União Europeia: o que vem pela frente?

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Há tempos em que tento escrever alguma coisa sobre a União Europeia (UE), mas as ideias nunca vão para o papel (ou para o blog, né, melhor dizendo). E até o presente momento não sei por onde começar e nem para onde ir, exatamente idêntico ao futuro do bloco. Sem rumo e sem futuro, talvez. Talvez, sim, porque começo este texto já dizendo: acredito piamente na UE e todos os outros processos de integração regional deveriam fazer o mesmo. 

Vamos por partes. Falarão que a Europa está falida, esburacada, sem pé nem cabeça. E isso é verdade…em partes. Em partes porque mesmo com a crise do euro e os altos índices de desemprego que, atualmente, estão na casa dos 10%, a região mantem-se unida, e o melhor exemplo disso é a anulação de qualquer desmembramento da UE. Muito pelo contrário, ela continuou a aderir novos membros. Croácia, Macedônia, Islândia e Turquia estão em processo de negociação, esta última é um caso à parte, mas o restante entrará na organização num futuro bem próximo. 

Falarão que qualquer bloco regional admite novos membros. Não é verdade, entretanto, isso é um fator crucial para qualquer processo de integração. Tiro este pensamento de um texto que li recentemente, de autoria de Philippe Schmitter, professor emérito do Instituto Universitário Europeu. Não é meu intuito ter um pensamento reducionista, contudo, tal autor detém umas ideias excelentes, embora seja, às vezes, um pouco eurocêntrico, chegando a afirmar que a única integração regional existe na Europa e, no restante do mundo, há somente cooperação regional. Inclusive, discordo totalmente desta afirmação, mas voltemos ao foco do texto. 

Falarão que a UE está chegando ao fim porque não existe mais identidade entre seus membros. E desde quando integração reside somente em identidade? Ela é fruto muito mais de interesses do que qualquer outra coisa. Se tomarmos teorias de integração regional, por exemplo, o Intergovernamentalismo neoliberal, ou até mesmo o Neofuncionalismo, veremos que o interesse do Estado e de outros atores não centrais está presente no cerne da questão. 

Falarão que a Alemanha e a França “mandam” na Europa. Não existe um único bloco regional no mundo em que todos os membros possuem igualdade econômica. Por isso mesmo, membros menos desenvolvidos almejam a integração para poder cooperar e arrecadar fundos para sustentar suas economias internas e, com isso, aumentar seus poderes de barganha. Mesmo assim, a liderança intra-bloco é extremamente necessária. Vão dizer que os Estados Unidos e o Brasil não fazem ou fizeram isso no NAFTA e no MERCOSUL, respectivamente? 

Falarão que a UE não conseguiu sustentar a formação de um órgão supranacional e que foi afetada por forças externas. E qual é o bloco regional que não sofre alterações e pressões vindas de fora? A Europa conseguiu fazer frente aos Estados Unidos e ao Japão na década de 1990 e, neste momento, nem sequer era fonte de crítica por parte da comunidade internacional. Somente agora, com a crise de sua moeda, as vozes voltaram-se contra o criador. 

Falarão, novamente, que a região está acabada e imersa em conflitos. Mas isso é da natureza de qualquer bloco regional. Ele é firmado, sim, num processo de construção da cooperação e da paz, contudo, os conflitos são possíveis e sempre acontecem. Neste caso, a crise econômica tomou o corpo de tudo e vem levando na mão o peso da união monetária. E falarão que a UE nunca imaginou passar por tamanhos problemas e concordo plenamente com isso. Só que devemos ter em mente que qualquer bloco regional não é um produto em si, somente um processo. Processo, este, que não sabemos para onde vai e nem que fim terá. Tomara que a UE não tenha fim, pois se eu fosse qualquer país ou governante que estivesse num bloco regional, teria meus receios de ver como está a Europa e como estaria a minha região em qualquer momento futuro. 

