Grécia, pra que te quero?

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Desde que a crise na zona do Euro começou a se alastrar, temos nos perguntado por qual caminho a União Europeia está a se enveredar. Estamos observando o bloco buscando uma saída, abandonando aqueles que mais precisam de sua ajuda ou apenas refletindo sobre a vida enquanto está em seu leito de morte? 

Tudo é ainda muito nebuloso. 

E a situação da Grécia é central nisso tudo. Porque a partir dela já podemos ter uma ideia do que poderá acontecer com países como Portugal, Espanha e Itália. 

Nos últimos meses o que temos observado foi o aumento das medidas de austeridade para a estabilização do déficit público do país. Se antes consideravam a expulsão do país da UE como absurda, agora isso já não é tão estranho. Da mesma forma que, se antes a toda poderosa Alemanha não estava querendo se envolver tanto, tivemos uma pequena mudança que, ao que indica o novo bafafá diplomático na região, não foi tão brusca. Entretanto história e os números não são animadores. No ano passado, o valor total do PIB do país era algo em torno de US$ 298,1 bilhões. Mesmo período que a economia teve um crescimento de -6,0%, após uma sequência de crescimentos negativos, de -3,5%, em 2010, e -2,6%, em 2009. 

Para se ter uma ideia de dimensão do buraco no qual a Grécia está, basta pensarmos na dívida pública do país que junto com a crise no setor imobiliário dos EUA tem um lugar conhecido como uma das causas de todo esse furdunço econômico. Historicamente, o país não tem bons precedentes quando se fala em gastança pública. Mesmo com famoso Pacto de Estabilidade Europeia (para mais aqui e aqui) que impõe o limite de 3% do PIB para o déficit público dos países membros, a Grécia já tinha ido além do permitido entre 2001 e 2006. Ficou bacana por dois anos até que, em 2009, com a crise, a coisa desandou de vez… E hoje a dívida pública do país atingiu a exorbitante cifra de 132% do PIB

Dá pra ver que a situação está complicada. Mas complicada também tem sido rigorosa a ajuda econômica fornecida pela “Troica”, o clubinho dos endinheirados credores (Banco Central Europeu, FMI e pela Comissão Europeia) que tem o poder de exigir o que quiser para emprestar dinheiro. Para receber a próxima parcela do empréstimo, o governo do país tem que enxugar o gasto público em 11,5 mil milhões de euros (5% do atual PIB), além de engordar os cofres do país entre 2013 e 2014. Dificuldade que levou o primeiro-ministro, Antonis Samaras, durante seu encontro hoje com a primeira-ministra alemã, Angela Merkel, a pedir alguns anos a mais para cumprir as exigências. Proposta que foi rechaçada de imediato, mas ainda trouxe expectativas sobre a Grécia manter-se no bloco. 

Esse episódio ainda demonstra que apesar da Alemanha ter sido um pouco mais flexível pela garantia do segundo pacote de ajuda, ainda não há desejo de aceitar os custos da crise em conjunto.  

Os cenários traçados mostram que a saída da Grécia pode ser catastrófica (veja o esquema) e abrir um precedente complicado para a manutenção do Euro. Há quem indique algumas possibilidades. Paul Krugman, por exemplo, apontou, em um texto recente, que elas envolvem à Alemanha aumentar sua inflação (para diminuir o custo dos empréstimos para os países com dificuldades) e um incentivo conjunto às exportações como forma de quitar as dívidas. Opções que tem pouca aceitação entre os alemães. 

Não dá pra dizer pra onde tudo isso vai, nem mesmo que caminho a UE vai tomar. Todavia, tem grande peso se o bloco (leia-se Alemanha e França) vai querer dar um passo além em seu caráter e buscar soluções mais conjuntas (para mais no blog, clique aqui e aqui), aceitando os custos disso. Crises são sempre tortuosos caminhos que podem trazer lições importantes. No caso, uma trilha que pode levar ao supranacional ou ao fim do bloco.


