Em busca de um dote

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Há uma prática que sempre esteve muito arraigada na sociedade europeia. Herança dos tempos de expansão do império romano, a prática do dote consistia na doação à noiva, em período próximo ao casamento, de uma contribuição em bens ou em moeda, para que o casal iniciasse a vida a dois bem estabelecido e diminuísse os possíveis encargos.

Até hoje observa-se que há heranças de práticas sociais que não perdemos jamais. A França e a Inglaterra o têm demonstrado muito bem. Países que se encontram imersos em período de crise econômica que, ainda assola o mundo e a União Europeia, foram obrigados a cortar gastos.

E, logo, parte dessa dedução orçamentária afetaria o campo da defesa. França tem buscado desinflar os gastos estatais pela reforma da previdência, ainda assim, as opções são escassas. A Inglaterra está inserida nesse mesmo cenário de demanda de cortes. As opções eram escassas. Ou reduzem-se os gastos em outros setores, como a defesa nacional, ou investe-se em algo diferente. Um casamento talvez?

Sim, literalmente, uma espécie de matrimônio na área de defesa são os novos acordos militares e nucleares entre França e Inglaterra. Pela primeira vez, vê-se a criação de forças armadas bilaterais de atuação conjunta e uma cooperação sem precedentes na área nuclear, com direito a pesquisas e até áreas de testes de bombas unificada. O dote desse casamento seria uma melhor situação econômica, reduções de gastos de ambos os lados, e, de quebra, avanços mais rápidos na área da defesa, resultados de pesquisa conjunta.

O dote dessa vez não é dinheiro, mas economiza dinheiro e gera mais tecnologia, o que, na situação de França e Inglaterra, é muito positivo.Todavia, como em qualquer casamento, nem tudo são flores, e é preciso analisar algumas das consequências dessa ação inusitada.

Primeiramente, é importante questionar em que medida essa ação não representa uma oposição à atuação da OTAN, como força militar poderosa e influente na região. A organização que perdeu o antagonista, o Pacto de Varsóvia, com o declínio da tensão bipolar, apesar de aparentemente disfuncional, mantém bases, exércitos e influência na região toda. Assim, uma união de duas, das três potências nucleares do tratado, tem um valor bem significativo. Qual efeito que isso geraria em âmbito dos membros da OTAN?

Há de se considerar, ainda, a rejeição de supostas forças armadas europeias por Nicolas Sarcozy e David Cameron, o que, pode apontar para uma interessante tendência de pequenas alianças bilaterais em detrimento da elaboração de um arcabouço de defesa mais amplo na UE.

Esse casamento, como qualquer outro, gera dúvidas, incertezas e questionamentos. Apesar de o dote permitir aos dois países gozar de seu beneficio de imediato, apenas no longo prazo saber-se-á os frutos desse estranho matrimônio.


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Correio elegante no Halloween

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Em pleno Halloween, recuperaram-se as brincadeiras juninas. O correio elegante está de volta! Elegante no disfarce, deselegante na ação: escolhe-se um amiguinho e se envia a mensagem subliminar “vou te explodir”, por intermédio de uma correspondência suspeita. Nas comemorações deste Dia das Bruxas, esqueceram-se dos doces e preservaram apenas as travessuras. Travessuras travestidas de correio elegante. Os costumes mudam…

E mudam mesmo. Recordem-se, pessoal, do tempo do antraz, no imediato posterior ao 11/09. A bactéria do mal foi supostamente disseminada por cartas pelos Estados Unidos, acarretando no que se convencionou chamar de “bioterrorismo”. Quase uma década depois, as cartas portam instrumentos tradicionais: bombas. A moda agora (ou a volta dela) é pacotes-bomba; o remetente, o terrorismo. A princípio, dois pacotes-bomba, provenientes do Iêmen e que chegariam ao solo norte-americano, foram interceptados: um no Reino Unido, o outro nos Emirados Árabes (aqui). O Tio Sam está em alerta, ainda mais em clima eleitoral. (Acompanhem este artigo sobre a ação dos EUA no Iêmen.)

