Facelobby

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Mark Zuckerberg, o bilionário fundador do Facebook, está disposto a aventurar-se na política. Há no seleto clube dos bilionários uma tendência a buscar formas de interagir com os problemas da sociedade, seja por meio de organizações não governamentais, fundações ou mesmo doações para causas sociais. Bons exemplos disto são as fundações criadas por empresas privadas, assim como a que mantêm Bill Gates e sua esposa. O criador do Facebook, contudo, parece ter horizontes distintos em mente.  

Vale lembrar que o lobby é uma atividade legalizada e regulamentada nos Estados Unidos. Logo, não haveria nada de obscuro na intenção de Zuckerberg. Sua ideia é criar uma organização sem fins lucrativos com o objetivo de influenciar uma série de questões legislativas. A gama de temas iria desde reforma migratória até educação. Para isto, já teriam sido recrutados figurões do partido republicano e do partido democrata. Por outro lado, o financiamento seria realizado por executivos do setor tecnológico.  

O Facebook já investe no lobbypolítico. Em 2012, gastou quase US$ 4 milhões. Outros gigantes da tecnologia, como o Google, também fazem investimentos significativos (US$ 9,38 milhões em 2012) para influenciar temas de seu interesse que estejam em discussão. A nova organização impulsada quer levantar US$ 50 milhões e já teria uma boa parte do montante assegurado. Faz sentido a união, uma vez que as empresas do setor seguramente têm interesses convergentes e juntas terão uma voz importante em questões legislativas nos Estados Unidos.  

Na agenda, logo de início, entrará a questão dos vistos para estrangeiros de alta qualificação. Afinal, não faz realmente sentido formar pessoas em universidades prestigiadas (muitas vezes até com bolsa de estudos) e depois mandá-las de volta para seus respectivos países de origem. Melhor permitir que empreendam ou colaborem com empresas em território norte-americano. Este é um tema que já esteve em pauta antes. O presidente Obama havia manifestado sua preocupação pouco tempo atrás, defendendo a permanência de estrangeiros bem qualificados no país.  

Sem a inocência de achar que o grupo de pressão (na linguagem comum o tal lobby) a formar-se terá intenções meramente filantrópicas, há pelo menos a certeza de poder acompanhar as atividades desenvolvidas. A lei que regulamenta o lobby nos Estados Unidos, originalmente de 1945, exige a divulgação de relatórios periódicos. De qualquer forma, melhor confiar desconfiando, especialmente caso entrem em temas como: cibersegurança, privacidade e publicidade. Aí coincidem o modelo de negócio (de onde sai o $$) de muitas destas empresas e a experiência oferecida para seus usuários.  

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Nas mãos dela…

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O conceito de segurança costuma – tradicionalmente – estar vinculado ao imaginário do mundo masculino, cercado por clichês e desafios nunca antes enfrentados por mulheres. Contudo – gradual, mas continuamente –, o empoderamento feminino tem se mostrado uma constante dos nossos tempos.

Mulheres alcançando direitos, reivindicando espaços e conquistando responsabilidades nas mais diversas esferas, com os mais diversos tipos de atividades. Hoje, pela primeira vez na história, uma mulher assumiu a direção do Serviço Secreto dos Estados Unidos.

Julia Pierson, agente com ampla e reconhecida experiência profissional, já entrou hoje para a história de seu país. Nas mãos dela encontra-se, em primeira e em última instância, a proteção do presidente Obama, do vice-presidente Biden e de suas famílias. 

Cargo alcançado por meio de nomeação direta da parte de Obama, fato é que o gênero não mais representa um obstáculo em si mesmo para que as mulheres se insiram cada vez mais em universos antes exclusivamente masculinos, em especial no que se refere à política e às relações internacionais.

Com 30 anos de experiência, a responsabilidade de Julia será ainda de restaurar a imagem de “integridade” da instituição, manchada pelo grande escândalo de prostituição dos agentes na Colômbia ocorrido no ano passado por ocasião da ida de Obama à Cúpula das Américas.

