Imagem da Semana

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Srebrenica

Anualmente, a Bósnia vive um triste, mas necessário, ritual no mês de julho. Durante o massacre de Srebrenica, ocorrido nesse mês em 1995, as milhares de vítimas muçulmanas (mais de 8 mil) foram enterradas em dezenas de valas comuns nas proximidades da cidade. Desde então, a cada ano, nos esforços de memória do conflito, as vítimas cujos corpos são encontrados e reconhecidos, recebem uma homenagem no memorial de Potocari e são enterradas dignamente.

Esse ano, 19 anos depois do massacre, foram ainda identificadas 175 vítimas do massacre e a cerimônia ocorreu no último dia 11 (foto), revelando os esforços de reconstrução de uma sociedade ferida, que relembra o massacre em respeito às suas vítimas, mas certamente espera nunca mais reviver uma tal experiência…


Escândalo à la française

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Fonte: Premium Times

Fonte: Premium Times

O jornal Le Monde, o maior e mais lido na França, apresentou hoje em sua capa diária uma manchete em que diz “O choque da acusação de corrupção”, fazendo menção direta ao mais novo escândalo político do país. Trata-se da detenção provisória por um período de 24 horas pelo suposto envolvimento de Nicolas Sarkozy, ex-presidente francês que governou entre 2007 e 2012, com tráfico de influências, financiamento de campanha ilegal e violação de sigilo de investigação.

Sua pena pode chegar a até cinco anos de prisão e abrangerá pagamento de aproximadamente 500 mil euros aos cofres públicos. Se o problema fosse apenas pessoal, não haveria tantos alardes. Entretanto, o escândalo alcançou advogados e o partido político de Sarkozy, o centro-direita “União por um Movimento Popular” (UMP), acusado de contratar empresas para produzir ordens de pagamentos falsas a fim de cobrir excessos de gastos na então campanha do ex-presidente em 2012. Vale lembrar que a crise não surgiu agora e vem de meses passados, quando Jean-François Copé, então líder do UMP, renunciou ao cargo.

Mesmo tratando-se de um caso esporádico, Sarkozy não é o primeiro ex-presidente a passar por essa situação. Seu antecessor, Jaques Chirac, foi acusado duas vezes em 2007 e 2009 por abuso de confiança e “apropriação indevida de fundos públicos” antes de ser condenado a dois anos de prisão. Todavia, a custódia daquele advindas de investigações iniciadas em fevereiro do presente ano, ou seja, sua detenção provisória por tempo determinado, é algo inédito no cenário político francês.

Na mídia do país havia rumores de que Sarkozy pretendia voltar à vida política o quanto antes, seja através da ocupação do cargo de liderança do UMP ou por meio de uma nova disputa presidencial em 2017. Obviamente, posto que as investigações e os interrogatórios estão sendo realizados no presente, não se pode prever se ele realmente terá uma punição mais severa. Entretanto, a imagem de “bom mocinho” tão importante para um candidato à presidência parece ter ido por ralo abaixo.

Não é a primeira vez que Sarkozy se envolve em escândalos. O Caso Tapie, a vitória na eleição de 2007, os gastos com pesquisas de opinião em 2012, o envolvimento irregular com o a empresa de cosméticos L’Oreal e o financiamento da campanha do ex-premier Edouard Balladur fazem parte do currículo sujo do político. Se existem perdas por um lado, por outro, ocupado pelo atual presidente socialista François Hollande, parece haver ganhos. Hollande já mencionou em reunião semanal do Conselho de Ministros que seu governo preza por “independência da justiça” e “presunção de inocência”.

E quem tem a perder são os franceses. Em um cenário político em que Hollande só consegue ganhar os holofotes não por mérito próprio, mas sim por malfeitorias de seu adversário direto, o futuro de boas novas parece estar longe de se concretizar.


