As boas armas

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Demorou, mas com um ano de atraso, Malala Yusafzai, junto do ativista Kailash Satyarthi, ganhou o prêmio Nobel da Paz. A menina paquistanesa que levou um tiro na cabeça por defender a educação para crianças, especialmente meninas, foi agraciada junto ao indiano por seu trabalho contra o trabalho infantil há mais de 20 anos. Já havíamos comentado como essa premiação tem muitas vezes um caráter mais político (como no ano passado, em que Malala era cotada como favorita mas o prêmio foi para a organização de regulação de armas químicas pela atuação com a ONU na crise do momento, na Síria). E quando pensamos que a honraria já foi concedida recentemente a Obama e à União Europeia, cabe aquela reflexão sobre o que anda acontecendo no Oriente Médio – as premiações e os envolvidos podem não parecer mas tem muito em comum.

Malala e Styarthi são defensores de direitos fundamentais. Direitos que tanto Estados agressores como a Síria quanto invasores como os EUA e as forças insurgentes costumam desrespeitar. O caso do ISIS/Estado Islâmico é o mais emblemático – estabelecendo um “califado” nas regiões entre Iraque e Síria, persegue causa a fuga de curdos, cristãos e outras minorias. O desrespeito ao gênero é ainda mais gritante, com casos de casamentos forçados e outros ultrajes.

E chegamos ao segundo ponto – aqueles que ganharam o prêmio antes, como Obama e a UE, são tanto causa do problema como aprofundadores do mesmo. Ninguém pode negar que a ação desastrada dos EUA na última década forneceu o espaço inédito para que esses grupos se desenvolvessem na terra sem lei pós-Saddam Hussein. E hoje, com campanhas de ataques de drones, bombardeios cirúrgicos e intervenções “limpas” que deixam o trabalho sujo nas mãos ensanguentadas dos locais, reforçam a tese de que a preocupação não é resolver o problema, mas mostrar que estão fazendo algo. Novamente, as intervenções militares (pra não dizer invasões) a Iraque e Afeganistão comprovaram que apenas o componente militar não é suficiente para resolver questões de governança e estabilidade. Tampouco com a entrada de empreiteiras texanas.

É necessário educação, condições de moradia, oportunidades somadas à ajuda humanitária. E isso os países ocidentais não se sentem dispostos a fazer. Nunca estiveram – vejam o caso da crise de ebola na África, em que foi necessária a explosão da epidemia e infecção de pessoas na Europa e nos EUA para que ajuda mais maciça fosse enviada. O discurso soa eleitoreiro (especialmente no mês atual para nós), mas em sua simplicidade, como ao informar que a melhor arma contra o terrorismo é a educação, Malala e Satyarthi demonstram ser campeões entre os gigantes da política internacional e que compreendem com muito mais profundidade os problemas tão simples mas de solução tão complexa.


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O mundo às urnas

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Ontem tivemos eleições gerais no Brasil, e apesar do impacto tremendo disso na vida política nacional (e claro, internacional), vamos falar no dia tradicionalmente dedicado pelo blog a eleições, de outros escrutínios que acontecem pelo mundo. Ou melhor, aconteceram, pois em pelo menos dois países o fim de semana foi movimentado para seus eleitores como foi para os brasileiros.

Para pegar o gancho, na Bulgária, terra da família da atual presidente, as eleições legislativas mostraram a vitória do partido de centro-direita GERB. Porém, como parece ser a regra em países europeus em crise, o partido não obteve a maioria e encontrará dificuldades em se articular com os demais especialmente o Partido Socialista. O populista ex-primeiro ministro Boiko Borisov tem a ingrata tarefa de levar o país mais pobre da União Europeia (sim, até mesmo a Grécia tem renda por cidadão maior), em um ambiente de crise política e corrupção endêmica que se arrasta por quase 25 anos (desde o fim do comunismo) somado a uma crise bancária que ameaça seu principal banco e espanta o investimento estrangeiro.

Um pouco acima, na Letônia, as eleições parlamentares levaram o partido Harmonia à maioria e devem dar fim ao governo de coligação atual que já dura 9 meses. Assim como a Bulgária, o país se encontra na UE, e em situação delicada – mas pela presença do gigante russo ao lado. O Harmonia é um partido de tendências pró-Moscou, e com isso é esperado que recomece a haver uma influência significativa da política russa no país. Ao contrário da Ucrânia, porém, a Letônia é membro da OTAN, e uma interferência mais aguda como a que assola o celeiro da Europa desde o começo do ano é uma improbabilidade. Existe uma parcela significativa de russos étnicos no país, e o debate entre a manutenção dos laços com a Europa ou voltar a face a Moscou é um temor factível que pode resultar em divisões internas. Ou seja, problema a longo prazo.