Forte e determinada, a imagem desta que hoje já é oficialmente a titular do posto máximo traz consigo uma tendência crescente de inserção feminina em horizontes talvez nunca antes imaginados no cenário internacional. Em nossas mãos, a responsabilidade de transformar pouco a pouco os padrões de uma sociedade, tornando-a cada vez mais igualitária em todos os sentidos possíveis. 


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Post do Leitor

Post especial: O Decênio Iraquiano e Suas Consequências para os Estados Unidos e o Mundo

[Hoje é dia de post especial! Colaboração de nosso colega, prof. Ms. Danillo Alarcon, mestre em Relações Internacionais pela UnB e professor da Faculdade Anglo-Americano, de Foz do Iguaçu-PR, que traz uma análise importante sobre a guerra ao terror dos EUA e suas consequências, no dia em que se completam exatamente 10 anos da invasão ao Iraque. Lembramos que caso se interesse em ter um texto publicado pelo blog, basta entrar em contato com a equipe pelo e-mail: [email protected]. Aproveitem!]

No dia vinte de março de 2003, há exatos dez anos, se iniciava uma das guerras mais infames na qual os Estados Unidos da América já participaram. Embasados em diversas contradições e manipulação de informações e discursos (inclusive desveladas depois por um ex-funcionário do governo), a Guerra contra o Iraque suscitou um amplo debate na comunidade internacional acerca das instituições básicas que a sustentam e do papel das organizações internacionais na promoção de seus objetivos de segurança coletiva, além de, obviamente, ter questionado o papel dos Estados Unidos na ordem global do século XXI. Por estas e outras razões, é prudente, então que façamos um momento de reflexão sobre tal conflito. 

Engana-se quem tira rápidas conclusões dessa guerra, quer pró quer contra a posição norte-americana no conflito ou em relação ao Iraque. Mas na exiguidade de linhas, tendências amplas podem ser apontadas. Antes, vale relembrar que após os atentados terroristas de 11 de setembro de 2001, os Estados Unidos contavam com considerável apoio internacional. A comoção com tamanhos atos de barbaridade fez Washington conseguir apoio de Moscou, a aquiescência global para atuar no Afeganistão e não ter problemas patentes em levar a OTAN ao distante país asiático. Além do mais, internamente, a histeria criada pelo medo de novos atentados terroristas deu base para medidas antes não aceitas, como um rigoroso controle imposto pelo criado Departamento de Segurança Nacional. 

Independentemente dos debates levados a cabo por muitos pesquisadores sobre a responsabilidade americana de ter nutrido seus futuros algozes,* é importante agora refletir sobre as possibilidades que o 11 de setembro trouxe para os Estados Unidos. Primeiro, uma considerável dose de apoio internacional – depois de nove meses de um governo que se fechava cada vez mais, era a possibilidade de levar adiante agendas que Washington considerava importante. Segundo, o revelar de um novo momento para a política externa do país, em que o apoio à democracia e aos valores que lhe são caros poderiam ser promovidos por meios softs. Por fim, a oportunidade de concretizar sua hegemonia, no que tange a assuntos sensíveis como, por exemplo, terrorismo. 

Todavia, nada disso fora aproveitado. A imprudência com que a administração Bush se lançou na caçada à cabeça do presidente iraquiano (conseguida em 2006), em especial com a junção de três senior players – Dick Cheney, vice-presidente, Donald Rumsfeld, Secretário de Defesa, e Paul Wolfowitz, Subsecretário de Defesa – não era justificável por medidas racionais. Na verdade, os três já buscavam o desmantelamento do regime iraquiano desde finda a primeira guerra do Golfo, e criticaram veemente a postura de fraqueza do governo Clinton por não agir decisivamente para acabar com os excessos que encontravam na postura de Bagdá. Oras, quer seja pelas pretensas armas nucleares, ou pela necessidade de mudança de regime, a comunidade internacional não aceitou a nova guerra, e eis que aí, houve o ocaso do breve momento unipolar da América. 

