Uma boa leitura, NSA!

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Já faz bastante tempo que a existência de mecanismos de espionagem de alcance mundial passaram a ser algo além da ficção científica. No entanto, a literatura, o cinema, os aficionados por teorias da conspiração e as revistas sensacionalistas lançaram para fora do círculo de discussões sérias o tema, mantendo ele como uma possibilidade mais próxima de deduções de lunáticos do que de qualquer fato próximo da verdade. 

Eis que o caso Snowden, o mais novo das trapalhadas do serviço secreto americano, que abre para pessoas comuns uma imensa quantidade de informações sigilosas explosivas, provou que essas não eram apenas teorias sem fundamento. As notícias de que a NSA (Agência de Segurança Nacional) havia tido acesso à conversas na internet e ligações de milhares de americanos chegaram à imprensa como bombas.

O governo americano se defendeu. Afirmou que as suas atividades seguiam as necessidades da luta contra o terrorismo. Puseram a legitimidade de suas ações sobre o Patriot Act, que mais parece uma carta branca à qualquer ação do Estado. A resposta do governo apenas esfriou por um instante a situação. Como no caso WikiLeaks, aquela era a ponta do iceberg de escândalos que seriam descobertos depois, nos documentos vazados por Snowden. 

E não demorou muito. Agora se descobre que os EUA não usaram seu aparato tecnológico e contratos com empresas privadas apenas para espionar a sua população. Outros países também tiveram seus dados violados, ligações telefônicas grampeadas etc. Desde governos, a empresas e até pessoas comuns. Americanos em circulação e cidadãos de todas as nacionalidades. Espionagem que coloca em risco segredos de Estado, conhecimento industrial e tecnológico. O direito a privacidade também, talvez o menor dos pecados cometidos pela agência. 

Entre os países mais espionados o destaque foram Brasil, China, Rússia, Irã e Paquistão, os favoritos da NSA por motivos ainda não explicados. São dados roubados pelos cabos de internet no mar e também com a utilização de empresas regionais com contratos com a agência. Tudo quanto os EUA pudessem descobrir, principalmente dos países que o ameaçam ou são interessantes pela potência econômica ou militar que representam.

No caso brasileiro, o que era um escândalo acompanhado de perto se transformou em crise diplomática. O governo, após uma reunião de emergência entre a presidente e vários ministros, afirmou que levaria o caso até a ONU, além de cobrar velocidade ao Congresso na votação de regras jurídicas que protejam mais a internet no país. Explicações do governo americano e das empresas envolvidas no ocorrido também devem ser cobradas. 

Ainda após a reunião, o ministro das Relações Exteriores foi a uma conferência de imprensa, em que defendeu os pontos do governo. Mas o mais interessante da fala de Patriota foi uma constatação pessimista: afirmou que talvez “medidas nacionais de proteção aos usuários brasileiros não sejam eficazes, já que quem controla a internet é uma empresa americana”.

Exatamente. A internet tem dono, mesmo que isso fuja dos nossos pensamentos a maioria das vezes. Preferimos pensar nela como um grande paraíso da liberdade, controlada por nada além da vontade dos usuários. Esquecemos que as redes sociais, os e-mails e os provedores são controlados por empresas gigantes, também com interesses e grandes poderes. E agora sabemos que com grandes contratos com o governo americano. AT&T, Google, Facebook e outras centenas de gigantes trabalhando a serviço de um sistema sofisticado de inteligência, que abriga mais de 52 mil funcionários contratados somente nos EUA. Já imaginaram a dimensão disso?

E esse tipo de espionagem, mesmo que alarmante, já é bastante comum. Apenas alguns dias antes de toda a confusão proporcionada por Snowden, jornais franceses já denunciavam a utilização de ferramentas parecidas pelo seu governo. Faltava a prova definitiva, a documentação de um caso de espionagem gigantesco  que pudesse mexer com o interesse de uma sociedade anestesiada, lotada de escândalos e teorias conspiratórias suficientes para que ninguém dê atenção mais a nada.

Todo o caso da NSA talvez também nos faça repensar o papel da internet na política e na reafirmação da democracia., principalmente o aumento de sua influencia como apenas um fator positivo, como defendem cada vez mais especialistas. Mas o assunto sobre as reais capacidades das redes sociais em aumentar a participação política da população é bastantes extenso. Terá que ser discutido em outro post, relacionando redes sociais, internet e a política internacional.

