Terra em transe

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Há exatos quatro meses atrás, quando escrevia ainda como leitor da Página Internacional, publiquei um post sobre um assunto que na época muito me interessava. Utilizando a eleição italiana como pano de fundo, discuti sobre a insatisfação com a política que varria a Europa, o que levava ao crescimento do que o jornal Le Monde batizou de “aumento dos cantões ideológicos”.

O fenômeno diz respeito ao aumento de seguidores e eleitores dos partidos de extrema-direita e de extrema-esquerda nas eleições parlamentares europeias. O momento de total descrença na politica e economia nacional e internacional geravam uma enorme crise de representação em relação aos partidos tradicionais.  A busca pelos partidos menores seria uma resposta à essa falta de identidade. No caso italiano, seguia ao aumento dos cantões a expressiva votação em Beppe Grillo, comediante italiano e líder de um partido político populista e sem expressão até as eleições de 2013.

Interessante é que, já naquela época, o fenômeno de descrença total na politica e nos partidos havia começado, e agora nada é mais atual do que essa discussão em nosso país. Os efeitos do descontentamento se expandiram pela Europa e começam a acertar a América Latina. Há duas semanas atrás surpreendeu o Brasil, que viu a maior série de protestos de sua história.

Mas o caso brasileiro é bastante específico. Diferente dos tais cantões, parece que os partidos radicais por aqui estão extintos ou se transformaram em caricaturas. Os que tentaram entrar nas manifestações sofreram. Foram expulsos por manifestantes que defendiam um movimento apartidário (anti-partidário, muitas vezes agressivo e autoritário). Foi a derrota dos partidos com pautas alternativas ao sistema econômico e político dominante. A única vitória foi de uma ou outra personalidade, como Marina Silva e Joaquim Barbosa, alçados por uma parte cada vez maior da sociedade como salvadores da Pátria e futuros presidentes.

Independente das diferenças na importância dos partidos radicais após descontentamentos na Europa e no Brasil, muitas características são idênticas nessas sociedades. Ambas as realidades passaram por momentos de crescimento econômico seguido de uma piora no quadro. No caso da UE, podemos citar o exemplo da Espanha, vista como a menina dos olhos do bloco e país mais promissor até a crise lançar quase a metade da sua população no desemprego. No Brasil, a ascensão social e ao consumo não garantiu a melhoria nos serviços. Ainda temos um péssimo transporte público e calamidades na saúde e educação. 

A melhoria de vida também não garantiu a cobertura dos direitos que deveriam ser de todos. A polícia no Brasil por vezes ainda continua a agir de forma criminosa e anti-democrática, sendo talvez o maior combustível do aumentos das revoltas e da participação da classe média e do apoio da mídia aos protestos, ao sentirem como atua essa corporação ainda nos dias de hoje.

A insatisfação não é só fruto da piora econômica e da falta de serviços e de direitos. É da total impotência da sociedade e dos políticos perante elas. Amputados pelas necessidades de um sistema financeiro maior que a democracia, os países da Europa não mediram esforços em aceitar medidas de austeridade contrárias ao salário minimo, garantias de aposentadoria e renda. A extrema-esquerda e extrema-direita cresceram exatamente sobre isso e de um discurso cada vez mais contrário ao FMI e a UE. 

No Brasil, a politica de toma-lá-da-cá reinante e medidas econômicas beneficiárias aos bancos e alguns ramos do empresariado também tem causado certo desgaste entre os políticos e a opinião pública, ainda mais quando não se observa melhoras reais dentro do país. A FIFA e suas exigências mirabolantes é a cereja do bolo da revolta.  São muitos influenciando os rumos do governo, são poucos observando a própria vontade ser representada.

Existe uma piada bastante popular no mundo das ciências humanas nos últimos dias. Estão se perguntando onde estão os economistas, que durante 20 anos dominaram as discussões e as análises sociais nos fóruns internacionais e em debates televisivos sobre política. Mas na verdade, a falta de argumentos dos economistas segue o silêncio de todos os outros tipos de analistas, incapazes de formular um modelo alternativo ao que agora parece falhar, não conseguir calar as vozes que clamam por profundas mudanças. De quatro meses para cá a situação piorou consideravelmente e não sabemos nada sobre como será o futuro. Devemos começar a pensar desde já: o que fazer? 