As fissuras mais evidentes se deram em relação aos outros grandes global players. A França, aliada na OTAN, se opôs veementemente à guerra. A Rússia e a China exerceram pressão para que os “planos quixotescos” – a exportação da democracia, como acabou sendo – não fossem levados a cabo. Mesmo países com importância menor no Conselho de Segurança, como o México, se opuseram ao movimento das forças armadas vizinhas rumo ao golfo pérsico. 

Para além disso, o tiro no Iraque saiu pela culatra. O país hoje é governado pela maioria xiita, liderado pelo primeiro-ministro Nouri al-Maliki, o que o aproxima do vizinho Irã, grande inimigo dos Estados Unidos. Os níveis de violência continuam alarmantes, sendo frequentes os relatos de atentados terroristas no país, chegando a uma média de 300 pessoas mortas por mês, fomentados justamente pelas divisões de cunho religioso. 

A credibilidade norte-americana, já abalada por seu jogo de superpotência e excessos cometidos há muitas décadas, sofreu duro golpe com a guerra contra o regime de Saddam Hussein. O número de mortos no conflito ajudou a cristalizar uma visão negativa da atuação internacional dos Estados Unidos na região. Em casa, os soldados, sem apoio perpetraram crimes contra seus próprios conterrâneos, e bem, nem os Estados Unidos, nem Israel, (o grande aliado norte-americano na região, impossibilitado ou indiferente a auxiliar o governo americano em diversas operações), estão mais seguros em um mundo cada vez mais efervescente, em que o uso da força é visto com cada vez mais suspeita. 

Por outro lado, o sistema onusiano, impossibilitado, pelos próprios mecanismos que lhe dão forma, de agir diante da ação unilateral norte-americana, vem tentando se reformular, para fazer frente aos desafios do século XXI e dos excessos de uma potência. Além do mais, outras instâncias internacionais foram criadas para abarcar países que discordaram das posições unilaterais de Washington. A América do Sul criou o Conselho de Defesa Sul-Americano no âmbito da Unasul; a União Europeia reforçou a partir de Lisboa (2007), a Política de Defesa e Segurança Comum, a União Africana está cada vez mais ciente de suas possibilidades de atuação nos territórios de Estados-membros; e no Golfo, o Conselho de Cooperação do Golfo se mantém firme em relação às ameaças que porventura surjam às monarquias do golfo (tal como as revoltas e levantes no Estado-membro Bahrein, desde 2011). Nenhum desses grupos ignora a importância norte-americana, mas hoje reconhecem que há agendas de segurança que devem ser debatidas localmente. 

Desta feita, não defendemos aqui que a Guerra do Iraque foi a causa nem o estopim para tamanhas mudanças. Todas elas, de alguma maneira, já haviam sendo gestadas desde o 11 de setembro. O que apontamos é como os Estados Unidos remaram na maré contrária ao dar continuidade ao plano de guerra, ao atacar o Iraque e ao tentar impor a visão maniqueísta de mundo sustentado por homens como Cheney, Rumslfed e Wolfowitz. É compreensível que a política externa norte-americana tenha ecos da política interna, dos lobbies e dos mais diversos grupos de interesse, mas dessa vez, a desconsideração para com o interesse nacional, ou sequer com valores internacionalmente aceitos, formulados a partir de uma hegemonia norte-americana, foram longe demais. Arriscaram a hegemonia, conquistada após a Guerra Fria, e por imprudentes que foram, se veem hoje diante de um mundo que não esqueceu a invasão iraquiana e todas suas consequências. 

*Para mais informações sobre o tema, consultar a dissertação do autor aqui.


