Em boca fechada não entra mosca

Por

O Reino Unido deu o que falar na última semana. A terra da Rainha foi palco de dois eventos que acabaram tendo sua repercussão internacional, já que os protagonistas eram de fora, e em ambos os casos teve gente que perdeu a chance de ficar calada. 

O mais trágico, com certeza, foi o caso do trote de uma rádio australiana passado para o hospital onde estava em tratamento a duquesa Kate Middleton, e que (ao que tudo indica) motivou o suicídio da enfermeira que atendeu a ligação e acreditou nos radialistas que fingiam ser membros da família real pedindo informações. Uma brincadeira inofensiva? Sim, mas como a doença era grave e coloca em risco o futuro herdeiro da Coroa, o “vazamento” de informações pode ser um problema terrível numa terra onde o noticiário é movido a fofoca. Sem contar a perda de credibilidade do hospital, o que deve ter motivado essa atitude extrema da enfermeira. O fato é que trotes e pegadinhas são as formas mais simplórias (e antigas) de fazer “humor”. Até que ponto é válido se aproveitar da boa-fé ou da reação de estranhos, sem seu consentimento, pra fazer audiência? Esse caso mostra que tem que se pensar nas conseqüências, e apesar de o programa até ter sido retirado do ar, as palavras que saem da boca não voltam mais. 

Mas o que mais repercutiu por aqui foi uma análise da revista britânica “The Economist” (confira aqui), em que o autor faz uma crítica aos problemas que o Brasil está enfrentando para manter o crescimento (e possivelmente para garantir um segundo mandato para Dilma). Relativamente despretensioso, o texto causou furor por, lá no final, o autor considerar que Dilma devesse demitir a equipe econômica para dar um novo rumo ao Brasil. Uma leitura atenta mostra que essa sugestão aparece muito mais uma hipótese de “teste” de pragmatismo da presidente do que um conselho propriamente dito. O texto é até razoável nas suas críticas. Mas o que pegou mesmo foi a mídia divulgando apressadamente que a maior revista de economia do mundo pediu a cabeça do nosso Ministro da Fazenda. 

Deu no que deu. A página da reportagem está entulhada de comentários dos mais questionáveis de brasileiros, dos mais variados espectros políticos (nada muito diferente da praga que se vê nas redes sociais todo dia). Os editoriais dos jornais brasileiros ficaram furiosos. Até a presidente se dignou a comentar sobre o assunto, e isso acabou fortalecendo Mantega no cargo. 

Esse é um baita exemplo de caso em que todo mundo perdeu a chance de mostrar que calar é ouro. O jornalista do Economist poderia ter tido algum cuidado com a escolha das palavras, mas no fim das contas é o que menos tem culpa nisso, já que é o seu trabalho ser instigante, e a liberdade de imprensa está aí pra isso. Os defensores/detratores mais exaltados do governo fazem um desserviço ao país com alguns comentários escabrosos que andam aparecendo por lá. A grande mídia nacional fez o pior de tudo ao focar suas manchetes num trecho de duas linhas de uma reportagem que nem se propunha a causar essa repercussão (e ignorando completamente o resto da crítica do autor, essa sim que renderia uma discussão interessante). E até mesmo a presidente perdeu a chance de sair com elegância dessa saia justa, ainda mais por de quebra alfinetar os países europeus com essa resposta. Se realmente uma revista estrangeira não tem influência nas decisões do governo, sequer deveria se dignar a responder sobre esse assunto (e, pelas suas palavras, dar a impressão de que a coisa seria diferente caso fosse uma revista nacional…). 

Haja mosca.


Categorias: Brasil, Economia, Europa, Mídia, Política e Política Externa


Post do Leitor

Post do leitor – Bruno Theodoro Luciano

[Pessoal, mais uma vez apresentamos um post do leitor. Desta vez a colaboração é de Bruno Theodoro Luciano, graduado e mestrando em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília (UnB). Em uma interessante análise, ele fala como determinados países europeus observam a crise do Euro e, consequentemente, o próprio desenvolvimento da integração regional. Caso queira contribuir com a Página Internacional também, envie seu texto para [email protected]. Aproveitem a leitura!]

Respostas à crise europeia: mais ou menos integração? 

