a outra, mas existe o tal conceito do homem público, que vive para o Estado, e sua vida particular passa a fazer parte disso, especialmente aos olhos daquela entidade nebulosa chamada opinião pública. Talvez seja justamente esse resquício de patriarcalismo que facilite a vida das chefes de Estado, já que estão “entrando” no sistema de maneira relativamente recente e não precisam obedecer às “regras” do jogo – mas essa é uma discussão que vai longe. 

Enquanto isso, Hollande fica com a dor de cabeça, Trieeweiler com a depressão, Gayet com a fama, os jornais com a audiência e temas frugais, como economia e intervenções militares na África, esquecidos.


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Resquícios pós-conflito

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O encerramento de grandes conflitos muitas vezes não representa efetivamente seu final. Os anos que se seguem após os enfrentamentos são decisivos para o processo de reconciliação e recuperação de uma rotina de paz, o trabalho com a memória e a reconstrução – física e mental – dos indivíduos e dos locais que sofreram com a violência de uma guerra.

Contudo, mesmo após muitos anos, bombas e minas antipessoal ainda tornam vivas as lembranças dos horrores passados, vitimando inocentes após gerações e demonstrando a perversidade desse tipo de armamento.

Uma explosão na última sexta-feira levou a uma vítima fatal e oito pessoas feridas na cidade de Euskirchen, no Estado da Renânia do Norte-Vestfália na Alemanha, após uma escavadeira colidir com uma bomba da Segunda Guerra Mundial (foto). As áreas industriais do país ainda revelam incidentes similares com frequência, evidenciando a necessidade de esforço especial do governo para a desativação de bombas.

Apesar de não terem sido registradas vítimas fatais recentemente na Alemanha, milhares de pessoas têm de ser evacuadas a cada nova descoberta. Apenas no ano de 2012, 706 bombas foram desativadas, mais de um terço pesando mais de 50 kg. Em novembro do último ano, uma bomba de impressionantes 1,8 tons (!) foi desativada em Dortmund.

O drama de bombas atiradas à época das Grandes Guerras na Europa (especialmente remanescentes na Alemanha, na França e no Reino Unido) revela tragédia similar àquela das minas antipessoal plantadas em muitos lugares do mundo em situações de conflito. A chamada Convenção de Ottawa proíbe totalmente seu uso desde 1997, em campanha humanitária que revela a importância de que o assunto permaneça em pauta. Com 161 Estados-Parte, o tratado mobiliza a comunidade internacional e supera antigos paradigmas de segurança nacional em prol da desminagem.

Entretanto, ainda recentemente o governo sírio foi acusado de se utilizar do armamento no conflito que persiste no país, o que demonstra que o tema ainda não foi superado e se faz presente nos grandes debates internacionais.

Desafio atual, demonstrando que as consequências dos conflitos permanecem por anos a fio após a celebração da paz – momento importante, mas que não se encerra em si mesmo, em um longo processo histórico para a superação dos últimos resquícios de conflitos na vida dos civis. 


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A economia global em 2014

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Todo começo de ano é assim. Economistas e diversos especialistas, baseando-se em dados do ano que passou, tentam formular cenários e previsões para o desenvolvimento (ou a falta dele) econômico do ano que se inicia. Assim, a priori, escrever um texto aqui no blog sobre o tema talvez pareça trivial e corriqueiro. Mas 2014 poderá reservar algumas mudanças e surpresas para a economia como um todo. 

A primeira grande pergunta é se neste ano os governos vão manter ou aumentar ainda mais o controle sobre as economias nacionais. É a pedra do sapato da presidente Dilma Rousseff e do ministro Guido Mantega, por exemplo, pois nosso país não vem mostrando disposição em fomentar os investimentos internacionais. De fato, a crise gerada em 2008 trouxe uma série de modificações que foram vistas principalmente na Europa com as propostas de austeridade, sobretudo por parte da Alemanha e da França. Entretanto, mesmo “amenizando” os riscos, o Brasil e outros emergentes permanecem denotando um velho dilema econômico: o Estado deve intervir majoritariamente ou não na economia? 

Por falar em emergentes, a segunda grande questão toma corpo quando da indagação sobre o crescimento econômico de países como China, Índia, Brasil, Indonésia, Turquia e África do Sul no próximo ano. Tais países crescerão? Sim, mas com uma taxa de aproximadamente 5% em 2014. Obviamente, continuar expandindo as economias é algo positivo, mas o saldo não chegará aos índices observados em anos recentes. Os chineses que já apresentaram crescimento de até 12% do Produto Interno Bruto (PIB), reduziram essa margem para 7,8% em 2012 e diminuirão em 2014 conforme exposto acima. 

E a zona do Euro? Essa é uma pergunta que tende a ser não muito animadora, pois Alemanha e França, dois motores econômicos da Europa, apresentarão uma variação de PIB não muito diferente de 2013. A recuperação da moeda já pode ser observada. Todavia, continua frágil e essa característica se manterá no ano que se inicia. De novidade, a Grécia assumiu a presidência semestral da União Europeia e demandará maiores debates sobre crescimento, união bancária e emprego. Fato um tanto quanto simbólico, diga-se de passagem, mas nada melhor do que um pouco de manobra política para valorizar preceitos econômicos. 

