O casamento do século

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A dois dias do (já chamado) “casamento do século” (apesar de estarmos apenas em 2011), a união do Príncipe William com Kate Middleton está mais em pauta que nunca na mídia. O foco em tantos detalhes, segredos, notícias, especulações e expectativas demonstra claramente o interesse midiático pelo prestígio da realeza britânica, que impressiona o mundo inteiro e, por conseqüência, tem o poder de concentrar as atenções internacionais – especialmente nas últimas semanas.

Talvez uma primeira constatação válida a este espaço seja o impacto político favorável à monarquia que os casamentos reais promovem – direta e indiretamente. E não podia ser diferente neste caso, especialmente considerando o carisma, a beleza e a juventude do casal. Segundo dados de pesquisas recentes, 67% dos britânicos pensam que sua monarquia é ainda apropriada no século XXI e 63% afirmam que o país se encontra em melhor situação com uma família real.

Contudo, também o debate antimonárquico ganha força nesta época, sendo que grupos republicanos estão preparando inclusive uma celebração ao “Não Casamento Real” para sexta-feira, voltada à “democracia e ao poder popular, e não aos privilegiados herdados”

Polêmica foi a nota divulgada pela Human Rights Foundation, reconhecida Organização de Assistência Humanitária, dizendo que este casamento real está “divorciado dos direitos humanos”. Isso se deve ao fato de controversos líderes árabes – de países como Bahrein, Marrocos, Catar e Omã – terem sido convidados para a festa. O príncipe do Bahrein recusou o convite com “com profunda tristeza” (!); convite este que não chegou para a Líbia, dada a intensificação dos conflitos no país…

Além do impacto político, em termos econômicos vê-se que o apelo turístico do casamento é notável: mais de 1 milhão de visitantes devem estar em Londres nos próximos dias. O mercado também se aquece com os mais diversos produtos relacionados, de alguma forma, ao casamento. Entretanto, há ainda críticas sobre os gastos governamentais necessários a um evento deste porte.

Estes comentários refletem um contexto internacional em que, diante de instabilidades políticas e sociais, desastres nucleares, desafios ambientais, etc., as atenções se voltam, ainda que momentaneamente, para um festejo real de impressionantes proporções. Se será efetivamente o “casamento do século”, só daqui a algumas décadas se saberá efetivamente, mas que este assunto envolve mais questões que apenas os detalhes de decoração, ah, isso é inegável…


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Invertendo papéis?

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Diante da severa crise econômica que enfrenta Portugal surgiu espaço para uma brincadeira. Será que o Brasil poderia salvar Portugal? Talvez Portugal pudesse retirar-se da União Européia e ser anexado ao Brasil, não?

Todos conhecem bem nossa história compartida. Portugal, em seus áureos tempos, foi uma das grandes potências mundiais. Entre os séculos XV e XVI, alguns países europeus lançaram-se aos oceanos com o objetivo de descobrir novas rotas à Índia e novas terras. Tal período foi denominado Era das Grandes Navegações. Neste contexto, Portugal logo encontrou destaque devido a diversas condições internas favoráveis. Tais aventuras surtiram efeitos, muita riqueza e colônias afluíram às terras portuguesas. O Brasil foi parte do esplendor português.

Desde a independência brasileira, muitos fatores levaram a um certo distanciamento entre (as antigas) colônia e a metrópole. Os ingleses, os norte-americanos e os sul-americanos foram os principais brasileiros parceiros desde então. Portugal, antes detentor de exclusividade comercial, econômica e política junto ao Brasil, viu seu papel diminuir nos rumos tomados pela terra que já acolhera sua família real. Enquanto os brasileiros viram surgir um renascimento político, econômico e social; Portugal teve seu posto de potência revogado ante aos países de crescente influência e poder em sua região, marcadamente França, Alemanha e Reino Unido. De certa maneira, Portugal nunca mais voltou a gozar do prestígio de outrora.

Voltando nossa atenção para o capítulo atual da história, fica evidente que os países tiveram seus papéis fortemente alterados. O Brasil apresenta uma economia pujante, um papel de protagonista internacional e uma governança consolidada. As grandes potências só fazem corroborar esta premissa, à medida que aumentam o papel da diplomacia brasileira nas principais temáticas internacionais. Portugal, em caminho contrário, viveu anos de baixo crescimento econômico, políticas fiscais desreguladas; que por fim culminaram no seu atual estado, um país forçado a buscar medidas de austeridade a custo de seu bem-estar social. Mais que isso, Portugal está a um passo de buscar ajuda internacional para mitigar os efeitos mais urgentes de sua crise. Dilma, em visita a Portugal durante esta semana, discutiu a possibilidade do Brasil entrar em cena e ajudar nossos “irmãos portugueses”.

