O novo espetáculo aéreo

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“FX”, em inglês, é uma sigla muitas vezes utilizada para designar “efeitos especiais” (“effects”). Até onde eu saiba, o F-X2 não tem nenhum significado em específico com relação à sigla, mas causou uma boa repercussão, assim como um verdadeiro espetáculo, há algumas semanas, quando o programa de revitalização da aviação de caça do Brasil foi finalmente concluído, com a opção pela compra dos aviões suecos. 

A história por trás dessa aquisição vai longe (são mais de dez anos), e creio que todos os leitores conheçam minimamente, ou tenham visto em algum momento na mídia, sobre como foi o processo de aquisição F-X2. Com a oferta de aviões norte-americanos, suecos e franceses, tivemos todo tipo de reviravolta. Em 2009, a opção favorita em diversos sentidos, a francesa, teria sido escolhida em definitivo apenas para que a informação fosse completamente retificada semanas depois. Desde então, e com a saída de Lula e Sarkozy de cena, a opção norte-americana, mais sólida, parecia a vencedora. Mas, no fim das contas, foi a zebra que levou o troféu, com a vitória do Gripen sueco. 

A análise das opções era bem simples, e boa parte das reportagens sobre o assunto se fia nisso. Escolher os caças franceses seria interessante pelo histórico de operação (usamos aviões da França desde os anos 70) e familiaridade com as partes. O avião americano seria o melhor em termos de uso comprovado e confiabilidade. E o sueco seria o que mais se adéqua às necessidades de desenvolvimento da indústria de defesa. Aqui está o diferencial da escolha. Muitas análises colocam um peso determinante na questão da espionagem norte-americana: há quem diga até que a escolha já tinha sido feita (estamos em ano de Copa e tudo mais), e que a compra dos Boeings foi cancelada após o estardalhaço das denúncias de Edward Snowden. 

Mas tenho lá minhas dúvidas se isso foi realmente um determinante. É óbvio que foi um fator de peso extremamente relevante, mas pode ter sido ao mesmo tempo uma “desculpa conveniente”, por assim dizer. Primeiro, a oferta sueca era a mais barata, e isso pesa demais em contexto de crescimento econômico limitado. Ademais,todas as ofertas propunham a instalação de linhas de montagem no país, mas apenas a oferta do caça sueco contemplava um item indispensável para o planejamento da defesa nacional, que é o desenvolvimento de tecnologia. Mais que a famigerada (e nebulosa) transferência de tecnologia de que Paris tanto falava, montar o caça sueco vai trazer (e desenvolver) know-how nacional, e isso é um dos pontos principais dos documentos de defesa nacional, principalmente a Estratégia Nacional de Defesa. Após as desavenças com Washington, não havia clima para manter um negócio dessa magnitude, e pode ter sido o “empurrão” necessário para uma opção que já era aventada mas não tinha o interesse político para ser concretizada. E isso já mudou, é claro – durante sua visita em Davos, nessa semana, a presidente Dilma teve tempo para, entre conversas com presidentes e primeiros-ministros, uma reunião com um dos chefões da SAAB. 

Nem tudo é perfeito. Tecnicamente os caças que existem são protótipos, e só virão pra valer prá lá de 2018. Enquanto isso, a Suécia vai mandar caças emprestados para “quebrar o galho”, especialmente nesse período de Copa e Olimpíadas. E o próprio aparelho tem seus críticos – sendo o mais leve dos concorrentes, teria pouca autonomia de voo (carrega menos combustível), além de menos carga útil. Mas no estado de urgência em que a aviação de caça da FAB se encontra, já havia passado (e muito) da hora de se fazer a escolha. A grande questão para o futuro é saber se a compra dos Gripen vai ter o efeito esperado, fazendo com que haja desenvolvimento industrial sensível para que possamos evitar que tenham o mesmo destino dos Mirage e F-5, revitalizados e empregados muito além de sua vida útil por falta de reposição.


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Esfriando a economia?

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O ano novo é uma época com extremos climáticos. No Brasil, por exemplo, estamos acostumados a um calor infernal e, principalmente no sudeste, chuvas que destroem propriedades e vidas (e que infelizmente não são novidade e viram notícia recorrente nessa época). Na Ásia é bem comum vermos tufões e tempestades tropicais. Mas a grande notícia vem dos EUA, com a massa de ar polar que trouxe as mais baixas temperaturas em décadas e praticamente paralisou boa parte do país nos últimos dias. 