Acreditemos, pois, na reestruturação e na sobrevivência dos atuais 27 membros da União Europeia! Mesmo que seja por uma questão de fé ou de razão, em inúmeros casos, acordos e instituições, a Europa ainda deve ser tomada como exemplo. Por seus acertos e, principalmente, por seus erros. É assim que confio em uma nova UE, para não cometer as mesmas ignorâncias que realizou nos últimos anos. Mas isso é papo para outra conversa…


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Luta azeda

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Boxe não é exatamente o esporte mais civilizado que existe, mas é uma das analogias a que se refere quando queremos falar de eleições. Existem regras na luta, e um certo charme no evento em geral. Porém, estamos chegando a um ponto em que as eleições estão virando um vale-tudo, mas sem a punição por golpes abaixo da cintura. Basta ver o lamaçal que está virando a eleição presidencial francesa, com o Kadafi voltando do túmulo pra aterrorizar Sarkozy, acusações baixas e uma nada saudável tendência à polarização entre extremas esquerda e direita que não vai dar em coisa boa qualquer que seja o resultado. 

Agora, e quando uma luta acaba, os pugilistas voltam pra casa mas um deles decide se vingar indo com alguns capangas e pegando o outro desprevenido no caminho de casa? A imagem é exagerada, mas meio que mostra o que está acontecendo na Ucrânia. Já tivemos a oportunidade de falar sobre Yulia Timoschenko por aqui – ela foi uma das protagonistas de uma revolução não-violenta em 2004, quando junto de Viktor Iuchenko desbancaram uma eleição fraudulenta e se tornaram primeira-ministra e presidente. O problema é que em 2010 eles já não eram tão amigos assim e viraram rivais no pleito daquele ano, em meio a denúncias de corrupção. O resultado foi a vitória de Viktor Ianukovitch, o mesmo que haviam derrubado em 2004, e o castigo veio a galope – no mesmo ano ela foi removida do cargo com uma moção de desconfiança do Parlamento, e foi aberto um processo por abuso de poder contra ela. Em outubro do ano passado ela foi condenada a 7 anos de prisão e a devolver o dinheiro que obteve por meio de sonegação. 

Esse é o problema atual. Timoschenko não é nenhuma santa, como oligarca do petróleo que é, mas analistas e observadores europeus dizem que o processo deveria ser revisto; segundo a Anistia Internacional, a prisão foi de cunho político – uma vingança tardia de Ianukovitch? Timoschenko é sua maior opositora, e diz que o judiciário está fabricando acusações. A imagem negativa do caso piorou na semana passada, quando soltaram imagens de Timoschenko com hematomas pelo corpo (teia sido espancada na prisão, quando tentaram levá-la à força para um hospital), e ela adotou a moda sul-americana, fazendo greve de fome. 

Isso vai render muitos problemas para o governo, que já enfrenta atentados à bomba (segundo os mais paranóicos uma tentativa do governo de distrair a mídia do caso da ex-primeira-ministra) e está prestes a sediar um evento esportivo de grade calibre, a Eurocopa (em parceria com a Polônia). Muitos líderes e ministros europeus já confirmam o boicote ao campeonato de futebol, e isso seria um golpe terrível ao prestígio do governo atual. Esse é apenas mais um round dessa luta pelo poder, que às vezes se traveste de eleição, com todas as conseqüências danosas em longo prazo…


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E às vésperas do Dia do Trabalho…

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…a Espanha registra os maiores índices nacionais de desemprego dos últimos vinte anos! Mesmo que novidades sobre a crise europeia não sejam mais tão “novidades” assim, os números espanhóis são alarmantes e ilustram uma triste realidade sem perspectivas de mudanças nos próximos tempos. 

Hoje foi divulgado um índice de aproximadamente 25% de desemprego na Espanha: quase 6 milhões de pessoas em meio à população economicamente ativa estão em busca de trabalho (estimativa do primeiro trimestre de 2012), sendo que grande parte deste número é composta por mulheres e jovens. O gráfico abaixo, do Instituto Nacional de Estatísticas da Espanha, retrata uma situação bastante complicada no contexto espanhol, com um forte quadro recessivo. 