Continuemos a brincadeira do título do post. Será que a NSA leria minhas publicações no blog? Não acredito. Como sabemos, não pela capacidade da agência em conhecer e invadir todas as conversas, mas pela falta de interesse no que escrevo. Tanto aqui como nas publicações ou nas conversas privadas pelas redes sociais. E entre os leitores, será que alguém terá algo especial para ser lido pela NSA? Será que já foram espionados ou pelo menos tem informações pessoais na base de dados da agência? É nesse momento que muitos agradecem aos céus pelos seus pares ciumentos não trabalharem no órgão. Mas será que não trabalham mesmo? Ou pelo menos em uma das empresas com contratos com o governo americano? Melhor brincar com toda a descoberta de quão controlados somos e aproveitas o que restou de nossa liberdade.


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Onde está Snowden?

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Bom, na verdade, já se sabe. Enquanto no Brasil estamos ocupados com ludopédio e protestos, o mundo assiste a mais um roteiro de filme de espionagem da vida real. Nesse lapso de pouco mais de duas semanas, enquanto as ruas do Brasil fervilhavam, o ex-agente da CIA Edward Snowden pôs fogo na política norte-americana quando vazou dados para jornais sobre o sistema de monitoramento de dados de comunicação, incluindo conversas e dados pessoais, mantido pelo governo dos EUA. 

Pois é, a fonte anônima dos jornais que revelaram o escândalo não ficou nessa condição por muito tempo. Assim como no caso de dados vazados do Wikileaks, logo se descobriu quem fora o responsável e o jovem agente com cara de nerd passou a frequentar as manchetes de todo o mundo. Aliás, falando em Wikileaks e a volta dos que não foram, temos muitas similaridades, e esse caso acabou por trazer a organização novamente para o noticiário. 

Os membros do Wikileaks apoiam declaradamente Snowden. O ocorrido mostra muita semelhança com o vazamento de documentos secretos há alguns anos, feito também por um jovem supostamente bem-intencionado (o soldado Bradley Manning – que por sinal está sendo julgado, acusado de traição e pode pagar caro pela aventura). E assim como o criador do Wikileaks, Julian Assange, que viveu uma peripécia se escondendo na embaixada do Equador (e ficando lá até hoje) enquanto espera asilo político, Snowden viajou o mundo – literalmente. Fugindo do Havaí, foi para a China, supondo que teria alguma proteção. Se deu mal, por que Pequim não quer azedar relações com Washington e logo teve de se escafeder de Hong Kong para ficar num aeroporto na Rússia, esperando seu próximo destino. 

Apesar de mostrar não ter intenções de entregar Snowden, nada garante que os russos vão proteger o ex-agente. O Equador já não parece muito inclinado a se meter em mais confusão com o Tio Sam como antes. Não surpreendentemente, a Venezuela aparece como uma opção viável, mas de todo modo Snowden tem a maior potência militar do mundo em seu encalço, e a julgar por seu possível “amadorismo”, não deve ir longe a não ser que consiga ter a sorte de Assange e se encastelar numa embaixada. 

Se é um espião ou não (como muita gente está acusando), não dá pra saber. Snowden dá a impressão de ser uma pessoa bem-intencionada que acabou trocando os pés pelas mãos e tendo um impacto inimaginável. A crítica pesada contra esse programa veio em má hora para Obama, que está às turras com o Congresso e de cabeça cheia com a economia. Pela primeira vez em muitos anos a política externa está tendo um peso relativamente menor na agenda doméstica da política norte-americana, e o foco nesse tipo de assunto desgasta o presidente da mudança. 

Se Snowden vai ser pego ou não, é um mistério (e pode ser que não seja feito muito esforço para isso). Mas, espião ou não, desastrado ou bom samaritano, o fato é que ele causou um tumulto além das expectativas. Mais do que alertar seus concidadãos sobre uma situação de violação a direitos individuais, o ex-agente conseguiu acender um debate inflamado, se tornou o homem mais procurado do planeta, e pode ter um grande peso não apenas na discussão do momento, mas nos rumos das próximas eleições e até mesmo nas relações dos EUA com países que venham a aceitar o asilo. Nada mal.


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O novo 1984

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Fonte: internatcionalpress

1984 é um romance (e clássico literário) bastante conhecido por tratar de temas polêmicos para sua época. George Orwell escreveu e publicou o livro anos depois da Segunda Guerra Mundial e seu objetivo consistia em retratar um pouco de uma sociedade controlada e espiada por um governo autoritário e centralizador. Seu principal personagem, Winston, vive condenado em meio a um forte controle do próprio Estado e é daqui que vem o termo “Big Brother” (Grande Irmão), ou seja, aquele que observa e vigia os cidadãos. 

