Oriente esquentando

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coreia

Fim de ano costuma ser uma época bem parada no noticiário internacional – a não ser quando ocorre uma calamidade como a que completou 10 anos no dia hoje, com o tsunami monstro que varreu o Oceano Índico e matou quase 300 mil pessoas em 2004. Felizmente, não temos uma catástrofe dessas para comentar, mas 2014 ainda vai ser quente nessa última semana graças, é claro, à Coreia do Norte e sua insistência em fazer manchetes.

Um pouco em continuidade ao post da semana passada, vou retomar o que diz Barry Buzan sobre aquela região do estremo Oriente – é um “microcosmo residual” da Guerra Fria. Basicamente, por culpa da Coreia do Norte, já que a China está muito mais para parceira que adversária dos EUA. Se os eventos da semana passada deixam claro que Cuba deve deixar um dos postos restantes de inimizade com os EUA, resta à Coreia do Norte fazer oposição ao grande Satã – pelo menos, sob o viés político-ideológico. E se trata de uma oposição indireta, já que suas maiores preocupações são o Japão e a Coreia do Sul, com os EUA como inimigos “por tabela”.

Como foi divulgado ontem, o polêmico filme de comédia sobre um plano de assassinato do líder norte-coreano foi lançado nos EUA e pela internet. Basicamente, o estúdio dá uma banana aos grupos de hackers que ameaçaram as distribuidoras e salas de cinema que exibissem a obra, em nome da liberdade de expressão (e após ouvir bronca da Casa Branca por conta do cancelamento). Pyongyang não reconhece a autoria dos ataques mas repreende oficialmente o conteúdo do filme (compreensivelmente), assim como, adivinhem só,  Rússia e China. Até agora, nada de ruim aconteceu, mas a repercussão pode vir a galope, já que a expectativa de retomada das negociações sobre o programa nuclear norte-coreano (o “six-party talks”) era grande para 2015 e pode ir pro vinagre rapidamente. Para piorar, a internet do país ficou fora do ar por quase 9 horas e há suspeitas de que seja retaliação dos EUA. Ou não.

Enquanto isso, os EUA firmam um acordo com Coreia do Sul e Japão para manter vigilância sobre o vizinho comunista. A intenção clara é de dissuasão – a vigilância e troca de informações sobre Pyongyang serve para deixar o recado que a Coreia do Norte está isolada. Trata-se de um acordo estranho, já que aproxima rivais históricos (Japão e Coreia do Sul) sendo visto com desconfiança por ambos. No fim das contas, numa situação delicada, fortalecer os laços com os principais adversários da Coreia do Norte pode ser visto como uma jogada ainda mais agressiva por parte dos EUA e piorar ainda mais a situação. Nessa queda de braço política que está se tornando midiática, o risco é a ruína de todos os progressos atualmente paralisados com relação ao esforço de não-proliferação nucelar na região…


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Hora de acabar?

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Se o final da Guerra Fria não tem exatamente um ponto definido, ele geralmente é considerado como o desmantelamento do chamado “Segundo Mundo”. Mas isso sempre carrega um asterisco nos livros. Para alguns países, aquele conflito tecnicamente não teria acabado, especificamente para Cuba e Coreia do Norte, os dois principais bastiões da resistência do modelo de economia planificada. Por isso chama a atenção o noticiário dessa semana, em que de um lado finalmente tivemos um avanço histórico que pode literalmente significar o fim da tensão entre EUA e Cuba, enquanto a Coreia do Norte apronta de novo e fortalece cada vez mais posição de isolamento.