Outra má notícia nesta sexta para os espanhóis foi ainda o rebaixamento da nota da dívida do país pela Standard and Poors – um dos principais indicadores econômicos reconhecidos internacionalmente e que determinam o grau de confiança para os investimentos externos em um país. Como consequência de todo este contexto de instabilidade e desemprego, a nota foi rebaixada para BBB+. De fato, a economia do país não anda nada bem e medidas de austeridade são implementadas – para insatisfação ainda maior da população, que vê os setores de educação e saúde prejudicados. 

O feriado de 01 de maio deste ano certamente não representa para a Espanha um dia tranquilo ou a ser comemorado. Uma série generalizada de protestos está sendo programada para este dia pelos sindicatos e trabalhadores espanhóis. O objetivo: criticar as reformas que vêm sendo adotadas pelo governo e exigir uma solução negociada da crise. A União Europeia mostra sua força e, ao mesmo tempo, fraqueza como bloco, no sentido de que – mesmo com as atuais enormes desigualdades internas face à crise – a política fiscal não é adaptada e cada país deve encontrar seus próprios meios de cumprir com as responsabilidades assumidas. Força porque, mesmo em meio à crise, o bloco busca manter sua estabilidade internacional. Fraqueza porque, para alcançar este objetivo, frequentemente a população dos países afetados é que sofre diretamente com as medidas de austeridade adotadas. 

E, finalmente, a Espanha volta às próprias origens do Dia do Trabalho – historicamente criado em homenagem às conquistas dos trabalhadores por meio de manifestações nos Estados Unidos em 1886 e em várias partes do mundo nesta mesma época. Quase 130 anos depois, mudam os atores e o contexto, mas persiste a necessidade de reivindicações por melhores condições de vida. 


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"Change" ou "Changement"?

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Está mais pra changement do que para change. Vou explicar. Faltam poucos dias para o primeiro turno das eleições presidenciais francesas e o candidato do Partido Socialista, Francois Hollande, está liderando as pesquisas de intenções de votos contra o atual presidente, Nicolas Sarkozy. Já nos EUA, depois de Mitt Romney ser oficializado como o republicano que disputará as eleições em Novembro, o atual presidente, Barack Obama, está liderando as prévias. Ou seja, a mudança está mais para o caso francês do que para o norte-americano, por isso a pergunta feita anteriormente. 

Há tempos que Sarkozy vem perdendo voz na França. Quando iniciou seu quarto ano de mandato, em 2011, registrou os índices mais baixos de popularidade de um chefe de Estado francês, estando na casa dos 28%. Ao contrário, Hollande tomou “corpo de político” e fortaleceu a base aliada para fazer frente ao atual presidente. O cenário tornou-se propício para uma mudança de governo: tensão política francesa, queda do poder carismático do líder, crise econômica na Europa… Existem indícios de que, em um segundo turno, Hollande massacraria Sarkozy. Alta probabilidade de changement

As prévias eleitorais norte-americanas também vinham sendo feitas há tempos para ver quem seria o rival do Obama. Sempre a mesma história: inúmeros políticos aparecendo na televisão, realizando discurso e toda população acenando com bandeirinhas atrás do palanque. É quase tão chato quanto a propaganda eleitoral no Brasil, mas vamos ao que interessa. Foi deste modo que o republicano Romney oficializou-se como candidato e, mesmo que as eleições estejam datadas somente para o final do ano, vem ganhando considerável paridade com o atual presidente. Ainda é cedo para afirmar algo e dois pontos serão centrais para os resultados: Obama deve se apoiar novamente no desastre que foi o governo Bush e Romney provavelmente pegará as promessas não cumpridas do “Yes, we can!” para angariar votos. Baixa probabilidade de change

Dois casos distintos, mas duas faces da mesma moeda. Sarkozy já mostrou que teve um governo fraco e Obama não evidenciou tudo aquilo que disse em sua campanha eleitoral. Mudanças lá e, talvez, mudanças futuras aqui.


