China in (and out of the) box!

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Como será o mundo em 2030? A China desejará expandir seu domínio somente na Ásia ou em todo o mundo? Os Estados Unidos ficarão imunes a isso? Qual a probabilidade de haver uma mudança na balança de poder mundial? Haverá uma transição de poder rumo à China ou o Sistema Internacional continuará imutável? São estas e outras questões que, há anos, estão sendo respondidas com relativo sucesso. Mas a dúvida ainda permanece… 

De duas, uma: a ordem internacional sofrerá grande transformação ou continuará sendo a mesma. Não há meio termo! A China prosseguirá com seu crescimento econômico e suas reformas internas até alcançar o patamar dos EUA, isso já é um fato consumado. Entretanto, e depois? E quando falamos em gastos militares e segurança internacional? Como sustentar uma “dupla hegemonia” nas relações internacionais? O mundo tem espaço para dois gigantes novamente? O segundo gigante vermelho, levando-se em consideração que a União Soviética foi o primeiro, está lidando com um novo tipo de status quo jamais presenciado por outra potência em ascensão no mundo. 

Para facilitar o debate, e como vocês, leitores, já estão familiarizados com as perspectivas neorealista e neoliberal tratadas no blog na seção “Conversando com a Teoria”, há dois possíveis campos de análise quando se fala na forte promoção internacional chinesa e, consequentemente, nas transições de poder mundiais. A perspectiva realista de John Mearsheimer pontua como será o choque de lideranças entre EUA e China. Por outro lado, a visão institucionalista (e, em partes, liberal) de John Ikenberry analisa as possibilidades de continuidade da balança de poder que tomou forma na última década do século XX, logo após a Queda do Muro de Berlim em 1989 e o fim da União Soviética em 1991. 

Sendo assim, o primeiro cenário será a total mudança do ordenamento internacional, havendo forte desavença entre os chineses e os norte-americanos para ver qual potência seria a única grande hegemonia mundial. Para Mearsheimer, o futuro não será tão bom, pois logo que a China tiver uma economia maior que a dos EUA, concentrará seus esforços em gastos militares. Maior destaque, ainda, reside na sua seguinte afirmação: o comportamento chinês será semelhante àquele da União Soviética durante o período bipolar. Desta forma, o país asiático não conseguiria sustentar seu crescimento de forma pacífica por muitos anos e teria potencial bélico para competir com os norte-americanos. A dominação começaria na Ásia e depois se expandiria para o resto dos continentes. É a perspectiva da guerra direta. 

Contrariamente, o segundo cenário consistirá na manutenção do atual ordenamento internacional, no qual haverá a continuidade do poderio dos países ocidentais juntamente com o adendo dos interesses chineses. Para Ikenberry, a política norte-americana e dos seus aliados durante a Guerra Fria e na década de 1990 alterou as dinâmicas da alternância de poder na ordem mundial e isso terá impacto direto no papel da China enquanto potência em ascensão. Levando-se em consideração as capacidades econômicas e militares dos países da OCDE (Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico – composta, majoritariamente, por países do Ocidente, com destaque para os EUA e os europeus), os chineses não terão condições de fazer frente a este montante; sendo assim, se acomodarão e integrarão a atual ordem internacional. Como os EUA fortaleceram a institucionalização do sistema, mudá-lo seria bastante custoso e difícil. É a perspectiva da continuidade e da cooperação. 

Mas a dúvida ainda permanece… conforme foi afirmado no primeiro parágrafo do presente texto. Em termos econômicos, as previsões são mais factíveis e corretas, todavia, quando se fala em questões de segurança, torna-se mais complicado afirmar, com absoluta certeza, como será o mundo daqui vinte ou trinta anos. A China já está aumentando sua influência na Ásia e vem fomentando seu papel enquanto “hegemonia regional”. Resta saber se ela ficará somente “in the box”, ou seja, no próprio continente, ou “out of the box”, expandindo seus ideais ao restante do mundo.


