A rede e o outro

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Não é surpresa alguma que hackers simpatizantes ao Estado Islâmico tenham feito o que fizeram essa semana, tirando do ar por horas várias redes de televisão de um conglomerado francês. Antes de tudo, a linguagem da informática é eminentemente matemática, com sua lógica e condicionais, e todos sabem que os orientais são muito melhores nisso há alguns milênios. Por isso chamamos nossos algarismos de arábicos e se vê a quantidade de asiáticos no Vale do Silício. Mas o elemento importante aqui é a aparente contradição dos métodos com os objetivos do grupo.

Oras, o ISIS tem por meta restabelecer um califado à moda antiga na Síria e no Iraque. E portanto rejeita não apenas o modelo de funcionamento do Estado moderno, mas o próprio modo de vida ocidental. E para isso… usam boa parte da tecnologia que esse próprio modo de vida originou. Por mais que seja um desenvolvimento técnico, não teríamos a internet que conhecemos hoje sem a popularização do computador pessoal e da própria rede como um ambiente de negócios e lazer. Há uma certa dose de ironia nisso tudo.

Mas o mais interessante é que provavelmente o ataque não veio do ISIS. Ou pelo menos dos membros “oficiais”, que estão lutando contra curdos e peshmergas com rifles e facões no deserto. Como já discutimos no blog, a sociedade da informação atual propicia o surgimento dos simpatizantes a certas causas de maneira espontânea, e em qualquer lugar. Os terroristas do jornal e do mercado não eram sírios ou iraquianos, mas franceses, descolados da sua própria sociedade e atraídos para a forma de protesto mais radical contra sua condição.

Do mesmo modo, ainda nem é possível saber de onde vieram os ataques. É bem plausível que os hackers da TV5 sejam franceses, atacando do próprio território europeu em apoio a seus colegas islâmicos. O impacto vem em duas frentes, tanto pela repercussão do ataque, extremamente refinado e robusto, que deixou 200 países sem um canal francês, e ao mesmo tempo nos leva a refletir sobre a condição da sociedade contemporânea, que tanto é causa (em parte) do fenômeno terrorista quanto oferece os meios mais eficazes para que seja empreendido, da cooptação e recrutamento à execução dos atos.


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Um ano sem aniversário

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A Ucrânia está em guerra há um ano. No dia 20 de fevereiro de 2014, o massacre de ativistas na Praça da Independência em Kiev (com mais de 50 mortos) foi o estopim de uma reação em cadeia inesperada que resultou na secessão da Crimeia e coloca o país em rota de conflito com a gigante Rússia.

Como está a situação após um ano? Infelizmente, assim como outros conflitos recentes (Líbia, Síria, Nigéria…) o que chama muita atenção no começo começa a perder um pouco de apelo (e da atenção) quando os combates se tornam recorrentes. Há uma semana foi assinado um acordo de cessar-fogo entre o governo de Petro Poroshenko e os separatistas, mas nada impede os combates. Notícias do dia relatam uma destruição semelhante à da Segunda Guerra Mundial em cidades como Debaltseve. Como esperado, o governo Putin dá risada das sanções econômicas ocidentais, continua a ajudar os separatistas e preocupa os vizinhos. Velhas práticas da Guerra Fria, como invadir o espaço aéreo de países da OTAN com bombardeiros Tupolev “Bear”, mantidas nos últimos vinte anos como uma ocorrência incômoda, passam a ter um significado muito mais aterrador nesse último ano.

A situação na Ucrânia é muito séria. O risco de a guerra sair do controle e afetar países vizinhos, direta ou indiretamente, é grande, apesar de depender do humor de Moscou. Mesmo a consideração de um conflito generalizado, apesar de praticamente nula, acaba passando pela cabeça dos líderes europeus e só por isso é algo aterrador. Um relatório crítico emitido pela Inglaterra (apesar de se considerar o euroceticismo) parece acertado ao sugerir que a União Europeia errou ao tentar se aproximar da Rússia e esperar um comportamento amistoso de um país em vias de democratização – que demonstrou não ser nada disso. A possível sugestão norte-americana de armar o governo para enfrentar os separatistas em pé de igualdade resultaria em uma corrida armamentista explícita. A própria ideia derradeira de enviar tropas de paz da ONU para supervisionar o cessar-fogo literalmente seria considerado pelos separatistas um rompimento do mesmo e daria munição para avançarem. E nunca vai acontecer, já que a Rússia vetaria de qualquer jeito.

