Fé derretida

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Você confia nos outros? Uma questão tão simples quanto essa é cada vez mais central para governos, sociólogos e cientistas políticos. É que a confiança nas relações interpessoais e nas instituições tradicionais, muito além de ser um problema cotidiano sem importância, pode ser um dos termômetros que definem quem somos e qual sociedade temos. A falta de fé na honestidade de autoridades, parceiros comerciais, empresários e consumidores já aparece como um dos principais fatores que atravancam o desenvolvimento econômico e democrático de diversos países.

E a confiança tem estado em baixa no mundo todo. Inúmeras pesquisas realizadas em países da União Europeia apontam que praticamente 3 em cada 4 pessoas acredita que a corrupção está impregnada na sociedade. Com ou sem razão, tais níveis de descrença pode ser um verdadeiro desastre para o futuro. A UE tem visto esses resultados como um anúncio de dificuldade econômica. Afinal, a confiança é determinante para os índices de empreendedorismo na sociedade. As relações comerciais dependem principalmente de boas relações interpessoais. E quanto maior a dinâmica das relações econômicas, maior o desenvolvimento.

Mas não só na economia que a crise de confiança age de forma negativa. Há comprovações por meio de pesquisas que ela está ligada também ao aumento da criminalidade, da aceitação de comportamentos nocivos, para a expansão de crimes fiscais e de práticas comerciais abusivas. Em países no topo da escala de desconfiança social, ela também age como promotora de grupos e ideias anti-democráticos, que prosperam em momentos de crise moral e econômica.

Para entendermos os desdobramentos da falta de confiança na sociedade temos que analisar pesquisas recentes, em que ela é igualada ao que foi cunhado de “crise siciliana”. Isso por que a configuração social e familiar dessa região da Itália criou facções tradicionais que defendiam a proteção incondicional aos parentes de sangue, mesmo que isso envolvesse a prática de crimes e de ações desonestas enquanto se relacionavam com o restante da sociedade. Ali surgia o código de honra da máfia siciliana.

E o que isso tem a ver com o momento atual? É que as pesquisas apontam que tal comportamento tende a ser copiado quando vivemos crises de confiança humana. Exemplo disso são pesquisas realizadas pela Confederação da Indústria (CNI), que mostram que 80% dos brasileiros não confiam em ninguém além de familiares. Entre essas pessoas, a crença de que o desrespeito à lei e de que comportamentos oportunistas em relações comerciais sejam aceitáveis é mais presente. Para se ter ideia, 55% desses brasileiros acreditam que crimes leves, como viajar sem pagar a passagem, ou até mesmo a sonegação de impostos, são atitudes pouco nocivas à sociedade.

Mais do que uma forma de proteção diante da corrupção humana, esse tipo de ideal moderno nascido da máfia é válvula para uma separação maior entre as pessoas. Em última instância, até mesmo serve como álibi a práticas indesejáveis.

Assim, podemos dizer que a crise de confiança é também a crise de valores éticos em que uma sociedade foi alicerçada. Não à toa durante as manifestações nacionais, assim como em muitas outras indignações populares que se espalharam pelo mundo recentemente, notamos que a insatisfação generalizada mais do que apontar um governo ineficiente, demonstrou que vivemos uma espécie de crise de tudo. Praticamente ninguém ficou impune à insatisfação e a descrença das ruas. Sejam governos, religiões, meios de comunicação e representações públicas.

Mas nada disso é novidade. A modernidade parece ser o espaço da luta entre os valores éticos tradicionais e as relações interpessoais voláteis, líquidas. Uma espécie de conceito freudiano às avessas, em que a falta de engessamento das práticas e dos aparelhos sociais dão o tom da nossa crise, e não o contrário, como profetizou o pensador ainda no início do século XX.

Não à toa, a falta de confiança estabelece uma corrida legalista por justiça, fazendo com que aja apoio massivo da populações por mudanças nas leis, sempre visando uma maior rigorosidade das mesmas. Em meio a essa turbulência, a defesa da educação como caminho para a mudança social e de valores recentemente alçados a centrais, como o da cidadania, ficam em segundo plano. Nas situações mais alarmantes, até mesmo a democracia corre o risco de retrocesso, ainda mais em países em que a perda da confiança é total, como parece ser o caso da Grécia. Nesses casos, grupos totalitários e contra-reformistas ganham novamente voz, exatamente pelo discurso de esperança do retorno de um “passado” menos incerto.

