Jeitinho da China

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Digamos que é o que acontece quando colocamos o jeitinho brasileiro num negócio da China. Trocadilhos e piadinhas à parte, essa expressão parece servir bem para um caso curioso. Isso por que a China se tornou um dos maiores consumidores de carne brasileira do mundo.

Mas espera aí… eles não embargaram a compra de carne daqui por causa de uma denúncia de casos de vaca louca? Sim, a China não compra mais carne bovina daqui. É aí que entra o jeitinho. Oficialmente, o maior comprador não é a China, e sim Hong Kong.

A região administrativa faz parte da China, mas tem governo próprio, então faz o que bem entende no comércio com o Brasil. E toda aquela carne que compram (um negócio bilionário) vai para o continente, sem nenhum tipo de empecilho. A China continua batendo o pé e prorrogando ao máximo a suspensão do embargo iniciado no ano passado; ao mesmo tempo, o mercado chinês continua sendo um mercado em expansão (e considerado até estratégico) para nossos produtores. 

Claro que uma pressão política não faz mal e o vice-presidente Temer já está na China para, entre outras coisas, negociar a liberação da venda (que parece pouco provável). Aqui vemos algumas das grandes contradições dos BRICS, os países que buscam parceria e alguma coesão em nível internacional, mas quando são confrontados com questões de sobrevivência básica como o mercado de commodities, começam a chutar a canela uns dos outros. 

Enquanto isso, a China não compra a carne brasileira. Mas continua comprando (mesmo por quê o mercado cresce demais por lá, e não podem depender de extravagâncias como carne de cachorro). E continuamos vendendo. Haja jeitinho…


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Dez anos do PBF: há o que comemorar?

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Conforme destacado na “Imagem da Semana”, no último dia 30 de outubro o Programa Bolsa Família (PBF) completou dez anos. Lançado ainda no primeiro ano do governo do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o PBF é uma iniciativa de transferência de renda direta para o benefício de famílias pobres ou em situações de extrema pobreza. Além de objetivar o alívio da condição econômica, o programa procura prover direitos sociais básicos como saúde e educação para famílias com baixo poder aquisitivo. 

Há o que comemorar? Sim. Pelo menos é o que dizem as principais notícias e publicações divulgadas nesta semana. Mas não podemos esquecer de que ainda permanecem muitas falhas nas transferências de renda do governo federal. Há cerca de dois meses foram divulgados alguns casos de servidores públicos com um considerável contracheque, mas que recebiam o BF. Dez prefeitos e mais de dois mil vereados recém-eleitos receberam o BF de forma indevida no começo de 2013… E ocorreu até o caso de uma moradora do Espírito Santo que ganhou um milhão de reais na loteria e continuou sacando o benefício…

Problemas ocorrem aos montes, diga-se de passagem. Mas em relação ao PBF, tais questões são mais concernentes à forma como se dá a administração pública para com a fiscalização das transferências de renda. E, convenhamos, isso é um problema da máquina pública brasileira como um todo e não somente do Ministério do Desenvolvimento Social (MDS) ou da presidente Dilma Rousseff. A principal crítica que se faz ao PBF poderia ser feita a qualquer iniciativa governamental de grandes proporções. Infelizmente, o histórico brasileiro não ajuda. 

Atualmente, o PBF atende cerca de 13,8 milhões de famílias brasileiras. Sabe o que é isso? Aproximadamente um quarto de toda população! É muita gente, sendo que o valor médio do benefício é de 152 reais e espera-se um orçamento de 24 bilhões de reais para 2013. Somadas grande parcela populacional com imenso montante financeiro, é impossível ter 100% dos casos satisfatórios. Um dos problemas relatados reside no fato de recebedores do BF não trabalharem porque recebem o benefício. Isso já foi desmistificado, pois sete em cada dez beneficiados exercem funções empregatícias. Restam 30%, mas, como mencionado anteriormente, há casos e casos. Como haveria de ser, esses exemplos servem de manobra para opositores do governo criticarem o PBF, basta ver o que a Revista VEJA sempre faz.

Os dados lançados pelo governo através do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) em estudo publicado no livro “Programa Bolsa Família – uma década de inclusão e cidadania” trazem um marco positivo para os dez anos da iniciativa. De acordo com a publicação, o PBF reduziu de 15 a 20% a desigualdade de renda no país, diminuiu as diferenças entre as regiões (até porque o Nordeste concentra grande número dos casos), diminuiu a pobreza crônica de 14 para 3% (mais de 22 milhões de brasileiros abandonaram a miséria) e decresceu o número de óbitos infantis em virtude de más qualidades de saúde e desnutrição. 