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O fim do mundo

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Poucos acontecimentos chamaram tanto a atenção da mídia e do público globais quanto à sucessão papal. Para a surpresa de muitos, e após um rápido conclave, o cardeal argentino Jorge Mario Bergoglio foi eleito o novo Sumo Pontífice. Logo em seu primeiro pronunciamento, o papa Francisco (nome adotado) disse, em tom de brincadeira, que seus irmãos cardeais foram buscá-lo quase ao “fim do mundo”. Por fim do mundo, leia-se qualquer domínio fora da Europa. Esse é o ineditismo mais marcante: o término de 1.300 anos de exclusividade do papado europeu. 

Por trás dos holofotes da escolha histórica do novo papa, está em curso um processo de reordenamento global. As ditas grandes potências carregam o ônus da construção da ordem internacional posterior à 2ª Guerra Mundial, cada vez mais desgastada, e as ditas potências emergentes, àquelas do “fim do mundo”, procuram aumentar sua influência nas principais decisões globais, contestando a velha – e, ao mesmo tempo, atual – ordem ainda vigente. 

Será que o “início do mundo”, ao qual se acrescentaria o Estados Unidos, ditarão os princípios, valores, normas, práticas e costumes que orientarão e regularão as relações internacionais no século XXI? Que papel exerce e exercerá o “fim do mundo”, particularmente os países emergentes, na política mundial? Barão do Rio Branco sentenciou que o século XX seria o século dos Estados Unidos. Dito e feito. Muitos analistas, hoje, afirmam que o século XXI pertencerá à China. Mas não será exclusivo do gigante asiático. É provável que haja uma maior distribuição de poder entre os países, porém, ainda assimétrica, variando de acordo com suas dimensões: militar, econômico, cultural, etc. Essa multipolaridade deve ser mais competitiva, uma vez que potências tradicionais e novas travarão disputas, em princípio verbais, pela redefinição da ordem internacional vigente. O ponto de partida parece ser a reforma das instituições multilaterais, notadamente a ONU, o FMI e o Banco Mundial. 

O mundo atravessa uma grave crise, mais do que financeira, de governança. Faltam lideranças e soluções mundiais representativas e equilibradas. Não é por acaso que figuras como Chávez, Ahmadinejad e King Jong-un se projetam. Assim como não é por acaso que a democracia e o estado de bem-estar social europeus são colocados em xeque. Exemplo mais recente é a Itália. Quando o uso da força aparece como solução viável, falta o controle sobre seu emprego e seus resultados, como se observou na Líbia. Além de todos os problemas já debatidos, um dos fatores que explica o baixo crescimento do comércio mundial, em 2011, conforme relatório da OMC, foi a intervenção nesse país, que provocou a diminuição da oferta de petróleo e a consequente elevação do preço do barril. 

E os países emergentes? Para não se limitar a revistas ou noticiários, destaca-se que o último relatório de desenvolvimento humano do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), recentemente publicado, é intitulado “A ascensão do Sul: o progresso humano em um mundo diverso”. Outra publicação da PwC Economics, muito interessante, fez projeções sobre o mundo em 2050. A estimativa é que, entre 2011 e a metade deste século, as economias emergentes cresçam 4% ou mais por ano, enquanto as economias avançadas cresçam 2% ou menos por ano. A tendência é que Nigéria, Vietnã, Índia e Indonésia estejam na dianteira desse processo. 

É claro que a pujança econômica não é um indicativo absoluto de poder. Ela é apenas um exemplo de que o predomínio euro-americano nas relações internacionais é coisa do passado. Em mundo mais multipolar e assimétrico, os países emergentes, ainda que não adentrem – por repulsão ou opção – ao seleto grupo das grandes potências mundiais, serão indispensáveis à redefinição da ordem internacional. À semelhança da frase da presidente Dilma sobre o combate a miséria, pode-se dizer que “o fim mundo é apenas o começo”. E abrir aquele sorriso acolhedor e esperançoso de Jorge Mario Bergoglio, porque ainda não se sabe o que representa esse começo…

[Post elaborado pelo colaborador Giovanni Okado] 


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Há um ano...