Por fim, quando estivermos perto do segundo turno das eleições presidenciais aqui, lá nos EUA estarão ocorrendo as eleições do “mid term”, ou seja, do Legislativo. A decisão da composição da Câmara de Representantes (a Câmara dos Deputados deles) e do Senado contém a chave para o futuro do país, pois a distribuição dos partidos no Congresso vai definir se as políticas dos próximos dois anos vão render algo ou se um entrave político emperrará decisões vitais na área de Defesa e economia. Uma derrota republicana no Senado manterá um Congresso engessado e impopular, enquanto uma vitória poderá significar uma campanha de terror pela não-cooperação com as políticas de Obama e até mesmo definir as possibilidades reais de derrota democrata nas eleições presidenciais de 2016. E mesmo com essa eleição histórica a menos de um mês, o modelo de alistamento eleitoral voluntário mostra uma incrível taxa estimada de apenas 15% de eleitores interessados no assunto.

Logo teremos a chance de verificar o resultado desse evento, mas com estes exemplos fica aparente a situação de crise que a maior parte destes países enfrenta, de democracias consolidadas a novatos nesse clube pós-muro de Berlim.


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Clube do Bolinha – ou das bolinhas?

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Na semana em que a questão de gênero teve grande relevo com o discurso da Emma Watson na ONU, vem da Espanha mais um caso de como isso é um problema ainda.

Há alguns dias a seleção espanhola da Copa Davis (a Copa do Mundo de tênis) foi eliminada pelo Brasil e ficou de fora do grupo especial. Desfalques espanhóis e dedicação dos atletas brasileiros à parte (que foi realmente sensacional), seria mais ou menos como se o Brasil (uma “superpotência” do esporte) perdesse para o Paraguai (que tem bons atletas mas não faz nada de excepcional há anos) e ficasse fora da Copa no futebol. E claro que cabeças rolaram – especificamente do técnico, o ex-jogador (que já foi número 1 do mundo) Carlos Moyá.

E o gênero com isso? Para seu lugar, foi chamada Gala León, também ex-tenista e diretora esportiva. A reação mais contundente foi de Toni Nadal (tio do Nadal famoso), que considerou a escolha equivocada e que a técnica terá dificuldades “no vestiário” por se tratar de uma equipe masculina. A repercussão negativa dos comentários, tachados de machistas a antiquados, revela um problema nada velado na sociedade e que fica ainda mais evidente no mundo tradicional do esporte.

É comum vermos homens dirigindo equipes femininas ou atletas mulheres. Mas o inverso é uma raridade – quando ocorre, geralmente é algo por laços familiares ou é temporário. Pode-se argumentar sobre diferenças fisiológicas para a prática do esporte entre homens e mulheres, mas em teoria a preparação exige o conhecimento, algo que ambos os gêneros compartilham em igual medida. O que existe, no caso, é uma barreira social, histórica e econômica. Estudos apontam que, apesar das tendências de queda, a remuneração de homens e mulheres na mesma posição ainda tem uma diferença substancial em termos de valores. Mesmo no Brasil, por exemplo, as mulheres ganham em média apenas 73% do que os homens. Os avanços no mercado de trabalho ainda não têm o impacto suficiente em diversas sociedades para reverberar em mudança na estrutura e percepções de gênero mais enraizadas.

Também devemos lembrar que, como no caso da Espanha, um país às portas da crise política (a Catalunha está prestes a seguir o exemplo da Escócia e puxar um referendo para separação da Espanha) e já em crise econômica há algum tempo, o conservadorismo ganha força em momentos de insegurança. E parte do conservadorismo significa uma estrutura tradicional em que a igualdade de gênero vira mais um problema que solução. Certo ou errado, o fato é que León não deve ter problemas em trazer a equipe (mais que gabaritada) de volta ao grupo mundial da Davis – seu grande desafio, possivelmente, será a mera manutenção de seu cargo nesse contexto adverso.


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Há… uma semana!?

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Aqui no blog temos a seção “há um ano” em que postamos análises das consequências dos fatos que, bom, aconteceram há um ano. Mas nessa semana agitada, já se faz necessário rever as postagens de poucos dias atrás por que durante esse período em que a Terra deu pouco mais de 7 voltas no próprio eixo muita coisa aconteceu.

Sobre a epidemia de Ebola na África, começa hoje a quarentena nacional em Serra Leoa. Cerca de 6 milhões de pessoas estarão impedidas de saírem de casa, não para evitar o alastramento da doença – mas para que seja mais fácil identificar os infectados. A situação exige essas medidas drásticas, mas faltam condições e pessoal. Sem auxílio, a estimativa é que, sem os casos contabilizados e com a possibilidade de alastramento e mutações do vírus, até 2015 a epidemia a casa dos milhões de infectados.