Qualificar ou criticar negativamente o PBF deixou de ser discurso ideológico e de partidos. Exemplo disso é que o próprio Aécio Neves, provável candidato do PSDB para as próximas eleições presidenciais, apresentou proposta para fazer do programa uma política de Estado, ou seja, algo duradouro e perene, sem provável extinção. É um sinal de que, a par dos inúmeros problemas que ainda permanecem, há o que comemorar. 

A maioria aqui no Brasil não nasce em berço de ouro. Dizer que todos têm a mesma oportunidade, seja profissional, financeira ou quaisquer outras, é pura demagogia. Minha crítica pessoal continua residindo no modo de como o PBF deve ser mais fiscalizado e aprimorado. Mas não há dúvidas sobre seus benefícios. E para quem acha que a transferência de renda é uma política tupiniquim, saiba que na Suécia e nos Estados Unidos existem tais políticas desde a década de 1930.


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A (Des)Igualdade Econômica entre Gêneros

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Regularmente, o Fórum Econômico Mundial cumpre um papel importante para a compreensão da desigualdade de gênero. O Relatório Global de Desigualdade entre Gêneros (Global Gender Gap) é um dos maiores termômetros das desigualdades econômicas persistentes entre homens e mulheres de 135 nações diferentes.

 

Ferramenta importante para pesquisadores qualificados, o relatório também pode servir como uma consistente base para o entendimento da situação atual de desigualdade de gênero para interessados no tema. Os seus resultados, embora anuais, retratam parte e do desenvolvimento dos direitos da mulher e sua inserção no mercado de trabalho no século XX.

 

Como exemplo, podemos ver que os países melhores classificados, com a menor presença de desigualdades, são os escandinavos. Nesses locais, as leis jurídicas que garantiram a igualdade civil e politica entre homens e mulheres datam do início do século passado. A Suécia, por exemplo, tem em sua Constituição a igualdade entre sexos desde 1905. A Islândia é o maior exemplo de sociedade igualitária desse tipo, sendo o único país do mundo em que o índice registra uma igualdade completa entre homens e mulheres.

 

Entre os bons exemplo de construção de uma sociedade mais justa estão os mercados mais desenvolvidos do mundo. Segundo especialistas, países com maior desenvolvimento econômico aparentaram ter o maior desenvolvimento rumo à igualdade. Os economistas dizem que a procura pelas melhores mentes,  independente de particularidades preconceituosas, é o combustível dessa evolução nesses locais.

 

Entretanto, o resultado do último relatório não é tão otimista. A diminuição da desigualdade desacelerou nos últimos anos. Em cinco anos, houve apenas uma evolução de 10% na redução da desigualdade mundial. Enquanto isso, ao redor do mundo a diferença entre homens e mulheres ainda beira a casa dos 60%.

 

No Brasil, a desigualdade sofreu uma grande diminuição em menos de dois anos. O país saltou 20 posições no ranking, passando a ser a nação número 62 em igualdade de gênero, entre 135 países. Tudo isso garantido pela inserção de diversas mulheres em cargos de poder no governo Federal desde a eleição de uma presidente mulher.

 

Mas devemos ficar alertas ao comemorarmos alguns números. Se a nova política formação de ministérios inciada por Dilma tem o poder de indicar um certo empoderamento feminino no país, ele também mostra a fragilidade das medições utilizadas pelo Fórum e a sua metodologia. Afinal, a desigualdade de gêneros não pode ser apenas medida por fatores econômicos e a conjuntura politica de um país.

 

A formação e os costumes de uma sociedade devem também pesar para esse tipo de análise. O nosso país é campeão mundial em exploração sexual e prostituição infantil. Infelizmente, esse tipo de crime contra a mulher, muitas vezes respaldado pela sociedade, não entram nesse cálculo. Metodologias estritamente economicistas por vezes impedem a visão de algumas más práticas sociais, tais como o machismo elevado ou a cultura do estupro, presente em diversas nações.

 

Mesmo assim, não podemos deixar de pontuar que há situações ainda muito piores que a brasileira, em que a mulher ainda se encontra fora da educação formal, do mercado de trabalho e muitas vezes da vida pública e da política. Em outros locais, como o Marrocos, pode sofrer uma dupla punição em um país em que o homem é livre para ter relações sexuais com qualquer mulher, muitas vezes á força, enquanto elas podem ser condenadas à morte por sexo fora do casamento, mesmo em casos de estupro.