O renomado sociólogo Zygmunt Bauman, um dos primeiros defensores de que vivemos em uma época única em que as relações humanas e os valores morais colidem, inicia um dos seus livros com a seguinte pergunta: ” Quantos de nós seríamos capazes de seguir um código moral ao pé da letra? E de forma flexível?” O momento atual é caracterizado pela falta de fé na política, nas pessoas e instituições, fenômeno mundial de importância muito maior do que para uma agradável discussão filosófica. Com a grande complexidade que rege o tabuleiro das práticas sociais, a quebra da confiança se apresenta como uma das principais peças que definirão o futuro das relações humanas e das sociedades modernas.


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Investimentos e…

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Um brasileiro otimista com o futuro do país abre o seu jornal, e entre as notícias de estagnação econômica e social, deveria se incomodar ainda mais com outra informação: mais uma vez não fomos além dos últimos lugares no ranking mundial da educação. A péssima qualidade educacional em nosso país talvez seja o maior símbolo do pessimismo em relação ao futuro. Ainda mais em um dos países em que é mais forte a crença na educação como caminho quase exclusivo para uma sociedade melhor.

Foi com o discurso de um “futuro melhor” que recentemente o Planalto, especialistas em educação e grupos organizados pressionaram o Congresso para a aprovação da Lei dos Royalties do Petróleo, que destinou 75% dos ganhos com a exploração desse recurso natural para a educação. Isso significa que em dez anos, o montante deve chegar a 112 bilhões de reais a mais investidos na educação por ano. Isso elevará o país a ser o detentor do terceiro maior orçamento do mundo na área, atrás apenas das superpotências EUA e China. 

Por mais positivo que seja esse aumento no investimento, é bastante perigosa e incompleta a crença de que a somente o orçamento disponível seja suficiente para a evolução da educação. Exemplos de países que mudaram da água para o vinho os seus sistemas educacionais provam que tal “milagre” vai muito além de uma grande quantidade de dinheiro disponível, mas sim de uma organização baseada em um tripé, que envolve a qualidade das políticas públicas, do investimento empresarial privado e da sociedade civil.  

O tripé organizacional a que me refiro é bastante evidente nos exemplos de alguns países que por muitas vezes elogiamos, mas quase nunca copiamos. Na Coreia do Sul, o “milagre” asiático de desenvolvimento meteórico, a educação é apontada como responsável pela escalada econômica do país, não o contrário. Investimento em capital humano e social, algo bastante desconhecido pelos lados de cá, foram mais importantes do que realocação de recursos do orçamento ou de investimentos financeiros.

O país asiático viveu 20 anos de reorganização da política industrial, dos programas de formação dos profissionais da educação e de movimentação da sociedade civil. Vale lembrar que a revolução educacional foi o principal combustível para o desenvolvimento econômico do país e não o oposto, como parece ocorrer no novo “Brasil do Petróleo”. Portanto, os sul-coreanos não tinham ao menos recursos econômicos para elevar gradativamente o investimento em educação, mas usaram a educação como trampolim para alcançarem novos investimentos.  

Já nos Estados Unidos, o queridinho dos que sempre argumentam que “lá é diferente”, para realçarem nossas dificuldades, a educação pública é tão importante para a noção de meritocracia e igualdade de oportunidades do que qualquer outro dos maiores símbolos do liberalismo. Uma rigorosa qualidade de gestão, um senso de responsabilidade social aguçado dos empresários regionais e uma forte contribuição da comunidade, que vê na escola um dos maiores patrimônios públicos, são os responsáveis pela educação gratuita e de massas, com muita qualidade. 

No Brasil, ouso dizer que faltam todos os elementos desse tripé:

Temos uma visão que o dinheiro por si só salva o que é em todos os sentidos péssimo, como se as notas de reais fossem planejar a questão pedagógica, dar aula às crianças e formular as políticas. Passado o frenesi pró-educação e as crenças no royalties do petróleo como salvador da pátria, observamos que não houve investimento na formação de profissionais de gestão escolar e de professores.

Em nosso país implantou-se a cultura de que o professor mais experiente da escola deve ocupar o cargo de direção, independente do seu conhecimento de gestão e de pedagogia. O que observamos é uma escola incompetente, ineficaz. Não há cursos de gestão escolar no país, não há respeito pelos pedagogos e a elaboração de seus planos, não há continuidade na formação para professores, muitas vezes com conhecimento insuficiente para ministrar aulas. Mesmo assim governo, grupos organizados e parte da sociedade civil teimam em afirmar que a educação tem como único problema a questão salarial do professor.

