Há um ano...

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Como é de costume, vamos dedicar o texto de hoje à nossa breve reflexão dos fatos e discussões de um ano atrás que têm seus reflexos até hoje. Três textos se destacaram naquele período.

O Oriente Médio e arredores sempre dão o que falar. Está sendo assim em 2011, bem como foi em 2010. Há um ano, em postagem do Giovanni, comentava-se a corrida armamentista na região, e como as aspirações nucleares do Irã alimentaram o aumento ímpar dos gastos em Defesa de seus vizinhos como Arábia Saudita e Israel. Paradoxalmente, o resultado era inerte: prosseguia o enriquecimento, a reclamação da comunidade internacional e o temor na região. Nada mais atual e apropriado para relacionar-se aos fatos recentes das agitações no norte da África, que a depender dos seus resultados políticos (leia-se: subida ao poder de radicais islâmicos) podem vir a aumentar o temor de Israel/Irã e dar continuidade a (ou mesmo aprofundar) esse ciclo do “dilema de segurança”.

A região é uma dor de cabeça constante para os EUA, assim como a questão econômica era, de maneira mais acentuada, no início de 2010. À época, postagem da Andrea discutia o excesso de conversa e falta de ação no caso da regulamentação bancária. Aquele velho dilema entre a necessidade de organizar o sistema financeiro e a manutenção da liberdade dos bancos. Ainda hoje, com a crise (ou ao menos seu momento mais crítico) superada, essas conversações acabaram esvaziadas. Houve algumas medidas de regulamentação interna, como nos EUA, e no âmbito internacional saíram algumas decisões vagas (como sempre), a exemplo da declaração do Comitê da Basiléia (reunião dos mais importantes Bancos Centrais do mundo) ao G-20, com diretrizes e sugestões para evitar e abafar crises como a de 2008-2010. Nada de concreto, e vamos tocando o sistema financeiro como sempre.

Por fim, em contribuição do leitor Danilo Guiral Bassi, comentava-se a comemoração dupla no México do bicentenário de sua independência e o centenário da Revolução Mexicana. De fato, um marco histórico, que refletia a intrigante questão partidária mexicana (dominada pelo PRI por 70 anos e atualmente devidamente pluralizada). Contudo, além da política, se há algo que podemos refletir acerca dos eventos comemorados seriam seus aspectos sociais. A Revolução Mexicana foi um marco social, notavelmente em termos constituintes. É triste constatar como, 100 anos depois, a soma de má administração a degradação econômica resultaram no relativo caos em que o país se encontra. Apenas neste fim de semana houve 17 mortes ligadas ao narcotráfico. A firme resposta do governo contra o crime é antagonizada por corrupção, falta de confiança nas forças de segurança e o poderio dos cartéis. Certamente, uma situação inimaginável e um destino que nunca teriam esperado para seu país os protagonistas da revolução de 100 anos atrás.

E continuamos pessoal, postando e relembrando…


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A ausência difícil de preencher

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A fome não é muito exigente. Ela busca apenas ser contentada. Como, não importa. Essas sentenças são derivadas do pensamento de um antigo filósofo romano que inspirou a muitos: Lúcio Aneu Seneca. E de fato, não é preciso muito para dar aquilo que a fome quer, que nada mais é que uma ausência. E dar ausência é simples, dar nada é fácil.

Tão simples que ainda hoje, mesmo com os grandes avanços no campo da ciência e tecnologia ainda nos vemos satisfazendo-a constantemente. E de que modo satisfazemos a fome? Por incontáveis motivos. Instabilidades políticas, crises alimentares, Estados corruptos com baixa eficácia no serviço às populações, e assim por diante.

Outros fatores como as crises alimentícias – de origens diversas – e econômicas acabam por complicar ainda mais esse problema. E é muito difícil de superar tais crises, pois elas detêm caráter cíclico. E o ano de 2011 parece ter sido afetado por esses catalisadores da fome. A Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentaçã (FAO), em seu famoso relatório Food Outlook, anunciou que teme uma grave crise alimentar esse ano, com forças muito superiores àquela vivenciada em 2008. As grandes catástrofes climáticas que têm se alastrado pelo mundo tem complicado, e muito, a vida dos produtores.