Deve a Ucrânia considerar perder os anéis para não perder os dedos? O grande risco (para os Estados) do sucesso de movimentos separatistas é o exemplo que isso pode dar (razão pela qual a China, tradicional aliada de Moscou, nem gosta de tocar nesse assunto). Uma via diplomática, assim como nas guerras mencionadas ali no começo, seria a melhor saída, mas também se chegou a um ponto sem retorno em que a situação deve ser resolvida pelo conflito. Essa solução já esta acontecendo há um ano. O problema é saber se vai trazer mais negociadores para seu desenvolvimento macabro.


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Os dois lados da moeda

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Por tradição, os brasileiros são bem pessimistas com relação à economia (apesar de adorarem uma gastança e estarmos entre os países com menor tradição de poupança do mundo), principalmente por causa do histórico de hiperinflação assombra o noticiário (quem não viveu aquela experiência percebe como os mais velhos se preocupam). Essa é uma percepção que cabe no cenário atual?

Nesta semana, divulgaram-se dois relatórios sobre indicadores econômicos de teor diferente mas com causas semelhantes. O primeiro, mais perturbador, foi de como o Tesouro Nacional está com um rombo de mais de 30 bilhões de reais do ano passado, o primeiro déficit desde que a medição começou, comprometendo a dívida pública e exigindo medidas de ajuste que serão amargas. Por outro lado, o IBGE também anunciou que em 2014 a taxa de desemprego no país atingiu uma mínima histórica de 4,8%. Estamos falando de um nível próximo do pleno emprego, o que é fantástico em comparação a países que sofrem para alocar sua força de trabalho.

E existe relação entre as duas? Boa parte daqueles gastos do governo foi justamente para garantir o bom funcionamento do mercado de trabalho, com incentivos e desonerações que mantêm o consumo em alta (e por consequência, o emprego). Claro que o lado negativo disso é a inflação (aumenta o consumo, aumentam os preços), a que nossos economistas ortodoxos respondem com aumento na taxa de juros (já que aumentar impostos é muito impopular). Aumentando os juros, se espera que o consumo seja freado, e assim se controle a inflação. O interessante é justamente que o Brasil está na contramão do mundo com as taxas de juros elevadas – a tendência mundial é justamente de baixa nos juros para incentivar o consumo pós-crise. Países como a Dinamarca chegam a estar com juros negativos (ou seja, deixar dinheiro no banco faz o investidor perdê-lo).

Nem tudo são flores – essa situação de emprego em alta esconde alguns fatores (como alocação de mão-de-obra ociosa) e não é sustentável, logo o desemprego deve voltar a crescer justamente por conta dos ajustes macroeconômicos. Sem contar que a situação das contas públicas é alarmante. Mas é uma situação privilegiada sim – países como Espanha e Grécia estão com problemas de contas públicas semelhantes ao brasileiro, mas em situação ainda pior devido ao encolhimento da força de trabalho e desemprego galopante (na Europa está perto de 11%, intolerável mesmo no continente com um histórico de desocupação elevado por conta das políticas de bem-estar social). O Brasil tem a sorte de se colocar em uma posição na qual tem condições de controlar tanto o desemprego quanto a inflação em médio prazo – o que dependerá do quanto o governo estará disposto a investir nos setores corretos, cortar gastos e aguentar o impacto político, e do quanto a população aprenderá a poupar, tolerará os ajustes e a insatisfação.

A situação é complicada – mas podia ser pior. Podemos nos dar um pouco de otimismo.