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Todos querem Assange

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E vamos falar de Julian Assange, o homem que tem uma vida que parece filme de James Bond nos últimos meses e que foi arrumar problemas justamente com o país do espião de Sua Majestade. Relembrando para aqueles que vivem embaixo de uma pedra, o fundador do falecido Wikileaks está com prisão decretada na Suécia e seria extraditado pela Inglaterra, mas fugiu e está entocado na embaixada do Equador há dois meses, e na semana passada finalmente o presidente Rafael Correa autorizou a concessão do asilo político, sob a alegação de que Assange está sofrendo perseguição política. 

Sempre achei muito divertidos esses casos em que países distantes encontram farpas pra trocarem – é meio que um modo de ver na prática como as relações internacionais funcionam na atualidade, com supressão das distâncias, países que não têm nada a ver na mesma notícia, e tudo mais. Mas o caso Assange fica complicado de entender por causa do “juridiquês” envolvido. O que causou mais comoção foi a ameaça da Inglaterra de invadir a embaixada e tirar Assange à força. Ora pois, a embaixada é inviolável, e blábláblá. Antes de tudo, temos de esclarecer que, ao contrário do que aparece na TV, a embaixada NÃO é território do outro país – é uma área em que o país “hospedeiro” concede privilégios especiais à delegação do estrangeiro, por tradição e costume internacional, e esperando que o mesmo ocorra do outro lado. Tecnicamente, o anfitrião pode fazer o que quiser caso se sinta ameaçado ou coisa parecida – vai ter que enfrentar a fúria da comunidade internacional, por causa do costume e tudo mais, mas em última instância está liberado. E existe precedente para isso na Inglaterra. 

E quanto à extradição? Assange diz que sofre perseguição política, mas a rigor a acusação contra ele é de um crime “comum” (abuso sexual). O medo dele é ser re-extraditado da Suécia para os EUA, onde aí sim a porca torce o rabo. E a Inglaterra e o Equador com isso? O asilo, nessas condições, é muito sutil e até mesmo forçado – por mais que se acredite que a acusação na Suécia seja uma fachada conveniente, é um processo legal e a Inglaterra cumpriu todo o processo de acordo com a lei internacional. Quem estaria errado nesse caso, é o Equador! Mesmo por que a motivação política é evidente, dos dois lados, diga-se de passagem, com a imprensa britânica cobrindo a crise para desviar um pouco a atenção dos problemas econômicos, e o presidente do Equador querendo aliviar sua barra com a mídia após um problema grave processando um jornal nesse ano. É bizarro ver Rafael Correa defendendo um homem que advoga a livre expressão e circulação de informações, mas hein, o mundo é sempre uma caixinha de surpresas. Deve ser para espezinhar os EUA.

Falando neles, vamos deixar as coisas mais complicadas. A acusação nos EUA é por crime de espionagem, vazamento de informações e outras coisas que põem em risco a vida de cidadãos norte-americanos, crime punível até mesmo com a morte. A ironia é que, se formos pensar bem, fora uma ou outra informação interessante (como a confirmação da existência de prisões secretas dos EUA, ou matanças no Afeganistão), tudo que a Wikileaks revelou foi fofoca de bastidores e coisas que todo mundo já sabia ou suspeitava. Não saiu nada de excepcional dos vazamentos, e no fim das coisas foi algo, se não inútil, de pouco efeito prático (apesar do efeito simbólico – é o tipo de evento que atesta contra, por exemplo, a diplomacia secreta, que tanto mal causou ao mundo no passado). E, tecnicamente, os EUA estão certíssimos, o rigor jurídico é implacável no caso do Assange. Mas, por outro lado, lei europeia evita que prisioneiros possam ser extraditados para países onde possam pegar pena de morte, então Assange poderia trocar sem problemas sua estadia prolongada na embaixada em Londres por uma prisão de regalias na Suécia caso consiga suas garantias. Ou não. 