Hoje o dia amanheceu mais travesso. Cinco pacotes-bombas foram achados na Grécia e um no gabinete da primeira-ministra alemã, Angela Merkel. Na Grécia, um explodiu na embaixada da Suíça, sem deixar feridos, e os demais foram descobertos. Três deles eram endereçados as embaixadas da Bélgica, Holanda e México, o quarto era para o presidente francês, Nicolas Sarkozy. (aqui e aqui)

Estes incidentes nos conduzem a algumas reflexões. Primeiro, para quem achou que o terrorismo nuclear deveria ser a sensação, perdeu a aposta em curto prazo. A Cúpula de Segurança Nuclear deste ano lidou com esse elemento estático que pulula a inteligência norte-americana (terrorismo), acrescido da preservação do clube atômico. A resposta veio pelo correio. Em segundo lugar, os muçulmanos mergulharam na blasfêmia européia, em que a liberdade religiosa não é mais do que retórica constitucional, demarcada pelas fronteiras e pela história. Cabe aos segregados encontrar uma maneira de expressar o seu descontentamento, isto é, aterrorizar. O acaso pertence à Física, não à política, que combina a virtù e a fortuna maquiavélica. Bin Laden já avisou que o velho continente pode ser vítima de atentados terroristas. (Revejam também o post do Luís Felipe sobre as armas nucleares.)

O correio elegante travesso, combinando Festa Junina e Halloween, foi a tônica da política internacional desta última semana. Por enquanto, a brincadeira parece vir como um aviso. O bom e velho terrorismo ainda não se faz com armas nucleares e repele o macarthismo contemporâneo que caça as bruxas muçulmanas. Outrossim, o vôo cego sobre a diferença não é a melhor maneira de combater o terrorismo. Logo, logo, a brincadeira há de mudar, com outros festejos e dramas…


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Decênio nas alturas

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Amanhã, dia 2 de novembro, a Estação Espacial Internacional (ou ISS, da sigla em inglês) completa 10 anos de atividades. Quando recebeu seus primeiros tripulantes em 2000, possuía apenas os módulos de habitação russos e uma parte de ligação norte-americana. Hoje…bem, a maioria dos módulos ainda é russa e norte-americana, mas o que importa é o espírito de cooperação internacional.

Isso destoa em uma área como a exploração espacial, marcada pela rivalidade no seu nascedouro, os anos 60, Guerra Fria a todo vapor. De fato, antes da ISS, houve duas estações espaciais tecnicamente funcionais: a Skylab, dos EUA, que funcionou nos anos 70, e a famosa Mir, russa, que operou de 1986 até seu espetacular fim em abril de 2000. Ambas nasceram nesse contexto de demonstração de supremacia tecnológica, e por mais que houvesse sinais de aproximação (e, após a queda da URSS, de atuação conjunta na Mir), ainda faltava um caráter eminentemente internacional e cooperativo para a pesquisa em órbita. Isso ocorreu com o planejamento e operacionalização da ISS.

A iniciativa é capitaneada pelas agências espaciais dos EUA (NASA), Rússia (RKA), Japão (JAXA), Canadá (CSA) e União Europeia (ESA). O que muitos não sabem é que além dos países de origem das agências (os quatro citados e 11 membros da ESA), outro país sócio desse projeto é… o Brasil! Isso por que participa como sócio dos EUA em um processo de cooperação bilateral que remonta a 1997. Entre nossas contribuições estão algumas partes da estação, incluindo uma lente especial de observação, e o acesso aos laboratórios para experimentos em gravidade zero (além de já termos mandado nosso astronauta pra lá).

Claro que houve percalços no caminho, principalmente por conta dos custos. E não é algo barato – e muito menos fácil de montar! Pra ter uma idéia, a estação só vai estar completa em 2011 (nesta semana, aliás, o último vôo planejado do ônibus espacial Discovery levará módulos para a ISS), com um custo da ordem de US$100 bilhões. E com a crise financeira internacional (associada ao corte de gastos dos EUA com programas espaciais) a ISS quase foi pro brejo. Felizmente Obama salvou a idéia garantindo a permanência dos EUA pelo menos até 2020.