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Conselho pra uma região turblenta…

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E no Oriente Médio, as coisas estão fervendo com a crise da Síria, e agora com a briga de Israel com o Conselho de Direitos Humanos da ONU. Só pra explicar, na semana passada o Conselho votou pela condenação da construção de assentamentos na Cisjordânia e Jerusalém ocidental, além do envio de uma equipe para investigar. Claro que o governo de Israel se sentiu ultrajado pela condenação e pela parcialidade do Conselho, e hoje rompeu com a organização, terminando qualquer cooperação que mantivesse e causando aquele estardalhaço de sempre. 

É interessante reparar nesse argumento da parcialidade. Todos sabem que ninguém é santo nessa história, e das 91 resoluções do órgão, 39 foram relativas a Israel, certamente não sem motivo. Mas quando reclamam do órgão ser tendencioso não podemos esquecer do ranço que esse órgão carrega. Isso por que herda uma “herança maldita” do antigo Comitê de Direitos Humanos da ONU (extinto em 2006 e substituído pelo atual Conselho), que já acolheu coisas bizarras como ser presidido pela Líbia. 

 O fato é que, no sistema ONU, a distribuição de cargos e vagas nas organizações meio que obedece a padrões de poder informais que premiam países mais “populares” ou influentes. É assim que notórios violadores de direitos humanos latino-americanos e africanos conseguiram ocupar cadeiras no órgão que velava pela defesa desses mesmos direitos, empacando as coisas. Além disso prevalece uma seletividade de temas, predominando aspectos políticos em vez de técnicos nas discussões e decisões. O caso de Israel é grave? Sim. Mas não deixa de transparecer um certo grau de interesse pela pressão política contra EUA (único que votou contra, diga-se de passagem) e Israel ao escolherem esse tema, enquanto crises mais graves como da Somália ou do Sudão estão aí. 

 Por outro lado, o Conselho é mais atuante que o finado Comitê, e está participando ativamente, por exemplo, do caso sírio. Mas como tudo que vem da ONU, é um órgão sem muito poder de agir pra valer, e no fim das contas, o rompimento não é tão grave assim em um terreno em que impera a retórica e a politicagem em vez da ação concreta. A maioria dos países que se abstiveram da votação justificaram que as investigações seriam apenas repetições de outros mecanismos e não mudariam nada na prática. Segue assim o mal-estar no cenário internacional, o crescente isolamento de Israel, e o drama dos que sofrem nesse jogo de atritos, de ambos os lados.


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Trigger Happy

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Apesar do que os noticiários mostram, o ser humano não teria uma inclinação natural à violência – ou, ao menos, a matar semelhantes a sangue-frio. Estudos interessantes mostram como, nas duas guerras mundiais, a maior parte das mortes ocorridas no front foram causadas por estilhaços de granadas ou por morteiros. Muitos soldados que saíam com os rifles em mãos simplesmente não conseguiam atirar em outros seres humanos. Os que conseguiam, era após muito tempo de farda ou aqueles que se chamam “natural born killers”, pessoas comuns que não têm essa dificuldade, beirando a sociopatia, mas sem serem consideradas anormais. 

O que isso tem a ver com política internacional? Bom, nesse fim de semana um sargento dos EUA acordou cedo, se dirigiu a uma aldeia no Afeganistão e chacinou 16 civis inocentes. A suspeita é de que tenha sofrido um colapso nervoso ou estivesse embriagado. A primeira opção parece mais plausível – pra quem está chocado com a notícia, saiba que no Vietnã rolava coisa muito pior.

Dessa história, tiramos duas coisas. Em primeiro lugar, esse tipo de ocorrência de “feliz ao gatilho” (expressão que vem do inglês e que se refere literalmente à pessoa que atira sem se preocupar muito com os alvos) faz pensar em como a própria situação do militar é uma coisa aterradora. Quando um homem se alista no exército ou é convocado para a guerra, todo o processo de treinamento serve pra que ele esqueça as convenções da vida em sociedade e se torne uma pessoa capaz de matar uma outra pessoa. A morte, aquilo que é repreendido e proibido na sua vida como civil, é em última instância o seu objetivo (seja para proteger o país ou sua própria vida) na carreira militar. E, quando se pensa que o soldado do outro lado é muito provavelmente alguém na mesma situação, não é de se admirar que haja tantos casos de stress pós-traumático, ou de como um conflito prolongado e tenso como no Afeganistão mexa com os nervos dos soldados. 

