Tempos modernos?

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Século XXI. (Pós-)Modernidade. Liberdade de expressão. Construção de novos paradigmas… Tais idéias remontam diretamente ao contexto político e social em que vivem as Relações Internacionais atualmente. Vincular, contudo, a sexualidade de militares à responsabilidade pelo massacre de milhares de inocentes certamente não se enquadra nessa visão.

Pois esta foi exatamente a polêmica dos últimos dias. Com o intuito de argumentar contra a proposta do presidente dos Estados Unidos de garantir que militares gays assumidos possam servir nas Forças Armadas do país, um importante general americano fez declarações de cunho pouco amistoso/diplomático/razoável em relação a militares holandeses que participaram da Guerra da Bósnia (1992-95).

Em 1995, sabe-se que forças servo-bósnias avançaram sobre a cidade de Srebrenica e promoveram o massacre de mais de 8 mil muçulmanos (foto), segundo estatísticas gerais. Este acontecimento, maior massacre europeu desde a II Guerra Mundial, foi inclusive caracterizado como genocídio pela Corte Internacional de Justiça.

Isto posto, o supracitado general John Sheehan, comandante da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) à época do massacre, declarou perante o Senado norte-americano esta semana que o insucesso na proteção de Srebrenica tem relação direta com o fato de a liderança militar no local ser composta por soldados holandeses assumidamente homossexuais, mostrando-se, pois, contrário a qualquer medida de “liberalização das Forças Armadas”. (Leia mais sobre as declarações de Sheehan aqui e aqui.)

A repercussão destas declarações foram, é claro, muito mal recebidas pela Holanda, tendo que seus representantes afirmado abertamente que os comentários são “ridículos” e “tirados do mundo da ficção”. Exaltações à parte, realmente as afirmações denotam um nível de preconceito que destoa de nossa realidade social pós-moderna. Realidade esta que congrega (ou, ao menos, visa congregar) as diferentes percepções de mundo pelo incentivo ao diálogo e à compreensão mútua.

Espera-se, portanto, que os atores das Relações Internacionais, em que se enquadram os próprios indivíduos, possam agir de acordo com esta perspectiva especialmente diante de situações em que a vida humana está envolvida.


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Teatro de Guerra

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Orson Welles ficaria orgulhoso. No último fim de semana, a Geórgia protagonizou uma re-encenação lamentável da famosa transmissão radiofônica do mitológico diretor norte-americano, na década de 30. O excepcional neste caso foi a abrangência do fato – se a transmissão de Welles estava limitada às ondas de rádio em algumas cidades, o “documentário” georgiano foi visto pela televisão no país todo. Mas, em vez de descrever uma suposta invasão alienígena baseada na clássica obra de H. G. Wells, o que se viu nas imagens do canal Imedi foram tanques de guerra russos rumando para a capital Tbilisi e a notícia do assassinato do presidente Mikheil Saakashvili, sem qualquer identificação durante a transmissão de que se tratasse de uma obra ficcional – apenas antes do início um aviso de que se tratava de uma “simulação”. Bem como na traquinagem de Wells, o pânico se instaurou imediatamente, mas em uma escala absurdamente maior. As linhas telefônicas do país acabaram emudecendo pelo número recorde de chamadas para serviços de emergência.

Apesar dos pedidos de desculpa pela emissora, o estrago já estava feito. Se uma invasão alienígena nunca ocorreu (ao menos até agora…), há menos de três anos tanques russos atravessavam as ruas da Geórgia, uma memória ainda recente naquele país. E essa transmissão veio apenas a atrapalhar o complicado processo de pacificação da região. Condenado por autoridades russas e norte-americanas e pela oposição, o programa faz ressurgir o pavor nos georgianos, justamente no momento em que as tensas relações diplomáticas entre os países rumam para um aparente entendimento. Recentemente, houve a reabertura da fronteira terrestre com a Rússia, após três anos, no único ponto em que os limites territoriais não atravessam as províncias separatistas da Ossétia do Sul e Abkházia.