Muitos questionam os valores e a necessidade de um projeto desses. Não vou entrar nos méritos de discutir quando e como será – isso é tarefa, por enquanto, da ficção científica –, mas cedo ou tarde a humanidade será compelida a explorar o espaço, seja por falta de espaço, de recursos ou por catástrofes. E nisso a ISS desempenha um fator imprescindível no estudo dos efeitos da falta prolongada de exposição à gravidade. Ademais, há estudo um pouco mais mundanos que são possíveis somente no ambiente espacial de microgravidade, como os encomendados pela Embrapa na ocasião da viagem do astronauta Marcos Pontes. E é inegável que muitos sucessos (e possíveis descobertas) virão quando a estação estiver completamente funcional.

Mais do que a utilidade prática, há uma simbologia política na ISS. Claro que nem tudo são flores, como o reiterado veto norte-americano à entrada da China no projeto (que, aliás, vai se virar sozinha e já planeja sua própria estação). Mas, em um setor de tecnologia sensível como a aeroespacial, a participação aberta de vários membros é virtuosa e benéfica como medida de confiança e participação multilateral nos progressos científicos. Assim como a famosa missão Apollo-Soyuz de 1975 (na qual 2 cápsulas espaciais, uma norte-americana e uma soviética, atracaram-se em órbita) representou o momento de détente e de aproximação entre as superpotências, espera-se que a permanência e o sucesso da ISS representem o multilateralismo e a confiabilidade que se almeja no século XXI.


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Efeitos colaterais

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Nas últimas semanas temos vivido no Brasil uma delicada situação emergencial no campo da saúde. Surgiram novas espécies de superbactérias, resistentes a medicações, que já têm contaminado pessoas em diversas regiões do Brasil e dificultado a vida dos especialistas.

Há explicações variadas para esse fenômeno, e o uso indiscriminado de antimicrobianos, os famosos antibióticos, aliado a uma baixa segurança e higiene no ambiente hospitalar, possui uma posição central nesse largo rol de causas.

Pode parecer, à primeira vista, que esse texto trata de questões de saúde, mas, acreditem, o foco aqui ainda é as relações internacionais. Bom, a situação acima descrita mostra uma regularidade muito comum no campo da medicina e, que pode ser transposta facilmente para o campo da política internacional.

Pintou-se um quadro ilustrativo no qual o uso indiscriminado de um recurso, aparentemente de fins curativos, levou a um desgaste, ou, em outras palavras, a um efeito colateral grave, caminhando em sentido oposto do inicialmente visado.

Na política internacional não se vislumbra cenário muito diferente. Alguns recursos podem levar a efeitos colaterais sérios, trazendo à sociedade e aos próprios governos resultados no sentido bem oposto do desejado. Vejamos alguns exemplos.

Comecemos pelo país que tem sido o epicentro de grandes polêmicas atualmente, a França. Em sua paradoxal empreitada para proteção dos direitos da mulher, as medidas de proibição do uso do véu islâmico, a burca resultaram na supressão de manifestação de direitos religiosos, e tiveram repercussões bem maiores do que esperado.

A tentativa de proteger um pequeno grupo da sociedade resultou em uma grave ameaça para toda a população, literalmente, um tiro saindo pela culatra. Osama Bin Laden afirmou que a França é um potencial alvo de ataques terroristas por suas ofensas constantes à religião islâmica.

Agora vejamos os Estados Unidos e o Reino Unido. Dois países na busca de livrar o mundo de governos autocráticos, espalhar o valor ocidental da democracia e liberdade para o oriente e suprimir a manifestação de grupos que disseminem o terror. Entre as baixas, duas guerras nos últimos dez anos.

Se os objetivos tivessem sido alcançados os governos sofreriam ônus bem mais reduzidos. Todavia, nos últimos tempos além da falta de eficiência da estratégia de contra-insurgência, surgiram os vazamentos de documentos secretos do site Wikileaks apontando a violência e métodos não-ortodoxos, leia-se, torturas e outros abusos dos exércitos nas operações.

Outro tiro pela culatra. Cada vez mais a comunidade internacional cobra respostas dos governos e as guerras tornam-se mais impopulares para as populações. Operações que, no plano discursivo, visavam eliminar certas práticas resultaram no uso desses mesmos mecanismos pelos governos.