Segundo, as conseqüências dessa tragédia. Os EUA não estão com retirada programada do Afeganistão tão cedo (dizem até 2014, no mínimo), e essas mortes deram ao Taleban (ou o que sobra dele) um grande fôlego para incitar o ódio aos “invasores”. Além disso, é até complicado qualificar isso como crime de guerra, de modo que muitos afegãos do lado do governo (aliados dos EUA, tecnicamente) querem que o sargento seja levado a julgamento popular pelas leis de lá. Mesmo com os pedidos de desculpas oficiais, Obama está com (mais um) abacaxi nas mãos e tensões por todos os lados complicam a estadia dos EUA no Afeganistão (e aumentam o clamor por sua saída).


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O clube dos sem candidatos

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A corrida eleitoral norte-americana segue indefinida, talvez mais do que nunca. Pelo lado republicano, tivemos alguns favoritos, outras ascensões meteóricas (quase sempre acompanhadas de uma decadência tão ou mais rápida) e, mais recentemente, um quadro descrito pelo governador do estado de Vermont, Peter Shumlin, como deprimente. De fato, surgiu nesta semana uma perspectiva ainda mais sombria. As primárias do partido podem chegar ao fim com um vencedor, mas sem candidato à presidência do país.

Quem assiste a um (dos inúmeros) debates entre os republicanos, no mínimo, se diverte. Entre as discussões propostas estão temas importantes como saúde, economia e política externa. Contudo, as abordagens que predominam são prioritariamente pouco construtivas. No último encontro, Santorum insistiu que o Obama Care foi baseado em um plano de gestão da saúde pública criado e implementado por Romney em Massachusetts. Por seu lado, Romney destacava os votos do então senador Santorum, que para ele contradiziam seus ideários conservadores ao apoiar alguns projetos de democratas.

Não, o concordar em discordar não virou o lema destas primárias. Eles fazem questão em concordar no óbvio, como na questão do controle das fronteiras dos Estados Unidos com o México. Em outros momentos se juntam para criticar o Obama Care e prometem revogá-lo logo no primeiro dia de governo. Nos demais tópicos, um vira lobo do outro. Ao destacar o pior dos outros, um candidato pensa que destacará seu melhor. Esta tática funciona em parte, a julgar pelo sobe e desce das pesquisas. No entanto, tomando os efeitos cumulativos de tanta exposição negativa, fica clara uma tendência: o enfraquecimento da candidatura republicana nas eleições gerais.

Talvez o elemento mais trágico do atual contexto é a possibilidade do vencedor das primárias, historicamente garantido como candidato do partido contra os democratas, sair tão fragilizado da disputa que não tenha legitimidade suficiente para representar os que o elegeram. Outros rumores dão conta da pressão sobre outras eminentes figuras republicanas para que entrem na disputa, ainda que tardiamente. Antes tarde do que nunca. Ao passo que vamos, nem Romney conseguirá angariar apoio suficiente para enfrentar Obama. Contando com o histórico recente, nada está descartado, nem mesmo uma mudança radical do quadro e a consolidação de um candidato inconteste para o partido, apesar de tudo.

Neste contexto, destaca-se ainda o deserto eleitoral americano, no qual “a pequena fração de americanos que está tentando escolher o candidato republicano é velha, branca, uniformemente cristã e não representativa do país em geral”.Ou seja, os pré-candidatos estão projetando uma imagem baseada somente em uma porção pequena do eleitorado total. Mais do que isso, estão destruindo as campanhas uns dos outros por este pequeno grupo que não dá conta de congregar o “clube” inteiro. No mesmo país, de acordo com Paul Krugman: “… as regiões nas quais os programas do governo representam a maior parcela dos rendimentos pessoais são precisamente aquelas que estão elegendo esses severos conservadores…”.

