Política Externa – o Retorno?

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Pois é, o cenário internacional anda agitado, mas pela primeira vez em muitos anos um causo de política externa está agitando o noticiário nacional e envolvendo os brios do próprio Brasil. Vale lembrar que política externa até vira notícia no Brasil, mas rende muito pouco em termos de eleições, então tanto a população como boa parte do governo não dão muita importância ao que o Brasil faz lá fora. Quando dá, são as trapalhadas como o rolo com o programa nuclear iraniano ou as expropriações de empresas brasileiras.

Mas eis que os EUA cometeram o maior erro que um espião pode cometer – se deixar ser pego no ato – e de repente o tema “internacional” ficou quente de novo no Brasil. Espionagem, guerra e prostituição existem desde que o mundo é mundo (e geralmente estão interligadas, diga-se de passagem), mas nos tempos modernos, em que a moralidade da opinião pública massacra o pragmatismo dos Estados, o Brasil não poderia deixar sem resposta essa afronta a sua soberania no que é considerado até mesmo um ato de hostilidade contra um “país amigo”. Pela primeira vez em muito tempo se vê uma reação de ultraje da opinião pública nacional por causa de algo lá de fora. 

Quem ganha com isso, e chegamos ao centro da discussão aqui, é a presidente Dilma. Ao cancelar a reunião que estava marcada com Obama, assim como Putin fez há algumas semanas, dá a entender que se coloca como uma interlocutora que busca respeito. Não havia muita opção quanto ao que fazer – se deixasse o assunto esfriar, seria fraqueza; uma reação mais dura, exagero. No mínimo ela consegue melhorar sua imagem interna, mas o fato é que a situação se mostrou bem oportuna para que Dilma dê um fôlego a sua política externa. 

São vários fatores que colaboram para isso – a remoção do ministro da pasta, Antonio Patriota, que dá novos ares ao Itamaraty; a possibilidade de o Brasil ter um papel relevante na crise da Síria (seja pelo fato de a Rússia ser um interlocutor próximo, seja após se descobrir que um funcionário brasileiro da ONU poderia ter evitado toda essa crise anos atrás se não fosse… pelos EUA, sempre eles!), e a revelação da espionagem em massa dos EUA que foi a deixa para Dilma (voltar a) atuar. 

Vale ressaltar que sua política externa ficou meio acanhada em comparação à dos antecessores. Dilma recuou em alguns temas que eram peça-chave para Lula, e reduziu seu próprio papel (a chamada “diplomacia presidencial”, de caráter personalista, que era muito forte tanto em FHC quanto Lula). A grande exibição de Dilma até agora foi a proposição do conceito de “responsabilidade ao proteger”, uma releitura da “responsabilidade de proteger” que a ONU emprega (ou deveria empregar…) em casos como o da Síria, mas que perdeu impacto e não foi tão aclamada quanto, por exemplo, a inclusão do tema da miséria no debate internacional feita pelo Lula. 

Digamos que o Brasil não abriu mão de algumas pretensões, mas prefere “deixar pra mais tarde”. É cedo pra tirar conclusões, mas o cenário de agora apresenta uma chance boa de Dilma tentar uma política mais arrojada, atuando pontualmente em alguns setores para demarcar a posição brasileira, mas sem o espetáculo dos anos Lula. O tempo irá dizer se essa cautela de Dilma, agora forçada à ação, vai render frutos, mas a chance para a mudança – e, quem sabe, deixar sua marca na história da política externa que não seja o apagado debate sobre a “responsabilidade ao proteger” – está na mesa.


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Solução à vista?

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Depois de uma intensa semana de negociações, a notícia mais comentada do dia de ontem foi o acordo em que chegaram Estados Unidos e Rússia a respeito da Síria e das medidas a serem tomadas especialmente em relação aos ataques com armas químicas que chocaram a comunidade internacional há pouco menos de um mês (leia post no blog a respeito aqui).

O dilema sírio já é bem conhecido por todos e o complexo jogo de interesses envolvido (e já discutido no blog em diversos momentos, veja alguns posts aqui, aqui e aqui) torna qualquer solução de difícil visualização no plano prático. Contudo, o uso de armas químicas por parte do governo Assad revelou uma nova e ainda mais terrível faceta deste conflito, mobilizando especialmente o gigante americano contra essa ameaça à paz e à estabilidade internacionais (posts aqui e aqui).