E o cenário não parece divergir muito daquilo prospectado quando observamos os preços das commodities dispararem e largas discussões sobre como proceder emergirem. Apesar de ainda não termos atingido uma crise alimentar, se o passar do tempo acompanhar a inação, a situação pode agravar-se muito.

Propostas não faltam. O governo francês propôs, durante a reunião do G-20 no final de janeiro, a criação de um estoque internacional de alimentos administrado pela FAO, com o intuito de controlar os preços internacionais das commodities. A ONU já propôs estoques regionais de grãos para evitar maus momentos de colheita.

Uma crise alimentar no ano de 2011 agravaria ainda mais a situação econômica vivenciada na União Europeia e ampliaria muito a fome em países que não possuem divisas suficientes para importar esses alimentos com altos custos. O momento de discussão é agora. Se um cenário como esse estiver para emergir, são necessários diálogos profundos acerca das medidas para evitá-lo que, mesmo sabendo que isso nem sempre acontece, deveriam estar na primeira pauta da agenda internacional. Isso porque uma crise dessa magnitude gera fome, e a fome é uma das únicas questões que afetam a agenda econômica, de segurança e social de todos os Estados simultâneamente.

Esperemos que 2011 preencha mais ausências do que contemple as ambições desse fenômeno minimalista e fatal que assola a humanidade há muitos anos.

[Para uma interessante série de reportagens sobre o assunto, clique aqui, aqui, aqui, aqui e aqui]


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Convívio difícil

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O ano de 2011 começou, por assim dizer, pouco propício às diferenças. Alguns fatos da última semana reafirmaram que, via de regra, ainda é o foco no que separa as pessoas que pauta suas relações, em vez do que as une. Não que isso seja novidade, infelizmente. Mas a proporção que suas conseqüências tomam acaba reverberando de maneira duradoura.

Veja, por exemplo, o caso da congressista norte-americana Gabrielle Giffords, baleada durante um evento. A hospitalização da deputada democrata, que colecionava desafetos políticos, fez com que a pauta do Congresso dos EUA dessa semana fosse paralisada (incluindo a blitzkrieg republicana contra a reforma da saúde de Obama) e pode até mesmo atrasar o último vôo do ônibus espacial Endeavour (cujo comandante é marido da deputada). No que pese o aparente transtorno mental do atirador, não podemos descartar a intolerância como motivo: Giffords é crítica da lei anti-imigração do Arizona, e um teor mais radical de repulsa, or exemplo, aos latinos (e aos que os defendem) não seria nada improvável como razão para essa chacina. Há ainda indícios de que o atirador integraria uma organização antissemita – e a deputada é judia.

De fato, a intolerância religiosa parece ser a mais perigosa. Logo no começo de janeiro houve os ataques a cristãos no Egito e no Iraque. Já no Paquistão, por exemplo, existe a tal lei de blasfêmias (já comentada aqui), oriunda das sombras do regime militar islamizado radical dos anos 80 e que faz vítimas até hoje, sendo a mais famosa o governador Salman Taseer, morto por seu segurança na semana passada. A razão? Taseer era contrário à lei (que condena à morte ou prisão perpétua quem ofender o Islã; geralmente é uma sentença de morte, mesmo para os que são absolvidos da acusação) e apoiava publicamente uma senhora condenada à morte por tal mecanismo. Uma vez mais, os que defendem os direitos do “outro” pagam caro.