Enquanto isso, um pouco ao norte, a coisa esquenta no Iraque com os primeiros ataques de países ocidentais a bases do ISIS/Estado Islâmico, efetuados pela França. A expectativa é que se mantenham os ataques aéreos, mas ao longo da semana o comandante das Forças Armadas dos EUA cogitou a possibilidade de enviar tropas em solo caso seja necessário. Obama já refutou essa possibilidade, pois com as implicações dessa empreitada passando até pela crise ucraniana (já que o apoio da Rússia nas operações será essencial e isso deve afetar negociações que vão de Damasco a Kiev) a última coisa que quereria é mais uma impopular incursão armada para causar a morte de americanos.

Por fim, ontem aconteceu o tal referendo na Escócia acerca da independência do Reino Unido. E para a felicidade dos professores de Geografia, a terra da rainha continuará a ter seu fundo azul com a cruz diagonal branca, pois resultados preliminares apontam a vitória do “não”, permanecendo o vínculo histórico. Análises sobre a razão disso passam por muitos fatores, o principal deles o risco econômico que a opção pela separação apresentava e o fato que o “sim” havia sido superestimado. Bom para David Cameron, que não entra pra história como o Primeiro-ministro que destruiu o Reino Unido, mas tem problemas pela frente por ter sido um dos responsáveis por esse plebiscito em primeiro lugar, e agora para agraciar o parlamento escocês, que vai receber alguns poderes (e mais dinheiro) como parte de um acordo proposto como medida preventiva da separação.

Não é possível nem escrever o “postando e relembrando” por ser algo tão recente, mas imagino como será o “há um ano” de setembro de 2015 se os eventos dessa semana repercutirem como o esperado…


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O abacaxi ucraniano

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A quantas anda a Ucrânia? Talvez a palavra-chave seja insatisfação, que está aparecendo por todos os lados.

Semana passada um cessar-fogo iniciado no dia 5 tem tido sucesso (leia-se – respeitado por quase todos) em evitar as mortes que pipocavam diariamente em confrontos entre forças ucranianas e separatistas. Mas nem tanto – confrontos isolados levaram a pelo menos seis mortes que abalam o tênue acordo. Como se vê no caso de Israel e Palestina, sempre há aqueles mais beligerantes dispostos a arruinar o esforço de entendimento.

Enquanto isso, o parlamento da Ucrânia tenta resolver o impasse agradando a todos – na terça ratificou o famigerado acordo de comércio com a Europa e concedeu status especial às regiões em distúrbio. Basicamente, concede um grau mínimo de autonomia a essas localidades por três anos e possibilitando que façam eleições além de anistiar os combatentes (exceto aqueles envolvidos na derrubada do avião de passageiros da Malaysian Airlines) e atender a maior parte das reivindicações sem que os separatistas precisem largar Kiev pra trás. Na ideia, reivindicações de todos os lados são atendidas. Na prática, é praticamente a aceitação de que estão prestes a perder nacos de seu território (tendo sido aceito com relutância pelo presidente Poroshenko), enquanto o acordo com a União Europeia, visto como um passo necessário ao ingresso no clube europeu, irrita tanto os líderes separatistas quanto Moscou.

Por fim, nesta semana entraram em vigor as mais novas sanções da UE, EUA e Canadá contra a Rússia, reflexo direto da crise na Ucrânia. São mais diretas pois afetaram não apenas o acesso a mercados financeiros, mas também o setor petrolífero e empresas estatais russas. Desnecessário dizer quem fica insatisfeito nessa história, mas a Rússia o faz com classe – o presidente Putin afirma que é um esforço ineficaz e que pode até mesmo ajudar a Rússia em longo prazo, enquanto quer levar os países ocidentais à OMC por essa “injustiça” comercial. No fim das contas o efeito colateral é um rejuvenescimento da OTAN e, apesar do conflito ser uma possibilidade remota (pra não dizer impossível), a aproximação que se desenhava entre Rússia e EUA nos últimos 20 anos parece ser coisa do passado.

O centro de tudo, é claro, é quem mais sofre. A Ucrânia sofre o risco de fragmentação, instabilidade interna constante ao longo do ano e consequências econômicas nocivas. A depender do resultado do plebiscito na Escócia, os grupos separatistas podem ganhar ainda mais força. Mas sempre fica a lição de que, no mundo atual e interdependente, as consequências vão muito além das suas fronteiras. Pelo menos eles ainda têm a amizade inabalável do grande Canadá.


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O “sim” da discórdia?