O impacto é direto na vida das pessoas. Com temperaturas que em algumas localidades chegaram a 50 graus negativos, a pele humana sofre queimaduras e congela em poucos minutos, e o mero ato de sair ao ar livre vira um problema. Escolas sem aulas, muita gente não consegue chegar ao trabalho, comércio fechado. E claro que, além das perdas em vidas humanas, isso causa um impacto econômico. Uma seguradora afirma que quase 1/3 da economia norte-americana é “sensível” ao clima e um prolongamento dessa situação deve afetar de algum modo o crescimento da economia. São vendas que não acontecem (especialmente na época de liquidações pós-Natal), milhares de voos cancelados, além do impacto na agricultura. 

Há quem diga que o impacto é reduzido, as previsões são otimistas (ou indiferentes) quanto ao impacto do frio e houve até mesmo um aquecimento (com o perdão da ironia) de alguns setores, como o de calefação e utilidades domésticas (para remoção de neve do quintal, entre outras coisas). Mas não precisamos ir longe para ver o impacto econômico não apenas doméstico dessa friagem. Primeiro, a produção de petróleo está interrompida em alguns estados, e isso deve influenciar, por exemplo, o preço da gasolina – que aumentando nos EUA, adivinhe oque acontece no resto do mundo. Segundo, a decisão pela escolha da lavoura de 2014, por soja ou milho, decisão que vai depender em certa parte da temperatura e que vai afetar a produção de outros países – inclusive o Brasil. É claro que essa onda de frio não vai derrubar a economia americana (que já está em recuperação), mas serve de alerta, e não apenas para os EUA. No mundo globalizado, em que uma lavoura arruinada pelo clima pode trazer prejuízos para muitos países em um efeito dominó, qualquer geada por aqueles lados é motivo de atenção.


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A economia global em 2014

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Todo começo de ano é assim. Economistas e diversos especialistas, baseando-se em dados do ano que passou, tentam formular cenários e previsões para o desenvolvimento (ou a falta dele) econômico do ano que se inicia. Assim, a priori, escrever um texto aqui no blog sobre o tema talvez pareça trivial e corriqueiro. Mas 2014 poderá reservar algumas mudanças e surpresas para a economia como um todo. 

A primeira grande pergunta é se neste ano os governos vão manter ou aumentar ainda mais o controle sobre as economias nacionais. É a pedra do sapato da presidente Dilma Rousseff e do ministro Guido Mantega, por exemplo, pois nosso país não vem mostrando disposição em fomentar os investimentos internacionais. De fato, a crise gerada em 2008 trouxe uma série de modificações que foram vistas principalmente na Europa com as propostas de austeridade, sobretudo por parte da Alemanha e da França. Entretanto, mesmo “amenizando” os riscos, o Brasil e outros emergentes permanecem denotando um velho dilema econômico: o Estado deve intervir majoritariamente ou não na economia? 

Por falar em emergentes, a segunda grande questão toma corpo quando da indagação sobre o crescimento econômico de países como China, Índia, Brasil, Indonésia, Turquia e África do Sul no próximo ano. Tais países crescerão? Sim, mas com uma taxa de aproximadamente 5% em 2014. Obviamente, continuar expandindo as economias é algo positivo, mas o saldo não chegará aos índices observados em anos recentes. Os chineses que já apresentaram crescimento de até 12% do Produto Interno Bruto (PIB), reduziram essa margem para 7,8% em 2012 e diminuirão em 2014 conforme exposto acima. 

E a zona do Euro? Essa é uma pergunta que tende a ser não muito animadora, pois Alemanha e França, dois motores econômicos da Europa, apresentarão uma variação de PIB não muito diferente de 2013. A recuperação da moeda já pode ser observada. Todavia, continua frágil e essa característica se manterá no ano que se inicia. De novidade, a Grécia assumiu a presidência semestral da União Europeia e demandará maiores debates sobre crescimento, união bancária e emprego. Fato um tanto quanto simbólico, diga-se de passagem, mas nada melhor do que um pouco de manobra política para valorizar preceitos econômicos. 