O xis da questão é que Assange tem esse benefício da dúvida – todo o processo até o momento foi regular, mas no fim das contas há uma clara questão política por trás de sua prisão. Acusações fundamentadas ou não, temos aqui Estados que foram lesados lutando contra um homem que encabeçou um projeto de divulgação de informação nunca antes visto, e que de certo modo defende um direito universal. Apenas por esse mero detalhe, a decisão do Equador passa a ser justificável, e ficamos com o nó jurídico e diplomático que virou esse caso. 

Resumindo: os EUA estão com razão ao querer a cabeça de Assange; a Suécia tem uma acusação formal e embasada; e a Inglaterra fez tudo de acordo com o figurino. Por outro lado, Assange muito provavelmente está sendo perseguido e tem razão ao pedir asilo. É o tipo de caso em que não temos um “certo” ou um “errado”, mas que vai caber à história julgar o resultado.


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Traíram o Traian?

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Postagem rápida sobre (mais) uma crise na Romênia. Já falamos deles aqui, quando derrubaram o premiê Emil Boc. Essa semana, foi a vez do presidente Traian Basescu sofrer impeachment, mas como a população simplesmente não compareceu em número suficiente para referendar a decisão, ele continua no cargo. 

Gol contra para o congresso e para o sucessor de Boc, Victor Ponta, aquele que ficou famoso pela acusação de plágio em seu doutorado. Isso por que a perseguição contra Basescu já é coisa antiga (já chegou a ser afastado do governo uma vez), acusado de se aproveitar do aparato estatal para se livrar de inimigos. É uma situação meio quixotesca essa da Romênia, em crise, sendo um dos países que, a duras penas, mais está se esforçando pra cortar gastos e cumprir metas de entrada na zona do Euro (será que compensa entrar…?) e acaba sendo acusado pela UE de anti-democrática, com o governo manipulando os poderes – como no caso do impeachment de Basescu. 

Aliás, já não vi em algum lugar essa história de congresso se unindo para derrubar o presidente com acusações no mínimo suspeitas? Será que o Paraguai está criando uma nova moda de golpe “branco”? É difícil averiguar, como observador externo, até que ponto as denúncias são críveis ou não, mas até o presidente da vizinha Hungria, de tão exageradas as acusações, pediu à comunidade de seu país na Romênia para que boicotassem o referendo do impeachment. 

Aproveitando a deixa, a coisa está feia na região. A Bulgária enfrenta problemas similares (o governo foi submetido a um voto de confiança – meio que uma avaliação popular que o congresso pode exigir em governos parlamentares, e pode derrubar o alto escalão caso não passe) e um racha na Sérvia (com um aliado do finado Milosevic no poder enquanto a bancada que derrubou o ditador domina a oposição). 

O que se vê são muitos países marcados pela divisão e confronto político que não parece se amparar em meios “legais” – e só lembrar como os países do leste europeu herdaram uma politicagem agressiva e floresceram na corrupção nos anos 90. Estão adaptando isso ao novo milênio, ou é apenas o mesmo jeito de sempre de se fazer política? São pequenos percalços internos que tornam complicada a situação regional, trazendo desconfiança política que acentua a crise na credibilidade econômica, e que pode se alastrar pelos demais países da região.


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O que está em jogo?

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Quis o destino que a Eurocopa 2012 – campeonato de futebol encarado seriamente como uma “Copa-do-Mundo-regional” pelos europeus – refletisse em suas quartas-de-final uma rivalidade que ultrapassa as quatro linhas do gramado, especialmente nos últimos tempos. Alemanha e Grécia se enfrentam na próxima sexta-feira em campo na busca de uma vaga para a próxima fase da disputa, a qual será definida ao final de 90 minutos de partida. 

Já em outro terreno, resultados concretos são esperados já há algum tempo e não se sabe ao certo até quando a prorrogação se estenderá. Com as eleições gregas realizadas neste último final de semana, a polêmica para a formação do novo governo continua (visto que não houve maioria absoluta em nenhum dos lados, apesar da vitória dos conservadores, leia mais aqui e aqui), sendo que mesmo a permanência da Grécia na zona do euro (ainda) está em jogo. 