Todos os números destes dois anos e meio de conflito civil na Síria são chocantes e denotam a grande dificuldade de se chegar a um acordo de paz no país. Acumulando mais de 110 mil mortos e aproximadamente 2 milhões de refugiados em países vizinhos, poucos avanços têm sido vistos ultimamente, tornando incertas as perspectivas de paz para a população da Síria e da região.

Com a iminência de um ataque dos Estados Unidos ao país, entretanto, houve uma especial mobilização por parte da Rússia (tradicional aliada da Síria no Conselho de Segurança) para o estabelecimento de uma ponte diplomática de diálogo. Ontem, pois, acordou-se que a Síria deve apresentar um inventário de suas armas químicas em uma semana e que estas deverão ser completamente destruídas até o ano que vem, evitando-se assim um ataque norte-americano e almejando-se que este acordo evolua gradativamente para algo mais abrangente que reacenda a esperança do final do conflito…

Ainda é cedo demais para entender as reais consequências do acordo, mas fato é que, apesar de inicial, este representa um importante passo nas negociações com o regime sírio. Ainda, a ONU afirmou ter recebido carta da Síria com intenções de que o país venha a aderir à convenção internacional contra as armas químicas. Registro de algum avanço? Possivelmente sim.

Mas nem tudo são flores e os ataques do governo aos rebeldes (e vice-versa) continuaram hoje em um ambiente hostil, em meio ao qual todas as boas intenções parecem se esvaecer. Obama segue preparado para um ataque à Síria em caso de descumprimento do acordo. Rússia e China seguem dispostas a barrar quaisquer ações mais incisivas contra o regime sírio com seu poder de veto na ONU. A oposição no país não vê o acordo com bons olhos, e permanece ainda uma descrença generalizada quanto à solução do conflito.

O que pensar diante desta situação? Difícil. Acreditar que a esperança é a última que morre é importante. Mas as mortes sírias são tantas e de tantas formas que a esperança parece precisar, na verdade, ressurgir das cinzas. Se estamos vendo e vivendo os primeiros passos para tanto, só o tempo poderá confirmar. Aguardemos (esperançosos!) o desenrolar deste acordo para reavivar um otimismo há muito obscurecido pelo ceticismo e avistar, efetivamente, uma solução duradoura para o drama sírio. 


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Novas caras de um velho problema

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Hoje é 11 de setembro, e a data é ligada a desastres. Tem quem lembre da queda de Allende no Chile, em que um experimento malsucedido de socialismo deu lugar a uma ditadura pior ainda. Mas é claro que não tem como se fazer qualquer tipo de análise sem lembrarmos a efeméride fatídica de 2001. E talvez seja um ano bem oportuno pra retomarmos aqueles acontecimentos. 

Isso por que toda a discussão acontecendo em torno da Síria representa um dos grandes debates que existe na academia de Relações Internacionais hoje na área de Segurança e Defesa, que são as tais “novas guerras”. Não que a definição do que elas sejam esteja indefinida ainda – é um conceito muito amplo, mas que deixa bem claro do que trata. As guerras clássicas envolviam Estados, tinham uma delimitação clara, mesmo que houvesse alvos civis. Na Segunda Guerra (talvez a última grande guerra entre Estados), havia Eixo e Aliados. Mesmo na Guerra Fria, era EUA x URSS e o resto do mundo pendurado em um dos dois (sem generalizar, claro, por que depois surgem os não alinhados, a China, e por aí vai). Era um mundo mais “fácil” de compreender (isso em termos de análise de conflitos mais tradicional). 

Hoje não. Desde os anos 90, há uma multiplicação de atores envolvidos. Guerras civis explodem dentro de países, opondo grupos étnicos ou religiosos, e seu conflito transborda para os vizinhos. Ou pior ainda, existe o conflito entre Estados, mas não entre os governos, e sim entre milícias e grupos específicos em confronto com grupos de outros Estados (como se vê muito na África). Não é que conflitos dessa natureza não existissem antes, mas agora eles são os mais destacados. Essas “novas guerras” são justamente as assimétricas, em que não se sabe exatamente quais são as partes envolvidas já que são grupos muito heterogêneos, e por vezes sem participação do Estado (ou quando o Estado é falido). 