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Conversando com a Teoria

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Os jogos dos jogosusa-germany

A Copa de 2014 está divertida de assistir e cheia de zebras, mas nos deu uma oportunidade interessante de analisar um fenômeno das Relações Internacionais por causa do último jogo entre Portugal e EUA. O empate das equipes fez com que os EUA alcançassem a Alemanha em número de pontos, e como as equipes se enfrentam na última rodada, basta um empate entre as duas para que avancem à fase seguinte, deixando Portugal de fora mesmo que ganhe de goleada sua última partida.

A memória de resultados combinados em outros jogos da história (incluindo em copas do mundo) aterroriza os fãs do esporte, mas seria mesmo o caso? Ambos os times vão abrir mão da oportunidade de poder eliminar um adversário forte? Dá pra confiar no outro lado sem que alguém tente marcar um gol no final para azedar tudo?

Aqui entra a Teoria dos Jogos, de que já ouvimos falar algumas vezes no blog. Em algumas situações, atores racionais em uma situação de dependência mútua não podem ter certeza de que a cooperação vai acontecer, ou de que podem confiar na outra parte sem que haja alguma traição. No caso do jogo, temos uma situação parecida com o modelo de “assurance” (o tipo de jogo do qual saiu o famoso modelo do “stag hunt”), em que cada ator pode perseguir seu objetivo isoladamente ou cooperar para conseguir algo maior. Ênfase no “parecida” pois nesse caso se pressupõe uma cooperação, enquanto o jogo de futebol é claramente competitivo. Também se parece um pouco com o modelo do “dilema do prisioneiro”, mas sem a conotação negativa das resultados.

Claro que é uma visão bem simplificada, mas que exprime bem o dilema dos atores. Apesar de ir contra a moral, as regras e o espírito do jogo, as condições para que os atores cooperem (trapaceando) são ótimas nessa situação: é muito fácil forjar um empate. E mesmo assim não se pode garantir que isso vá acontecer – a própria condição de serem os atores “racionais” para que esse lógica de jogos funcione pode ser contestada de maneira bem clara quando pensamos em valores como honra e espírito esportivo. É hipotético, mas não consigo ver os norte-americanos aceitando tal coisa (para os alemães, infelizmente, há precedentes, e mesmo assim isso pode servir justamente de motivação para que NÃO cooperem).

Ora, a Copa do Mundo em si é um evento de Relações Internacionais dos mais significativos (32 seleções vistas por bilhões de pessoas mundo afora). Mas esse caso mostra algo que vai além do esporte. A chave disso tudo é o problema de não saber qual será a reação exata das outras partes. E essa lógica, que serve para um jogo de futebol, ajuda a explicar também, por exemplo, porque apesar das negociações de trégua e controle de fronteiras, Ucrânia e Rússia permanecem com tanques às portas uma da outra.


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Jogo de interesses

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Rússia
Enquanto os embates entre os países nos gramados pelo Brasil afora predominam nas manchetes internacionais, Rússia e Ucrânia ainda travam uma importante disputa política em que França e Alemanha se esforçam para assumir a mediação.

Desde o início das hostilidades no final do ano passado, intensificadas nos últimos meses, as centenas de mortos e feridos nos conflitos entre o governo ucraniano e os separatistas pró-Rússia revelam um cenário geopolítico complexo em que a recente anexação da Crimeia ao território russo demonstra que muitos são os interesses envolvidos na questão.

O recém-eleito presidente ucraniano Petro Poroshenko (à esquerda na foto), de perfil declaradamente pró-ocidental, parece motivado a cumprir uma de suas promessas eleitorais de restaurar a paz na região. Para este fim, ele anunciou essa semana seu plano de paz para o leste separatista, após a declaração de um cessar-fogo por parte do governo. A carência, entretanto, das necessárias negociações com todos os envolvidos fez com que os ataques permanecessem, deixando claro o caráter “unilateral” de uma iniciativa em que não foi negado o “direito de resposta” aos soldados ucranianos, deslegitimando a própria iniciativa…

O chamado “Plano A” de Poroshenko, por meio do qual a criação de uma zona de segurança “tampão” ao longo da fronteira dos dois países, livre de armas, representa um dos aspectos principais do processo de pacificação, o qual ecoa em concordância com o discurso da Rússia de impulso às negociações. Entretanto, na prática, com a situação ainda tensa, o governo russo anunciou ontem que seu exército se encontrava em estado de alerta, com possível deslocamento para a fronteira em resposta a manobras militares.