O livro é polêmico, sem sombra de dúvidas. Por que? Porque, embora fictício em seu caráter amplo, a obra é extremamente real e denota uma severa crítica aos regimes nazifascistas e, também, socialistas da segunda guerra e da Guerra Fria, respectivamente. Hoje, completa-se 64 anos de seu lançamento e um pouco de sua importância pode ser encontrada aqui

E o que seria o “novo 1984”? É o PRISM, um programa da Agência de Segurança Nacional dos Estados Unidos, o qual teria obtido dados sigilosos de inúmeros usuários do Facebook, Apple, Yahoo!, dentre outros com a justificativa de que as informações adquiridas seriam necessárias para o combate ao terrorismo no país. O PRISM foi legalizado por George W. Bush e referendado por Barack Obama. Quem diria, heim? E o pior é que isso não é ilegal: o Patriot Act assinado pelo primeiro presidente permite a invasão de lares, espionagem e interrogatórios em caso de real (ou hipotética) ameaça à segurança norte-americana.

Muitos acreditam que a escalada na violência e a postura unilateral dos Estados Unidos foram o que de pior aconteceu pós 11 de Setembro de 2011. Mas julgo o contrário. A pior coisa foi o fato de tudo, tudo mesmo, ser justificado com tal data. Afinal, quaisquer posturas oficiais de Obama podem ter como razão a dita ameaça terrorista. De pior fica a mais ainda controvertida política externa norte-americana, uma vez que o episódio causou mal estar na Europa, que vem tentando desenvolver sistemas de proteção de informações da “Era Digital”. 

1984 é um clássico não por sorte, mas por mérito. São com episódios como o PRISM que o “espião” aparece com total realidade. Todo mundo sabe que a exposição de informações pessoais em redes sociais é perigosa, mas nada justifica a postura oficial dos EUA. Ou melhor, justifica sim, o terrorismo. Foi o jornal “The Guardian” que fez o furo de reportagem e publicou a primeira notícia sobre as espionagens. Por fim, por curiosidade, abaixo está o mapa com dados obtidos em 2007 a respeito dos níveis de coleta de dados por país, variando de verde (menor grau de vigilância) a vermelho (maior grau de vigilância):

Fonte: The Guardian


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Imigrantes são bem-vindos

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Nos Estados Unidos, o debate acerca da reforma migratória segue aquecido. O projeto passou por sua primeira batalha com sua aprovação na Comissão de Justiça do Senado. Ainda assim, há uma grande expectativa com relação ao comportamento de parlamentares republicanos, em geral mais conservadores na temática, quando iniciarem os debates sobre seu conteúdo. Sua aprovação poderia levar 11 milhões de indocumentados rumo à cidadania.  

Obama, confrontado por eventosrecentes (o monitoramento de jornalistas e o escândalo da Receita Federal) e incapaz de conseguir levar adiante seu projeto sobre o controle de armas; enfrentará um Congresso dividido e terá sua capacidade política novamente testada. O assunto, desta vez, interessa a todos à medida que o número de eleitores imigrantes (ou seus descendentes) aumenta e altera o jogo eleitoral. Outra temática levantada é o reforço das fronteiras, aumentando a vigilância contra novas levas de ilegais.  

Independente dos avanços em Washington, algumas cidades do centro-oeste dos Estados Unidos apelam à atração de estrangeiros para repor perdas populacionais e dar novo impulso econômico à região. Longe dos centros tradicionais, tentam estimular a chegada ou a permanência (no caso de estudantes) por intermédio de facilidades para iniciar negócios ou entrar em contato com empresas, aliado a um relativo baixo custo de vida. Entre as iniciativas estão: Global Detroit, Vibrant Pittsburgh e Welcome Dayton.  

Nestas regiões, defende-se um impacto positivo dos imigrantes na geração de postos de trabalho. Trata-se do oposto daqueles que veem neste grupo uma competição aos trabalhadores locais, produzindo justamente o efeito contrário. Para isto, aposta-se no potencial empreendedor dos estrangeiros, com cidades oferecendo inclusive orientação jurídica e incentivos para reabrir negócios abandonados. Apesar de surgirem de uma necessidade pontual mais do outra coisa, estes projetos poderão servir de exemplo do que é possível fazer a partir de uma reforma imigratória abrangente.  

Imagem: fonte


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O perigo que vem de fora

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Vamos continuar o tema da postagem do último sábado, sobre a crise na Síria. Mas, dessa vez, o foco vão ser os fatores externos que determinam os rumos do conflito. Todo mundo sabe que o problema todo começou com a violência de Assad contra os protestos e coisa degringolou com a formação de grupos armados de oposição. Mas parece que todo mundo ao redor tem seu interesse por lá. 