Aqui entra a questão do 11/09. O ataque a Nova Iorque e Washington mostrou essa capacidade de um inimigo sem face, e teria dado um novo objetivo aos Estados na arena internacional. Acadêmicos norte-americanos abraçaram a ideia de que “a América tinha uma missão a fazer”, e seus políticos entraram na espiral da destruição promovendo guerras que tiveram resultados desastrosos, tanto para os EUA em si, quanto para os países onde ocorrem (até hoje…) os conflitos e suas regiões. Por outro lado, os ataques também representaram a grande “apresentação” para o mundo dessa nova onda de atores e agentes que afetam a segurança internacional de um modo que o sistema tradicional de Estados não está acostumado a lidar. O resultado disso vemos nas diversas guerras das últimas duas décadas, que em sua maioria foram fracassos retumbantes, seja na atuação do sistema ONU, seja nos objetivos dos que iniciaram os conflitos. 

O 11/09 é emblemático como a representação de um mundo em fragmentação. Questões e demandas específicas de atores subnacionais cada vez mais influem nas decisões e ameaçam os atores tradicionais, em um futuro incerto. O desfecho do conflito na Síria é apenas um entre diversos atos de uma grande peça que é novidade no palco internacional e ainda está longe de se encerrar.


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Gafe norte-americana

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Associar o nome “Bush” com a ideia de “gafe” em uma mesma frase talvez não seja exclusividade do dia de hoje, mas fato é que a situação em questão foi especialmente desagradável.

No dia em que Nelson Mandela, depois de três meses internado em estado crítico, deixou o hospital em Pretória para receber cuidados domiciliares, foi divulgado um comunicado de imprensa de George Bush pai em que expressa suas condolências pelo falecimento do líder sul-africano

De responsabilidade de seu porta-voz, chamado Jim McGrath, o comunicado homenageava Mandela ao dizer que ele “foi um homem de grande coragem moral que mudou o curso da história em seu país”, lamentando sua morte. A gafe foi rapidamente percebida pelo porta-voz, que se desculpou pelo “erro estúpido”, tentando justificar-se ao afirmar que informações do jornal “The Washington Post” foram mal interpretadas. Pouco, contudo, pode ser feito em relação às consequências de palavras já ditas – e publicamente divulgadas.

Este acontecimento sugere duas reflexões diferentes. Em primeiro lugar, fato é que o estado de saúde instável de Mandela, com seus 95 anos, preocupa. Sua volta pra casa não transparece a melhoria esperada por todos, visto que seu tratamento continuará intensivo e foi revelado que o ex-presidente sofre de complicações múltiplas.

Entretanto, nada justifica a gafe de McGrath e, consequentemente, de Bush pai. E a segunda reflexão é efetivamente sobre o papel dos assessores e dos porta-vozes. Estes são os principais responsáveis por toda a comunicação e pela forma como a informação chega, por um lado, aos assessorados e, por outro, ao público em geral. Trata-se de uma função cuja importância é poucas vezes reconhecida no dia-a-dia, mas imediatamente visível em caso de erros e problemas – talvez como todas as funções, aliás, mas mais facilmente midiatizada e com consequências negativas proporcionalmente mais impactantes.

Seguem, pois, as expectativas pela melhora do herói Mandela, lamentando o erro crasso do porta-voz norte-americano e esperando que mensagens de condolências como esta desacertadamente divulgada não sejam necessárias tão cedo… 


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O caminho para a destruição

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Desde 1994 a ONU tem um trauma. A falta de capacidade em evitar o genocídio em Ruanda e o modo como o mundo todo descobriu aquele massacre feito na base do facão é sempre a primeira justificativa quando se pensa em alguma resposta mais dura a crises humanitárias. Hoje, vemos a Síria em guerra civil e evidência lamentável do uso de armas químicas. A chamada “opinião pública” mundial clama por ação, e parece que Reino Unido, França e possivelmente os EUA estariam buscando uma resposta conjunta que pode sim render uma ação armada. 

Existe muita ironia em tudo isso. Basta lembrar a intervenção na Líbia. A ONU aprovou uma zona de exclusão aérea (por muito menos que o uso de armas químicas), o conflito se acirrou e hoje o país não tem governo. O resultado da intervenção, no fim das contas, é contestado e muita gente culpa os países ocidentais pelo aumento substancial das mortes e instabilidade que dura até hoje no país. 