 

Os indicadores de desigualdade econômica apontam para um mundo menos desigual no futuro, mesmo que essa mudança esteja desacelerando. Ainda mostram que as primeiras sociedades estão chegando a igualdade plena, antes presente apenas nos sonhos de alguns. Entretanto, devemos esperar que, como o Fórum Econômico já o fez, organizações de estudos sociais insiram em suas pautas a realização de pesquisas tão completas quanto é a da situação de desigualdade econômica de gênero,  além da economia somente, mas também de ordem jurídica e social.

 

Infelizmente, o espaço possível de uma postagem não seria suficiente para cobrir todos os dados formados por esse estudo tão interessante. Aos que se interessarem mais profundamente pelo assunto, segue o estudo completo e a classificação dos países de acordo com a igualdade de gênero presentes em cada um.

 

Estudo completo: The Global Gender Gap Report. (Clique no nome da pesquisa).

 

Classificação geral das nações: Ranking de igualdade de Gêneros.  (Clique no nome do ranking).

 


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Calcanhar de Aquiles estadunidense

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Pra quem não é da área de economia, entender o impacto da discussão sobre o aumento do teto da dívida pública dos Estados Unidos não é nada simples. As variáveis são muitas e os jargões econômicos muitas vezes não são suficientemente autoexplicativos. A questão é que, em se tratando de Estados Unidos, um assunto predominantemente interno como esse revela o calcanhar de Aquiles de Obama e possui, na verdade, implicações internacionais diretas no mundo inteiro.

Manchetes anunciam a possibilidade de que o mundo presencie o “primeiro calote da história” do país, já que o Tesouro norte-americano ficará sem recursos para cumprir seus pagamentos na falta de aprovação de um acordo possibilitando a tomada de recursos emprestados do mercado financeiro – impasse que persiste no governo desde maio, quando foi alcançado o limite da dívida atual. Sobrevivendo com recursos extraordinários para honrar compromissos, há quase duas semanas vemos um país com o governo paralisado (bem como outras instituições), já que o dinheiro se esgota e o prazo para que uma solução seja anunciada se aproxima: 17 de outubro, quinta-feira.

Duas considerações são necessárias para (começar a) entender o impasse. Em primeiro lugar, Obama é democrata e uma de suas principais bandeiras na campanha eleitoral era (e ainda é) a reforma da saúde, incluindo quase 95% da população sem planos de saúde em uma espécie de “SUS compulsório” [Reveja post de 2010 no blog a respeito aqui]. Os republicanos, oposição já naturalmente, opõem-se fortemente ao que foi apelidado de “Obamacare”, argumentando ser esta lei uma afronta ao princípio de livre arbítrio (!), obrigando os cidadãos a terem um plano de saúde.

Em um país do porte dos Estados Unidos, perceber a inexistência de um sistema público de saúde e a carência da maior parte da população em atendimento gratuito revela uma situação caótica e que comprovadamente se tornou um dos temas prioritários da gestão de Obama. Contudo, e aqui vai a segunda consideração importante, os dois partidos assumem posturas com frequência intransigentes e, querendo ou não, precisam negociar, já que o comando do Congresso é dividido, sendo que os republicanos representam maioria na Câmara e os democratas no Senado.

Um Obama que não é dotado de poder para desconsiderar estas instâncias se vê com o calcanhar atado diante de negociações atravancadas: por um lado, republicanos querendo a todo custo ter esse aumento do teto da dívida vinculado a grandes cortes no orçamento (incluindo explicitamente o adiamento ou a eliminação do financiamento à Saúde previsto na lei de reforma!). Por outro lado, democratas insistindo em cortes menores para garantir a manutenção dos benefícios sociais à população, com pouca margem de manobra para negociar.

Tendo rejeitado a última proposta republicana de elevação do teto da dívida apenas temporariamente, Obama arrisca (ou aposta) na busca de uma solução duradoura antes do prazo estipulado, já, contudo, sofrendo com as consequências econômicas da falta de aprovação do novo orçamento, revivendo a mesma situação de 2011, quando a polêmica acerca da reforma da saúde ainda era recente e predominava em qualquer debate.