Quem está do lado de quem? Grosso modo, do lado de Assad, temos a Rússia, China, Irã, Iraque e Líbano. A oposição tem apoio formal de Grã Bretanha, França, Qatar, Arábia Saudita, além dos EUA (apesar de meio indecisos). Temos o Líbano, que tem várias partes interessadas. E claro, Israel, que não quer nada com os rebeldes e prefere encarar a Síria de frente. 

Qual o rolo de tudo isso? Bom, começamos com o Hezbollah libanês, que está do lado do governo sírio. É considerado grupo terrorista por EUA e Israel, e pode vir a ser por Inglaterra e França. Isso já justificaria o apoio dos europeus aos rebeldes. Mas boa parte dos mesmos rebeldes são grupos sunitas radicais – muitas vezes financiados pelos países do Conselho de Cooperação do Golfo, chefiado pela Arábia Saudita e que de uma organização que não servia pra quase nada virou um importante ator na região após a fracassada “primavera árabe”. Pior, o grupo de oposição sírio não é nada homogêneo, e inclui mesmo organizações ligadas a grupos extremistas como a Al Qaeda. Para os europeus e norte-americanos, armar esses grupos é dar um tiro no pé, um pouco como o que foi feito no Afeganistão nos anos 80 – olha no que deu. É por essa lógica que a Rússia trabalha, pensando que dos males, o menor – manter Assad é a punica garantia de que não vá surgir um conflito longo pelo poder, instabilizando a região, ou pior, a ascensão de grupos radicais. E nem falamos de Israel, que está literalmente em pé de guerra com a Síria por conta de escaramuças na fronteira. 

O resultado disso tudo? A Rússia e o Irã vendem armas para o governo sírio. Países ocidentais e do Golfo armam os rebeldes de um modo ou de outro. A articulação para a tal conferência Genebra II (que pretende juntar representantes das duas partes) parece fadada ao fracasso: a Rússia não vê com bons olhos o armamento dos rebeldes; estes não querem participar sem que Assad renuncie. No meio de tudo, os dois lados estão usando todos os meios disponíveis e temos relatos de armas químicas, com vantagem para o governo. Nenhum dos lados vai ceder. Com isso, parece que a saída por meio da intervenção direta é o caminho menos desejável, mas ironicamente parece o que mais poderia dar certo no momento, pois serviria para remover a causa do conflito (Assad) e ao mesmo tempo daria maior controle sobre a sucessão (para evitar o surgimento de um Estado radical). Mas isso se Israel não for para o ataque antes. 

As possibilidades são inúmeras, assim como as consequências. A guerra na Síria é civil, mas tudo que decorre dela tem impacto regional. O caos decorrente vai ser generalizado por aqueles lados, e vai ter seus efeitos muito além, de Washington a Moscou. Não seria nada inesperado caso venha a se tornar algo maior.


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De volta ao declínio norte-americano

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Quando o assunto é a distribuição de poder no mundo, os Estados Unidos logo surgem como a superpotência. A indubitável capacidade militar, econômica e de influência cultural ainda o colocam no lugar mais alto do pódio na disputa de maior poderio mundial. Contudo, desde 1970, que o país se preocupa com seu declínio relativo. Defrontando-se com a emergência de alguns países asiáticos, a recuperação econômica do Japão, e a recuperação da Europa, para alguns, o Tio Sam deveria ditar melhor as regras do jogo e manifestar-se como uma potência hegemônica para estabilizar o jogo mundial. 

Em outra oportunidade, no blog, o Giovanni escreveu um ótimo texto sobre o tema, apontando um pouco sobre o debate atual. Esse tema do declínio está longe de se esgotar. O que o torna mais interessante é a possibilidade de observarmos nos eventos recentes, nas manifestações da mídia e da população e de pensadores, a preocupação com a manutenção do poderio estadunidense, de uma maneira mais subjetiva ou de mais explícita. 

Vamos, então, dar uma olhada em apenas duas das manifestações (implícitas e explícitas) sobre o declínio norte-americano, na mídia e no governo. 

A preocupação com o nível de desemprego e com o crescimento da economia é onde podemos observar bem essa questão. Os Estados Unidos tem, ao longo dos anos, sido vistos pelos próprios norte-americanos como gestores da ordem global. Com uma economia que produz um quarto do PIB do mundo, o papel do país é inegável. Contudo, se alguns se alegram com o mau desempenho da economia americana, Richard N. Haass, do Council of Foreign Relations (um pensador bastante envolvido com o governo, diga-se de passagem) defendeu que se é possível ver uma mão invisível nas questões econômicas, nas questões geopolíticas uma mão invisível levaria ao caos. A China, Rússia ou as potências emergentes não poderiam aceitar os custos na gestão da ordem e a ausência dos Estados Unidos não seria um bom resultado para todos os países. Para ele, os EUA deveriam recuar um pouco, colocar sua casa em ordem para depois retornar à gestão do mundo. Essa é uma tendência que também já havia sido apontada no blog sobre isso. E a preocupação com o declínio está aí muito bem manifesta. Por mais que se saiba que o Tio Sam tem um poder inegável, a procura de ressaltar que somente os EUA podem gerir a ordem é uma resposta à possibilidade de novas potencias interessadas nesse papel, leia-se, principalmente, a China. 