E quando a intolerância religiosa se une à étnica, sendo a mistura temperada pelo vil metal, surge o caos. Vejam o caso do Sudão: o maior país africano está no meio de um processo que referendará, muito provavelmente, a separação da região sul, criando um novo pais. O conflito econômico é iminente: o sul herdará 80% do petróleo, mas as tubulações para escoá-lo ficam com o norte. Se o presidente Omar Al-Bashir não conseguir segurar o ímpeto dos mais exaltados, provavelmente o que era uma guerra civil apenas se transmigrará para uma guerra convencional entre Estados. O Sudão é um micro-cosmos da África: etnias e religiões diferentes, em conflito perene, assentadas em recursos naturais abundantes e sob o olhar atento de fora. Certamente, haverá estatais chinesas prontas a oferecer o suporte para que a produção continue sem estorvos, em troca da boa e velha blindagem nas organizações internacionais, mas esse enlace econômico vai manter em contato grupos conflitantes, e vai ser praticamente impossível controlar as rusgas entre a maioria muçulmana do norte e minoria cristã do sul. Basta ver os conflitos e escaramuças que houve no primeiro dia de votação para se ter uma ideia do que espera esse país. E na falta de mais motivos pra intolerância, o futuro presidente do Sudão do Sul prega a democracia e igualdade para todos em seu país – exceto os homossexuais…

Todo ano novo, fazemos votos de paz e prosperidade. Talvez fosse o caso de pedirmos tolerância , acima de tudo, em 2011…


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Ano Novo, vida nova

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As festividades de Ano Novo são oportunidade ideal de confraternizar, refletir sobre o ano que passou e fazer planos para o ano vindouro. Também são momentos em que qualquer deslize pode trazer problemas como ressaca e ganho de peso. Bem, podemos fazer uma analogia com relação à economia mundial que se apresenta no momento para o ano de 2011.

Existe motivo para festa, em certo grau. Ao menos, na zona do Euro. Os últimos três anos foram marcados por crise financeira e o risco do bloco ir para o buraco. Eis que, surpreendentemente, um país relativamente humilde se comparado a outros membros do bloco, mas com déficit controlado com esmero, a Estônia, acaba de entrar para o Euro e dá novo fôlego e esperança à combalida moeda européia. Mesmo a Alemanha, rodeada de países em crise, conseguiu ter em 2010 o maior crescimento de seu PIB desde a queda do Muro de Berlim e já prevê altas nos salários em 2011. A crise européia passou? De modo algum. Mas tem solução ainda, e os convidados dessa festa têm que tomar cuidado com a bebida do déficit público e exagerar no remédio da austeridade.

Por outro lado, os países que enfrentaram bem a crise já sentem um irônico clima de fim de festa. Isso por que suas economias continuam aquecidas, até demais, e começa a surgir o temor da inflação. A estrela desse grupo, a China, já sofre com altas de juros e economia aquecida. O fantasma da inflação ronda não apenas o Império do Meio, mas a maioria dos mercados que andam relativamente bem, incluindo o próprio Brasil (claro que em menor grau – nosso país é um caso sui generis em termos de regulação financeira e corre um pouco menos de risco que os demais). Por isso, esses países se vêem forçados a acabar “mais cedo” com sua festa.

Por fim, o único que continua cambaleante, uma mistura de embriaguez de gastos públicos com surra da crise econômica, é o principal convidado da festa, os EUA. País que mais sofreu com a crise, ainda vai ter que arcar com pesados cortes de gastos internos e uma grande instabilidade política. Esse 2011 promete ser desafiante para todos.


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O Brasil diante das commodities

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Uma música de Chico Buarque começa com a seguinte frase: “Agora eu era o herói e o meu cavalo só falava inglês”. Em tempos atuais, os cavalos estão aprendendo outros idiomas, à procura de outros heróis, na gramática da economia. Os desequilíbrios cambiais travaram o G-20, a crise continua debelando a Europa e as commodities estão em ascensão. Este ponto é bastante interessante ao Brasil, ainda mais neste contexto que parece relembrar a “beggar thy neighbour policy” do período da Grande Depressão: cada um contando consigo mesmo e procurando benefícios à custa dos demais.

[Relembrem um post do Luís Felipe atinente ao assunto aqui tratado.]