As reações dos países e dos grupos sociais europeus, em decorrência dos efeitos da crise econômica que tem assolado o continente nos últimos anos, têm apresentado naturezas das mais diversas. Enquanto países governados por grupos euro-céticos e setores populares afetados diretamente pelas medidas de austeridades vêm adotando uma percepção negativa quanto às atitudes e instituições supranacionais, os países líderes do bloco têm assumido uma posição favorável à ampliação das competências europeias, tal qual a construção de uma união fiscal, como instrumento de solução para a crise da zona do euro. 

A insatisfação popular em relação aos altos níveis de desemprego e às medidas de austeridade tomadas pelos governos dos países mediterrâneos, como Portugal e Espanha, tomou proporções transnacionais, com a organização de paralisações conjuntas dos trabalhadores desses países. As greves e manifestações nesses Estados representam dura crítica à política de cortes de gastos e de redução de salários dos governos ibéricos em busca de maior equilíbrio nas contas públicas. 

Em países de tradições euro-céticas, como o Reino Unido, a primeira resposta quanto às conseqüências da crise é um apelo por menos integração, por afastamento do país das decisões conjuntas dos Estados que atualmente utilizam o euro como moeda oficial. A crise europeia não deixa de ser uma oportunidade para os partidos contrários ao aumento de integração, como o Partido Conservador, demandarem uma reavaliação da postura britânica como membro do bloco europeu. Uma saída britânica da UE, no entanto, é impensável na atualidade, já que 50% do comércio desse país é feito com seus parceiros europeus

Em recente discurso no Parlamento Europeu, a primeira-ministra alemã Angela Merkel ressaltou a necessidade futura de federalização da integração europeia, como forma de se alcançar uma solução para a crise no velho continente. O aprofundamento da Europa, para a líder alemã, torna-se condição essencial para resolução da crise dentro dos países da zona do euro, mesmo que traga a necessidade de uma nova revisão dos Tratados Europeus em vigor. 

Enquanto determinados grupos e partidos entendem que a crise dos países da zona do euro é decorrente da alta ambição na constituição de uma moeda europeia comum, outros setores veem a culpa da crise, na realidade, na falta de ambição em tornar a moeda europeia mais forte, sem o respaldo de uma união fiscal e política. Ou seja, as respostas quanto a um mesmo problema podem ser totalmente contrárias, com base na ideologia e na visão que determinados grupos possuem acerca da integração. Do mesmo modo que é difícil encontrar representantes de partidos de tradição euro-cética favoráveis à manutenção da moeda europeia na atual conjuntura, é impossível visualizar representantes das instituições europeias apoiando o fim da zona do euro. 

Os rumos da integração europeia estão nas mãos dos grupos que estiverem no poder de Estados-chave para a Europa, ou seja, Alemanha e França. Enquanto a liderança política desses países for favorável à manutenção ou ao aprofundamento do bloco, não há razões para se pensar em um mundo sem uma Europa unida.


Categorias: Economia, Europa, Post do leitor


Mais Brasil na Espanha…

Por

E começou mais uma Cúpula Ibero-americana de Chefes de Estado e de Governo. A vigésima segunda da história, realizada em um momento internacional muito diferente de duas décadas atrás. Enquanto em 1991 se reuniam pela primeira vez os países ibero-americanos (América Latina + Espanha e Portugal) em um contexto de crescimento econômico europeu e endividamento latino, neste ano de 2012 os papéis se encontram consideravelmente invertidos. [Veja um breve histórico a respeito das cúpulas precedentes aqui.] 

A tônica do início deste encontro é clara: a América Latina é vista como uma “saída” para a crise que vivem Espanha e Portugal. As antigas metrópoles percebem atualmente nos emergentes países da América Latina, especialmente no Brasil, oportunidades de negócios que dependem de negociações bilaterais em que as ex-colônias estão em nítida vantagem comparativa. 

“Mais Brasil na Espanha… e mais Espanha no Brasil” é o que deseja Mariano Rajoy, o presidente do governo espanhol. De fato, nossa presidenta é a grande estrela da Cúpula que acontece entre hoje e amanhã em Cádiz, e uma agenda paralela de negociações diretas com a Espanha está também prevista. Sendo a Espanha o segundo maior investidor externo do Brasil, a expectativa de uma intensificação nas relações econômicas entre ambos é certamente uma prioridade espanhola pelo menos até 2016, com os grandes eventos esportivos. 