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Conversando com a Teoria

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Estamos chegando a um momento importante de nossa coluna. Nos últimos tempos, estivemos trabalhando com as vertentes mais debatidas nos anos 80 e 90, o chamado debate neo-neo, e com a adição do neomarxismo, completamos as principais vertentes do mainstream das Relações Internacionais nas últimas décadas. O estudo de caso de hoje é bastante importante nesse sentido, já que é um assunto que já foi tratado sob o enfoque das outras teorias. 

Relembrando, para os neoliberais, a crise atual do continente europeu seria mais um reflexo do seu processo de interdependência, enquanto para os neo-realistas reflete padrões de poder regional, com a prevalência de cálculos políticos sobre os econômicos e interesses internos sobre os institucionais. E o neomarxismo? 

A vertente que cai como uma luva para essa análise é o sistema-mundo. Vejam como se configura o quadro da crise europeia: tudo começa com a importação de uma crise externa (a dos bancos dos EUA), passando pelo desequilíbrio fiscal dos PIIGS, a esquizofrenia dos bancos nacionais e a perspectiva tenebrosa de um fim melancólico para o bloco mais exitoso da história. Todos esses elementos possuem uma explicação sob a ótica da polarização econômica, política e social proposta por esses autores que trabalhamos nas últimas semanas. A dinâmica entre Europa e Estados Unidos, que estremeceu as bases, mostra como mesmo entre as regiões centrais do sistema internacional podem existir atritos e pressões (ou “infecções”…) quando entra em jogo a economia. Isso era de se esperar, mas quando vemos a situação interna da Europa que a coisa fica feia: vemos ao vivo a formação (ou melhor, degradação…) de áreas de Estados semi-periféricos, como a Grécia (que no momento está inserida numa área central, mas apresenta características de periferia).

Aliás, o exemplo grego seria emblemático da perversidade desse sistema: má administração interna à parte, o sistema que havia na Europa dava a impressão de permitir uma melhora ou evolução do Estado grego em termos de poder e economia, mas quando a coisa apertou, esse “vôo da galinha” foi abortado e os vizinhos pouco podem (ou querem) fazer para que essa degradação em semi-periferia ocorra. Com isso, está havendo a geração de bolsões de desigualdade na Europa; não que não existissem, mas agora ainda mais acentuados (basta ver como Alemanha e França estão conseguindo prosperar), que transferem poder e recursos para o centro. Mais ainda, a tendência é que permaneça esse padrão de distribuição irregular. Isso redunda depois em problemas como crises de imigração e acirramento de ânimos, que põem em cheque a própria integração europeia. 

Essa é uma análise breve e que certamente não explora a riqueza de possibilidades ou a profundidade exigida para a questão, mas que mostra como o pensamento neo-marxista, em especial a teoria do sistema-mundo, tem sua valia para um caso contemporâneo. Até a próxima!


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Bósnia, 20 anos depois: uma guerra inacabada? [Parte 2]

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[Este é o segundo post de uma série de três a respeito da Guerra da Bósnia, iniciada há 20 anos e cujas consequências são visíveis até hoje. Acesse aqui o primeiro texto para acompanhar a sequência.]

Srebrenica, a proteção que não existiu… 

Srebrenica. Uma cidade que será para sempre associada às terríveis lembranças de um genocídio, de uma falsa sensação de proteção, de um sentimento inexplicável de desumanidade. Ao entrar na cidade e encarar imediatamente o memorial em homenagem às milhares de vítimas, faltam palavras para comentar o quão pesado o ambiente se torna… a forma como tudo em volta parece reforçar a dicotomia cotidianamente implícita entre a pequenez de cada ser humano e a grandiosidade das consequências que seus atos podem adquirir – para o bem ou para o mal. 