Isso leva à segunda preocupação, nesse caso, de cunho geopolítico. A emergência da China como potencia geopolítica e militar preocupa o Tio Sam. Depois de, como apontou o prof. Héctor Saint-Pierre em uma de suas aulas, o desvio estratégico de mais de uma década com o foco no terrorismo, os EUA retomam com a preocupação que se relaciona com sua existência política. Pude perceber isso na palestra sobre as grandes potências e a acomodação de interesses, no dia 04/04/2013, durante o congresso da International Studies Association. A resposta dos professores John Mearshimer (clique aqui e confira parte de seu pensamento na coluna teórica) e Joseph Nye Jr. (clique aqui para mais sobre seu pensamento) foi mais negativa. O primeiro apontou que era questão de tempo até os EUA desviarem sua grande estratégia para a Ásia e se preparem para a contenção da China. Nye Jr., por outro lado, defendeu que era preciso a aproximação comercial, econômica e cultural com o país e deixar o lado militar para a última opção. Contudo, a contenção militar não poderia ser descartada. A publicação do relatório anual do Pentágono para o Congresso, de 2013, mostra um pouco disso, com suas várias referencias à China e, principalmente, uma acusação de que o governo chinês estaria por trás de tentativas de espionagem pela internet, também conhecida como cyberwar. 

Ainda há uma terceira manifestação do declinismo na mídia. O principal exemplo é New York Times, que tem feito um grande lobby pela intervenção na Síria. O jornal apontou em sua mais recente pesquisa de opinião sobre as ameaças do país que a não-intervenção no conflito interno sírio era o retorno à situação de isolacionismo. Ora, Stephen Walt já criticou bem esse aspecto mas não mencionou sua relação com o medo do declinismo. Nesse caso, como no primeiro, há a preocupação de que a falta de atuação externa do Tio Sam leve à perda de poder. Há também a mesma noção de que os EUA devem gerir a ordem internacional e, portanto, devem também intervir militarmente para impor a paz quando necessário.

O declinismo norte-americano é um tema que está incutido na sociedade dos EUA e, mesmo com seu status confortável, em termos de poderio, o medo de perder lugar ainda se faz constante no imaginário da população. Precisaríamos de mais tempo e mais espaço pra trabalhar melhor essas manifestações, mas acredito que deu pra dar mostrar um pouco como isso se dá. Entre o medo de declinar, os problemas internos e potenciais intervenções externas, os EUA trilham para o futuro.


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Imagem da Semana

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A imagem dessa semana é carregada de simbolismo. No último dia 02 de maio, foi içada uma peça espiral que torna o One World Trade Center (ou WTC 1), construído no lugar das torres gêmeas em Nova Iorque, o prédio mais alto do hemisfério norte.

Mais de uma década após os atentados, sabemos que suas estes trouxeram (e ainda trazem) grandes impactos para as relações internacionais em geral. A antes intocável hegemonia estadunidense foi desafiada e todos estamos mais do que cientes das consequências disto.

Ao reconstruir um prédio no lugar as torres gêmeas que, simbolicamente, é maior que todos no hemisfério norte, vemos os Estados Unidos, ainda que economicamente mais enfraquecidos que outrora, procurando, uma vez mais, se reerguer – ou se reafirmar na liderança que sempre assumiu… 


Fonte da imagem: Justin Lane/Efe


Boston Massacre

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A exatas duas semanas ocorria o mais recente evento de violência denominada pelas autoridades americanas como terrorismo. Ao que tudo indica, dois jovens tchetchenos aparentemente inseridos na cultura e sociedade ocidental, decidiram explodir uma bomba caseira dentro de uma mochila deixada próximo a linha de chegada da maratona de Boston, uma das mais importantes do mundo. Três pessoas morreram e centenas ficaram feridas.

Desde aquele momento foi iniciada uma caçada aos responsáveis pelo ataque, colocando à prova a competência da polícia americana em defender o país de terroristas. O desdobramento das investigações levou a dois suspeitos, logo perseguidos cinematograficamente pelo FBI, levando a morte de  um deles e a prisão do outro. A transmissão ao vivo da caçada aos suspeitos bateu recordes de audiência nos Estados Unidos e se transformou em assunto recorrente dos noticiários brasileiros, só competindo com as entrevistas dramáticas às vítimas sobreviventes e aos parentes dos mortos, que tentavam humanizar o espetáculo do cenário de guerra em Boston, cena muito mais recorrente na ficção de jogos eletrônicos e filmes de Hollywood.

