A sopa esfria

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Lembram daquele tema polêmico da internet na semana passada? E não, não é a menina que estava no Canadá. O mundo ficou em polvorosa com o protesto em massa contra a aprovação das leis de regulação da internet que circulavam no congresso dos EUA. Circulavam, no pretérito, por que a coisa azedou e foi pra gaveta. E saibam que tem tudo a ver com a eleição presidencial de lá.

Vamos por partes. Os projetos de lei da SOPA (Ato de Proteção contra Pirataria) e PIPA (Ato de Proteção de IP) já foram tratados aqui no blog, e basicamente querem impor restrições maiores e facilitar o trabalho das autoridades para a proteção de propriedade intelectual na rede. Muito bom, se não fosse a abrangência da coisa (que pode, por exemplo, tirar sites inteiros do ar caso um único usuário coloque conteúdo “ilegal”), e o fato de que normas e tratados que já existem, como o DMCA. E, na semana passada, um foi reservado para um protesto em massa (com sites auto-censurando suas informações, ou mesmo saindo do ar por um dia) e envio de petições ao Congresso e Departamento de Estado dos EUA. Nos dias seguintes, a votação sai de pauta por tempo indeterminado, e a comemoração dos mobilizados é geral.

Afinal, qual a influência desses protestos? Foram milhões de pessoas assinando petições e milhares de sites protestando. Mas assim como a mobilização da primavera árabe (alguém lembra?), essa influência “popular” pode ser um pouco enganadora. Vejam pelo lado da política: Obama está desgastado e precisando de financiamento pra sua campanha. Isso vai ser providenciado por muitos grupos econômicos mais à direita, como a indústria da mídia. E esse é o ponto – o que corre por aí é que a pressão pela votação dessas leis foi lobby da RIAA e outras organizações em troca de apoio na próxima eleição. Milhões de inconformados protestam contra a arbitrariedade e em defesa da liberdade de expressão. O que os republicanos fazem? Tiram o corpo fora e deixam de apoiar a votação. Dito e feito – dos 18 que abandonaram o projeto, a maioria é republicana; indo mais longe, os pré-candidatos do partido são unânimes ao ir contra o projeto nos (divertidíssimos) debates televisivos. Uma ironia, já que o cara que propôs isso tudo é do partido do elefante. Essa manobra de deixar a SOPA/PIPA de lado teria sido muito mais de interesse eleitoral dos republicanos do que uma resposta aos protestos (muito oportunos, na verdade…).

Em tempo, o fechamento de sites de compartilhamento de arquivos (outra coisa que rendeu um bafafá enorme e que está gerando um efeito cascata nessa semana), em um primeiro momento, não tem nada a ver com SOPA, PIPA, ou o que for. Todas as prisões e encerramento de atividades foram baseadas em legislação vigente (coisa que aquelas duas ainda não são), e pegaram gente envolvida com crimes graves, mas isso é coisa que vai ficar para os tribunais. Agora, o fato é que não deixa de ser muita coincidência que tenha ocorrido na mesma semana dos protestos – e vemos aí um pouco da pressão dos grupos midiáticos…


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A Rússia, caindo?

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Nesse começo de semana em que os desastres navais da Itália e da Coreia ocupam as manchetes, com o afundamento de um navio de cruzeiro que vitimou até o momento seis pessoas, e a explosão de um navio tanque em que morreram cinco tripulantes (que está atraindo menos atenção por que não houve relato de vazamento, felizmente, mas se formos pensar é um caso bem mais sério), vamos falar é da Rússia, do desastre que não ocorreu (e sobre o qual comentei ontem), a queda da sonda russa Phobos-Grunt, e como isso nos mostra o estado de coisas no Kremlin.

 

Explicando rapidamente, essa era uma sonda que ia para uma das luas de Marte (Fobos) para trazer de volta material do solo para pesquisa. Seria a grande retomada do programa espacial russo, que ano passado completou os 50 anos da viagem histórica de Yuri Gagarin, o primeiro cosmonauta. Claro que não houve muito o que celebrar, já que todos as missões “comemorativas” tiveram problemas, e o mais grave foi o dessa sonda, que teve um defeito grave no lançamento, em novembro, e perdeu o rumo, ficando à deriva na órbita terrestre até cair de volta. O grande perigo era o fato de ser uma sonda ainda completa, com combustível nuclear e tudo mais, o que poderia representar uma calamidade se caísse em áreas povoadas, o que deixou a mídia em polvorosa. Felizmente parece que já caiu no Pacífico, o lixão dos programas espaciais, e estamos a salvo desse bombardeio nuclear.