Outra indagação está presente em um ator importante e muito conhecido no passado: o Japão. Marcado por quinze anos de deflação, o país apresentou em 2013 um aumento de 30% no preço dos imóveis e de 50% no índice Nikkei. Sua indústria vem crescendo, acompanhada pelo PIB. Boa novidade para eles, mas nada que o retire do atual status de “primo pequeno” da China em termos econômicos. 

Em meio a tantas dúvidas e perguntas, somente os Estados Unidos aparecem como parcial certeza. Com as recentes descobertas energéticas em seu território – principalmente o gás de xisto – o país começa o ano com excelentes chances de crescer economicamente para balancear a maré de falhas de política externa evidenciadas no ano passado. 

Teremos um 2014 marcado por dúvidas e questionamentos. Países avançados e emergentes, zona do euro, maré asiática e outras tantas designações terão que se reajustar. Afinal, o que está em jogo não são somente números, mas sim pessoas e populações que precisam de boas políticas governamentais. Claramente, não nos esqueçamos de que hoje existem variados atores internacionais capazes de influenciar diretamente os rumos da economia global. Contudo, grande parcela das diretrizes, feliz ou infelizmente, está nas mãos dos governos nacionais. E isso é uma afirmação, não um questionamento.


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Quem vai ficar com Snowden?

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Já comentamos anteriormente que Edward Snowden é como aquele presente que ninguém quer ganhar – ele fez revelações bombásticas que tiveram muito impacto na política internacional, mas quando ele precisar de ajuda, não haverá muitas mãos amigas dispostas a tirá-lo do sufoco. Em junho, ele conseguiu se refugiar na Rússia, e ganhou um ano para ficar por lá. Toda aquela discussão sobre possibilidades de asilo ficou para um segundo momento – por enquanto. Pois tão logo termine o prazo, Moscou não parece tão inclinada a se indispor com Washington novamente e Snowden vai precisar se virar. 

É nesse contexto que surgiu a tal carta aberta aos brasileiros, de sua autoria, revelada ontem. Pra quem não viu, Snowden fala aos brasileiros que poderia ajudar nas investigações sobre as violações de privacidade da NSA, impedido apenas por que enquanto não estiver em um asilo definitivo sempre estará cercado. Para bom entendedor, meia palavra basta, e apesar de não expressar o desejo de asilo no Brasil em momento algum (e dessa intenção ser negada pelos seus interlocutores), a intenção é bem clara. 

Buscar refúgio no Brasil não seria má ideia, se até carrascos nazistas conseguiram se esconder por aqui, quanto mais uma pessoa bem-intencionada (até onde se sabe) como Snowden. A chave disso tudo é que Snowden está enrascado – os países ocidentais, mesmo que ultrajados com a espionagem norte-americana, jamais vão conceder asilo pelo risco que correm de sofrer retaliação dura do Tio Sam. Mesmo a Venezuela, que em outros tempos aventava essa possibilidade, não tem mais a figura de Chavez (pelo menos, pessoalmente) para espezinhar os EUA e certamente não iria querer enfurecer seu maior comprador de petróleo em tempos de crise econômica. Restariam os países que são declaradamente “contra” os EUA, como um Irã ou Coreia do Norte, mas pelo fato de Snowden ter feito o que fez pelo bem da liberdade de informação e proteção de direitos individuais, essa possibilidade parece bastante improvável, pra não dizer ridícula. 

Uma boa aposta seria justamente o Brasil. Foi o país que mais mostrou indignação com a espionagem (a ponto de gerar um mal-estar na Assembleia Geral da ONU), está junto da Alemanha em uma possível revisão da governança da internet, e tem todo um histórico de proteção a refugiados. Já existem movimentações para aceitar essa “proposta”. A grande dúvida é se o Brasil poderia realmente aceitar a vinda de um procurado com embasamento relativamente sólido em sua acusação, e arrumar mais uma briga com Washington de lambuja. Planejar sua política externa com a previsão de decadência da potência americana (como o Brasil andou fazendo, e equivocadamente) é uma coisa, dar abrigo a um dos homens mais procurados dos EUA e ensejar uma crise diplomática e política severa, outra bem diferente. A única certeza disso tudo, apesar de ter feito um grande serviço ao mundo (dependendo do ponto de vista), Snowden está frito. E pode levar um país junto dele.