Ora, as commodities, que nunca partiram, agora também voltaram, na mesma expressão utilizada ontem pelo Álvaro sobre o Wikileaks. Em sua formação histórica, o Brasil atravessou os ciclos econômicos da cana, mineração, borracha e café. O último foi levado a condições mais extremas, de tal sorte que nas três primeiras décadas do século XX, pensou-se que fazer política externa era sinônimo de fazer a política do café, combinação que para Clodoaldo Bueno criou o conceito “diplomacia agroexportadora”. Com a volta das commodities, a questão que se tem colocado: elas são uma benção ou uma maldição?

As análises correntes convergem para considerá-las como uma benção, desde que adequadamente aproveitadas as oportunidades e que não se crie uma dependência direta delas. Outro ponto chave é evitar o que se convencionou chamar de “doença holandesa”, em que a exportação de commodities gera a desindustrialização – foi o que ocorreu na Holanda na década de 1970, quando a descoberta de uma grande fonte de gás natural provocou o declínio do setor industrial. Todavia, embora alguns indicadores brasileiros aparentemente sugiram tal processo – a participação da indústria no PIB era de 33% entre 1991-1995 e passou para 22% entre 2001-2005 –, não se pode explicá-lo apenas pelas exportações de commodities, como avalia Geraldo Lopes de Souza Júnior, senão também por outras razões como ausência de política científica e tecnológica, deterioração da infra-estrutura, altos impostos e juros, etc. Ademais, o Brasil vem diversificando a sua pauta de exportações desde a década de 1970, quando produtos básicos representavam 74,8% das exportações, caindo para 22,8% em 2000 e subindo para 36,9% em 2008.

Hoje mesmo, em seu blog, Raquel Landim destacou o apetite chinês pelo petróleo brasileiro. Diante desse quadro, o nosso “bilhete premiado”, isto é, o pré-sal, de fato se apresenta como uma grande oportunidade. Também é válido notar que por onde o agronegócio – capitaneado pela soja – tem avançado, especialmente na região Centro-Oeste, a pobreza tem diminuído. Enfim, para a economia brasileira, as commodities, se manejadas cuidadosamente, podem trazer grandes vantagens para um economiquês carente de novos idiomas, de modo a encontrar caminhos no meio da atual crise mundial.


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Engraçado né, ninguém presta muita atenção nas construtoras…

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“A família do Bush tem ligações com o petróleo! Fora Bush! Eu e minha camiseta anti-McDonalds iremos salvar o mundo!” Calma aí aspirante burguês de Che Guevara, o petróleo é algo que deve ser substituído o quanto antes, mas o buraco é mais abaixo.

Tanto na primeira Guerra do Golfo quando nas atuais incursões no Iraque e no Oriente Médio, muito se falou sobre a indústria do petróleo, que eles são muito malvados, que eles fazem as guerras acontecerem, etc. Isso é verdade, porém a galerinha “consciente” cujo maior passatempo é fazer cartazes e usar camisetas punk acha que tudo é culpa do sangue negro e fazem uma análise fraca que não percebe uma das maiores forças em ação do mundo – a construção. Especificamente os grandes grupos ligados à obras públicas (que mancham o nome de quem faz coisas visando o bem-estar da população).

Não precisamos entrar em muitos detalhes para perceber isso, imaginem a situação. O país A ajuda de maneira suave o país B a se livrar de um opressor ou do terrorismo, infelizmente em um conflito (putz, que pena…). Algumas pontes, prédios, estruturas governamentais são destruídos ou incrivelmente danificados no andar da carruagem, logo elas tem que ser reconstruídas. Como já entramos sem bater, porque não palpitar no governo e propor uma maior infraestrutura para o país? Fica tranquilo, já conhecemos quem pode ajudar!