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Global Emirates

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Fonte: Economia/Estadão


A foto acima poderia ser enquadrada na nossa seção “Imagem da Semana”. Todavia, é válido ir além dos fatos atuais e procurar um pouco da história por trás do fenômeno que está evidenciado no título do presente texto. Estou falando dos Emirados Árabes Unidos (EAU), país localizado no Oriente Médio, mais precisamente no Golfo Pérsico, o qual não foi abalado pela crise econômica de 2008 e possui nada mais nada menos do que 5% da fabricação mundial de petróleo. É muita coisa!

Volto ao começo. A imagem em questão é do maior prédio retorcido do mundo inaugurado nesta semana em Dubai, um dos sete emirados do país. Em formato de DNA, com 80 andares, o prédio teve um custo total de 272 milhões de dólares, quase 580 milhões de reais. Mundialmente reconhecida por sua arquitetura futurista, Dubai, juntamente com outra cidade-Estado (Abu Dhabi), é exemplo de paraíso terrestre e enquadra-se no que se denominou na academia de “Momento do Golfo” ou “Golfanização do Mundo Árabe”, ou seja, um processo de crescimento econômico da região acompanhado pela intensa internacionalização de sua economia. E é aqui que os EAU se destacam. 

Localização geográfica dos EAU. Fonte: Google


Os EAU são uma federação composta por sete emirados (Abu Dhabi, Dubai, Sharjah, Ajman, Umm al-Quwain, Ras al-Khaimah e Fujairah). Além disso, são grandes aliados dos Estados Unidos e possuem uma tradição de homogeneidade com diferentes etnias e religiões. Representam sucesso de coesão política no mundo árabe e, como dito anteriormente, estão no ranking dos maiores produtores de petróleo do mundo. Por fim, o país é símbolo de inclusão das mulheres e tolerância religiosa, ao contrário do que grande parte pensa sobre o Oriente Médio de uma forma generalizada. 

Obteve sua independência recentemente, somente em 1971, em decorrência da criação de uma identidade emirati presente nas mãos do famoso Sheikh Zayed. Como consequência da estabilidade política interna, os EAU conseguiram se sustentar e tornaram-se modelos de construção nacional, sobretudo com uma forte legitimidade cultural. Nos seus primeiros trinta anos de existência, o país, liderado por Abu Dhabi e Dubai, apresentou uma prosperidade nacional de grandes proporções. Unindo coesão política, social e cultural, os EAU chegaram no início do século XXI como o maior motor de um novo período: o “momentum” do Golfo. 

Com um Produto Interno Bruto (2009) de 200 bilhões de dólares em 2009, os emirados são considerados, em contrapartida com seu território minúsculo, uma potência econômica expressiva. De acordo com dados do “UAE Yearbook” de 2010, a estabilidade comercial tenderá a continuar com as explorações de petróleo e gás. Aliando diversificação, liberalização e globalização, os EAU conseguiram inserção internacional e, hoje, têm participação ativa no mercado de capitais.

Assim, os considerados “apenas emirados” do século XX tornaram-se “Global Emirates” na última década, haja vista que a região passou a assumir responsabilidades econômicas internacionais e seus Estados adquiriram status de potência. A figura do prédio giratório certamente ganhará acompanhantes, pois Dubai atrai turistas por sua peculiaridade urbana em decorrência, sobremaneira, das cifras do petróleo. Pelo pouco que estudei, os EAU são um país peculiar e diferente tanto no Golfo quanto no Oriente Médio. Minúsculo geograficamente, mas gigante nas mais variadas questões, inclusive com arranha-céus.