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No dia 01 de março do ano passado, tínhamos uma postagem com nome bem sugestivo: “A única certeza é a incerteza”. O tema era o programa nuclear da Coreia do Norte, mas serve muito bem pra mostrar o estado de coisas da maioria dos eventos daquele momento, que têm seus reflexos hoje em dia. Alguns mais previsíveis, outros nem tanto…

Já começamos com essa mesma postagem – no ano passado, o que se falava era sobre suspensão de testes, negociações e visitas de técnicos e inspetores da AIEA, com uma previsão otimista contrastando com a imprevisibilidade de Pyongyang. O que temos hoje? A Coreia do Norte comemorando mais um teste nuclear bem-sucedido, e os vizinhos em pânico com a perspectiva de um acirramento de tensões. Se isso vai se concretizar, ou se os norte-coreanos vão recuar uma vez mais em seus blefes atômicos, não dá pra saber. Quem dirá o que vamos analisar ano que vem sobre isso. 

Por outro lado, temos as surpresas meio que esperadas. No dia 06, postagem sobre as relações entre Brasil e EUA mostrava como os choques de posições entre os países sempre são seguidos de negociação e aproximação. Um dos exemplos mencionados lá era a suspensão da compra de aviões de treinamento brasileiros. O que aconteceu nessa semana? A mesma compra foi confirmada. Nas relações entre Brasil e EUA, por mais que haja percalços, a tendência é cooperação ou entendimento, e nesse sentido não devemos esperar surpresas. 

Por fim, um caso em que não houve surpresa alguma. Postagem do dia 05 comentava sobre a questão da variação do câmbio na economia mundial, e a acusação do Brasil de haver guerra cambial nesse sentido. Mais do que o tema, o interessante é a posição do Brasil. Nessa semana, o Ministro da Fazenda se pronunciou sobre o baixo crescimento do PIB em 2012, e apesar do tom otimista, é perceptível uma cutucada na crise mundial como uma das responsáveis pelo desempenho fraco. A renda das famílias e os empregos crescem, mas ao mesmo tempo a dívida e o consumo também. É um modelo que em longo prazo dá problemas, mas é mais fácil colocar uma vez mais o peso maior da culpa lá fora. Já vi isso antes… 

Bom, é isso pessoal, vamos postando e relembrando.


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Culpado ou inocente?

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Fonte: operamundi.uol.com.br

“Nós nascemos iguais…”. Essa frase, dita assim, resume algumas ideias de Alexis de Tocqueville e se remete diretamente a um pensamento histórico norte-americano. Estou falando da chamada Tradição Liberal. Para os estudiosos de Política Externa dos Estados Unidos, tal corrente é algo já há muito sabido. A velha máxima de “Liberdade, Igualdade e Fraternidade” conhecida por muitos faz parte de um movimento mais amplo, mas fácil de entender. É o Excepcionalismo Americano, cujas ideias se resumem da seguinte forma: os EUA são um país diferente de qualquer outro do mundo. Lá, todos são iguais. 

Não é à toa que exista forte patriotismo no país. Fugir desta lógica implica em quebra social e em uma postura um tanto quanto “repressiva” (não sei se este é o termo correto para se aplicar aqui) por parte do governo. É só observar, por exemplo, que em todas as eleições presidenciais norte-americanas existem várias pessoas com aquelas bandeirinhas do país sendo agitadas para todo mundo ver. O mesmo ocorre com os filmes hollywoodianos, quase sempre aparece a bandeira dos EUA em alguma cena. 

Obviamente, tanto a Tradição quanto o Excepcionalismo acabam sendo bem mais um discurso do que uma prática, mas o primeiro influencia o último e vice-versa. Três episódios recentes colocaram boas dúvidas quanto à imagem de “bom mocinho” dos EUA, sejam eles a Prisão de Guantánamo, a Prisão de Abu Ghraib e o caso Wikileaks. Sobre os dois complexos penitenciários, talvez tenha sido bem melhor George W. Bush ter assumido a culpa e afirmar que aquilo fora uma faceta vergonhosa para a política norte-americana. Não o fez e isso feriu ainda mais a moral de seu governo.

