Há um ano...

Por

A nossa Página Internacional, como todos sabem, já tem mais de um ano. Desde o dia 24 de Janeiro, data de “nascimento” da Página e de nossa primeira postagem, foram exatamente 338 posts.

Foi realmente muita coisa de lá pra cá, ‘caiu’ o mito Obama, a crise veio e já se foi, enfim…

Só que às vezes eu fico pensando: o que teria acontecido exatamente há um ano? O que nós da Página teríamos postado há um ano atrás? E como está esse assunto hoje?

Por isso, veio a idéia de iniciarmos uma seção nova no blog, que será postada aos domingos, justamente para responder a essas perguntas. Assuntos interessantes abordados aqui há um ano estarão de volta.

Então vamos começar!

Infelizmente, não houve postagem exatamente no dia 28 de fevereiro de 2009. Mas, naquela semana, aconteceu muita coisa.

Em meio ao auge da crise internacional, o Ivan Boscariol, que hoje está na Índia, fez sua primeira contribuição ao blog (veja o post aqui) no dia 26/02. O UBS tinha sido obrigado a quebrar o sigilo de cerca de 300 clientes na Suíça. Foi um caso sem precedentes, a primeira vez que um banco suíço havia aberto dados sigilosos.

E as frases do nosso presidente também foram assunto do blog naquela semana. Lula havia dito, no dia 01/03, que o Brasil é o único país do mundo com moral pra lidar com a crise e que ia deixar isso claro na reunião do G20 que aconteceria naquela época. Eu mesmo escrevi um post criticando a frase. O resultado, no entanto, foi que o Brasil saiu mesmo da crise antes de muitos outros países. Um assunto muito polêmico pra este post, mas ainda acho que o Brasil, por mais moral que tenha, não era e nem o único país do mundo com moral, mesmo depois da crise ter passado, pra falar sobre o assunto.



E ainda foi abordado pela primeira vez um assunto que ainda renderia muitos posts: terceiro mandado do presidente colombiano Álvaro Uribe. Num texto muito bom, o Ivan Boscariol comparou o fato ao terceiro mandato do Chávez e ao tratamento dado pela mídia a ambos (veja o post completo aqui).

E o que deu do ‘causo’? Esta semana a justiça colombiana vetou a proposta e o Uribe ficou chupando o dedo. A mídia não se manifestou muito sobre o caso. No entanto, com certeza, se fosse na Venezuela, todos os jornais estariam abarrotados de matérias sobre democracia…

Bom, pessoal, por hoje é só. Este foi nosso primeiro “Há um ano…”. Evidentemente a nova seção vai melhorar ao longo do tempo até que achemos um formato ideal.

E rumo aos próximos anos de Página Internacional!


Categorias: Américas, Economia, Há um ano..., Política e Política Externa


Economia doméstica

Por

Em alguns países, faz parte da grade curricular dos ensinos fundamental e médio uma matéria chamada “economia doméstica”, que no Brasil virou curso superior e abrange desde habilidades culinárias até a capacidade de sair do vermelho no fim do mês com as contas em dia. Ao que parece, seria um aprendizado muito salutar não apenas para indivíduos, mas também para alguns Estados em particular.

Vejam o caso da Copa de 2014 e da Olimpíada de 2016. São eventos esportivos diferentes, mas ainda são os dois maiores do mundo e vão exigir somas astronômicas para a adaptação de necessidades estruturais. Se o país vive uma onda de ufanismo pelos eventos esportivos, não pode deixar de ter lucidez quanto aos gastos públicos. O discurso é bem conhecido: as organizações dos eventos vão atrás de patrocínios e parceiros de iniciativa privada nacional ou estrangeira para evitar a ingerência nefasta do Estado, aquele que não pode encostar os dedos na mão invisível do mercado. Mas vejam que, misteriosamente, o paizão sempre acaba tomando parte da farra.