Mesmo com uma participação expressiva dos países ibero-americanos, as perspectivas de resultados multilaterais realmente significativos não são tão elevadas, com maior peso tácito para o diálogo bilateral. A importância deste encontro internacional parece residir, sobretudo, no fortalecimento dos laços entre países que partilham há séculos uma história comum, mas que têm vivido na contemporaneidade grandes altos e baixos econômicos os quais causam grande vulnerabilidade social – hoje notadamente na Espanha e em Portugal.

Visualizar um cenário internacional assim tão diferente do que jamais se poderia antes imaginar nos leva a refletir sobre como serão as coisas daqui a duas décadas, por exemplo. Previsões (das mais diversas) não faltam, mas tampouco são capazes de esgotar o assunto. A única certeza é que, hoje, na intensificação deste intercâmbio – com mais Brasil na Espanha e vice-versa, por exemplo – nós (como América Latina em geral) estamos em uma posição de barganha mais avantajada que nunca.


Categorias: Américas, Brasil, Europa, Organizações Internacionais, Política e Política Externa


Crise de credibilidade

Por

Aquele papo de poder brando (ou direto) da mídia não é novidade para ninguém. Desde a revolução Francesa que esse veículo informa, influencia, oculta e manifesta informações da população. Para muitos, a mídia seria o quarto poder. Aquele que Montesquieu não considerou para efeitos do controle do Estado, mas que estaria ali, sempre presente. Mas a mídia só é capaz de influenciar e formar opiniões quando goza de credibilidade pela sociedade (ou parte dela). A confiança dos leitores é uma das mais importantes moedas de troca em uma sociedade democrática. 

Quando a credibilidade de um desses veículos formadores de opinião é balançada, dependendo do país que falarmos, a pode coisa ficar feia. E como vamos falar do Reino Unido… 

No ano passado, o tabloide News of the World (NOFTW) passou por uma dessas complicadas situações e acabou fechado. À época vieram a público, pelo periódico The Guardian (ideologicamente oposto ao NOTW), denúncias do uso de escutas ilegais e grampos de telefones de celebridades e pessoas importantes (clique aqui para mais sobre isso no blog). O jornal funcionava desde 1891, era parte do grande grupo de mídia, News Corporation, do magnata da mídia, Rupert Murdoch, e, mesmo assim, não foi poupado por seu escândalo. 

Mas a roda da vida gira de maneira irônica, e logo, aquele que se viu arruinado, pode ver um de seus  competidores seguir pelo mesmo caminho. E foi a vez da BBC. Também um dos mais tradicionais veículos de mídia do Reino Unido entrou em uma crise severa recentemente, após uma sucessão de eventos infortuitos que começaram coma  divulgação de que um dos seus apresentadores mais icônicos, Jimmy Savile, praticou pedofilia quando vivo. A notícia saiu em dezembro de 2011 e somente em outubro desse ano que a situação começou a piorar. Em outubro, um canal privado divulgou um programa com declarações de vítimas de Saville quando crianças e até David Cameron pressionou a emissora. 

A BBC complicou-se de vez quando o programa Newsnight divulgou falsas acusações de pedofilia contra um “importante político da era Thatcher” sem maiores especificações e, após especulações sobre quem esse político seria se espalharem na internet, as supostas vítimas vão ao ar e dizem ter se enganado. A omissão sobre o caso Saville  custou o  cargo do editor do programa Newsnight, e a falsa acusação, o cargo da diretora e do vice-diretor de jornalismo, e a substituição do novo diretor da emissora. Ainda houve o básico salário equivalente a R$ 1,5 milhões pagos ao diretor que ficou apenas 54 dias no cargo. Atitude que levou a críticas diretas até mesmo de David Cameron.

Segundo a Folha de S. Paulo, no dia 13 desse mês, a  uma agência reguladora de comunicações do Reino Unido mostrava que a BBC era a emissora com o maior nível de confiança do público. Essa sequência de tropeços pode derrubar essa credibilidade, tão cara à BBC, e pode custar também seu status de empresa pública. Murdoch já tem iniciado sua campanha contra a BBC, via twitter, e tem uma boa oportunidade de fazer crescer a influência de seus outros jornais.