O embate político envolve um conceito-chave: austeridade (veja post no blog a este respeito aqui). Enquanto a Alemanha se mostra como o país mais favorável às políticas de austeridade na zona do euro, a Grécia – imersa na crise econômica e suas enormes consequências – pode ser considerada como o principal país “alvo” da austeridade. Extremamente impopulares em meio à população, as medidas que envolvem cortes de gastos com educação e saúde, por exemplo, têm levado milhares de gregos às ruas para protestar.

Entre renegociações, empréstimos e resgates, a Grécia se esforça na busca de uma coligação política entre conservadores e esquerda, enquanto o debate sobre “como salvaguardar o euro” faz parte das discussões do G20 que estão acontecendo nesta semana. 

Mesmo que jogadores e comissão técnica de ambos os times participantes da Eurocopa tentem evitar comparações entre esporte e política, a polêmica envolvendo o embate entre gregos e alemães inevitavelmente gera repercussão fora de campo. Ao mesmo tempo em que a continuidade em um campeonato regional é disputada pelas duas equipes, fora das quatro linhas o que está em jogo é muito mais amplo e complexo. Enquanto no futebol um dos lados deve sair vencedor às custas da derrota do adversário, a mesma lógica não pode/deve ser aplicada à esfera política, de forma que uma concertação coletiva é mais do que necessária para a estabilidade europeia. 

Resta-nos apenas acompanhar o desenrolar deste embate em seus diferentes terrenos para saber quais serão os – mais do que esperados – resultados finais… 


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Vozes no leste europeu

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É ano de olimpíada, mas o evento esportivo da vez é a Eurocopa, o campeonato europeu de seleções de futebol. O evento desse ano tem sede conjunta, na Ucrânia e Polônia. Muito bom, por que deveria ser um símbolo de unidade e integração (ainda mais nessa época de crise), mas o torneio está virando uma festa de protestos pra todos os lados, especialmente na Ucrânia. 

Não que na Polônia as coisas estejam melhores: denúncias de racismo e intolerância (imagine só, grupos neonazistas na Polônia, de todos os lugares…) contra atletas e torcedores dos visitantes. Mas a Ucrânia é medalha de ouro no quesito confusão, com pelo menos três motivos para os protestos. 

O primeiro caso (e provavelmente o mais grave pra Ucrânia em termos de repercussão) é o da ex-premiê Yulia Tymoschenko, que já mencionamos aqui. Ela está presa por corrupção e sofre de um grave problema de saúde, e a comunidade européia acusa o nada democrático governo ucraniano de perseguição. A própria Anistia Internacional diz que a prisão é injustificada, e o resultado é um boicote em massa de autoridades ao evento, incluindo pesos-pesados como Inglaterra e Alemanha. Se protestos internos não são boa coisa, quanto mais de fora. Claro que isso não vai render nenhum tipo mais grave de sanção. Mas é um golpe duríssimo para o governo de Viktor Yanukovich, que queria passar uma imagem de moderno e transparente, mas que é lentamente isolado pela truculência com que lida com antigos rivais. 

Mas não poderíamos esperar menos de um governo que chacinou animais de rua pra “limpar” o ambiente do torneio. Há denúncias de que desde novembro de 2011 mais de 60 mil cães e gatos de rua foram mortos nas principais cidades ucranianas, de modo brutal e sem controle, indignando autoridades de defesa dos animais. Sacrificar animais de modo organizado por razões de saúde pública é uma coisa, jogar cães sedados em fornos por causa da Eurocopa é outra, e isso rendeu protestos em vários países. 