Vejamos as olimpíadas no Rio. O orçamento inicial já é algo inimaginável de ser aplicado em uma só cidade por conta de um único evento, previsto inicialmente em singelos 29 bilhões de reais já está sendo inflado para mais de 33 bilhões apenas em infra estrutura, quase tudo às custas dos governos municipal, estadual e federal. Nada contra as melhorias em si, muito bem vindas por sinal, especialmente as estruturais, mas por que sua implementação será conduzida apenas por conta dos jogos? Por que não antes? Mistério. A questão não é apenas o custo em si, mas o “legado” dos jogos. Fala-se muito em deixar estruturas para o futuro, melhorias do esporte e afins, mas a realidade deixada pelo Pan-2007 é desanimadora, com seus prédios abandonados e dinheiro público que sumiu.

Se isso serve de um pouco de alívio (ou para piorar a história?), não é apenas no Brasil que isso ocorre. As últimas duas olimpíadas padecem do mesmo mal: Atenas-2004, apesar da ajuda da União Européia, e Beijing-2008, com o gigantismo da economia chinesa, tiveram gastos vultosos de seus Estados e produziram notórios elefantes brancos. Os extravagantes estádios chineses abrigam de tudo agora, menos eventos esportivos – os governantes podem optar por simplesmente por tudo abaixo e construir shoppings. A China é assim mesmo. Já a Grécia é um exemplo mais trágico, com 21 das 22 estruturas feitas para o evento consideradas desocupadas em 2009. Lembram da crise fiscal da Grécia? Diz-se que muitas das dívidas feitas pelo governo envolvem os jogos de 2004. Esta Olimpíada gerou prejuízos terríveis e comprometeu quase 7% do PIB do país (14 bilhões de dólares). Só comparando, a China gastou 21 bilhões, mas isto representa apenas 0,6% de seu PIB. Querer abraçar o mundo com as pernas, especialmente quando não se tem recursos, pode ser muito perigoso.

A Copa está prevista para seguir esse roteiro. Orçamento elevado (algo como 17 bilhões de reais, e que já está sendo previsto estourar em 120%), com a participação privada esperada mas o gasto final ficando às custas do governo. As melhorias de infra estrutura, em especial o trem-bala, são por demais custosas, e serão deixados alguns estádios com uso, digamos, limitado. Arenas novíssimas, de padrão internacional, construídas no meio do nada, não poderão ser mantidas por clubes pequenos (mesmo os grandes teriam dificuldades com isso, são todos deficitários). Essa farra com dinheiro público causa até problemas políticos (como na África do Sul). Melhor seria se nem tivesse sido escolhido como sede um país que não tem como arcar com estes gastos (ou o faz sacrificando outras coisas).

Se o Brasil pode aprender algo com os erros dos outros, é que uma política de irresponsabilidade fiscal pode causar problemas sérios e comprometer uma economia. Claro que o caso grego foi atípico, mas o Brasil há pouco tempo não era muito diferente, e não pode planejar gastos tão excêntricos sem uma fiscalização devida e responsabilidade – uma lição de economia doméstica que este não deve esquecer.


Categorias: Brasil, Economia, Polêmica


Verdades gregas

Por

Segundo Sófocles, poeta trágico grego (495-406 a.C.), “a verdade é sempre um argumento mais forte”. A busca de algumas verdades envolvendo a Grécia e a União Européia tem se mostrado em alta nos últimos dias. É preciso, então, refletir acerca da atual situação grega no cenário internacional, bem como de sua polêmica no que tange a Zona do Euro (motivo de preocupação ao primeiro-ministro grego, George Papandreou – foto acima).

Com a bolha do setor imobiliário em 2007, sabe-se que o mundo inteiro enfrentou dificuldades financeiras. A “crise global” assolou, portanto, fortemente também a Grécia, país que vem encarando desde então enormes problemas orçamentários. Para se ter idéia, a dívida grega acumulada (que vence nos próximos meses) supera os 16 bilhões de euros e preocupa investidores em geral.

O cerco se aperta em torno da Grécia para sua recuperação econômica, e o apoio do bloco em prol da estabilidade da Zona do Euro tem sido discutido nas últimas semanas. Contudo, a verdade é que o euro está ferido. O grande endividamento da Grécia (e de países como Portugal e Espanha) desafia a força da moeda européia face ao dólar no mundo.