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O mundo mágico do futebol

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A semana foi movimentada no cenário do esporte mais popular do mundo, com a proximidade da Copa das Confederações (um evento “teste” para a Copa do Mundo do ano que vem e que vai por à prova boa parte da organização do evento e todo o dinheiro desperdiç… digo, investido pelo Brasil) e, com grande estardalhaço, da ida do atual “showman” do esporte brasileiro para um grande time da Espanha. A milionária transferência de Neymar para o Barcelona ocupou boa parte das manchetes esportivas e sua apresentação foi um verdadeiro espetáculo.

Mas… a sensação é de que tem alguma coisa errada. E não é em termos futebolísticos – mesmo que tenha havido outras contratações mais vultosas em termos absolutos e tendo quem diga que foi um negócio da China pelo preço que o Barça pagou. Ou a descoberta de que o negócio possivelmente já estivesse fechado há mais de um ano. O problema aqui é vermos como futebol parece viver uma realidade descolada da vida comum, em uma Espanha que enfrenta crise econômica ainda grave. Nessa semana, por exemplo, apesar dos sinais de recuperação, atestou mais um mês de crescimento negativo na Zona do Euro. Apenas a Alemanha (que curiosamente está mandando no cenário futebolístico europeu) teve crescimento, e ainda assim minúsculo. A crise se reflete no esporte, com jogadores preferindo ir para times menores, mas em centros onde o dinheiro está fluindo, como Rússia ou países árabes. E os times que conseguem torrar grana nos países em crise são justamente os que têm grandes fundos de investimento ou milionários excêntricos por trás – como o Paris Saint-German, novo passatempo dos banqueiros catarianos.

Talvez a questão seja o modelo de gestão, já que os dois grandes da Espanha vivem de muito mais que rendas de torneios e cotas de televisão, mas de sócios e marketing pelo mundo. Os outros times de lá, que vivem o mundo real, acabam penando nesse cenário. Desse modo, é interessante ver o conto de fadas que aparece pela televisão, que contrasta com a realidade de protestos, reforma econômica e insatisfação. Quando falamos em futebol, vemos um dos poucos aspectos realmente globais da sociedade atual (basta lembrar que existem mais países filiados à FIFA que à ONU…). E o mundo todo tem dinheiro de sobra para sustentar essa indústria bilionária. Pena que não possam fazer o mesmo pela Espanha como um todo.


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O papel de cada um

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Parece o tipo de coisa que só acontece na América Latina. Dentre o noticiário bizarro da semana tivemos a notícia de que a Venezuela está importando toneladas de papel higiênico para conter uma crise de abastecimento e evitar que a coisa fique suja por lá. Mas por que um bem tão fundamental de nossas vidas diárias está desaparecendo na Venezuela? 

O problema é bem mais embaixo. Existe uma crise de abastecimento no país, com racionamentos e tudo mais, que em boa parte decorre da política de congelamento de preços (bastante popular em países em crise, como a Argentina, e velha conhecida nossa). O estopim da crise é político:  as eleições, a briga entre governo e oposição e o legado do falecido Chávez. Seu sucessor, Nicolás Maduro, acusa a oposição e empresários de estar movendo uma campanha de desinformação sobre a falta do produto, que leva multidões a correrem atrás desse item de tamanha importância. Do outro lado, a reclamação é justamente sobre a política de preços: dizem que as indústrias estão operando a toda capacidade, mas não consegue atender a demanda por falta de insumos e a instabilidade do câmbio. A culpa seria do preço fixo, que reduz o lucro e aperta o produtor, que acaba rendendo menos ou simplesmente saindo do mercado – e isso vale dos pequenos agricultores às fábricas de papel que vão parar nos rolos. 

É muito difícil analisar a situação vendo de fora, mas a hipótese do desabastecimento é bem mais plausível que uma conspiração opositora. Por mais que a intenção seja louvável, políticas como congelamento de preços sempre dão resultado ruim em longo prazo. Pode parecer pouca coisa, mas a falta de um item de primeira necessidade é um sinal grave de fragilização da cadeia de produção, que vai muito além da indústria. A Venezuela compra boa parte de seus alimentos e outros gêneros de fora; uma safra ruim somada a problemas de produção e eventual queda nos preços do petróleo podem arruinar o país. Claro que existem inúmeros fatores que afetam isso, mas ter estruturas amparadas no mercado de petróleo é um risco muito grande e que Maduro precisa resolver se enfrenta ou pensa em novas alternativas. E por isso a tensão política na Venezuela ainda vai se sustentar por algum tempo, pois estamos falando de um choque muito forte de personalidades e projetos de nação, que vão alem da análise econômica. O governo e empresários estão se reunindo para tentar chegar a um consenso; enquanto isso, haja papel.