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Terrorismo, um rabisco sem graça

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O mundo está comovido. Não importa a bandeira, ideologia, religião, convicção. Nem apenas porque o direito à vida é inalienável ou porque a liberdade de expressão foi fatalmente ferida. O atentado contra o jornal satírico “Charlie Hebdo” é uma afronta à genialidade humana, característica transcendental e atemporal, legado para gerações futuras. Entre os mortos, está o lendário cartunista francês Georges Wolinski, que inspirou até mesmo Ziraldo. A violência, sobretudo o terror, como manifestação inequívoca da discordância é a demonstração maior da intolerância e da segregação social – e entre povos. E também fica o alerta: a liberdade expressão, quando violenta – não necessariamente levando à agressão física, pode ser intolerante ou segregadora.

A deterioração da paz, conforme o Global Peace Index 2014, publicação anual do think tank australiano Institute for Economics and Peace, é traço marcante dos últimos oito anos, e o terrorismo é uma das principais motivação. A insegurança tem um impacto econômico expressivo. Em 2013, a violência causou um prejuízo de 9,8 trilhões de dólares, o equivalente a 11,3% do PIB mundial – ou duas vezes o PIB do continente africano. Mas a dimensão humana se sobressai, porque ela é irreparável. No levantamento do Global Terrorism Database, desde o início da incursão norte-americana ao Iraque, o número de mortes decorrentes de atividades terroristas aumentou no mundo todo, de 3.800, em 2002, para aproximadamente 11.000, em 2012 – estima-se que esse número chegue a 17.800, em 2013. Se, em 2002, 28 países eram afetados por essas mortes, em 2013, registrou-se 59 países.

Em um ambiente mais inseguro e menos pacífico, o terrorismo está se convertendo em um fenômeno verdadeiramente global, inclusive no aspecto geográfico, e não apenas político ou psicológico. É preciso, no entanto, cautela analítica. Na década passada, novamente em consonância com o Global Terrorism Database, 80% das fatalidades provocadas por atos terroristas ocorreram contra alvos não ocidentais. No mesmo dia em que dois irmãos abriram fogo contra a sede do “Charlie Hebdo” e mataram 12 pessoas, um carro-bomba explodiu em frente a uma academia de política em Sanaa, no Iêmen, causando 30 mortes. Mortes, a propósito, de muçulmanos. Pouco se noticiou. O Ocidente tem um peso simbólico nos valores que moldam a política mundial, o que reforça seu olhar narcisista: uma vida ocidental vale mais do que uma vida oriental.

É exagerado e falacioso refletir à luz do choque entre civilizações de Samuel Huntington, Ocidente x Oriente, colocando duas culturas – nelas, inserindo-se a ideologia, religião, etc. – em lados opostos e em confronto. Oriental também mata oriental, e vice-versa, por maiores que sejam as afinidades culturais. A percepção, mutuamente excludente e preconceituosa, que reforça a própria identidade em detrimento do outro, só alimenta a proliferação de radicais islâmicos e de islamofóbicos e aumenta a probabilidade de atos terroristas. Por que um ativista de extrema-direita e fundamentalista cristão, como Anders Behring Breivik, é taxado como louco após atentados de Oslo, em 2011, e todo ativista islâmico, ainda que não tenha perpetrado nenhum ato, é supostamente um terrorista?

O terrorismo também é um movimento de ação e reação. Não há como entendê-lo simplesmente pelo repúdio (natural e merecido) a quem comete um ato terrorista. Há um contexto histórico que levou à construção de uma narrativa sangrenta no século XXI. O 11 de setembro foi apenas o começo de uma nova velha saga, com novos atores, dinâmicas e enredos. A guerra global contra o terror e o discurso maniqueísta do então presidente norte-americano George Bush de “quem está conosco x quem está contra nós” disseminaram o sentimento do medo na política mundial e a necessidade empregar todos os meios necessários para contê-lo, mesmo diante de inimigos incertos, difusos e apátridas. De um lado, ocorreu uma confluência automática de posições entre Estados Unidos e alguns de seus aliados, de outro, uma radicalização progressiva das antipatias contra essa atitude do dito Ocidente, que acabou se casando – e ao mesmo tempo se legitimando – com o fundamentalismo islâmico. Uma década depois, todos se perguntam: quem venceu a guerra contra o terror?