Se no Reino Unido já há precedentes de caminhos nefastos das grandes empresas de mídia que tem sua credibilidade afetada, tudo indica que os tempos não são bons para a BBC. Todavia, diferentemente do NOTW, a BBC é uma dos maiores e mais populares veículos midiáticos do país e conta com canais de TV, jornais e notícias online. Cabe saber se isso será suficiente para abafar sua crise de credibilidade, se   ela ainda permanecerá sendo uma empresa pública e se conseguirá desviar-se desses problemas para manter sua reputação. Aguardem os próximos capítulos. 


Categorias: Europa, Polêmica


O "Hollandismo"

Por



“A história mostra em toda parte que, quando partidos ou políticos de esquerda travam contato com a realidade, através de cargos políticos, tendem a abandonar sua utopia ‘doutrinária’ e a moverem-se para a direita, normalmente mantendo seus rótulos de esquerda e, desta forma, aumentando a confusão da terminologia política”. 

Edward Carr – Vinte Anos de Crise (1919-1939) 

Após seis meses de governo, o presidente francês François Hollande deu origem a mais um novo “ismo” nos dizeres políticos e econômicos internacionais: o “Hollandismo”. O que se observa até o presente momento é a realização de uma série de medidas para tentar colocar ordem na casa dos franceses e, consequentemente, mas em menor escala, na própria Europa. Com o ápice da crise financeira em 2008 e as incongruências governamentais de seu antecessor, Nicolas Sarkozy, o atual presidente subiu ao pódio com um discurso reformador. 

Dívida, desemprego, perda de competitividade e déficit de crescimento foram os principais temas que preocupavam os franceses. Assim, qual seria a solução para todos estes problemas? Ninguém sabia ao certo, mas o discurso dito esquerdista de Hollande agradou a muitos. Já o chamavam de social-democrata, fazendo uma alusão à social-democracia alemã criada no século XIX, a qual tinha como preceito uma base marxista, acreditando que através de princípios democráticos se atingiria um governo socialista per se

Com o passar dos anos, esta ideologia ou forma de governo, como quiserem, foi ganhando novos contornos e adquiriu uma vertente norte-americana. Por sua vez, esta se baseou no velho conhecido Estado de bem-estar social, aglutinando o modelo capitalista com uma atuação estatal intensa nas vias políticas e econômicas de fato. Bem verdade, o “Hollandismo” parece seguir esta via, mas mesclando a velha cunha da esquerda. 

Ademais, o presidente também apela para o discurso nacionalista francês. Em alguns dos seus pronunciamentos, levantou palavras como “Estamos na França […] devemos fazer nação”. Se for para mudar, mudemos, mas sem deixar nossas bases antigas. Hollande quis unir o tradicional ao moderno, veio para mudar algo um tanto quanto imutável. Um semestre de governo ainda é pouco para apreciar mudanças significativas. 

Exemplo principal desta questão é a própria União Europeia. Vítima de ceticismo crescente após as sucessivas crises econômicas e do Euro, Sarkozy e Angela Merkel, chanceler alemã, eram o ponto de apoio de todo bloco. Hollande, para o bem ou para o mal, pareceu quebrar esta lógica e o diálogo com a vizinha Alemanha encontrou novas nuances. Em tempos de insatisfação popular, nada restou ao presidente a não ser pedir mais paciência aos franceses

O discurso de mudança sempre agrada a população quando há crise interna, isto é uma verdade incontestável. Por si só, a oratória de Hollande foi convincente, pois nada melhor do que um novo fôlego para alguém que precisa correr constantemente. É assim na França e é assim na Europa. Entretanto, sua ideologia mostrou-se (em partes) divergente da realidade até o presente momento. Denunciou veementemente as políticas de austeridade, mas as aplicou em menor grau nos últimos meses. 

Outra vez, conforme Hollande disse, vamos esperar pelos próximos anos de seu governo para não tirar conclusões precipitadas. No mais, as palavras de Edward Carr no começo do texto são um possível resumo do que vem a ser o “Hollandismo”, passada a febre inicial do novo governo.


Categorias: Economia, Europa


Há um ano...

Por

Relembrando postagens antigas, há um ano o blog estava agitado com diferentes temáticas.