Nem é necessário aprofundar muito a discussão sobre a incrível reaproximação de Cuba e EUA após meio século de rompimento diplomático. O gradual e controverso processo de distensão entre a ilhota e o gigante significa muitas coisas, de jogar uma pá de cal no conflito ideológico nas Américas à possível revisão do embargo americano. Isso não virá sem desafios, com insatisfação de ambos os lados, especialmente do norte-americano, mas significa um freio à retórica antiamericana que se tornou bastante popular por estas bandas e se apoiava, em parte, na inimizade de Washington com Havana, bem como à retórica anticomunista que as direitas exaltadas que pipocam pelas redes sociais e em partidos radicais. O mundo se mostra um lugar bem mais complexo que qualquer maniqueísmo ideológico, e felizmente prevalece o bom senso naquele que pode ser o grande legado de Obama para a história após dois governos conturbados.

O que destoa completamente da Coreia do Norte. O país, único não-signatário do TNP que busca abertamente desenvolver capacidade nuclear para usos militares, surge em meio à polêmica da invasão dos servidores de um estúdio norte-americano que estava prestes a lançar um filme de conteúdo sensível – uma comédia em que o enredo se baseia na tentativa de assassinato do presidente norte-coreano. O grupo de hackers que ameaçou as distribuidoras e salas de cinema que exibissem o filme, além de vazar alguns filmes inéditos e roubar dados de fornecedores e clientes, não assumiu diretamente estar ligado a qualquer governo mas fontes dos EUA confirmam a participação de Pyongyang, onde a guerra cibernética é uma realidade e um esforço concentrado do Estado.  Estando ligado aos ataques ou não, o governo norte-coreano continua a vociferar contra os países do Ocidente e mobilizar capacidades como resposta à ameaça de levar o país ao TPI levantada pela ONU por violações contra direitos humanos. O cuidado com que se trata a situação da Coreia do Norte, que levou inclusive à suspensão da exibição do tal filme, mostra que nessa parte do mundo ainda persiste uma lógica de enfrentamento de base ideológica. Mantendo o isolamento e uma política agressiva, a Coreia do Norte parece andar na contramão da história e conta nos dedos seus aliados.

É óbvio que dizer que a Guerra Fria persiste é um exagero. Há quem veja as tensões crescentes com a Rússia como sinal de algo dessa natureza, mas mesmo assim não tende a sair do campo econômico. A aproximação dos EUA com Cuba é mero indicativo de que aquela situação aberrante simplesmente não se encaixa no sistema internacional moderno e já passara da hora de ter sido resolvida. A exceção mesmo é o caso único da Coreia do Norte, naquela região em que persiste um “microcosmo residual” da Guerra Fria, nas palavras de Barry Buzan, em que a inserção do poder atômico faz com que os cálculos políticos sejam diferenciados do que se pratica em outras partes do mundo e o conflito de viés ideológico se mantenha congelado no tempo.


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Imagem da Semana

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Obama

A imagem da semana revela uma situação inusitada envolvendo o presidente Obama – ou mais especificamente suas duas filhas adolescentes. Seguindo a tradição estadunidense, Obama presidiu, na última quarta-feira, uma cerimônia típica da véspera do Dia de Ação de Graças, em que são “perdoados” dois perus que normalmente seriam consumidos no dia seguinte.

O inusitado da situação, na verdade, envolveu a postura das filhas presidenciais, Sasha e Malia, durante a cerimônia. As meninas trocaram olhares entediados e foram duramente criticadas por Elizabeth Lauten, assessora de imprensa do congressista republicano Stephen Fincher, em sua página no Facebook: “Eu sei que vocês duas estão no terrível período da adolescência, mas vocês são parte da família presidencial – tentem mostrar alguma elegância. Pelo menos respeitem o papel que desempenham”.