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Um caminho para o futuro

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Está havendo muito auê por conta do acordo provisório entre EUA e Irã sobre o programa nuclear deste, mas será mesmo um daqueles momentos de inflexão histórica? Vamos por partes. Pra quem vive embaixo de uma pedra ou ficou longe dos jornais na última semana, os dois países firmaram um acordo em que o Irã se compromete a cumprir algumas exigências (que praticamente paralisam seu programa nuclear) em troca do alívio de algumas das sanções econômicas que castigam o país por conta dessa aventura. 

Vendo por cima parece algo muito bom, mas tem muitos problemas por trás. Não foi algo feito de uma hora para a outra – inclusive diz-se que as negociações “secretas” começaram ainda na época de Ahmadinejad. Apesar de ser considerada uma vitória para a estabilização da região, a maioria dos países da região (incluindo Israel e Arábia Saudita) são contra, assim como a maioria do Congresso nos EUA e a Guarda Revolucionária do Irã. E na prática os países nem retomaram as relações oficiais (rompidas em 1979), estão apenas mantendo um canal de diálogo, e se o Irã pisar na bola as sanções voltam e ainda piores. Na verdade, parece surpreendente como algo assim tenha saído, para começo de conversa, e isso se deve principalmente ao impacto que as sanções tiveram na economia iraniana. Mesmo a eleição de um moderado como Rohani não teria tanto impacto para isso quanto massas de desempregados pelas ruas. 

O que isso pode mudar na geopolítica da região? Vamos lembrar que até a queda de Saddam Hussein, os três grandes polos de poder no Oriente Médio eram Arábia Saudita, Iraque e Irã. Os três inimigos uns dos outros, e se contrabalanceando. A queda de Saddam resultou em um governo xiita que se alinhou a Teerã e a polarização rompeu o equilíbrio regional, reduzindo as alianças a amigos de Irã ou Arábia Saudita/países do Golfo. Mas como tudo no Oriente Médio é complicado, as questões religiosas e étnicas podem colocar aliados em lados opostos e aproximar inimigos. A questão do terrorismo pode ser a grande chave para entender o futuro, já que o movimento salafita (presente na Líbia e no Iraque, principalmente) é inimigo de praticamente todo mundo por lá, de Assad à Arábia Saudita. 

Uma aproximação com o Irã, se der certo, pode mudar completamente o rumo da política regional. Claro que Israel e os sauditas vão espernear, mas com os favores dos EUA, uma possibilidade de relação aceitável entre Washington e Teerã pode ter um impacto muito positivo em longo prazo, seja por evitar um conflito armado na região, seja por acabar com o poder de barganha e jogo duplo das monarquias do Golfo. Ainda tem muita água para rolar nos próximos seis meses (a data de validade do acordo), mas vão ser meses incrivelmente agitados na política mundial. Dependendo do resultado, Obama pode finalmente deixar sua marca na história e fazer valer aquele Nobel da Paz.


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O grampo que une?

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Se informação é poder, hoje poderíamos afirmar que Edward Snowden lidera o ranking internacional de poderosos do mundo, que sabem o quanto valem seus trunfos e estudam as melhores estratégias para apresenta-los. E Snowden está conseguindo fazer mais barulho do que qualquer um jamais imaginou… a verdade é que o assunto da espionagem que antes “passava batido” por todos os grandes interlocutores mundiais veio a foco recentemente e, para azar de Obama, parece estar longe de sair dos holofotes.

A partir das informações vazadas por ele com a ajuda do jornalista Greenwald, o movimento questionador – impulsionado por Dilma após as revelações de espionagem a nível pessoal e estratégico no Brasil – está agora ecoando mais fortemente em território europeu. A revelação de possíveis escutas a celulares e grampos telefônicos a líderes de mais de 35 países geraram nítido desconforto nas relações com Estados Unidos e se tornaram o centro das atenções da Cúpula da União Europeia em Bruxelas na última semana. 

