Ciao, Bento

Por

Segunda-feira é um dia complicado, por que sempre pode aparecer uma surpresa. Estava preparado para fazer uma postagem sobre o escândalo frigorífico da carne equina na Europa quando do nada vem a notícia que o abatido papa Bento XVI vai renunciar no fim do mês. 

Esperem, renunciar? Sim, eles podem, apesar desse expediente não ser usado desde 1415. Na era moderna, os papas sempre encerraram o pontificado com seu falecimento. Bento XVI, ou Joseph Ratzinger, que foi o primeiro papa alemão desde o século XI, deixa assim a sua “marca” para os livros de curiosidades, assim como seu antecessor João Paulo II foi o primeiro papa não italiano em séculos. 

Mas… e daí? A única coisa que se especula é que a saída tenha a ver com sua idade avançada. Muito stress pra pouca saúde. Lembramos que a Igreja Católica passa por um momento delicado atualmente. Ao mesmo tempo em que cresce em regiões da África e da América Latina, perde fieis em rincões tradicionais como o Brasil e a Europa. Sem o carisma do antecessor, tentou inovar, como a sua famosa conta do Twitter. Mas no fim das contas, o papado de Bento XVI é marcado por problemas, com a tentativa de disciplinar a atuação da Igreja, com punições mais acentuadas a denúncias de abusos, mas ao mesmo tempo sem que parassem de estourar escândalos e continuando com uma postura rígida acerca de temas mais sensíveis como aborto e casamento homossexual. 

Nesse sentido, a saída dele tem muita importância. Muita gente vai estar interessada no que o novo pontífice vai falar, católicos ou não. Vale lembrar que ainda é uma das maiores igrejas do mundo, e a única das “grandes” com uma liderança única significativa, que mesmo sem poder na prática, interfere potencialmente nos valores de uma parcela gigantesca da humanidade. A dúvida é se o novo papa vai ter uma postura mais “liberal” ou continuar o processo conservador de Ratzinger, nesse desafio de balancear o discurso e agradar a gregos e troianos. É tentador trazer pro debate coisas como as profecias de São Malaquias ou especular novos candidatos, mas por enquanto o jeito é esperar a fumaça branca no Vaticano.


Categorias: Cultura, Europa


O risco não compensa…

Por

Quando ouvimos as longas e, por vezes, cansativas palestras sobre citações e plágio no início da universidade, muitas vezes nos perguntamos o motivo da insistência dos professores e funcionários a este respeito, pois “não copiar” o trabalho alheio parece ser um conceito muito claro a ser compreendido. Acontece que não.

Denúncias de plágios cometidos por políticos de alto escalão (frequentemente em suas teses de doutorado) costumam fazer alarde em meio à opinião pública pela gravidade da situação, prejudicando a imagem de governos e derrubando nomes fortes de suas posições.

Hoje a Universidade de Dusseldorf anunciou que a Ministra da Educação (!) da Alemanha será obrigada a renunciar a seu título de doutorado devido a plágio. Ela nega e afirma que não deverá deixar o cargo, mas a polêmica repercute negativamente para todo o governo Merkel. Aliás, no ano passado outro ministro alemão renunciou ao cargo após denúncias similares – o então Ministro da Defesa foi, à época, acusado de plágio também em seu doutorado pela Universidade de Bayreuth…

Na Hungria, uma polêmica nacional no ano passado levou à renúncia do presidente do país após pressão devido à sua acusação de plágio no doutorado de duas décadas atrás (!). Também o Vice-primeiro-ministro húngaro foi acusado de plágio pela Universidade Eotvos Lorand pouco tempo depois.

Para finalizar a lista de personalidades políticas nesta situação, também o Primeiro-Ministro da Romênia foi acusado de ter quase metade de sua tese “duplicada” em 2012, além do caso do então Ministro da Educação e da Ciência no país.

Com esta enorme lista de casos (conhecidos) pelo mundo afora, envolvendo a imagem nacional e internacional dos países, a questão do plágio assume uma proporção muito maior do que se poderia jamais imaginar [interessante artigo a respeito aqui]. Dada a importância da originalidade na pesquisa científica para o seu desenvolvimento contínuo, a conclusão é que o risco – absolutamente – não compensa. 