Os exemplos são infindáveis. Efeitos colaterais podem ser sempre observados em quase todo lugar na política internacional. Basta que expectativas sejam ricocheteadas na ação e retornem, quase que com a mesma força, contra aqueles que a planejaram.


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Crise existencial

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Todos devem ter acompanhando as confusões e protestos na França que precederam a aprovação da nova legislação de aposentadoria (e que ainda continuam). A aprovação do aumento para a idade mínima de aposentadoria na última semana trouxe os prejuízos causados pelas greves (monetários, da ordem de 400 mil euros por dia, e até mesmo físicos, com toneladas de lixo pelas ruas) e o descontentamento popular. Muito contribui pra isso a desgastada imagem do presidente Sarkozy, o cara que parece uma mistura de Silvio Berlusconi com Roberto Justus, cujo governo marcado por escândalos e imoralidades teve essa reforma como a cereja do bolo da ira popular.

Ainda bem que isso não acontece no Brasil! Não, não, isso é coisa dos países ricos e envelhecidos. Mas é óbvio que se trata de uma questão de tempo para que a melhoria nas condições de vida cobre seu preço dos cofres públicos. Hoje mesmo, o país compromete boa parte do orçamento federal com a previdência, e se mantém pela força de trabalho jovem que cobre o rombo com seu trabalho e impostos. Mas um dia essa reforma deverá ocorrer por esses lados, e Deus nos acuda quando ela chegar.

Eis o drama e o paradoxo do Estado moderno. No pós-Segunda Guerra mundial, houve as condições perfeitas para a implementação do Estado de bem estar social – as garantias como o salário mínimo, previdência e auxílios diversos, que caíram como uma luva no esforço de reconstrução das economias arrasadas. Ainda que pensado no contexto de países europeus e EUA, esse modelo foi exportado a seu modo para outros lugares, como a América Latina, e resultou em grandes avanços na área social. Crise vai, crise vem, os governos tem que gastar mais e preço é cobrado, com a situação podendo ficar insustentável. Austeridade fiscal não combina com esse tipo de gastos. As soluções vão de ir pro buraco de vez a reformar essas legislações (isto é, seja qual for o remédio, é amargo).

Na Europa, o drama é a manutenção dos índices macroeconômicos previstos para a o ingresso na União Europeia, que obriga os países-membros na cortarem gastos da maneira que for possível nesse momento de crise. Na Grécia, por exemplo, já houve medidas ainda mais draconianas, como cortes de salários e demissões em massa. No caso do Brasil, é um pouco pior, pois todos esses benefícios estão garantidos na Constituição, e fica complicado mexer, por exemplo, na previdência – se fosse fácil, reforma não estaria sendo discutida há uns 10 anos. E é impossível que esse tipo de reforma não venha acompanhada de protestos e revoltas contra a retirada de benefícios que existem há gerações.

Isso remete ao anacronismo do comportamento do Estado atualmente – se ele age minimamente, com austeridade, é tachado de omisso e elitista pelos setores populares; se interfere demais, logo é assombrado pela acusação de paternalismo e irresponsabilidade. Qual a saída pra essa crise existencial?


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Alteridades disfarçadas: a marcha autofágica sobre a diferença

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Que ninguém se engane: esta onda de aversão que tem tomado conta do mundo não é apenas produto da intensificação da globalização! Mais do que isso, ela é subproduto da consolidação do Estado-Nação, desde a edificação do templo de Vestifália (1648), que se dedicou à exclusão do “Outro” para a preservação do “Nós”. Assim, a humanidade se lançou a uma marcha autofágica sobre si, em que a extensiva eliminação da diferença conduziu também a eliminação do reconhecimento mútuo: a totalidade do “Nós”, como seres humanos universais, independente de bandeiras ou territórios.

Em post recente, a Andrea muito bem retratou a problemática francesa (aqui). Situação que encontra os seus gêmeos siameses por toda a Europa, dos turcos da Alemanha aos separatistas tchetchenos. Um continente tão díspar, o maior exemplo do processo de integração, é também o lugar-comum de uma diferença incandescente. O problema é o “Outro”; a solução é combatê-lo. Daí a adoção de leis de intolerância e medidas de segurança contra ciganos, imigrantes e esperanças. A busca por um lugar ao sol, pela aproximação com o humano, cai como o véu que é despido das muçulmanas.