Filhas Obama

A situação está gerando tamanha comoção que Elizabeth já se desculpou publicamente e anunciou que pedirá sua demissão no dia de hoje


A injustiça recorrente

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Rioting erupts in Ferguson, Missouri after police involved shooting of an unarmed teen

O enredo é conhecido, bem como o desfecho. Periferia de um centro urbano, jovem negro abordado pela polícia, algo sai muito errado. Os policiais atiram contra o suspeito, que acaba morrendo. Na versão oficial, era alguém perigoso, que reagiu e foi alvejado por resistir à voz de prisão. Segundo a família e conhecidos, era uma pessoa de ficha limpa, honesta, que se tornou a mais nova vítima de uma polícia despreparada. A indignação na comunidade explode rapidamente, com protestos nas ruas, pneus queimados para interromper o trânsito e as forças policiais são mais uma vez enviadas para conter a turba. Enquanto parte dos manifestantes aproveita a baderna para promover quebra-quebras, destruir vidraças e saquear lojas, a polícia reprime com violência desproporcional parte das manifestações, o que gera indignação na mídia local e internacional. Quando as coisas parecem esfriar, os policiais envolvidos na morte são absolvidos em júri popular e mais uma vez a tensão cresce, com a população indignada pelo fato de que as acusações parecem distantes da realidade.

Brasil? Poderia muito bem ser uma manchete daqueles programas de fim de tarde, mas é exatamente o que está acontecendo nos Estados Unidos, por conta da morte de Michael Brown, o jovem em questão. Durante a semana, até a Guarda Nacional foi enviada à antes pacata cidade de Ferguson para conter os distúrbios. Se o caso mostra que a truculência e despreparo policial para lidar com multidões, bem como a violência policial injustificada contra inocentes não são exclusividade tupiniquim (na verdade, parece ser a regra para o mundo todo), também serve de alerta para uma realidade de exclusão e preconceito ainda latente em um país que mantinha leis segregacionistas até o século passado.

Mais que o ultraje pela morte do inocente, percebe-se uma campanha de demonização da vitima. Mesmo que não fosse mal-intencionada, a culpa é sempre do que resistiu ou não obedeceu a ordens da lei. Provas e depoimentos inconsistentes, canais de notícias veiculando fatos enganosos ou pouco confiáveis sobre Brown, tudo leva a crer que a criação da imagem de um “vilão” para justificar a força letal é símbolo de um racismo que ainda possui grande apelo, mesmo que inconsciente, naquela sociedade.

Há pouco tempo também causou grande comoção a morte de Trayvon Martin, morto em circunstâncias parecidas. O caso de Brown causa mais comoção pelo fato de que alia ao racismo o elemento da injustiça pelo modo ambíguo com que o julgamento dos acusados está sendo conduzido. Mas nesta semana mesmo temos um novo candidato a caso de comoção nacional, com um elemento ainda maior de tragédia por se tratar de uma criança. Apesar de ser uma situação delicada (o menino estaria com uma réplica de arma de fogo ameaçando pessoas numa praça) um vídeo de segurança que capturou a ação mostra que os policiais atiram segundos após chegarem ao local – enquanto segundo a versão oficial teriam dado voz de prisão e apenas atirado quando o menino (mais uma vez) resistiu. Do modo como esse tipo de evento é retratado, fica difícil saber em que ponto terminam os fatos e começam as desculpas, e até mesmo se o menino efetivamente estava ameaçando as pessoas ou apenas brincando de uma maneira pouco saudável.

Dúvidas à parte, fica a certeza de que continuarão a ocorrer muitos fatos semelhantes pelo mundo afora, com jovens negros e pobres “resistindo” à voz de prisão e terminando estirados em calçadas. Mas aqui fica marcada a grande diferença disso para o Brasil – enquanto por aqui essas mortes são até comemoradas e os protestos ficam limitados à região ou bairro onde ocorreu o assassinato, nos EUA a onda de protestos contra o ultraje policial e legal está se alastrando por diversas cidades e terá um impacto social muito maior.


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Um sonho futuro

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Em um ano que não vai deixar saudades para Barack Obama, pelo menos uma de suas decisões vai ter um impacto duradouro na sociedade norte-americana, e possivelmente benéfico. Nesta semana, o presidente recorre a decreto, um recurso não muito bem-visto nos meios democráticos, mas que funciona quando necessário, para aprovar mudanças nas leis de imigração do país e passar por cima da oposição cerrada no Congresso, legalizando milhões de imigrantes em situação irregular.