Vai entender. O único feliz, ao menos com grande parte de tudo isso, é Obama. Afinal, cada dia mais sua campanha se fortalece enquanto os republicanos esquadrinham os detalhes mais sórdidos de seus candidatos e expõem suas mais diversas fraquezas.  


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É ritmo de festaaa…

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Post rápido de feriadão. Nessa segunda-feira de carnaval, parece que apenas no Brasil se tem o que comemorar. A economia vai relativamente bem e o governo é reconhecido internacionalmente pela “limpeza” que vem promovendo nos ministérios (e pelo modo como está cada vez mais criando uma identidade própria, saindo da sombra dos governos Lula) e já há quem defenda a volta do Brasil pra ajudar a resolver o problema nuclear do Irã.


Já no mundo desenvolvido a coisa não anda tão bem. A coisa ficou feia no final do ano passado para boa parte dos países desenvolvidos, que tiveram retração no seu crescimento per capita. Vejam que não é uma situação tão ruim – há indícios de estabilização, e um crescimento pequeno ainda é um crescimento (aliás, isso é meio que uma norma pra países desenvolvidos, que já não têm muito onde crescer). Não chega a ser uma recessão (em que a economia encolhe, como deve acontecer na Itália, pra não falar da Grécia), e cada vez mais parece distante um quadro de depressão (quando a recessão sai do controle e mantém uma crise generalizada por muito tempo, estagnando a economia do mundo) que muitos analistas mais pessimistas previam.


Ainda assim, expectativas positivas não são garantias, e com os problemas específicos de cada país/região (como a crise deflacionária do Japão, o ciclo eleitoral dos EUA e o resgate à Grécia na UE), o sinal amarelo está aceso por aquelas bandas. Mas vamos deixar pra avaliar isso quando o carnaval desocupar as manchetes, certo?


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A sopa esfria

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Lembram daquele tema polêmico da internet na semana passada? E não, não é a menina que estava no Canadá. O mundo ficou em polvorosa com o protesto em massa contra a aprovação das leis de regulação da internet que circulavam no congresso dos EUA. Circulavam, no pretérito, por que a coisa azedou e foi pra gaveta. E saibam que tem tudo a ver com a eleição presidencial de lá.

Vamos por partes. Os projetos de lei da SOPA (Ato de Proteção contra Pirataria) e PIPA (Ato de Proteção de IP) já foram tratados aqui no blog, e basicamente querem impor restrições maiores e facilitar o trabalho das autoridades para a proteção de propriedade intelectual na rede. Muito bom, se não fosse a abrangência da coisa (que pode, por exemplo, tirar sites inteiros do ar caso um único usuário coloque conteúdo “ilegal”), e o fato de que normas e tratados que já existem, como o DMCA. E, na semana passada, um foi reservado para um protesto em massa (com sites auto-censurando suas informações, ou mesmo saindo do ar por um dia) e envio de petições ao Congresso e Departamento de Estado dos EUA. Nos dias seguintes, a votação sai de pauta por tempo indeterminado, e a comemoração dos mobilizados é geral.

Afinal, qual a influência desses protestos? Foram milhões de pessoas assinando petições e milhares de sites protestando. Mas assim como a mobilização da primavera árabe (alguém lembra?), essa influência “popular” pode ser um pouco enganadora. Vejam pelo lado da política: Obama está desgastado e precisando de financiamento pra sua campanha. Isso vai ser providenciado por muitos grupos econômicos mais à direita, como a indústria da mídia. E esse é o ponto – o que corre por aí é que a pressão pela votação dessas leis foi lobby da RIAA e outras organizações em troca de apoio na próxima eleição. Milhões de inconformados protestam contra a arbitrariedade e em defesa da liberdade de expressão. O que os republicanos fazem? Tiram o corpo fora e deixam de apoiar a votação. Dito e feito – dos 18 que abandonaram o projeto, a maioria é republicana; indo mais longe, os pré-candidatos do partido são unânimes ao ir contra o projeto nos (divertidíssimos) debates televisivos. Uma ironia, já que o cara que propôs isso tudo é do partido do elefante. Essa manobra de deixar a SOPA/PIPA de lado teria sido muito mais de interesse eleitoral dos republicanos do que uma resposta aos protestos (muito oportunos, na verdade…).