Sensacionalismos à parte, o desfecho desta novela estadunidense não tardará a ser desenhado e possivelmente trará à tona um certo nível de diálogo que evitará, na última hora, o calote, evitando impactos econômicos estrondosos no mundo inteiro, especialmente nos países em desenvolvimento. Entretanto, não deixa de ser impressionante o impacto que o tema da reforma da saúde proporciona nos interesses políticos do país, e a forma como tais interesses afetam diretamente o desenrolar econômico deste gigante. Gigante cuja principal fraqueza parece se mostrar, justamente, de dentro para fora… 


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Homens ao mar, e à própria sorte

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Hoje está repercutindo o naufrágio de um navio de refugiados do Quênia e da Eritreia, em que cerca de 90 pessoas morreram. Não se sabe a causa, mas a história é familiar – embarcações geralmente malcuidadas e superlotadas que trazem refugiados buscando melhores condições de vida, como as folclóricas lanchas cubanas rumo a Miami, mas muito comuns especialmente partindo do norte da África e cruzando o Mediterrâneo em direção a França, Itália e Grécia. Nesse caso, a ação da guarda costeira italiana em salvar os náufragos foi louvável, já que nem sempre isso acontece. 

A recusa sumária a refugiados é considerada infração do direito internacional. A Grécia, por exemplo, já teve problemas envolvendo denúncias recentes de estar desviando barcos de refugiados da Síria. Porém, a grande dificuldade nesses casos acaba sendo a precariedade da embarcação e a quantidade de pessoas que buscam uma nova condição de vida. 

O problema fica mais grave quando o refugiado parte para uma aventura ainda mais arriscada, como clandestino. Várias histórias de horror envolvem a morte de pessoas nessa situação, como a do navio MC Ruby, que até virou filme, em que refugiados ganeses foram mortos em 1992 pela tripulação ucraniana para que não pagassem a multa de trazer clandestinos para um porto europeu. Mas não precisa ser necessariamente um privilégio de países africanos – em 1996 o caso do Maersk Dubai trouxe algo semelhante, mas eram refugiados romenos que foram atirados em alto-mar pelo comando taiwanês do navio (e que resultou na revolta e denúncia da tripulação filipina, que acabou protegendo e salvando outro clandestino da morte). 

Essas histórias mostram o pior que o ser humano pode fazer. Basta lembrar que a maior tragédia náutica da história foi o afundamento de um navio alemão na 2ª Guerra Mundial, o Wilhelm Gustloff, com mais de 10 mil refugiados alemães a bordo e torpedeado impiedosamente por um submarino soviético. Isso passa pela crueldade para com os refugiados, desde o interesse econômico (de evitar uma multa e impedir a entrada de novas pessoas em uma economia em crise) e pela própria origem da migração: quando pessoas querem fugir para países com a economia mal das pernas como a Itália, a Grécia, ou mesmo países em situação de conflito como o Iraque (para onde muitos sírios estão indo), significa que a coisa está feia. 

O trágico é imaginar a contraposição entre as condições cada vez mais rígidas de controle de entrada e as dificuldades progressivamente maiores que esses imigrantes buscam devido à piora da situação de vida em seus países de origem. Não basta sobreviver a essa verdadeira epopeia de viajar em condições terríveis, uma verdadeira epopeia – essa é apenas a primeira etapa de um processo longo de aceitação, reconstrução, ou no pior dos casos de deportação, para recomeçar tudo do zero. O drama dos refugiados é uma questão de segurança internacional, sob diversos aspectos, e a tendência é que esse tipo de tragédia se repita, infelizmente.


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Os Brics no G-20

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O G20 financeiro foi criado para ser um mecanismo de concertação política visando o fortalecimento da economia global. Com o impacto profundo da crise de 2008 nas economias desenvolvidas, tornou-se um palco de autopromoção para os países em desenvolvimento e forçou um redirecionamento dos principais temas econômicos mundiais do G-8 para o G-20. Esta é a visão de países como Brasil e China. Neste sentido, reuniões como a desta semana na Rússia são oportunidades perfeitas para exigir reformas nas instituições financeiras internacionais.  

Contudo, e apesar da larguíssima Declaração de São Petersburgo, o G-8 e o G-20 parecem ter diferentes horizontes em mente. Grandes players do G-8 ainda apresentam recuperações tímidas, enquanto parte do G-20, especialmente os BRICS, vem de sustentar o nível de crescimento mundial e tem seu crescimento arrefecido. Por outro lado, existem, como evidenciado no documento da última reunião, pontos comuns, como: a necessidade de continuidade dos esforços para mitigar problemas regulatórios no mundo das finanças, de retomar as negociações multilaterais de comércio e de promover uma transição para modelos de desenvolvimento mais sustentáveis.  