Então aumentamos os salários com a nossa salvação “milagrosa”, os royalties, e esquecemos dos tais problemas da gestão escolar. Aproveitamos e também nos esquecemos de que do que adiantará alguém se formar engenheiro em uma região sem industrias. A desigualdade regional no país centraliza as oportunidades em um só lugar. No caso da minha formação, por exemplo, só há vagas de empregos nas cidades de São Paulo, Rio de janeiro e e Brasília. Cientista Social no nordeste ou no interior vira pesquisador ou professor por necessidade. Isso se a universidade da região oferecer o curso. Mas alguém pensou em utilizar parte dos royalties para o desenvolvimento econômico de determinadas localidades? Algo que por tabela tornaria possível a revolução educacional que o projeto de lei prega. Claro que não!

A propaganda pelos 100% dos royalties para a educação, de tão bonita, cegou o governo e defensores da educação. Esqueceram completamente que ela não caminha por si só. Pode ser até a área mais bonita, a mais importante, mas necessita do desenvolvimento simultâneo de outras.

Por fim, como muitos outros espaços públicos, alguns agora explicitados pelos “rolezinhos” da juventude da periferia, o espaço da educação reflete um fenômeno comum ao Brasil, a distância entre a ocupação dos espaços públicos e quem deveria ocupá-los. Hoje não há nada mais distante da comunidade do que a escola. Se nos EUA é a “segunda casa da comunidade”, no Brasil é espaço obrigatório para os pais, quase uma cadeia aos alunos. Um mal necessário como uma injeção a quem está doente. Não há ligação entre escola e mercado de trabalho, escola e esporte, escola e cultura ou escola e lazer. Há a escola, instituição arcaica, e os alunos.

Tudo isso, de forma bastante dolorosa, prova que a ineficiência do nosso país na educação é gerada por problemas muito maiores do que os investimentos, mas sim por uma cultura educacional falida. O sucateamento da infraestrutura escolar é bastante evidente, mas está longe de ser o único ou muito menos o principal problema dos baixíssimos resultados em que vivemos. Estamos na Era do desconhecimento técnico, pedagógico, social e econômico da importância da educação, mas mesmo assim culpamos o dinheiro, o crápula perfeito. 

O Brasil é o país em que os problemas políticos são tratados com crenças em fórmulas mágicas. “A corrupção seria solucionada com um presidente honesto”, “a polícia por si só pode acabar com a violência”, “basta fechar o Congresso para o fim dos problemas do povo” etc. O que faremos quando a infinidade de investimentos na educação falharem, ou se a evolução que esperamos for extremamente mais lenta? Vamos novamente culpar a corrupção ou os políticos, e ficarmos com as velhas frases de comparação entre Brasil e EUA ou Coreia do Sul, de que “aqui não é como lá”? Não mesmo, lá houve muito menos negação dos problemas reais que deveriam ser enfrentados, ou de preguiça e enganação em defender que somente dinheiro de royalties seriam o suficiente para uma revolução. Aos que sonham com tal revolução educacional, ela se ocorrer será muito mais longa do que os 20 anos necessários à Coreia do Sul, graças ao desenvolvimento estratégico de diversas áreas e ao trabalho duro. 

A defesa por uma educação melhor no país deve cobrar uma reorganização generalizada muito maior do que cifras destinadas ao investimento na área. Deve ser alicerçada no tripé que forma os grupos sociais interessados na melhoria e no desenvolvimento do país: a sociedade civil, o empresariado e a gestão escolar, que envolve desde formuladores de políticas públicas até professores. Caso não enxergarmos tais necessidades, o petróleo vai pelo ralo. Afinal, notas de papel não dão aulas, não se interessam, não constroem o futuro. E nem tem essa obrigação.


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Esfriando a economia?

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O ano novo é uma época com extremos climáticos. No Brasil, por exemplo, estamos acostumados a um calor infernal e, principalmente no sudeste, chuvas que destroem propriedades e vidas (e que infelizmente não são novidade e viram notícia recorrente nessa época). Na Ásia é bem comum vermos tufões e tempestades tropicais. Mas a grande notícia vem dos EUA, com a massa de ar polar que trouxe as mais baixas temperaturas em décadas e praticamente paralisou boa parte do país nos últimos dias. 