Em tempo, o fechamento de sites de compartilhamento de arquivos (outra coisa que rendeu um bafafá enorme e que está gerando um efeito cascata nessa semana), em um primeiro momento, não tem nada a ver com SOPA, PIPA, ou o que for. Todas as prisões e encerramento de atividades foram baseadas em legislação vigente (coisa que aquelas duas ainda não são), e pegaram gente envolvida com crimes graves, mas isso é coisa que vai ficar para os tribunais. Agora, o fato é que não deixa de ser muita coincidência que tenha ocorrido na mesma semana dos protestos – e vemos aí um pouco da pressão dos grupos midiáticos…


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Dez anos bastam

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“Dez anos bastam”: estes foram os dizeres de manifestantes que formaram uma cadeia humana em Washington essa semana para protestar contra a manutenção da prisão de Guantánamo, que existe há (quase exatos) dez anos na base naval dos Estados Unidos em Cuba (foto).

Instalada em meio ao fulgor da “guerra contra o terrorismo” após os atentados de 2001, a prisão é constantemente alvo de fortes críticas exatamente por desrespeitar Direitos Humanos básicos. Centenas de presos já passaram por Guantánamo e os quase duzentos que permanecem ainda hoje se enquadram entre os seguintes perfis principais: são acusados de crimes de guerra e aguardam julgamento; são considerados “perigosos” (pelo governo estadunidense), mas não podem ser acusados por falta de provas; ou, finalmente, não possuem nenhuma acusação (!), mas são impedidos de partir pela instabilidade de seus países.

Parece inacreditável conceber atualmente situações como tal, mas Guantánamo é um claro exemplo das contradições globais que ainda hoje frequentemente visualizamos. A busca pela igualdade é constante, mas o acesso aos recursos disponíveis é extremamente limitado. A ânsia por promover a “justiça” (?) é crescente, mas os meios utilizados para este fim são absolutamente criticáveis…

Constatar a ineficácia do presidente Obama em fechar Guantánamo (promessa cujo “prazo expirou” já há dois anos) significa constatar uma realidade na qual a teoria e prática permanecem em âmbitos muito distintos (e distantes!). A pressão tem sido feita por diversas entidades humanitárias e organismos governamentais, mas é ainda incerta a perspectiva para o real cumprimento desta nobre promessa.

Enquanto isso, mantém-se uma realidade perversa para os prisioneiros (em sua boa parte possíveis inocentes – veja post antigo no blog a esse respeito aqui) e para a comunidade internacional, que convive com um tácito sentimento de “impunidade” em relação às controversas políticas antiterroristas estadunidenses.

Em se tratando de Guantánamo, pode-se dizer que dez anos – efetivamente – bastam ou são até demais, não?


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Na estrada com Obama

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Enquanto as primárias do partido republicano continuam, Obama segue com suas tarefas e desafios como presidente. Contudo, não se engane. A Casa Branca certamente divide as atenções com um certo centro de operações em Chicago, sua cidade natal. É lá que se monta uma campanha maior, mais inteligente e surpreendente, ao menos é o que promete a equipe que trabalha pela reeleição de Obama.

Em 2008, tudo foi diferente, considerando o papel de azarão que lhe fora incumbido no início da campanha. Agora, não se trabalha projetando vitórias por etapas (primária por primária, culminando nas eleições), mas com o pensamento voltado unicamente para a linha de chegada.  Apesar de indícios que apontam uma jornada árdua, como a taxa de desemprego e o baixo crescimento da economia, há também bons presságios. Somente em uma semana de dezembro, a equipe de Obama organizou 57 treinamentos para líderes locais que trabalharão na campanha (George W. Bush, em 2004, organizou 52 durante janeiro em diferentes estados do país), isso somente em Iowa. 