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Visitas amigáveis

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Fonte: Roberto Stuckert Filho/PR


Dando continuidade aos assuntos mais relevantes da presente semana, vamos focar um pouco aqui na América do Sul. Nos últimos três dias, Nicolás Maduro, atual presidente da Venezuela, visitou e manteve diálogo com Mujica, no Uruguai, Kirchner, na Argentina, e Rousseff, aqui no Brasil. Foi a primeira grande viagem internacional do líder venezuelano após o falecimento de Hugo Chávez e sua tomada da posse no cargo em meados de Abril. 

O giro pela região evidencia um duplo processo. Primeiro, é uma forma de Maduro ratificar a legitimidade de sua conturbada eleição e passar uma imagem positiva da Venezuela ao Mercado Comum do Sul (MERCOSUL). Segundo, além de ser uma visita usual, é uma maneira do presidente atestar seu comprometimento com o bloco regional, fato que ficou notadamente reconhecido durante estes dias com a assinatura de diversos acordos, dentre eles os que tangem cooperações energéticas com os uruguaios e convênios de inclusão social e alimentícia com os argentinos.

No caso específico do Brasil, os acordos versaram sobre a construção de fábricas em território venezuelano por uma empresa brasileira nas áreas de fertilização e derivados do petróleo. Além disso, debates em torno do comércio de produtos básicos como açúcar, óleo, farinha de trigo e leite foram colocados na pauta, tendo em vista que desde o ano passado faltam esses produtos nas prateleiras dos supermercados da Venezuela. Nada melhor do que buscar soluções no próprio MERCOSUL. Tarefa das mais simples para um problema bem complexo. 

Saindo da seara econômica, a qual é majoritária no bloco regional, as nuances políticas da retirada do Paraguai das negociações em 2012 também fizeram parte das reuniões de Maduro com Mujica, presidente uruguaio que é o atual presidente pro tempore do MERCOSUL. Defenderam a “re-entrada” dos paraguaios na integração e disseram que o período de instabilidade já passou.

Ademais, o futuro do MERCOSUL é marcado por incertezas. Sempre alvo de críticas desde sua criação e posterior institucionalização em 1991 (Tratado de Assunção) e 1994 (Protocolo de Ouro Preto), respectivamente, a entrada da Venezuela no bloco mostrou-se positivamente quando se fala em anseios econômicos, haja vista que o país tem porte de destaque, principalmente na área petrolífera, para trazer benefícios à região. Entretanto, do lado político o processo vem se mostrando contraditório, principalmente com a saída do Paraguai. 

A Venezuela pós-Chavez tem um papel central para o futuro do MERCOSUL. A ligação entre a tríade Brasília, Buenos Aires e Caracas é vital para o desenvolvimento da integração, assim como afirmado pelo muito conhecido Professor Amado Luiz Cervo, o qual atesta que a adesão venezuelana é um modo mais adequado de corrigir as assimetrias regionais. Finalmente, falando agora de maneira restrita ao Brasil e à Argentina, ambos acertaram um acordo de cooperação nuclear no último dia seis de Maio. Lembrando que foi justamente essa questão armamentista um dos estopins entre os dois países no fim da década de 1980 para chegarem a uma colaboração que iniciou a formalização do MERCOSUL enquanto organização internacional juridicamente reconhecida.


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De olho na OMC

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Comentamos sobre isso há alguns dias, e nessa semana saiu o resultado. O embaixador Roberto Azevêdo é o novo diretor geral da Organização Mundial do Comércio. O que significa ter um brasileiro na chefia da OMC? A rigor, nada em especial – é apenas mais um dos nossos assumindo um cargo em organização internacional e tecnicamente seu comprometimento é com a organização, não seu país de origem. 