Categorias: Europa, Mídia, Polêmica


Corrupção…"a la española"

Por

Anotações da contabilidade feita por tesoureiros do Partido Popular da Espanha entre 1990-2009.

Fonte: El País.com

Desta vez não estamos falando da “Pátria amada, Brasil”. Não por falta de oportunidade. Afinal, hoje mesmo ocorreram novas eleições para a presidência do Senado e o candidato favorito era nada mais nada menos que Renan Calheiros. Ele “só” foi denunciado ao Superior Tribunal Federal (STF) por falsidade ideológica, peculato e uso de documentos falsos. Está rolando até uma campanha no site “avaaz.org” intitulada “Ficha Limpa no Senado: Renan não” para bloquear a suposta candidatura do dito cujo. “Renão” não deu certo e acabo de saber que ele é o novo presidente do Senado. 

Já começo a escrever sobre o Brasil e este nem é o ponto principal do texto. Quando vejo já da um parágrafo. Poderia dar um livro de 500 páginas, pois fontes e acusações não faltam. Mas, falemos de Espanha. Sim, aquele país europeu, membro da União Europeia que, segundo dados da revista Carta Capital publicada semana passada (ano XVIII, n. 733) está com uma taxa de desemprego entre estrangeiros de 36,5% e entre cidadãos do país de 24%. É muita coisa e mais informações podem ser obtidas aqui.

Como disse em textos passados, é tudo culpa do euro. A união monetária tornou-se o pior dos males de uma Europa destruída e arrasada economicamente. Assim, nada melhor do que culpar problemas domésticos com fontes ditas supranacionais. Sim, o euro teve seus erros e agora os países estão pagando o preço, literalmente, por isso. Mas o que quero dizer é o seguinte: quando encontramos problemas internacionais, esquecemos alguns de ordem interna. 

Hoje veio à tona um grande caso de corrupção entre os espanhóis: Luis Bárcenas, ex-tesoureiro do Partido Popular (PP) foi acusado de ser o principal articulista no repasse de comissões ilegais de empreiteiras a líderes do partido. Até o atual primeiro-ministro espanhol, Mariano Rajoy, está envolvido no caso e a oposição pediu a retirada imediata do mesmo de seu cargo e a convocação de eleições antecipadas. Houve, inclusive, levantes populares anticorrupção, mas a polícia conteve as manifestações que rumavam à sede do PP. 

Pela grande movimentação que vi no jornal espanhol “El País”, trata-se de uma reviravolta na política da Espanha. Faltam algumas provas, são só acusações. Entretanto, são acusações severas, documentadas e articuladas. De acordo com este mesmo jornal, são repasses de empresários diretamente ligados e contratados pelo governo. É a velha conhecida “cooperação” público-privada. O caixa do ex-tesoureiro chegou em quase 1 milhão de euros. Parece pouco, mas para a massa desempregada não soa nada bem. 

PS: Pois bem, escrevi este texto enquanto saiu o resultado da eleição de Renan Calheiros no Senado. Comecei falando do Brasil sem pensar no resultado que veio a calhar. Servindo para o caso espanhol também, deixo uma frase do Barão de Itararé: “O político brasileiro é um sujeito que vive às claras, aproveitando as gemas e sem desprezar as cascas”.


Categorias: Brasil, Europa, Polêmica, Política e Política Externa


Davos, Brasília e Santiago

Por

Fonte: Ed Ferreira/Estadão


Quem está na moda é a União Europeia. Depois da crise econômica, o bloco econômico está tentando “viver às próprias custas”. Uma reforma econômica aqui e outra ali já faz parte do cotidiano das dignas grandes economias, com destaque para a Alemanha. 

