Cenas improváveis

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À primeira vista, pode parecer uma das brincadeiras do show “Os Barbixas – Improvável”, em que os participantes improvisam a partir de situações inusitadas. Poderiam os Estados Unidos fazer o mesmo? O participante exemplar do jogo democrático, criador de modelos e teorias, porão fim ao historicamente consolidado sistema bipartidário? Igualmente, é importante a pergunta: a América Latina consolidará as suas instituições democráticas plenamente? Há poucos dias, nosso colaborador internacional Luís Felipe noticiou os desdobramentos equatorianos, mais um de uma longa marcha pela estabilidade política no continente.

Hoje, no The New York Times, duas análises chamaram a atenção. Uma, do renomado economista Paul Krugman (aqui), enfatizou o apoio de milionários norte-americanos para os movimentos de ultradireita no país – do Partido Republicano aos ativistas do Tea Party -, sendo que, por exemplo, a Fox News agora também unge os candidatos republicanos. Para os apreciadores de Michael Moore e o seu Fahrenheit 11 de Setembro, certamente se lembrarão da importância da emissora na eleição de Bush filho. A outra, do destacado jornalista Milton Friedman (aqui), argumenta a favor da criação de um terceiro partido, que encerre o defasado duopólio e lide corretamente com os problemas do país. O interessante, no argumento do autor, é a relação entre a pior crise econômica da história dos Estados Unidos e a sua repercussão na arena política. Que animal fará companhia ao burro e ao elefante?

Neste ano, de acordo com os dados da ONU, o crescimento econômico previsto para a América Latina é de 3,9% – maior que a média mundial (3,0%) – e a pobreza extrema foi reduzida em 85%, quando comparado aos índices de 1990 (aqui). Paradoxalmente, tais indicadores não acompanharam a plena consolidação da democracia na região. Não bastasse Honduras, no ano passado, Equador e Venezuela enfrentam situações delicadas (já tratadas neste blog). A Colômbia aparentemente faz progressos no combate as Farcs e tende a recrudescer a política de segurança, conforme o anúncio do presidente Santo (aqui). Porém, ainda impera um déficit institucional latino-americano, passível de derrubar governos ou de perpetuá-los no poder.

O jogo está lançado. As situações já foram retiradas da caixa e é hora de improvisar. O investimento na ultradireita ou um terceiro partido poderia trazer soluções para os Estados Unidos? E na América Latina, quais os caminhos para a vigência definitiva da democracia? Criatividade e imaginação, convertidas em atuação, são qualidades imputáveis para jogar Cenas Improváveis.


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Dois gigantes sem condomínio

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Condomínio foi um termo comumente empregado na vigência da Guerra Fria. Designava um ordenamento no qual os países de todo o globo permaneciam ao lado de um dos condôminos, Estados Unidos ou União Soviética, e, assim, coexistiam. Na Ásia, poder-se-ia verificar similitude do condomínio bipolar, não fosse o autonomismo chinês e a inteligência inventiva nipônica, ainda que, em grande medida, apoiada pelos norte-americanos. Adicionalmente, a emersão dos tigres asiáticos (Coréia do Sul, Singapura, Hong Kong e Taiwan) também evitaram uma fria polarização na porção mais oriental do continente. Embora os gigantes – um comunista, o outro capitalista – não tenham constituído um condomínio sub-regional, não se supõe, de modo algum, a ausência de rivalidades e competição sino-japonesas.

Na classificação de Marcos Aguinis, autor de O atroz encanto de ser argentino, há quatro tipos de países. O Japão pertence a uma categoria exclusiva, qual seja de um país que tinha tudo para dar errado e deu certo. A China, por sua vez, seria uma exceção que tende a se confirmar, à semelhança do Japão, ou um país da primeira categoria, que teve tudo para dar certo e deu certo. Fato é que, por enquanto, observa-se que a China deixou de ser apenas o milenar “império do meio” – raiz etimológica do nome – para se tornar um império global. O Japão não se apequenou perante as suas extensões territoriais e também alcançou o mundo. Enquanto este investiu na produção de bens de elevada tecnologia e adentrou os países, aquele se dedicou à produção (ou replicação?) de bens de consumo em massa e atingiu as esquinas.