O impacto é direto na vida das pessoas. Com temperaturas que em algumas localidades chegaram a 50 graus negativos, a pele humana sofre queimaduras e congela em poucos minutos, e o mero ato de sair ao ar livre vira um problema. Escolas sem aulas, muita gente não consegue chegar ao trabalho, comércio fechado. E claro que, além das perdas em vidas humanas, isso causa um impacto econômico. Uma seguradora afirma que quase 1/3 da economia norte-americana é “sensível” ao clima e um prolongamento dessa situação deve afetar de algum modo o crescimento da economia. São vendas que não acontecem (especialmente na época de liquidações pós-Natal), milhares de voos cancelados, além do impacto na agricultura. 

Há quem diga que o impacto é reduzido, as previsões são otimistas (ou indiferentes) quanto ao impacto do frio e houve até mesmo um aquecimento (com o perdão da ironia) de alguns setores, como o de calefação e utilidades domésticas (para remoção de neve do quintal, entre outras coisas). Mas não precisamos ir longe para ver o impacto econômico não apenas doméstico dessa friagem. Primeiro, a produção de petróleo está interrompida em alguns estados, e isso deve influenciar, por exemplo, o preço da gasolina – que aumentando nos EUA, adivinhe oque acontece no resto do mundo. Segundo, a decisão pela escolha da lavoura de 2014, por soja ou milho, decisão que vai depender em certa parte da temperatura e que vai afetar a produção de outros países – inclusive o Brasil. É claro que essa onda de frio não vai derrubar a economia americana (que já está em recuperação), mas serve de alerta, e não apenas para os EUA. No mundo globalizado, em que uma lavoura arruinada pelo clima pode trazer prejuízos para muitos países em um efeito dominó, qualquer geada por aqueles lados é motivo de atenção.


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A economia global em 2014

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Todo começo de ano é assim. Economistas e diversos especialistas, baseando-se em dados do ano que passou, tentam formular cenários e previsões para o desenvolvimento (ou a falta dele) econômico do ano que se inicia. Assim, a priori, escrever um texto aqui no blog sobre o tema talvez pareça trivial e corriqueiro. Mas 2014 poderá reservar algumas mudanças e surpresas para a economia como um todo. 

A primeira grande pergunta é se neste ano os governos vão manter ou aumentar ainda mais o controle sobre as economias nacionais. É a pedra do sapato da presidente Dilma Rousseff e do ministro Guido Mantega, por exemplo, pois nosso país não vem mostrando disposição em fomentar os investimentos internacionais. De fato, a crise gerada em 2008 trouxe uma série de modificações que foram vistas principalmente na Europa com as propostas de austeridade, sobretudo por parte da Alemanha e da França. Entretanto, mesmo “amenizando” os riscos, o Brasil e outros emergentes permanecem denotando um velho dilema econômico: o Estado deve intervir majoritariamente ou não na economia? 

Por falar em emergentes, a segunda grande questão toma corpo quando da indagação sobre o crescimento econômico de países como China, Índia, Brasil, Indonésia, Turquia e África do Sul no próximo ano. Tais países crescerão? Sim, mas com uma taxa de aproximadamente 5% em 2014. Obviamente, continuar expandindo as economias é algo positivo, mas o saldo não chegará aos índices observados em anos recentes. Os chineses que já apresentaram crescimento de até 12% do Produto Interno Bruto (PIB), reduziram essa margem para 7,8% em 2012 e diminuirão em 2014 conforme exposto acima. 

E a zona do Euro? Essa é uma pergunta que tende a ser não muito animadora, pois Alemanha e França, dois motores econômicos da Europa, apresentarão uma variação de PIB não muito diferente de 2013. A recuperação da moeda já pode ser observada. Todavia, continua frágil e essa característica se manterá no ano que se inicia. De novidade, a Grécia assumiu a presidência semestral da União Europeia e demandará maiores debates sobre crescimento, união bancária e emprego. Fato um tanto quanto simbólico, diga-se de passagem, mas nada melhor do que um pouco de manobra política para valorizar preceitos econômicos. 

Outra indagação está presente em um ator importante e muito conhecido no passado: o Japão. Marcado por quinze anos de deflação, o país apresentou em 2013 um aumento de 30% no preço dos imóveis e de 50% no índice Nikkei. Sua indústria vem crescendo, acompanhada pelo PIB. Boa novidade para eles, mas nada que o retire do atual status de “primo pequeno” da China em termos econômicos. 