Qual teria sido a razão para esta insensatez? A oposição culpa o próprio governo. O programa tinha sugestivas premissas como “isso poderia acontecer um dia” e “o pior dia da história da Geórgia”. Aparentemente, condiz com uma resposta da situação (o presidente da emissora é aliado de Saakashvili) à arriscada busca pelos opositores de fortalecer os laços com Moscou em visitas recentes de cunho “político”, principalmente no que tange ao tema das províncias separatistas.

Além do absurdo da situação, em que uma farsa é exibida em rede nacional e com a aparente complacência do governo (que nega participação e até criticou o fato, mas cujo presidente teria afirmado que o desagradável filme estria muito próximo de uma “realidade possível”), o caso citado mostra como a política pode ser complexa em um ambiente de democracia menos consolidada. Resta ainda saber o que vai tocar à Rússia, que anda buscando soluções com menos força e mais conversa (como na Ucrânia), e se a reação ao evento pode desencadear o reforço das suspeitas contra a Rússia ou se vai ser superada pelo povo georgiano no indispensável processo de pacificação da região.


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Denúncia internacional

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Nos últimos dias, um juiz espanhol lançou uma discussão intrigante no cenário internacional envolvendo (diretamente) três países: Colômbia, Espanha e Venezuela. O diálogo político sobre o assunto se destacou entre José Luis Rodríguez Zapatero e Hugo Chávez, chefes de governo da Espanha e da Venezuela, respectivamente (fotos).

A denúncia do juiz da Audiência Nacional espanhola Eloy Velasco se refere a uma possível cooperação por parte da Venezuela com relação a uma aliança entre a ETA (Euzkadi Ta Azkatasuna, sigla traduzida como ‘Pátria basca e liberdade’) e as Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia), grupos revolucionários da Espanha e da Colômbia. Este juiz processou integrantes dos dois grupos por terem selado uma aliança para realizar atentados na Espanha contra altos funcionários da Colômbia, como o próprio presidente Álvaro Uribe (segundo o juiz, os grupos teriam intensificado relações a partir de 2000, compartilhando planos e treinamentos sobre manuseio de explosivos). Neste intuito, haveria, pois, indícios de cooperação por parte da Venezuela no processo.

Após a denúncia, Zapatero, chefe de governo espanhol, exigiu informações sobre o assunto por parte de Chávez, gerando um clima de discussões durante a semana. O governo venezuelano, é claro, negou qualquer envolvimento do país nas questões expostas e, inclusive, argumentou que se trata de uma denúncia “orquestrada” entre o juiz espanhol e os EUA.

Hoje, ainda, Espanha e Venezuela reafirmaram – por meio de um comunicado conjunto – que possuem o desejo de aprofundar relações gerais, incluindo “a luta contra o terrorismo”, esclarecendo, em termos diplomáticos, a situação desconfortável que existiu nos últimos dias. Os fatos ainda estão sendo apurados e a denúncia devidamente compreendida, porém seu impacto é notável.

A abrangência das duas organizações – ETA e Farc – em termos políticos (e mesmo militares) é grande e suas características de atuação revolucionária certamente preocupam o mundo todo, ainda mais quando a possibilidade de envolvimento de Chavéz é cogitada, como no caso exposto. Sabe-se que alianças em Relações Internacionais constituem um aspecto chave para o sucesso das intenções políticas e sociais, sejam elas quais forem.

Como o fato se encontra no escopo de análise de Política Internacional, o posicionamento dos demais Estados das Relações Internacionais é esperado. Os EUA, apenas para ilustrar, chegaram a afirmar que as suspeitas levantadas pelo juiz espanhol “não surpreendem”, aproveitando a oportunidade para cobrar ações mais efetivas do governo da Venezuela contra a ameaçadora ação regional das Forças Colombianas…

Bom, nada como os mais variados acontecimentos em Relações Internacionais para que se ilustre a complexa rede de relações políticas, econômicas e sociais em que estamos envolvidos neste século, não é mesmo? Fica, então, a expectativa do desenrolar de fatos que pode advir da denúncia internacional suscitada pelo juiz espanhol.