Falando nela, a chanceler alemã, Angela Merkel, fez um discurso no Fórum Econômico Mundial (WEF, em inglês), que está acontecendo no balneário de Davos, na Suíça, falando justamente sobre medidas para se salvaguardar a moeda comum. Só se cogita no euro. É euro pra cá e euro pra lá. Mas outras questões ficam esquecidas. Como acabar com o gritante desemprego que chegou, por exemplo, na casa dos 25% na Espanha? Como evitar medidas de austeridade tão criticadas, mas postas em execução por vários governos, incluindo a França? Além da economia, como evitar o déficit democrático do bloco? É por estas e outras que o primeiro-ministro inglês, David Cameron, ameaçou uma possível saída futura do Reino Unido do bloco. Isso porque nem está na zona monetária… 

Ontem mesmo ocorreu a VI Cúpula Brasil-União Europeia, na cidade de Brasília. Dilma se encontrou com os presidentes do Conselho Europeu, Van Rompuy, e da Comissão Europeia, Durão Barroso (foto). Obviamente a reunião tangenciou os pontos de cooperação bilateral, planos de ação e comunhão de interesses de ambas as partes. Entretanto, conforme vi na declaração conjunta divulgada no site da Delegação da UE no Brasil, teve muito “blá, blá, blá diplomático” também. Além do compromisso de uma exitosa conclusão da Rodada Doha (o que é difícil…) e da exaltação do documento “O Futuro que Queremos” proveniente do Rio+20 (o que foi um fracasso…), reafirmaram o compromisso em levar a paz para o Oriente Médio (o que é colocado em questão, mormente pelas posturas nucleares do Irã…). 

E saiu neste encontro a discussão sobre a realização da I Cúpula CELAC-UE, a ser realizada nos próximos dois dias em Santiago, no Chile. Criada em 2010, a Comunidade dos Estados Latino-Americanos e Caribenhos (CELAC) procurou, no cerne da sua institucionalização, fomentar o multilateralismo na região sem a intervenção dos Estados Unidos e Canadá. O propósito desta primeira reunião é importante: promover alianças para o desenvolvimento sustentável e a qualidade ambiental/energética. Aqui sim temos progressos visíveis, os quais colocam no centro do debate os regionalismos americanos. Os objetivos serão ratificar o plano de ação feito em 2010 pelas lideranças e avançar na adoção de uma declaração em conjunto. Como será o debate inicial, trará bons frutos. 

É a UE saindo do buraco. Mesmo com controvérsias, está melhor hoje do que ontem. Votos para que continue assim.


Categorias: Américas, Brasil, Economia, Europa


Sai ou não sai?

Por

E o Primeiro-Ministro inglês lança mais uma polêmica sobre uma fragilizada União Europeia… em declaração proferida no dia de hoje, David Cameron apresentou uma sutil (?) ameaça relativa à saída do Reino Unido do bloco caso este não seja reformado e as relações com seu país renegociadas.

Com o anúncio da possibilidade de um futuro referendo para consulta popular sobre a manutenção do país no bloco europeu (com data indefinida, mas possivelmente entre 2015 e 2017), Cameron traz à tona o risco da saída inglesa da lista dos 27 Estados-parte da União. Segundo alguns, na verdade Cameron já está em ritmo de campanha para sua continuação no mandato de 2015 até 2019, visto que, segundo pesquisas, aproximadamente 40% da população preferiria o Reino Unido fora da UE.

A questão é saber se o Reino Unido precisa da União Europeia tanto quanto esta precisa do país. A representatividade inglesa – dado seu peso militar, político e econômico no cenário internacional – é inegável, mas até que ponto esta liderança seria mantida fora do grupo europeu?

Tudo bem que o Reino Unido já não faz parte do Espaço Schengen, mantendo sua própria moeda e uma certa independência da (atualmente não tão estável) “euro-zona”. Entretanto, em uma época em que o multilateralismo se mostra cada vez mais importante para a melhor consecução dos objetivos individuais, bem como para o fortalecimento do próprio sistema internacional, uma ameaça deste nível parece ser muito mais retórica que efetivamente prática, provocando polêmica para que a sua própria participação seja mais valorizada (e não o contrário).

Muitos interesses estão em jogo nesta questão, inclusive do próprio Cameron, então em meio à incerteza lançada hoje a única certeza talvez seja que as relações internacionais são (re)construídas constantemente com base em laços de confiança e jogos de poder, nas mais diferentes esferas… 


Categorias: Europa, Organizações Internacionais, Política e Política Externa


Et tu, Brute?