É um festival de licitações, contratos e maracutaias que botam o petróleo no chinelo. Suborno a torto e direito, tão bem amarrado que conseguem jogar toda a culpa no petróleo! Todo político adora fazer ponte, viaduto, mas será que é culpa somente deles que tem tanta construção eleitoreira? Não é se surpreender que 54% dos congressistas eleitos agora tiveram a ajuda de construtoras. Ou lembrar que grandes grupos Brasileiros como Camargo Correa e Odebrecht atuam em diversos países pelo mundo em parceria com governos ditatoriais sem se preocupar o porque das suas obras ou de onde veio o dinheiro.

Outra mutreta que utilizam para se safar é o status de neutralidade que gozam. Afinal, quem imaginaria que aquele pessoal que faz o prédio que eu moro, que tem um amigo engenheiro que trabalha lá, que um conhecido trabalha de pedreiro, quem acreditaria que essas empresas são ruins, se eles só ajudam os outros? Eu conheço muito engenheiro e construtora que faz tudo nos conformes, até mesmo umas que vão além das fracas legislações ambientais e procuram pagar melhor os empregados, oferecer melhores condições e até mesmo diminuir ao máximo seu dano ao meio ambiente. Infelizmente existe muita empresa que não se importa com isso, algumas que vivem como sanguessugas do sistema político.

Pensando no meio-ambiente, qual é o maior gasto de madeira, em especial a ilegal? Construção civil. Claro que isso envolve tanto as grandes empresas quanto aquelas menores, porém é outra prova que esse setor continua tendo seus problemas não percebidos pela grande população.

É no mínimo insensato sair dizendo que todas as corporações e setores econômicos são malvados e visam a destruição mundial, mas é realmente ingênuo ficar fazendo vista grossa a grandes forças mundiais e ficar pensando que o Mc(fumar e beber não é errado nem são originários de empresas malvadas, de acordo com os manifestantes de praxe), a Coca e a Exxon são os únicos vilões da história. O número de influências e forças agindo para conflitos e relações acontecerem é muito maior e mais complexo do que pensamos.


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A nova modalidade de guerra

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Em qualquer momento de dificuldade econômica, política ou social, os líderes mundiais se esforçam para diminuir os prejuízos de seu país e assim manter sua reputação. Há muito se fala do valor artificial do yuan, a moeda chinesa, que mantida desvalorizada tem sido um elemento importante na competitividade da economia local. Quanto menor o valor de sua moeda em relação às demais, maior a lucratividade atingida através das exportações. Todos sabem que a China está assentada sob tal premissa.

O mundo globalizado gerou inúmeros benefícios. A vida ficou mais fácil, as distâncias mais curtas e a economia mais dinâmica. Por outro lado, torna-se impossível escolher o isolamento ante os fluxos financeiros, comerciais e econômicos internacionais. Tal qual um vírus, decisões nacionais soberanas ocasionam fortes efeitos no sistema internacional. Nenhum país quer pagar a conta pelos outros ao mesmo tempo em que ninguém paga sua própria conta voluntariamente. Isso vale para as finanças, mudanças climáticas, políticas cambiais, entre outros temas.  

Um cálculo é simples, em teoria. O que um país precisa gerar para contra-atacar índices de crescimento negativos? Primeiro passo, diminuir a taxa de juros base da economia. Dessa maneira, os investidores teriam um incentivo a produzir efetivamente ao invés de manter seu capital em bancos ou fundos de investimento. Além disso, diminuir impostos sobre o consumo e fortalecer o mercado consumidor interno. Por último, entre as medidas mais populares, está a re-capitalização de bancos, o que favoreceria novos créditos a empresários e consumidores. Em teoria, tudo funcionaria na mais perfeita harmonia. Todos sairiam contentes no final e a crise viraria somente um amargo passado.  