Vamos por partes. A reforma da imigração sempre foi uma das principais bandeiras de Obama (lembrem-se que grande parte dos eleitores que o colocaram na Casa Branca são os de origem latina, imigrantes ou descendentes), com a finalidade de resolver o problema dos quase 12 milhões de ilegais no país. Porém, o que se viu foi uma onda de deportação recorde, igualando em dois anos a quantidade de deportados em oito anos de Bush filho. A razão disso é o velho problema da política de oferecer agrados a opositores para tentar colher os frutos no futuro. Visando ao apoio republicano, Obama teve de endurecer as políticas as aguentar as críticas em cima disso, na esperança de que quando a nova legislação de reforme fosse votada, tivesse a simpatia dos opositores. Não deu muito certo, seja por que os republicanos não engoliram esse macete, seja pelo fato de que conseguiram conquistar a maioria nas duas casas e agora estão pouco se importando com quaisquer políticas de Obama – ou, pior, se dedicando a sabotá-las.

Sem alternativa, o presidente abraçou uma alternativa mais modesta, e por meio de decreto deve beneficiar quase 5 milhões de ilegais com o abrandamento de condições para a deportação. Permanece o rigor com os que chegaram recentemente ou cometeram crimes, mas aqueles que estão há mais de 10 anos ou tenham filhos cidadãos norte-americanos podem acabar permanecendo. O decreto não chega ao ponto da concessão de cidadania (que era um dos pontos principais da nova lei), mas é um passo importante para manter funcionando uma das principais engrenagens da economia norte-americana ao trazer uma enorme parcela de população economicamente ativa para o setor formal.

Basta lembrar que, em comparação a outras economias desenvolvidas maduras, os EUA são a única em que não há déficit populacional. A Europa em crise sofre com a redução da força de trabalho, mas isso não acontece nos EUA por ser um polo de atração tão forte de imigrantes, que substituem os aposentados em ritmo estável. Pensando mais adiante, os impactos em longo prazo são ainda maiores, pois a contribuição dessa camada da população para planos de previdência social e programas assistenciais é imprescindível para que as contas fechem. Conseguir inserir legalmente uma parcela na casa dos milhões de cidadãos, que já estão na economia de algum modo mas sem participar do sistema, é uma medida impopular com setores mais conservadores (apesar de a maior crítica dos republicanos não ser às medidas, mas pelo fato do presidente ter passado por cima do Congresso) mas ao mesmo tempo assenta bases para uma fundação sólida do sistema previdenciário nas próximas décadas, e a depender dos rumos do mandato, pode acabar sendo a maior contribuição de Obama para o país em seus dois mandatos.


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Onde há fumaça…

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china eua

Enquanto a Agência Espacial Europeia faz história no espaço, aqui na Terra tivemos uma notícia tão surpreendente quanto a expectativa do pouso de uma sonda em um cometa longínquo. O que antes parecia impossível abismou a comunidade internacional, de um jeito positivo, quando EUA e China declararam um esforço conjunto para, entre outras modalidades de cooperação, reduzir as emissões de gases estufa pela primeira vez na história.

Quem acompanha o noticiário internacional sabe das motivações por trás da recusa em assumir os compromissos do protocolo de Kyoto, a base para o esforço global em reduzir os problemas de mudanças climáticas. Os maiores responsáveis pelas emissões sempre foram contrários às reduções “arbitrárias” que danificariam seu crescimento econômico. Por isso a surpresa com o anúncio, mas existe muito mais por trás dessa cooperação (nem tão) inusitada.