Estranho fenômeno acomete aqueles que se criaram a partir da diferença, ou aqueles que produziram a diferença para depois eliminá-la, como se o passado fosse o exoesqueleto de um inseto no período da muda. O esquecimento é um dos sintomas da síndrome do crescimento. Outro seria o progresso. Os Estados Unidos, país formado por imigrantes, fecha ostensivamente as portas para a diferença. E criam os seus estereótipos: narcotraficantes mexicanos, criminosos latinos, terroristas árabes. De paraíso para a imigração, o Arizona se converteu no inferno (aqui e aqui). De turistas a vigilantes (vejam aqui também), eis o procedimento que se deseja para os norte-americanos que viajam pelo mundo. Portugal, por sua vez, um dos primos pobres da União Européia, quando se torna importador de mão-de-obra, atrela a criminalidade aos imigrantes. Israel, ao se elevar à condição de Estado – em reparação ao combate à diferença que levou ao genocídio dos judeus –, empreende o expansionismo sobre a diferença e discute agora a questão dos assentamentos judaicos, um dos freios para paz no Oriente Médio.

Até onde vai esta impulsiva marcha autofágica sobre a diferença? É de práxis todas as resoluções e demais documentos das Nações Unidas advogarem em prol de uma comunidade mundial, assim como também o é na imprensa ou nos discursos de líderes de todo o mundo. Mas o mundo pouco transcende as fronteiras nacionais e a Física precisa mudar a lei da atração dos opostos. As promessas da globalização, que tanto inspiram o cosmopolitismo, confrontam com o compromisso estatal de eliminar a diferença, tão presente e tão culpado em sua realidade interna. É lamentável esta alteridade disforme, que insistentemente apagam a história e o tempo do que fomos e somos: seres humanos!


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Liberté, égalité, fraternité?

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A Revolução Francesa marca o início da Idade Contemporânea. Sob o mote “Liberdade, Igualdade e Fraternidade” (Liberté, Egalité, Fraternité), o movimento francês inspira-se no Iluminismo e lança uma nova fase da História Mundial. Essa semana, o senado francês confirmou a legalidade da medida que impede que mulheres usem a burca em locais públicos, e o governo reafirma a deportação de cerca de 8 mil ciganos para Romênia e Bulgária.

Por partes: a burca. Sarkoszy julgou que o uso da vestimenta rebaixa a mulher a uma condição de servidão. Agora aprovada, não se poderá circular nas ruas com a vestimenta, sob risco de multa de 150 euros. Ora, será mesmo que proibir o uso da burca fará com que as muçulmanas sejam mais respeitadas dentro de suas famílias, trará igualdade em relação aos homens? Segundo a Human Rights Watch, “proibir a burca não trará a liberdade às mulheres, não fará mais do que estigmatizar e marginalizar as mulheres que a utilizarem. A liberdade de exprimir a religião e a liberdade de consciência são direitos fundamentais”.

Agora vamos aos ciganos. A medida francesa se destinava aos imigrantes ilegais. Aí vem alguém e fala: mas o que há de errado em deportar imigrantes ilegais? Nada. Mas por que a medida se restringe aos ciganos, e não aos albaneses, turcos, poloneses, e os tantos outros que vivem nas sombras das portas de entrada para imigrantes na França? Para justificar-se, Sarkozy ligou os ciganos ao crime, e se recusou a cumprir uma resolução do parlamento europeu que ordenava a suspensão imediata da expulsão de ciganos do território francês, bem como da coleta de impressões digitais dos mesmos.

Tudo isso tem raízes em um único ponto: eleições. Em 2007, o presidente francês foi eleito como uma promessa para a economia do país, em declínio, bem como objetivando a redução do desemprego para menos de 5%. Com a recessão mundial, centenas de milhares de empregos foram cortados na França.