Em relação à tão comentada Primavera Árabe, um marco importante acabava de acontecer: a captura e morte de Muammar Kaddafi (confira o post aqui). Transformado em feriado na Líbia, a importância desse dia é inegável, mas também inegável é o fato de que mesmo após um ano de sua chamada “libertação total”, dificuldades enormes ainda assolam o povo líbio. Entende-se hoje que, mesmo com o fim oficial das hostilidades no país, conflitos entre comunidades se tornaram frequentes, devido à forte presença de grupos armados que não se encontram efetivamente sob o controle do Estado. Mesmo que comemorada em Benghazi e Trípoli, a Líbia ainda enfrenta muitos desafios na formação de seu novo governo e na reconstrução social do país.

Dois posts há um ano discutiam também a questão dos países emergentes no cenário internacional. Seja o Brasil – com a primeira viagem oficial de Dilma à África (reveja o post aqui) – ou a China – com suas contribuições elevadíssimas a uma Europa em crise (post aqui), a verdade é que a temática de uma possível “colonização às avessas” chama a atenção internacional. Este ano o debate continua em pauta, sendo que foi inclusive iniciado há duas semanas um processo oficial para que dois assentos europeus na Diretoria Executiva do Fundo Monetário Internacional (FMI) sejam cedidos a países emergentes. Interessante, não? Certamente trata-se de um assunto que estará em pauta por muitos anos ainda no blog…

Por fim, há quase exatos 365 dias foi anunciada a cessação definitiva das atividades do ETA (“Euskara ta askatasuna” ou “Pátria Basca e Liberdade”), grupo separatista basco (reveja o post aqui). Após quase 50 anos de atividades e atos violentos (mais de 800 mortes), esse anúncio pode ser considerado um marco importante para a história da Espanha. Entretanto, um ano se passou e, apesar de nenhum ato terrorista ter sido cometido, a organização ainda não anunciou sua dissolução efetiva, nem tampouco entregou suas armas – elementos essenciais e continuamente exigidos pelas forças políticas espanholas. Com a renovada força dos partidos nacionalistas no País Basco nas eleições regionais deste mês, o debate sobre a independência basca parece não estar, de fato, 100% encerrado.

Relembrando, revivendo e redescobrindo o cenário internacional, de ano em ano seguimos com os posts na nossa Página Internacional! 

Condannato!

Por

Condenado. Este é o mais novo status de Berlusconi, que ilustrou as grandes manchetes internacionais nestes últimos dois dias. Dentre os seus muitos processos judiciais (no total já foram 33!), o polêmico ex-primeiro-ministro italiano foi hoje pela primeira vez condenado à prisão, devido às fraudes fiscais em relação a direitos televisivos de filmes (caso Mediaset, veja mais aqui.)

Sua condenação inicial de 4 anos foi reduzida em algumas horas a apenas 1 ano, devido a uma lei italiana de anistia. E, na verdade, a probabilidade de que Berlusconi seja realmente preso é baixa, considerando os trâmites judiciais de apelação que já estão sendo efetuados por seus advogados. O ex-primeiro-ministro chegou mesmo a declarar que o julgamento foi intolerável, sugerindo que “com juízes como estes este país se torna bárbaro e insuportável, deixa de ser uma democracia” (!).

Apesar da baixa probabilidade de vermos uma foto de Berlusconi efetivamente atrás das grades em um futuro próximo, é clara a importância desse julgamento para a história política italiana e internacional. Após anos de investigações, finalmente uma decisão final foi apresentada, mobilizando a população italiana e agitando o cenário político internacional.

Tendo passado 17 anos no poder, Berlusconi foi protagonista de diversas mudanças na política italiana, tornando-a bastante personalizada. Em meio às graves consequências da crise econômica no país, renunciou ao seu cargo no final do ano passado – deixando ao seu sucessor o enorme desafio de reerguer a Itália em uma União Europeia já bastante enfraquecida.