Ninguém venceu. Todos perderam. É preciso rever as estratégias regionais e globais de combate ao terrorismo. Especialmente agora, em que pelo menos dois aspectos poderiam ser observados. O primeiro deles é que terroristas, mais do que disseminar o medo, passaram a ter ambições territoriais e constituir um espaço multinacional sob um governo, como é o caso do Estado Islâmico do Iraque e do Levante (EIIL). Segundo, a intensificação dos chamados “lobos solitários”, como o que ocorreu recentemente em Sidnei, em que indivíduos comentem algum ato de terror por vontade própria, ainda que seja justificada por um motivo religioso, e não porque recebeu a instrução específica de um grupo terrorista.

O terrorismo está colocando um rabisco vermelho na política mundial. As pessoas ficam amedrontadas; os governos, eufóricos. Uma resposta ríspida torna-se a necessidade imediata de líderes e da sociedade. A extrema direita francesa já tratou o incidente de anteontem como uma declaração de guerra do islamismo contra a França. É a típica atitude que faz o mundo mergulhar em uma espiral de violência sem fim, sem graça e trágica. Ela espraia a intolerância e o ódio, não a paz e o diálogo. Foi-se o tempo em que os terroristas entendiam apenas a linguagem do dinheiro e da força. Eles também compreendem a política. E sem esta, a força será um desperdício. Para terroristas e vítimas.


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Os lêmingues

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Não hão nada que possa ser dito sobre os lamentáveis atentados na França que já não tenha sido comentado nesses últimos dias. Hoje, a caçada humana teve fim, com os irmãos suspeitos pela chacina do Charlie Hebdo sendo mortos em uma fábrica e apesar de notícias inconclusivas, os reféns de um mercado judaico em Paris teriam sido libertados, também com a morte do sequestrador, em ações simultâneas.

É necessário muita cautela com relação a notícias dadas em tempo real. De barrigadas a imprensa da era da internet está cheia. Mas o que se sabe é que os envolvidos em ambos os casos possuíam ligação, e existe uma tendência preocupante nisso tudo. Me valho de um exemplo tolo, mas que é bastante ilustrativo dessa dinâmica. Sou um cara grande, então quando vou a algum evento onde se pague ingresso para comer, como feiras e jantares comunitários, faço o máximo para aproveitar, o que às vezes significa repetir o prato. É interessante reparar que, após a primeira rodada, geralmente as pessoas se sentem pouco à vontade para entrar na fila novamente. Eis que fiz uma aposta com meu pai certa vez – “vou entrar na fila, e vamos ver o que acontece”. Dito e feito: logo após surgir na fila com o prato em mãos, outras pessoas começam a seguir até que se forme uma nova fila para os repetecos. Não sou nenhum especialista, mas sei que existem vários estudos sobre psicologia de multidões que reforçam esse tipo de dinâmica: na ausência de liderança, basta alguém fazer o papel de vanguarda para que outros sigam.

Para o bem ou para o mal, o ser humano é social, e tende a repetir comportamentos. E infelizmente é o que vimos nesta semana – sem novidade alguma: desde os tiros em Columbine, cresceram assustadoramente os ataques armados a escolas e afins nos EUA. Para um fenômeno como o terrorismo, que atualmente pode surgir de maneira “espontânea” com agentes independentes (lembrem dos atentados em Boston, na Austrália, e por aí vai), vemos como basta um único atentado para inspirar outros a segui-los. Infelizmente, podemos esperar que mais eventos dessa natureza possam acontecer em outras partes da Europa nos próximos dias ou meses. Como os lemmings (ou lêmingue, um simpático animal com fama injusta de ser suicida), do jogo eletrônico, em que as criaturas seguem instruções para seguir objetivos mesmo que isso cause sua morte, os terroristas do futuro estão à espera desses pequenos estímulos, impulsos, para que executem sua tarefa abominável.


Categorias: Europa, Segurança


Nous sommes Charlie

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Je suis Charlie

[Charge do artista gráfico francês Jean Julien]

Se o lema do dia de hoje foi (ou está sendo) “Je suis Charlie” (“Eu sou Charlie”), não poderíamos deixar de afirmar: nós somos Charlie. Nous sommes Charlie.