Em meio a tantas dúvidas e perguntas, somente os Estados Unidos aparecem como parcial certeza. Com as recentes descobertas energéticas em seu território – principalmente o gás de xisto – o país começa o ano com excelentes chances de crescer economicamente para balancear a maré de falhas de política externa evidenciadas no ano passado. 

Teremos um 2014 marcado por dúvidas e questionamentos. Países avançados e emergentes, zona do euro, maré asiática e outras tantas designações terão que se reajustar. Afinal, o que está em jogo não são somente números, mas sim pessoas e populações que precisam de boas políticas governamentais. Claramente, não nos esqueçamos de que hoje existem variados atores internacionais capazes de influenciar diretamente os rumos da economia global. Contudo, grande parcela das diretrizes, feliz ou infelizmente, está nas mãos dos governos nacionais. E isso é uma afirmação, não um questionamento.


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Espírito de reconciliação?

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Eis que no funeral de Nelson Mandela, ícone mundial da reconciliação, vimos uma cena inédita ocorrer: um cordial aperto de mãos entre os líderes Obama e Raúl Castro – sob o olhar atento de Dilma, dos demais presentes e dos flashes mundiais.

E por que tal ato surpreende de forma a transformar-se em manchete internacional? Estados Unidos e Cuba, de fato, não possuem relações entre si desde 1961, dois anos após a chegada de Fidel ao poder na ilha, nacionalizando propriedades estadunidenses. Em 1962, portanto, Kennedy impôs um embargo econômico duradouro aos cubanos, o qual permanece até hoje e torna as relações entre os países tão tensas.

Raúl hoje propõe que ambos os países venham a “respeitar mutuamente suas diferenças e acostumar-se a conviver pacificamente com elas”, denotando a necessidade de flexibilizar as posições para viabilizar o diálogo. O próprio Obama reconheceu recentemente que tinha acabado de nascer quando Castro chegou ao poder, sendo “tolice acreditar que as medidas implementadas em 1961 ainda são eficazes hoje, na era da Internet e do Google”.

Ou seja, ambas as partes demonstram um certo grau de abertura ao diálogo que não se via há décadas. O aperto de mão da foto apenas reforça, em sua sutileza, a esperança de que as relações bilaterais Cuba-EUA sejam restabelecidas em um momento histórico propício a renovações e movimentos de reconciliação.

Os traços de rivalidade entre os países ainda são grandes e não se espera, ingenuamente, que um aperto de mãos resolva todos os problemas. Contudo, Raúl Castro tem colocado em prática – ainda que lentamente – reformas econômicas na ilha que podem facilitar esse diálogo com os “inimigos” do norte. Discussões bilaterais recentes sobre imigração e serviço de correio entre os países representam ainda um avanço histórico após tantos anos de distanciamento entre os países e seus líderes.

Que a chama do espírito reconciliador de Mandela mantenha-se viva após as cerimônias oficiais de despedida ao líder sul-africano que comoveram o mundo em tantos momentos. Uma porta, ou uma brecha que seja, talvez aberta ao diálogo entre Cuba e Estados Unidos é certamente significativa em nosso contexto atual, reavivando as expectativas de que 2014 seja um ano decisivo com relação a avanços nas negociações internacionais em todos os âmbitos. 


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UE x Brasil

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No começo de Dezembro, mais especificamente no dia sete, a Organização Mundial do Comércio (OMC) estava em clima de comemoração. Em reunião realizada naquela data, 159 países-membros conseguiram consolidar o primeiro acordo da instituição depois de cerca de duas décadas sem resultados positivos. Desde 2001, a Rodada Doha estava (e ainda está parcialmente) parada, mas os encontros recentes em Bali, na Indonésia, deram forma a um pacote chamado de “Doha Light”, no qual temas como agricultura, desenvolvimento e facilitação de intercâmbios comerciais serão progressivamente liberalizados, aumentando o fluxo do comércio internacional. 

Tal episódio ocorreu em um momento muito positivo para o Brasil. Fazia três meses e meio que Roberto Azevêdo havia assumido o comando da OMC. Em entrevista, o mesmo afirmou que a organização conseguiu sair do seu estancamento, mas que ainda seria necessário destravar Doha e “atualizar” diretrizes institucionais. Sua posse representou um ótimo momento para nosso país, pragmatizando a ideia de que o Brasil é um “novo player” mundial. 