Primeiro, os países ainda não entraram no esforço “global” por assim dizer. Quando necessário, quiseram adequar suas reduções aos próprios termos, ou seja, à revelia da comunidade internacional. Não se trata de intransigência, mas pragmatismo – fica o recado para o mundo de que algo precisa ser feito, e será, mas do jeito que os gigantes quiserem. O fato de China nem estabelecer um teto para essa meta, mas apenas dizer que vai reduzir as emissões até 2030, bem vago mesmo, é indicativo disso. Ao mesmo tempo, é histórico por ser o primeiro movimento claro e oficial de ambos em direção a políticas ambientais mais sustentáveis, mas as expectativas podem não corresponder à realidade quando for necessário avaliar os resultados de tais políticas.

E claro que existe um jogo político. O anúncio das metas de redução veio em um grande pacote de cooperação sino-americano, que passa por acordos econômicos e militares. Isso se deu após uma reunião de cúpula dos países asiáticos, e Obama acabou tendo algumas conversas breves e pouco amistosas com Putin por ocasião disso. A relação gélida com Moscou contrasta com a aproximação clara de Washington com Beijing, eleito como o grande rival e parceiro na região nos últimos anos. Mais do que uma novidade bem vinda para o cenário ambiental, essa declaração conjunta pode significar uma mudança drástica mas já em curso nas relações de poder daquela região do mundo.


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Déjà vu

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Para um mundo que passou o século XX acostumado a ver EUA e Rússia (então com outro nome) se bicando, não parece nada de novo ver o pé em que estão as relações entre os dois países hoje. O que começou com um imbróglio diplomático por conta do asilo russo ao analista da CIA Edward Snowden virou uma crise internacional por conta dos eventos na Ucrânia no começo do ano. O cancelamento de visitas entre os líderes foi seguido pela exclusão russa do G8 (que voltou a ser G7 mesmo, sem +1) e troca de farpas, que pelo andar da carruagem não terá fim tão cedo.

Tome-se por exemplo a proibição da venda de um modelo de celular em território russo a partir do ano que vem. Existe uma justificativa técnica, de adequação à legislação russa, mas a exemplo da China, que mantem rigoroso controle sobre sistemas de informação, não seria o caso de limitar a “presença” norte-americana em seu território? Aqui entramos num terreno de especulação, mas a coincidência é inegável.

E no nível protocolar, as consequências podem ser bem mais nefastas. Moscou já disse, por exemplo, que não vai participar da cúpula bianual sobre segurança nucelar de 2016, justificando que prefere participar das reuniões semelhantes no sistema ONU por intermédio da AIEA. Mas é claro que sendo uma reunião proposta pelos EUA e a ser realizada na cidade de Obama, fica claro que há outras motivações. A aproximação com a Sérvia, que tem um passado recente de relação complicada com a Europa e os EUA também indica uma busca por consolidação de esfera de influência e mesmo afrontamento aos aliados ocidentais.

Ao mesmo tempo, o país enfrenta uma crise – a exemplo do Brasil, a economia enfrenta problemas, desvalorização cambial, e a queda no preço de commodities, sua tábua de salvação nos anos de crise. Além disso, as sanções impostas a empresas russas por causa da crise na Ucrânia causam perdas consideráveis. Resta saber se nesse ambiente conturbado prevalecerá o discurso do interesse nacional ou o pragmatismo tão necessário para a distensão e o retorno a relações amigáveis e mutuamente benéficas para os dois gigantes da política internacional. No aniversário dos 25 anos da queda do muro de Berlim, símbolo da Guerra Fria e de todo aquele processo de bipolaridade, os mesmos protagonistas se vêm em lados opostos e com uma nova barreira a ser vencida.


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Problemas de primeiro mundo

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Há algumas semanas tivemos um post sobre eleições e suas consequências. Uma das mais importantes mencionadas era justamente a que ocorrerá amanhã nos EUA, a chamada eleição do “midterm”, quando os eleitores fazem a escolha do Legislativo. Após os eventos da última semana, não tem como não traçar um paralelo com o Brasil.