Comparando com outras instituições, porém, foi significativo. Existe um acordo implícito originário lá dos tempos de Bretton Woods de que o presidente do Banco Mundial seja sempre um norte-americano e do FMI um europeu. Mais condomínio de poder, impossível. No caso, a OMC é herdeira de uma organização que nem saiu do papel, a OIC, que foi substituída às pressas pelo GATT, e tem grande valor justamente por ser uma instituição multilateral, em que é necessário o consenso de todos pra tomar decisões e boa parte das ações defende interesses de países em desenvolvimento. 

Bacana, e claro que vai haver um ufanismo por algum tempo. Afinal, todo o aparato da diplomacia nacional foi empregado para auxiliar nessa busca, e se comentando que a escolha é resultado de uma mudança de mentalidade. Apesar de o Brasil representar coisa de 1% do comércio mundial, a ideia é ressaltar a possibilidade de sermos um player global respeitado. É claro que existe muita politicagem nesse meio, e Azevedo é um negociador extremamente gabaritado e capaz para essa função, então sua eleição agrada gregos e troianos, colocando um administrador eficaz ao mesmo tempo em que representa essa vontade do Brasil de ser um líder significativo. A questão é, se houve tanto empenho do Brasil pra isso, alguma coisa quer ganhar em troca. Prestígio? Vantagens? E aqui entram os problemas. 

A tarefa do embaixador é difícil, de tentar ressuscitar a Rodada Doha (que nem chegou a “viver”, pra dizer a verdade) e resolver o caos dessa terra de ninguém que virou o comércio internacional desde a segunda metade dos anos 2000. A OMC surgiu com a ideia de liberalizar e tornar mais justo o comércio mundial, mas hoje em dia compensa muito mais para os países entrarem em acordos bilaterais, se fechar em blocos e que seja cada um por si. Desde que a “rodada do desenvolvimento” emperrou, a OMC não mete medo em mais ninguém e nunca se alcançaram avanços significativos como nas Rodadas Tóquio e Uruguai.

Pra piorar, guardando as devidas proporções, me lembra o caso já comentado aqui anteriormente do Conselho de Direitos Humanos da ONU, que já foi presidido pela Líbia de Kadaffi. O Brasil tem seus contenciosos contra países protecionistas, mas também é um dos que mais foi acionado contra por utilizar medidas meio sutis (ou não) de resguardar sua economia (e isso tem suas consequências: na eleição, por exemplo, os europeus apoiaram em bloco o candidato mexicano). Nada mais justo, cada país defende seu lado. Mas isso mostra como o sistema da OMC, mesmo tendo seus “dentes”, pode vir a perder muita credibilidade nos próximos anos com essa tendência de regionalização. E ter na liderança um indivíduo cujo país enfrenta severas dificuldades logísticas e de produção com o uso de medidas protecionistas definitivamente não é uma boa imagem para a organização. Azevêdo vai ter muito trabalho pela frente, pelo jeito.


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Jardinagem econômica

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O noticiário econômico dessa semana é contrastante. Enquanto o mundo se assombra com um recorde histórico de queda de juros do Banco Central Europeu (BCE), no Brasil, andou acontecendo bem o oposto. A comparação desses dois casos é muito interessante pra entender essa dinâmica de taxas de juros, que muita gente vê no jornal e não entende bulhufas. 

A palavra-chave aqui é inflação, aquele mal que as novas gerações nem desconfiam que exista, mas é um trauma pra quem tem mais de 30 anos. Basicamente, existe muito dinheiro circulando e ele perde valor – e os preços das coisas aumentam. Quando em alta, e combinada com baixa produção, desemprego, etc., é um pesadelo, e quando muito baixa também (a chamada deflação, quando há uma queda tão grande de preços que em médio/longo prazo o comércio “quebra” por falta de consumo). 