Do ponto de vista econômico-comercial, Japão e China tanto se lançaram a conquista do mercado asiático individualmente, quanto cooperativamente, através de arranjos regionais, como em acordos com a Associação de Nações do Sudeste Asiático (ASEAN) ou na Cooperação Econômica da Ásia e do Pacífico (APEC). No plano político, as divergências são acentuadas. Não por causa dos sistemas políticos, imbuídos de ideologias diferentes, mas em decorrência de mágoas históricas – a ocupação japonesa da Manchúria nos anos 1930 – que repercutiram nos sistemas de educação, nas desconfianças militares e geopolíticas traduzidas na prática da espionagem e na não-aceitação do Japão como membro permanente do Conselho de Segurança, pleito do G-4.

O mais recente episódio que ilustra as rivalidades entre ambos foi a colisão entre dois navios da Guarda Costeira japonesa e um barco de pesca chinês. Aparentemente, o que era um acidente se tornou um incidente diplomático, que envolveu desde a prisão do capitão chinês, passando pela retaliação chinesa ao bloquear a exportação de minerais raros para o Japão, até o pedido de compensação do prejuízo por parte do último. Por que tanto alarde? Será que não é uma questão de orgulho ferido? Não faz tanto tempo, a China se tornou a segunda maior economia do mundo (aqui), ultrapassando o PIB japonês, posição que o Japão sustentava desde 1968, quando superou a Alemanha Ocidental. (Vejam notícias e análises sobre os acontecimentos aqui, aqui, aqui e aqui)

Segue, então, os dois gigantes asiáticos, sem condomínio e nem plena harmonia. Entre a cooperação e a rivalidade, China e Japão caminham para o cumprimento de seus respectivos destinos, de modo que um permanece atento as ações do outro.


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Mancha negra

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Hoje o maior desastre ambiental da história dos Estados Unidos completa três meses. E ainda são imensuráveis as consequências do vazamento de petróleo causado pelo incêndio da plataforma Deepwater Horizon, no Golfo do México. Com o vazamento de 60 mil barris por dia, hoje aproximadamente 550 milhões de litros de petróleo já se espalharam pelo Golfo do México (acompanhe a evolução da mancha negra aqui), impactando de forma extremamente nociva ao meio ambiente.

Com relação a esse desastre, as perdas se encontram em vários âmbitos: em termos humanos, onze funcionários que trabalhavam na plataforma morreram e mais de cem foram resgatados; em termos de fauna, milhares de animais marinhos morreram ou estão sofrendo com a contaminação de seu hábitat natural (foto); em termos econômicos, as indústrias de frutos do mar e de turismo foram atingidas diretamente na região; e em termos ambientais, os estragos são tão grandes que se estendem até ecossistemas marinhos distantes da região. Para se ter noção, Obama chegou a comparar o impacto desse desastre aos atentados de 11 de setembro de 2001 nos EUA…

A British Petroleoum, empresa responsável pela plataforma, já gastou bilhões de dólares para remediar as consequências do vazamento, tendo anunciado ontem a venda de ativos para arcar com esse custo. Contudo, as operações para conter os estragos tem se mostrado difíceis, além de custosas, devido a diversos fatores logísticos, dentre os quais até o mau tempo se enquadra.

Hoje foi anunciado um pacote de mil milhões de dólares por parte de quatro grandes petrolíferas (Exxon, Shell, Chevron e Conoco Philips) para a construção, nos próximos meses, de um novo sistema de contenção de vazamentos de petróleo – com capacidade para conter até 100 mil barris por dia. Medidas que visam evitar um novo desastre com impactos tão negativos como o atual está se mostrando ao mundo inteiro.