A título de contextualização, Srebrenica foi o palco de um dos acontecimentos mais marcantes durante a Guerra da Bósnia (senão o mais marcante). Em Julho de 1995, 8372 Bosniaks (bósnios muçulmanos) foram “selecionados” em meio aos milhares de refugiados que se encontravam na cidade para serem executados pelas forças sérvio-bósnias, lideradas pelo General Ratko Mladic. [Veja breve histórico em inglês aqui.] 

A intenção clara de eliminar um grupo específico (homens e meninos – acima de 12 anos – muçulmanos) e o consequente massacre cometido pelas forças militares da Sérvia são elementos que permitiram à Corte Internacional de Justiça caracterizar “formalmente” a violência cometida em Srebrenica como genocídio, apesar das constantes discussões conceituais no âmbito do Direito Internacional. 

Srebrenica representa o maior massacre vivenciado em território europeu após o Holocausto durante a Segunda Guerra Mundial, no contexto de uma guerra que perdurou por três anos e devastou a Bósnia, marcando tristemente a história dos Bálcãs. E em meio a tantos aspectos que poderiam ser apontados na análise deste caso, uma dimensão específica merece ser destacada: o (não) papel das Nações Unidas e da comunidade internacional. 

Uma das maiores contradições que permeiam o caso de Srebrenica é o fato de que em 1993, a cidade foi declarada zona protegida (em inglês, “safe haven”) pela ONU. Desta forma, de 1993 a 1995, as Forças de Paz (Peacekeeping) se encontravam no local (com um contingente absolutamente limitado de soldados holandeses) para proteger uma população que se aglomerava aos milhares. Diante do anúncio de proteção internacional, Srebrenica se tornou, em um dado momento, o destino de aproximadamente 40 mil refugiados advindos de todas as partes da Bósnia. 

Entretanto, com recursos extremamente limitados, apenas 5 mil refugiados que se concentravam na cidade receberam auxílio em um galpão sob responsabilidade da ONU. Hoje conservado como parte do Memorial, o galpão exala a impotência e, principalmente, a ineficiência internacional em lidar com a situação. Quando parte dos Peacekeepers foram feitos reféns em estratégia militar sérvia, a esperada “proteção internacional” que já era absolutamente frágil se tornou inexistente, complacente, indiferente. Em julho de 1995, o caos foi instaurado na cidade com a ofensiva sérvia. 

Ao escutar as impressões de um guia que sobreviveu ao genocídio após ter optado, ainda menino, fugir pelas montanhas (como muitos, aliás, sendo que a maior parte não foi bem-sucedida), a impressão que fica é que a população local foi “traída” pela comunidade internacional. A esperança de proteção logo se tornou ilusão – ou pesadelo.

No cemitério (em frente ao galpão), foi estabelecido um Memorial com os nomes de todas as 8372 vítimas do genocídio (foto acima). Contudo, nem todos os corpos foram ainda encontrados – fossas comuns de 17 anos atrás ainda não descobertas tornam o genocídio presente no dia-a-dia local e nos fazem sofrer um choque de realidade ao perceber como este acontecimento é recente. 

Será que, durante essas quase duas décadas que se passaram, a comunidade internacional se tornou mais apta a lidar com situações similares? Uma questão ainda em aberto, a meu ver. Srebrenica permanece, pois, em nossas memórias como um triste registro do que nunca deveria ter sido permitido e do que não se pode, de forma alguma, cogitar novamente. 


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Bósnia, 20 anos depois: uma guerra inacabada? [Parte 1]

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Neste 06 de abril, data que marca o vigésimo “aniversário” do início da Guerra da Bósnia (1992-1995), gostaria de iniciar aqui no blog uma série de 3 posts a respeito desta temática. Tomo a liberdade de desenvolver estes posts também com o intuito de compartilhar minhas impressões pessoais sobre o assunto, após ter tido uma interessante experiência de conhecer pessoalmente a realidade da Sérvia e da Bósnia nos últimos dias.