O caso da Síria é bem diferente, em quase todos os sentidos, a favor e contra a intervenção. A favor, existem evidências do uso de armas químicas (a questão é saber exatamente de que lado), um sangrento prolongamento das hostilidades e, principalmente, o recurso ao conceito da “responsabilidade de proteger” (que a ONU trouxe lá no meio dos anos 2000 e visa justamente evitar esses genocídios), que já tem efeitos práticos na missão da ONU no Congo (que hoje tem um “braço armado” capaz de revidar às ameaças contra a população, coisa inédita). Contra, é claro, temos um elemento político. China e Rússia são totalmente contra uma intervenção de qualquer natureza, por diversos motivos – e alguns são bem pragmáticos, como o fato de não se saber exatamente ainda qual dos lados usou as armas, e defender a permanência de Assad por simplesmente não ser possível prever como seria instalado um novo governo caso ele seja derrubado, ou como isso afetaria a estabilidade da região. Há também a crítica dos “interesses escusos” das potências (que já vimos na Líbia), em que a defesa dos direitos humanos vira uma desculpa para o bom e velho imperialismo versão século XXI. E vozes na própria ONU ainda defendem que o caminho das negociações seria ainda a melhor opção. 

O Reino Unido vai levar o caso ao Conselho de Segurança, pedindo ações rígidas, mas qualquer medida nesse tom será barrada por Rússia e/ou China. Esse “travamento” na ONU vai acabar levando à ação unilateral, seja individualmente, seja por meio da OTAN, ou coisa do tipo. A movimentação já existe, com navios e porta-aviões de prontidão na região, e as evidências dos ataques químicos acabam sendo um marco do “ponto sem retorno”. Algum dos lados do conflito fez algo abominável para a sociedade internacional, e na visão das democracias ocidentais uma ação precisa ser tomada. Mas o quê vai ser feito? Uma invasão com tropas e tudo mais? Uma zona de exclusão aérea? Bloqueio naval? Qualquer opção vai render um banho de sangue para os dois lados e potencialmente tornar ainda mais letal o conflito. E não significa necessariamente que a intervenção vá ter sucesso. 

De qualquer jeito a reação será negativa. Em caso de intervenção, mesmo que milagrosamente dê certo e acabe com o conflito, vai haver protestos contra imperialismo, denúncia de interesses escusos e possivelmente desestabilização da região como um todo (o Irã pode fazer alguma bobagem, retaliação sino-russa, e por aí vai). Caso nada seja feito, mais uma vez a ONU perderá credibilidade por não ter evitado uma tragédia. A única solução que evitaria qualquer desfecho negativo seria a pacificação pela negociação, mas levando em conta quem está lutando, e o ponto a que chegaram as coisas, esse caminho é agora um sonho.


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A "punição exemplar"

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Antigamente, se via muito a aplicação da chamada “punição exemplar”. Execuções horrendas, como esquartejamentos, serviam justamente para confirmar o poder de quem manda na ordem do momento (seja um governo, democrático ou não, seja um tirano) e colocar medo naqueles que estariam envolvidos para evitar a recorrência dos atos que levaram à punição. Basicamente, a mesma ideia do encarceramento, mas de um jeito horripilante e com muito mais impacto. É diferente do “bode expiatório”, quando colocamos toda a culpa em um certo indivíduo para livrar a cara de outros.

Pois bem, como hoje em dia não pega muito bem desmembrar gente em público (apesar da tradição da pena de morte em alguns lugares persistir), ou quando a situação escapa de “dentro” do Estado, o jeito encontrado para alcançar aqueles dois objetivos se tornaram bem mais sutis. Estamos vendo um pouco disso nos casos recente de vazamento de informações internacionais. O mais quente é o do brasileiro David Miranda, detido pela polícia britânica durante sua passagem pelo aeroporto de Londres por cerca de nove horas em decorrência de artigos no mínimo questionáveis da lei antiterrorismo do país. Durante esse período, para não ser preso, o brasileiro teve de responder questões pessoais, entregar senhas e teve seus pertences confiscados. O que isso tem a ver com terrorismo? Miranda é parceiro de Glenn Greenwald, o jornalista que jogou na mídia a bomba das revelações de Edward Snowden, e aqui as coisas começam a ficar estranhas. 