Mas é claro que o mais famoso é o caso do grupo FEMEN, que surgiu na Ucrânia em 2008 justamente para protestar contra o governo corrupto e por mais direitos para as mulheres, e que hoje tem ativistas pelo mundo todo, inclusive no Brasil. Isso de um modo bastante chamativo, com lindas moças vestidas com uma grinalda de flores e pouca roupa. A bola da vez é protestar contra o turismo sexual e a exploração das mulheres que vem a reboque nesse tipo de torneio. Na outra semana tentaram roubar a taça do torneio, e estão planejando protestos para hoje, quando a Ucrânia estrear. São os protestos mais “descontraídos”, por assim dizer, mas certamente os que mais chamaram a atenção, e tocam em uma questão sensível, que com certeza é bem mais abrangente que os outros já que turismo sexual não é exclusividade de lá. 

O mais interessante disso tudo é ver como os protestos não são contra o evento em si, mas atitudes do governo, e até mesmo da própria sociedade, em decorrência da sua realização. Incompetência do governo, gastos desenfreados e corrupção, sociedade acomodada… Isso na Ucrânia, um país em crise, grande, e cheio de problemas. Será que podemos esperar algo parecido para 2014? Não custa sonhar.


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Princípio de Hamurabi

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Um dos primeiros códigos de leis que se tem notícia é o “código de Hamurabi”. Da antiga Mesopotâmia, correspondente ao atual Iraque e algumas terras vizinhas, o código ainda está vivo na memória das pessoas por sua cláusula “olho por olho, dente por dente” – “lei do talião”. Segundo ela, um criminoso seria punido com o mesmo dano que causou a outra pessoa com o objetivo de impedir que os afetados fizessem a justiça pelas próprias mãos. 

No plano das relações internacionais, há ainda vestígios de Hamurabi. Ambiente onde as regras tendem a ser de difícil execução e a principal moeda de troca, os tratados, nem sempre são cumpridos com louvor. A relação entre Espanha e Brasil é exemplo interessante dessa assertiva. O contencioso das recorrentes deportações de turistas brasileiros na Espanha levou o governo brasileiro a revitalizar uma cláusula de Hamurabi sob o manto do princípio da reciprocidade no início de maio. Ao entrarem no país, os espanhóis deveriam cumprir os mesmos requisitos que fazem os brasileiros ao entrarem na Espanha. 

Esquecessem eles de algum documento seriam imediatamente deportados. A extensa lista de exigências ia desde uma carta-convite extremamente detalhada, até comprovantes de capacidade para arcar com os custos da viagem, fotos, reservas e vistos. O problema morava justamente nessa tal carta-convite na qual era exigido um número muito grande de detalhes e, na ausência deles, a deportação era certa. A despeito dos documentos, a falta de informação dos organismos burocráticos, agências e universidades, tanto brasileiras quanto espanholas, sobre mudanças repercutia diretamente sobre o volume de pessoas barradas. A falta de tolerância foi também outro replicado pelas autoridades do Brasil, ampliando o mal-estar diplomático. A adoção de reciprocidade é comum nas relações internacionais. 

Por mais que seja uma tradição, há sempre questionamentos sobre se é um elemento capaz de solucionar problemas. De um lado, argumentam, ora, se fazem isso com os brasileiros, nada mais justo do que fazer o mesmo com eles, pois turistas têm passado por situações degradantes à espera de um veredicto sobre deportação. De outro, retrucam, a Espanha faz o que faz porque tem muito mais preocupação com imigrantes ilegais do que o Brasil e retaliar ampliando gastos de governo sem uma função diplomática clara, apenas prejudicaria o Brasil. 

Independentemente de um argumento ético, pode-se dizer que a reciprocidade surte efeitos claros. Quando um país vê sua população sendo deportada por pequenos detalhes, a urgência por uma negociação muda. Assim foi com a Espanha no mês de maio. Bastou pouco mais de um mês para que diplomatas do país colocassem de lado sua resistência de anos e sentassem-se à mesa com os brasileiros. Após 11 mil brasileiros barrados desde 2007, 30 espanhóis deportados no mês de abril, longos períodos de tensão bilateral, em visita do rei Juan Carlos I ao Brasil, chegou-se a um acordo para facilitar a entrada de ambos os lados (clique aqui para conferir). Espera-se que ambas as partes respeitem os acordos e que, por mais que a Espanha passe por problemas migratórios mais complexos, os deportados tenham, no mínimo, tratamento com respeito e dignidade, pois do contrário, de problemas migratórios, teremos xenofobia.