 

Claro que, para a Rússia, o estrago já foi feito, e demonstra como as coisas andam mal por lá. Um programa espacial depende de muitos detalhes, em que o mínimo erro pode por a operação toda, e milhões de dólares, a perder – e quando uma sonda que devia ir pra Marte não sai nem da órbita da Terra, coisa boa não é.

 

 

No fundo, isso tem muito a ver com a crise política, que já comentamos aqui e aqui, parece avançar, com a expectativa de uma reforma política (que já deu seus primeiros passos com a retomada da eleição direta regional de governadores) e que enfraquece o governo. Um país com falta de coesão interna não consegue se sustentar para fora. E esse é o grande drama da dupla Putin-Medvedev, que ainda tem essa aspiração de trazer a Rússia, assento permanente do Conselho de Segurança à parte, de volta ao seu status de potência mundial – mas já começa a faltar apoio interno. Não é questão de falta de dinheiro (que o diga a produção de gás natural do país), mas sim como ele é aplicado. Iniciativas como as missões do programa espacial entram nesse contexto, muito mais de prestígio que científico, e quando uma missão desse naipe fracassa, faltou incentivo em algum setor, de pessoal aos equipamentos.

 

Outro caso que mostra isso é o do setor de defesa: a Rússia sempre teve material de primeira, e mesmo hoje em dia está desenvolvendo, por exemplo, aviões de combate de última geração. A diferença, é que hoje estão dependendo de parceria com países como Índia e China pra fazer isso, enquanto o equipamento efetivo de suas forças armadas é bastante antigo. Pra ter uma ideia, vejam essas fotos de aviões russos sendo escoltados (já que têm a mania de invadir o espaço aéreo de países europeus e dos EUA mesmo após o fim da Guerra Fria) pra ter uma noção de há quanto tempo esses Tupolev estão operando.

Diz uma piada recorrente que os aviões russos vão voar até que estejam desmontando. Isso é sinal de falta (ou mau uso…) de recursos para esse tipo de setor, o que é uma coisa muito grave para um país que quer voltar a ser protagonista do cenário internacional. E a queda da sonda Phobos é sintomática disso tudo, em que a Rússia quer ter esse dinamismo ao mesmo tempo em que enfrenta desafios no terreno político, a exemplo da corrupção e da insatisfação política com os rumos que anda tomando.


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O som da globalização

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Quando vi um chinelo “Havaianas” no chão do hostel onde fiquei na Argentina, com uma bandeira do Brasil nas “tiras”, logo pensei: deve ter um brasileiro aqui. Para minha surpresa, as Havaianas pertenciam a um israelense, que mal sabia que o desenho ali era a bandeira do Brasil. 

Aliás, sobre as Havaianas, vale a pena relembrar (ou para os mais jovens até mesmo saber, pois muita gente ainda não sabe) o que era esse produto há uns 15 anos atrás… Para os quiserem, leiam aqui uma matéria interessante. Para se ter uma idéia de como o produto era visto, o antigo slogan era: “não deforma, não solta as tiras e não tem cheiro”.

Mas o que mais impressiona (fui ao Uruguai e estou no Chile e o mesmo se repete, e como repete…) é o tal do Michel Teló. Depois de ser comparado com Carmem Miranda e Justin Bieber, a Forbes chamou o brasileiro de fenômeno. “Você já ouviu falar de Michel Teló? Então ouvirá!” diz a revista. Ele já é o mais vendido em muitos países no mundo.

E a música já tem versões em vários idiomas. Clique aqui e descobra como se diz “Ai se eu te pego” em várias línguas.

Contudo, não é só de Michel Teló que vive a globalização. É estranho ir a outro país e ouvir sua língua o tempo todo e encontrar nos supermercados as mesmas marcas e produtos que se encontram no Brasil. Por mais longe que se vá, sempre se encontrará um chocolate Nestlé, uma Heineken ou Budweiser para beber.

Sinceramente, não sei explicar o fenômeno (neste caso não o Teló), que é estudado por diversos pesquisadores sem que se chegue a um consenso sobre o que é, afinal, a globalização. A Rede Globo de televisão, há alguns anos, tentou explicar através do pagode e a nossa colaboradora internacional Bianca Fadel nos escreveu um excelente post sobre o assunto que vale a pena reler.

A Globo dizia, em meio a um pagodão: “Isso é globalização”! 