O governo britânico justifica que a detenção foi feita com base legal e no interesse dos cidadãos britânicos, de que os dados nos pertences poderiam comprometer a segurança nacional. Mas é muito suspeito que justamente ele tenha sido “sorteado” para essa busca. Há um claro interesse por trás desse ato, simbolismo, mas o difícil é saber de quem partiu. A CIA? Os EUA? Serviços de inteligência? Aqui já estamos na área das conspirações, mas parece claro que temos um fenômeno recorrente. Pensem nas nebulosas acusações de abuso sexual contra Julian Assange que fizeram dele morador permanente da embaixada do Equador em Londres. Ou o jogo de gato e rato de Snowden com a inteligência dos EUA e sua demonização na mídia de lá. Ou a papagaiada do avião de Evo. São casos em que, se os governos não têm meios de agir diretamente contra os que atingiram seus interesses, ocorrem ataques “indiretos”. A mensagem é clara – de um jeito ou de outro, alguém vai pagar. Quem quiser enfrentar o mundo e revelar segredos dos países vai ter que ser muito liso e torcer pra que não envolvam suas famílias ou coisa do tipo no meio. E isso pra não contar quando existe o peso da lei – como o caso do soldado Manning, envolvido com os vazamentos do Wikileaks lá em 2010, que acaba de ter a sentença anunciada e conseguiu escapar de 90 anos na prisão para “apenas” 35

Mas é, estamos falando de conspirações ou suposições com base em fortes suspeitas… mas o que temos de concreto? Na semana passada o ministro das Relações Exteriores, Antonio Patriota, já tinha “puxado a orelha” do Secretário de Estado dos EUA sobre a vigilância. O caso de Miranda foi a gota d’água, e o Brasil condenou veementemente (e de um jeito até atípico) a atitude da Grã-Bretanha. Por muito menos que isso já rompemos relações com eles (nos bons tempos do Império), mas não deve ser para tanto. Talvez isso mostre o maior dano que os envolvidos na espionagem tenham: o diplomático. Esse demora para ser consertado, e a “punição exemplar” acaba tendo um efeito muito pior do que o dano que tenta evitar…


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Imagem da Semana

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A imagem dessa semana é de hoje, e mostra muito bem como a diplomacia é uma atividade complexa, e no fim das contas meio ingrata. No encontro do Ministro das Relações Exteriores do Brasil com o Secretário de Estado dos EUA, Patriota fez coro ao discurso das últimas semanas e condenou a espionagem de cidadãos brasileiros por órgãos de segurança norte-americanos, indo mais longe, ao clamar pelo fim dessas atividades. Kerry fez o que se espera do chefe da diplomacia dos EUA, justificando do jeito que podia as atividades de seu país e se esquivando ao máximo. Quando pensamos em saias-justas que esses encontros podem causar (e por vezes são cancelados, como vimos no caso do encontro entre Obama e Putin que foi pro espaço na semana passada), é de admirar a frieza dessas pessoas. Talvez nem tanto no caso de Patriota, que não fez menos que o esperado, mas principalmente de Kerry, que com toda calma do mundo fez sua parte no meio de “lobos”, por assim dizer. Se a desculpa vai colar, é claro, são outros quinhentos.


Briga de gente grande

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A Guerra Fria pode não ter sido a melhor coisa pro mundo em sua época, mas podemos dizer que realmente fosse um fenômeno de compreensão bem mais fácil. Na dúvida, se ocorria algum problema no cenário internacional, a possibilidade era de que remetesse de algum modo à rivalidade entre EUA e URSS. E aquela rivalidade que teria sumido junto com a União Soviética nos anos 90 pode estar escondida por aí, ter um capítulo novo e ser bastante relevante no cenário caótico contemporâneo. 

Contrariando algumas expectativas (inclusive minhas), o fujão Edward Snowden acabou conseguindo seu asilo temporário… na Rússia! Qual o seu destino (ficar por lá, buscar asilo num país sul-americano ou o que for) é um mistério, mas a consequência imediata foi um choque nas relações entre Moscou e Washington. Obama ia visitar Putin… mas já cancelou a viagem. Ainda assim vai participar da reunião de cúpula do G20, em São Petesburgo, mas vai ser um daqueles encontros bem constrangedores. 