Por

A imagem é fortíssima, e já diz tudo. Nesse fim de semana, numa conferência ao vivo, o líder de um partido turco da Bulgária (parece confuso, mas é isso mesmo) sofreu um atentado, e só escapou por que a arma travou. Sorte grande ou milagre para Ahmed Dogan, azar do pretenso atirador, que levou uma bela surra dos presentes e foi preso. 

Assassinatos políticos não são expediente novo – estão aí desde sempre, como atestou o pobre Júlio César a seu afilhado Brutus na versão imortalizada de Shakespeare (versão aliás bem mais interessante que a da vida real, em que morreu sem dizer nada esfaqueado por umas 20 pessoas). E só de pensar nos casos como o do Arquiduque Ferdinando, ou de John Kennedy (aliás, presidentes americanos tem essa tendência terrível de serem baleados) vemos que ainda está na moda, apesar de ser um estilo meio século XX ainda.

O interessante disso é que na maioria das vezes, o autor dos disparos (ou facadas, ou seja lá o que for) nem chega perto de cumprir seu objetivo, ou apenas piora a situação. John Wilkes Booth matou Lincoln por que era contra a libertação dos escravos (entre outras coisas). Deu tão certo que o Obama é presidente hoje. Gavrilo Princip estourou a I Guerra Mundial quando matou o Arquiduque Francisco Ferdinando em nome do nacionalismo sérvio, e apesar de não ser a única causa, acabou sendo um dos responsáveis por deixar seu povo em guerra por mais de 80 anos. E isso pra não dizer os inúmeros planos que não falharam, como a Operação Valquíria ou as folclóricas e desastradas tentativas da CIA de se livrar do Fidel Castro. Acho que a única exceção a essa regra até hoje foi a morte do Yitzhak Rabin, que realmente foi um sucesso total pro atirador (e a desgraça do processo de paz com os palestinos). 

Desse jeito, o assassinato acaba tendo muito mais uma função simbólica ou de amedrontamento (que mesmo assim pode não funcionar). No fim das contas, acaba se tornando apenas um crime comum, originado em problemas psiquiátricos ou perversidade mesmo. Parece ser o caso – a Bulgária é um país com grande população muçulmana e turca (uma espécie de “santuário” de tolerância numa Europa cada vez menos amistosa), então seria de se esperar que fosse um assassinato de protesto contra imigrantes ou coisa do tipo… até descobrir que o atirador é de etnia turca. Vai entender.


Categorias: Europa, Política e Política Externa


Os males de Mali

Por

A próxima moda do noticiário de intervenções armadas vai ser o Mali. O que surpreende um pouco já que a coisa estava feia por lá desde o ano passado (e pouco se comentou por essas bandas). Como havia comentado em outro post, o Mali se tornou uma espécie de mini-Afeganistão, com grupos islâmicos radicais ligados à Al Quaeda tomando a porção norte do país e com tudo levando a crer que formariam um novo santuário terrorista. Pra evitar maiores problemas, a ONU deu um aval tácito a uma intervenção e só faltava alguém para sujar as mãos. Quem se voluntariou foi a França, que justificou a ação com base em “estar em guerra com o terrorismo” (já não vimos isso antes?) e o fato de o Mali ser uma ex-colônia, o que incorreria nesse “dever” histórico de ajuda. Claro que tem outros interesses por trás, e a França não se faria de rogada pra fazer propaganda bacana dos Rafale. 

O fato é que os ataques começaram na semana passada pra valer, com bombardeio a campos de treinamento e coisas do tipo. A expectativa é que a intervenção acabe em coisa de semanas, mas a julgar pelo histórico desse tipo de expediente é bom pegar uma cadeira pra ver o que vai rolar. Países como Reino Unido e EUA estão ajudando (novidade), o CS da ONU vai discutir o assunto nessa semana para dar respaldo e até mesmo tropas africanas (lideradas pela Nigéria) se preparam para entrar no Mali e conter a insurreição. 