Além do embate G-8 e países em desenvolvimento, o G-20 enseja a oportunidade de tratar de temas que interessam a todos. O Brics, em encontro paralelo antes do início da Cúpula, traçou alguns pontos interessantes. Antes de tudo, expressou preocupação em relação a repercussões negativas não intencionais de políticas monetárias não convencionais de alguns países. Uma longa frase para fazer referência aos sinais que o Fed (Banco central norte-americano) pode diminuir o ritmo dos estímulos que aplicou para reavivar a atividade econômica e de que o Banco Central Europeu pode igualmente iniciar uma subida de sua taxa básica de juros.  

Nas palavras do ministro da Economia brasileiro, Guido Mantega, há uma mini-crise nos países em desenvolvimento decorrente de movimentos em mercados desenvolvidos. Enquanto os países desenvolvidos retiram (ou indicam retirar) estímulos, os países em desenvolvimento sofrem com as desvalorização de suas moedas (como no caso da rúpia indiana e do real brasileiro) e veem capitais internacionais ensaiarem um retorno aos mercados maduros. Os Brics, contudo, apontam que estarão preparados. Primeiro, criaram um Arranjo Contingente de Reservas em seu último encontro. Segundo, celebram avanços nas tratativas para estabelecer um Novo Banco de Desenvolvimento.
 

Os Brics não conformam um bloco unitário, há divergências (como no caso da reforma das Nações Unidos) e convergências (como sobre a necessidade de reforma das instituições internacionais), mas ao menos se esforçam para consolidar alternativas. O Arranjo Contingente de Reservas, por exemplo, poderia substituir um empréstimo do FMI. O Brics quer a reforma do FMI, porém tem desde já um mecanismo similar próprio. Em sentido diferente, ao levantar preocupações sobre repercussões negativas de políticas dos países desenvolvidos reforçam a importância de terem um campo de negociação como o G-20. Portanto, o caminho para alternativas existe e até começa a ser trilhado, o que não implica abandonar fóruns de debate mais abrangentes.  


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Mercado virtual, discussões reais

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A matéria é antiga, mas começou a repercutir pra valer essa semana. Um projeto em tramitação no congresso brasileiro legisla sobre um tema polêmico, pois obrigaria empresas de distribuição de mídia digital a se instalarem em território brasileiro para poderem oferecer seus serviços. Assim, “lojas” on-line como o famigerado serviço Steam (que tanto estrago causa nos bolsos de milhões de jovens quando faz suas promoções) teriam que ter servidores e toda a estrutura de distribuição no Brasil, dando assim suporte aos consumidores e, consequentemente, estando sujeitas a tributação. 

O tema é polêmico e arde no ouvido da maioria dos consumidores de plantão. Boa parte dessa mídia digital são jogos, mas podem ser músicas e tantos outros serviços oferecidos na legalidade pela internet, e quem já mexeu alguma vez na vida com importação sabe das colossais taxas de importação brasileiras (algo em torno de 60%). Quem é crítico logo ressalta o aspecto protecionista de um projeto desses, que seria apenas mais um meio de arrumar dinheiro fácil para o Estado e, bem, o consumidor que se lasque. Por outro lado, um aspecto positivo seria justamente o fato de dar suporte em caso de problemas (muito comuns) nessa terra sem lei que é o e-commerce. 

São esses dois lados da moeda que trazem as discussões interessantes que o tema levanta. O primeiro é a questão do protecionismo. Faz tempo que uma reforma tributária é necessária, mas deve demorar muito para sair. E isso afetaria as taxas de importação, que OMC à parte, servem para resguardar alguns setores e acabam afetando outros que não têm muito a ver. O exemplo do mercado de jogos é bem ilustrativo – não existe um mercado nacional forte, e os grandes lançamentos e sistemas vêm de fora. Isso está mudando gradualmente, mas a dependência desse setor do mercado externo ainda vai longe. Como justificar a taxação? Proteção à “indústria de jogos” nascente? O consumidor deve pagar a mais por algo que não é oferecido naturalmente no mercado interno? Por outro lado, existe também a questão do custo de oportunidade, já que a tributação é meio que uma compensação pelo dinheiro que está sendo mandado embora do país, e a defesa desse mecanismo em grande parte se baseia nisso. 