A tragédia suscita ainda a constante discussão acerca da substituição dos combustíveis fósseis na utilização cotidiana. A dependência que a sociedade contemporânea criou em relação ao petróleo (e seus derivados) um dia deverá ser suprida por combustíveis “verdes”, ecologicamente sustentáveis. Muitos ainda defendem a utilização do petróleo e sua importância certamente é inestimável para o desenvolvimento das bases modernas da sociedade em que vivemos, porém o fato é que a discussão sobre energias limpas adquire maior expressão a cada dia, demonstrando a urgência em se adaptar a estrutura da sociedade a novas condições.

Tal como apontam David G. Howell, Kenneth J. Bird e Donald L. Gautier (da Divisão de Geologia de Petróleo do U. S. Geological Survey, Califórnia), “precisamos aproveitar as reservas existentes para um prudente e meticuloso planejamento do futuro, um futuro sem petróleo”. E que não está tão distante assim de nossa realidade.


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A bomba-relógio

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Nesta semana, ocorre a 18ª conferência Internacional sobre AIDS, em Viena. O encontro tem um caráter eminentemente científico, mas sua carga política é ressaltada pela presença expressiva de lideranças e personalidades internacionais. Afinal, o ônus do combate à doença é cada vez mais sentido pelos países, e o mundo é alarmado com a divulgação de dados da expansão do vírus. Se por um lado a África mostra sinais positivos de progresso contra a doença – o número de jovens infectados caiu segundo informações da ONU -, a doença avança em áreas empobrecidas como a Ásia Central e o Leste Europeu.

A preocupação não afeta apenas a esfera da saúde pública. De fato, a economia de países assolados pela imunodeficiência, principalmente os menos desenvolvidos, já é onerada severamente pela doença e pode vir a se tornar uma situação insustentável em anos vindouros, com um custo estimado em mais de 35 bilhões de dólares. Até mesmo o combate ao narcotráfico se mostra como uma das faces desse desafio (dado que o uso de drogas injetáveis um dos grandes meios propagadores de contaminação, principalmente nas zonas em expansão como o Leste Europeu).

Os custos de prevenção e tratamento são vultosos, e ainda assim pioram os indicadores. Para piorar, em momentos como a crise mundial de 2008, os países ricos fecham a torneira e há queda relevante nos recursos para combate à AIDS. Mas dinheiro não parece ser o problema – até mesmo as medidas costumeiras de prevenção e combate à doença (coisas simples como disponibilizar e incentivar o uso de preservativos) tiveram algum sucesso, como indica timidamente a África. Por que exemplos como modelo brasileiro de combate à AIDS, elogiado internacionalmente, não é seguido por outros países? Dir-se-ia que falta vontade política para promover esse acesso universal a tratamentos. De fato, o coquetel anti-AIDS movimenta muito dinheiro, e existe todo o lobby e o interesse das empresas farmacêuticas. Mas vamos além do lugar-comum nessa discussão, adentrando o terreno da própria segurança do Estado.

De fato, o fim da Guerra Fria fez emergir novos temas no estudo da Segurança Internacional, e o setor social é uma das faces que pode trazes ameaças ao Estado. Países com populações maceradas por epidemias, com parte das finanças comprometida no combate a um inimigo insaciável, servem de terreno para a instabilidade e a insurreição popular, quando não o caos, se aprendemos algo com a África nos últimos anos. Basta lembrar de como o estupro e a transmissão da doença já são utilizados como arma de guerra por lá.

Resta torcer para que a conferência traga resultados positivos e os dados alarmantes despertem os governantes para a crise mundial que essa doença representa, tanto para a saúde de seus cidadãos quanto à dos próprios Estados. Não apenas notícias esperançosas de algo como uma vacina, mas o despertar para o perigo real dessa doença bomba-relógio para os países.