No “meio de campo”, os presidentes da França e da Alemanha, Hollande e Merkel, realizaram dois contatos essa semana com o presidente russo Putin, apelando para seu engajamento em prol do fim do conflito – e ameaçando a Rússia com a possibilidade de medidas da comunidade internacional em caso negativo.

Nestes contatos, ao pregar a necessidade de “entendimento político”, porém sem protagonizar de fato um processo de diálogo com os separatistas pró-Rússia, a estratégia de Putin confunde seus interlocutores europeus, porém apresenta claramente um incremento do poder russo na região e no mundo – deixando claro que esse jogo de interesses, com resultado incerto, ainda está longe de terminar.


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Há um ano...

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Tempo passando
Há um ano, vaias contra a presidenta Dilma marcaram o início de um jogo importante da Seleção Brasileira. Apesar de muito semelhante à situação vivida há uma semana na abertura da Copa do Mundo, o fato relatado em post do blog de um ano atrás se refere à abertura da Copa das Confederações, realizada também no Brasil, quando Dilma realizou seu discurso de abertura.

Sem questionar a suprema liberdade de expressão, vale apenas registrar que a repetição de um ato de grosseria (ainda que verbal) como esse apenas indica que os espaços reais em que a insatisfação e desejo de mudança deveriam ser mostrados continuam subaproveitados…

Outro fato interessante de um ano atrás foi a entrada no bloco europeu do nosso primeiro adversário na Copa do Mundo. Faz exatamente um ano que a Croácia teve sua aceitação oficial na União Europeia, após anos de negociação. O longo processo de adesão do país, o vigésimo oitavo membro do bloco, reflete o resultado de reformas políticas, econômicas e sociais que se passaram para esta vitória croata no processo de integração com a União Europeia.

E qual acontecimento mais marcante de um ano atrás que a onda de protestos e manifestações que se alastrou pelo Brasil afora? As imagens que já se tornaram históricas, e que registramos há um ano, hoje ainda representam um misto de sentimentos, críticas e expectativas na luta por um país melhor e cada dia menos desigual. Se todos se unem na torcida pela seleção nacional, por que não acreditar que é possível canalizar emoções e, principalmente, ações por mudanças no cenário político e social desse país tão diverso?

Esse é o “Há um ano…” na nossa Página Internacional, postando e relembrando os temas já comentados no blog!


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CIA nova no Twitter

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Twitter

E em meio a todo o debate sobre espionagem no meio virtual, eis que a agência de inteligência dos Estados Unidos acaba de inaugurar suas contas no Twitter e no Facebook. De forma irônica, a primeira publicação da CIA no twitter foi “Não podemos confirmar ou negar que este seja nosso primeiro tweet”, em alusão ao posicionamento ambíguo que é frequentemente assumido pela agência sobre seus processos internos.

Águia certeira disfarçada de pássaro azul, tal com a charge acima sugere? Parece que sim. Ao mesmo tempo em que “estreou” nas duas maiores redes sociais do mundo, o serviço secreto estadunidense anunciou a busca por ferramentas capazes de identificar sarcasmo (!) em publicações no Twitter.

Com mais de 500 mil seguidores em menos de dois dias na mencionada rede social, a rapidez com que a CIA está conquistando seguidores parece querer camuflar os maus lençóis em que o governo de Obama se encontra para dirimir os reflexos das críticas de espionagem nacionais e internacionais.