Além disso, a arrecadação de fundos também está a todo vapor. Até agora, foram quase 200 milhões de dólares, quatro vezes mais do que Romney levantou em 2011. A projeção da equipe de Obama é bater a marca de 1 bilhão de dólares até novembro. Neste contexto, destacam-se as doações de valores reduzidos (até 200 dólares), que correspondem a quase 50% do total. Com tanto dinheiro na conta, já foram contratadas mais de 200 pessoas para trabalhar exclusivamente pela reeleição. Mesmo com os elementos negativos considerados, a vantagem de Obama é solidificar desde já seu posicionamento frente aos republicanos.

A idéia principal será focar o debate no futuro, ao invés do passado doloroso recente; e procurar explorar os caminhos alternativos que os oposicionistas poderiam propor frente aos desafios atuais. Será que vem aí essa tal campanha ainda mais revolucionária que a de 2008? Romney segue como favorito no campo republicano, ameaçando Obama nas pesquisas de um hipotético confronto entre eles. Desta vez, parece que a eleição penderá mais aceitar do que adotar uma plataforma. 


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Que vença o melhor

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Ou não. Definir quem será o melhor candidato, aquele que represente a base republicana, não é tarefa fácil. Em outro artigo, já havia tratado do sistema eleitoral norte-americano, o qual apresenta peculiaridades interessantes e enseja debates intensos dentro dos partidos majoritários nos Estados Unidos. A longa e árdua jornada, que começou oficialmente nesta terça-feira, culminará na convenção do partido republicano em agosto. Somente então, o candidato será oficialmente anunciado pelo partido e embarcará em uma nova disputa contra o atual presidente Barack Obama.

No caso republicano, o cenário que se afigura é o de um presidente cambaleante ante o nível de desemprego alto e sua popularidade baixa. Nenhum presidente, exceto Ronald Reagan, foi eleito com um índice de desemprego superior a 6% (Obama enfrenta 9,1%). Desta forma, haveria uma oportunidade de retomada do poder pelos republicanos. O termo “haveria” é proposital, uma vez que a vantagem depende da união da oposição em torno de uma candidatura. Até o momento não parece existir tal preceito.

De um lado, figura Mitt Romney, tido com um conservador moderado; de outro, aparecem Rick Perry, Rick Santorum, Newt Gringrich e Ron Paul, que se colocam junto à base republicana mais conservadora. No caso de vitória do primeiro, existe a possibilidade de enfraquecimento do partido junto aos mais apegados a ideários defendidos, por exemplo, pelo Tea Party. Considerando uma vitória do segundo grupo, há a possibilidade de rejeição dos mais moderados e mesmo dos independentes. Romney é conservador, ainda que para alguns não o suficiente, aparentando ser o que possui as melhores credenciais para enfrentar Obama.

Contudo, a corrida norte-americana pela Casa Branca reserva surpresas. Há seis meses, Romney liderava as pesquisas, há três meses foi a vez de Rick Perry assumir a ponta, logo depois veio Herman Cain seguido por Newt Gringrich, para finalmente Romney voltar a liderar. Tudo pode mudar, talvez agora com as disputas estado por estado o cenário comece a se solidificar. Na primária de Iowa, que abriu a disputa republicana, Romney venceu Santorum por oito votos (ambos com 25% do total), seguido por Paul com 21,3%, Gringrich com 13% e Perry com 10,3%. Desistentes vão ficando pelo caminho, tal qual Bachman, Cain e Huckabee, enquanto a disputa começa a se circunscrever a poucos.

