Guerra improvável, paz impossível

Por

Certa feita, o sociólogo francês Raymond Aron sentenciou “Guerra improvável, paz impossível”, frase esta que resumia a Guerra Fria. A improbabilidade da guerra pela elevada capacidade de destruição do mundo, em decorrência das armas nucleares, e a impossibilidade da paz por causa do temor e apreensão que tais armas geravam. Todavia, ecos de Aron ainda percorrem o sistema internacional em meio ao lirismo de Obama de um mundo livre de armas e a necessidade vital norte-americana de prosseguir com a “guerra ao terror”, reiterada na estratégia nuclear lançada na semana passada. Nem guerra, nem paz com os terroristas.

Uma das lições mais custosas da história, oriunda do ultrapassado conflito bipolar, é que quanto maior os arsenais nucleares, menor a perspectiva do seu uso. Tornar o mundo livre dos mesmos converteu-se agora no desafio do presente e na esperança do futuro. Em Praga, no ano passado, Obama lançou as sementes do pensamento em prol do desarmamento. Na semana passada, acordou com a Rússia a redução de 1.550 ogivas nucleares, e nesta segunda, a Ucrânia se comprometeu a se desfazer de material atômico nos próximos dois anos durante o evento mais pop do momento: a Cúpula de Segurança Nuclear, que se realiza em Washington sob a iniciativa do presidente norte-americano.

Participam do evento líderes de 47 países, com a ambição de aprofundar os esforços contra o terrorismo, ou melhor, com o objetivo de assegurar que armas nucleares não caiam nas mãos de terroristas. De início, a pergunta que não quer calar: segurança nuclear está umbilicalmente ligada ao terrorismo? Em outras palavras, é mais importante tomar medidas de não-proliferação e desarmamento ou tomar medidas contra a posse de armamentos nucleares por facções terroristas? É a existência de armas nucleares que cria a expectativa de posse por parte de terroristas, e não uma vontade genuína por parte dos últimos de desenvolvê-las espontaneamente. Além do mais, nos registros da história, não há nenhum ataque nuclear conduzido por terroristas; no máximo, chegou-se ao emprego de armas químicas, como o episódio do gás sarin no metrô de Tóquio, em 1995.

Para além da questão do terrorismo, os holofotes da Cúpula voltam-se para o Irã. Tudo bem que não o convidaram para a reunião, assim como não convidaram a Coréia do Norte. A Ahmadinejad, só restou reclamar e cobrar ações da ONU, sobretudo uma investigação sobre as invasões ao Afeganistão e Iraque, os atentados de 11/09 – considerado por ele uma “grande mentira”– e o apoio ao terrorismo fornecido pelos Estados Unidos e OTAN. Enquanto isso, em Washington, 47 países definem a situação iraniana. Brasil e Turquia são contrários à adoção de novas sanções e optam pela negociação, já a China deu indícios de que apoiaria a posição norte-americana, mas hoje voltou atrás. A Alemanha cobra rapidez para pôr termo ao caso iraniano.

Estranhamente, Israel – país detentor de um vasto arsenal nuclear – não compareceu à reunião, já que está desgostosa com os Estados Unidos e sua posição contrária ao avanço dos assentamentos. Mas, do lado norte-americano, talvez as incoerências sejam mais gritantes. O país mal acabou de lançar sua nova estratégia nuclear, elevando o terrorismo ao topo de suas prioridades de segurança, e quer que o mundo faça o mesmo, como se vigesse uma verticalidade ampliada dos idos tempos da Guerra Fria nessa área sensível, agora com alcance global e não mais hemisférico.

Pior do que isso, os Estados Unidos não se comprometeram a não fazer o uso de armas nucleares; eles as usarão em circunstâncias extremas. E aí, Obama, será que de fato os “EUA estarão mais protegidos e o mundo será mais seguro”? Seria “um dia de progressos sem precedentes”? Ou estaríamos diante de uma velha fórmula norte-americana, acrescida de outras potências nucleares, que inspirou o TNP, “quem tem, tem, e quem não tem não pode ter”? Segurança é uma imposição e é sempre desarmar e culpar primeiro os outros – Irã, terrorismo. Permanecem as armas nucleares no limiar entre a improbabilidade da guerra e a impossibilidade da paz.