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Dependência: entre o passado e o futuro

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Outra vez mais, a “dependência”, termo tão caro as inteligências políticas de outrora, volta ao umbral da América Latina. E a sua invocação veio durante o 33º Período de Reuniões da Comissão Econômica para a América Latina e Caribe (CEPAL), que hoje se encerra em Brasília, por intermédio da secretária executiva do órgão, a mexicana Alicia Bárcena. A região corre agora o risco de uma “nova dependência”, e adivinhem de quem? Da China, que no século XXI se converteu no principal parceiro comercial de muitos países latino-americanos.

Ora, ressalta-se: a América Latina não se comporta como um neófito diante do templo da dependência. Nas décadas de 1950 e 1960, quando o conceito fora cunhado pela CEPAL, o pensamento teórico supunha um ordenamento no qual a divisão internacional do trabalho condicionava a América Latina a exportar produtos primários aos países centrais, importando produtos manufaturados destes. Tal situação deteriorava os valores de troca, mantendo os países latino-americanos na periferia do sistema internacional e perpetuando o subdesenvolvimento dos mesmos. Para os teóricos dependentistas da época, criava-se uma condição inextricável, cuja fuga era impossível, a não ser que se abandonasse a ordem capitalista, o que significava, em outras palavras, deixar de fazer parte do mundo. Na academia, a teoria marxista das Relações Internacionais arrogou essas premissas dependentistas em seu corpo teórico.

Ápodes e acéfalos, restavam aos países latino-americanos sentarem-se na cadeira de rodas dos centros hegemônicos do capitalismo, notadamente pelos Estados Unidos, e por eles deixarem-se conduzir. Era o avesso da história que chegava ao fim antes de Fukuyama decretá-lo. Todavia, nem todos foram contaminados pela doença terminal da dependência, sobretudo Brasil, Argentina e México. Havia, sim, a possibilidade de superar o subdesenvolvimento dentro do próprio sistema capitalista. A doença tinha cura, chamava-se industrialização. Os modelos econômicos da América Latina sustentavam apenas uma diplomacia agroexportadora, enquanto que uma base industrial traria o desenvolvimento, o soerguimento da periferia, num primeiro momento.

Lições do passado, a duras penas, permitiram à região uma guinada em suas políticas internas e exteriores rumo à superação atraso histórico. Levaram os países latino-americanos a adentrarem ao grupo dos Não-Alinhados, na década de 1970, e depositarem a primazia no desenvolvimento, não mais na segurança. Algumas lições, a CEPAL chegou a desacreditar, outras não. E agora vem com novas recomendações. Mas não são de todo ruim. A força centrípeta para evitar uma nova dependência está na América Latina, no fortalecimento de seus mercados, no revigoramento do papel do Estado, no esforço para superar as desigualdades sociais, na superação do que Bárcena chamou de “maldição dos recursos naturais”, dentre outras medidas. (Confiram as resoluções aqui.)

De fato, a América Latina deve evitar uma nova dependência e os países que permanecem à deriva da atual precisam abandoná-la. Os líderes latino-americanos não podem permanecer na inépcia de um pensamento próprio e forte, congênito ao continente. Há que se comportarem como o prisioneiro que busca a luz, no “mito da caverna” de Platão. Pode ser uma região de contrastes, mas é também um rico laboratório de experiências históricas, cujos acertos de agora poderão torná-la uma grande potência no futuro. Deve haver uma voz uníssona que silencie os ecos da dependência.


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Argentina: o que comemorar?

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Um dia após o colaborador Luís Felipe fazer aniversário, é a vez da Argentina. Hoje se celebra o bicentenário da independência. Há dois séculos, o Vice-Reino do Prata emancipou-se da metrópole espanhola, por meio da Revolução de Maio e da formação da Junta de Governo em Buenos Aires. Desde então, o país tem atravessado um sinuoso caminho, marcado por encontros e desencontros, sucessos e tragédias.