A ironia da brincadeira lançada pelo jornal Financial Times reside nesta inversão de papéis. Brasil está mais próximo do papel internacional da metrópole portuguesa do século XVI, ao passo em que Portugal aproxima-se do cenário de crise que viveu sua ex-colônia por tantos anos. As crises econômicas brasileiras nos forçaram a jogar pelas regras do jogo. Nossa submissão política nos levou a décadas de ostracismo e papel diplomático restrito. O exemplo clássico de nosso papel como “país do futuro” veio por meio das medidas de austeridade impostas por credores internacionais. A libertação simbólica do Brasil ocorreu com o fim da dívida junto ao FMI. Frente à atual crise, eis que Portugal escuta de Dilma “podemos ajudar, desde que se apresentem garantias de pagamento”. Soa familiar, não?

Quem quer ajudar Portugal? Mais que isso, quem vai ajudar os portugueses comuns que sofrerão com as medidas impostas para controlar a crise? Caberá ao próximo governo português limpar o terreno, impor políticas pouco populares e enfrentar a fúria popular. Os antigos governantes – não só em Portugal – que construíram o caminho para a crise e deixaram seus países em situações lamentáveis, vestem discretamente a camisa da oposição, esperando que na próxima eleição o quadro se inverta a seu favor novamente. No meio de tudo isso, o Brasil seguirá desvendando os desdobramentos de seu novo papel como “metrópole”.


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Dança portuguesa

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A coisa anda feia na Europa, especialmente em termos de eleições – ao menos, para os que estão no poder agora. Na França e na Alemanha, seus governantes sofrem por motivos diversos o peso de possíveis derrotas políticas no futuro (no caso de Sarkozy, o desgaste já comentado anteriormente aqui no blog; na Alemanha, o temor de acidentes nucleares alimentado pelo caos japonês enfraqueceu o partido de Angela Merkel, favorável ao uso de energia nuclear). Em Portugal, contudo, o resultado é mais sombrio: a saída de José Sócrates da chefia do governo abriu uma crise institucional e assombra a UE com a necessidade de um pacote de ajuda bilionário para saldar as finanças do país.

No fim das contas, é mais uma vez o lance da crise financeira e os PIIGS, fazendo mais uma vítima. Enquanto por esses lados o Brasil é aclamado como modelo de condução econômica, na Europa os efeitos da crise ainda vão perdurar. É a vez de Portugal pagar o pato, pois nenhum político quer aceitar o ônus de fazer o pedido da ajuda européia antes das eleições previstas para o meio do ano (e convocadas justamente pela saída de José Sócrates). Afinal, se a maior parte das pessoas fica encabulada ao pedir dinheiro, quanto mais um empréstimo da ordem de 75 bilhões de euros, e que implicaria em medidas pouco populares como os cortes de gastos e enxugamento do setor público.

É um remédio amargo e necessário, mas que está sendo postergado para evitar o dano político – ou, ao menos, deixar que ocorra após as eleições. Enquanto isso, as finanças portuguesas se debilitam (e o país é rebaixado em notas de risco) e já ameaçam contaminar a ainda cambaleante Espanha – e, por extensão, a Europa como um todo. Em um exemplo de como política interna pode afetar de maneira decisiva a arena externa, Portugal dança ao som de um triste fado.


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Dor de cabeça de Carnaval

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O Carnaval, em alguns países, pode ser chamado também de Mardi Gras (do francês, algo como “terça-feira gorda”). Vê-se que existe uma relação entre a festa popular e o país europeu, mas essa época do ano tem sido pouco festiva para eles.

Para variar, o tema do momento, as revoltas árabes. A França, que sempre esteve muito envolvida na política do norte da África, mesmo após a descolonização, está intimamente envolvida com seus desdobramentos. E isso, via de regra, está trazendo dores de cabeça para a França, graças a suas relações no mínimo “amistosas” com ditadores da região. É o tipo de relação que falei em meu último post: um ditador pode ser tolerável desde que útil, e os interesses empresariais e militares dos franceses caíam como uma luva nos favores prestados à trupe de Kadafi e companhia. Isso já causou até uma baixa política na França, quando a ministra das Relações Exteriores se demitiu por ligações com o regime de Bem Ali, da Tunísia. E lembram do Rafale, o elefante branco voador que a França tenta vender a todo custo e que, ao que parece, nem o Brasil dá mais garantia de compra? Pois é, a Líbia já havia encomendado um lote em acordo de defesa bilionário, mas parece que nunca serão entregues. Ops. Com essas revoltas, por um lado, a França é obrigada a rever seus posicionamentos e por vezes ter sua imagem “arranhada”; por outro, perde influência com o surgimento de novos atores na região.