Há exatamente 20 anos, começava o conflito internacional mais desastroso depois da Segunda Guerra Mundial. Balanço estatístico simplificado: 3 anos e meio de guerra; 1395 dias de cerco à Sarajevo e 11.541 mortos na cidade; mais de 8.000 Bósnios-muçulmanos vítimas de um genocídio em Srebrenica; mais de 100.000 mortos no total; e centenas de milhares afetados direta ou indiretamente pelos conflitos. [Ótimo artigo em francês disponível aqui.]

Os conflitos dos Bálcãs nos anos 90 retratam basicamente as consequências catastróficas de uma Iugoslávia que, após a queda do regime autoritário de Tito, viu florescer o nacionalismo, as crenças exacerbadas e o preconceito étnico-religioso que estavam “adormecidos” sob um manto de unidade política.

Com o fim da Guerra Fria e do comunismo – e em meio a uma transição política inacabada – a década de 1990 viu florescer as lutas por independência das repúblicas que formavam a Iugoslávia (Eslovênia, Croácia, Sérvia, Montenegro, Macedônia e Bósnia-Herzegovina), além das duas províncias autônomas (Voivodina e Kosovo). [Para um panorama histórico mais detalhado a respeito dos conflitos, acesse os artigos disponíveis aqui e aqui em inglês.]

Neste contexto, a Bósnia podia ser considerada uma “mini-Iugoslávia”, com uma diversidade étnica notável em seu território à época: aproximadamente 31% Sérvios Bósnios; 43% Bósnios-muçulmanos (Bosniaks) e 17% Croatas-Bósnios (confira no mapa abaixo). Diante da declaração de independência bósnia em 1992, a reação sérvia foi imediata e o início deste sangrento conflito teve como resultados os tristes números já apresentados. [Breve cronologia disponível aqui.]

O cerco a Sarajevo (o mais longo da história) deixou resquícios que permanecem até os dias de hoje. Apesar de ter praticamente todos os seus prédios e espaços públicos reconstruídos, a atmosfera na Bósnia ainda é, de certa forma, de tensão. Politicamente, o país é dividido em duas entidades: a República Srpska e a Federação da Bósnia-Herzegovina, estando Sarajevo no centro da divisão (sim, ao andar pelas ruas de Sarajevo de repente você se dá conta que está “no lado sérvio”, veja mapa aqui).

As dificuldades de diálogo entre os dois lados são visíveis, tanto no círculo político quanto em meio à população em geral. As crianças que sofreram a guerra hoje são os jovens que sofrem com o desemprego no país. A (tardia e ineficiente) presença internacional em resposta aos conflitos no país é considerada uma “ironia” por uma senhora de meia-idade que me vê com um panfleto da EUFOR em mãos – trata-se da força de estabilização da União Europeia que permanece no país, mas que à época do conflito não existia…

A história ainda hoje é ensinada de formas diferentes nas escolas de acordo com a região: dependendo de onde se cresce e se estuda nos Bálcãs, tem-se uma visão distinta sobre a guerra, suas motivações e seus “vencedores”. 20 anos depois, ainda estamos tratando de uma guerra inacabada? Parece que sim. Uma das frases mais conhecidas de Alija Izetbegovic, primeiro presidente da Bósnia independente e um dos principais articuladores dos Acordos de Paz de Dayton (1995), é a seguinte: “There are no military winners. Everybody won and everybody lost”. Indeed.


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De bobos e mentirosos

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Ontem foi o primeiro de abril. Na tradição original, é uma data em que celebra o “dia dos tolos”. A ideia é pregar peças nos incautos, e tem origem na Europa, quando houve a oficialização do 1º de Janeiro como início do ano-novo. Até então, em muitas partes da França isso ocorria em abril, e quando houve a mudança muita gente zombava dos desavisados. Algo como um tipo de rivalidade provinciana. Como isso descambou para um dia em que as pessoas atiravam peixes umas nas outras, é um mistério, mas da França a coisa ganhou o mundo e virou o “dia da mentira” em muitos lugares, inclusive no Brasil. 