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De onde vem o perigo?

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A fofoca da vez no noticiário internacional é a venda de submarinos nucleares da Alemanha para Israel. O que está rendendo não é a venda em si, parte de um projeto de cooperação bilateral antigo, mas sim o fato de que os submarinos estariam equipados com um sistema de lançamento de mísseis balísticos. E caso Israel possua armas nucleares (sabe como é…aliás, o acordo dá a entender que a Alemanha já reconhece o programa nuclear de Israel desde os anos 70), poderiam ser equipados e lançados quase que imediatamente. Sombrio, não? 

O submarino é uma das armas mais aterrorizantes que um país pode possuir. Mesmo que não possua armas nucleares, é uma arma com potencial ofensivo muito acentuado. Já se foi o tempo em que aviões Catalina podiam despejar cargas de profundidade e afundar submarinos na superfície – um nuclear pode ficar literalmente meses embaixo d’água. Mas, pra dizer a verdade, a maioria deles não tem ogivas nucleares – são na maioria submarinos “caçadores”, feitos pra ir atrás justamente dos que têm mísseis. 

Uma arma defensiva então? Esse é o argumento da marinha brasileira, por exemplo, quando fala da compra dos submarinos nucleares franceses e da construção do nosso próprio: a ideia é defender o pré-sal e a costa brasileira (já não era sem tempo, aliás, sendo o Brasil um dos países com maior faixa litorânea do mundo). E acredito que a intenção é essa mesmo, mas digam isso pro resto dos países sul-americanos, que vão ter um vizinho com porta-aviões e um monte de submarinos nucleares podendo xeretar suas águas sem ser importunados. Amigos, amigos, submarinos à parte. 

É aí que mora o problema quando pensamos no caso de Israel. O caos recente do Oriente Médio pressiona demais Israel, como já estamos cansados de dizer por aqui no blog, e uma ação armada contra o Irã está cogitada faz tempo. A primeira coisa que a criança faz quando ganha um brinquedo novo é usar até enjoar. Eles têm armas nucleares, agora vão ter o vetor mais eficiente pra elas, e não é uma questão de “se”, mas de quando, eles vão começar o jogo de dissuasão contra o Irã. Claro que, por outro lado, a estratégia de Israel foi a de sempre esconder e negar a posse dessas armas, então seria um contra-senso fazer isso agora… Ou seria essa a oportunidade que esperavam? 

E o que os vizinhos vão pensar disso? Quando falamos de percepção de ameaças, aquela região é o lugar do mundo em que ninguém confia genuinamente em ninguém. Aliás, e o Irã? Uma das razões que alegam pra querer desenvolver um programa nuclear é o fato de Israel ter o seu próprio. Com esse tipo de arma, qual o reflexo nas negociações com Teerã? Boa coisa não vai sair disso. 

A ironia de tudo é que o tal do acordo com a Alemanha previa a instalação de uma usina de tratamento de água (paga pelos alemães…) e a redução dos assentamentos em Gaza, o que seria um passo incrível para resolver a questão com os palestinos, mas nenhuma coisa ocorreu. E pra completar o resumo da ópera, a Alemanha está vendendo o mesmo tipo de submarino pro Paquistão. Que tem armas nucleares. E não reconhece Israel.


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Meios, fins, crescimento e austeridade

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As vozes que têm ecoado na União Europeia nos últimos meses têm levado em conta dois elementos importantes da economia dos países. O crescimento e a austeridade. Ora, para alguns, esses são dois opostos e duas “alternativas” políticas. De um lado, investir mais nos países para tentar sair dessa zona de crescimento pífio; e de outro, cortar gastos para tentar estabilizar a economia. Até o início do mês passado a opção europeia já parecia traçada pelo FMI, Banco Central Europeu e o Fundo de Estabilidade Europeu, e a Alemanha (clique aqui, aqui e aqui, para diferentes visões sobre isso). Com os resultados não muito positivos nos últimos meses, as coisas parecem estar virando, e um debate tem vindo à tona.