No próprio território do Tio Sam, as principais empresas de tecnologia se unem para incrementar os sistemas de segurança, com o objetivo de evitar a intrusão do governo a suas fontes de informação. Do lado de baixo do Equador, o Marco Civil da Internet no Brasil foi aprovado recentemente para inovar no sentido de promover a neutralidade da rede, bem como o direito à privacidade “on-line”, hoje fatalmente banalizado.

Já na Alemanha, que Snowden mostrou ser tão vulnerável à espionagem quanto o Brasil, foi anunciado essa semana que a justiça do país realizará investigações aprofundadas a respeito das escutas ao próprio telefone celular da líder Angela Merkel, em uma situação cujos custos diplomáticos já se mostram incalculáveis.

Em se tratando de redes sociais, a realidade demonstra que nunca a interatividade virtual alcançou níveis tão elevados como hoje, revelando, paradoxalmente, o potencial de alcance e seus riscos em uma disputa acirrada pelo poder cujas consequências se revelam pouco a pouco, mas cada dia mais: agora ainda com uma nova companhia no Twitter…


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O rei se cala

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Nesses últimos anos tivemos a chance de ver eventos bastante incomuns no cenário internacional, como um Papa deixando seu posto. Nesta semana, há quatro dias, vimos algo que parece coisa de livro de história, mas em pleno século XXI tivemos um rei abdicando em favor de seu filho, com a renúncia do rei Juan Carlos da Espanha.

Essa é uma imagem recorrente nos tempos pré Idade Contemporânea, quando guerras e brigas por sucessão dinástica eram comuns na Europa. Com a perda progressiva de poder das monarquias com os processos revolucionários e a estabilização da política europeia em modelos monárquicos parlamentaristas, no pós-guerra as famílias reais se tornam praticamente figuras decorativas, de alguma importância política, mas só. Por um lado, isso rende uma certa estabilidade, já que os soberanos acabam tendo uma vida à parte da política “dura” e não precisam se preocupar com repreensão pública a não ser que pisem feio na bola (e mesmo assim ainda temos figuras pitorescas como o Duque de Edimburgo Philip da Inglaterra e suas dezenas de citações infelizes).

O caso da Espanha, porém, tem um fator de peso – sendo um país assolado por sectarismo, a monarquia tem bem mais importância para a integridade do país. Na verdade, movimentos como o dos separatistas bascos não reconhecem o governo de Madri, e sim a Coroa. Por isso causa preocupação essa abdicação, pois mostra como a crise está afetando de modo cada vez mais profundo o país ibérico. A monarquia, antes uma das instituições mais respeitadas da Espanha, perdeu prestígio nos últimos anos por consequência direta da crise econômica. O rei Juan Carlos, muito famoso (e até querido) por essas bandas por ter mandado o finado Chavez se calar não goza mais de tanto carinho em seu próprio país, e não sem razão. Fausto e gastos despreocupados são traço de monarquias desde sempre, mas em um dos países mais endividados da Europa, as gastanças do rei, sua filha e genro escandalizaram a opinião pública ao ponto de ser necessária sua saída de cena. Não se pode deixar de associar essa medida extrema à saúde frágil do monarca (na verdade, a justificativa “oficial”), mas isso apenas reforça a tese de uma fragilidade ante a pressão e críticas.

Ao príncipe de Astúrias, agora rei, Felipe, sobre uma tarefa árdua – ser o representante da moral da nação no momento mais delicado de sua história recente, ao mesmo tempo em que deve articular habilmente, como seu pai, o complexo e instável xadrez da política doméstica espanhola.