E se não bastasse a complexa situação financeira em que se encontra a Grécia, o New York Times lançou ao mundo essa semana um questionamento sobre a verdade envolvendo a própria entrada do país na Zona do Euro no ano de 2001.

Segundo fontes do jornal, a Goldman Sachs e outros bancos de investimento norte-americanos teriam participado de um esquema de acordos financeiros com o governo grego naquele ano para mascarar o real estado das finanças do país (que seria inadequado às fortes exigências européias para se fazer parte da Zona do Euro). A Grécia nega qualquer tipo de ‘golpe’ neste sentido, porém, o buraco parece ser mais fundo do que parece e mais areia deve ser lançada ao ar nos próximos dias.

No momento, espera-se que a transparência seja o objetivo das partes envolvidas. O mundo, especialmente europeu (com destaque para França e Alemanha), exige explicações sobre o assunto por parte do governo grego e das agências financeiras norte-americanas. Políticos alemães chegam, inclusive, a afirmar que a própria entrada da Grécia na Zona do Euro foi um erro. Será?

Verdadeiro mesmo é o homérico desafio de manter uma moeda única forte e estável em países com soberania reconhecida e características fiscais diferentes, especialmente em tempos de crise financeira e polêmicas fiscais. No caso analisado, os personagens envolvidos são grandes, o cenário complexo e as conseqüências das ações imprevisíveis. Parece até tragédia grega. Aguardemos, pois, seu desfecho.


Categorias: Economia, Europa


O Outro Lado

Por


A crise econômica mundial moveu mais uma vez os holofotes do mundo para a China. O país conseguiu apresentar um impressionante crescimento de 8,7% em 2009, ano em que as maiores potências do mundo encontravam suas economias estilhaçadas. O atual momento pode até ser entendido como aquele em que o país finalmente clama seu lugar frente às grandes potências mundiais e questiona as atitudes dos EUA com muito mais do que simples palavras.


O grande sucesso chinês nesse período de crise foi resultado de um pacote de investimentos do governo que evitou os piores efeitos da recessão no país. A partir daí emergiram mais questionamentos sobre a eficácia de um modelo econômico estadunidense frente a uma possível superioridade do modelo econômico chinês. Assim, cada vez mais se fala de uma crise política em Washington, de uma possível superioridade de um modelo econômico chinês e da ascensão de uma China potência.


O que fez a China se recuperar tão rápido? Será que o modelo político-econômico chinês é de alguma forma superior? Bom, primeiramente vale lembrar que a China apenas seguiu as lições que os próprios EUA ensinaram, mas não foram capazes de seguir completamente devido ao grande atrelamento econômico com as instituições bancárias. Segundo, uma rápida análise próprio regime de governo chinês aliado às origens de um termo relativamente difundido, ditadura, pode trazer algumas respostas.


O termo ditadura se originou na Roma antiga quando, em caso de grave crise uma magistratura concentrava todo o poder das demais. A idéia era estabilizar a organização política para responder rapidamente a uma grave crise. Na atualidade os famosos ditadores não seguem esse exato modelo idealizado pelos romanos (uma vez que nem mesmo os próprios conseguiram utilizá-lo com maestria) de devolver o poder depois de estabilizada a situação política


Agora a China. Um governo autoritário, que vive com base na supressão da opinião pública, na censura e de poucas liberdades individuais e políticas aos cidadãos. Há apenas um partido, o Partido Comunista, considerado pelo próprio Estado como socialista. Mas ao final das contas o que há mesmo é uma centralização política muito próxima do que conhecemos por ditaduras em tempos modernos.


O ponto que aqui apresento é simples, porém importante. A concentração política do governo chinês, a falta de accountability do governo para com a opinião pública e com setores oposicionistas, aumentam a rapidez das ações em momentos de crise como essas. Contudo há sempre o outro lado frente a essa suposta rapidez e eficácia. E esse lado é uma sociedade cada vez menos democrática e menos participativa, deixando a política para o que Schumpeter diria ser a classe política, aquela designada a governar. A única diferença é que na teoria do autor há a possibilidade da população aceitar ou recusar aqueles que fazem parte dessa classe, mas nesse caso cabe à população apenas a aceitação.