Ok, e o Brasil e a União Europeia com isso? Aqui entra a taxa básica de juros. É a partir dessa taxa básica que são calculadas as outras, como de cartões de crédito e moradia. O BCE reduziu essa semana sua taxa para um nível histórico de inacreditáveis 0,5%. Significa que é menos atrativo investir nos países do Euro (por que o dinheiro rende menos), mas as pessoas vão colocar mais dinheiro em circulação (já que não compensa deixar parado) e consumir mais. O problema da crise na Europa é justamente uma queda de preços (a inflação está em baixa por lá, cerca de 1,7%), e a redução dessa taxa tem a intenção de… aumentar a inflação! Realmente os problemas de primeiro mundo são muito diferentes dos nossos. Por que aqui no Brasil a taxa de juros aumentou (após alguns anos de queda histórica também, diga-se de passagem), para os atuais 7,5%. O problema é o oposto – para respeitar o limite anual das metas de inflação, de 4,5% (estourado, em cerca 6,59%), o país precisa frear um pouco o consumo e controlar os preços. 

Nada é perfeito. No caso do BCE, os problemas da Europa são muito maiores (como se viu nos protestos violentos de ontem), envolvendo a capacidade de produção e o controle dos gastos do Estado, que mexe no vespeiro do bem-estar social. Apenas reduzir a taxa de juros não teria outros efeitos práticos sem outras medidas de incentivo, ou mesmo de redução da austeridade fiscal. Já no Brasil, o cenário de gastos elevados e inflação galopante é terrível para o crescimento do país. Porém, a opção foi pelo “menos pior”, já que a outra seria valorizar o Real e controlar a inflação por meio da taxa de câmbio – que invariavelmente causaria uma fuga de divisas: se já tivemos um semestre com gastos recordes no exterior, imagine com um Real forte. 

Isso tudo mostra como políticas macroeconômicas são um emaranhado de remédios amargos, posições conflitantes e fatores diversos que tornam um pesadelo a vida dos gestores. Por outro lado, ao vermos as soluções opostas tomadas pelos dois lados para um mesmo problema, confirma-se o velho adágio de que a grama do vizinho é sempre mais verde.


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Comemorando?

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Que hoje foi feriado por conta do Dia do Trabalho todos sabemos e apreciamos, é claro. Mas será que essa data pode ser vista como ‘comemorativa’ pelo mundo?

O 1º de maio é simbólico desde 1886, quando nos Estados Unidos os movimentos de luta pelos direitos dos trabalhadores ganharam força – contudo, comemoração talvez ainda não seja o tom que marca esse dia. Antes de comemorar, trata-se principalmente de reconhecer os esforços trabalhistas por melhores condições, em uma busca que persiste até os dias de hoje.

Impressionantes denúncias de trabalho escravo em Bangladesh desafiam qualquer princípio de justiça social que se acredite consolidado em pleno ano de 2013. Recordes históricos de desemprego assolam o continente europeu – especialmente a Espanha – e reavivam inquietudes sobre o futuro econômico de vários países.

Pela primeira vez na história, mais de seis milhões de trabalhadores espanhóis (em relação a uma população total de aproximadas 47 milhões de pessoas) encontram-se desempregados. [O assunto foi tratado de forma similar no ano passado no blog, em cujo texto as informações se mostram ainda atuais.]

Na Grécia, uma greve geral marcou o dia de hoje, especialmente após anúncio do governo de transferir o feriado para a próxima semana. O protesto, contudo, resume a insatisfação generalizada em relação aos cortes orçamentários recentemente aprovados pelo governo – os quais preveem, até o final do próximo ano, a demissão de 15.000 funcionários públicos (!).

Protestos também em vários outros países, tais como Turquia, Taiwan, Filipinas e Coreia do Sul, refletem as dificuldades enfrentadas em diferentes contextos, alinhando-se com o fator comum de hoje celebrar internacionalmente o Dia do Trabalho.