Mas será que “crescimento” e “austeridade” são dois pólos ou duas opções políticas? 

Bom, não há economista ou estadista que não goste de crescimento. O político que for a frente da população e disser que defende a austeridade ao crescimento, provavelmente pode não sair de lá muito bem (clique aqui para uma cômica crônica portuguesa sobre isso). A questão é que austeridade não é um fim em si mesmo. É tida como uma forma possível de retomar esse crescimento e estabilidade do país. Não existe como oposição ao crescimento, mas como um meio para atingi-lo novamente. 

Já o “crescimento”, como se tem dito por aí, é um fim. O que os políticos defendem é uma forma oposta de abordar a crise, um meio diferente. No caso, com maior endividamento para o bloco e investimentos em setores-chave da economia. A ideia básica é fortalecer o Banco Europeu de Investimentos para tanto. No curto prazo, possibilitaria um crescimento muito maior e poderia gerar ferramentas para os países por si só saírem da crise, pela ampliação de empregos e investimento em setores como infra-estrutura e energias renováveis. Esse é um debate que o Brasil já está bastante acostumado. 

Durante a década de 1970, quando os preços do petróleo catapultaram, o governo enfrentou esse dilema. Investir em infra-estrutura e continuar a crescer ou ajustar-se a crise internacional. Escolheu a primeira, com benefícios para o país e grande ampliação da dívida externa. Claro que o contexto brasileiro da década de 1970 é muito diferente do momento que a Europa vive, mas há certo grau de semelhança no dilema de como sair da crise. 

A vitória de François Hollande nas eleições francesas é outro aspecto que traz força a uma busca de flexibilização do debate “austeridade-crescimento”. Hoje, não fosse o infortuito raio que atingiu seu avião, estaria conversando com a presidente alemã, Angela Merkel, sobre o futuro do plano de recuperação econômica europeia, em defesa de uma posição menos restritiva para as populações em crise. A incapacidade do governo grego de formar uma coalizão para governar (até já se considera a hipótese de sair da zona do euro) é outra manifestação das dificuldades políticas da opção defendida pela Alemanha. 

Esse debate nos é mostrado pela mídia de maneira mais complicada do que realmente é, crucificando uma opção, confundindo meios com fins e vice-versa. É preciso olhar um pouco mais a fundo para podermos avaliar as opções disponíveis. As próximas semanas ainda renderão muito pano pra manga. Que venham os próximos capítulos!

[Para mais sobre isso no blog, clique aqui e aqui


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A França, vai que vai.

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Da última vez em que um socialista estava na presidência da França, o Brasil ainda era tetracampeão de futebol e Barack Obama era um desconhecido candidato a senador de Illinois. Mas após 17 anos, sendo 7 deles cheios de extravagâncias com Sarkozy, o presidente eleito da França, Hollande, mais uma vez é de esquerda, e diz que seguirá a cartilha do seu antecessor (e mentor político), François Miterrand. 

Como o tema é quente, nos próximos dias vai se falar de tudo, de como essa mudança vai afetar as esferas interna e externa da política francesa de um modo bastante duro, à diferença completa entre os indivíduos. Bom, Sarkozy realmente vai ficar marcado pelos escândalos, exposição midiática, problemas com imigrantes, ter dado uma de Bush e orquestrado uma invasão a um país que meses antes o estava financiando, e ter enfrentado a crise europeia de um modo eficaz, mas que rendeu uma impopularidade tremenda. A eleição de Hollande, antes de tudo, é muito mais pela mudança em si, com os franceses fartos do espetáculo burlesco que foi a presidência de Sarkozy, do que pelas ideias defendidas pelo novo presidente. 