A impopularidade crescente de Obama por conta da economia e deslizes na política externa podem ter seu preço, com a possibilidade real de os Republicanos tomarem a maioria no Senado (atualmente dos Democratas por seis cadeiras) e expandirem seu domínio na Câmara. Com isso Obama corre o risco de herdar um país ingovernável por dois anos, em que o Congresso terá o poder de barrar quaisquer medidas que desejar e abrir caminho para a oposição nas eleições presidenciais de 2016.

Ora, o que vemos no Brasil? Na semana passada o governo aumentou a taxa básica de juros (indo contra sua propaganda eleitoral) e está em queda de braço com o Congresso por conta da rejeição de um decreto sobre comitês populares. Apesar de ser uma das medidas que efetivamente trariam mais participação política ao cidadão (e satisfazendo a tal “sede de mudanças políticas”), deve ser rejeitado um pouco por obra da oposição (ainda mordida pela derrota na última semana) e um pouco por uma revolta de partidos da base aliada (que querem colher os frutos do apoio no pleito).

Não se trata de uma discussão ideológica, mas política. O que importa não é o conteúdo do ato administrativo, mas o resultado da sua rejeição, visto como danoso ao governo. As situações de Brasil e EUA, nesse momento, são relativamente parecidas. Claro que não podemos igualar a situação de um bipartidarismo de facto como o americano com a farra de 28 partidos que elegemos em 2014. E enquanto Obama está à própria sorte, Dilma ainda tem maioria no Congresso, mas com uma margem de manobra extremamente reduzida comparando aos governos anteriores. Contudo, considerando que governo e oposição se aglomeram em torno de dois partidos, temos algo similar, com a grande diferença sendo a existência daquele monólito chamado PMDB, sempre pronto a agradar qualquer um dos lados em troca de bocados políticos (e que, de certa maneira, faz a coisa toda funcionar já que possibilita a maleabilidade que inexiste no modelo bipolarizado norte-americano).

Na verdade isso é comum a quase todos os sistemas políticos que se proponham a ser democráticos. Mas Obama e Dilma terão anos visivelmente complicados daqui em diante, com um Legislativo arredio e de certo modo interessado apenas nas consequências para o próximo ciclo eleitoral. Podemos dizer que enfrentamos “problemas de primeiro mundo”, mas não no sentido usual de algo frívolo ou que não se compara aos problemas mais graves de países empobrecidos. E quando a atividade política deixa de ser um meio para o bem da comunidade (com a replicação de discursos dicotômicos e emperramento da máquina pública) e se torna um fim em si mesma, seja de perpetuação no poder ou de busca pelo mesmo, a sociedade perde como um todo.


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Levando na conversa

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Com toda a crise do ISIS e a formação da coalizão dos EUA e amigos no Oriente Médio, um assunto que tem passado ao largo do noticiário internacional é a crise do programa nucelar iraniano. Para quem não lembra, é a grande crise geopolítica da região, mais ainda que a questão palestino-israelense, e envolve o delicado balanço de poder da região. Até a eclosão das revoltas da Primavera Árabe, era o grande tema da política norte-americana na região, e não deixa de ser – mas enfrenta complicações justamente por causa dos efeitos das revoltas, e a aproximação da data-limite para sair um acordo.

Como está a situação atual? O Iraque (antigo inimigo do Irã) tem agora um governo pró-Teerã, e enfrenta problemas com o ISIS juntamente dos curdos e com apoio dos EUA. A Síria está dividida em três, com o governo Assad (amigo do Irã), o ISIS (inimigo de todo mundo) e as forças de oposição espalhadas (que deveriam ter apoio ocidental mas estão à míngua). O Irã tem uma aproximação tímida com os EUA após a eleição de Hassan Rohani, mas ainda é tecnicamente um inimigo pelo apoio a Assad, oposição a Israel, entre outros.