***

Um pouco de fábula. Em 1932, durante uma Conferência de Desarmamento da Liga das Nações, o delegado espanhol Madariaga pediu permissão para narrar a seguinte fábula: “Os animais se reuniram para se desarmar. O leão, olhando de lado para a águia disse: ‘as asas têm de ser abolidas’. A águia, olhando para o touro, declarou: ‘os chifres têm de ser abolidos’. O touro, olhando para o tigre, disse: ‘as patas, e especialmente as garras, têm de ser abolidas’. O urso, por sua vez, disse: ‘todas as armas têm de ser abolidas; tudo o que é preciso é um abraço universal’.”

Que as comparações sejam bem-vindas!


Categorias: Defesa, Estados Unidos, Oriente Médio e Mundo Islâmico, Paz, Segurança


Dito e Feito! A biribinha brasileira

Por

O assunto das possíveis retaliações brasileiras aos Estados Unidos por conta do contencioso do algodão voltaram essa semana aos noticiários.

O mais engraçado é que já vínhamos tratando do assunto aqui no blog desde o ano passado (veja aqui, aqui e aqui) e nossa posição foi sempre a mesma: dificilmente o Brasil vai sobretaxar os produtos americanos. Está usando a vitória na OMC para pressionar os Estados Unidos em busca de um acordo.

No último post sobre o assunto, retomamos essa visão. O Brasil havia anunciado a lista “final” com os itens que seriam taxados, mas a decisão só entraria em vigor 30 dias após a publicação.

O recado foi claro: não queremos publicar essa lista, vocês têm 30 dias para fecharmos um acordo.

Só que a medida entraria em vigor nesta quarta-feira e o nosso Brasil Varonil decidiu adiar a retaliação.

Mas, afinal, essa ‘arma’ em que se constituiu a decisão da OMC para um possível acordo com os Estados Unidos na área comercial é forte? É uma biribinha ou uma bomba nuclear?

Pessoalmente, acredito que não passe de uma biribinha muito mal usada.

Em primeiro lugar, porque ficou muito evidente, ainda mais agora que, após um bafafá enorme e até a publicação por parte do Estado de uma lista e a volta atrás, é muito mais do que evidente que o Brasil não tem interesse em usar o direito que tem.

Se eles sabem que não estamos dispostos a usar esse direito (possivelmente por conta do medo de retaliação cruzada e do peso dos EUA), porque iriam ter medo disso e fechar um acordo realmente bom para o Brasil?

O máximo que vai sair disso é algum protocolo de intenções.

Além disso, o lobby do setor agrícola americano é MUITO grande. Não se resolve isso em 30 dias e com uma listinha de um país atrasado de terceiro mundo (é assim que eles nos vêem).

Agora, qual nosso real problema? A ausência de um acordo comercial com os Estados Unidos. O Brasil não tem nenhum acordo com o país que simplesmente representa o maior mercado comprador do mundo. E não quer ter. E será muito difícil, mesmo que queira, por conta das restrições do MERCOSUL (O Brasil só pode, de acordo com as regras, ter acordos comerciais negociados pelo bloco).

Entrar a fundo nesse assunto fica pra outro post, mas tive a oportunidade de questionar um Ministro de Estado sobre isso, confiram a postagem aqui.

O fato é que o Brasil, mais uma vez, parece não saber mexer as peças do Xadrez da Política


Categorias: Brasil, Estados Unidos, Organizações Internacionais


Inocentes em Guantánamo?

Por

Inocência. Este pode ser (ou ter sido, pelo menos) o status de boa parte daqueles que foram presos em Guantánamo durante os anos de “luta anti-terrorista” promovida por George W. Bush (foto). Uma impactante declaração efetuada ontem pelo jornal britânico The Times traz novamente à pauta internacional a polêmica envolvendo o governo dos Estados Unidos e a prisão de Guantánamo.