A partir dos anos 1870, a Argentina experimentou um crescimento econômico sem precedentes, comparável inclusive com as mais importantes nações ocidentais da época. Tal crescimento, assentado numa forte base agroexportadora em regime de mercado aberto, permitiu um processo incipiente de modernização do país, bem como alimentou os desígnios de grandeza e progresso na inteligência política argentino por um longo tempo. Todavia, o sucesso converteu-se na maldição. A partir de 1890, a Argentina mergulhou num endividamento externo também sem precedentes.

A correção de rumos do país só viria com a chegada ao poder do general Juan Domingo Perón, no momento em que a ideologia nacional desenvolvimentista contagiava a América Latina. Externamente, Perón sustentava uma postura altiva da Argentina, fazendo frente aos Estados Unidos, com a neutralidade na Segunda Guerra Mundial, e adotando a “Terceira Posição” durante a Guerra Fria, ao não se alinhar com nenhum dos pólos. Internamente, o líder serviu ao contento das massas, perdurando até hoje no imaginário político argentino.

Após Perón, o país girou nos círculos das mudanças políticas e suas respectivas conseqüências econômicas e sociais, entremeados por constantes golpes militares. O destino da Argentina cada vez mais se desprendia dos desígnios do Estado, para se alojar nos líderes e partidos que ocupavam o poder. Cada governo rompia drasticamente com o anterior. Boulitreau Fragoso, embaixador brasileiro em Buenos Aires nos tempos ditatoriais, chegou a afirmar que as previsões políticas na Argentina são similares as previsões do tempo, porque valem por 24h. Desgraça pouca não fosse bobagem, poucos países casaram também crises políticas com crises econômicas como fizeram nossos “hermanos”.

Findado o período ditatorial e soerguida pela democratização, a Argentina se refrescou pelos ventos neoliberais que tocaram a América Latina. Carlos Menem ocupou a presidência entre 1989 e 1999 e acreditava que a globalização produziria resultados simétricos a todos os países. Domingo Cavallo, seu chanceler, afirmou que o país deveria ser “normal”, ou seja, seguir todos os ditames dos centros do capitalismo, abrindo a economia, eliminando o Estado empresário, dentre outras medidas. Tal etapa culminou na drástica crise de 2001. Novos governos, com destaque para a chegada do casal Kirchner ao poder.

Para boa parte da opinião pública, o peronismo volta com força com o casal Kirchner. Só que de peronismo, a atual administração não tem nada. Nem popularidade, nem carisma e tampouco liderança. Segundo o “Clarín”, Maradona, mesmo sendo deveras criticado como treinador de uma das maiores seleções do mundo, é mais popular do que Cristina Kirchner. Não bastasse isso, a presidente só tem conseguido governar por meio de decretos lei, custando-lhe uma sentença da Corte Suprema.

Duzentos anos depois, a pergunta que não quer calar: o que comemorar na Argentina? O mito do progresso do século XIX cedeu o seu lugar para o mito do peronismo, fortemente enraizado na sociedade argentina. Para o filósofo e físico argentino Mario Bunge, “el que no entiende el peronismo no entiende la Argentina”. E quando lhe pediram para definir o peronismo, ele simplesmente disse: “No sé”. Por certo, o peronismo esvaziou um pensamento genuíno na mentalidade dos governantes que o sucederam e devem aprender a conviver com essa sombra do passado. Comemora-se apenas os números da idade, porque nesse sinuoso caminho da história, o futuro não parece ser o destino.


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Deus salve os políticos

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“God save the Queen.” É o que diz o hino do Reino Unido. Ainda bem que a letra foi escrita na metade do século XVIII, já que Deus foi incumbido de salvar apenas a rainha – e, indiretamente, o seu reinado. Nas atuais circunstâncias, Seu encargo seria bem mais complexo: salvar o primeiro-ministro, uma coalizão partidária e o sistema eleitoral britânico para salvar o país. Na terra da rainha, uma figura quase sacra, os políticos é quem precisam de salvação.