Obama, mesmo negando, já está em campanha. Como se estivesse em uma pole position, esperando alguém se posicionar do seu lado para a largada. A vantagem pode não ser numérica, relembrando os últimos dados relativos àeconomia e projeções para a eleição, mas resta tempo para Obama limpar seu lado da pista e torcer para que as primárias republicanas causem avarias ao oponente. Tudo pode mudar já na primeira curva. O atual presidente, que tem alguma vantagem, necessitará alinhar seu discurso a conquistas (essencialmente na economia e no combate ao desemprego). O “change, we believe in” e o ser diferente do tradicional de Washington, parte da plataforma adotada em 2008, foram suplantados por dados reais. Resta esperar o combatente escolhido para enfrentá-lo. Que vença o melhor?


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Estreitando relações

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Com o fim das festas de fim de ano, voltamos a analisar o que anda acontecendo pelo mundo de um modo mais atento. Mas 2012 não traz tantas novidades em termos de protagonistas – a notícia do momento é aquela movimentação meio exagerada de navios e porta-aviões no estreito de Ormuz, em resposta à ameaça iraniana de fechar uma das principais rotas de escoamento de petróleo. Afinal, 40% do “excremento do diabo” que é produzido no mundo passa por lá, o que faz com que essa ameaça faça muito mais do que deixar os mercados importadores de cabelos em pé.

Pra variar, é o Irã que causa a comoção, jurando que consegue fechar facilmente o estreito caso haja imposição de mais sanções a seu programa nuclear. Sim, esse mesmo (que pelo jeito vai dar o que falar em 2012). A resposta tinha como endereço a Comunidade Europeia, mas quem veio ao resgate foram os EUA, mandando porta-aviões e outros navios de guerra para “exercícios de rotina” na região.

Os mais exasperados já levantam a possibilidade de guerra em médio prazo. Afinal, para os que não estão familiarizados com estudos estratégicos, o envio de navios é o sinal mais claro de projeção de poder, ainda mais com a presença de um único porta-aviões com capacidade maior que a de muitas forças aéreas do mundo. Além do mais, Israel anda meio ressabiado (mesmo que muita gente por lá considere uma tolice entrar em guerra agora), e o principal entusiasta da demonização do Irã, a Arábia Saudita, finalmente se viu diretamente ameaçada e com uma desculpa legítima pra pedir o amparo de Washington (e, no meio do processo, comprar quase 100 aviões de caça em troca de uns petrodólares).

Mas, não é pra tanto. Como dizia o Raymond Aron, os dois braços das relações exteriores de um país são suas forças armadas e sua diplomacia, e esse tipo de manobra é bem comum na política externa, ainda mais dos EUA. Basta ver como eles reagem à presença chinesa no Pacífico – se Beijing faz acordos ou aumenta sua presença militar, lá vão os EUA fazendo exercícios navais e coisas do gênero. E, no fim, todos trocam sorrisos, dizem que são exercícios de rotina e a vida continua, com um reconhecendo a presença e o poder do outro, e sem um tiro disparado. Não se surpreendam se o mesmo ocorrer nas próximas semanas – EUA manda porta-aviões, Irã testa mísseis, muita especulação… e no fim, cada um volta pro seu canto.

No caso de Ormuz, temos um Irã arredio, mas que dependia de um blefe arriscado. Agora que os EUA já responderam com sua presença marítima, é muito improvável que vá ocorrer qualquer conflito – o Irã não se arriscaria a ir às vias de fato, ainda mais nesse momento em que sua influência está se dando de um modo muito mais brando (e exitoso) em outros países da região como a Síria e o Iraque. O risco de uma manobra assim não compensaria os custos. Na verdade, nem mesmo os EUA querem (mais) uma guerra. Os únicos que estariam mais inclinados a isso seriam Israel (com algumas ressalvas) e a Arábia Saudita, que só tem a ganhar com uma invasão ao Irã. Enquanto isso, Teerã tem meios mais interessantes de mexer com o preço do petróleo, e na verdade esse grande blefe teria servido na verdade apenas para mostrar que, independentemente dos meios, o país pode retaliar a possíveis sanções, só pelo fato de se sentir à vontade para fazer essas ameaças…


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