Lawrence Wilkerson, assessor do ex-secretário de Estado norte-americano Colin Powell, foi o responsável pelo primeiro testemunho escrito de um alto funcionário da administração do antigo governo demonstrando a incerteza quanto ao status de “terrorista” de numerosos detidos na base naval à época (cronologia aqui). Este testemunho constitui parte de um processo contra a administração norte-americana por torturas.

Como pode ser lido aqui e também aqui com maior detalhamento, Wilkerson afirmou que o governo possuía informações certas de que a maioria dos 742 detidos enviados em 2002 para a prisão eram inocentes. Sua declaração envolve, ainda, a grave denúncia de que a maioria destes, então, inocentes foi “vendida” aos EUA por afegãos e paquistaneses ao custo de 5 mil dólares cada um. No mínimo polêmico, não?

Aliás, polêmica é o que não falta quando se trata de Guantánamo. Desde a criação da base naval norte-americana nesse território cubano (perpetuamente arrendado pelos EUA), a pressão pela transparência a respeito dos procedimentos desenvolvidos internamente é grande. As constantes suspeitas (e denúncias) a respeito de práticas de conduta norte-americana inadequadas no que tange os Direitos Humanos em geral constituíram fator determinante para a baixa popularidade de Bush ao final de seu mandato.

Assim que assumiu o poder, então, Obama prontamente assinou a ordem de fechamento da penitenciária, o que representou um ato simbólico de drástica ruptura com a política do governo anterior. O prazo assumido para a efetivação de tal fechamento foi de um ano a partir de então. (…) Sim, o prazo já expirou.

Aquele ímpeto inicial enfrentou a oposição generalizada dos legisladores norte-americanos quanto a aceitar a transferência dos presos para os Estados Unidos. É importante notar que Mike Hammer, porta-voz do Conselho Nacional de Segurança dos EUA, reiterou recentemente que “o presidente está comprometido com o fechamento de Guantánamo”, mas não existe prazo certo para a efetivação de tal proposta…

Enquanto isso, alguns países vêm acolhendo prisioneiros da base naval, distribuindo assim, de certa forma, a responsabilidade por estes. Geórgia e Suíça, por exemplo, podem ser citados dentre os vários países que se dispuseram a receber estes prisioneiros.

Acompanhemos, pois, o desenrolar dos acontecimentos a respeito de Guantánamo, cujo fechamento foi uma das principais promessas eleitorais de Obama. “Yes, we can”? Bom, ao menos é o que se espera a esse respeito, especialmente em face de acusações tão graves como tais veiculadas pela mídia internacional nos últimos dias.


Categorias: Defesa, Estados Unidos, Paz, Polêmica, Segurança


Entre o comércio e as armas

Por

Um resumo dos movimentos das últimas duas semanas da política externa brasileira conduz a basicamente dois eixos: o comércio e as armas. Por um lado, o Brasil trava um litígio na OMC com os Estados Unidos acerca do algodão e sofre ameaças de boicote das importações chinesas do minério de ferro, por outro, mais do que lutar pela proscrição de armas nucleares, luta pelo desarmamento.

Em específico, no que tange ao comércio, o Brasil entrou em desacordo com os Estados Unidos porque o governo norte-americano mantém subsídios e garantias considerados ilegais, pela OMC, a produtores de algodão. Isto prejudica os produtores nacionais, já que, por não receberem os mesmos subsídios, exportam o produto em desvantagem no comércio internacional. Com relação à China, a Cisa (Associação de Ferro e Aço da China) propôs que seus membros boicotassem às três grandes produtoras mundiais do minério de ferro – uma delas é a Vale –, em decorrência de possíveis aumentos de até 90%. O boicote duraria dois meses, tempo que os atuais estoques chineses podem abastecer a demanda interna. Esta questão ainda perdura.

No litígio com os norte-americanos, a OMC já autorizou o governo brasileiro a adotar medidas de retaliação sobre bens e sobre propriedade intelectual. O chanceler Celso Amorim cobrou uma resposta concreta por parte dos Estados Unidos. Este, por sua vez, fez uma proposta: ofereceu criar um fundo para o setor brasileiro de algodão, suspender subsídios e reconhecer o Estado de Santa Catarina como uma área livre da febre aftosa. Por causa dessa proposta, nosso país resolveu adiar a retaliação por 60 dias, até que se possa chegar a um acordo definitivo. Estamos confrontando os norte-americanos? Nem um pouco.