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Verdades gregas

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Segundo Sófocles, poeta trágico grego (495-406 a.C.), “a verdade é sempre um argumento mais forte”. A busca de algumas verdades envolvendo a Grécia e a União Européia tem se mostrado em alta nos últimos dias. É preciso, então, refletir acerca da atual situação grega no cenário internacional, bem como de sua polêmica no que tange a Zona do Euro (motivo de preocupação ao primeiro-ministro grego, George Papandreou – foto acima).

Com a bolha do setor imobiliário em 2007, sabe-se que o mundo inteiro enfrentou dificuldades financeiras. A “crise global” assolou, portanto, fortemente também a Grécia, país que vem encarando desde então enormes problemas orçamentários. Para se ter idéia, a dívida grega acumulada (que vence nos próximos meses) supera os 16 bilhões de euros e preocupa investidores em geral.

O cerco se aperta em torno da Grécia para sua recuperação econômica, e o apoio do bloco em prol da estabilidade da Zona do Euro tem sido discutido nas últimas semanas. Contudo, a verdade é que o euro está ferido. O grande endividamento da Grécia (e de países como Portugal e Espanha) desafia a força da moeda européia face ao dólar no mundo.

E se não bastasse a complexa situação financeira em que se encontra a Grécia, o New York Times lançou ao mundo essa semana um questionamento sobre a verdade envolvendo a própria entrada do país na Zona do Euro no ano de 2001.

Segundo fontes do jornal, a Goldman Sachs e outros bancos de investimento norte-americanos teriam participado de um esquema de acordos financeiros com o governo grego naquele ano para mascarar o real estado das finanças do país (que seria inadequado às fortes exigências européias para se fazer parte da Zona do Euro). A Grécia nega qualquer tipo de ‘golpe’ neste sentido, porém, o buraco parece ser mais fundo do que parece e mais areia deve ser lançada ao ar nos próximos dias.

No momento, espera-se que a transparência seja o objetivo das partes envolvidas. O mundo, especialmente europeu (com destaque para França e Alemanha), exige explicações sobre o assunto por parte do governo grego e das agências financeiras norte-americanas. Políticos alemães chegam, inclusive, a afirmar que a própria entrada da Grécia na Zona do Euro foi um erro. Será?

Verdadeiro mesmo é o homérico desafio de manter uma moeda única forte e estável em países com soberania reconhecida e características fiscais diferentes, especialmente em tempos de crise financeira e polêmicas fiscais. No caso analisado, os personagens envolvidos são grandes, o cenário complexo e as conseqüências das ações imprevisíveis. Parece até tragédia grega. Aguardemos, pois, seu desfecho.


Categorias: Economia, Europa


Cada um por si

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No dia 2 de fevereiro houve a assinatura de um “tratado preliminar” ente EUA e Rússia acerca da diminuição de seus arsenais nucleares, além de monitoramento conjunto de testes balísticos e inspeções de fábricas. Ao retomar um tema relativamente abandonado há vinte anos e aprofundar os termos do caduco Start 1 (antigo plano de função semelhante que expirou ano passado), demonstra uma tendência mundial no tema do regime internacional de controle e não-proliferação de armas nucleares.

Quando se fala de não-proliferação, logo se recorda do TNP, tão em voga nos últimos tempos graças a discussões acerca de países amistosos como o Irã e a Coréia do Norte. O referido tratado surgiu no auge da Guerra Fria e criou um clube de nações autorizadas e possuir arsenais nucleares: sem sua anuência, não poderia haver transferência ou desenvolvimento de aparatos nucleares, exceto para fins pacíficos. Tanto que os países que desenvolveram armas nucleares por conta própria, admitidamente ou não (Índia, Israel e Paquistão) não são signatários do dito cujo.