No meio dessa discussão, fica o consumidor, que é o protagonista da segunda questão. E-commerce é legal e prático, mas toca num problema importante que é a jurisdição nacional. Temos um código de proteção do consumidor avançado e que, apesar dos pesares, na teoria protege o consumidor em quase todas as situações, mas nada pode fazer quando falamos em transações internacionais. Coisas mais triviais como garantias, reembolsos ou devoluções podem se tornar um pesadelo. No caso de distribuição de mídia digital, esse problema é menos comum, mas ainda assim existe. O problema é definir como funciona o serviço, já que não se troca mercadorias físicas, apenas… dados. Eis a raiz do problema, e que vai muito além do comércio. Num mundo interligado por redes, onde começa e termina o território ou jurisdição de um Estado? Como taxar um serviço consumido no Brasil mas que é oferecido por um meio físico que se encontra no exterior? E nem tocamos nas questões que andam chamando a atenção nesse ambiente “virtual”, como a liberdade de expressão e a vigilância governamental.

Enquanto isso, a polêmica matéria está parada desde março (e pode ser que não passe, seja pelo aspecto técnico da discussão, seja devido a alguns problemas de constitucionalidade e pelo teor vago do seu objeto), mas traz discussões que não devem ser esquecidas quando pensamos em uma economia do século XXI. A integração de redes traz esses desafios ao próprio conceito de Estado, e é um jogo que os governantes vão ter que aprender a jogar e dar um jeito de resolver cedo ou tarde.


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O que dizer da Alemanha?

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Fonte: dw.de

Em meio a um cenário crítico e cético da economia na Europa, mais especificamente na União Europeia, parece haver uma “luz no fim do túnel”. Parece, pois talvez não seja uma saída para um continente mergulhado em crises financeiras, altas taxas de desemprego, estagnação econômica e resgates de euros provenientes dos fundos estruturais do bloco regional. 

Particularmente, sou um entusiasta da União Europeia e já escrevi sobre isso aqui na Página Internacional. Mas, quando o assunto é a moeda única e as crises provenientes do mesmo, temos que ter o pé no chão e ver que faltam muitos passos para a Europa voltar àquela pujança econômica de tempos atrás. Pois bem, agora em Julho, em contrapartida e inesperadamente, a economia do Euro voltou a crescer em virtude de uma alta no chamado Índice de Gerentes de Compra (PMI, em inglês), que avalia o setor privado dos países. Pode-se dizer que a confiança está voltando de maneira lenta e gradual por aquelas bandas. 

Talvez bem lenta e bem gradual, sendo franco. Todavia, o que chama a atenção é o papel de um ator que, desde 2008 com o início das turbulências na economia global, vem “levando a Europa nas costas”. E aqui está ele: a Alemanha. O país colocou o Reino Unido e a França como atores importantes, mas coadjuvantes, na recuperação desde a crise. Aglutinando confiança empresarial, crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) e apoio da população ao atual governo de Angela Merkel, a qual vem liderando as pesquisas para a próxima eleição em Setembro, os alemães estão na dianteira econômica da União Europeia. 

Em reportagem especial da “The Economist” publicada pela Revista Carta Capital da última semana (ano XVIII, n. 758) e intitulada “A relutante potência hegemônica europeia” é abordado de maneira completa o que fora dito nos parágrafos anteriores. Nela há um paradoxo: mesmo com a sua força econômica, a Alemanha parece não seguir corretamente (ou querer e desejar) a liderança do bloco. O motivo? Economia forte, mas desconhecimento da história do país, mais uma vez assombrado pelos anos do Nazismo, população majoritariamente idosa e uma concentração de renda alta. 

De acordo com dados do “Pew Research Center”, a Alemanha é o país com maior número de opiniões favoráveis sobre a União Europeia e o Euro, ultrapassando Itália, Espanha, Reino Unido, Grécia e França. Mais do que isso, os alemães, cerca de 55%, acreditam que a economia interna foi fortalecida pela integração. Dados da Comissão Europeia e do Fundo Monetário Internacional (FMI) apresentam as menores taxas de desemprego e os maiores balanços orçamentários e de conta corrente proveniente aos alemães, ultrapassando, inclusive, os Estados Unidos. 

Então, o que dizer da Alemanha? Tem muitos pontos positivos, e outros extremamente negativos, sejam eles padrão de vida estagnado, riqueza assimétrica, poupança com dividendos negativos. A julgar pela reportagem em questão e as notícias recentes divulgadas nas mais diversas mídias, o crescimento econômico alemão tende a continuar nos próximos anos. Alguns problemas internos de características históricas, culturais e, obviamente, financeiras, acabam por atrasar sua suposta liderança na região. Não se sabe ao certo se Reino Unido e França, as outras duas maiores economias da Europa, caíram de produção e isso ajudou na valorização dos alemães ou se estes últimos tiveram méritos próprios para tanto. O que se tem total certeza, até o presente momento, é que, para uma Europa crescer, é necessário o fermento alemão.