Como o acordo do programa nucelar afeta isso? A negociação, envolvendo os membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU, além da Alemanha, busca frear o programa nucelar iraniano oferecendo a contrapartida de retirar algumas das sanções aplicadas ao país por conta do mesmo. Seria a chance perfeita de barganhar um auxílio contra o ISIS – como diz a máxima realista, o inimigo do meu inimigo pode ser meu amigo. O problema é que existe muita desconfiança, especialmente nos EUA (onde até tem quem deseje que a coisa azede). O lobby israelense é forte e qualquer aproximação de Teerã seria malvista. Talvez a coisa funcione indiretamente – por meio, por exemplo, da Turquia, que está cada vez mais ativa na questão do ISIS e poderia fazer essa “intermediação” entre os lados. Trazendo o Irã, indiretamente a Síria estaria envolvida nessa coordenação. Um front unido contra o ISIS é irreal, mas a coordenação é possível, e um dos indicativos (ou, mais ainda, fundamentos) para isso seria a confiança resultante de um eventual sucesso nas negociações do programa nuclear.

De fato, o que temos é uma discussão cercada de mistério e, apesar das possibilidades, com um indicador de fracasso rondando as negociações. Caso isso aconteça, além da possibilidade de mais sanções serem aplicadas, perder-se-ia uma chance de ouro de formar uma aliança eficaz para os envolvidos enfrentarem uma das maiores complicações geopolíticas da história recente.

 


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Há um ano...

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Há um ano

Há um ano, três assuntos principais eram destaque na nossa Página Internacional.

Um dos assuntos envolvia a possibilidade de que o mundo presenciasse, pela primeira vez, um “calote histórico” da dívida pública nos Estados Unidos, pois o Tesouro estava à beira de um colapso, sem acordo e sem recursos para cumprir seus pagamentos ao mercado financeiro. Aos 45 minutos do segundo tempo, na data limite, o acordo passou pelo Congresso estadunidense e foi assinado por Obama, evitando o default do país. Apesar disso, o abalo econômico foi expressivo; e democratas e republicanos seguem no embate que envolve principalmente a reforma de saúde do governo democrata (“Obamacare”), ainda profundamente criticada pela oposição

Outro tema à época envolvia o Prêmio Nobel da Paz, cuja subjetividade leva à premiação de Obama (2009) ou União Europeia (2012)… se no ano passado a aposta na menina paquistanesa Malala foi frustrada com o prêmio sendo destinado à Organização para a Proibição de Armas Químicas (Opaq), em 2014 o comitê organizador, com um pouco de atraso, agraciou Malala Yusafzai, juntamente com o ativista indiano Kailash Satyarthi. Malala, com o seu grande exemplo, apesar de seus apenas 17 anos, se tornou a pessoa mais jovem a ganhar um Prêmio Nobel na história.

Por fim, há um ano o que chamou a atenção mundial foi o anúncio de que a Organização das Nações Unidas (ONU) está sendo processada (!) pela população do Haiti, por meio do Instituto para a Justiça e democracia no Haiti (IJDH), devido à epidemia de cólera que se alastrou no país em 2010 por meio por integrantes das tropas de paz da ONU vindos do Nepal em missão ao Haiti. A doença havia sido erradicada no país há mais de um século, porém, desde 2010, mais de 700.000 pessoas foram infectadas, com mais de 8.500 casos fatais.

Dada a peculiaridade do tema, o assunto se reveste de um teor político sensível, pois as vítimas de cólera não foram compensadas e a ONU, por sua própria natureza, possui teoricamente imunidade internacional. Contudo, o tema segue em aberto e há poucos dias um juiz de Nova York decretou audiçõespara este mês durante as quais será discutido se a ONU pode ou não responder em tribunal neste tipo de situação. A ver se, em um ano, o assunto já terá sido resolvido nas instâncias correspondentes…

Postando e relembrando, este é o “Há um ano…” na nossa Página Internacional!


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