O governo norte-americano, na última quarta-feira, anunciou um novo estímulo à economia local na ordem de 600 bilhões de dólares. O valor seria injetado na economia por meio do endividamento público, gerando maior liquidez justamente para fomentar o crédito. Vale lembrar que a taxa de juros dos Estados Unidos segue em seu nível mais baixo na história. Aí está o gérmen da nova modalidade de guerra. Na prática, os estímulos econômicos anteriores pouco geraram os efeitos idealizados novamente nessa semana pelo Fed (um espécie de banco central norte-americano), mas terminaram, ao contrário do preconizado, migrando para os mercados emergentes – que pagam taxas de juros maiores – como forma de gerar riqueza e não necessariamente produção. Os bancos e fundos de investimento, portanto, seguem apostando o dinheiro público, vendo inclusive seus lucros voltarem a patamares similares ao pré-crise.  

A guerra é um mecanismo utilizado para estabelecer uma vontade ou se fortalecer pelo enfraquecimento do inimigo. A política dos Estados Unidos gera distorções. A enxurrada de capital que busca refúgio nos países em desenvolvimento termina por valorizar a moeda destes países, prejudicando suas exportações, assim como não geram efeitos econômicos positivos a nível local. Esse é o motivo da proclamação de uma guerra cambial. Mesmo sem querer, o mundo segue financiamento o endividamento norte-americano. Na melhor versão do “homem como lobo do próprio homem”, de Hobbes, uns seguem ganhando aos custos dos prejuízos de outros. O contra-ataque pode tardar, mas está em gestação. O dólar segue perdendo valor no mercado internacional e paulatinamente tem sido substituído por moedas nacionais para trocas comerciais. Nada, ainda assim, que impeça a ciranda de seguir girando.  

Para saber mais: 1, 2, 3


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Do meio ao inteiro: a marcha chinesa encurtou

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O “império do meio”. Eis a raiz etimológica da palavra China. Porém, hoje, é preciso revê-la. A geografia do país não se restringe mais à fértil Terra Amarela dos tempos anteriores a Cristo, muito pelo contrário, ela alcançou o mundo. A China agora é um império inteiro, um império global. E há de assumir novas responsabilidades nas décadas vindouras do século XXI.

De acordo com um recente estudo do National Inteligence Council, há quatro cenários possíveis para o ano de 2025, gravitando entre a competitividade e a cooperação, nos quais a China assume um papel relevante, notadamente, no primeiro cenário: “um mundo sem o Ocidente”. Em outras palavras, o declínio da influência norte-americana e européia em contraposição à ascensão da influência sino-indiana. Tal processo pode levar tanto à reedição da Guerra Fria quanto à conformação de novos arranjos cooperativos inter-hemisféricos.

Enquanto o futuro não chega, o presente da China é testado. A simbiose entre uma economia aberta e uma política fechada acarretou sucessos e suspeitas. Há um produto (ou réplica?) chinês em cada esquina do mundo, mas ninguém sabe às custas de que ou de quantos foi fabricado. É difícil mensurar até que ponto o desempenho econômico do país poderá ser sustentado por um sistema político voltado a si. A pressão cada vez é maior, a começar pela concessão (justa!) do Nobel da Paz deste ano a um dissidente encarcerado, Liu Xiaobo. A comunidade internacional quer a sua libertação, porém, ao mesmo tempo, utiliza o argumento humanitário por razões óbvias: conter a China.

É hora de buscar freios para o gigante. No seu micro-cosmo de poder, a Ásia, a rivalidade histórica com o Japão surge como um desafio. Em recente artigo ao New York Times, o economista Paul Krugman ressaltou que a China é uma superpotência que se recusa a jogar de acordo com as regras, citando o incidente diplomático com o Japão. Não bastasse isso, ambos os países disputam a posse das ilhas Diaoyu (na denominação chinesa) ou Senkaku (denominação japonesa). A potência do norte também não deixa barato. Na semana passada, os ministros da Defesa dos Estados Unidos e da China se encontraram para discutir as supostas ambições navais chinesas no Pacífico. A mídia norte-americana também faz o seu papel: o Washington Post acusou a China de ajudar o governo iraniano a desenvolver mísseis e armas, sendo que Obama já criticou o governo chinês por retroceder nas sanções ao Irã.