Categorias: Ásia e Oceania, Economia, Política e Política Externa


Regulamentar, como?

Por

De volta a Davos, ainda sobre o ponto que o Raphael levantou em seu último post, Obama quer regulamentar os bancos. O debate não gira em torno de fazer ou não fazer, mas de como fazê-lo. Ainda na semana passada, o presidente americano propôs diminuir o porte dos bancos e restringir a liberdade dos bancos de utilizar capital próprio em atividades especulativas, e antes disso, a criação de um imposto sobre as obrigações dos bancos.

Mas justo os EUA tem se mantido distantes das discussões. O resultado? Mais blá-blá-blá e dificuldade de alinhamento entre os países, mais espaço para populismo. O discurso inflamado de Sarkozy na abertura do Fórum Econômico Mundial deu combustível suficiente para alimentar esse discurso.

Ora, o que mais preocupa: excesso ou ausência de regulação? Propostas de um imposto aplicado a movimentações de capital no mercado financeiro também surgiram, ao que – em sua maioria – sofreram rechaça no cenário internacional. Se liberar não é a ordem do dia, nada mais natural que seguir com as discussões que entraram em pauta na quebradeira do ano passado.

Ocorre que a chance de alguns países apenas aderirem ao sistema de regulação bancária preocupa os Estados. E isso é quase uma certeza, pois banco que é banco vai optar por transferir operações para os países mais camaradas e não faltarão anfitriões ansiosos por hospedar os grandões do setor.

Os bancos sempre clamaram por independência. Deu no que todos nós sabemos, e muito dinheiro do governo americano foi injetado para cobrir os títulos podres do mercado imobiliário. Bancos que sobreviveram à crise e passam muito bem, obrigado, devem pagar o pato do mau uso alheio. Isso ocorreu com Brasil, Colômbia, Canadá, Espanha, entre outros. Israel também se posicionou de maneira contrária à taxação extra proposta em Davos.

Se não se pode contar com o bom-senso da autorregulamentação bancária, e as boas intenções e promessas de mudança não são suficientes para barrar outro efeito dominó econômico, então restrinjam a farra financeira – se puderem.

 


Categorias: Economia


A Calmaria

Por

Novos ânimos parecem motivar os líderes mundiais num ambiente pós-crise na economia internacional. Como disse Obama em discurso recente proferido ao Congresso sobre o atual Estado da União, “os líderes agiram em tempo, mas a população ainda sente os efeitos da devastação causada pela recessão”. Essa devastação pode ser entendida em outras palavras como o resultado de o estouro de uma bolha especulativa, que como em 1929, teve resultados catastróficos.

Durante todo esse período de crise, iniciada em 2008, uma pergunta pairava nas mentes dos líderes mundiais: O que fazer?

Cada Estado encontrou sua própria maneira de lidar com a crise. O Brasil a viu como uma marolinha e continuou a incentivar o consumo. As soluções encontradas pelo governo estadunidense foram medidas que envolviam pacotes de ajudas a grandes empresas retirados das reservas do governo. De maneira simplificada, resumia-se à idéia de salvar algumas empresas para salvar a economia, injetando dinheiro nas grandes companias e nos bancos.

Aos poucos o cenário caótico de crise parece desaparecer do nosso horizonte. Alguns especialistas afirmam que essa crise foi curta e de grande intensidade, por isso não há necessidade de maiores regulações na economia. Assim, nesse novo momento da economia mundial a dúvida surge novamente, e com ela uma nova pergunta: E agora? O que fazer (de novo)? Chegamos à calmaria?

Os EUA já tem algumas respostas. Além de outras medidas, Obama exigirá o pagamento dessa ajuda financeira de volta para as reservas do governo por parte das empresas, uma vez que a economia está se estabilizando e elas voltaram a crescer novamente. Esse dinheiro arrecado seria investido em novas formas de abrandar os efeitos da crise, como formas de aumentar os empregos.