Os motivos que levaram a explosão na maratona, que não seria a única pelo arsenal encontrado na casa dos jovens e pelo interrogatório a que foi submetido o sobrevivente, continuam obscuros. A tentativa de ligá-los a grupos terroristas, que foi desde vasculhar mensagens de redes sociais em que se diziam a favor da separação da Tchetchenia da Rússia até o desespero de trazerem parentes  dos acusados dos mais longínquos lugares a fim de que confessassem o que não se provou, foi totalmente ineficaz. Talvez a violência tenha sido causada apenas pela não inserção na sociedade, como defenderam alguns psicólogos às pressas para a imprensa, ou motivada por alguma psicopatia. Alguns experts no assunto, como que constatando o óbvio deixado em um primeiro momento de lado, defenderam que talvez esse tenha sido um caso de violência interna sem ligação a ideais políticos, e que talvez a sociedade americana, e todas as sociedades que copiam a sua forma de vida, sejam violentas. 

A ação individual de um louco munido de armas estaria longe de ser a primeira ocorrida em um país que desde a década de 80 não passa um ano sequer sem viver um massacre fabricado pelos chamados “assassinos em massa”, “serial killers” e outros tipos de criminosos. E os americanos vivem essa realidade intensamente, acompanhando os noticiários e perseguições aos suspeitos, assistindo filmes, séries fictícias e reais sobre cada caso recente. Há canais em que a grade de programação inteira é dedicada a esses notórios assassinos. Na verdade, não existe nada que a televisão ensine mais aos seus expectadores do que como funciona a sua violência, o seu modo de matar, a sua vida, as suas vítimas e o seu final. Talvez sejam os únicos a competirem com as celebridades em destaque e conhecimento popular.   

E com a ação desses assassinos também se constrói o ódio. O lobby pela pena de morte, recente em nosso país e feito pelo noticiário policial recheado de sangue, é mera cópia do modelo de televisão americano. Nesses programas, o lado humano do incidente estava por todos os lados, à vista ou escondido pelas câmeras. Poderia ser visto no desespero e medo dos habitantes de Boston, retirados por uma ampla força policial que checava de casa em casa o paradeiro do suspeito. E nas sombras pelo desdobramento do espetáculo, com a morte de Sunil Tripathi, confundido por meio de um perfil do twitter como um dos homens que apareciam no site do FBI como responsáveis pela explosão. O jovem foi encontrado morto três dias após o incidente, provavelmente assassinado por alguém que buscava vingança, ou ter se suicidado pela culpa atribuída a ele e as constantes ameaças. A histeria causada pelo sensacionalismo e o circo montado em cima do atentado, já um evento grandioso e trágico por si só, chegava ao ápice de ocasionar uma cena de (in)justiça com as próprias mãos ou de pré-julgamentos, dignas da barbárie total, no contrastante ambiente do país mais desenvolvido do mundo. A violência é fortemente propagada por todos os lados.

Mas a morte de um inocente não aplacou a festa. A comemoração nas ruas de Boston poderiam ser vistas como um alívio ou até mesmo uma demonstração de patriotismo dos americanos, felizes com o resultado final da caçada. No entanto, também não podemos deixar de considerar todo o deslumbramento com que essa sociedade trata a violência, desde os cinemas e os seriados de TV a recordes de compras de armas. Os maiores defensores da democracia americana  para a população estavam mais uma vez lá, fardados. Por meio da bala e a algema anularam o medo. Mas como poderiam evitar que outro louco logo surja, mandando pelos ares expectadores de uma maratona, ou um shopping center, ou uma praça? 

A foto acima é de uma camiseta promocional da Nike, com os dizeres “Boston massacre” (massacre de Boston, em português), em analogia a um jogo de futebol americano realizado na cidade. A linguagem da violência transportada a outras áreas da vida, principalmente ao esporte, não é mera coincidência e sim parte de um processo continuo da transformação dela em bela e banal. A maior parte do tempo isso passa desapercebido por todos nós, como algo bastante comum. Mas nem sempre isso ocorreu. Na verdade, as analogias a violência são bastante recentes, desde a década de 70 para ser mais exato. Anteriormente a isso, se você se direcionasse a outra pessoa e afirmasse que no dia anterior havia ocorrido “um massacre” no jogo de seu time, certamente deixaria a outra pessoa em pânico. Excitação pela violência, achar legal a vida de um assassino ou as mortes em uma guerra seria uma impossibilidade ainda maior. Mas todos nós assistimos isso, e na maior parte do tempo gostamos.  