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As eleições do Parlamento Europeu

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PE

Prezados leitores

Hoje, a Página Internacional traz uma novidade. Realizamos uma entrevista com Bruno Theodoro Luciano, mestre em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília (IREL-UnB) e fellow em Estudos Europeus da Fundação Konrad Adenauer no Centro de Relações Internacionais da Fundação Getúlio Vargas (FGV). A entrevista transcrita abaixo tem como tema central as eleições do Parlamento Europeu (PE) da União Europeia (UE) que começaram hoje, dia 22 de maio, e serão finalizadas no próximo domingo, dia 25. Aproximadamente 330 milhões de votantes dos 28 países membros do bloco foram convocados para escolher 751 deputados com mandatos de cinco anos. As eleições representam um novo momento em meio ao cenário de ceticismo na integração europeia e, por isso, a entrevista com Bruno Luciano serve para se compreender um pouco mais do cenário político daquela região. Boa leitura!

Cairo Junqueira (Página Internacional): Já há alguns meses a mídia vem falando sobre as atuais eleições para o Parlamento Europeu (PE). Alguns creditam tal importância ao peso que essa instituição tem na condução das bases legislativas da União Europeia (UE) e, obviamente, na tentativa de dirimir os reflexos advindos da crise de 2008. Como primeiro questionamento, qual o grau de impacto dessas eleições para o futuro do PE e da própria UE? Se possível, comente um pouco sobre o histórico da instituição, bem como sua função e composição atuais.

Bruno Theodoro Luciano: Embora a opinião pública e os cidadãos de modo geral tendam a marginalizar as eleições europeias, como pode ser visto no histórico de decrescente participação eleitoral (o voto não é obrigatório na maioria dos países da UE), o PE e a escolha de seus membros têm um papel essencial dentro do desenvolvimento da UE. Cada dia mais o PE tem se tornado uma instituição relevante na formulação e aprovação das políticas europeias. Houve uma evolução significativa das competências do PE na integração europeia nas últimas décadas. Enquanto em um primeiro momento este órgão foi criado como uma assembleia consultiva no contexto das Comunidades Europeias, com a aprovação do Tratado de Lisboa de 2007, o Parlamento vem se caracterizando como um colegislador no contexto das decisões europeias, responsabilizando-se em pé de igualdade pela aprovação das normas europeias com os Estados-membros da UE, reunidos no Conselho da UE.

Nas eleições de 2014, dois elementos importantes têm favorecido o aumento do impacto do pleito para os cidadãos da UE. Uma delas é o contexto de crise do euro e da própria integração europeia, que tem chamado a atenção da população para as decisões europeias, as quais para bem ou para mal demonstram afetar diretamente a vida dos europeus. O segundo elemento é a indicação dos grupos políticos europeus de candidatos à Presidência da Comissão Europeia, órgão executivo e burocrático da UE. Ambos têm o potencial de politizar e personalizar a disputa eleitoral a nível continental.

CJ (PI): Novamente, debatendo-se a questão da crise de 2008 e as altas taxas de desemprego e dívidas públicas presentes em países como Portugal, Grécia, Itália e Espanha, tem-se algumas previsões de que partidos de extrema-direita podem conseguir várias cadeiras no PE. Isso é possível? Qual seria o impacto para a UE se um número considerado de partidos nacionalistas e anti-imigração obtiver grande apoio dos eleitores?

BTL: Segundo as últimas pesquisas de opinião, os partidos de extrema direita, mas também de extrema esquerda, devem ser os grandes vencedores das eleições europeias em países como Reino Unido, França, Países Baixos e Grécia. Esse contexto de desemprego e de acentuada crise econômica em vários países europeus têm polarizado a disputa política e fortalecido a posição desses partidos, normalmente caracterizados como eurocéticos, por serem contrários ou pessimistas em relação ao processo de integração da Europa. A presença de parlamentares eurocéticos não é novidade na composição do PE, porém seu forte aumento pode produzir algumas mudanças no posicionamento interno dessa instituição. Em um parlamento mais eurocético ou radicalizado o apoio às iniciativas da Comissão Europeia, normalmente voltadas para maior integração e harmonização das políticas públicas no continente (incluindo temas sensíveis como imigração), será muito mais difícil de ser alcançado. Isso exigirá maior coesão e coalizão entre os partidos de centro-esquerda e direita, tradicionalmente os maiores grupos políticos europeus.