Se tudo estava caminhando conforme o previsto, houve uma pequena reviravolta nos planos nacionais. Diga-se de passagem, tal mudança não denota transformações na natureza da OMC, muito menos no comando de Azevêdo, mas sim um abalo na imagem brasileira na organização. Ontem, dia dezenove, a União Europeia (UE) anunciou que acionou os tribunais contra os incentivos fiscais dados pelo Brasil, acusando-o de protecionista. 

A UE declarou que nos últimos anos o Brasil aumentou drasticamente sua carta de impostos, algo contrário às suas obrigações junto à OMC. Tal ação impacta diretamente o setor automobilístico nacional, pois recai na questão da isenção do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) e na instalação de montadoras estrangeiras no nosso território, uma vez que marcas como Audi, Mercedes-Benz e BMW já anunciaram construção de fábricas e desenvolvimento de veículos aqui em um futuro próximo. O IPI também influi diretamente em produtos eletrônicos como computadores e smartphones. Entretanto, é a indústria automobilística que carrega o bônus e, agora, o ônus da questão. 

O próprio Azevêdo disse que ainda não viu apresentação oficial do questionamento da UE junto à OMC e contra o Brasil. O atual Ministro de Relações Exteriores, Luiz Alberto Figueiredo, afirmou que as medidas do país estão em total conformidade com as diretrizes da organização, não devendo haver muito alarde até então. O provável contencioso ainda está em fase preliminar, sendo que a Comissão Europeia e o governo brasileiro têm o prazo de 60 (sessenta) dias para por fim à desavença. O prazo é curto e, caso não tiver sucesso, aí sim entrará em vias de fato na OMC. 

Mesmo com todo tom diplomático envolvendo os dois lados, não há dúvidas de que um episódio dessa magnitude acaba abalando as relações políticas e econômicas de ambos. Mesmo com um histórico de bons relacionamentos e aproximações entre UE e Brasil, talvez haja incidência negativa e direta na construção do acordo de livre comércio entre a União e o Mercosul. A realização dessa parceria é uma das prioridades do governo de Dilma Rousseff, a qual deseja concluí-la ainda em 2014.

Obviamente, trata-se de um ponto específico tanto na esfera comercial (setor automobilístico, principalmente) quanto no trato da questão estrita com o Brasil. Mas não se deve esquecer que nosso país representa enorme fatia econômica do Mercosul e este bloco tem como um dos eixos centrais de atuação a integração produtiva. Consequentemente, o imposto e o carro vêm do Brasil, só que seus reflexos têm grande dimensão regional. Resta saber se o discurso liberalizante da OMC não causará efeitos drásticos no livre comércio entre os lados europeus e mercosulinos.


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Estratégia franco-brasileira

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Em clima amistoso, vimos um cordial François Hollande visitar o Brasil essa semana, retribuindo visita de Dilma a Paris no final do ano passado e buscando estreitar as relações franco-brasileiras em diversos domínios estratégicos.

Aspectos diplomáticos da visita à parte, economicamente a França é o quarto país que mais investe no Brasil, apresentando ainda o sexto maior Produto Interno Bruto do mundo. E Hollande reiterou, presencialmente, o interesse francês em ampliar seus negócios com o Brasil. Notadamente, vimos o destaque da mídia em relação ao lobby para a bilionária negociação dos jatos militares que se arrasta há meses – e deve continuar incerta até 2015, dadas as diferentes prioridades assumidas em ano eleitoral.

Os jatos “Rafale” fabricados por empresa francesa competem com outros modelos fabricados pela Suécia (!) e pelos Estados Unidos pela preferência brasileira. Antes favoritos, os jatos yankees ficaram à mercê do debate sobre espionagem, já que nossas relações com os ‘amigos do Norte’ esfriaram depois das recentes denúncias na mídia.

Aliás, Hollande também vem em momento propício para juntar-se ao coro anti-espionagem-estadunidense, procurando aproveitar-se disso também para reerguer sua popularidade decadente na França, já que ser considerado o presidente mais impopular do país desde 1958 não é um título desejado por nenhum líder mundial…

Com a visita, foi ainda assinado um interessante acordo de “visto mochileiro”, possibilitando a estadia de jovens brasileiros na França (e vice-versa) por um período de um ano com a possibilidade de trabalhar. Iniciativa interessante que amplia o intercâmbio, promove oportunidades aos jovens e, consequentemente, aproxima ainda mais os países.