O resultado veio nas urnas, em 2010. O partido de Sarkozy foi derrotado nos pleitos para as regiões administrativas francesas, quando a aprovação ao governo Sarkozy não alcançava 30%. Quem subiu com isso foi o Partido Socialista, e eis que uma expressão surpreendente de 12% dos votos foram para o partido de extrema-direita, a Frente Nacional, que se posicionava contrariamente às imigrações.

O fato é que as eleições primárias nos partidos políticos franceses se iniciam logo em janeiro próximo, apesar da disputa nas urnas ocorrerem apenas entre abril e maio de 2012. Com a decepção que causou no povo francês com seu governo, dificilmente Sarkozy teria chances num segundo pleito. De olho na opinião pública, com essa política de deportação de ciganos, sua aprovação já alcança 34%.

Pela manutenção de poder, vale tudo. Allons-y!


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Há um ano...

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Há um ano, o blog exalava a boa e velha Segurança e Defesa. Tínhamos textos sobre a repercussão da Estratégia Nacional de Defesa (que até hoje não mostrou muito a que veio…) e o lançamento da Estratégia Nacional de Inteligência dos EUA (sempre focado no uso da força contra insurgentes e que tanto resultado demonstrou no Iraque e no Afeganistão…). Mas o que mais teria repercussão hoje seria, provavelmente, o interessante texto acerca da aproximação da OTAN com a Rússia, por meio de seu secretário-geral. Como se sabe, a Rússia não faz parte da OTAN, mas afirmava-se que essa conexão seria muito importante para evitar conflitos e problemas diversos no barril de pólvora chamado Oriente Médio, além das crises pontuais de sempre como a da Coréia do Norte e do Irã.


Hoje? Essa aproximação não parece ter frutificado tanto (ou mesmo ocorrido). Isso é visível por exemplo no caso do Quirguistão, em que há elementos da busca russa por uma esfera de influência regional que inflamaram a discórdia no país e, sob o pano de fundo da rivalidade de bases militares com os EUA. Obviamente, a Rússia não vê com bons olhos a atuação da OTAN na região, e a formação de uma nova arquitetura de segurança na região não me parece viável em curto prazo.

Por último, mas não menos importante, há pouco mais de um ano a Página Internacional era laureada com o Prêmio de Melhor Blog de Política na categoria blog pessoal pelo Júri Acadêmico do Top Blog!

Ivan e Alcir, dinossauros do blog, na premiação

O prêmio reflete a filosofia da equipe de sempre buscar a análise de maior qualidade, mas com um espírito acessível e dinâmico. Relembramos este feito que contou com a participação e dedicação dos membros pioneiros, e os parabenizamos. E fica o convite aos estimados leitores para a votação deste ano, que continua até outubro!

É isso aí. Postando, relembrando, e votando pessoal!


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ETA coisa estranha…

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Embora soe como um caipirês coloquial, a linguagem é mais complexa. Ela envolve o basco e o castelhano, a luta armada e o cessar-fogo, o terrorismo e a política. Sim, estamos falando do grupo basco separatista – (dito) terrorista – Euskadi Ta Askatasuna (ETA). Ahn? Melhoremos isso: “Pátria Basca e Liberdade”. No sábado, três integrantes encapuzados do grupo anunciaram para os bascos, Espanha e comunidade internacional o fim de ações armadas ofensivas e o início de um processo democrático (aqui). É o décimo primeiro cessar-fogo, o que há de novo neste?

(Vejam a declaração original do grupo e o vídeo)

Em primeiro lugar, a questão étnica é muito forte na Espanha. A Catalunha, por exemplo, é uma comunidade autônoma. Os bascos, por sua vez, buscaram a separação de uma parte do nordeste espanhol e de outra do sudoeste francês para construírem um novo país. Desde 1959, os mais radicais, com a criação do ETA, adotaram a luta armada como via emancipatória, embora seus primeiros atentados datem do final dos anos 1960. Em 1978, uma nova constituição espanhola assegurou maior autonomia para os bascos e a população depôs as armas, exceto os membros do ETA, que desejavam (e desejam) a independência total. Para aguçar a curiosidade – e também sobrelevar a dimensão do problema -, há times de futebol bascos, como Atlético Bilbao e Real Sociedad, que apenas permitem jogadores da etnia.