É uma data relativamente universal, e se formos pensar, existe muita mentira (e tolos…) nas relações internacionais. Há as grandes mentiras, que mexem com países e causam guerras (lembram do Vietnã?). Hoje, por exemplo, completam-se 30 anos da Guerra das Falklands. E essa foi cheia de peças e tolices. A Argentina inventando um conflito para desviar a atenção da crise do regime militar, esperando o auxílio norte-americano (uma grande pegadinha do TIAR), ou a catástrofe militar que foi a campanha, enviando soldados inexperientes e comandantes incompetentes. 

Também há muitas mentiras (ou equívocos?), como o jogo de empurra-empurra diplomático. Ao pé da letra, a soberania é inglesa, por ocupação efetiva. Por outro, é algo escorado pela ocupação com força e uma “soberania” dos habitantes meio que artificial. Até eu que sou mais bobo quereria permanecer como súdito inglês em vez de uma república sul-americana relativamente instável. O fato é que ninguém tem uma resposta efetiva, os dois lados têm sua razão, e se a resposta fosse fácil a ONU não estaria recomendando o diálogo entre as partes pra resolver a pendenga. Quem é o bobo nessa história? Talvez quem fique se estressando com um assunto que muito provavelmente não vai causar um conflito armado tão cedo e que vai se arrastar ainda por muitas décadas de diplomacia. 

Mas também tem quem se aperte por conta das pequenas mentiras. Quem diria, por exemplo, que um plágio maroto na época em que defendia seu doutorado faria com que o presidente da Hungria, Pal Schmitt, tivesse que renunciar. A lógica é simples – se ele foi desonesto com idéias, quanto mais com o cargo mais importante do governo… Num momento em que o país tenta se recuperar da crise européia, são essas pequenas mentiras e segredos (pensem no caso Strauss-Khan, ou das festas animadas de Berlusconi) que perseguem e, num efeito cascata, mostram como o indivíduo tem sua cota de importância na vida internacional… 

Por mais que seja uma brincadeira, essa é uma data bastante significativa. Existem muitas mentiras que movimentam as relações internacionais. Ou meias-verdades. São poucas as vozes pela verdade absoluta, como o Wikileaks, que recebeu o prêmio de ser perseguido e fechado. Mas também existem muitos tolos, e a história certamente trata de desmascará-los com o tempo…


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O ciclo sem fim

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Há 70 anos, na França, partia o primeiro trem lotado de judeus rumo ao campo de concentração de Auschwitz. Era um período de guerra, e a Europa olhava aterrorizada para o avanço dos nazistas e da ideologia antissemita. Hoje, mais de 40 anos depois, ainda pode-se ouvir o ranger dos trilhos desse trem, que ainda manifesta suas tenebrosas assombrações materializadas na forma do antissemitismo na França (clique aqui para uma interessante entrevista sobre isso). Na semana passada já comentamos um pouco sobre isso, quando falamos de um atentado, no qual crianças judias foram brutalmente assassinadas no país. 

Mas ainda assim, uma dúvida corta esse agudo som e parece ecoar em um tom grave muito mais intenso. E essa pergunta é a do quanto o antissemitismo também não motiva a tal da “islamofobia”. Ainda mais em um contexto de “guerra ao terror”, em que se mistura também “terrorismo” com “islã”. A história prova que os árabes e os judeus não tiveram uma relação muito amigável. E mesmo, sabendo que essas duas “fobias” são muito ligadas, os líderes franceses não se mostram muito “ligados” nessa situação. Nicolas Sarkozy é um bom exemplo disso. Desde a política que criminaliza o uso da burca (já bem comentada no blog, aqui e aqui), passando pelas críticas à imigração no país em 2011, e desembocando até seus mais recentes atos após os atentados de Toulouse, ele parece disseminar ainda mais intolerância. 