CJ (PI): O PE é considerado, por excelência, um forte braço de supranacionalidade na UE e canal de representação dos cidadãos para com o bloco regional. Entretanto, sabe-se que, na prática, existem inúmeros problemas e empecilhos para aprimorar essas funções. As eleições em cada país não ocorrem simultaneamente e acabam coincidindo com eleições nacionais, propriamente ditas. Além do mais, as características políticas dos Estados europeus são muito divergentes. Hoje, pode-se falar em países que alavancam o avanço do PE e outros que retardam seu desenvolvimento? Como é essa relação “estatal-regional”?

BTL: Ainda que existam princípios e data eleitorais próximos entre os países-membros, permanecem diferenças nas tradições eleitorais dos países, mesmo em uma eleição dita “europeia”. Não existe uma regulamentação única para as eleições. Cada Estado é responsável por organizar e realizar as eleições em seu país. Alguns Estados realizam eleições locais ou nacionais em conjunto às europeias. Em outros Estados, como Bélgica, Luxemburgo e Grécia, o voto é obrigatório, enquanto nos demais é facultativo. As listas partidárias e a indicação dos candidatos têm por base as coligações dos partidos nacionais e não europeus. Isso causa uma grande confusão no eleitorado, que vai para as urnas e vota a partir de motivações e preocupações políticas nacionais e não europeias. Embora exista a ideia de que Estados mais ou menos euro-otimistas, ressaltando o fato do histórico euroceticismo britânico e dinamarquês, acredito ser mais interessante observar a pluralidade de opiniões e posicionamentos dentro de cada país da UE, onde é possível encontrar setores mais ou menos favoráveis a integração. Quando um grupo político de posição diversa em relação a UE assume o poder em um Estado-chave na integração (como na França no governo Charles de Gaulle nos anos 1960), isso pode modificar ou suspender o desenvolvimento da UE.

CJ (PI): A última grande mudança institucional na UE ocorreu após a entrada em vigor do Tratado de Lisboa assinado ainda em 2007. O que esse documento trouxe de benéfico ao PE? Houve grandes mudanças se comparado, por exemplo, com o Tratado de Maastricht de 1992 considerado o maior marco normativo do bloco?

BTL: O Tratado de Lisboa avança substantivamente naquilo que era a grande novidade incluída pelo Tratado de Maastricht (Tratado que instituiu a UE): as competências do PE na aprovação legislativa europeia. Nos anos 1990, inaugura-se o procedimento de codecisão na UE. A partir desse processo legislativo, em determinadas matérias o PE pode decidir, alterar ou rejeitar o resultado das iniciativas legislativa da União, a revelia dos governos dos Estados-membros. A partir de Lisboa, esse procedimento passa a ser adotado em cerca de 90% das temáticas europeias, à exceção dos temas de política externa, segurança e defesa. Ele também passa a ser chamado de procedimento legislativo ordinário, indicando que esse modelo tenderá no futuro da integração a ser adotado em todos os assuntos europeus.

CJ (PI): De maneira geral, temos mais noção de como funcionam as corridas eleitorais em determinados países. Aqui no Brasil, por exemplo, vemos prévias apontando a vitória de Dilma Rousseff (PT) ou um possível segundo turno com Aécio Neves (PSDB). Ademais, nos EUA, embora existam vários partidos, normalmente a querela acontece entre republicanos e democratas. Como estão dispostos os partidos europeus para as presentes eleições parlamentares europeias? Existem favoritos?