Somos Charlie porque acreditamos na liberdade de imprensa e de expressão como um princípio e nos meios de comunicação como um espaço aberto à reflexão – não imune a críticas, mas nunca sujeito a atos de barbárie. Somos Charlie porque defendemos o diálogo como o único meio para se alcançar a paz e o respeito mútuo como única arma legítima.

Somos Charlie porque repudiamos toda forma de violência em qualquer circunstância. Somos Charlie porque o trágico episódio ocorrido hoje em Paris não foi um ataque apenas à revista Charlie Hebdo e a seus colaboradores, mas a todos que acreditam que um mundo melhor se constrói apenas com base na tolerância e no diálogo.

Em luto pelas vítimas e em apoio aos familiares e feridos, a Página Internacional é Charlie.


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Reconhecer o problema

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O sistema internacional é como um clube. Pelo menos, quando pensamos em Estados. Para que aquela unidade política seja aceita entre os demais, não basta cumprir alguns requisitos próprios, mas ser aceito pelos “colegas”. Quando pensamos no tal Estado Islâmico, por exemplo, mesmo que consigam eventualmente assegurar um território e um governo, provavelmente jamais serão reconhecidos pela comunidade internacional por conta das atrocidades cometidas para chegar a essa situação. Por isso causa muita euforia a notícia de que parlamentos de países europeus (um dos últimos focos de resistência ao movimento) estão debatendo sobre leis para reconhecer o status de Estado para a Palestina – a Suécia mesmo já passou por cima disso e se tornou o primeiro Estado do continente a fazer isso há algum tempo. O caso mais recente foi uma votação simbólica no parlamento da França, mas algo parecido já ocorre na Inglaterra e Espanha.

O que isso tudo significa? Por mais que a aceitação internacional crescente signifique uma pressão enorme pela resolução pacífica, não representa necessariamente uma possibilidade de fim das hostilidades com Israel. O problema reside em dois pontos. Primeiro, a tendência é de endurecimento em Israel, com a consolidação de radicais e a possibilidade de uma legislação que tornaria o estado ligado à religião. Segundo, o reconhecimento do Estado Palestino como tal reduz a possibilidade de funcionar uma solução que é possivelmente uma das mais vantajosas, a de um Estado único.

Quanto ao primeiro ponto, o premiê Netanyahu demitiu nesta semana membros moderados do governo e dissolveu a coligação, fazendo com que fosse necessária uma eleição em 2015. A tendência é que se mantenha no poder, com uma frente de partidos nacionalistas e religiosos. O grande temor é a aprovação de uma lei que define o país como uma pátria de judeus, o que implicitamente criaria uma diferenciação entre cidadãos – e marginalizando, por exemplo, os de origem árabe. Esse tipo de política radical reflete o fortalecimento do movimento conservador no país, e é um claro empecilho às negociações de paz. Mais que isolar o país politicamente, essa medida pode ser usada como munição para países árabes levarem um projeto de resolução no Conselho de Segurança da ONU pedindo o fim das ocupações israelenses – que causará dano político de maneira inegável, sendo vetado ou não. Ao mesmo tempo, Israel está fortalecido no cenário regional, e o impacto destas políticas é uma incógnita.

Já no segundo ponto, se não impeditivo, o reconhecimento do Estado Palestino atrapalha um dos planos mais sensatos que une intelectuais de ambos os lados do conflito, que seria a solução de um Estado com as fronteiras pré-1967 e um governo conjunto. Basicamente, reconhecer a Palestina como Estado independente significa que a comunidade internacional nas entrelinhas não vê a solução de um Estado unificado como viável, ao mesmo tempo em que se configura como uma solução que contempla a maior parte dos interesses envolvidos, com o controle de territórios em disputa e a livre circulação de cidadãos.

Como sempre, apesar do clichê, o destino da crise entre palestinos e israelenses fica ao sabor de desenvolvimentos futuros, mas como o quadro se configura hoje, uma solução ainda é impensável.