Para Dilma, a visita de Hollande vem ainda revestida de um forte caráter político, evidenciando o interesse brasileiro em manter/ampliar suas relações com os países desenvolvidos enquanto assume seu papel de líder dos emergentes. Trata-se de parceria visualizada como estratégica para ambos os lados, cada qual em busca do reforço de suas prioridades por meio de laços que, ano a ano, vem vislumbrando novos horizontes. 


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Acordo histórico

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Nos últimos anos, qualquer menção à Rodada Doha seria utilizada como sinônimo de fracasso, reunião interminável ou impossibilidade de consenso. Não mais. Vemos, em momento dito histórico, o primeiro acordo firmado no âmbito da Organização Mundial do Comércio (OMC) desde o início de suas atividades, em 1995.

Sob a Diretoria-Geral do brasileiro Roberto Azevêdo, a Rodada Doha foi “destravada” com o “Pacote de Bali” ou “Doha Light”, adotado por consenso entre os 159 membros da organização, na última reunião ministerial ocorrida essa semana em Bali, na Indonésia. Consenso que não é e nem nunca foi simples, repleto de reviravoltas e dificuldades de negociação, mas que foi, finalmente, após quase duas décadas, alcançado nos termos deste pacote.

De fato, os elementos acordados representam menos de 10% das ambições originais de Doha na facilitação comercial, mas trazem consigo o que foi chamado por Obama de “rejuvenescimento do sistema multilateral de comércio”. Sistema multilateral que, reconhecidamente, ainda tem muito que avançar, mas cujos resultados finais não podem ser visualizados em um bloco único, mas sim em blocos fragmentados de conversação, sendo o acordo de Bali histórico, portanto, principalmente neste sentido.

Restaurar a crença no poder do multilateralismo e nos benefícios da cooperação global na esfera comercial significa restaurar os laços para futuros acordos – nunca fáceis, dados os interesses de todas as partes envolvidas – mas não por isso impossíveis de serem alcançados.

O acordo aprovado possui três elementos essenciais: “agricultura, com um compromisso de reduzir os subsídios às exportações; a ajuda ao desenvolvimento, que prevê uma isenção crescente das tarifas alfandegárias para os produtos procedentes dos países menos desenvolvidos, e a facilitação de intercâmbios, que pretende reduzir a burocracia nas fronteiras”.

No âmbito da “agenda para o desenvolvimento” da OMC, os ganhos principais envolvem a redução dos trâmites alfandegários e burocráticos que dificultam relações comerciais, reduzindo custos e atrasos e viabilizando a geração de empregos – instituto estadunidense estima em ganhos mundiais após o acordo da ordem de US$ 1 trilhão e a geração de 20 milhões de empregos.

Com a ambição de renovar a credibilidade de uma organização cuja imagem desgastou-se principalmente nos últimos dez anos, vemos um Azevêdo empenhado e empenhando-se em facilitar consensos, trazendo novo ar à instituição por meio do apoio de seus membros. Ao negociar temas tão sensíveis, a imprevisibilidade impera e os interesses são muitos, nem sempre mútuos. Bali é só o início na esperança de maior flexibilidade comercial por parte dos países desenvolvidos. Acordo histórico, impulsionando novas páginas na história da OMC… 


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Black Friday

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E chegou o grande dia esperado por milhares de brasileiros. Ir a alguma loja física ou praticar o e-commerce com descontos de até (grifo meu) 70% sobre o preço real. Já peço desculpas pelo bordão: “Só que não!”. Teoricamente a Black Friday é o dia do ano com as maiores promoções e descontos do comércio, mas na prática, aqui no Brasil, isso está longe de ser real. 

A “sexta-feira negra” foi criada nos Estados Unidos em 2005 como tentativa dos comerciantes e empresários em alavancar as vendas sempre no final de novembro e logo após o feriado de Ação de Graças, o qual é muito comemorado e exaltado por lá. Para os norte-americanos, estar com orçamento no “black” significa um bom sinal e é sinônimo de lucros (não sabia disso até hoje e não me pergunte o porquê). Com o passar dos anos, o dia tornou-se internacional, diga-se de passagem, e atualmente ocorre em vários outros países como Canadá, Austrália e Reino Unido. 

Obviamente, rumou ao Brasil, até porque não só programas de tevê como “Big Brother” e “The Voice” são copiados por estas bandas. Carece de fontes, mas se estima que tal evento foi inaugurado aqui em 2010, sendo que me lembro somente do realizado em 2012. Virou sinônimo de piada, falsas propagandas e “feriado pré-natal” em virtude de vários lojistas aumentarem o preço na véspera e jogarem descontos em valores mais altos. 