O Álvaro já nos apresentou muito bem o conturbado quadro eleitoral no Reino Unido (aqui e entenda mais sobre o sistema aqui). Vieram as tão esperadas eleições parlamentares, realizadas na última quinta-feira (confiram esta matéria sobre a perspectiva das eleições no país). Resultado: venceu o Partido Conservador, conquistando 290 cadeiras na Casa dos Comuns, o Partido Trabalhista ficou em segundo lugar (246), o Partido Liberal Democrata, em terceiro (51). Problema: os conservadores não obtiveram maioria absoluta (ou seja, deveriam ocupar pelo menos 326 assentos), o que significa dizer que os partidos devem agora garantir a governabilidade através de alianças.

Neste cenário político, as alianças têm nome: liberais democratas (aqui). Conservadores ou trabalhistas terão o apoio deste partido menos expressivo, todavia, glamoroso pelo fenômeno Nick Clegg? Habilmente, Clegg vem mantendo negociações com ambos os lados, tendendo um pouco mais para os conservadores, que elegeram o maior número de parlamentares. Só que, inesperadamente, Gordon Brown, atual primeiro-ministro, decide renunciar (se é que o fez) para facilitar a formação de uma aliança com Partido Liberal Democrata. Notemos a que ponto podem chegar as manobras para a preservação do poder. Há um alto custo em jogo: o sacrifício de um governo, sem a certeza de continuidade futura.

Ainda que Brown não tenha colecionado muitos elogios – ora pelas críticas por aprofundar a desigualdade entre ricos e pobres, ora por elevar o déficit orçamentário (11,9% do PIB, quase equivalente ao atual déficit grego, 13,6%) incitando cortes nas despesas sociais -, sua renúncia pode ser uma atitude um pouco precipitada. Clegg reconheceu como oportuna a manobra para uma aliança com os trabalhistas, ainda assim, persiste com o pé na canoa conservadora. David Cameron, líder do Partido Conservador, traz à tona o sedutor argumento de que as diferenças partidárias devem ser esquecidas para a defesa do interesse nacional, o que inclui uma reforma eleitoral por um sistema mais representativo – proposta vista com bons olhos pelos liberais democratas. Até quando é possível navegar em duas canoas num rio tão agitado?

Em meio a um sistema político manchado por diversos escândalos, os liberais democratas guardam um resquício de moralidade, já que não se envolveram tanto quantos os outros dois partidos. Mas talvez, como afirmam os realistas, o poder não seja um exercício de moral e o que dela restou do partido de Clegg deve ser sacrificada em prol de uma escolha, de um governo e de um futuro. “God save the politicians”.


Categorias: Economia, Europa, Política e Política Externa


O Brasil credor

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E não é que o Brasil hoje é credor? Nosso país vai emprestar, via FMI, US$ 286 milhões à Grécia. Mas afinal de contas, isso é bom ou não?

Em primeiro lugar, é necessário termos em mente que o Brasil, como membro do FMI e, desde algum tempo, membro credor, não pode se isentar desse tipo de responsabilidade. Afinal, o país já se comprometeu a ajudar o órgão.

Além disso, também já fomos ajudados muitas vezes pelo próprio órgão quando nossas contas externas estavam ruins. Essa talvez seja uma motivação moral pouco realista (do ponto de vista das teorias de Relações Internacionais), mas uma ‘falência’ da Grécia poderia trazer problemas para a Europa como um todo e uma nova crise global. E evitar isso é ser bem realista.

A pergunta que se faz, no entanto, é a seguinte: para quê um país com tantos problemas, desigualdades, miseráveis e outras coisas mais vai dar uma grana para um país europeu de primeiro mundo?