No plano internacional, questões como essa vieram à tona com força total na edição 2010 do Fórum Econômico Mundial, em Davos, na Suíça, onde a dicotomia econômica da regulação contra a liberalização emergiu novamente. Mesmo com opiniões variadas, a maioria dos representantes de grandes Estados e economias, como China e a França, mostraram-se dispostos a um comércio mundial mais regulamentado.

Ânimos renovados acompanhados da inação não são o suficiente para que se impeça novas tempestades como essa. A mensagem do presidente brasileiro no evento foi clara: uma reunião não é o suficiente para uma nova regulamentação da economia mundial. Há a necessidade de um comprometimento internacional mútuo para um novo mercado mundial, ou as grande empresas tenderão a mudar de país a país buscando melhores condições. Se cada Estado buscar uma solução interna somente e aproveitar a recuperação da crise à sua maneira, sem olhar para frente, as consequências podem ser catastróficas.

O ditado parece não ser tão correto agora. Depois da tempestade pode não vir a calmaria. O mais certo ao se tratar de Relações Internacionais seria dizer que depois da tempestade, deve-se BUSCAR a calmaria.


Categorias: Economia, Estados Unidos, Política e Política Externa


Soluções econômicas mirabolantes, repercussões polítcas mirabolantes

Por

Não é novidade para ninguém que vivemos em tempos financeiros nebulosos. A crise econômica que eclodiu em setembro de 2008 ainda deixa sinais por todo o mundo e, ao seu combate, inúmeras iniciativas estão sendo tomadas. Recentemente, ocorreu na Basileia, Suíça, uma reunião entre os presidentes de Bancos Centrais e representantes do Fundo Monetário Internacional (FMI) e da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE) para adotarem novas regras para os bancos e evitar novas crises. Mas não é para as repercussões desse evento que quero atentar. Chamo atenção para outro ponto: a Argentina não enviou nenhum presidente do Banco do Central (BC). Ele foi demitido pela presidente Cristina Kirchner.

Ao menos, a demissão do presidente do Banco Central argentino, Martín Redrado, foi a solução unilateral encontrada pela presidente para conter a crise econômica em seu país. E de um problema econômico passou-se para um grave problema político. Constitucionalmente, a demissão do presidente do BC – ou de qualquer outro dirigente do BC – depende do voto de uma comissão do Senado, o que não ocorreu. Kirchner declarou que Redrado agiu de má conduta ao negar o pedido de US$ 6,5 bilhões das reservas da instituição para pagar parte da dívida pública da Argentina que vence este ano, totalizada em US$ 13 bilhões.

Não é a primeira derrota significativa de Kirchner. No ano passado, quando tentou taxar as exportações de produtos agrícolas, a decisão dependia de um voto do vice-presidente, Julio Cobos, que negou tal iniciativa, submetendo ação ao encargo da história. E essa história não nada lá muito bem para a presidente argentina, que se perde no meio de tantas retóricas. Agora ela acredita que é vítima de uma conspiração midiática, política e judiciária para derrubar o seu governo.

É importante que se note: enquanto foi se construindo um mausoléu para economia Argentina, o patrimônio do “casal presidencial” – como Nestor e Cristina Kirchner são conhecidos no país, elevou-se de US$ 1,9 milhão para US$ 12,1 milhões, entre 2003 e 2008. Desde a criação do Estado Argentino, no século XIX, muito se acreditou num futuro promissor e próspero, bem com se idealizou uma Grande Argentina. Essa dupla que atualmente está no governo entra no rol das figuras que contribuíram para o naufrágio econômico da nação, agravado durante a década de 1990.

A Venezuela não ficou para trás no tocante à adoção de medidas mirabolantes. Hugo Chávez decidiu estabelecer um câmbio duplo e desvalorizar a moeda venezuelana para combater a inflação. Até aqui, tudo bem, é uma medida de práxis, embora bastante questionada. Só que o presidente venezuelano agora definitivamente inovou: militarizou o combate da inflação. A Guarda Nacional está nas ruas, patrulhando os estabelecimentos comerciais para evitar a elevação dos preços. Quem subir os preços, terá os produtos confiscados. Isto sim é que um exemplo claro de intervenção estatal na economia e um desvirtuamento da função dos militares.