O maior culpado por essa crise política, segundo os franceses, é o próprio presidente Sarkozy. Considerado impulsivo e orgulhoso, coleciona problemas econômicos, equívocos em negociações e gafes diplomáticas, além de ter que lidar com a acidez da opinião pública. A decisão de deportar os ciganos, por exemplo, trouxe indignação internacional e críticas internas (até mesmo dos favoráveis à ideia). O país se recupera relativamente bem da crise econômica, mas persiste o drama da previdência e a inflação sobe a galope, puxando a da União Europeia junto. Por fim, há uma crise moral na política francesa – para se ter uma ideia, o caso mais alarmante é o julgamento do ex-presidente Chirac, acusado de corrupção na prefeitura de Paris (vejam que chique, funcionários fantasmas com sotaque francês!).

O governo é quem pagará o preço por tudo isso – e pesquisas já apontam um crescimento da extrema-direita (aquela que sempre ressurge das cinzas quando há crise e se precisa agarrar à solidez de instituições mais tradicionais). A filha de Jean-Marie Le Pen (lembram dele?) já poderia beliscar o primeiro turno nas eleições de 2012. Nada definitivo, claro, mas fica o alerta. Um desenvolvimento desses poderia ter suas implicações desde o processo de democratização norte-africano às políticas agrícolas europeias. É bom prestar atenção nessa França cheia de problemas…


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Jogando pelas regras

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Agora é pra valer – após a morte de centenas (milhares?) de cidadãos, pelas mãos de mercenários ou sob o fogo de aviões de combate, o malvado ditador Kadafi não escapará do punho da justiça internacional! Mesmo com suas bravatas e seu país em uma guerra civil informal, a aguardada resposta internacional está a todo vapor e tende a consolidar a pressão sobre o ditador no que mais aflige a essa classe de governantes: o bolso. Nada de invasões ou coisa parecida (os norte-americanos parecem ter aprendido algo nos últimos 9 anos…): EUA e UE já estão com as sanções prontas, incluindo proibição de viagens, embargo de armas e fechamento de espaço aéreo. Com a chancela do CS, a ONU já clama por ações concretas – e o promotor Luis Moreno-Ocampo, do Tribunal Penal Internacional, aquele que conseguiu emitir um mandado de prisão contra o presidente do Sudão, já prepara a papelada de acusação de crimes contra a humanidade. A isso se somando a conquista pela oposição de cada vez mais territórios, parece que Kadafi não terá muita saída a não ser se tornar o mártir que tanto vocifera.

Mas até que enfim os Amigos da Justiça resolveram agir hein? Estranho, pois imagino que não seja de hoje que Kadafi trate com essa delicadeza seus súditos. Foram necessárias tantas atrocidades para que a comunidade internacional agisse? Ou é apenas uma resposta a essa coisa do momento, a tal “Primavera Árabe”? Um pouco de cada. A verdade é que todos estão caindo sobre Kadafi com paus e pedras pelo fato de ele ter “violado” as regras do jogo internacional. Vejam bem, a um ditador pode ser tolerado pela comunidade internacional, desde que seja útil ou não atraia muita atenção para si. O caso da Arábia Saudita é o mais notório: o rei Abdullah não é o maior entusiasta da democracia, mas quando começaram os protestos, eis que o dinheiro jorrou e os ânimos populares foram acalmados. A monarquia autoritária prossegue, não mancha sua imagem com o sangue de inocentes (ao menos às vistas…) e continua amicíssima dos EUA. Esse parece ser, por sinal, o destino de boa parte dos governos autoritários da região: o temor de levantes e desgaste com a comunidade internacional simplesmente faz com que optem por algumas reformas ou agrados que aliviem as tensões sociais. No jogo internacional, as rodadas ao bem demoradas, mas até quando funcionará? Quem sabe.