Agora é a vez das armas. Recentemente, muito se tem comentado acerca das aquisições venezuelanas de armamento russo – a questão já foi bem apontada pelo Raphael em outro post. Ora, a Venezuela está se armando cada vez mais, isto não ofereceria perigo ao Brasil? Não deveria governo brasileiro se pronunciar, intervir? Duas ponderações de cada lado precisam ser levantadas. Do lado venezuelano, sua raiz histórica impeliu o país em sua busca pela liderança bolivariana assentada na riqueza mítica do petróleo (hoje a economia não vai lá tão bem), combinação essa que pressupunha a grandeza. Chavez retoma esse pensamento, acrescido à necessidade pragmática de se defender do narcotráfico. Do lado brasileiro, nosso acumulado diplomático nos ensinou a respeitar os princípios de não-intervenção e de respeito à soberania.

E o Irã, o pomo de discórdia da política externa do Brasil? O governo iraniano provoca, chegando a dizer que sancionar as exportações de petróleo é piada, e o governo brasileiro mantém a postura de negociação, tão contestada. Muitos falam que estamos desafiando os Estados Unidos, como fizemos em Honduras. Mera falácia. Em política internacional, uma posição contrária não é necessariamente uma posição de afronta. Não estamos afrontando o governo norte-americano, mas seguindo estritamente um dos princípios mais consagrados da nossa inteligência diplomática: o princípio da autonomia decisória. Um país que aspira grandeza e ser um importante player no cenário internacional, tem que decidir por si só os seus passos no mundo – em respeito aos demais, é bem verdade.

O comércio e as armas não representam uma guinada em nossa política externa. No ambiente internacional, nosso barco continua a ser remado pelos princípios de nossa história com vistas ao destino de potência imaginado em nossos sonhos políticos. Sonhos esses que ganham inclusive o respaldo de acadêmicos renomados, com obras publicadas entre 1970 e o início dos anos 1980, como Martin Wight e Jean-Baptiste Duroselle.


Categorias: Américas, Ásia e Oceania, Brasil, Estados Unidos, Política e Política Externa


Passos de Curupira

Por

Na semana passada, foi veiculada notícia do envio de uma carta da blogueira cubana Yoani Sánchez diretamente ao presidente Lula. Nesta, expressava o desejo de ter o direito inalienável ao ser humano de ir e vir, e roga ao brasileiro que intervenha em seu favor ante ao impassível governo cubano, que insiste em não deixá-la sair da ilha. A assessoria presidencial nega que a carta tenha chegado. Mas este é apenas um capítulo adicional àquelas que podemos chamar de “relações perigosas” do Brasil.

O tema está em voga e já tomou espaço em numerosos posts antes desse. O apoio silencioso a um regime cubano totalitário e violador de direitos humanos, ignorando a morte e suplício de prisioneiros políticos; a estranha obsessão com a reabilitação dada ao fracasso do regime iraniano perante a comunidade internacional; os laços estreitos com um regime que impede opositores de sair do país e fecha canais de televisão sem razão aparente (ou pior, com razões inadvertidamente autoritárias). Isso entre muitos outros fatos conhecidos. O que se pode pensar dessa situação?

Parafraseando nosso mandatário, nunca antes na história desse país o Brasil esteve tão em evidência no cenário internacional. Muito se deve ao carisma do nosso presidente e a uma série de coincidências interessantes para a projeção de um futuro brilhante para o nosso país. Entretanto, o Brasil pode estar encarando uma situação curiosa. A história nos diz que aumento de prestígio internacional redunda em aumento de responsabilidades, e nesse quesito o Brasil tem se mostrado um tanto quanto atabalhoado. Diversos Estados democráticos cobram uma posição do Brasil condizente com os princípios régios da convivência internacional no que tange à solução do dilema iraniano e as questões de Direitos Humanos. Qual a razão para isso?