Se essas soluções serão exitosas ou não, deixemos sob o julgamento da história, como Cobos o fez. O que cabe ser destacado e conduz a uma instigante reflexão é o quanto decisões como essas podem, paradoxalmente, reforçar o Estado democrático de direito e de fato – condição alcançada em toda a América Latina por meio de um sinuoso processo – comprometendo a ordem democrática vigente, abandonando a simbiose Estado/democracia. Das apreensões e incertezas econômicas está se passando, igualmente, para as apreensões e incertezas políticas. Conclusão: soluções econômicas mirabolantes, repercussões políticas mirabolantes.


Categorias: Américas, Economia


África esquecida?

Por

Olá, leitores! Por hoje, vou permanecer no mote levantado pelo Kita ontem: a África.

Para quem pensa na África como um continente abandonado a própria sorte, que sofre com miséria e condições sub-humanas de sobrevivência, enfim, um lugar esquecido e negligenciado por tudo e por todos, cuidado. É melhor revermos nossos conceitos. Ou não.

Cerca de 13 das 31 resoluções do Conselho de Segurança das Nações Unidas até agora em 2009 dirigem-se nominalmente a países africanos. Isso retoma a imagem de uma situação sem saída, estados falidos, guerras civis, epidemias, violência e genocídios tribais. Hoje com apenas 2,3% do PIB mundial e 1 bilhão de habitantes distribuídos em 56 Estados recortados pelas potências coloniais européias, o continente africano despertou grandes expectativas com relação aos seus projetos de desenvolvimento durante o período de independência. Como bem lembra Fiori, atropelado por sucessivos golpes e regimes militares e pela crise econômica mundial da década de 1970, o continente passou por um prolongado declínio de sua economia até o início do século XXI.

A partir de 2001, no entanto, a taxa de crescimento da economia africana saltou de 2,4% em 1990 para 5,5% em 2008. Ora, a China encontrou na África o território promissor para fornecimento de recursos, com o comércio entre as partes alcançando a cifra de 76 bilhões de euros. Os interesses de todos se resumem basicamente em uma commodity: o petróleo. Afinal, são 8% da reserva bruta mundial. Os investimentos incluem até mesmo a construção de um teatro no Senegal, e o detalhe é que os montantes não estão condicionados a reformas políticas ou humanitárias, como fazem europeus e americanos. Governos exilados pelo Ocidente descobriram a parceria perfeita em Pequim.

As antigas potências coloniais européias ficam para trás não somente no campo das idéias. Competem agora com outros atores emergentes (Índia, Brasil ou Rússia) por recursos secundários, já que mais de 70% dos contratos de obras públicas na África subsaariana são concedidos a companhias chinesas ou indianas. Definitivamente, a influência em países africanos não é mais a mesma de algumas décadas atrás.


Sentindo isso, a Hillary Clinton já em agosto desse ano iniciou uma série de visitas oficiais de 11 dias à África Subsaariana. Sete países foram escolhidos, iniciando pelo Quênia, considerado um território estável. Em seguida, veio a maior potência regional, África do Sul, e Angola, graças às reservas de petróleo. Segundo consta, a última eleição presidencial foi em 1992; e o presidente ocupa o cargo desde 1979. Outra parada foi o Congo: grandes proporções, grande violência, governabilidade mínima. Além disso, a visita contou com visitas à Nigéria, Libéria, que se recupera de guerra civil, e Cabo Verde, muito elogiado por seu modelo de democracia.

Os fatos têm apontado em uma só direção: sim, a África é novamente o fim maior de uma disputa acirrada pela influência na região em busca dos recursos de lá advindos. Ajuda humanitária? Preocupação com a segurança regional? Democracia e desenvolvimento? Só se facilitarem as negociações.


Categorias: África, Ásia e Oceania, Economia, Estados Unidos


O colapso do império americano?