Merkel exigiu inclusive explicações por telefone por parte de Obama, o qual nega os feitos e se justifica como pode. Aliás, situação complicada de qualquer forma para ele já que, por um lado, se ele tinha conhecimento das operações da Agência de Segurança Nacional (NSA), as negativas e alegações de insinuação constituem uma grande farsa. Por outro, se efetivamente a Casa Branca não tivesse acesso a essas informações, trata-se de um lapso de quase cinco anos do presidente em um dos temas mais caros ao país. A primeira opção parece muito mais plausível.

Depois da Alemanha e da França, a última denúncia na Europa envolve a espionagem, por parte da NSA, de 60 milhões de ligações telefônicas na Espanha entre dezembro de 2012 e janeiro de 2013 (!). Uma bomba atrás da outra, com um Snowden que alerta a que veio e que tem em suas mãos informação e informação privilegiada – sinônimo de poder para alterar o status quo internacional.

É claro que nenhuma das grandes potências é totalmente neutra nesta história e também tratam atenciosamente deste tema na agenda e os aliados dos Estados Unidos que se cuidem, sendo alertados pelo próprio governo dos Estados Unidos sobre isso.

Em meio a um debate que conta com jargões variando entre “restabelecimento da confiança” e “necessidade de averiguar denúncias”, as nações “amigas” dos Estados Unidos se veem em um momento delicado de gerenciamento das relações. Em momento de descontração na reunião europeia, Merkel chegou a afirmar ao belga presidente do Conselho Europeu que “sermos todos grampeados nos une” (!). Será? Talvez o próprio laço que sele esta união seja estadunidense sem que eles saibam… 


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Fala muito!

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A crítica sempre esteve ligada, de certo modo, ao anonimato. O medo de rejeição, e principalmente o temor de represálias leva os insatisfeitos desde muito tempo atrás a se exporem ocultando sua identidade. Se a crítica é aceita pela coletividade, passa a fazer parte desse fenômeno de massa – se não, não causa mal algum ao autor. Mas e se for descoberto? 

Esse fenômeno é potencializado hoje, já que a vida em rede já faz parte da vida política contemporânea. Redes sociais, fóruns de discussão e redes de telecomunicações têm um impacto formidável na opinião pública. A eficiência disso, é claro, depende de quem está envolvido, e de muitos outros fatores. Basta lembrar da “revolução” de julho no Brasil, que saiu do Facebook para durar umas… duas semanas, e desaparecer quase que por completo, mostrando apenas resquícios desse ativismo em protestos pontuais (apesar de recorrentes). 

Isso tudo vem da atividade em grupo, mas resta algum papel para o indivíduo? A noção de uma “massa” vem justamente do fato de que se faz parte de uma coletividade, com interesses que estão acima dos pessoais, e a noção do anonimato é fundamental em alguns casos. É interessante notar como o anonimato volta a ter importância nesse contexto, já que é um ambiente propício a essa condição. 

 Em um caso recente, um funcionário da Casa Branca foi demitido por manter uma conta anônima em que espinafrava membros do governo. Descoberto, foi demitido e lhe resta a infâmia. Enquanto isso, no Brasil, contas “fakes” (falsas, com pessoas imitando personalidades) fazem sucesso, e uma delas imita a presidente Dilma por meio de uma sátira bem-humorada, sendo que o humorista criador da conta até já esteve em conversa pessoalmente com a “vítima”. Descoberto, não foi arrasado, e sim premiado pelo uso “inteligente” das redes sociais. 

Vê-se que depende muito de contexto, é claro, e do uso que é dado a cada ferramenta, mas nem mesmo o anonimato serve de blindagem, já que pode ser revertido a qualquer momento nessa nuvem de informação.


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Calcanhar de Aquiles estadunidense

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Pra quem não é da área de economia, entender o impacto da discussão sobre o aumento do teto da dívida pública dos Estados Unidos não é nada simples. As variáveis são muitas e os jargões econômicos muitas vezes não são suficientemente autoexplicativos. A questão é que, em se tratando de Estados Unidos, um assunto predominantemente interno como esse revela o calcanhar de Aquiles de Obama e possui, na verdade, implicações internacionais diretas no mundo inteiro.