Apesar de seus dispositivos serem adequados à era bipolar, hoje o TNP é um instrumento esvaziado. Esse é um problema que não está relacionado apenas a países problemáticos que não aderiram ao tratado em si, mas á própria conjuntura pós-Guerra Fria. Se durante as convenções de revisão até 2000 ocorreram avanços notáveis na área da multilateralização dos debates e maior participação internacional no tema, há o problema da falta de um organismo internacional ligado ao TNP, que consiga regular de maneira aceite e definitiva as questões do tratado como o faziam na Guerra Fria as superpotências. É comum dizer-se que o TNP está em “crise institucional” desde a conferência de revisão em 2005, com falta de comprometimento dos países em cumprir os termos que lhes cabem.

A principal razão disso é o conservadorismo dos países nucleares, que optaram por conversações e acordos bilaterais em detrimento dos compromissos de âmbito mundial. Essa é a tendência mundial referida no acordo entre Rússia e EUA: tendo-se em vista a ressalva que se relaciona a um dos grandes mecanismos das negociações de desmobilização nuclear da Guerra Fria, é representante de uma prática comum aos países nessa área. Quando falta um mecanismo global eficiente, cabe aos Estados atuar na medida do possível para lidar com o tema nos termos em que consideram viáveis.

A negociações bilaterais não são necessariamente uma coisa ruim: tenha-se em vista o tratado de desnuclearização entre Brasil e Argentina nos anos 80, que além de pacificar incisivamente a América do Sul, região hoje considerada menos propensa a conflitos internacionais no mundo, foi o estopim da cooperação que engendrou o Mercosul. Entretanto, se mostra como um empecilho à atuação internacional, em que esvazia a importância do TNP, redundando nos problemas conhecidos de abrir brechas na fiscalização, a possibilidade de desenvolvimento de tecnologia nuclear para fins não-pacíficos e facilitar o repasse de armamentos táticos a Estados ou grupos.

Por tudo isso há grande expectativa acerca da conferência de revisão de 2010, a ser realizada de 3 a 28 de maio em Nova Iorque. Nesta se espera que os países encontrem mais coesão na mesa de negociações e retomem as linhas de ação multilateral com o fim de impor uma pressão mais organizada e coesa contra os infratores desse dispositivo, como Irã e Coréia do Norte. Mas, até lá, e mesmo enquanto não houver uma consloidação institucional da regulação do tema, prevalecerá a noção do “cada um por si” no cenário da não-proliferação nuclear.


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Batata quente

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Quem não te conhece que te compre!

Quando eu era criança, havia uma brincadeira chamada batata quente. Era basicamente a história de uma batata (representada por um objeto qualquer, como uma pedra) que passava pelas mãos de várias crianças até que “queimasse” na mão de alguém.

E não é que a batata quente chegou à Brasilia? E no caso, atende pelo nome de Cesare Battisti, o famigerado italiano que cometeu / não cometeu crimes de sangue na Itália. Polêmicas à parte, dada benvolência do nosso ministro da justiça, o italiano recebeu refúgio político no Brasil.

Detalhe: Tarso Genro converteu-se ao humanismo, talvez, após as críticas recebidas pela extradição daqueles cubanos que queriam refúgio no Brasil… Não imagino que eles foram recebidos com flores pelo Fidel Castro.

O ministro, tal como uma criança pega uma pedra e a transforma na batata, pegou o caso do italiano que estava escondido das autoridades italianas aqui pelos trópicos e o transformou num caso de repercusão mundial. Não podia ter Tarso Genro simplesmente concedido algum tipo de refúgio ao Battisti sem ter alarmado que ele estava sendo perseguido justamente pelo governo da Itália – governo esse eleito democraticamente?

Não, claro. É muito mais legal assumir o papel de integrante da Liga da Justiça do Sul e desafiar o norte desenvolvido, rico e opressor. Afinal, quando os perseguidos são os aliados cubanos, deportação neles!

O ministro criou a batata. E quem botou fogo nela foi a mídia. E com razão, afinal, como não se falar do caso do “refúgio” dado a um indívido condenado por crimes comuns, mesmo com orientação contrária do Conselho Nacional de Refugiados e depois do tal caso dos cubanos? É claro que também teve a mãozinha dos italianos, da oposição, enfim, mas aí entramos no campo das conspirações…

Aí a batata passou para as mãos do Supremo Tribunal Federal, o guardião da nossa Carta Magna. E os nobres ministros arrumaram um jeito muito brasileiro, uma verdadeira gambiarra jurídica para passar a batata quente adiante: cabe ao presidente Lula decidir, mesmo com a decisão de que o refúgio é ilegal.