Categorias: Conflitos, Europa, Oriente Médio e Mundo Islâmico, Polêmica, Política e Política Externa


O Papa é (mais que) pop

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Papa

A frase consagrada em 1990 pelo grupo “Engenheiros do Hawaii” parece mais atual que nunca quando se trata do Papa Francisco. Se ser “pop” é sinônimo de atrair a atenção dos demais para seus atos e mobilizar esforços por causas nobres, estando em posição de destaque, o Papa argentino é mais que pop.

266º líder máximo da história da Igreja, o primeiro latino-americano, Francisco assumiu o pontificado em março de 2013 e nesse um ano e meio já mostrou a que veio. Com suas declarações conciliatórias e demonstrações de humildade nos menores gestos (na foto acima, o Papa cumprimenta um integrante da Guarda Suíça), não caberia em apenas um post uma análise completa acerca da importância de seu papel nos dias de hoje, em que lideranças assim são tão caras e raras.

Entretanto, cabe um comentário reflexivo acerca de duas importantes participações do Papa Francisco em fóruns de grande repercussão internacional nos últimos dias.

Na última quinta-feira, discursando para representantes de mais de 170 países durante a Segunda Conferência Internacional sobre Nutrição, realizada na sede da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), o Papa se fez presente em momento importante de concertação política em torno do tema da fome da desnutrição no mundo.

Ressaltando a necessidade de não se tratar alimentos como quaisquer mercadorias, sua fala privilegiou, dentre outros, o argumento de que os tomadores de decisão na área precisam se guiar pela preocupação com o “sujeito real”, aquele que sofre de fato os efeitos da desnutrição (confira seu discurso completo aqui). Ainda hoje 805 milhões de pessoas sofrem de fome crônica no mundo, revelando que o problema é real e precisa de tratamento urgente por parte dos governos (reveja post no blog sobre o tema aqui e o último relatório da FAO aqui).

Em seguimento à sua participação na reunião em Roma, hoje o Papa discursou no Parlamento Europeu, em Estrasburgo, e comparou o continente europeu a uma “avó cansada”, insistindo para que o bloco não se preocupe apenas com questões econômicas. Um discurso forte, digno de nota, em que o Papa demonstra estar disposto, em suas próprias palavras a procurar “uma solução política para as crises em curso” (leia aqui post recente no blog sobre grandes crises pouco noticiadas).

Sua visita ao Parlamento acontece 26 anos depois da visita do Papa João Paulo II no mesmo espaço, em um contexto ainda de Guerra Fria em que a Europa permanecia dividida. Criticando uma Europa hoje “envelhecida”, o Papa reforça a necessidade de que a Europa reassuma seu protagonismo internacional, com ênfase para a questão da imigração, instando o continente a trabalhar para que o mar Mediterrâneo não se torne um “grande cemitério” (leia posts no blog aqui e aqui).

Comentário ainda sobre a necessidade de se manter a “porta aberta” ao diálogo com o Estado Islâmico, apesar das dificuldades no contexto iraquiano. [Lembrando que esse assunto gerou recentemente enorme polêmica em interpretações realizadas sobre o discurso da Presidenta Dilma na abertura da Assembleia-Geral das Nações Unidas, em Nova York…]

Diante dessas situações, vemos um Papa que, mais que pop, se mostra disponível e atuante no cenário global. Líder religioso cuja projeção se estende muito além do mundo católico, o Papa Francisco tem garantido visibilidade às mais diversas causas humanitárias, revelando que os desafios internacionais nos dias de hoje exigem ação coordenada e disposição redobrada…


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Sobre muros e pontes

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Berlim

“A humanidade precisa de pontes, não de muros”. Com base nas sábias palavras do Papa Francisco proferidas ontem, a reflexão sobre os 25 anos que se celebram desde a queda do muro de Berlim se reveste dos traços históricos para pensar o futuro.

Construído em 1961, o arame farpado se converteu em concreto e deu origem a uma dura segmentação de Berlim no pós-Segunda Guerra Mundial, controlada por Estados Unidos e aliados em contraposição à União Soviética. Com as constantes fugas do lado oriental ao lado ocidental, a divisão foi imposta de modo a criar um cerco e impedir o acesso, interna e externamente, ao lado ocidental.