Ontem mesmo, afirmou que proibiria a entrada na França para o de um dos mais polêmicos líderes xiitas da atualidade, Youssef al-Qaradawi. Por mais complicado que as declarações desse líder possam ser, é  um chefe religioso de renome. Há até quem o compare com o papa por opinar tanto em tantos temas diferentes. Al-Qaradawi atualmente reside no Qatar e tem até passaporte diplomático. Mesmo assim, o governo orientou o ministério do Interior a barrar sua entrada no país, considerando-o “persona non grata”. O presidente francês diz que não existe relação entre esse bloqueio e o atentado de Toulouse. Mas só não vê uma relação quem não quer. Ainda mais em um contexto no qual Sarkoky tem tentado ganhar votos radicalizando sobre o polêmico tema da imigração

O ódio contra os judeus é sim um problema muito disseminado mundo a fora, não tem como negar. O ódio contra o islã é outro. Mas, quando o governo cria políticas que intensificam ainda mais o ódio “a uma das partes” ou “em uma das partes”, é como se criasse um ciclo de vingança. A população vai assimilar ainda mais islã com antissemitismo, e, eventualmente, com imigração (apesar de o presidente dizer o contrário). E, assim, estimulam-se ainda mais radicais islâmicos ou quaisquer outros radicalismos. É um ciclo sem fim.


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Conselho pra uma região turblenta…

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E no Oriente Médio, as coisas estão fervendo com a crise da Síria, e agora com a briga de Israel com o Conselho de Direitos Humanos da ONU. Só pra explicar, na semana passada o Conselho votou pela condenação da construção de assentamentos na Cisjordânia e Jerusalém ocidental, além do envio de uma equipe para investigar. Claro que o governo de Israel se sentiu ultrajado pela condenação e pela parcialidade do Conselho, e hoje rompeu com a organização, terminando qualquer cooperação que mantivesse e causando aquele estardalhaço de sempre. 

É interessante reparar nesse argumento da parcialidade. Todos sabem que ninguém é santo nessa história, e das 91 resoluções do órgão, 39 foram relativas a Israel, certamente não sem motivo. Mas quando reclamam do órgão ser tendencioso não podemos esquecer do ranço que esse órgão carrega. Isso por que herda uma “herança maldita” do antigo Comitê de Direitos Humanos da ONU (extinto em 2006 e substituído pelo atual Conselho), que já acolheu coisas bizarras como ser presidido pela Líbia. 

 O fato é que, no sistema ONU, a distribuição de cargos e vagas nas organizações meio que obedece a padrões de poder informais que premiam países mais “populares” ou influentes. É assim que notórios violadores de direitos humanos latino-americanos e africanos conseguiram ocupar cadeiras no órgão que velava pela defesa desses mesmos direitos, empacando as coisas. Além disso prevalece uma seletividade de temas, predominando aspectos políticos em vez de técnicos nas discussões e decisões. O caso de Israel é grave? Sim. Mas não deixa de transparecer um certo grau de interesse pela pressão política contra EUA (único que votou contra, diga-se de passagem) e Israel ao escolherem esse tema, enquanto crises mais graves como da Somália ou do Sudão estão aí. 

 Por outro lado, o Conselho é mais atuante que o finado Comitê, e está participando ativamente, por exemplo, do caso sírio. Mas como tudo que vem da ONU, é um órgão sem muito poder de agir pra valer, e no fim das contas, o rompimento não é tão grave assim em um terreno em que impera a retórica e a politicagem em vez da ação concreta. A maioria dos países que se abstiveram da votação justificaram que as investigações seriam apenas repetições de outros mecanismos e não mudariam nada na prática. Segue assim o mal-estar no cenário internacional, o crescente isolamento de Israel, e o drama dos que sofrem nesse jogo de atritos, de ambos os lados.


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