A questão, pois, envolvendo a condenação de Berlusconi pode ser considerada um marco simbólico principalmente para a população do país, revertendo pela primeira vez um paradigma tácito de impunidade. Condenado, os italianos podem finalmente acreditar que um líder – mesmo que seja Berlusconi – não goza de liberdade incondicional em sua vida pública e privada…


Categorias: Europa, Mídia, Polêmica


Quem sair fecha a porta

Por

Quando falamos de política externa dos EUA na última década, todos estão cansados de dizer que eles tinham duas pedras de tropeço, as guerras do Iraque e do Afeganistão. Enquanto Obama já conseguiu se livrar da primeira (mal e mal e deixando um abacaxi que mais parece um porco-espinho pra trás), ainda restam promessas e uma trilha de cadáveres na segunda. Mas não devemos esquecer que essa é uma empreitada em que os EUA não estão sozinhos – o Reino Unido e diversos países europeus estão envolvidos nesse consórcio da OTAN,e essa semana está havendo uma importante novidade pro desfecho desse conflito. 

Ou, pelo menos, pra fim da participação britânica nessa guerra. Segundo o secretário de Defesa, o país deve retirar boa parte dos soldados até 2013 e possivelmente a retirada total até 2014. Mais do que impopularidade, parece ser uma questão de custos: assim como na maioria dos países que não são os EUA, quando o dinheiro falta a primeira coisa que o governo faz é apertar o cinto e cortar gastos de defesa. E o Reino Unido está num ambiente nada favorável a manter aventuras na Ásia Central custeadas pelo contribuinte. 

Mas pesa sim o fator “popular”. Na última semana fuzileiros britânicos foram acusados de matar um inocente em combate. Não chegou a ser como o caso do americano que massacrou dezenas de civis, mas mostra como as tropas já chegaram àquele ponto em que existe uma pressão psicológica sobre os indivíduos, e uma notícia dessas não pega nada bem na maliciosa imprensa inglesa. Não está ajudando nada um escândalo envolvendo tráfico de influência por parte de ex-oficiais, que estariam favorecendo empresas em concessões para as forças armadas violando a legislação inglesa. Isso estourou deixando o governo com mais uma dor de cabeça financeira e midiática. 

Mais do que os gastos financeiros e em vidas humanas, fica a sensação de perplexidade com relação ao desfecho desse conflito. Se os EUA e amigos deixarem o Afeganistão, do modo como está, não apenas não vão ter removido completamente o Taleban (ideia original disso tudo) como deixarão um ambiente regional altamente instável. A coisa transbordou e agora se fortaleceu o Taleban no vizinho Paquistão, e a situação, se não parece pior do que era em 2001, não parece melhor. Pra se ter uma ideia, uma menina de 14 anos, defensora dos direitos das mulheres, virou alvo oficial do Taleban (com nota e tudo mais) e sofreu um atentado. Baleada, em estado grave, está finalmente sendo transferida, ironicamente, para a Grã-Bretanha. A saída dos principais atores ocidentais desse conflito não vai ser o fim dos combates ou da instabilidade. O veredito final sobre essa guerra vai ser mais fácil de emitir no futuro, mas é aparente o fracasso.


Categorias: Ásia e Oceania, Conflitos, Defesa, Europa, Paz, Segurança


E o prêmio vai para…

Por

…a União Europeia! Sim, o Prêmio Nobel da Paz edição 2012 foi concedido hoje para a União Europeia. A mesma União Europeia que tem aparecido quase que diariamente nas manchetes internacionais devido a grandes dificuldades internas, hoje figura de forma comemorativa nas mesmas manchetes, com grande repercussão no mundo inteiro.

Para justificar a escolha do vencedor, o comitê norueguês responsável pelo prêmio ressaltou a importância desse bloco regional para a consecução da paz no continente durante as últimas várias décadas pós-Segunda Grande Guerra.

Encarada como “incentivo à superação” por alguns ou “brincadeira de mau gosto” por outros, fato é que a escolha do bloco europeu pra esse prêmio tão renomado internacionalmente não poderia ter acontecido em momento mais delicado. 

Momento em que a União sofre grandes dificuldades de aceitação e legitimidade, em meio a uma crise econômica que chega a apresentar riscos à própria manutenção do euro, diante das incertezas por parte do mercado financeiro. Os cortes aos benefícios sociais e direitos trabalhistas tornam certas medidas impopulares, e são ainda notáveis as dificuldades entre os países-membros que, apesar de constituírem um mesmo bloco, sofrem de formas distintas as consequências da crise.