Por

Não. Nem tanto. O consenso, sob os mais variados pontos de vista, é que ocorerrá um forte reajuste econômico. É evidente que são muitos os perdedores. Antes, os Estados Unidos pautavam seu crescimento econômico no consumo e importações, ao passo em que China, Japão e Alemanha equibravam-se a partir da poupança e exportações. A crise, cujo estopim completa um ano neste setembro, refreou a demanda norte-americana, diminuiu as exportações em consequência, culminando em uma retração da economia de muitos países.

O retrato é sombrio nos Estados Unidos. Seguidos déficits comerciais, desemprego de 9,4%, guerras inacabadas, dinheiro do contribuinte empregado na salvação de instituições financeiras, enfim. A popularidade de Obama vem despencando, na posse era de 80% e agora já atinge 50%. As comparações que remetiam a Rooselvet e Kennedy – um pela condução de do país do pós 1929 e o segundo por ter representado um fato novo na política americana, agora fazem referência a figuras menos ilustres, como Lyndon Johnson e Jimmy Carter. Até o impossível parece tornar-se plausível novamente, o partido repúblicano retoma parte de sua força.

O governo do 8 ou 80 – sucesso ou fracasso estrondoso, parece mesmo de consubstanciar. Obama terá inúmeros desafios pela frente; difícil prever em que posição se encontrarão republicanos e democratas em 2012, na próxima eleição presidencial. As escolhas serão difíceis, no campo econômico: manter o déficit comercial para continuar a incentivar a economia e vencer de vez a recessão, ou diminuir o ritmo do endividamento e colocar sua plataforma de mudança social em risco frente a uma retomada da economia mais gradual? Vale lembrar ainda que o presidente colocará seu plano de reforma do sistema de saúde americano à prova e carregará também o fardo da guerra no Afeganistão.

Seria o fim do sonho americano? Muito improvável. Em diversos momentos a proeminência norte-americana pareceu ameaçada. Exemplos disso não faltam, como a URSS na década de 1950 no ato do lançamento do Sputnik – na corrida armamentista, e frente ao Japão na década de 1980, no campo da tecnologia empregada para o desenvolvimento econômico. Eventos como este só reforçaram o potencial de recuperação dos Estados Unidos. O mundo depende tanto dos Estados Unidos, quanto o contrário. Veja, para ilustrar o que digo, alguns dados: os norte-americanos são os mais produtores mundiais de carne bovina e milho, e os maiores consumidores mundiais de computadores, petróleo, automóveis, café, entre tantos outros. Só os Estados Unidos, representam 23,5% do PIB global e são responsáveis por 20% da totalidade dos investimentos direto estrangeiro no mundo. Pode-se apontar ainda um último ponto fundamental, o investimento no ensino e na pesquisa, cerca de 2,6% do PIB do país, muito mais elevado do que em outros países desenvolvidos.

É um tentação cravar o fim de uma Era. Mas o sistema internacional é dinâmico flexível ante ajustes econômicos e políticos. Só o tempo dirá se realmente caminhamos para um sistema mais multipolar, onde a figura norte-americana estará ofuscada por novos gigantes. A lógica financeira e moral impregnada pelos Estados Unidos enfrenta uma inegável crise – para qual parece não haver volta, mas são poucos os indícios, ao mesmo tempo, que o seu potencial de revitalização e encontrar um novos caminhos sigam caminho semelhante. A gigante pode ficar, só não fica claro se Obama vai contar com a paciência de seus concidadãos por muito mais tempo.

[Peço desculpas pelos poucos links, mas este post foi inspirado na Revista Exame – Especial Estados Unidos, de 09/09/09. Excelente leitura, por sinal]


Categorias: Economia, Estados Unidos


Avançando para o Passado

Por

O Alcir continua sem internet, por isso estou publicando seu post.