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Quem assistiu o filme “Coração Valente” de 1996 deve achar que a relação entre Escócia e Inglaterra não seja das melhores. De fato, em alguns momentos predomina o atrito, mas na média a cooperação entre esses dois países sempre foi a regra (e benéfica para ambos). Tanto que a Escócia é, ainda hoje, membro do Reino Unido, tendo governo próprio e podendo mandar time para disputar a Copa do Mundo, mas com a Rainha da Inglaterra como chefe de Estado e mandando seus atletas para as Olimpíadas junto com ingleses, galeses e norte-irlandeses. Isso pode estar com os dias contados.

Pesquisas recentes mostram que o movimento separatista ganha força e a ideia de uma Escócia independente no sistema internacional é uma realidade plausível. Nesta quinta-feira ocorrerá uma consulta popular de resultado imprevisível já que pela primeira vez na história uma sondagem favorável à separação (ou o grupo do “yes”) mostrou um resultado vitorioso, mesmo que pela margem mínima de 51%.

O que significaria uma Escócia independente? Em termos políticos, apesar da extinção do Reino Unido como o conhecemos hoje, as mudanças seriam poucas, mas em termos econômicos, isso pode abalar a estabilidade dos dois lados. Como membro do Reino Unido, a Escócia faz parte da União Europeia e mantém a Libra como moeda oficial. Se tornando independente, essas duas situações podem ser comprometidas já que a Escócia não estará mais ligada ao Banco da Inglaterra (o BC deles), e tecnicamente precisaria cumprir todas as condições para ingressar na UE já que estaria surgindo como um novo Estado, e isso é algo difícil na atual conjuntura econômica. Do lado inglês, a saída da Escócia significa uma fratura territorial (quase um terço do território) e populacional significativa.

Então por que está acontecendo esse movimento? Afinal, parece que as consequências serão majoritariamente negativas. A razão disso tudo está um pouco no nacionalismo, um pouco na economia. Os escoceses rejeitam duramente os partidos ingleses e as políticas tomadas na última década, além de assumirem um perfil mais alinhado aos países europeus continentais com políticas de bem estar social. A crise econômica enfrentada pelo país é vista como consequência dessas políticas, e com isso cresce o movimento de insatisfação. Ao mesmo tempo, os “unionistas” preferem continuar nessa condição ao afirmar que a saída do Reino Unido piorará a situação com fuga de capitais e bancos – o maior banco da Escócia já avisou que mudará para Londres caso o referendo de separação seja aprovado.

Tudo indica uma situação de completa incerteza – as porcentagens não são definitivas e tanto o “yes” quanto o “no” podem vencer; a Escócia está saindo entre outros motivos por temer a saída do Reino Unido do Euro mas pode não ter condições de ingressar por conta própria no bloco; a crise econômica, principal fator de incentivo à secessão, pode ser agravada. Com isso, a única certeza é que com movimentos mais expressivos como a Catalunha, os Bascos, a rixa na Bélgica e a crise na ucrânia, seja o Reino Unido, uma das uniões mais estáveis e duradouras do sistema internacional, que esteja sob o risco mais concreto de se fragmentar.


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100 anos depois: visões da guerra

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Cartão postal russo de 1915 simbolizando a participação dos países europeus na IGM

Cartão postal russo de 1915 simbolizando a participação dos países europeus na IGM

O legado empírico e teórico para as Relações Internacionais

A Grande Guerra, mais conhecida como Primeira Guerra Mundial (IGM), começou o período bélico do século XX, ou seja, iniciou a sequência do que viriam a ser longos anos e décadas de conflito direto ou indireto entre potências de determinadas conjunturas. Obviamente, tratam-se da Segunda Guerra Mundial (IIGM) ocorrida entre 1939 e 1945 e da Guerra Fria, a qual terminou por volta de 1990, quando, em 1989, caiu o famoso Muro de Berlim e, em 1991, finalmente ruiu o Império Soviético. Se, por esse lado, houve mais destruição territorial e desmoronamento de Estados-nações, por outro as Relações Internacionais, com letras maiúsculas, vieram a conhecer seu período de existência, propriamente dito. Momentos nos quais essa área tomou corpo como ciência e trouxe consigo os grandes debates internacionalistas. Pode-se dizer, de outro modo, que da IGM o movimento empírico trágico dos conflitos sustentou o curso expressivo teórico dessa arena mundial.

Por conseguinte, o legado empírico da IGM foi ter conformado o futuro das relações econômicas e geopolíticas entre as principais potências. O pontapé da IGM foi o assassinato do Arquiduque austríaco Francisco Ferdinando, fazendo com que a Áustria-Hungria declarasse guerra à Sérvia. Formaram-se, de lados totalmente opostos, a Tríplice Entente (Reino Unido, França e Império Russo) e a Tríplice Aliança (Império Alemão, Áustria-Hungria e Itália).