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Vermelho de vergonha

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Caro leitor, se acha que a corrupção é ruim por aqui no Brasil… bom, digamos que não seja exclusividade nossa. Nos últimos anos, a China foi invejada pelo crescimento econômico e pujança, mas isso veio acompanhado de um legado bastante nefasto, que é como uma consequência indesejada dessa máquina que impulsiona o desenvolvimento de lá. 

Nessa semana, o ex-dirigente do Partido Comunista, Bo Xilai, foi formalmente indiciado por acusações de corrupção. Não foi pouca coisa – trata-se do maior escândalo de poder no país nas últimas décadas. Bo era não apenas um político relativamente novo, na mais alta esfera do poder chinês, e que mandava na maior cidade do país, mas também o rival direto de ninguém menos que o ex-primeiro ministro Wen Jiabao (que teve papel predominante na sua queda). Trocando em miúdos, um assessor de Bo se envolveu numa tentativa de asilo nos EUA no ano passado que acabou parando em uma investigação sobre o assassinato de um empresário norte-americano. Descobriu-se que a mentora havia sido a mulher de Bo, que já foi até condenada à morte pelo crime (mas teve a pena comutada para prisão perpétua), e a investigação foi parar em Bo e seus esquemas de abuso de poder e subornos. 

O que resulta de tudo isso? Primeiro, um potencial sucessor a cargos mais importantes sai de cena (literalmente, não é visto em público há mais de um ano) e deixa um cenário mais previsível quando houver um novo ciclo presidencial na China. Segundo, e mais sério, o risco econômico que essas denúncias podem acarretar. Por exemplo, temos uma grande empresa farmacêutica que foi pega em um esquema de propinas a oficiais e autoridades chinesas. Imediatamente a matriz tenta controlar os danos e chega até mesmo a se afastar da filial chinesa problemática. Pode dar lucro por lá, mas deixa uma imagem muito ruim fora do país. Mesmo a denúncia de Bo foi um choque para os mercados. 

O problema é que a corrupção praticamente faz parte da estrutura de poder na China (o país está ranqueado numa posição bastante ruim em índices de percepção de corrupção) e empresas que vão para lá levam isso em conta, pois resultam em gastos “por fora”. E isso em um país que precisa de taxas de crescimento anormais e começa a sofrer, com a necessidade de estímulos cada vez mais constantes, é um sinal bastante desanimador. 

Mas e a corrupção em si? A grande crítica à condenação de Bo é que se ele caiu em desgraça, quanto pior não fizeram aqueles que impulsionaram sua carreira. Quando serão pegos? Ou melhor, serão pegos? É possível enquadrar padrões morais ocidentais nessa sociedade de padrão único que é a chinesa atual? O fato é que os próprios dirigentes ficaram constrangidos pela denúncia, e devemos lembrar que política ainda se vale muito de prestígio. Por mais que haja restrições à expressão na China, as denúncias tiveram seu impacto na mídia, e uma população com níveis de vida cada vez melhores vão cobrar por bons serviços – e bons políticos, de um modo ou de outro. Este é apenas mais um desafio para o enorme quebra-cabeças que ainda é o futuro do Império do Meio.


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Fora da ordem

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Os protestos não param. Nem as reflexões. Para os governos, eles acarretam uma democracia insípida, inodora e incolor; para os analistas, inspirações e contradições que animam suas aventuras intelectuais. Resta claro que o mundo está em transformação. O que não se sabe é para qual direção. Bem resumiria esse momento a enigmática canção de Caetano Veloso: “alguma coisa está fora da ordem, fora da nova ordem mundial”.

Mas como (re)ordenar o mundo? Em comum, esta onda global de protestos apresenta um indício: demonstrar o que não se quer e nem se tolera. Ninguém diz o que quer e, se o faz, deixa no ar. Basta ver o Egito, onde ocorreu o maior protesto já registrado na história – entre 14 e 22 milhões de pessoas foram às ruas –, com novo propósito de destituir seu governante, eleito há pouco mais de um ano e após mais de trinta anos sem eleições livres. Resultado: um ciclo de instabilidade político-institucional, com desdobramentos na economia, saúde, educação, etc. Fica o alerta. Para todo o globo. 

Nas últimas décadas, analistas das relações internacionais têm enfatizado dois elementos estruturais que podem desencadear mudanças profundas: uma nova revolução científico-tecnológica e a emersão de uma sociedade mundial. Conhecendo melhor a própria realidade e comparando-a com a realidade alheia, os indivíduos sentem-se estimulados a demandar melhores condições de vida e a se libertar de males que lhes afligem. Ao mesmo tempo, eles se solidarizam com seus semelhantes, questionando não apenas o próprio governo, senão também outros governos. 