Fala-se em pragmatismo, mas vamos entrar no terreno das conjecturas, na acepção pura da palavra. O Brasil toma essas atitudes como forma de abrir novas frentes de atuação no cenário internacional, como uma opção às alternativas correntes. Uma liderança que aspira admiração do “terceiro mundo” ou coisa parecida. E para isso, acaba enfrentando abertamente os atuais defensores da ordem – políticas que ao buscar uma via “diferente” se opõem ao consenso de Estados desenvolvidos. O caso mais aparente é o Irã, em que a posição brasileira não faz muito sentido além de municiar o blefe de Teerã, e irritar os países ocidentais, principalmente os EUA. Ora, estaria o Brasil enviando uma mensagem sutil aos desenvolvidos, em especial ao gigante do norte?

Seria um evento sem par na história da diplomacia brasileira, que mesmo nos momentos de maior busca por independência de atuação na política mundial (como os governos de João Goulart e Geisel), nunca chegou a se opor diretamente aos EUA. Podia-se criticar, mas não se opor. Eram outros tempos, e os ventos do século XXI trazem um fôlego inédito ao país, com perspectivas de pujança econômica e de influência alem do âmbito sul-americano. Mas essas escolhas de relacionamentos estranhos e criticados podem por a perder, e muito, uma parcela do prestigio internacional tanto almejado.

Estratégias errôneas? Uma questão de políticas de governo condicionadas a situações muito específicas ou uma tentativa de impor uma inflexão paradigmática no histórico da política externa brasileira? Espera-se que não seja o segundo caso, se tratando realmente de um devaneio deste colaborador, pois a tentativa de fazer o país se sobressair através de um novo rumo na política internacional, estaria sendo dada com passos de curupira, os quais vão para a um rumo e apontam para outro, confundindo os que observam e apontando na direção oposta da meta inicial.


Categorias: Américas, Brasil, Estados Unidos, Oriente Médio e Mundo Islâmico, Polêmica, Política e Política Externa


Por um futuro autônomo

Por

A Liga Árabe está reunida para discutir a colonização israelense. A posição do bloco é, de certa forma, conhecida. “[…] as negociações (com Israel) dependem do congelamento da colonização e, em particular, do cancelamento dessas construções”. A improbabilidade desses acontecimentos é grande, porém um fato chama a atenção: o desprendimento dos países árabes enquanto donos de suas decisões.

Por décadas, governos de todo o mundo (sobretudo norte-americanos) compareceram ao Oriente Médio em busca de consenso e acordos de paz. Recentemente, até mesmo nosso presidente Lula quis desempenhar o papel de apaziguador e promotor de diálogos entre palestinos e israelenses, sem sucesso duradouro.

Alem disso, há também o estigma criado sobre a imagem do árabe. Ainda é muito forte a idéia de que o povo seja fanático e extremista, que a região é subdesenvolvida e minada pela corrupção, incapaz de andar com as próprias pernas ou de se inserir no mundo atual e fechada em tradições retrogradas. Mais do que isso, acredita-se que o mundo árabe deva isolar o Ira e posicionar-se favoravelmente aos EUA e Israel.

O fato é que ambas as coisas podem ser equívocos de interpretação. Parag Khanna coloca que eles não se encontram de maneira alguma encurralados entre os pólos Ira e EUA, preferindo cooperar em assuntos de interesse comum com ambos ao invés de escolher entre o dualismo inventado do bem e mal. E não, não queremos interferência, mas queremos resolver nossos próprios problemas, diriam os árabes.

Prova disso vem com a Liga Árabe. A Liga Árabe é uma organização de Estados árabes fundada em 1945, com o objetivo de reforçar e coordenar os laços econômicos, sociais, políticos e culturais entre os seus membros, assim como mediar disputas entre estes. Atualmente, os membros são Líbano, Egito, Iraque, Síria, Jordânia, Arábia Saudita, Iêmen, Palestina, Sudão, Líbia, Tunísia, Marrocos, Kuait, Argélia, Iêmem do Sul, Bahrein, Qatar, Omã, Emirados Árabes Unidos, Mauritânia, Somália, e Djibuti.. O principal fator de união, que era a vinculação com o mundo árabe, passou a ser a religião islâmica.