A marcha chinesa agora encurtou. Se antes, entre 1934-1935, os comunistas percorreram um longo e intrépido caminho para fugir dos nacionalistas, agora, o tempo e o espaço, mais amplos, parecem menor: quinze anos e o mundo. O objetivo é mais ambicioso: da fuga interna fratricida à hegemonia global unificada. A China já é a segunda economia, tem o segundo maior gasto militar (US$ 100 bi), mas vive, politicamente, nas eras de Mao Tsé-tung. O país exerce um papel importante nas relações internacionais, mas precisa do respaldo e da confiança dos demais países, que questionam econômica e politicamente a China. Segue o império inteiro em sua curta marcha.


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Crise existencial

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Todos devem ter acompanhando as confusões e protestos na França que precederam a aprovação da nova legislação de aposentadoria (e que ainda continuam). A aprovação do aumento para a idade mínima de aposentadoria na última semana trouxe os prejuízos causados pelas greves (monetários, da ordem de 400 mil euros por dia, e até mesmo físicos, com toneladas de lixo pelas ruas) e o descontentamento popular. Muito contribui pra isso a desgastada imagem do presidente Sarkozy, o cara que parece uma mistura de Silvio Berlusconi com Roberto Justus, cujo governo marcado por escândalos e imoralidades teve essa reforma como a cereja do bolo da ira popular.

Ainda bem que isso não acontece no Brasil! Não, não, isso é coisa dos países ricos e envelhecidos. Mas é óbvio que se trata de uma questão de tempo para que a melhoria nas condições de vida cobre seu preço dos cofres públicos. Hoje mesmo, o país compromete boa parte do orçamento federal com a previdência, e se mantém pela força de trabalho jovem que cobre o rombo com seu trabalho e impostos. Mas um dia essa reforma deverá ocorrer por esses lados, e Deus nos acuda quando ela chegar.

Eis o drama e o paradoxo do Estado moderno. No pós-Segunda Guerra mundial, houve as condições perfeitas para a implementação do Estado de bem estar social – as garantias como o salário mínimo, previdência e auxílios diversos, que caíram como uma luva no esforço de reconstrução das economias arrasadas. Ainda que pensado no contexto de países europeus e EUA, esse modelo foi exportado a seu modo para outros lugares, como a América Latina, e resultou em grandes avanços na área social. Crise vai, crise vem, os governos tem que gastar mais e preço é cobrado, com a situação podendo ficar insustentável. Austeridade fiscal não combina com esse tipo de gastos. As soluções vão de ir pro buraco de vez a reformar essas legislações (isto é, seja qual for o remédio, é amargo).

Na Europa, o drama é a manutenção dos índices macroeconômicos previstos para a o ingresso na União Europeia, que obriga os países-membros na cortarem gastos da maneira que for possível nesse momento de crise. Na Grécia, por exemplo, já houve medidas ainda mais draconianas, como cortes de salários e demissões em massa. No caso do Brasil, é um pouco pior, pois todos esses benefícios estão garantidos na Constituição, e fica complicado mexer, por exemplo, na previdência – se fosse fácil, reforma não estaria sendo discutida há uns 10 anos. E é impossível que esse tipo de reforma não venha acompanhada de protestos e revoltas contra a retirada de benefícios que existem há gerações.

Isso remete ao anacronismo do comportamento do Estado atualmente – se ele age minimamente, com austeridade, é tachado de omisso e elitista pelos setores populares; se interfere demais, logo é assombrado pela acusação de paternalismo e irresponsabilidade. Qual a saída pra essa crise existencial?


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Quem quer dólar?

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Nunca antes na História desse país houve uma entrada tão violenta de dólares na economia. Muito tem se falado na imprensa sobre a guerra cambial, expressão cunhada pelo mininistro da Fazenda Guido Mantega e que se espalhou mundo afora. Reunião do G-20 para debater a valorização generalizada de todas as moedas frente ao dólar: tudo conversado, nada resolvido, num problema que promete causar estragos em 2011.