Manchetes anunciam a possibilidade de que o mundo presencie o “primeiro calote da história” do país, já que o Tesouro norte-americano ficará sem recursos para cumprir seus pagamentos na falta de aprovação de um acordo possibilitando a tomada de recursos emprestados do mercado financeiro – impasse que persiste no governo desde maio, quando foi alcançado o limite da dívida atual. Sobrevivendo com recursos extraordinários para honrar compromissos, há quase duas semanas vemos um país com o governo paralisado (bem como outras instituições), já que o dinheiro se esgota e o prazo para que uma solução seja anunciada se aproxima: 17 de outubro, quinta-feira.

Duas considerações são necessárias para (começar a) entender o impasse. Em primeiro lugar, Obama é democrata e uma de suas principais bandeiras na campanha eleitoral era (e ainda é) a reforma da saúde, incluindo quase 95% da população sem planos de saúde em uma espécie de “SUS compulsório” [Reveja post de 2010 no blog a respeito aqui]. Os republicanos, oposição já naturalmente, opõem-se fortemente ao que foi apelidado de “Obamacare”, argumentando ser esta lei uma afronta ao princípio de livre arbítrio (!), obrigando os cidadãos a terem um plano de saúde.

Em um país do porte dos Estados Unidos, perceber a inexistência de um sistema público de saúde e a carência da maior parte da população em atendimento gratuito revela uma situação caótica e que comprovadamente se tornou um dos temas prioritários da gestão de Obama. Contudo, e aqui vai a segunda consideração importante, os dois partidos assumem posturas com frequência intransigentes e, querendo ou não, precisam negociar, já que o comando do Congresso é dividido, sendo que os republicanos representam maioria na Câmara e os democratas no Senado.

Um Obama que não é dotado de poder para desconsiderar estas instâncias se vê com o calcanhar atado diante de negociações atravancadas: por um lado, republicanos querendo a todo custo ter esse aumento do teto da dívida vinculado a grandes cortes no orçamento (incluindo explicitamente o adiamento ou a eliminação do financiamento à Saúde previsto na lei de reforma!). Por outro lado, democratas insistindo em cortes menores para garantir a manutenção dos benefícios sociais à população, com pouca margem de manobra para negociar.

Tendo rejeitado a última proposta republicana de elevação do teto da dívida apenas temporariamente, Obama arrisca (ou aposta) na busca de uma solução duradoura antes do prazo estipulado, já, contudo, sofrendo com as consequências econômicas da falta de aprovação do novo orçamento, revivendo a mesma situação de 2011, quando a polêmica acerca da reforma da saúde ainda era recente e predominava em qualquer debate.

Sensacionalismos à parte, o desfecho desta novela estadunidense não tardará a ser desenhado e possivelmente trará à tona um certo nível de diálogo que evitará, na última hora, o calote, evitando impactos econômicos estrondosos no mundo inteiro, especialmente nos países em desenvolvimento. Entretanto, não deixa de ser impressionante o impacto que o tema da reforma da saúde proporciona nos interesses políticos do país, e a forma como tais interesses afetam diretamente o desenrolar econômico deste gigante. Gigante cuja principal fraqueza parece se mostrar, justamente, de dentro para fora… 


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Sobre conversas telefônicas e mudanças

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Vivemos momentos históricos para as relações internacionais contemporâneas. Vários acontecimentos recentes têm impressionado porque, apesar de constituírem polêmicas antigas, poucos imaginavam o rumo que estes temas tomaram nos últimos dias.

Destacadamente, assunto já tratado aqui no blog, vimos a presidenta brasileira questionar a hegemonia estadunidense diante das revelações de espionagem em níveis altíssimos e “adiar” uma visita de Estado ao presidente Obama, mesmo após contato telefônico deste para tentar esclarecer a situação.

um outro contato telefônico de Obama trouxe esperança de renovação em relações bilaterais tensas há décadas. Trata-se da relação Estados Unidos-Irã. Com a chegada do novo presidente iraniano Hassan Rouhani, já comentávamos no blog a impressão de que se visualizava uma porta inédita de diálogo entre Teerã e a Casa Branca a respeito do sensível debate nuclear.

Durante a Assembleia Geral da ONU em Nova York, percebeu-se já um tom mais amigável entre os líderes, apesar de as posições manterem-se ainda bem marcadas, e o telefonema de 15 minutos ocorrido na última sexta-feira fechou a semana trazendo um novo ar às relações entre os dois países.