A grife é socialista, mas Hollande é muito mais um homem de centro-esquerda, aquele modelo europeu manjado, disposto a fazer algumas concessões liberais (como regularizar a eutanásia e o casamento homossexual), mas com muito peso do Estado. E é justamente essa a preocupação maior dos economistas mais ortodoxos – a França está puxando, junto com a Alemanha, o plano de austeridade pra recuperar os países da zona do Euro, e Hollande já confirmou que vai chutar o balde e aumentar os gastos do governo pra aquecer a economia. Se for parar pra pensar, lembra um pouco o que o Brasil fez lá nos idos de 2009, e é uma opção, mas que como está indo totalmente contra o plano atual, deve estar deixando Angela Merkel com os cabelos em pé, pensando na articulação que vai ter que fazer com esse novo negociador. E a Alemanha já se mostra totalmente contra esse tipo de medida… 

Muitos países europeus estão passando por eleições nesse ano, e a soma de insatisfação com crise vai causar muita instabilidade no cenário do continente. A mudança de rumo da França potencializa esse cenário de convulsão econômica. Basicamente, quem está em problemas, como a Grécia vai ver o caso da França, e se perguntar: “se eles, que estão me mandando ser austeros, não estão fazendo isso, por que diabos eu deveria?”. A depender do que rolar disso tudo, quem pode estar com os dias contados é o próprio Euro. 

E isso pra ficar apenas na questão econômica. Internamente, a pressão fez com que temas espinhosos comoa regulação de imigrantes entrasse em pauta, e cedo ou tarde Hollande vai ter que mexer nesse vespeiro. O fato é que ele parece uma incógnita – que rumo vai tomar, já se sabe, mas as consequências, não. Mas que vai mudar, isso vai.


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Há um ano...

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Um ano se passou desde a morte de um dos nomes mais comentados na última década: Osama Bin Laden. A polêmica envolvendo a morte do, até então, “homem mais procurado do mundo” dominou as postagens do blog há um ano. [(Re)Veja os posts aqui, aqui e aqui.] 

As incertezas em relação ao modo como o terrorista foi capturado/assassinado/sepultado ainda geraram polêmica por vários dias, mas já se desenhava a certeza de que Osama seria um trunfo importante para (o seu quase xará) Obama. Aqui estamos nós, um ano depois, em meio ao furor das eleições norte-americanas. E as previsões se confirmam, é claro. 

As decisões de Obama envolvendo Bin Laden estão sendo fortemente “publicizadas” no sentido de demonstrar o perfil de um líder destemido, pronto a correr riscos pelo bem e pela prosperidade dos Estados Unidos. [Veja aqui vídeo recente da campanha de Obama protagonizado por Bill Clinton exatamente sobre o “caso Bin Laden”.] 

Fato, contudo, é que a morte de Bin Laden foi a única conquista “a não ser adulterada por políticas partidárias e a ser comemorada por praticamente todos os americanos, de todas as inclinações políticas” durante a gestão Obama. O caminho eleitoral ainda é longo até novembro, quando acontecem efetivamente as eleições norte-americanas. E com certeza referências de um ano atrás não vão faltar em meio aos acalorados debates entre os candidatos. 

Curiosamente, há um ano tivemos ainda no blog uma postagem de temática bastante similar ao post dessa semana sobre a União Europeia. Vários são os questionamentos sobre o futuro da integração europeia diante de seus desafios contemporâneos. 

Enquanto, no ano passado, o Giovanni finalizava seu post com uma reflexão mais cética, sugerindo que a mesma diferença que conduziu à união poderia levar à sua desagregação, este ano o Cairo desenvolveu em seu texto vários elementos importantes em relação ao bloco de forma mais otimista – sem deixar, contudo, de também reconhecer as dificuldades ainda enfrentadas pela União para se consolidar dia após dia em um complexo cenário de crise econômica. Trata-se de uma temática com certeza inesgotável e sobre a qual certamente ainda leremos muitos posts na Página Internacional… 

Conforme o tempo passa, vemos uma série de permanências e mudanças que delineiam cotidianamente as Relações Internacionais. Seguimos, então, postando e relembrando! 


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