Está na agenda a discussão de um Conselho de Segurança árabe, que incluiria Irã e Israel, bem como financiar escolas seculares. Os EUA, em nome de preservar a união contra o Irã, de minar lideres teocratas e mesmo de manter sua influencia na região, rejeita as propostas.

Poderiam as soluções ocidentais resolver os problemas do Oriente Médio?

 


Categorias: Estados Unidos, Organizações Internacionais, Oriente Médio e Mundo Islâmico


Há um ano...

Por

O Giovanni Okado, na semana passada, acabou criando uma nova coluna aqui no blog: “Há quase um ano…” e acabou adiantando o assunto que seria tratado hoje! Então, desta vez, a coluna vai se chamar: “Há um ano (e uma semana)…”.

Brincadeiras a parte, há um ano e uma semana lançávamos nosso primeiro podcast! Depois dele foram outros 16.

O assunto daquela semana era a chegada e as conseqüências políticas da crise na América do Sul. Àquela época, falava-se que era a maior crise da história do capitalismo desde 1929 e os primeiros impactos estavam sendo sentidos por aqui.

Um ano (e uma semana) depois, nem se fala mais no assunto. Incrível como as coisas estão passando rápido, não é mesmo?

O presidente Lula naquela época também andou aumentando seu repertório de frases de efeito mal colocadas. Disse que o Obama tinha cara de gente. Veja aqui o post que fizemos sobre o assunto. E esse mesmo post tratou da visita da presidente Cristina Kirchner ao Brasil, bem no meio de uma tensão comercial entre Brasil e Argentina por conta das inúmeras medidas que nossos vizinhos tomaram para proteger sua economia em decorrência da crise. O assunto voltou a ser tratado várias vezes aqui no blog, como no post “A Argentina e seus bodes”.

E, aí assim, no dia 27 de março de 2009, lançávamos nosso segundo podcast! Polêmico como nunca na história deste blog, gerou até um post do leitor da hoje colaboradora Adriana Suzart em resposta!

E o tema do podcast, pra variar, as frases de efeito do Lula. Eu acabei sendo tomado pelo espírito do presidente e usei também uma frase de efeito: “Nosso presidente está mais por fora que cotovelo de caminhoneiro…”.

Ele havia dito, na ocasião, a famosa frase sobre a origem da crise (mais uma vez ela): “A crise foi causada por comportamentos irracionais de gente branca de olhos azuis”.

E a foto deste post foi a mesma que ilustrou outro, do dia 25/03, com uma montagem que fizemos com uma foto do Obama que tinha sido colocada na capa do jornal Valor Econômico. Veja o post na íntegra aqui. Naquela época, ninguém seria capaz de imaginar que o Santo Obama, um ano depois, teria uma popularidade próxima a do presidente Bush!

E por fim, gostei de rever um post que gosto muito: “Escrevendo certo por linhas tortas”, que trata das malandragens que o Brasil faz com seus vizinhos. Naquela semana, os bolivianos estavam doidos da vida porque o Brasil estava comprando bem menos gás do que o acordado.

E é isso, postando e relembrando!


Categorias: Américas, Economia, Estados Unidos, Há um ano...


Maluf na lista vermelha

Por


Na semana passada, a Interpol colocou o nome do deputado federal Paulo Maluf na sua lista vermelha (veja aqui a página oficial). Isto significa que ele pode ser preso caso ‘apareça’ em algum dos 188 países membros da organização. E agora? O Maluf finalmente será preso? Estão comprovados seus crimes?


Em primeiro lugar, a Interpol não é exatamente uma “Polícia Internacional”. O seu papel é ajudar as polícias dos países membros. Então, teoricamente, qualquer país pode pedir ajuda da Interpol para pegar um fugitivo. A Interpol, portanto, não julga os processos, apenas emite alertas para que as autoridades dos países membros ‘façam o serviço’.


Ou seja, o fato de o deputado Paulo Maluf estar na lista vermelha não atesta ou serve como prova contra seus crimes (por mais que a gente desconfie deles…). É apenas resultado de um pedido feito pela promotoria dos Estados Unidos, que, esta sim, julgou que o deputado cometeu crimes passíveis de condenação pela justiça norte americana e que é um fugitivo.