Até aqui, nada de novo na “Guerra das Trincheiras”. Entretanto, somente em 1917 os Estados Unidos entraram no conflito ao lado da Entente. Isso, inclusive, vai ser um traço característico do país: adentrar os conflitos em momentos posteriores ao seu início e sempre ter como palco territórios para além mar. Como se sabe, a Aliança foi a grande derrotada da IGM, quando, em 1918, fora assinado o Armistício de Compiègne e, em 1919, tomou forma o muito conhecido Tratado de Versalhes. Na teoria, o acordo simbolizou a “estabilidade e paz futura” nas relações intereuropeias. Todavia, na prática, proveu a culpa por todas as mazelas da guerra à Alemanha, a qual saiu derrotada e fracassada das mesas de negociação.

Adolf Hitler

Adolf Hitler

Já no final da IGM e logo após a mesma, essa postulação de vitoriosos e derrotados trouxe consigo a propagação de duas ideologias que marcaram fortemente a IIGM e a Guerra Fria, quais sejam o Nazifascismo e o Socialismo tendo como lideranças a própria Alemanha (acompanhada da Itália) e a Rússia, respectivamente. Tem-se, aqui, logo no começo do século XX, a faísca das relações interestatais procedentes. O Nazismo tornou-se ponto de apoio alemão, fez surgir lideranças como Adolf Hitler que invadiu a Polônia em setembro de 1939 e começou a IIGM. Por sua vez, o Socialismo Russo ganhou devotos e serviu de base para a criação da União Soviética, que mais tarde viria a ser um dos lados da balança no conflito frio.

A marca da Guerra Fria: o bipolarismo entre Estados Unidos e União Soviética

A marca da Guerra Fria: a bipolaridade entre Estados Unidos e União Soviética

A Alemanha também perdeu a Segunda Grande Guerra, a Europa ficou devastada e estatísticas somam aproximadamente 60 milhões de mortos nos seis anos de pleito. A Organização das Nações Unidas (ONU) surgiu logo após, em 1948, como outra tentativa de se estabilizar a paz internacional. Mas, de caráter central, da IIGM tornaram-se potências os Estados Unidos e a União Soviética, os quais duelaram, mesmo que indiretamente, na conhecida Guerra Fria. Episódios como a Crise dos Mísseis de 1962 mostram a importância do conflito que terminou por volta de 1990, quando a União caiu e os Estados Unidos saíram vencedores. De lá pra cá, o mundo viu-se unipolar, multipolar e uni-multipolar. Em pleno século XXI, cogita-se uma possível queda estadunidense frente a uma elevação constante da China comandando iniciativas a exemplo dos BRICS. O debate é recente e ficará para o futuro próximo decidi-lo. A única certeza é a de que a atual conjuntura é fortemente impactada pela IGM.

De modo paralelo, mas convergente, o legado teórico da IGM foi ter provido a criação, propriamente dita, das Relações Internacionais enquanto área de conhecimento, campo de estudos e/ou ciência. Foi em 1919, mais precisamente na Universidade de Gales, no Reino Unido, que se criou a cadeira Woodrow Wilson de Relações Internacionais, tornando-se a primeira instituição mundial a adotar formalmente a disciplina acadêmica. Essa data, inclusive, abrange o período inicial do livro de Edward Carr intitulado “Vinte anos de crise – 1919-1939”, conhecida obra retratante da geração do Primeiro Debate Teórico das Relações Internacionais: Realismo versus Idealismo/Liberalismo.

Woodrow Wilson: ex-presidente estadunidense e símbolo do Idealismo, cujo nome foi dado à primeira cátedra de Relações Internacionais em 1919

Woodrow Wilson: ex-presidente estadunidense e símbolo do Idealismo, cujo nome foi dado à primeira cátedra de Relações Internacionais em 1919

A arguição de ambos os lados vai ter como ponto de fundamento justamente o que fora dito anteriormente, ou seja, a ótica da guerra e a busca plena e final de uma ordem de paz. Teóricos como Hans Morgenthau e Raymond Aron foram fortemente influenciados pela IGM, IIGM e Guerra Fria, fatos que comprovaram e deram sustentação às suas obras literárias. Se, de um lado, realistas se baseavam nas relações entre Estados e na anarquia internacional, de outros os liberais postulavam que um mundo melhor e mais pacífico deveria ser buscado.