Ora, mas para que serve, então, o Supremo? Teoricamente, se a instância máxima da justiça brasileira decide que uma decisão do governo é ilegal, como pode o governo, em seguida, fazer o contrário, e ainda com a benção desse mesmo organismo? Não faz sentido nenhum.

E se um cidadão comum decide não cumprir a decisão dada pelo STF? O que faz com que o presidente da República possa ter essa autonomia? E depois os magistrados reclamam que o Executivo vive a passar por cima da isonomia dos poderes assumindo atribuições do judiciário…

E a batata passou para as mãos do Lula. E agora, Lula? Dar o refúgio ao homem e seguir com o descurso de adolescente rebelde que quer mostrar independência ou cumprir a decisão do Supremo?

Na brincadeira original, uma criança vendada, que não sabia nas mãos de quem estava o tubérculo, gritava: “queimou!” e aí o infeliz que estivesse com ele nas mãos perdia o jogo.

Mas em Brasília é diferente: em mais um jeitinho, o governo tende a arrumar uma desculpa humanitária para deixar o Battisti aqui, sem a condição de refugiado político, não se queimando nem um lado, nem outro. Ou seja, alguém não vendado, que sabe muito bem na mão de quem está a batata e não querendo que ele se queime, grita: “Esfriou!”.

E aí o Lula não se queima, o STF não se queima, o ministro não se queima, a “democracia” segue normalmente, o caso deixa de vender papel, a mídia deixa de falar sobre o assunto e o Brasil segue seu futuro… Com ou sem batatas quentes.


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As Armas e os Barões Assinalados na América do Sul

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[Pessoal, este post é do Giovanni Okado. Era para ser postado ontem, mas tanto eu quanto ele estávamos sem internet. Como ele ainda está sem, posto para ele]

Antes, clique aqui, aqui e aqui.

Há cerca de cinco séculos, a fabulosa obra Os Lusíadas, de Camões, era marcada pelas armas e os barões assinalados na ocidental praia lusitana. Hoje, pode-se trocar apenas o lugar do verso; as armas e os barões seguem assinalados. Estamos falando da América do Sul e da mais nova moda no continente: a corrida armamentista. Entre os anos de 2003 e 2008, estima-se que os orçamentos militares dos países sul-americanos aumentaram 91%. Duas considerações sobre esse dado: a) não é uma informação completamente atípica, tendo em vista o estado decadente de muitos exércitos do continente; b) o processo não se deu de maneira equânime nos países da região.

O termo “corrida armamentista” diz respeito à aquisição de armas. Quem o faz? Os barões, ou melhor, os presidentes e os militares e ministros mais próximos a eles. É do interesse da sociedade? Certamente não. Num continente onde os índices de pobreza e desigualdades sociais são alarmantes e prevalece a lúgubre herança ditatorial, as armas não parecem resolver os problemas. Ou resolvem? Há um enorme hiato entre a percepção da importância da Defesa por parte da sociedade e os desdobramentos que o assunto traz consigo. Assim como também há interesses ocultos nos esforços empreendidos nessa área.

Afinal de contas, defender o que e se defender de quem? A Venezuela, é claro, se defende do império de Satã (dos Estados Unidos). E defende as suas reservas de petróleo. Hugo Chávez declarou que o país tem o legítimo direito à Defesa e, por isso, selou parceria com a Rússia no último domingo. Foi acordado um empréstimo de US$ 2,2 bilhões destinado à compra de 92 tanques e modernos sistemas de mísseis antiaéreos. Aliás, há tempos que ambos os países sustentam acordos militares, os quais incluíram a compra de aviões, fuzis e helicópteros.