Reconhecer o papel histórico relevante da União Europeia nos últimos tempos é válido e reforça a importância dos blocos multilaterais para a construção do diálogo entre os Estados. Contudo, dedicar um Prêmio Nobel da Paz ao bloco em um momento de tantos questionamentos e dificuldades parece ser fruto de uma estratégia notadamente política.

Visto como uma surpresa pelos grandes líderes regionais, o fato de o prêmio ser, de certa forma, “oferecido” pela Noruega (país que recusou mais de uma vez a entrada no bloco), não deixa ainda de representar mais uma ironia a ser considerada.

Dado o alto valor em dinheiro que o prêmio concede aos escolhidos para a nomeação, Lech Walesa, ex-presidente da Polônia e Prêmio Nobel da Paz de 1983, ao concordar com a relevância da União para as transformações recentes europeias, reconhece, contudo, o custo financeiro existente para este fim. Bem diferente de muitos casos de ativismo pessoal pelo mundo… 


Categorias: Europa, Mídia, Organizações Internacionais


Protegendo?

Por

Onde está o limiar entre ações protecionistas, entendidas como práticas corrosivas ao mercado internacional, daquelas medidas bem-vindas às indústrias? Infelizmente, não existe resposta muito objetiva. Esse tipo de discussão sempre incorrerá em perspectivas diferentes partindo das visões divergentes dos países. Mas, no cenário internacional atual, mantendo-se dentro de um conjunto aceitável de regras da OMC, pode-se tentar barganhar pela legitimidade de um argumento. 

E a União Europeia não tem se poupado para obter esse recurso. O mais recente caso foi a ameaça de protestar na OMC contra a nova política automotiva do Brasil, o “Inova-Auto”, publicado na semana passada. Basicamente, o bloco critica o governo brasileiro de tomar uma medida de caráter protecionista e diz que vai tentar buscar legitimidade de sua posição na OMC. 

Ora, mas será que é protecionismo mesmo? 

Bom, antes de tentar responder à pergunta, vamos a algumas características dessa nova política. No contexto de crise econômica internacional e de diversas críticas a um suposto processo de desindustrialização do Brasil, para que as empresas automobilísticas tenham um desconto de 30% no valor do IPI (imposto sobre produtos industrializados), é preciso que elas tenham uma fábrica no país. Caso não o tenham, há um valor limitado de carros importados com o desconto no imposto. Da mesma forma, as empresas precisam cumprir alguns requisitos no uso de energia, como aumentar em 12% a eficiência dos motores, e manter um certo volume de peças nacionalizadas. Ainda há descontos extras no IPI para aqueles que também forem capazes de investir na redução do uso de combustíveis. 

Resumidamente, esse novo regime automotivo brasileiro representa uma tentativa do governo de incentivar investimentos em tecnologias e inovação na indústria automobilística instalada no país, aproximar-se do cumprimento de metas de redução de gases de efeito estufa e ainda exigir produtos de maior qualidade para o consumidor. 

Agora, voltando para nossa pergunta, podemos dizer que a medida é protecionista? Em termos absolutos, não tem como negar que a medida tem “um que” de protecionismo. Entretanto, em termos relativos, não. Ora, é sim uma forma de proteger o mercado contra os importados, pois a necessidade de ter uma fábrica no país e de cumprir com as exigências técnicas é um fator limitante. Por outro lado, mais que protecionismo, é uma demanda por maior qualidade dos automóveis vendidos por aqui e de busca por movimentar o mercado nacional. Isso porque, ao se exigir peças nacionais, mexe-se também em inúmeras outras indústrias que podem gerar empregos. 

Bom, sem entrar no mérito dos economistas sobre se a política vai produzir efeitos sobre preços e volume de empregos, pode-se ver que nesse sistema econômico liberal construído após a II Guerra Mundial, ser taxado de protecionista é ser alvo de descrédito. Mesmo tendo sido a União Europeia indicada como campeã de protecionismo nos últimos tempos, criticar políticas que fazem empresas importantes saírem de suas zonas de conforto é sempre mais conveniente do que adaptar-se. E, no fim das contas, o discurso de crítica ao protecionismo representa apenas uma forma de proteger suas próprias medidas protecionistas.

[Para mais: 1, 2, 3]


Categorias: Brasil, Economia, Europa, Organizações Internacionais, Política e Política Externa