Dessa primeira contenda proveio o Segundo Debate Teórico das Relações Internacionais com oposição entre Tradicionalismo versus Behaviorismo por volta da década de 1950. Aqui tomou forma uma querela metodológica no se pensar “Como fazer as Relações Internacionais?”. A explicação da realidade se opunha à compreensão da mesma e o novo “pensar científico” proveu as bases para o que veio a seguir. Em 1970/80, o Terceiro Debate Teórico das Relações Internacionais, o Neorealismo versus Neoliberalismo (Neo-Neo) surgiu contrapondo nomes como Kenneth Waltz e Robert Keohane. Obviamente, novas nuances surgiram aqui, mas a velha ótica do conflito e a busca por cooperação permaneceram da herança do primeiro debate pós-IGM.

Similarmente ao legado empírico da IGM para o atual século XXI, o teórico também se encontra em constante mutação e volubilidade. Já se postula a geração de um Quarto Debate Teórico das Relações Internacionais entre Positivismo versus Pós-Positivismo. É daqui que provêm teorias como Construtivismo, Teoria Crítica, Feminismo, Pós-Modernismo, etc. Se, como dito lá atrás, a China e os BRICS colocam reticências na conjuntura geopolítica mundial, pode-se afirmar o mesmo dessas novas concepções conceituais e teóricas, posto que elas também questionam os discursos dominantes anglo-saxões das Relações Internacionais.

Permanecem a dúvida e a incerteza para com as atuais conjunturas das relações internacionais, com letra minúscula, e das Relações Internacionais, com letra maiúscula. De todo modo, temos a confiança de que a IGM carrega consigo um imenso legado empírico e teórico para essas áreas. O jargão parece senso comum. Todavia, seria infundável afirmar que a Grande Guerra não deteve aspecto central nas relações internacionais. Todo esse jogo econômico e geopolítico do século XXI fundamenta-se lá atrás, entre 1914 e 1918, justamente no nascedouro da “ciência internacional”.


Categorias: Conflitos, Europa, Post Especial, Primeira Guerra Mundial


100 anos depois: Visões da Guerra

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Réconciliation

[Franz Marc, Réconciliation, 1912]

Sobre reconciliação e transformação

Uma guerra pode ser analisada sob diferentes perspectivas. Os principais aspectos políticos, econômicos e estratégicos tendo sido apresentados em textos anteriores da série “100 anos depois: Visões da Guerra” (confiram aqui), a reflexão de hoje se concentra nos aspectos de reconciliação e transformação do conflito.

Em uma linha temporal, pode-se avaliar que qualquer conflito passa por diferentes momentos: prevenção (antes), gestão de danos (durante), e resolução e transformação (depois). Isto significa que, quando os mecanismos pacíficos de negociação e diálogo se esgotam, têm início confrontações diretas que levam ao sofrimento de todos, mas especialmente da parte que se mostra mais frágil durante os confrontos. Fatores que impactaram diretamente no pós-Primeira Guerra foram: a duração do conflito, sua quantidade de vítimas, o poder de destruição vislumbrado e as perdas provocadas por um confronto sem precedentes.

Um legado importante para esse processo, protagonizado por parte do Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV), foi a evolução no tratamento dos prisioneiros durante a guerra. Antes, no decorrer de um conflito, dificilmente poderia ser esclarecido se os soldados dados como desaparecidos tinham efetivamente morrido durante os combates ou se encontravam em poder do inimigo. Destaca-se a importância da “Agência Internacional de Prisioneiros de Guerra” no árduo processo de reestabelecimento de laços familiares entre aqueles milhares de prisioneiros que, protegidos pelo direito internacional humanitário, não mais podem constituir alvo ou “moeda de troca” durante o conflito, e suas famílias. Os esforços neste sentido culminaram na Convenção relativa aos Prisioneiros de Guerra de 1929 (arcabouço utilizado durante a Segunda Grande Guerra) que baseou a própria III Convenção de Genebra de 1949. Garantir, reciprocamente, a dignidade de tratamento dos combatentes em poder do inimigo por si só constitui um argumento importante para criar as bases futuras de reconciliação pós-conflito.

A resolução do conflito, no momento em que as partes chegam a um acordo de cessar-fogo, constitui momento essencial para o fim das hostilidades, porém representa apenas o primeiro passo de um longo caminho de transformação que deve ser percorrido pelos beligerantes para uma paz duradoura.

Conceitos como memória, perdão, verdade e justiça se enquadram no dito momento de transformação, talvez o mais complexo e demorado a ser alcançado. Entender a paz não somente como ausência de guerra (a chamada “paz negativa”), mas principalmente como construção de um ideal comum de convivência destaca-se como elemento crucial no processo de reconciliação.

Com a Conferência de Paz de Paris, em 1919, foi ainda constituída a Liga das Nações (ou Sociedade das Nações), organismo internacional multilateral destinado à meta de manutenção da paz que se desenhou no pós-Guerra, porém diante de um contexto geopolítico de grandes diferenças e desconfianças, pautado pela visão dos “vitoriosos” que logo veria uma nova ascensão de regimes totalitários. O “esboço” da estrutura da atual Organização das Nações Unidas (ONU) apresentou ideais importantes, apesar de suas dificuldades de concretização na prática, e lançou as bases para o debate sobre responsabilidades coletivas em prol da reconciliação e da paz.