O Brasil também entrou na dança. Durante a visita do presidente da França, Nicolas Sarkozy, Lula acordou a compra de armamentos franceses no valor inicial de 8,7 bilhões de euro. Pelo acordo, o Brasil adquirirá 36 aviões de combate Rafale, 50 helicópteros e construirá – juntamente com a França – quatro submarinos convencionais e um de propulsão nuclear. Tal parceira acabou descontentando os Estados Unidos, que também tem uma proposta para o governo brasileiro, e o Ministro da Defesa, Nelson Jobim, acabou admitindo que nada está completamente definido quanto à aquisição de armamentos.

E os demais países? Bem, o Chile é o país que mantém o maior orçamento militar (3,7% do PIB em 2006) e investe pesadamente na modernização de suas Forças Armadas, embora não esteja em conflito. Por outro lado, Colômbia, que luta internamente contra o narcotráfico, é forçada a investir em material bélico. Já a Argentina não adquire armamentos desde 1994. E o Uruguai reclama. Tabaré Vázquez refuta veementemente esta busca por armas.

E os interesses implícitos nas iniciativas de aquisição de armamentos? Ora, a Venezuela nada mais quer do que a implementação do projeto bolivariano de Chávez na América do Sul. O Brasil, além de proteger o pré-sal, visa a um assento permanente no Conselho de Segurança e, para muitos analistas, firmar-se como uma potência regional. O Chile, por sua vez, aproveita as suas reservas de cobre.

É evidente que todos exaltam a necessidade da Defesa como forma de cuidar do próprio território e manter a soberania. Mas é inegável que a Defesa não é um fim em si mesmo. É também uma possibilidade de projeção econômica e de aspirações políticas. Mais do que isso, é um jogo entre barões do século XXI e uma sociedade do século XV, excluída dos versos heróicos e de palavras orgulhosas, que narram a epopéia de poucos.


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Contrato com o Diabo

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Em 2001, Abdelbaset Ali Mohmed Al Megrahi foi condenado à prisão perpétua por ter colaborado em um atentado terrorista em um voo da PanAm que matou 270 pessoas logo após a decolagem, acima da cidade de Lockerbie, Ecócia no ano de 1988. Após ser diagnosticado com câncer terminal de próstata foi liberado pelo governo escocês por misercórdia e retornou a Líbia para passar seus prováveis 3 últimos meses de vida.

E aí? E aí que:

“Festa que poderia ter tido como tema: ‘Ditadura: o caminho do futuro’ “


1. O governo da Líbia está longe de ser democrático, sendo que o atual “Líder” do país, Coronel Muammar al-Gaddafi comanda o país de 1969 após um golpe de estado que foi, digamos, “tumultuado”.

2- O governo libanês oprime minorias e não dá muita atenção pra desigualdades sociais ou problemas nos países vizinhos

3- Quando Megrahi retornou à Líbia, foi recebido com festa e etc.

Tudo isso mostra como a condução da Política Externa do Reino Unido é marcada por decisões estranhas, em momentos praticamente provendo legitimidade à governos corruptos como o Libanês e em outros lutando para trazer a democracia a força no Iraque. Não faz muito sentido essa diferença de posicionamento, certo? Tem que ter algo em comum entre os dois países, tem que ter…

Ah sim, tem isso: “O ministro (de Relações Exteriores do Reino Unido) também rebateu as acusações do jornal “Sunday Times” de que Londres aceitou incluir o líbio em um acordo de transferência de presos com Trípoli em troca de um contrato potencialmente milionário entre a companhia britânica BP e a Líbia.” – Folha Online

Agora tá explicado.


Categorias: Europa


A Hipocrisia Midiática

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Amiguinhos, vou me permitir pegar carona na deixa do Ivan e da Andrea sobre o que e como a mídia divulga e/ou omite notícias, e comentar uma que vi no site da UOL no meio da semana.