O fato é que a Rússia sempre trocou farpas com os EUA faz algum tempo, em questões pontuais. Vale sempre lembrar a questão do escudo de mísseis da OTAN, cria americana que quase levou a Rússia às vias de fato. Ou a famosa questão da lista Magnitski (uma “lista negra” feita por Washington que congela bens e impede a entrada nos EUA e países europeus de alguns cidadãos russos supostamente envolvidos em violações de Direitos Humanos e na morte do jurista homônimo), considerada uma afronta na Rússia. Isso para ficar nos problemas mais famosos.

Ao mesmo tempo, a relação entre os países é importante de um ponto de vista positivo. As negociações para redução de armas estratégicas passam diretamente pelos detentores dos maiores arsenais nucleares do mundo. Os países colaboram ativamente com relação ao combate a terrorismo. Mas é o suficiente para garantir uma aproximação mais sólida? Eventos como esse asilo do Snowden parecem mostrar que não. 

O interessante de tudo isso é ver a imagem atual dos países – e pode explicar muito as razões por trás da decisão de Moscou. Os EUA estão com a imagem muito arranhada: ataques com drones, indecisões na Síria, espionagem internacional e violação de privacidade por todos os lados… Mesmo iniciativas promissoras, como a possível retomada do processo de paz na Palestina, são eclipsadas por notícias negativas como a ameaça terrorista a embaixadas norte-americanas. E a Rússia não vai muito longe disso – o noticiário internacional não é muito favorável a eles também, indo das críticas às violações de direitos humanos à gozação pelas histórias de pescador (literalmente) de Vladmir Putin. 

Dando uma mão a Snowden, a Rússia parece querer mostrar uma imagem de defensora de liberdades, talvez com a intenção muito mais de mostrar uma imagem positiva do que de espezinhar os EUA mais uma vez. Enquanto isso, o nerd fujão que pôs o mundo em alvoroço passeia de taxi em algum lugar da Rússia…


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Obama, qual é a sua?

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A candidatura do democrata, em 2008, foi próxima de um fenômeno. Para o mundo, Obama representava o anti-Bush, uma alternativa para construção de uma nova relação dos Estados Unidos com os demais países. Entre outras, parecia representar uma mudança em direção da defesa dos direitos humanos e até da diminuição de arsenais nucleares. Com duas guerras na conta, esperava-se ainda a diminuição de engajamentos unilaterais.  

Um livro publicado recentemente chega a chamar os Estados Unidos agora de “a nação dispensável”, em contraposição àquela visão de que o país era “a nação indispensável” para o progresso, a prosperidade e a paz no mundo. Entre as razões para isto, estariam tanto os problemas internos que tiveram que ser colocados em primeiro plano, quanto o estabelecimento de prioridades externas equivocadas. No campo internacional, o erro teria sido voltar atenções para o leste asiático.  

Na África, por exemplo, a expectativa com relação à Obama era imensa. Agora, já no seu segundo mandato, o presidente norte-americano tenta avançar contra a frustração ao anunciar, durante sua visita ao continente, um plano de investimentos para expandir o acesso à energia em áreas rurais. Na Europa, os países da União Europeia negociam um acordo de livre-comércio com os Estados Unidos. Contudo, africanos e europeus não pareciam achar que eram ou se tornaram prioridades na política exterior comandadas por Hillary Clinton até há poucos meses e, atualmente, por John Kerry.  

Enquanto isto, segue a crise humanitária na Síria. Bill Clinton, figura representativa do partido republicana, criticou duramente a administração por não tomar nenhuma atitude. No final das contas, antes de qualquer ação formal (informalmente, já auxiliam os rebeldes sírios), quais seriam os objetivos e motivações para intervir? Seria derrubar Assad, seria impedir a continuidade da crise humanitária, seria forçar Assad a chegar a um acordo com sua oposição, seria tomar uma atitude para satisfazer os críticos internos ou, quem sabe, seria uma intervenção pensando o futuro do Oriente Médio? Por enquanto, nada.  

Além disto, há outras crises recentes. Em Guantánamo, a prisão que Obama queria fechar, 41 dos 166 prisioneiros estão em greve de fome e são objeto de alimentação forçada por sonda. Os ataques com aeronaves não tripuladas, os famosos drones, aumentaram em 500% no atual governo. Contudo, ainda não é tudo. A revelação que os Estados Unidos espionaram os europeus despertou a ira do velho continente. O Brasil foi alvo de procedimento similar. No caso europeu, a descoberta que a França usa métodos de rastreamento e monitoramento, em seu território, parecidos com os dos norte-americanos arrefeceu os ânimos. A “pequena” diferença é que Obama utiliza a tal coleta de dados em outros países igualmente.  