Há 25 anos, caía por terra (literalmente) o principal marco ideológico da história recente no período da Guerra Fria: o Muro de Berlim, que dividiu durante décadas a capital alemã em duas partes, sendo o lado oriental comunista e o lado ocidental capitalista.

Nas celebrações de ontem no centro de Berlim, mais de dois milhões de pessoas participaram da festa pela queda do muro, ocorrida no dia 9 de novembro de 1989. Apesar da inexistência, a partir de então, de um muro físico, apenas em 3 de outubro de 1990 caíram, de fato, os muros políticos, com a reunificação do país na República Federal da Alemanha.

Foram lançados ontem ao ar aproximados 8 mil balões (foto), os quais estavam localizados na antiga faixa do muro, posicionados na mesma altura do mesmo (3,6 metros). A dissolução dessa barreira imaginária, em ato simbólico de grande representatividade, nos leva a refletir sobre a história da Alemanha (e do mundo) durante o século XX, marcado por grandes avanços tecnológicos, mas também sangrentos conflitos. A “era dos extremos” de Hobsbawn viu as sociedades, por diversas vezes, se dividirem e se reunificarem, lutarem e se reconciliarem…

Se de fato entendermos que o mundo não precisa de muros, mas sim de pontes – ou seja, de vias pelas quais as partes se encontrem para buscar o diálogo – veremos que vários dos embates atuais, não mais revestidos com o pano de fundo da Guerra Fria (pelo menos em teoria), poderiam vislumbrar soluções.

A celebração da importância da queda do Muro de Berlim não deve, portanto, se restringir ao povo alemão, mas sim inspirar o mundo inteiro que, com seus muros (visíveis ou não), ainda é palco de tantos conflitos cuja resolução depende, em grande medida, de vontade política.


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Déjà vu

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Para um mundo que passou o século XX acostumado a ver EUA e Rússia (então com outro nome) se bicando, não parece nada de novo ver o pé em que estão as relações entre os dois países hoje. O que começou com um imbróglio diplomático por conta do asilo russo ao analista da CIA Edward Snowden virou uma crise internacional por conta dos eventos na Ucrânia no começo do ano. O cancelamento de visitas entre os líderes foi seguido pela exclusão russa do G8 (que voltou a ser G7 mesmo, sem +1) e troca de farpas, que pelo andar da carruagem não terá fim tão cedo.

Tome-se por exemplo a proibição da venda de um modelo de celular em território russo a partir do ano que vem. Existe uma justificativa técnica, de adequação à legislação russa, mas a exemplo da China, que mantem rigoroso controle sobre sistemas de informação, não seria o caso de limitar a “presença” norte-americana em seu território? Aqui entramos num terreno de especulação, mas a coincidência é inegável.

E no nível protocolar, as consequências podem ser bem mais nefastas. Moscou já disse, por exemplo, que não vai participar da cúpula bianual sobre segurança nucelar de 2016, justificando que prefere participar das reuniões semelhantes no sistema ONU por intermédio da AIEA. Mas é claro que sendo uma reunião proposta pelos EUA e a ser realizada na cidade de Obama, fica claro que há outras motivações. A aproximação com a Sérvia, que tem um passado recente de relação complicada com a Europa e os EUA também indica uma busca por consolidação de esfera de influência e mesmo afrontamento aos aliados ocidentais.

Ao mesmo tempo, o país enfrenta uma crise – a exemplo do Brasil, a economia enfrenta problemas, desvalorização cambial, e a queda no preço de commodities, sua tábua de salvação nos anos de crise. Além disso, as sanções impostas a empresas russas por causa da crise na Ucrânia causam perdas consideráveis. Resta saber se nesse ambiente conturbado prevalecerá o discurso do interesse nacional ou o pragmatismo tão necessário para a distensão e o retorno a relações amigáveis e mutuamente benéficas para os dois gigantes da política internacional. No aniversário dos 25 anos da queda do muro de Berlim, símbolo da Guerra Fria e de todo aquele processo de bipolaridade, os mesmos protagonistas se vêm em lados opostos e com uma nova barreira a ser vencida.


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