BTL: Diferentemente dos EUA e do Brasil, países presidencialistas, a Europa tem uma forte tradição política parlamentarista. Os governantes são normalmente os líderes políticos dos partidos políticos com o maior número de votos. Um modelo próximo a esse passa a ser adotado para as eleições do PE a partir de 2014. Os grupos ou partidos políticos europeus (associação de partidos políticos nacionais com afinidades ideológicas) indicam um candidato à presidência da Comissão Europeia. Cinco partidos europeus indicaram candidatos à Comissão. Dois deles, o grupo socialista e o grupo democrata-cristão são os favoritos a conquistar o maior número de cadeiras o PE, liderados respectivamente pelo alemão Martin Schultz e o luxemburguês Jean-Claude Juncker. Espera-se que o candidato do grupo político vencedor assuma a presidência da Comissão, embora essa decisão não caiba às eleições europeias, mas sim aos Estados-membros que podem ou não indicar o candidato vencedor.

CJ (PI): Por fim, uma pergunta que relaciona a UE e o Mercosul. Parece que o acordo de livre comércio entre ambos os blocos está em vias de finalização, conforme indicou a 7ª Cúpula Brasil-União Europeia ocorrida em abril na cidade de Bruxelas, na Bélgica. E, além do mais, o Parlamento do Mercosul (Parlasul) também já foi criado, mas apresenta um nível de operacionalização bem inferior se comparado ao PE. Logo, as eleições parlamentares e o futuro do PE podem influenciar positivamente as relações intra-bloco e servir como relativo modelo ao Parlasul? Tendo em vista o peso político do Brasil no Mercosul, o que o nosso governo deve observar com os recentes pleitos no outro continente?

BTL: O desenvolvimento do PE e as eleições europeias serviram de modelo para a criação de uma estrutura parlamentar no âmbito do Mercosul, o Parlasul, que futuramente terá todos os seus representantes diretamente eleitos (o Paraguai já elegeu seus parlamentares por duas vezes). O resultado e o comportamento dos grupos políticos e dos cidadãos nas eleições europeias podem trazer grandes lições para as futuras eleições no Mercosul. Uma delas é de que, como parte do exercício democrático, será natural partidos ou candidatos céticos ou contrários ao aprofundamento do bloco. Também é importante ressaltar as dificuldades em mobilizar a população para participar ativamente das eleições, embora o voto seja obrigatório no caso mercosulino. O resultado das eleições do PE tem grandes consequências para a conclusão das negociações comerciais Mercosul-UE, já que os acordos de livre comércio devem ser aprovados pelo PE para sua internalização. Um PE mais protecionista e avesso à liberalização comercial prejudicaria, portanto, a assinatura desse acordo birregional negociado desde os anos 1990.

[A Página Internacional aproveita a oportunidade para agradecer a participação do Ms. Bruno Theodoro Luciano e dizer que aceita comentários, sugestões e críticas pelo e-mail [email protected]]


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O tal nacionalismo

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Ano de Copa, e pelas particularidades da organização desse ano, temos tudo para que o mundial de 2014 seja conturbado fora de campo, com protestos e até os mais exaltados que clamam para que não haja torneio. Razões e motivações à parte, um ponto interessante que vai aparecer em qualquer discussão, de redes sociais a barzinhos, é o tal do nacionalismo. Quem defende os protestos vai argumentar que ser verdadeiramente nacionalista nesse momento é lutar pelos direitos, contra a corrupção, custe o que custar, pelo bem do Brasil. Quem argumenta do lado oposto vai dizer que, de um modo mais tradicional, ser contra a Copa vai causar estragos econômicos (mais do que já houve) e arruinar a imagem do país. E aqueles mais despreocupados vão ligar esse problema mais ao sentimento de pertença ao grupo, com nacionalismo se igualando a torcer pela seleção e voltar pro trabalho na segunda-feira.