Outra indagação está presente em um ator importante e muito conhecido no passado: o Japão. Marcado por quinze anos de deflação, o país apresentou em 2013 um aumento de 30% no preço dos imóveis e de 50% no índice Nikkei. Sua indústria vem crescendo, acompanhada pelo PIB. Boa novidade para eles, mas nada que o retire do atual status de “primo pequeno” da China em termos econômicos. 

Em meio a tantas dúvidas e perguntas, somente os Estados Unidos aparecem como parcial certeza. Com as recentes descobertas energéticas em seu território – principalmente o gás de xisto – o país começa o ano com excelentes chances de crescer economicamente para balancear a maré de falhas de política externa evidenciadas no ano passado. 

Teremos um 2014 marcado por dúvidas e questionamentos. Países avançados e emergentes, zona do euro, maré asiática e outras tantas designações terão que se reajustar. Afinal, o que está em jogo não são somente números, mas sim pessoas e populações que precisam de boas políticas governamentais. Claramente, não nos esqueçamos de que hoje existem variados atores internacionais capazes de influenciar diretamente os rumos da economia global. Contudo, grande parcela das diretrizes, feliz ou infelizmente, está nas mãos dos governos nacionais. E isso é uma afirmação, não um questionamento.


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Quem vai ficar com Snowden?

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Já comentamos anteriormente que Edward Snowden é como aquele presente que ninguém quer ganhar – ele fez revelações bombásticas que tiveram muito impacto na política internacional, mas quando ele precisar de ajuda, não haverá muitas mãos amigas dispostas a tirá-lo do sufoco. Em junho, ele conseguiu se refugiar na Rússia, e ganhou um ano para ficar por lá. Toda aquela discussão sobre possibilidades de asilo ficou para um segundo momento – por enquanto. Pois tão logo termine o prazo, Moscou não parece tão inclinada a se indispor com Washington novamente e Snowden vai precisar se virar. 

É nesse contexto que surgiu a tal carta aberta aos brasileiros, de sua autoria, revelada ontem. Pra quem não viu, Snowden fala aos brasileiros que poderia ajudar nas investigações sobre as violações de privacidade da NSA, impedido apenas por que enquanto não estiver em um asilo definitivo sempre estará cercado. Para bom entendedor, meia palavra basta, e apesar de não expressar o desejo de asilo no Brasil em momento algum (e dessa intenção ser negada pelos seus interlocutores), a intenção é bem clara. 

Buscar refúgio no Brasil não seria má ideia, se até carrascos nazistas conseguiram se esconder por aqui, quanto mais uma pessoa bem-intencionada (até onde se sabe) como Snowden. A chave disso tudo é que Snowden está enrascado – os países ocidentais, mesmo que ultrajados com a espionagem norte-americana, jamais vão conceder asilo pelo risco que correm de sofrer retaliação dura do Tio Sam. Mesmo a Venezuela, que em outros tempos aventava essa possibilidade, não tem mais a figura de Chavez (pelo menos, pessoalmente) para espezinhar os EUA e certamente não iria querer enfurecer seu maior comprador de petróleo em tempos de crise econômica. Restariam os países que são declaradamente “contra” os EUA, como um Irã ou Coreia do Norte, mas pelo fato de Snowden ter feito o que fez pelo bem da liberdade de informação e proteção de direitos individuais, essa possibilidade parece bastante improvável, pra não dizer ridícula. 

Uma boa aposta seria justamente o Brasil. Foi o país que mais mostrou indignação com a espionagem (a ponto de gerar um mal-estar na Assembleia Geral da ONU), está junto da Alemanha em uma possível revisão da governança da internet, e tem todo um histórico de proteção a refugiados. Já existem movimentações para aceitar essa “proposta”. A grande dúvida é se o Brasil poderia realmente aceitar a vinda de um procurado com embasamento relativamente sólido em sua acusação, e arrumar mais uma briga com Washington de lambuja. Planejar sua política externa com a previsão de decadência da potência americana (como o Brasil andou fazendo, e equivocadamente) é uma coisa, dar abrigo a um dos homens mais procurados dos EUA e ensejar uma crise diplomática e política severa, outra bem diferente. A única certeza disso tudo, apesar de ter feito um grande serviço ao mundo (dependendo do ponto de vista), Snowden está frito. E pode levar um país junto dele.


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Estratégia franco-brasileira

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Em clima amistoso, vimos um cordial François Hollande visitar o Brasil essa semana, retribuindo visita de Dilma a Paris no final do ano passado e buscando estreitar as relações franco-brasileiras em diversos domínios estratégicos.