Os Europeus já têm seus problemas e seus próprios mecanismos para resolver isso, não é mesmo? A própria União Européia tem seus meios de ajuda. Os outros Estados da Europa também têm uma boa grana para ajudar os companheiros. E, além disso, a política deles para os imigrantes e o pessoal de cá dos trópicos nos deixam um pouco reticentes quanto a ajudá-los.

Pois é. Isso tudo poderia até ser considerado há alguns anos atrás, mas não hoje. Em primeiro lugar, a última crise nos mostrou muito bem que o mundo está tão interligado e interdependente que uma Grécia qualquer da vida pode muito bem mexer com a vida de 200 milhões de brasileiros. E o que o governo gastaria ou deixaria de arrecadar para evitar problemas por aqui poderiam somar muito mais do que os 200 milhões emprestados para os europeus.

Um sistema interdependente gera ganhos para todos, mas também os ônus são arcados por todos.

E há uma questão estratégica envolvida. Vivemos hoje um momento de transferência do centro global de poder do norte para o sul. As grandes potência no futuro muito provavelmente serão Brasil, China, Índia, Rússia, África do Sul e outros países periféricos no contexto geopolítico atual.

Ser potência também é gastar um pouco de dinheiro. Sejamos pragmáticos: como os Estados Unidos conseguiu fazer tanta gente ficar com o ‘rabo preso’? É que todos, de alguma forma, dependem ou dependeram do capital norte americano. O Brasil está começando, timidamente, a fazer isso. E o presidente Lula resumiu bem a situação quando disse: “Não somos mais pedintes”.

E isso é muito importante!

Não sou muito a favor da nossa política externa, mas, dessa vez, tenho de admitir: estamos mexendo direitinho as peças!


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Porquice no Velho Mundo

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A Europa anda tendo problemas com porcos. Não suínos selvagens, mas os simpáticos PIIGS. Começando com o porquinho grego, sendo seguido de pertos pelos porquinhos ibéricos e completando a vara o irlandês e o italiano. Todos estes passaram os últimos meses perseguidos em seus quintais pelos lobos maus do déficit publico, da especulação e da crise financeira, e com isso ameaçam levar toda a fazenda UE pro brejo. Felizmente, o austero e soberbo alazão alemão, aquele que mais trabalha e se sacrifica pra fazer a fazenda funcionar, autorizou em um primeiro momento a participação alemã (maior fatia do pacote) na ajuda econômica e por enquanto se espera que salve a Grécia, que não somente tivera a casa derrubada pelo sopro da crise como já estava sentindo as suas dentadas.

Fábulas à parte, com a provável aprovação do bilionário pacote de ajuda à Grécia, a UE aparentemente se safa de um primeiro imbróglio terrível, mas ainda corre o risco de males piores no futuro. A situação na Grécia ainda é crítica: com déficit previsto para alguns anos ainda, a política de cortes orçamentários afetará profundamente a população e os juros corroerão sua economia. A maior preocupação, todavia, ainda é com os outros PIIGS. Espanha e Portugal já são vistos com desconfiança, e falta pouco para que ocorra com eles o mesmo que com os gregos. Itália e Irlanda estão um pouco melhores, mas nunca se sabe o que pode mudar nos humores dos mercados de um dia pro outro.

Não bastassem as preocupações econômicas, a periculosidade maior se revela na arena política. Relembrando: a crise na Grécia teve fermento com a onda da crise mundial, mas esteve enraizada ao se mascararem números de déficit público para adentrar a zona do Euro. Vê-se com razão o lamento dos alemães em abrirem mão de sua moeda tão forte, estável e bonita, o Marco, em nome da aventura do Euro. Agora eles estão a pagar pela improbidade administrativa grega. Era isso ou o desfacelamento da moeda úinica – e por que não, do bloco. Afinal, à Grécia restava impor uma reforma fiscal e financeira ainda mais extremada (coisas populares como cortar aposentadorias e congelar salários) ou saltar do barco europeu e cair direto no mar da falência. Por sorte, a Europa encontrou uma via média, abriu mão de cumprir alguns regulamentos e deu-se um jeito com o empréstimo “interno”.