Na segunda-feira, no jornal da TV Cultura, o historiador Marco Antônio Villa fez uma curiosa indagação. E se fosse o Bush fazendo o que Obama faz? Provavelmente, seria um escândalo e, mais uma vez, todos o criticariam asperamente. O atual mandatário, quando candidato à presidência, chegou a discursar para 200 mil pessoas na Alemanha em 2008. Como uma coroação para a esperança, foi laureado com o prêmio Nobel da Paz em 2009. A expectativa, é bom lembrar, foi fruto do próprio presidente, que deu indícios e prometeu um engajamento diferente em relação ao mundo. Na questão da espionagem no Brasil, o governo norte-americano diz ser uma prática normal e adotada por outros países. Mas, se não é grave, por que então o desespero para prender o Snowden (incluindo a crise diplomática com a Bolívia)? Tem algo estranho aí.    

O Victor, no seu post desta semana, perguntava se a NSA anda lendo o que ele escreve por aqui. Bom, segundo uma brincadeira que surgiu, com certeza o Obama está vendo nossos emails. Segue o link para “Obama is checking your email”.


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A visita indesejada

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Vamos falar mais de Snowden. Afinal, o ex-nerd da CIA está movimentando mais as manchetes do noticiário internacional que os desastres naturais no sudeste asiático ou o Egito estar virando uma Argélia 2.0

A historia começa com o seu sumiço, fuga cinematográfica e asilo temporário numa sala de transição no aeroporto de Moscou. Um novo capítulo surgiu quando o presidente boliviano fez um gracejo e tocou o terror em países europeus que negaram seu espaço aéreo à comitiva de Evo por suspeitarem de que estivesse levando o ex-agente e resultou num furor diplomático dos países sul-americanos. O que podemos tirar desse caso? Acho que temos três pontos principais. 

Primeiro, Snowden vai conseguir asilo? Muito provavelmente, não. Sim, países sul-americanos concederam asilo, mas isso SE ele conseguir chegar lá. Com vistos cancelados, o único jeito de ele sair é voltando para casa para esperar a punição (e muita gente nos EUA acha que ele não foi culpado de traição), ou numa mirabolante fuga com luxos que, tenho certeza, nenhum dos países que oferecem o asilo podem fornecer. E de qualquer jeito, não se arriscariam a muito mais que cutucar a onça norte-americana com o discurso de sempre (e já se deram conta disso). Pelo jeito, ele vai reviver a história do iraniano Mehran Nasseri, que viveu quase 20 anos num terminal de Paris e inspirou aquele filme do Tom Hanks. 

Segundo, mesmo que consiga seu asilo, a que custo? Digamos que Snowden consiga chegar a um de seus asilos. Sejamos francos, ele vai ser aceito não por seu papel de paladino da liberdade, mas apenas para espezinhar os EUA. O ex-agente (diz que) fez o que fez como uma advertência aos seus cidadãos sobre as violações a liberdades individuais. E conseguir asilo em países como Venezuela ou Bolívia, onde existem muitas dúvidas sobre essas garantias, problemas com a imprensa e afins, seria um resultado no mínimo irônico, com Snowden salvo não pelo que defende, mas como um “desafio” aos EUA. Do mesmo modo, fugir para a China ou a Rússia (como pretendia no começo) seria constrangedor nesse aspecto. 

Terceiro, e talvez o ponto mais angustiante… essa situação toda de vigilância tem salvação? Por que vemos violações de direitos humanos aqui e acolá, minorias desrespeitadas… e quando vemos os países que seriam mais “corretos”, defensores de liberdades e ideais, eis que surgem essas denúncias. Mesmo os europeus, que ficaram escandalizados com a notícia de terem sido espionados pelos EUA, mantêm eles próprios mecanismos de controle de informação tão sofisticados quanto os norte-americanos. Quando pensamos que todo mundo está errado… quem vai estar certo? 

A liberdade individual ainda é um conceito viável nesse cenário? Enquanto isso, um idealista Snowden, que mesmo nos EUA tem uma imagem contraditória, paga o pato da hipocrisia internacional.


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