É mais uma questão de manda quem pode, obedece quem tem juízo. Mesmo que haja problemas de legalidade na ação francesa (e toda aquela questão de soberania), quem vai impedir? A impressão que fica é de que a ação é “boa” pra todo mundo (que não seja a Al Quaeda), então tanto faz, nessa terra de ninguém da política internacional que é a África subsaariana (apesar de ficar na região do Saara…enfim, é aquele caos que todos conhecemos). Ironicamente, o único resultado concreto, até agora, foi a troca de uma possibilidade de ameaça pela certeza dela, já que os grupos que tomaram a região anunciaram que a França está atacando o Islã, e vão revidar. Sacrebleu!


Categorias: África, Conflitos, Defesa, Europa, Paz, Segurança


Queima de fogos

Por

O ano novo já passou mas tem gente soltando rojão até hoje. E do jeito que as coisas estão, vamos ter uns fogos de artifício bem assustadores no Oriente Médio. Foi noticiado que os EUA e aliados da OTAN começaram a mandar mísseis para instalar na Turquia, sua aliada, em resposta a possíveis agressões da Síria (que continua na mesma matança de sempre). 

A história não é nova. Muita gente não sabe, mas quando a União Soviética mandou os mísseis nucleares para Cuba em 1962 (e deu no que deu), não foi uma “agressão” gratuita, mas sim uma resposta à instalação de mísseis norte-americanos em vários países, incluindo a Turquia. Não é nenhuma novidade. Mais do que proteger um coleguinha da OTAN, a mensagem parece clara para os países da região: após a catástrofe na Líbia, a palavra de ordem é “sosseguem o facho”, e os EUA parecem não querer que as coisas saiam do controle como no norte da África. Como dissemos em outras postagens, o perigo de a crise síria se espalhar é muito grande e seria danoso para muita gente, especialmente os EUA, que se veriam na urgência de acudir aliados como Turquia e Israel. 

O principal destinatário desse recado, mais do que Assad, parece ser Ahmadinejad. O Irã está prestes a entrar em negociações com seis potências (EUA, Rússia, França, Grã-Bretanha, Alemanha e China) acerca de seu programa nuclear, ao mesmo tempo em que realizou testes de lançamento de mísseis avançados nos últimos dias. É aquela velha conversa de morder a assoprar, e o governo de Washington parece estar farto. Isso pra não entrar na questão do apoio velado do Irã aos palestinos de Gaza, que uma hora vai trazer Israel pro bolo e não demora nada para os fogos começarem a estourar. Para os EUA é muito mais interessante (tentar) mostrar quem manda do que ter apagar um rastro de pólvora em um barril que já explodiu. 

Os EUA podem ter perdido influência e até mesmo o posto de ter o seu presidente como o homem mais poderoso do mundo (honraria que a Foreign Policy deu ao presidente russo Vladmir Putin, na falta de um ocupante para o primeiro lugar), mas com essa atitude preventiva mostram que não largam o osso tão cedo naquela região. Ainda valem as duas faces da política externa de Aron, com as figuras do diplomata e do soldado, e os EUA mostram que ainda tem muito gás em qualquer uma delas.


Categorias: Defesa, Estados Unidos, Europa, Oriente Médio e Mundo Islâmico, Paz, Polêmica, Política e Política Externa, Segurança


Depardieu… russo?

Por

E 2013 começa com uma ampla discussão internacional no que se refere ao domínio fiscal – os tão temidos impostos. Nas últimas semanas, o ator francês Gérard Depardieu causou polêmica ao protestar contra o aumento dos impostos aos franceses mais ricos. Comprou uma casa na Bélgica (região fronteiriça, veja notícia divertida aqui) e foi acusado de antipatriótico pelo primeiro-ministro francês.

Antipatriótico ou não, fato é que o ator – como muitos outros franceses, aliás – fugiu de um aumento de 75% em taxas sobre rendimentos superiores a 1 milhão de euros (!). Alguns poucos quilômetros além da fronteira, já no lado belga, a mesma taxa para os milionários se reduz para 50%.

No final do ano, o presidente russo Putin entrou na discussão ao propor que, para resolver a questão, o eterno Obélix poderia obter a nacionalidade russa. Na Rússia, a tributação é de apenas 13%, independentemente da renda de seus cidadãos. A princípio levado na brincadeira pela mídia internacional, hoje foi obtida a confirmação de que Putin estava falando sério: Depardieu possui, a partir de agora, também a cidadania russa!