O problema vem agora. Abriu-se um precedente, a regulamentação européia foi contornada e os comedidos estão a pagar o pato dos porcos. A grande dúvida é, se algo parecido ocorrer com outro dos PIIGS, como procederá a Europa? Os deixará na mão ou recorrerão à ajuda sob o risco de novamente fazerem suas populações arcarem com custos que não lhes competem? A oposição a esse tipo de ajuda é muito forte, especialmente na Alemanha – e mesmo os gregos se sentem inseguros com a ajuda. A resposta passa pelo fortalecimento das instituições, a maior celeridade na tomada de decisões e a infame reforma do sistema financeiro europeu, e isso depende da credibilidade dos líderes. O futuro pode ser promissor, mas os membros da EU devem proceder com cuidado para que a situação não se repita, pois a situação seria ainda mais insustentável para a moeda e socialmente. Se isso ocorrer, será um golpe possivelmente definitivo não apenas ao destino econômico da UE (que já está em coma faz tempo), mas ao político também.


Categorias: Economia, Europa


Há um ano...

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O Giovanni Okado, na semana passada, acabou criando uma nova coluna aqui no blog: “Há quase um ano…” e acabou adiantando o assunto que seria tratado hoje! Então, desta vez, a coluna vai se chamar: “Há um ano (e uma semana)…”.

Brincadeiras a parte, há um ano e uma semana lançávamos nosso primeiro podcast! Depois dele foram outros 16.

O assunto daquela semana era a chegada e as conseqüências políticas da crise na América do Sul. Àquela época, falava-se que era a maior crise da história do capitalismo desde 1929 e os primeiros impactos estavam sendo sentidos por aqui.

Um ano (e uma semana) depois, nem se fala mais no assunto. Incrível como as coisas estão passando rápido, não é mesmo?

O presidente Lula naquela época também andou aumentando seu repertório de frases de efeito mal colocadas. Disse que o Obama tinha cara de gente. Veja aqui o post que fizemos sobre o assunto. E esse mesmo post tratou da visita da presidente Cristina Kirchner ao Brasil, bem no meio de uma tensão comercial entre Brasil e Argentina por conta das inúmeras medidas que nossos vizinhos tomaram para proteger sua economia em decorrência da crise. O assunto voltou a ser tratado várias vezes aqui no blog, como no post “A Argentina e seus bodes”.

E, aí assim, no dia 27 de março de 2009, lançávamos nosso segundo podcast! Polêmico como nunca na história deste blog, gerou até um post do leitor da hoje colaboradora Adriana Suzart em resposta!

E o tema do podcast, pra variar, as frases de efeito do Lula. Eu acabei sendo tomado pelo espírito do presidente e usei também uma frase de efeito: “Nosso presidente está mais por fora que cotovelo de caminhoneiro…”.

Ele havia dito, na ocasião, a famosa frase sobre a origem da crise (mais uma vez ela): “A crise foi causada por comportamentos irracionais de gente branca de olhos azuis”.

E a foto deste post foi a mesma que ilustrou outro, do dia 25/03, com uma montagem que fizemos com uma foto do Obama que tinha sido colocada na capa do jornal Valor Econômico. Veja o post na íntegra aqui. Naquela época, ninguém seria capaz de imaginar que o Santo Obama, um ano depois, teria uma popularidade próxima a do presidente Bush!

E por fim, gostei de rever um post que gosto muito: “Escrevendo certo por linhas tortas”, que trata das malandragens que o Brasil faz com seus vizinhos. Naquela semana, os bolivianos estavam doidos da vida porque o Brasil estava comprando bem menos gás do que o acordado.

E é isso, postando e relembrando!


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