Como se já não bastasse, agora em 2013 a Black Friday virou “meme”, algo viral e que ficou popular em muito pouco tempo na internet e redes sociais. A sexta-feira virou Black Fraude, “Tudo pela metade do dobro”, “Black Friday é uma cilada, Bino”, “Black is a Trap” e assim por diante. Hoje, no Facebook, só se fala disso e nada mais. É gente tentando vender e o PROCON tentando orientar os consumidores para não trocarem coelhos por lebres. 

Nada mais internacional do que a Black Friday, né? Saiu da terra do Tio Sam, vem rumando para outros países e serve como mais um dia para todo mundo comprar coisas que, por vezes, seria desnecessário. É aquela história de já aproveitar o fim do ano com presentes de Natal e propagar a ideia de que adquirir itens “x” é bom demais (e em algumas ocasiões não deixa de ser verdade). Até o Greenpeace lançou a campanha Green Friday para criticar o consumismo da “sexta-feira negra” e defender a preservação das florestas. 

Pode esperar que daqui uns tempos surgirão Yellow Friday, Blue Friday, Purple Friday, etc. O nome em inglês fica mais bonito e sempre haverá pessoas comprando a ideia. Tomara que essas não virem fraude, independentemente do motivo de suas existências.


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Que se lixe a troika

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É mais um dos episódios desencadeados pelos fortes ajustes econômicos de um país endividado. Nesse caso, não há a necessidade de tradução. Os portugueses organizam manifestações com o objetivo de protestar contra o orçamento do país para 2014, no qual estão previstos cortes agressivos nos salários e nas pensões.  

Há cerca de duas semanas, o ex-presidente do Banco Central Europeu, Jean Claude Trichet, comentava a crise econômica na zona do euro. Para ele, muitos dos países do bloco atravessaram anos gastando mais do que arrecadavam, de forma a resultar em déficits públicossignificativos. Todo déficit público exige financiamento de alguém. Quando veio a crise econômica, os financiadores enxergaram riscos na continuação do financiamento dos déficits, em especial de alguns países, e decidiram impor condições estritas. 

Entre os afetados, estão Grécia, Espanha e Portugal. Os portugueses, assim, encontraram-se endividados e forçados a implementar um ajuste impopular. Na realidade, gastar mais do que se ganha provoca consequências tanto econômicas quanto sociais. No âmbito social, promove serviços e condições de vida superiores às que a economia do país permitiria. No âmbito econômico, gera desequilíbrios de duradouras consequências.  

A analogia com o endividamento privado, por exemplo de uma família, pode ajudar-nos a entender. Um agente privado endividado vai ter que cortar despesas, caso deseje retornar ao equilíbrio. Contudo, na mesma analogia surge outro questionamento. Para pagar uma dívida, deve-se trabalhar e gerar receita, para a família na forma de salário. Sem trabalho, por mais profundo que sejam os cortes, pouco se avança.  

Retomando a comparação anterior, a temida austeridade é isso. Os governos diminuem os serviços oferecidos aos cidadãos, cortam gastos com encargos e salários, além de aumentarem os impostos. Assim, gradualmente retomam o equilíbrio ao diminuir o déficit público. Por outro lado, nestes períodos há uma retração dos agentes privados devido à incerteza. Por isto, o governo tem papel importante para não deixar a economia afundar mais do que deveria. 

Os países endividados, porém, não escolhem o que fazer. A troika (Banco Central Europeu, Comissão Europeia e FMI) traça metas ambiciosas para cortes das despesas. A margem para o governo agir e impedir a economia de colapsar fica restrita. Portugal, como os demais afetados, deveria pensar em reformas para incrementar sua competitividade e modernizar sua economia, fortalecendo suas bases para o futuro. Se no curto prazo os portugueses veem a economia entrar numa profunda recessão, poderia haver ao menos um melhor planejamento a médio-longo prazo.  

Os credores, no caso português a troika, querem mais é receber o que lhe devem. Enquanto isto, a crença nas instituições europeia diminui no mesmo sentido dos gastos sociais. No âmbito político, este fenômeno poderia ensejar um fortalecimento da extrema direita. Em Portugal, tendo em vista o não distante regime Salazar, esta tendência parece não se consolidar por enquanto. Consolida-se o “que se lixe a troika” e o repúdio à outrora promotora de boas novas, a União Europeia.


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