A notícia, veiculada na seção Estilo-Moda do citado site, dizia respeito a uma intervenção da polícia parisiense que proibiu uma mulher islâmica de nadar em uma piscina pública, trajando um “burquíni”(mistura de burca com biquíni). A inusitada peça de vestuário permite conciliar lazer e rígidas regras de recato impostas às mulheres que professam essa religião. A alegação para a proibição foi a de que não é permitido nadar com roupas que não sejam próprias para essa finalidade (leia toda a notícia aqui).

Não é a primeira vez que temos notícias do Estado francês interferindo na liberdade de expressão de seus cidadãos. Há alguns anos, o governo proibiu que alunas usassem véu nas escolas. A alegação dessa vez era de que a escola, por ser uma instituição laica, não toleraria manifestações religiosas de qualquer natureza.

Não é à toa que os imigrantes que residem na França, vez ou outra, se manifestam de forma exageradamente violenta, queimando carros nos subúrbios de Paris. Além de não conseguirem emprego com salários dignos, ainda são impedidos de se manifestarem pacífica e livremente.

Logicamente que a notícia de conflitos urbanos em países da Europa, berço da civilização, chama mais a atenção e vende mais jornal do que o cerceamento da liberdade individual. Isso sem falar que o fator político foi totalmente apagando quando se colocou essa notícia na seção de moda, apesar da menção feita ao presidente Sarkozy. Convenhamos: quem iria esperar ler uma notícia dessas em meio a tantas dicas de como se vestir bem e ao glamour das passarelas?!

Ficam aqui algumas perguntas que eu gostaria que os amigos leitores ajudassem a responder, para quem sabe, podermos dar a relevância que o assunto merece:

1) Até que ponto um Estado pode determinar o que é e o que não é bem vindo em seu território, quando se trata da cultura de outros povos?

2) A proibição do uso de trajes religiosos em um Estado dito secular e de tradição democrática não seria um atentado à liberdade de expressão e por consequência uma atitude autoritária disfarçada?

3) O presidente francês alega que a burca não é um traje religioso, mas sim um sinal de opressão e subserviência da mulher. Isso não é uma questão subjetiva? Será que para as mulheres islâmicas isso não é natural?

e por último,

4) Quão ético é a imposição de valores de Estados ditos desenvolvidos sobre outros ditos subdesenvolvidos? Aqui podemos usar como parâmetro um outro exemplo na tentativa de elucidadar a questão que é a imposição da democracia pelos EUA a países do Oriente Médio.

É isso, amiguinhos! Espero que possamos trocar idéias e esclarecer essas questões que a mim me parecem extremamente complexas e importantes.

Até mais!


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Lixeira do Mundo?

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Vocês sabiam que nós importamos lixo doméstico da Inglaterra? Pois é. A que ponto chegamos. Temos uma quadrilha que facilita a entrada de lixo de países desenvolvidos da Europa em nosso país. E a justificativa desses países para realizarem essa exportação é meramente econômica: é mais barato mandar lixo clandestinamente para o Brasil do que investir em reciclagem no próprio país, mesmo que sejam pegos e tenham que repatriar o lixo e pagar multa como aconteceu no início dessa semana.

Cerca de 1.400 toneladas de resíduos doméstico como fraldas, seringas, preservativos, etc. foram apreendidos nos portos de Santos, Rio Grande e na alfândega de Caxias do Sul. Vieram como polímero de etileno usado como isolante termico na produção de plástico.

Fico me perguntando a quanto tempo isso acontece… e será que vem só lixo doméstico? Já não basta os problemas que enfrentamos aqui, com os lixões a céu aberto das grandes cidades e o impacto ambiental que isso causa? É claro que ficar monitorando o grau de desmatamento da Amazonia é mais limpo e mais chique, mas as consequências sanitárias da destinação do lixo são tão sérias quanto o aquecimento global.

Além disso, se nós temos conseguido, mesmo que a duras penas, conscientizar nossa população e criar usinas de reciclagem que garantem emprego para muitas famílias carentes, por que será que eles não conseguem? Se são tão desenvolvidos. Talvez falte mão-de-obra carente para tocar o negócio. Será que eles não querem importar alguns trabalhadores informais brasileiros? Tenho certeza que causariam um impacto ambiental positivo.



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