Depois da crise de 2008, visando impulsionar o consumo e a produção, os países baixaram suas taxas de juros, gerando enorme liquidez. Em outras palavras, os governos pagam menos se você quiser deixar o seu dinheiro na poupança. Como não compensa deixar o dinheiro parado, você 1) consome, compra aquela TV que sempre quis mas nunca teve como adquirir ou 2) investe em aplicações de maior risco, e que dão retornos maiores. No Brasil, a redução do IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados) ajudou a aquecer o mercado, e todo mundo comprou carro, geladeira, fogão, etc.

Mundialmente, apesar do auge da crise já ter passado, os países desenvolvidos não tem perspectivas de expansão dos seus mercados internos. A solução é ganhar espaço fora! Nesse sentido, uma das medidas econômicas mais simples para aumentar exportações é manter essa liquidez e desvalorizar o dólar perante as outras moedas. Para isso, os EUA estão imprimindo papel-moeda numa velocidade frenética e mantendo os juros baixos. Com muita moeda americana circulando, o preço da mesma cai, tornando as moedas nacionais “mais caras”. Com isso, fica mais barato comprar mercadorias importadas do que as nacionais, descompensando a balança comercial. O Brasil, então, é muito visado como “porto” para o atracamento desses investimentos, já que oferece uma das maiores taxas de juros.

Os governos, de olho nessa tendência, lançam mão de medidas para dificultar a entrada de capital estrangeiro – aumentam impostos, impõem cotas, erguem barreiras aqui e acolá. A China, mercado mais visado pelos países desenvolvidos, possui reservas suficientes para manter o yuan desvalorizado com relação ao dólar. Ou seja, nessa guerra da batata-quente, sobra para os outros subdesenvolvidos – nós.

Isso é muito visível quando olhamos para o índice Big-Mac. Criado pela ‘The Economist’, o índice afere o preço dos big-macs no mundo, partindo do princípio que o sanduíche é o mesmo em todo o lugar e, portanto, deveria custar a mesma coisa. Com esse cálculo, medem-se as distorções que uma moeda tem em relação à outra. O Brasil tem o segundo Big-Mac mais caro do mundo – US$ 5,16, só perdendo para a Suíça, com US$6,78 (nos países do Euro, o valor é US$ 4,79; nos EUA, US$ 3,71; e na China, US$ 2,18). Em se tratando de Brasil, outro indicador preocupante é o saldo de transações correntes (valor que leva em conta todas as operações do país com o exterior, como exportações e importações, juros pagos, transportes, seguros, lucros e dividendos recebidos, serviços diversos, e transferências unilaterais) e os sucessivos recordes deficitários – se quiser saber mais sobre isso clique aqui e aqui.

Em Seul, os ministros do G-20 acordaram contra a desvalorização de moedas, e se comprometeram a regular desvalorizações cambiais. Nem Meirelles nem Mantega compareceram ao encontro, que lança as bases da cúpula, a ocorrer em novembro. Apesar das “boas intenções” declaradas no G-20, o dólar continua a operar em baixa no mundo.

O fato é que essa situação não deve se alterar a curto prazo, possivelmente nem a médio. A guerra cambial pode se desdobrar em guerra comercial, com os países tomando medidas protecionistas para defender suas economias – e isso geraria uma recessão grave. Como toda moeda tem dois lados, talvez seja uma boa estratégia aproveitar o momento e as vantagens decorrentes de um real mais valorizado. Algumas possibilidades estão na melhoria de portos, aeroportos e indústrias, importação de maquinário, bastando-se algum freio para a importação de bens de consumo não-duráveis. Uma reforma tributária também cairia muitíssimo bem para aumentar a competitividade da indústria brasileira no mercado interno.

E seja quem for o próximo presidente, fato é que algumas escolhas difíceis deverão ser tomadas em 2011, quando esse problema deve atingir seu ápice e trazer conseqüências bastante danosas ao Brasil.


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