Em segundo lugar, o que o governo espanhol pode esperar? Desta vez, é definitivo o término da luta armada? No início de 2006, o ETA anunciou que seria permanente, mas voltou atrás em dezembro, quando atacou o Terminal 4 do Aeroporto Internacional de Madrid Barajas, matando inclusive dois equatorianos. O governo do País Basco afirma que já acabou o tempo das tréguas e que é hora de buscar vias institucionais. O terrorismo não deve mais ser uma opção. No entanto, a situação permanece entre o ceticismo e a expectativa. Por um lado, os membros do ETA não entregaram as armas, não afirmaram se será definitivo fim da luta armada e como formarão um partido político, por outro, a maioria dos seus líderes estão presos e o grupo se encontra bastante desgastado.

É cedo para dizer qual o real significado dessa desistência do ETA. Muito cedo! Pode ser parte de uma estratégia para o grupo se fortalecer no anonimato, enquanto a população espanhola se sente segura e o governo permanece relativamente despreocupado. É possível também que siga os passos do Hamas e entre para a via política de fato, ressuscitando o antigo e fragmentado Partido Nacional Basco (PNB). A primeira parece mais provável que a segunda, pelo próprio histórico do grupo. Há algo de estranho nesta iniciativa do ETA, que por enquanto atende por incógnita.


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Quelqu’un m’a dit

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E disseram mesmo! Este é nome de uma das canções mais famosas de Carla Bruni, que também é a atual primeira-dama francesa. Numa breve paráfrase para sintetizar o assunto: alguém lhe disse que a vida não vale grande coisa, não porque passa em instantes como murcham as rosas, mas por ser prostituta. Prostituta? Ao menos, esta foi a acusação do jornal iraniano Kayhan em resposta ao pedido de Bruni pelo fim da punião por apedrejamento no Irã.

Não bastassem alguns jogadores da seleção francesa de futebol criarem um mal-estar entre si por causa de uma prostituta, agora a palavra pulula os mais altos círculos políticos do país. Tudo bem que o Irã, em matéria de polemizar, é campeão do mundo, mas foi um golpe-baixo, uma ofensa de caráter pessoal. O jornal não apenas chamou Carla Bruni de prostituta, como julgou que ela merece um destino similar ao de Sakineh Mohammadi Ashtiani, a iraniana condenada à morte (entenda o caso aqui). Na opinião do jornal, Bruni teria provocado a separação do presidente Sarkozy com a sua segunda esposa, indicando um comportamento ultrajante e imoral para dizer qualquer coisa ao governo iraniano.

A resposta do governo francês foi afirmar que os insultos são inaceitáveis. De fato, são inaceitáveis, todavia um olhar ampliado relevaria uma problemática recorrente na França: a imigração, principalmente de muçulmanos oriundos do Magreb. Como eles são recepcionados? Não é necessário nem ir tão longe: no mês passado, cenas da violência policial contra os imigrantes foram veiculadas pela internet. É difícil dizer se o Irã levou isso no cálculo racional para a feitura de tais insultos, mas parece ter sido um apelo chamativo em prol das tradições muçulmanas, desprezadas pelos franceses.

Por outro lado, este imbróglio reacende novamente a questão sobre a relativização dos direitos humano. O Oriente os considera como uma invenção ocidental e qualquer iniciativa semelhante à de Bruni é percebida como uma afronta aos seus valores históricos e culturais. Já no Ocidente, muitos se indignam e também se sensibilizam com o infortúnio de Sakineh, a ponto de desejarem a abolição dessa punição brutal. Diante desse quadro, a pergunta inevitável: o que fazer? Agir para coibir ou deixar tudo como está? Proteger a vida e a dignidade humana ou preservar o princípio da auto-determinação dos povos? Esses são problemas com que freqüentemente se depara a comunidade mundial, incluindo também atores não-estatais.

Está dito! Investigamos então as origens dos dizeres com a finalidade de pensar para onde eles podem conduzir: dos insultos a Bruni à problemática dos direitos humanos. Em que pese esse último aspecto, alguém precisa dizer e dizer muita coisa para se chegar a alguma solução…


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