Além disso, de acordo com a legislação do nosso país (e isso se repete em quase todos os ordenamentos jurídicos), um brasileiro nato não pode em hipótese alguma ser extraditado para julgamento em outros países. Ou seja, por mais que esteja provado nos EUA que o Maluf andou comentendo seus delitos, por ser brasileiro e estar em solo brasileiro, ele está “protegido”. Jamais será extraditado, a menos que se mude a lei. E não será preso, portanto, no Brasil, a menos que seja condenado por aqui.


Então, para ser preso, ele deve sair do país e ser pego por uma autoridade estrangeira em um dos 188 países membros da Interpol. É mole? É mole mas é direito internacional!


E as outras organizações mundiais de justiça?


Existem duas principais organizações mundias relacionadas ao Direito: O Tribunal Penal Internacional e a Corte Internacional de Justiça. O primeiro trata de crimes contra a humanidade, como genocídios e crimes de guerra e pune pessoas físicas, como no caso do atual presidente do Sudão. Então, a menos que o deputado cometa um crime contra a humanidade, não será preso pelo Tribunal.


A Corte Internacional de Justiça é um organismo que trata de problemas entre Estados, resolvendo conflitos, dúvidas em acordos e assuntos do gênero. Não há jurisdição para que se punam pessoas, somente Estados. Ou seja, Paulo Maluf também está livre da Corte.


Realmente, a questão da soberania dos Estados é complicada. Ninguém quer um outro julgando, prendendo e condenando seus nacionais com base numa lei que pode ser diferente da sua. E quem ganha com isso, infelizmente, são criminosos, como pode ser o caso do deputado Paulo Maluf que, como tem imunidade parlamentar, dificilmente será condenado por aqui. E muito menos pagar pelos crimes que cometeu no exterior.


Categorias: Brasil, Estados Unidos, Organizações Internacionais


Há um ano…

Por

[Esta imagem foi extraída de um post do Luís Felipe]

Há um ano lançávamos nosso primeiro Podcast, acerca dos efeitos da crise financeira mundial nos países sul-americanos. No entanto, adiantaremos uma semana para tratarmos de um dos assuntos mais em voga: o Afeganistão, assunto que inaugurou minhas postagens na Página Internacional (aqui). Se perpétua era a prisão afegã, dos seus domínios o Afeganistão não pode sair. Nada de liberdade ou alforria, segue o país como escravo, dependente da comunidade internacional, sem o cumprimento dos desígnios de nação grandiosa que o passado lhe reservou. Antes, uma fria guerra confrontou duas ideologias em solo afegão; hoje, uma quente guerra sustenta o choque civilizacional entre Ocidente e Oriente.

Para muitos, “recordar é viver”; para o Afeganistão, recordar é morrer. E morrer aos poucos. Morreu o sistema eleitoral e a democracia, assunto caro para a Andrea e o Alcir durante 2009 (aqui e aqui), com a vitória de Hamid Karzai, o honorável. Morreu a soberania, a capacidade de auto-realizar o seu destino, com as dependências da OTAN e demais forças de coalizões internacionais ou países interventores. E o pior de tudo, morreram pessoas… Bombas e balas feriram de morte inimigos e inocentes (eis as mais recentes aqui e aqui).

Em março do ano passado, anunciava os Estados Unidos um novo plano para o Afeganistão; em dezembro, uma nova estratégia. Ontem, decidiram pelo envio de mais 2.500 soldados ao norte do país, dentro das estimativas previstas pelo último documento, sob a alegação de que “[os insurgentes] estão ficando mais violentos do que eram”. Decerto, o governo norte-americano está ficando mais pacífico ao pensar que novas ofensivas promovem a paz. Sem contar que o exército norte-americano enfrenta severas questões morais: homossexuais podem ou não compor o efetivo? Em 1993, o presidente Clinton autorizou a presença deles nas tropas desde que a opção sexual não fosse discutida abertamente. O chefe do Estado-Maior do Exército , o general George Casey, condenou que os gays se assumam. Foi parar no Superior Tribunal Militar. (Aliás, foi muito oportuno o post da Andrea desta semana para repensarmos esta questão.)