Já o Wikileaks vem causando bem mais polêmica na atualidade. A penúltima delas foi, inclusive, tema de destaque aqui na Página Internacional, conforme pode ser visto no texto “Assange no Equador?”. Disse penúltima porque a última é o tema ao qual quero chegar neste texto: anteontem, dia 28 de Fevereiro, o soldado norte-americano Bradley Manning (foto) declarou-se culpado por ter vazado uma série de informações diplomáticas sigilosas dos EUA ao site Wikileaks.

Culpado ou inocente? Há ainda denúncias que colocam Manning como “ajudante do inimigo”, dentre eles a própria al-Qaeda, e, caso a justiça norte-americana confirme esta hipótese, o soldado poderá ter decretada sua prisão perpétua. Não só parece como é contraditório o caso Wikileaks. Manning está preso desde 2010 e seu futuro é incerto. Ele tornou público nada mais nada menos do que 260 mil páginas de documentos sigilosos!

Não há resposta certa para a pergunta do título. Por fim, repito aqui as palavras do parlamentar norueguês Snorre Valen sobre o Wikileaks ser “uma das maiores contribuições para a liberdade de expressão e transparência” no século XXI. E isso não se remete a um dos pilares da Tradição e do Excepcionalismo por mim apontados anteriormente? Na frase “Nós nascemos iguais…”, o “nós” exclui Manning e quem mais colocar à prova a estratégia de política externa estadunidense.


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Consumidor de Defesa

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A economia do mundo vai mal, especialmente no setor de Defesa. As maiores indústrias militares são de países desenvolvidos, e estão puxando o freio com seus maiores compradores deixando de gastar em armas pra pensar em coisas mais frugais como conter o desemprego. Não deixa de ser um negócio bilionário, mas a tendência é a retração. Por isso destoa nesse cenário a ascensão da Embraer, que vai contra tudo nessa tendência, e diz um pouco de como está esse mercado atualmente. 

Ontem, por exemplo, confirmou-se a vitória da empresa e sua parceira norte-americana para um contrato de venda de aviões de treinamento para a força aérea dos EUA. Já tinha vencido em 2011, mas o processo foi embargado pela concorrente e acabou minguando. O negócio não é apenas um feito incrível, com a entrada no mercado da maior potência militar do planeta, mas garante 430 milhões de dólares no caixa e é mais um sucesso de uma menina dos olhos da empresa, o Super Tucano, em operação da Colômbia à Indonésia. 

A tendência é a melhora, especialmente com a expectativa de vendas do KC-390, aeronave de transporte médio, que deve sair ano que vem e já tem entre prováveis compradores Colômbia e República Tcheca. A maior parte dos clientes desse setor são justamente países onde os gastos militares não tiveram muita redução. A Embraer, inclusive, teria compras infladas pelo próprio governo brasileiro, mas tem um mercado potencial na América do Sul e na Ásia. Ironicamente, a melhora nesse ranking dos fornecedores de armas não acompanha a venda de aeronaves civis, que tem mais abrangência (leia-se, mais clientes que hoje estão em crise) e impacto na renda da empresa (que teve prejuízo em 2011). 

Disso tudo fica a percepção de que bem ou mal as indústrias de defesa sempre têm um porto seguro. Seus maiores compradores são os Estados, e teoricamente nunca vai faltar comprador. O interessante disso é ver que, mesmo em tempo de crise, especialmente na Europa, outras regiões do mundo, especialmente os países periféricos, continuam com os gastos militares a todo vapor. Necessidade ou displicência? A questão é ver até onde aguentam manter esse ritmo.


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Vendendo o peixe

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O programa nuclear do Irã é aquela incógnita. Alega que é civil, mas tem jeito de ser militar. Nessa discussão com suas idas e vindas, é sempre uma boa notícia quando uma das partes (o Irã ou o grupo de países que tenta negociar a suspensão do programa) resolve voltar às negociações. E nessa semana a boa novidade foi o fato de os EUA e o Irã terem se mostrado abertos a discussões diretas sobre o tema. Claro que isso se seguiu da usual desconfiança e troca de farpas, com os EUA dizendo que a negociação seria possível apenas com representantes “sérios”, enquanto Teerã acusa Washington de não cumprir seus compromissos. 