Uma Europa pacificada não seria, contudo, realidade duradoura após o final da Primeira Grande Guerra, que só foi “primeira” porque não foi única, tendo sido seguida, poucos anos depois, por mais um confronto de dimensões mundiais.

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[Tradução: 1) Membro de milícia vingando a morte de seu cunhado em 1917; 2) Soldado vingando o estupro de sua prima em 1944; 3) Bebê pensando em vingar seu pai em 2023.]

A construção de uma memória coletiva em que a vingança não figura como atitude prioritária leva gerações, tal como a charge acima ilustra. Se a guerra oficialmente se encerrou em 1918, certamente na prática levaria décadas para desaparecer do imaginário popular – tempo não respeitado pela subsequente consecução da Segunda Grande Guerra.

Relembrar o ocorrido, com o grande objetivo de não reproduzir atos nefastos como aqueles perpetrados há 100 anos, constitui parte do processo de transformação ainda vivido pelo continente europeu e pelo mundo inteiro. A imagem abaixo retrata o projeto comum de paz, união e democracia por meio de um abraço carregado de simbolismo e impensável há exatamente um século.

Abraço

Os presidentes da França e da Alemanha, Francois Hollande e Joachim Gauck, respectivamente, estiveram na última semana em Hartmannswillerkopf, na Alsácia, em um monumento que marca os cem anos da declaração de guerra da Alemanha à França, local onde estão as cinzas de aproximadamente 12 mil soldados desconhecidos, cujas vidas se perderam durante os anos de conflito.

Nas palavras do general norte-americano William T. Sherman, “somente aqueles que nunca deram um tiro, nem ouviram os gritos e os gemidos dos feridos, é que clamam por sangue, vingança e mais desolação. A guerra é o inferno”. Se as consequências da guerra são dolorosas, tal como as da Primeira Guerra o foram, construir coletivamente os meios para superá-las se faz mais do que necessário. Deve-se potencializar, portanto, uma reconciliação não apenas baseada em imposições, mas principalmente na transformação de mentalidades de modo a que não mais se enxergue a guerra como uma opção e tampouco o outro como inimigo.


Categorias: Direitos Humanos, Europa, Post Especial, Primeira Guerra Mundial


Troca de parcerias

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O mundo dá voltas, e como todo bom Realista tradicional diria, o inimigo de hoje pode ser o amigo de amanhã – desde que com um adversário em comum. Exemplo clássico disso foi a Guerra Fria, quando os Aliados da II Guerra Mundial, EUA e URSS, após darem a devida sova na Alemanha, passaram a se rivalizar na ausência de um mal maior. Pois bem, os EUA passam por isso de novo neste exato momento. E em duas frentes.

Enquanto Obama autoriza seus caças a bombardearem posições do ISIS no Iraque, a OTAN suspende as ações de cooperação com a Rússia, em um claro sinal de descontentamento que remete à rusga de Moscou com Washington. Ambos os casos revelam como as dificuldades da política internacional fazem os parceiros desse jogo mudarem de lado sem aviso.

No caso da Rússia, é pedra cantada faz um bom tempo. Várias análises demonstram que Bush e Obama tentavam se aproximar de Putin enquanto o governante russo dava de ombros e se empenhava em projetos de fortalecimento interno e projeção regional. Deu no que deu, como vemos nos posicionamentos opostos na Ucrânia e na Síria. Especialmente na Ucrânia, onde o apoio velado aos separatistas faz com que um dos grandes aliados estratégicos dos EUA (lembrem que não é apenas o lado europeu – a Rússia tem grande peso no lado do Pacífico, onde fervem as águas entre Japão e China, e os EUA tem todo o interesse do mundo na estabilidade da região) acabasse se vendo do lado oposto numa disputa política intrincada e perigosa. A cereja do bolo foi o asilo concedido ao ex-analista da NSA Edward Snowden, que agora pode vir a se tornar um cidadão russo (uma baita ironia, diga-se de passagem).

No caso do Iraque, a consequência é ainda mais incrível. Se no caso da Rússia a aproximação pós-Guerra Fria está virando um descontentamento, a intervenção norte-americana pode ser o elemento que faltava para trabalhar em conjunto com ninguém menos que o centro do “Eixo do Mal” de Bush filho. Podemos retomar a culpa pela origem do ISIS na ação norte-americana desde 2002 e definir que qualquer ação no Iraque não será menos que resolver um problema que eles próprios criaram, mas a organização radical tem a capacidade de polarizar quase todo mundo contra eles, incluindo Al-Qaeda e o Irã. Os EUA não estão dispostos a mandar tropas depois do trabalho que Obama teve para retirá-las, mas o enfraquecimento do ISIS pode vir a significar uma ação efetiva do Irã para reduzir a instabilidade e dar suporte ao governo local, seu aliado.