O fato é que Kadafi já não era o governante mais bem-quisto no Ocidente, seu regime é notório financiador do terrorismo e muitos países não hesitariam em retirá-lo do poder por bem ou por mal – só lhes faltava a oportunidade, dado que há muitos interesses conflitantes, especialmente de empresas, na região. Todavia, Kadafi fez a gentileza de oferecer-lhes não apenas essa chance, mas de fazê-lo com o aval da comunidade internacional e sob a bandeira da defesa dos direitos humanos, e provavelmente é um caminho sem retorno.


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O futuro da estabilidade

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Nas últimas semanas, temos acompanhado a história sendo feita no Egito. Assim como na Tunísia, um “ditador” foi devidamente defenestrado e o mundo aplaude o espírito democrático e a força de vontade do povo egípcio, representado pelos milhares que acamparam na praça Tahrir. Agora, restam algumas incertezas. Internamente, Mubarak delegou o poder a uma junta militar, a qual dissolveu o congresso (corrupto), suspendeu a Constituição e governará o país enquanto não saírem os resultados das eleições daqui a seis meses, além de remover o estado de exceção quando as coisas se normalizarem na capital. Enredo parecido, mas de final provavelmente diferente das costumeiras ditaduras latino-americanas. No Egito o exército parece gozar de alguma aprovação popular (dada sua recusa em enfrentar os manifestantes e o apoio dado durante o sumiço da polícia), e os generais não parecem inclinados à ingrata tarefa de governar um Estado-abacaxi, além da pressão dos EUA.

Isso nos leva ao segundo plano de incertezas. Os acontecimentos no Egito influem de modo importantíssimo nas relações de estabilidade e segurança regionais, e por isso merece especial atenção dos EUA, Israel e União Europeia. O Tio Sam já abriu o olho e busca coordenar na medida do possível sua imagem de aliado e consecução de um governo democrático na esteira dos militares – mais importante que a manutenção da histórica aliança com Cairo, é manter afastado o partido radical islâmico mais antigo do mundo. Em troca da manutenção de polpuda ajuda militar, certamente o próximo governo não deixará de atender a algumas sugestões dos EUA. Ainda assim, pesa a contradição em suas políticas, visto que persiste o apoio velado a regimes nada democráticos (como Arábia Saudita) e até mesmo contestados (como o Iêmen).

Quanto a Israel, o país está praticamente isolado: seus aliados islâmicos aos poucos se foram, estando a Jordânia imersa em problemas, a Turquia ainda desgostosa com a crise do ataque ao navio de ajuda humanitária em Gaza, e o Egito agora uma incógnita. Dependem do próximo governo egípcio a continuidade de acordos de paz com Israel, e talvez não seja exagero dizer, a própria paz no Oriente Médio – com as negociações com os palestinos paralisadas e a constante sombra do programa nuclear iraniano, um hipotético isolamento total de Israel pode ter conseqüências das mais tenebrosas.

Já a União Europeia enfrentaria problemas de natureza um pouco diferente, mas ligados ainda assim aos fatos recentes: os ventos da democracia, inspirados por tunisianos e egípcios e que se espalham pelo Oriente Médio e norte da África, podem sim ter suas conseqüências no sul da Europa. No aspecto da segurança, se as revoltas gerarem conflitos ou falharem na implementação de reformas sociais, podem gerar refugiados que atravessam o Mediterrâneo para desembocar em praias italianas ou francesas (como já está acontecendo com tunisianos). Por outro lado, há um problema político com a conivência de alguns países com certos regimes (notavelmente o francês, que mantém boas relações com ditadores do norte da África), que escandaliza a opinião pública europeia e tem seus reflexos em eleições vindouras.

Felizmente, a situação parece encaminhada para uma transição pacífica e democrática. Resta-nos aguardar (e torcer) para que esse belo desenvolvimento político se reflita em maior estabilidade na região.


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Qual o preço da esperança?

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Esta é uma pergunta difícil, ainda mais nestas eras divididas entre a incerteza – não apenas econômica, mas política – e a perspectiva de mudança. O incerto pode tanto ser o ponto de partida da mudança, como conseqüência dela. Quatro eventos são de interesse deste post: os atentados na Rússia, o novo premiê libanês e as manifestações na Tunísia e no Egito. Como mudar e o que esperar?

Ontem, a Rússia esquentou. Um atentado terrorista no aeroporto de Domodevo, em Moscou, matou 35 pessoas e deixou 180 feridas. Nenhum grupo assumiu a autoria do atentado, sabe-se apenas que foi um homem-bomba e se suspeita que provenha do Cáucaso. Tal ato pode ser interpretado como uma pressão por parte de militantes separatistas para a independência de Estados do norte do Cáucaso e frear as ambições de Putin, que pretende voltar à presidência, com seu discurso de contenção dos separatismos pela violência.