Já disse isso aqui em algumas postagens anteriores, e por mais que se critique a possível interferência internacional, o caso do Irã é chato porque eles mesmos costumam complicar as coisas. Entram em negociações pra em seguida fazer testes que praticamente anulam suas boas intenções. E a última semana não foi exceção, ainda mais com o aniversário da revolução de 79. 

Na segunda-feira o país anunciou que mandou um macaco para o espaço num foguete e trouxe de volta com vida. A informação, como tudo que vem de fonte estatal, é meio contestável, mas se for verdade, palmas pra Teerã (que mesmo com sanções tem um programa espacial que funciona, enquanto nós… bom, deixa pra lá). O problema é que o mesmo mecanismo que lança um macaco em órbita pode ser usado num míssil balístico, e nesse caso viola as sanções da ONU.

Pra coroar a semana, na sexta-feira o próprio Ahmadinejad participou do anúncio do lançamento de um caça made in Iran” supostamente de quinta geração (invisível ao radar, etc.). É no mínimo suspeito, com um design cheio de falhas e que parece copiado dos modelos norte-americanos, falta de aviônica (apesar de ter algo muito parecido com um moderníssimo toca-fitas de automóvel no painel) e que se parece muito mais com uma maquete. O vídeo de divulgação mostra um avião ao longe que possivelmente é uma miniatura controlada por rádio. Mas não deixa de ser o anúncio de que o Irã estaria entrando num clube seleto, em que estão apenas os EUA, Rússia/Índia e China, e apesar de ser para “defesa”, teria obviamente as características de uma arma ofensiva. 

A ideia aqui é bem clara – pouco importa se o macaco voltou vivo (isso se chegou a ir pro espaço), ou se esse blefe que chamam de avião funciona (pra ser justo, pode realmente ser apenas uma maquete/mock-up do modelo, mas é difícil, considerando o perrengue econômico daquele país, que simplesmente não tem dinheiro pra fazer um avião dessa linha). Ahmadinejad quer mostrar seus brinquedos para o mundo, que olhem para o Irã com respeito (ou temor?), e nisso tem sucesso. No jogo de palavras, as intenções de Teerã ficam um pouco conflitantes, com a divulgação de um programa nuclear pacífico contrastando com os testes e ameaças. É demonstração de força, naquela linha de “a melhor defesa é o ataque”. A ideia parece ser que pareça robusto nas negociações, buscando ser um interlocutor de igual para igual com os EUA e amigos, e faz todo sentido – o problema é que até agora isso nunca deu sinais de ter funcionado. Resta o alívio para a estabilidade regional de que, por enquanto, se fica apenas na propaganda e no discurso mesmo.


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O adeus de Hillary Clinton

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Apesar de algumas desilusões, a eleição de Obama em 2008 representou a possibilidade dos Estados Unidos buscarem uma espécie de reconciliação com a sociedade internacional. A imagem da superpotência foi deteriorando-se com o passar do governo Bush (filho). Em grande medida, coube a secretária de Estado devolver aquela aura de aceitação que outrora marcara a influência norte-americana.

Será impossível negar que ela tentou. Nos seus quatro anos no cargo, visitou 112 países e participou de 1700 reuniões com líderes mundiais. Sem conquistas notáveis, muito menos atuações que merecerão menção em revisões históricas, Clinton manteve posturas firmes em questões envolvendo China e Irã. Ao contrário de seu marido, não centrou esforços no processo de paz no Oriente Médio.