Todos esses pontos de vista (apesar de remontar também ao patriotismo, que é uma coisa um pouco diferente) mostram um problema importante do mundo atual, que é a noção de nacionalismo e identidade. Como tal, é intersubjetivo – o que se entende como nacionalismo é um conceito construído, lá no século XIX, e hoje perde um pouco de sentido em alguns casos dependendo de como cada grupo entende o problema. É só ver a crise da Crimeia – são ucranianos no papel, na lei, mas em termos de sentimento nacional estão mais apegados ao lado da etnia russa. Com isso, os crimeanos abrem mão da nacionalidade ucraniana (é um pouco mais complicado, já que alguns podem optar por continuarem ucranianos, mas vou me dar ao luxo de generalizar um pouco essa explicação) para se tornaram russos. Se fosse realmente um conceito tão fundamental, as pessoas não trocariam tão facilmente de nacionalidade, o que demonstra brevemente que o peso dessa ideia depende muito de cada caso.

Existem até mesmo constituições nacionais que endossam esse caráter de pertencimento ao grupo, mas quem pode impedir o indivíduo de não querer ser parte disso? Um exemplo vem da notícia pitoresca das últimas semanas de que o governo britânico está promovendo uma campanha (com apoio da Scotland Yard e grupos de direitos humanos) pedindo que esposas e irmãs de possíveis ativistas islâmicos denunciem o fato para que o governo impeça que saiam do país e se juntem ao combate na guerra civil Síria. Existe uma grande fonte de ironia em tudo isso – desde o começo, países ocidentais vêm apoiando a oposição síria, e parte dela são grupos radicais, muitos ligados a extremistas islâmicos… e antiocidentais. E boa parte de seus combatentes são pessoas convertidas ou nascidas em países como a França e o Reino Unido. Por mais que tenham a nacionalidade de países europeus, a identidade religiosa fala mais alto, ao ponto de abandonarem tudo para se juntarem a uma luta de extrema letalidade e potencialmente suicida.

Resumo da ópera: pensar em nacionalismo hoje depende muito da conveniência de quem discute. Pode ser um elemento de legitimação ou garantia do status quo, bem como para a derrubada do mesmo. Pode ser uma ideia aproveitada para manipular contingentes populacionais. E pode não ter absolutamente peso ou valor nenhum. Pois o nacionalismo é apenas um aspecto da identidade, seja coletiva ou individual, e no mundo de hoje tem muito mais concorrência para determinar qual seja o valor fundamental para cada indivíduo.


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Sobre monarcas e republicanos…

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Monarquia
A data de 21 de abril apresenta uma coincidência interessante envolvendo Brasil e Reino Unido: no dia em que os brasileiros relembram, inclusive com um feriado nacional, a morte do republicano Tiradentes, mártir na luta contra a monarquia portuguesa, os ingleses, por sua vez, comemoram o nascimento da Rainha Elizabeth II, soberana no país desde 1952.

A mesma forma de governo combatida pelos inconfidentes mineiros no Brasil e que levou ao enforcamento e esquartejamento (!) de Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, possui raízes históricas no Reino Unido, sendo a monarquia valorizada pela população e a rainha uma celebridade (inter)nacional.

Neste dia 22 de abril de 2014, a Rainha celebra seu aniversário de 88 anos com o lançamento de um novo retrato oficial (foto) destinado à estratégia de marketing para a promoção internacional do país. Já há 222 anos relembra-se no Brasil a memória do mártir Tiradentes, tendo sua sentença sido executada em praça pública em 1792.

Ícones em suas realidades, fato é que ambos fazem/fizeram parte da história de seus países e que a monarquia é o elemento que os une na análise: enquanto Elizabeth já nasceu dentro do sistema e cedo se tornou responsável por sua continuidade, o republicano Tiradentes se tornou nacionalmente conhecido por combatê-lo, lutando contra os impostos e as imposições de Portugal, especialmente na província mineira.

Se os ingleses não se imaginam sem sua Rainha e saem às ruas para homenageá-la em seu aniversário hoje, os brasileiros relembram, ao mesmo tempo, o momento histórico da Inconfidência Mineira e o luto de seu protagonista, fazendo com que a data de 21 de abril seja marcante tanto para monarcas quanto para republicanos…


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