Comemorar talvez não seja o melhor termo para caracterizar os ânimos desta data, pelo menos não por enquanto. Trata-se realmente de reconhecer as melhoras alcançadas e lutar por mudanças substantivas em áreas frequentemente não priorizadas pelos governos. Com uma crise econômica que ainda assombra a Europa, compreende-se facilmente porque as notícias revelam uma perspectiva muito mais negativa que positiva em relação ao 1º de Maio.

Esperemos que, no futuro, tenhamos mais razões para celebrar que para criticar, resultado de todos os esforços de reivindicação e proposição de melhoras por parte dos trabalhadores pelo mundo afora… 


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A dama que era rainha

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Hoje o mundo lamenta (apesar de ter quem comemore) a passagem da primeira mulher (e até agora única) a ocupar o cargo de primeira-ministra da Grã-Bretanha, Margaret Thatcher, que faleceu aos 87 anos de derrame hoje pela manhã. Quando grandes personagens morrem, a repercussão é sempre sobre sua importância e legado. Thatcher estava afastada há mais de 10 anos da vida pública por motivo de saúde, então realmente não tinha aquela importância na atualidade… mas não é à toa que ela geralmente é referida como uma das pessoas que acabou com a Guerra Fria, com gente da estirpe de Reagan, o papa João Paulo II e Gorbachev (inadvertidamente, mas enfim), o que não é pouca coisa, e sua história é muito rica. 

No governo de 1979 a 1990, por três mandatos, a conservadora Thatcher fez de tudo. Conseguiu que um apelido pejorativo da imprensa soviética fosse adotado pelo resto do mundo, e ganhamos assim a “Dama de Ferro”, antes apenas o nome de um instrumento de tortura. Contribuiu para a queda da URSS ao “aprovar” Gorbachev como interlocutor aceitável com o “demônio” que considerava o governo soviético. Escapou de um atentado intacta e com isso apertou a repressão ao terrorismo político do IRA. Conseguiu reverter uma onda de aprovação negativa e retomar o nacionalismo britânico de um jeito que não se via desde os tempo do Churchill (e com um pouco de ajuda da atrapalhada ditadura argentina) ao vencer a palhaçada da guerra das Malvinas. Jogou a pá de cal no domínio britânico de Hong Kong ao assinar o acordo que confirmava a devolução da ilha para a China em 1997. Isso pra ficar em seu legado na história mundial. 

Afinal, sua principal herança foi no âmbito interno. Thatcher era amada e odiada (quando terminou o mandato, em 1990, estava brigada até com o próprio partido) na mesma proporção, ao salvar a economia britânica, controlando a inflação e valorizando a moeda, ao mesmo tempo em que arruinava setores ineficientes, se bicava com sindicatos e nadava em privatizações. Talvez sua maior sacada tenha sido com relação à União Europeia. Ela era totalmente contra a adesão britânica, e parte da rejeição do país ao Euro com certeza veio da lembrança da grande ministra. Quando vemos a situação do bloco hoje, não é de espantar que uma política durona e perspicaz pudesse estar certa desse modo. Claro que ela não acertou sempre – era contra a reunificação da Alemanha, que hoje vai bem obrigado. 

De todo modo, hoje se encerra um capítulo de um dos períodos mais agitados da história. Os feitos e a herança política de dela, seja na austeridade que legou ao governo de seu país, seja na figura de mulheres de personalidade forte e questionadoras no poder, são duradouros e vão afetar a história por muito tempo, dessa dama que parecia muito mais com uma rainha de jogo de xadrez.


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BRICS: além da ficção?

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Nesta semana, em Durban, na África do Sul, foi realizada a V Cúpula dos BRICS. Intitulada “BRICS e África: Parceria para o Desenvolvimento, Integração e Industrialização”, debateu-se desde a promoção do desenvolvimento inclusivo e sustentável até contribuições para a paz e a segurança internacionais. Merece destaque, no contexto de crise europeia e de estagnação da economia mundial, a iniciativa de se criar um banco dos BRICS para financiar obras de infraestrutura nesses países. 