As implicações são muitas, chegando até mesmo ao conflito da Síria (onde os EUA estão se tornando inimigo dos dois lados), logo pensar em uma ação conjunta de fato de EUA e Irã parece improvável. Porém, indiretamente, pode ser um rumo interessante para os EUA que Teerã ajude a manter a estabilidade da região, e a lenta reaproximação após a eleição de Hassan Rouhani tornou factível o que antes era impensável. No mundo da geopolítica, o pragmatismo é uma virtude.


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O jogo de culpar

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A tensão entre Rússia e Ucrânia ganhou contornos ainda mais dramáticos com a tragédia de ontem, quando um avião malaio saindo da Holanda caiu enquanto sobrevoava a Ucrânia. Os destroços fumegantes vão ter consequências muito maiores que a perda de vidas humanas.

Ironicamente, o avião é do mesmo modelo e da mesma empresa que aquele desaparecido em março desse ano no Pacífico. Porém, mais que o luto pelas perdas, e em vez de causar dúvidas pelo mistério das causas do sumiço e fazer explodir teorias conspiratórias que chegam a pensar em alienígenas, o caso do voo MH17 vai causar um impacto geopolítico seja qual for o resultado das possíveis investigações. Isso por que, ao contrário de boa parte dos acidentes dessa natureza, esse foi intencional – o avião de passageiros foi derrubado, possivelmente por um míssil, e o jogo de acusações entre Ucrânia e Rússia esquentou nas últimas 24 horas.

Antes de tudo, deve-se pensar na causa. O avião caiu na região de contencioso entre Ucrânia e rebeldes separatistas com apoio russo. Com a possibilidade de acidente descartada, resta a hipótese de abate. Algum dos lados do conflito atacou um avião cheio de civis pensando ser do inimigo. Somente um sistema de mísseis sofisticado (do tipo que precisa de vários caminhões para carregar todo o aparato necessário, dos misseis a radares) ou aviões de caça poderiam ter atingido o avião de passageiros a mais de 30 mil pés (cerca de 10 mil metros) de altitude. Isso não exclui nenhum dos lados. A grande questão nesse caso, e que agora sim começa a fazer pipocar teorias conspiratórias, é o que ganha cada lado.

Apesar da incerteza, a hipótese mais provável até o momento, segundo um telefonema interceptado pelo serviço de inteligência ucraniano, é que o rebeldes separatistas tenham abatido a aeronave. Eles teriam recebido da Rússia o equipamento necessário, e seriam o único lado interessado diretamente na derrubada de um avião inimigo – no caso, teriam pensado se tratar de aeronave militar ucraniana e atacado. Tanto Ucrânia quanto Rússia não teriam interesse algum em derrubar aviões naquela situação… mas poderiam fazê-lo? Aqui entra a conspiração, pois segundo a lógica, um jogaria a culpa no outro. A Ucrânia poderia ter derrubado o avião para por a culpa nos rebeldes (e desde o Vietnã sabemos que países forjam esses ataques para criar justificativas o tempo todo). A imprensa russa ventila ainda a hipótese de que o alvo teria sido ninguém menos que o presidente Putin, que estava voltando da cúpula do BRICS em avião que passou por rota semelhante poucas horas depois. Moscou, por seu lado, teria pouco interesse direto nesse ataque, mas podemos pensar em algo semelhante, caso tentasse botar a culpa em Kiev.

Se a motivação ou o meio são incertos, o que sabemos é que quase 300 pessoas morreram em um covarde, porém não inédito, ataque a aviões civis. A caixa-preta estaria em poder dos rebeldes, o que coloca em xeque a lisura da investigação, e a troca de acusações entre os países vizinhos parece não acabar tão cedo. Seja qual for o lado, se for comprovado que o ataque foi premeditado (que a Ucrânia acusa de “terrorismo”), mesmo que causado por um equívoco de julgamento, teremos mais uma crise que demandará uma ação incisiva da comunidade internacional, doa a quem doer, apesar de ser um daqueles casos em que se não surgir um furo de reportagem é possível que nunca se saiba o que realmente aconteceu pela escala e ardileza dos envolvidos. Nesse monte de especulação, informações desencontradas e bate-boca, é cedo para declarar a iminência de um conflito internacional, mas se torna um desfecho cada vez mais plausível – e o preço em vidas tende a aumentar.


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