De onde vem o gosto pela violência, desde quando ela se transformou em algo tão atraente? Evidentemente, não quero cometer o erro de culpar o cinema e a TV pela violência, mas ao contrário, utilizá-lo como um espelho do que nos interessa ou que somos levados a nos interessar, de como vivemos. E vivemos tempos de exposição, em que todo acontecimento se torna um evento midiático, uma história de cinema. A retirada das camisetas das lojas foi um dos raros dias em que os americanos não acharam graça nos filmes de ação. Nada também que a transmissão da CNN a perseguição dos suspeitos não pôde mudar. E se depois de algumas horas descobrissem que aqueles jovens suspeitos eram inocentes? A emoção a frente da TV teria sido válida, as filmagens fechadas nos carros de guerra de última tecnologia e nos soldados teriam valido, enfim, para o atraente espetáculo da violência teria sido mais um dia de contentamento para os seus criadores e o seu público sempre cativo. 


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Considerações sobre o inexplicável

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No fim dessa semana trágica pra os EUA, em que mais uma tragédia acontece com a explosão de uma fábrica de fertilizantes no Texas, já podemos fazer algumas considerações sobre os ataques terroristas em Boston na segunda-feira, que já foram explorados à exaustão pela mídia. 

Primeiro, já podemos ter uma ideia da motivação. O terrorismo é uma forma muito eficiente de expressão política, e a ausência de uma declaração de autoria é no mínimo suspeita. Existem quatro linhas principais de investigação da autoria, e a mais provável é a de que seja um grupo interno. Se fosse de fora, não teria o que temer (bom, teria, mas essa é a intenção oras). É possível ir até mais além – no mundo de hoje, basta um maluco com conexão á internet e acesso a loja de ferramentas pra montar uma bomba dessas. A situação pode ter sido muito mais simples, com um ou dois indivíduos querendo passar sua mensagem violenta e agora entocados ao se darem conta da idiotice que fizeram. 

Segundo, a falta de um culpado concreto até o momento gerou um movimento muito interessante de “vigilantismo” virtual, com comunidades on-line pesquisando todas as fotos e vídeos disponíveis, identificando os menores detalhes, da posição na multidão às mochilas das pessoas que estavam na plateia. Muita coisa vem de contribuição anônima, e essas “pistas” podem ser imagens manipuladas (sempre lembro da foto do falso Osama morto nessas horas). Em algumas vezes a velocidade da internet faz essas discussões e caírem em fontes tradicionais, o que rende erros crassos como o anúncio da CNN de ontem de que suspeitos haviam sido presos. Em tempos de web 3.0, a participação coletiva ajuda tanto quanto atrapalha. Agora imaginem, se pessoas com algum tempo livre conseguem juntar esse tipo de informação e até levantar suspeitos, imagine o governo dos EUA. 

E aqui chegamos ao terceiro ponto. Uma análise muito interessante (veja aqui) mostra como, apesar de chocar o mundo quando acontece, as ações do governo dos EUA (bem ou mal) e a carga de desapego que o terrorismo exige fazem dos EUA um lugar ainda muito seguro contra o terrorismo, especialmente doméstico. O presidente Obama faz muito bem ao reagir de maneira contida e dura, mas sem estardalhaço. Ocorreu um crime, e os culpados serão buscados até as últimas consequências. Com a rede de informação que existe lá, não admira que o(s) autor(es) do atentado não tenha se pronunciado ainda. Se derem a menor bandeira, vão ser encontrados, e perderam totalmente o sentido de uma possível reivindicação com a aleatoriedade do ataque. 

Como dizem os números, é mais fácil ser atingido por um raio que morrer num ataque terrorista nos EUA. Fora as medidas de segurança momentâneas, não parece haver motivo para preocupação no resto do país.  Os ataques deixaram imagens horríveis, deve-se lamentar as vidas perdidas e os feridos que sofreram traumas e amputações, vai haver uma certa apreensão por um tempo, mas a vida volta ao normal – e ano que vem já se fala em uma maratona ainda maior. Com esse tipo de resposta, podemos dizer que os trauma do 11 de setembro tenha deixado suas lições, e que os terroristas não tiveram sucesso nenhum no fim das contas.


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Quem tem medo?

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Quem tem medo da Coreia do Norte? Há alguns dias tivemos uma postagem inspirada que comenta bem sobre o aspecto histórico e do papel desse país pitoresco no mundo. Pois bem, o que vemos hoje é, possivelmente, a maior possibilidade de o conflito na península ser retomado desde o armistício dos anos 50, então vamos falar de aspectos mais pontuais – e de por que mais uma vez as ameaças da Coreia do Norte são fogo de palha. 