Isso significa que o acrônimo, já que não é propriamente um bloco ou organização, está avançando institucionalmente? Não. Por enquanto, os números impressionam. O PIB combinado dos BRICS atingiu 15 trilhões de dólares em 2012, o que representa a 21% do PIB mundial (em valores nominais), e o comércio entre seus países alcançou 282 bilhões de dólares no ano passado (em 2002, esse montante era de aproximadamente 27 bilhões de dólares). 

Qualquer análise de relações internacionais, hoje, leva em consideração a projeção mundial dos BRICS. Estudos prospectivos, como os do National Intelligence Council, tratam da emersão de um arranjo multipolar global, com os Estados Unidos menos dominantes e a ascensão, sobretudo, de China, Rússia e Índia, em que as instituições e estruturas tenderão a se adaptar à nova configuração geopolítica. Nesse sentido, melhorar a coordenação entre os países dos BRICS é questão chave para o futuro. 

Mas é também um ponto problemático. E, aqui, peço licença ao leitor para me intrometer no texto. Com base na experiência pessoal, pois fiz parte da delegação do Brasil em uma das reuniões preparatórias para a atual cúpula – III Reunião de Altos Representantes Responsáveis pela Segurança Nacional dos BRICS, 10 e 11 de janeiro de 2013, Nova Délhi –, penso que os BRICS ainda são uma ficção, uma narrativa imaginária sobre uma realidade (ainda) inexistente. Parafraseando o historiador britânico E. H. Carr, os interesses espreitam os bastidores da política internacional: o que realmente se quer nunca é dito explicitamente. 

A reforma das instituições de governança global (ONU, FMI, Banco Mundial, etc.) é traço marcante dos discursos dos BRICS. Na reunião de que participei, ouvi, com entusiasmo e em tom uníssono, de todos os representantes a necessidade e urgência de se realizar essa reforma. À noite, durante o jantar, disse a diplomatas sul-africanos e indianos que, enquanto Rússia e China não declararem apoio à inclusão de Brasil, Índia e África do Sul no Conselho de Segurança da ONU, persistirá a abstração discursiva. 

E por que não o fazem? Por razões históricas e circunstanciais, sob a ótica inextricável da luta pelo poder. China e Rússia disputam a mesma zona de influência, seja na eurásia, seja na África. China e Índia permanecem sobre a sombra do conflito fronteiriço pelo Tibete do Sul. Dois exemplos para ilustrar essa situação: os altos postos diplomáticos, na Índia, são ocupados por especialistas em China e, em diversos fóruns ou reuniões mundiais, é preciso negociar separadamente com chineses e indianos, como no caso da Conferência da União Internacional das Telecomunicações que ocorreu no ano passado, em Dubai, nos Emirados Árabes. Além disso, à medida que a população dos dois países superar a pobreza, haverá maior pressão sobre recursos hídricos, energéticos e alimentícios, tanto interna quanto externamente, e a rivalidade sino-indiana poderá agravar-se. 

Índia e Rússia também se envolvem em um jogo delicado, em que ambos tentam conter e contrabalancear o poder chinês e, ao mesmo tempo, o do outro. Na área de defesa, o governo indiano evita a dependência de produtos militares russos promovendo, adicionalmente, acordos com Estados Unidos e Europa. Brasil e China são fortes competidores e travam disputas nas áreas financeira e comercial, particularmente no chamado entorno estratégico brasileiro, envolvendo a América do Sul e a África. Há, ainda, iniciativas unilaterais, como a proposta de resolução russa encaminhada à Assembleia Geral da ONU para regulamentar o espaço cibernético, que não contam, necessariamente, com o apoio integral dos BRICS – o Brasil é contrário. 

Os BRICS devem seguir, em curto e médio prazos, como um acrônimo e ponto. Ele representa um agregado de características similares e de diferenças silenciosas, ao qual se acrescentam os interesses velados. Os ganhos são muito mais comerciais do que políticos, e os problemas de institucionalização e de falta de coordenação de alto nível permanecem como um entrave para avançar em sua consolidação. Por isso, a ficção dos BRICS é, na verdade, sua realidade: muita imaginação, pouca ação.

[Postagem do colaborador Giovanni Okado]


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