No Líbano, o negócio está bem confuso. Uma hora, o país é cristão, noutra, é islâmico. Quando é islâmico, vem o impasse entre xiitas e sunitas. Nesta terça, os seguidores do ministro interino Saad al Hariri (sunita) protestaram contra a nomeação do novo premiê, Najib Mikati (xiita) (vejam o seu perfil), que é apoiado pelo Hezbollah. O protesto foi intitulado como o “dia de fúria”, em resposta à queda de Hariri do cargo, há duas semanas, quando o grupo político e paramilitar (para muitos, também terrorista) deixou de apoiar o governo em vigor.

Tunísia e agora o Egito retratam uma realidade interessante: a sociedade está se levantando do jugo do tempo e decidindo o próprio destino. Os protestos na Tunísia culminaram na renúncia do presidente Zine Al-Abidine Ben Ali e servem de exemplo para os egípcios. Hosni Mubarak está no poder desde 1981, seis a mais que Ben Ali. A síndrome faraônica, de governos vitalícios, pertence à história. À custa de muita revolta, o povo luta pela nação que construiu.

Diante do quadro que se esboça, percebe-se que a mudança é conduzida de modos diferentes, seja por meio da prática do terrorismo ou pela própria sociedade, travando lutas sangrentas. É natural que, no espírito evolucionário, a humanidade sempre busque a mudança – e para melhor –, todavia, quando dela se distancia, recorre a meios mais complexos, variando no preço a ser pago pelo que se esperar.


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Ano Novo, vida nova

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As festividades de Ano Novo são oportunidade ideal de confraternizar, refletir sobre o ano que passou e fazer planos para o ano vindouro. Também são momentos em que qualquer deslize pode trazer problemas como ressaca e ganho de peso. Bem, podemos fazer uma analogia com relação à economia mundial que se apresenta no momento para o ano de 2011.

Existe motivo para festa, em certo grau. Ao menos, na zona do Euro. Os últimos três anos foram marcados por crise financeira e o risco do bloco ir para o buraco. Eis que, surpreendentemente, um país relativamente humilde se comparado a outros membros do bloco, mas com déficit controlado com esmero, a Estônia, acaba de entrar para o Euro e dá novo fôlego e esperança à combalida moeda européia. Mesmo a Alemanha, rodeada de países em crise, conseguiu ter em 2010 o maior crescimento de seu PIB desde a queda do Muro de Berlim e já prevê altas nos salários em 2011. A crise européia passou? De modo algum. Mas tem solução ainda, e os convidados dessa festa têm que tomar cuidado com a bebida do déficit público e exagerar no remédio da austeridade.

Por outro lado, os países que enfrentaram bem a crise já sentem um irônico clima de fim de festa. Isso por que suas economias continuam aquecidas, até demais, e começa a surgir o temor da inflação. A estrela desse grupo, a China, já sofre com altas de juros e economia aquecida. O fantasma da inflação ronda não apenas o Império do Meio, mas a maioria dos mercados que andam relativamente bem, incluindo o próprio Brasil (claro que em menor grau – nosso país é um caso sui generis em termos de regulação financeira e corre um pouco menos de risco que os demais). Por isso, esses países se vêem forçados a acabar “mais cedo” com sua festa.

Por fim, o único que continua cambaleante, uma mistura de embriaguez de gastos públicos com surra da crise econômica, é o principal convidado da festa, os EUA. País que mais sofreu com a crise, ainda vai ter que arcar com pesados cortes de gastos internos e uma grande instabilidade política. Esse 2011 promete ser desafiante para todos.


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Comemoração especial

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Pois é, parece que, pelo menos para Cesare Battisti, as comemorações deste Ano Novo serão muito mais felizes após a decisão oficial do governo brasileiro de negar sua extradição para a Itália – assunto que tem gerado polêmica há anos e que hoje parece ter visualizado seu desfecho. (Ou não…)

Esta batata quente que tem sido motivo de tantas discussões e opiniões divergentes a respeito da condição de refúgio do italiano Battisti representa um tema repleto de idéias caras às Relações Internacionais. Em meios informativos diversos, os conceitos de soberania, humanitarismo, refúgio político, relações bilaterais, etc., se tornaram recorrentes. E quando o (quase ex-)presidente Lula afirmou que a decisão final do governo a este respeito seria tomada antes do final de seu mandato, as expectativas se aguçaram ainda mais em torno do aguardado desfecho para o destino desta figura que se tornou tão conhecida internacionalmente nos últimos tempos.