Aspectos diplomáticos da visita à parte, economicamente a França é o quarto país que mais investe no Brasil, apresentando ainda o sexto maior Produto Interno Bruto do mundo. E Hollande reiterou, presencialmente, o interesse francês em ampliar seus negócios com o Brasil. Notadamente, vimos o destaque da mídia em relação ao lobby para a bilionária negociação dos jatos militares que se arrasta há meses – e deve continuar incerta até 2015, dadas as diferentes prioridades assumidas em ano eleitoral.

Os jatos “Rafale” fabricados por empresa francesa competem com outros modelos fabricados pela Suécia (!) e pelos Estados Unidos pela preferência brasileira. Antes favoritos, os jatos yankees ficaram à mercê do debate sobre espionagem, já que nossas relações com os ‘amigos do Norte’ esfriaram depois das recentes denúncias na mídia.

Aliás, Hollande também vem em momento propício para juntar-se ao coro anti-espionagem-estadunidense, procurando aproveitar-se disso também para reerguer sua popularidade decadente na França, já que ser considerado o presidente mais impopular do país desde 1958 não é um título desejado por nenhum líder mundial…

Com a visita, foi ainda assinado um interessante acordo de “visto mochileiro”, possibilitando a estadia de jovens brasileiros na França (e vice-versa) por um período de um ano com a possibilidade de trabalhar. Iniciativa interessante que amplia o intercâmbio, promove oportunidades aos jovens e, consequentemente, aproxima ainda mais os países.

Para Dilma, a visita de Hollande vem ainda revestida de um forte caráter político, evidenciando o interesse brasileiro em manter/ampliar suas relações com os países desenvolvidos enquanto assume seu papel de líder dos emergentes. Trata-se de parceria visualizada como estratégica para ambos os lados, cada qual em busca do reforço de suas prioridades por meio de laços que, ano a ano, vem vislumbrando novos horizontes. 


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Na contramão?

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Nos últimos anos, desde a crise de 2008 (que parece ter sido há uma eternidade mas ainda está repercutindo), quando se fala do noticiário europeu as notícias são quase sempre negativas, com as reclamações dos países que estão pagando pela incompetência dos devedores (leia-se, Alemanha) e lamúrias dos que precisam cumprir as regras do jogo, estão devendo até as calças e precisam praticar a austeridade. Nisso tudo, a União Europeia acaba vilanizada, seja por proporcionar a necessidade desse arrocho fiscal, seja por causar gastos aos bons pagadores para salvar outros países. A Inglaterra sorri de orelha a orelha por não ter caído nessa “armadilha” monetária. E na maioria das vezes vemos o risco é de países saírem da zona do Euro… mas eis que um país em crise está fazendo exatamente o oposto, e aqui entra a discussão sobre a Ucrânia.

Já falamos algumas vezes do país eslavo por aqui. A ex-presidente Yulia Timoschenko foi a última grande manchete, quando acusada de corrupção foi presa e, suspeita-se, vítima de tortura. A prisão, considerada arbitrária por muitos observadores internacionais, mostra o grau de turbulência por que passa o celeiro da Europa, com a oposição e o presidente Viktor Ianukovich trocando farpas das mais afiadas. Ianukovich (outrora aliado de Timoschenko) é pró-Rússia, e em tempos de crise (e a condição que a ex-presidente fosse libertada), mandou a UE catar coquinho e optou por buscar arrego com Moscou, anulando um acordo de adesão que gerou protestos e revolta no país, resultando em violenta repressão policial e ainda mais protestos em consequência (conhecemos bem essa equação aqui no Brasil lá pelos idos de junho). 

A relação da Ucrânia com a Rússia é visceral. Os países mantêm laços econômicos estreitos, na verdade, a própria origem do Império Russo (séculos atrás) se deu em território ucraniano, para depois começar a se expandir setentrionalmente. Foi apenas com a desintegração da URSS que o país se “desligou” formalmente do gigante euroasiático, e isso foi uma das maiores perdas russas com o fim de seu império socialista (indo de aspectos econômicos, como os recursos agropecuários e minerais, até mesmo ao futebol, já que a Ucrânia era a fonte de uma estirpe de jogadores de alto nível). A relação é, obviamente, controversa – por exemplo, existe uma lei de 2012 sobre o ensino da língua russa que causa discussões exaltadas (e pancadaria) até hoje no país. 

Essa sombra da “dominação” russa é o que faz a população ucraniana se revoltar. Não bastasse a dependência econômica, agora estaria voltando a acontecer ingerência política. Como vemos diariamente nos jornais, a entrada na UE certamente não seria pela estabilidade do bloco (apesar de possivelmente trazer grandes benefícios ao país). A revolta com o cancelamento é muito mais uma mensagem de reprovação ao alinhamento com Moscou, que parece interessar apenas a membros do governo de Ianukovich e à própria Rússia, enquanto a população fica à mercê dessa crise econômica e política. A prisão de Timoschenko já era um sinal de que as coisas já não iam bem no país, e esse ambiente de revolta e descontentamento pode ter um desfecho ainda mais impactante que os protestos do meio do ano por aqui.


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