Depois de 34 anos, os líderes de Estados Unidos e Irã conversaram diretamente. Momento histórico. É claro que não se pode esperar que três décadas de tensão se resolvam em três dias, mas tampouco pode ser menosprezada a importância desta conversa.

Subordinado ao líder supremo do regime islâmico, o aiatolá Ali Khamenei, Rouhani já se destaca na chefia do governo pela autonomia e disposição em quebrar o estigma de líder inacessível ao diálogo com o Ocidente.

Este posicionamento, contudo, ainda possui receptividade diversa no próprio Irã. Aclamado pelos jovens e por aqueles que acreditam na via do diálogo, Rouhani é ao mesmo tempo hostilizado por aqueles que se recusam em aceitar a “submissão” ao Ocidente, representado notadamente pelo gigante norte-americano.

Ousado, Rouhani já se configura como um líder que merece destaque. A possibilidade de uma nova era de diálogo entre Estados Unidos e Irã reacende uma esperança há muito perdida. Apenas com os resultados efetivos das negociações é que poderemos avaliar o real impacto desta conversa telefônica, mas que ela por si só já representa um avanço, isso não se pode negar. 


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O poder do discurso

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Ontem começou a Assembleia Geral das Nações Unidas. A data não é ao acaso – as reuniões ordinárias sempre começam em setembro, todo ano. Antes da reunião em si, os países podem fazer um discurso inicial, e aqui tem existe outra tradição interessante – a de que o Brasil sempre é o primeiro a fazê-lo. 

Esses discursos, mais do que apresentarem a “posição” do país, são um momento importante e simbólico. Quem não se lembra de Kadafi rasgando a carta da ONU? Ou Chavez falando do cheiro de enxofre após o discurso do Bush filho? Além dos momentos mais pitorescos, é claro que outros são mais impactantes, inclusive o que começou essa tradição de o Brasil inaugurar as sessões: logo na segunda reunião da AG (que foi extraordinária), em 1947, aquela que definiu a formação do Estado de Israel, o representante brasileiro Osvaldo Aranha foi um dos responsáveis pela defesa (e sucesso) da proposta, e como o primeiro orador inaugurou essa tradição. 

Recentemente, o Brasil vem sendo representado pelo seu chefe de Estado, e o discurso acaba tendo uma importância relativa para entender aspectos de sua política externa. Lula por exemplo teve seu grande momento internacional quando trouxe o tema da pobreza para o debate na AG. Mesmo Dilma já tinha feito algo parecido quando trouxe o debate da “Responsabilidade ao Proteger”, que estava em voga na época por causa da invasão da Líbia, e que hoje está meio esquecido, mas teria tudo para ser a bola da vez com a questão da Síria.

Com isso chegamos ao discurso de ontem. Dilma fez o que se esperava: reclamou da espionagem dos EUA, condenou isso como violação do Direito Internacional e propôs uma regulamentação para a atividade no “cyber espaço” para que não seja usado como arma de guerra. A discussão é polêmica, a rede é uma terra de ninguém, mas se temos convenções até para tornar o espaço sideral uma área sem conflitos, por que não? Não é despropositado, e se vai render alguma coisa em longo prazo, é difícil saber, mas o discurso tem um peso e entra pra história pessoal da presidente, além de ter tido um grande destaque na imprensa internacional. 

Mas talvez os discursos mais interessantes (e esperados) tenham sido dos EUA e do Irã. A perspectiva de uma negociação é bem plausível agora, já que o novo presidente, Hassan Rouhani, parece bem mais flexível que Ahmadinejad. O momento seria de cautela, mas há uma expectativa positiva. Por outro lado, o discurso dos EUA é mais pessimista, com um Obama abatido e com inimigos por todos os lados, e a imagem de um país indeciso quanto a seu papel de potência. As críticas recentes de Putin a essa “excepcionalidade” parecem coadunar com a “crise de identidade” dos EUA, que quer manter sua posição no mundo mas não sabe exatamente como.

O fundamental disso tudo é que os atores principais parecem não mudar. Lideranças pontuais ou novidades (como o egípcio Morsy, que no ano passado era a vedete da AG e hoje nem se sabe onde está preso) surgem todo ano, mas no fim das contas o peso maior recai sobre os países mais tradicionais. E o Brasil, bem ou mal, faz parte desse grupo.


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