O estopim disso tudo foram o teste nuclear e o lançamento de foguete no começo do ano. Parte daquela estratégia usual deles de mostrar presença pra seu vizinho do sul. As tecnologias são complementares quando pensamos num ICBM, o mundo inteiro ficou horrorizado com a possibilidade, os EUA irritados com mais uma violação às proibições de testes e com isso até a China apoiou mais uma rodada de sanções. O drama foi que dessa vez esse aperto em Pyongyang coincidiu com as tradicionais manobras de treinamento militar dos EUA & amigos, fazendo com que viessem mostrar os dentes mais perto ainda. Ameaça de fulminar os EUA, arrasar a Coreia do Sul e o Japão, o mesmo papo de sempre. Possível? Sim. Provável? Não.

A Coreia do Norte tem um dos maiores exércitos regulares do mundo. Se entrar em guerra com qualquer país pode causar estrago, especialmente na Coreia do Sul (quem mais tem a perder, de modo realista, num caso de conflito). O problema e que não vão se sustentar por muito tempo caso a coisa esquente pra valer – o equipamento do país é muito datado (sério, estão usando equipamento da época… da Guerra da Coreia!), e suprimentos são algo complicado por lá sem apoio chinês. É difícil estimar a reação dos combatentes, mas fora uma ala ultranacionalista inflamada pela cúpula do Partido, que deve querer lutar até o amargo fim, a maioria dos soldados comuns não é dada a esse tipo de heroísmo. Se os EUA realmente tomarem parte na briga, a derrota VAI ser uma questão tempo.

“Mas Álvaro, o Iraque era muito mais fraco, e olha o que aconteceu!”. Bom, no Iraque estávamos falando de uma guerra bastante irregular, com envolvimento de civis e regras de engajamento nebulosas. O governo norte-coreano é muito centralizado, e em caso de derrota é muito possível que o resto da estrutura desmorone sem a pressão do Estado.

“Mas e a bomba atômica?!”. É simples – não vai rolar. Só foram usadas bombas dessas pra valer no fim da Segunda Guerra, quando ninguém ia peitar os EUA por isso. Questões morais à parte, hoje a situação é diferente – quem usar esse tipo de arma vai atrair quase que toda a opinião pública mundial contra si. Estados não são como grupos terroristas, que não têm nada a perder. Se atacar a Coreia, até a China vai intervir na situação. E se ousar riscar a pintura de um navio norte-americano, ai de Pyongyang. A reação a um evento dessa magnitude não pode resultar em outra coisa que não seja a destruição (moral, política e prática) do Estado norte-coreano. Além disso, e o mais importante de tudo, apesar dos testes, a capacidade de alcance nuclear real da Coreia do Norte ainda é desconhecida, e muito provavelmente exagerada nas declarações. Explodir uma bomba embaixo da terra é uma coisa, colocar num míssil e atingir o outro lado do oceano, outra bem diferente. 

E não precisamos ir tão longe! Existe uma análise interessante que mostra que as ações da Coreia do Norte visam a causar o terror na do Sul. Acho que o foco aqui deve ser o oposto. Kim Jong Un precisa marcar terreno no meio dos burocratas nacionalistas, e que maneira melhor de fazer isso que ameaçar a maior potência militar do mundo? Kimzinho é um cidadão do mundo (na medida do possível). Ele certamente conhece melhor a situação de fora que seu pai, e a posição da Coreia nele. O país só tem a perder em caso de conflito (que diabos, até mesmo a Coreia do Sul é um parceiro vital pra economia do país!), e apenas a ganhar caso mantenha essa situação de dissuasão mútua na região, tentando manter esse blefe atômico com as potências. Jogando as cartas na mesa, perde tudo. 

Ok. Racionalmente, não deveria acontecer um ataque. Porém… e SE acontecer o pior? Não dá pra saber o que se passa na cabeça dos líderes e generais norte-coreanos. Lutar até a morte? Sim, mas podemos até começar a especular num terreno pantanoso de mirabolantes conspirações, em que Kim, um homem que conhece os “prazeres” do mundo exterior, incita o país à guerra para que os radicais nacionalistas sejam consumidos pelo fogo, o Estado desmorone e finalmente possa entrar no século XXI com a ocupação/intervenção/ajuda de outros países, fazendo à força uma reforma que seria impossível de dentro… Um vilão para o mundo, mas herói improvável em longo prazo. Já pensou? Não duvide de nada quando falamos desse país.


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