Apenas para relembrar, toda a polêmica diz respeito ao fato de que Battisti foi condenado à prisão perpétua na Itália pelo assassinato de quatro pessoas na década de 70, tendo fugido para a França e posteriormente se abrigado no Brasil sob a condição de refugiado (detalhe para o fato de que o Comitê Nacional para os Refugiados no Brasil discordou da decisão do Ministério da Justiça a este respeito). Desde 2009, esta tem sido uma questão delicada em termos diplomáticos entre os governos brasileiro e italiano, sendo que neste mesmo ano o Supremo Tribunal Federal votou (em sua maioria) pela extradição de Battisti, decidindo, no entanto, que o parecer final deveria caber ao presidente Lula. (Veja um histórico mais detalhado aqui.)

Após mais de um ano de incertezas, adiamentos e repercussão midiática, a decisão de Lula representa um momento paradigmático para as relações bilaterais entre Brasil e Itália. (O parecer oficial pode ser lido integralmente aqui.) O principal argumento brasileiro para negar a extradição de Battisti se pauta na “condição pessoal do extraditando”, a partir das disposições do Tratado de Extradição firmado entre os dois países em 1989.

Apesar de o Ministério das Relações Exteriores insistir na soberania da decisão e afirmar que as relações bilaterais não serão afetadas, percebe-se um claro estremecimento diplomático em relação à Itália neste sentido, sendo que suas conseqüências são imprevisíveis. A repercussão nos jornais internacionais sugere que talvez o que aqui chamamos de desfecho não possa ser definitivamente reconhecido enquanto tal…

Apesar dos aspectos de Direitos Humanos, cuja importância mostra-se inegável na tomada de qualquer decisão, é preciso reconhecer que esta questão representa uma polêmica notadamente política, em que as partes têm buscado o reconhecimento de sua soberania e de seus interesses acima de qualquer justificativa humanitária. Considerando que o assunto provavelmente ainda deverá proporcionar polêmicas futuras, por ora a única certeza é que o Ano Novo será especialmente comemorado por Battisti…


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Tutti bonna gente

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O premiê italiano Silvio Berlusconi sem dúvidas é uma figuraça. Guardadas as devidas proporções, seu papel na Itália seria mais ou menos como se Silvio Santos virasse presidente do Brasil – um dono de grande conglomerado midiático entrando na vida política, cheio de carisma. Político à moda antiga, como não se fazem mais, bonachão, e até onde se percebe um bagre ensaboado. Segundo Umberto Eco, seria um “zumbi perigoso”. Podem pairar todas as dúvidas e suspeitas, ele tem como se safar, seja de escândalos sexuais a envolvimento com a máfia. Bem, isso pode estar chegando a um fim amanhã, quando serão votadas no Parlamento e Senado italianos moções de apoio e de censura ao primeiro-ministro. Caso haja resultado negativo em algum desses, Berlusconi terá de renunciar – uma das interessantes facetas do sistema parlamentar.

Bem, o que esperar? É impossível prever o resultado, e há quem diga que o futuro de Berlusconi dependerá de um voto. Por seu lado, o premiê solicita que seja dado esse voto de confiança para evitar que os problemas econômicos na Itália aumentem – convenhamos que trocar de primeiro-ministro no meio de uma crise de endividamento não é algo que ajude.

A crise na Itália é uma das piores na Europa, tanto política quanto econômica. Apesar de no momento inicial de crise do Euro, com o problema da Grécia, a Itália ter sido um dos PIIGS com situação menos preocupante (comparando com Irlanda e países ibéricos), o país possui agora uma das maiores dívidas do continente. Por outro lado, politicamente, já se abriram investigações sobre corrupção em seu governo e atritos internos podem levar, mesmo que não perca a cadeira de primeiro-ministro, à perda do controle político de sua coalizão.

Não bastasse isso, Berlusconi ainda teve que aturar os vazamentos do Wikileaks, que revelaram uma interessante relação de admiração mútua, favores e acordos secretos com sua contraparte russa, Vladmir Putin (ao que congressistas exigem explicações).

Bem, as coisas parecem agitadas na Itália. Saindo Berlusconi de cena, abre-se um vácuo de poder que potencializa a crise financeira. Se continuar, enfrentará oposição, desconfiança e o desafio de por o país nos eixos. Mas nada que um boa-vida como Berlusconi não tire de letra – afinal, de farra ele entende.


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