Não por acaso, esta eclosão global de protestos coincide com um período de rápida disseminação das tecnologias da informação e comunicação. Nem é coincidência que eles sejam mais robustos nos países em desenvolvimento. De acordo com dados da União Internacional das Telecomunicações, o número de usuários de internet passou de pouco mais de 1 bilhão, em 2005, para uma estimativa de 2,749 bilhões, em 2013. Um aumento motivado, sobretudo, pelo espetacular crescimento desses usuários nos países em desenvolvimento, no mesmo período: de 408 milhões para estimados 1,791 bilhões. É ainda mais surpreendente a elevação global do número de celulares entre 2005 e 2013: de 2,2 bilhões para uma estimativa de 6,835 bilhões, saindo de uma média de quase 40 celulares por cem habitantes para pouco mais de 96. Nos países em desenvolvimento, no mesmo período, o número passou de 1,213 bilhões para estimados 5,235 bilhões (de quase 30 celulares por cem habitantes para quase 90).

As pessoas estão interconectadas. As fronteiras do conhecimento alargaram-se. Com isso, pode estar desenvolvendo-se, em nível inédito, uma espécie de solidariedade mecânica entre os povos. O recado está dado: o empoderamento dos indivíduos se materializa nas ruas e expressa a vontade de participar da resolução dos problemas, nacionais ou globais. E os governos não devem tapar os ouvidos. 

Com uma rápida pesquisa na internet, qualquer um pode se sensibilizar. E se revoltar. Pelas estimativas do Banco Mundial, em 2010, havia mais de 1,2 bilhões de pessoas em extrema pobreza, vivendo com menos de US$ 1,25 por dia, o que corresponde à 20,6% da população mundial. Em termos relativos, a República Democrática do Congo tem o maior percentual de habitantes pobres (87,7%), enquanto, em termos absolutos, quem lidera é a Índia, com 406 milhões (mais de duas vezes o número total de habitantes do Brasil). Elevando-se para US$ 2 por dia, a Nigéria, por exemplo, que é terceira maior economia da África, teria 78,5% de sua população vivendo nessa situação. E, ainda pior, é a porcentagem da população mundial que vive com menos de US$ 10: mais de 80% (na Etiópia, esse índice chega a 99,9%). Em outras palavras, isso significa que mais de 80% da população mundial vive com menos de um salário mínimo brasileiro por mês. 

A concentração de renda é inegável. Tomando-se como exemplo o somatório das fortunas das dez pessoas mais ricas do mundo em 2012 – valor que corresponde a US$ 451,5 bilhões –, se elas fossem um país, seriam a 28ª economia mundial, atrás de Taiwan e à frente da Áustria. Apenas Carlos Slim Helú, magnata mexicano das telecomunicações e líder do ranking, tem uma fortuna (US$ 73 bilhões) que é mais de dez vezes superior ao PIB do Níger, último colocado no Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) de 2012.

A desnutrição também chama a atenção. Entre 2010 e 2012, 868 milhões de pessoas estavam desnutridas, o que corresponde a 12% da população mundial. A Eritreia lidera essa lista em termos percentuais (65%), enquanto a Índia, mais uma vez, o faz em termos absolutos (217 milhões de indianos estão desnutridos). Esses dados são impressionantes e, entre tantos indicativos, deixam as pessoas estarrecidas e inquietas. Cresce, assim, a percepção de uma cidadania global: antes de ser cidadão do seu país, cada pessoa é parte da humanidade e deve agir em razão dessa condição. 

O mundo está desordenado. Os problemas particulares são, em verdade, problemas globais, inter-relacionados, que exigem respostas também globais, das sociedades e dos governos. Se, no século XX, diria o polêmico Nelson Rodrigues, a ascensão espantosa e fulminante do idiota foi o grande acontecimento, no século XXI, a idiotia deverá regredir. Surgem pessoas cada vez mais informadas, não necessariamente instruídas, com vontade de se tornarem agentes de mudança e guardiães de seu destino e de todos. Quanto mais rápido circularem as informações, quanto maior a persistência de problemas crônicos, maior será o impulso dos indivíduos para fazer alguma coisa. Mais longos e intensos serão os protestos. E maior será a necessidade de (re)ordenar o mundo.

*Post especial do colaborador Giovanni Okado


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