Em carta publicada hoje pela mídia russa, Depardieu afirma que o país também faz parte de sua cultura, já que um dia seu pai foi comunista e ouvia a Rádio Moscou (?!). O comentário alimenta de uma forma talvez jocosa este sério debate sobre a tributação aos mais ricos nos diferentes países do mundo, bem como suas consequências.

Nos Estados Unidos, o reeleito Obama acaba de promulgar (no meio de suas férias) uma lei exatamente sobre a tributação àqueles com renda superior a 400 mil dólares/ano, evitando o chamado “abismo fiscal”. Neste caso, a taxa de imposto de renda sobe de 35% para aproximados 40%, em uma votação agitada que evitou o aumento de impostos a quase todos os contribuintes e fez jus (pelo menos por enquanto) às promessas de Obama de privilegiar a predominante classe média nacional.

Seguindo a lógica de que quem mais ganha mais deve pagar ao Estado, o debate atual sobre austeridade e tributação traz à tona elementos interessantes – dentre os quais um Depardieu russo parece ser o mais inesperado possível…


Categorias: Economia, Estados Unidos, Europa


Crescei e multiplicai-vos

Por

Em épocas de massacres em escolas e guerras civis intermináveis, vamos falar de vida. Bom, pelo menos não de vida em si, mas de populações, já que pra que haja um país deve haver pessoas nele. Na semana passada, o presidente da Rússia, Vladmir Putin, fez o seu primeiro discurso à nação desde a reeleição, e além das cutucadas de sempre na política exterior dos EUA, abordou alguns problemas mais corriqueiros de lá. O principal deles, a retração da população, que caiu quase 10 milhões de pessoas desde o fim da URSS. Putin pediu para que a população não perca a unidade, e advertiu que sem força de trabalho o país pode ir à ruína. É um caso bem complicado, já que a imigração para lá é quase nula, e o país não está em condições das melhores quando falamos em economia. A solução é ter muitos russinhos, que possam levar o país nas costas mais pra frente.

A situação é bem parecida (se não pior) no Japão. Semana passada, por exemplo, o general Colin Powell deu uma entrevista uma emissora japonesa, em que comentou sobre o fato de ser muito importante para as novas gerações de lá que deixem um pouco os quadrinhos e tecnologia de lado para que assumam a tarefa de produzir e levar o país adiante. A pergunta em específico era sobre os “herbívoros”, jovens que passam mais tempo em casa cuidando de sua vida do que procurando garotas, mas fica a mensagem – num país com taxa de natalidade negativa, população idosa crescente e imigração mínima, é imperativo que haja um esforço para um novo “baby boom”. 

São problemas que afetam menos os países com muita variedade de recursos e populações enormes, como Brasil, China e EUA, mas já se pode pensar num alerta. O Brasil, por exemplo, está com sua pirâmide etária se estabilizando e taxas de natalidade diminuindo. Antes exportávamos mão-de-obra, mas agora temos gente vindo de todos os lados, e nos dois extremos, de latino-americanos fazendo serviços de baixa renda (ou, pior ainda, em regime semi-escravo), a muitos europeus fugindo da crise e assumindo vagas de alto desempenho (como engenheiros) pela falta de gente qualificada aqui. 

Nosso país não enfrenta um envelhecimento avançado como o do Japão, nem uma retração catastrófica como a da Rússia, e não precisa que o governo incentive as pessoas a ter filhos, mas ao mesmo tempo parece estar chegado ao limite da sua produção de força de trabalho, e já atrai imigração há algum tempo, mas sem ter uma economia madura o suficiente pra demandar isso. É uma perspectiva preocupante. Não precisamos de uma anomalia populacional como China ou Índia, mas as lições de Rússia, Japão e até mesmo da Europa como um todo podem mostrar ao Brasil como o planejamento familiar é um fator importante para a manutenção de um país em condições economicamente viáveis.


Categorias: Ásia e Oceania, Brasil, Economia, Europa, Política e Política Externa