_______________________________________________


[Em primeiro lugar, peço desculpas pela ausência nos últimos dias. Estou sem internet desde sexta-feira (isso porque a telefônica está em ação…) e sem previsão de tê-la de volta. Agradeço, mesmo que tardiamente, a todos os nossos leitores e colaboradores pelo apoio no Top Blog! Sábado que vem o Ivan e eu estaremos na cerimônia de premiação]

Muito se tem discutido sobre o Pré sal e os possíveis marcos regulatórios do governo. O que não se tem dito, no entanto, é que o objetivo real do Estado brasileiro é voltar ao domínio do setor petroquímico. E o pré-sal é apenas uma pequena parte dessa estratégia.


O que mais se tem dito na mídia é o tal direito que a Petrobrás terá de explorar todos os novos blocos do pré sal daqui pra frente sozinha ou em joint ventures com outras empresas, que serão obrigadas a oferecer 30% no mínimo para a estatal brasileira.


No entanto, outro fato tem me chamado atenção. Hoje, o setor petroquímico brasileiro de primeira geração – aquele que, após o refino do petróleo, faz os produtos básicos, como Eteno e Propeno, que serão utilizados por toda indústria química – é “dividido” entre duas empresas: a Braskem e a Quattor.


A primeira é a terceira petroquímica das américas, formada pelos grupos Odebrecht (32%) e pela Petrobrás (31%) entre outros. No ano passado, teve uma receita líquida de US$ 9,1 bi.


A Quattor, por sua vez, é o resultado da união de outras quatro principais empresas (Riopol, Unipar, Suzano Petroquímica e PQU). É também uma gigante que faturou US$ 9 bi no ano passado. Mas que, no entanto, passa por dificuldades em virtude de dívidas que contraiu. Seu capital é composto por 60% de participação da Unipar e mais 40% da Petrobrás.


A Quattor reestruturou o setor petroquímico do país e “tirou” das mãos da Petrobrás seu monopólio indireto, tempos após a estatal ter perdido o monopólio da exploração. Foi uma promessa do governo ao setor privado brasileiro de que não haveria mais monopólio estatal no setor do petróleoque não se trata somente de extração e refino.


No entanto, a Quattor não está bem das pernas, e a proposta que está sendo arquitetada é que a Braskem a compre (ou se una a ela), com participação da Petrobrás, o que daria novamente à Estatal o monopólio indireto do setor, já que somente a Braskem estaria no mercado, com controle dividido entre o grupo Odebrecht e a estatal.


No entanto, essa é uma questão ideológica. O Estado participa ativamente da economia, e neste caso específico de um setor altamente estratégico ou deixa a tarefa para o setor privado?


O que eu sei, é que até a abertura do setor petroquímico no Brasil, a Petrobrás era um grande cabide de empregos do governo e do PMDB em especial. A concorrência e a abertura de capital fez com aumentasse sua produtividade, transparência e se tornasse uma das maiores empresas do mundo. Isso sem contar os benefícios ao consumidor final e para as indústrias.


Inclusive, após a abertura do setor, nossa indústria química cresceu como nunca, inclusive a Petrobrás.


O governo brasileiro não tem o que temer. Voltar aos tempos do monopólio do petróleo é um retrocesso sem tamanho. São evidentes as intenções do governo de calar o debate em torno das propostas em regime de urgência para regulamentação do présal e as tentativas de retomar o controle do petróleo com discursos nacionalistas inflamados.


Além do mais, é sabido que nem a Petrobrás nem nenhuma empresa no mundo sozinha tem os recursos suficientes para explorar o pré sal. Esse tipo de atitude contribui para afastar possíveis parceiros.


Creio que o maniqueísmo não nos leve a lugar nenhum. Essa mania de se falar que o privado é demoníado e o estatal é angelical. O norte é imperialista, o sul é dominado. Os estrangeiros são aproveitadores, os brasileiros, coitados. Já se foi o tempo dessa conversa e os avanços que o Brasil tem tido ocorrem em parceria com estrangeiros, países do norte, do sul, brasileiros, enfim…


Sobre essa mania do nosso governo, veja o um dos primeiros e atualíssimos posts deste blog.


Não é preciso fechar o Brasil, tampouco entregar TUDO aos estrangeiros. O que se precisa, e o governo não quer, é que o assunto seja discutido.


Categorias: Brasil, Economia, Política e Política Externa