Este período cauteloso, sem novidades retóricas ou políticas, pode ser atribuído à visão estabelecida pelo presidente Obama. De um discurso abrangente, que clamava os Estados Unidos como a nação indispensável, passou-se a uma abordagem focada em objetivos específicos e adotou-se o princípio da divisão de responsabilidades. De início, reconheceu a impossibilidade de seguir com ambições excessivas.

Mesmo com tentativas no sentido contrário, o terrorismo segue como prioridade na agenda de assuntos internacionais. O ataque à embaixada americana na Líbia, sem contar o evento de ontem na Turquia, pressionou Clinton a apresentar seus argumentos perante os senadores e a própria sociedade. É difícil apontar o pico da atuação da secretária de Estado, mas o ataque em Benghazi lidera a escolha para o pior momento. 

Mudanças climáticas, países emergentes, não proliferação nuclear, Cuba, América Latina, China, Irã, paz no Oriente Médio, primavera árabe, Iraque, Afeganistão. São temas a perder de vista. É virtualmente impossível ser indispensável em tantos assuntos ao mesmo tempo. Talvez a principal conquista da ex-secretária de Estado seja justamente ter mantido a moderação, não cometendo gafes diplomáticas e não desgastando a imagem do país, já tão maltratada em decisões anteriores.

O sucesso não foi retumbante, mas suficiente para deixá-la credenciada a postular-se novamente a corrida presidencial. Uma opção que ela fez questão de não descartar, apesar de não confirmar. Neste caso, terá que lidar com o papel proeminente que Biden, o vice-presidente, ganhou no segundo mandato de Obama. Mesmo o sucessor de Clinton, junto com o governo, terá muito mais campo para explorar e assumir bandeiras da campanha de 2008. Será difícil esse adeus de Hillary virar um até logo. 

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Era uma promessa, mas…

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Estava dando uma olhada em alguns sites de notícias internacionais e me deparei com uma interessante matéria na seção de opiniões do jornal “The New York Times”. Intitulado “Death of a Prisoner”, a acadêmica Laura Poitras nos mostra um vídeo e uma reportagem sobre a recente morte de Adnan Farhan Abdul Latif. Não o conhecia, mas foi aí que surgiu a descoberta do mesmo estar preso na Prisão de Guantánamo desde 2002 acusado de ter ligações com o Taleban. 

Nas palavras de Latif, seu desejo era morrer ao invés de permanecer nas condições em que se encontrava. Precárias qualidades de vida, falta de comida e dias e dias na solitária são alguns dos exemplos citados e mostrados no vídeo. Foi morto ainda em Setembro de 2012 e seu corpo foi enviado com o número #156 ao Iêmen, no Golfo Pérsico, meses mais tarde. 

Depois veio uma surpresa na mesma reportagem: atualmente há 166 presos em Guantánamo, sendo que 157 não foram acusados por crime algum. E as incoerências continuam a todo vapor. Não preciso me ater a falar ou repetir sobre algo já há muito conhecido. Guantánamo é uma vergonha do século XXI. 

Quando assumiu a presidência dos Estados Unidos em 2009, uma das primeiras atitudes “publicitárias” de Obama foi encorajar o fechamento da prisão. Agora, em 2013, mais precisamente no próximo dia 20 deste mês, será completado o 11º aniversário de transferências de prisioneiros para a baía. Não por coincidência, também será a data oficial de reeleição do democrata. 

Era uma promessa, mas… Guantánamo continua a ser a pedra no sapato de Obama. Previsões para a prisão ser fechada? Não existem! A própria Anistia Internacional (AI) tem apelado diretamente à presidência norte-americana para por fim ao que sempre será o calcanhar de Aquiles dos direitos humanos. Para um país dito democrático, liberal e respeitador dos princípios morais internacionais, a Prisão de Guantánamo prova o contrário. 

A meu ver, Obama é o exemplo claro de que mudar um país e, por conseguinte, a política internacional, é mais difícil do que parece. Esperava-se muito dele. Entretanto, quanto maior a expectativa, maior a frustração. Quem não cuida da própria casa, perde voz com seus vizinhos. Sinais dos novos tempos…


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