E agora Steven Spielberg e Tom Hanks lançam a série mais cara da história dos Estados Unidos, “The Pacific”, narrando a história de três marines norte-americanos nos confrontos entre Japão e Estados Unidos durante a Segunda Guerra Mundial. Mal estreou e Hanks já criou polêmica ao questionar se haveria semelhança entre aquela época – “os amarelos com olhos puxados” que acreditavam em vários deuses e que queriam matar os norte-americanos porque tinham um estilo de vida diferente, os quais tinham que aniquilar aqueles – e o que ocorre hoje. Como estamos no campo das comparações, podemos também questionar se essa é mesmo a série mais cara, afinal, declarou o general Stanley McChrystal, comandante das tropas da OTAN no Afeganistão, que vão capturar Osama Bin Laden ao vivo. Gasta-se mais numa produção cinematográfica do que em esforços de guerra?

Mais do que o líder da Al Qaeda, os Estados Unidos vão prender um ativista ambiental e humanitário. Bin Laden, no início deste ano, condenou os países ricos pelas mudanças climáticas e afirmou que os atentados só cessarão quando os norte-americanos deixarem de apoiar Israel. Nossas estrelas hollywoodianas precisam rever o conceito de glamour. É tanta fama que até o Irã patrocina a Al Qaeda, o Paquistão serve de esconderijo e o norte da África de influência.

E o que fica no Afeganistão após um ano? Nada de muitas novidades. Apenas uma ampulheta imóvel cuja areia se esqueceu de cair. Já a comunidade internacional continua na procura pelo Santo Graal do mundo contemporâneo, místico em sua busca nem tanto em seus fins: pacificar e reconstruir o país.


Categorias: Ásia e Oceania, Estados Unidos, Organizações Internacionais, Oriente Médio e Mundo Islâmico


Tempos modernos?

Por

Século XXI. (Pós-)Modernidade. Liberdade de expressão. Construção de novos paradigmas… Tais idéias remontam diretamente ao contexto político e social em que vivem as Relações Internacionais atualmente. Vincular, contudo, a sexualidade de militares à responsabilidade pelo massacre de milhares de inocentes certamente não se enquadra nessa visão.

Pois esta foi exatamente a polêmica dos últimos dias. Com o intuito de argumentar contra a proposta do presidente dos Estados Unidos de garantir que militares gays assumidos possam servir nas Forças Armadas do país, um importante general americano fez declarações de cunho pouco amistoso/diplomático/razoável em relação a militares holandeses que participaram da Guerra da Bósnia (1992-95).

Em 1995, sabe-se que forças servo-bósnias avançaram sobre a cidade de Srebrenica e promoveram o massacre de mais de 8 mil muçulmanos (foto), segundo estatísticas gerais. Este acontecimento, maior massacre europeu desde a II Guerra Mundial, foi inclusive caracterizado como genocídio pela Corte Internacional de Justiça.

Isto posto, o supracitado general John Sheehan, comandante da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) à época do massacre, declarou perante o Senado norte-americano esta semana que o insucesso na proteção de Srebrenica tem relação direta com o fato de a liderança militar no local ser composta por soldados holandeses assumidamente homossexuais, mostrando-se, pois, contrário a qualquer medida de “liberalização das Forças Armadas”. (Leia mais sobre as declarações de Sheehan aqui e aqui.)

A repercussão destas declarações foram, é claro, muito mal recebidas pela Holanda, tendo que seus representantes afirmado abertamente que os comentários são “ridículos” e “tirados do mundo da ficção”. Exaltações à parte, realmente as afirmações denotam um nível de preconceito que destoa de nossa realidade social pós-moderna. Realidade esta que congrega (ou, ao menos, visa congregar) as diferentes percepções de mundo pelo incentivo ao diálogo e à compreensão mútua.

Espera-se, portanto, que os atores das Relações Internacionais, em que se enquadram os próprios indivíduos, possam agir de acordo com esta perspectiva especialmente diante de situações em que a vida humana está envolvida.


Categorias: Conflitos, Estados Unidos, Europa, Polêmica