O fato é que, entre as diversas facetas dessa globalização, surgiu o Michel Teló, que se espalhou viralmente pelo mundo em tempo recorde e é ouvido pelos brasileiros, argentinos, eslovacos, japoneses…

Não temos nenhum prêmio Nobel, mas temos Michel Teló. Quem não tem cão, caça com Teló. Fazer o que, né? Isso é globalização!


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Estreitando relações

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Com o fim das festas de fim de ano, voltamos a analisar o que anda acontecendo pelo mundo de um modo mais atento. Mas 2012 não traz tantas novidades em termos de protagonistas – a notícia do momento é aquela movimentação meio exagerada de navios e porta-aviões no estreito de Ormuz, em resposta à ameaça iraniana de fechar uma das principais rotas de escoamento de petróleo. Afinal, 40% do “excremento do diabo” que é produzido no mundo passa por lá, o que faz com que essa ameaça faça muito mais do que deixar os mercados importadores de cabelos em pé.

Pra variar, é o Irã que causa a comoção, jurando que consegue fechar facilmente o estreito caso haja imposição de mais sanções a seu programa nuclear. Sim, esse mesmo (que pelo jeito vai dar o que falar em 2012). A resposta tinha como endereço a Comunidade Europeia, mas quem veio ao resgate foram os EUA, mandando porta-aviões e outros navios de guerra para “exercícios de rotina” na região.

Os mais exasperados já levantam a possibilidade de guerra em médio prazo. Afinal, para os que não estão familiarizados com estudos estratégicos, o envio de navios é o sinal mais claro de projeção de poder, ainda mais com a presença de um único porta-aviões com capacidade maior que a de muitas forças aéreas do mundo. Além do mais, Israel anda meio ressabiado (mesmo que muita gente por lá considere uma tolice entrar em guerra agora), e o principal entusiasta da demonização do Irã, a Arábia Saudita, finalmente se viu diretamente ameaçada e com uma desculpa legítima pra pedir o amparo de Washington (e, no meio do processo, comprar quase 100 aviões de caça em troca de uns petrodólares).

Mas, não é pra tanto. Como dizia o Raymond Aron, os dois braços das relações exteriores de um país são suas forças armadas e sua diplomacia, e esse tipo de manobra é bem comum na política externa, ainda mais dos EUA. Basta ver como eles reagem à presença chinesa no Pacífico – se Beijing faz acordos ou aumenta sua presença militar, lá vão os EUA fazendo exercícios navais e coisas do gênero. E, no fim, todos trocam sorrisos, dizem que são exercícios de rotina e a vida continua, com um reconhecendo a presença e o poder do outro, e sem um tiro disparado. Não se surpreendam se o mesmo ocorrer nas próximas semanas – EUA manda porta-aviões, Irã testa mísseis, muita especulação… e no fim, cada um volta pro seu canto.

No caso de Ormuz, temos um Irã arredio, mas que dependia de um blefe arriscado. Agora que os EUA já responderam com sua presença marítima, é muito improvável que vá ocorrer qualquer conflito – o Irã não se arriscaria a ir às vias de fato, ainda mais nesse momento em que sua influência está se dando de um modo muito mais brando (e exitoso) em outros países da região como a Síria e o Iraque. O risco de uma manobra assim não compensaria os custos. Na verdade, nem mesmo os EUA querem (mais) uma guerra. Os únicos que estariam mais inclinados a isso seriam Israel (com algumas ressalvas) e a Arábia Saudita, que só tem a ganhar com uma invasão ao Irã. Enquanto isso, Teerã tem meios mais interessantes de mexer com o preço do petróleo, e na verdade esse grande blefe teria servido na verdade apenas para mostrar que, independentemente dos meios, o país pode retaliar a possíveis sanções, só pelo fato de se sentir à vontade para fazer essas ameaças…


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Indústria de Defesa: afinal, e as RIs com isso?

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Damos continuidade a nossa série sobre Indústria de Defesa. Hoje, lidaremos com algumas implicações desse setor para as relações internacionais, e vice-versa.


Nas últimas postagens, vimos um pouco sobre Indústria de Defesa (ID) e questões de orçamento e políticas. Agora, vamos entrar um pouco mais na relação do tema com questões internacionais. Afinal, clientes de uma boa ID são não apenas as Forças Armadas de seu país, mas de outros. E quando se fala em ID, estamos pensando em planejamento de Defesa. Aumento de gastos com essa indústria, por um lado, pode pressupor uma corrida armamentista ou despertar algum tipo de incômodo da parte de vizinhos ou rivais; ao mesmo tempo, tratados de cooperação podem render investimentos valiosos para o setor. A linha entre competição e cooperação é bastante tênue quando se fala em Defesa…

Nisso entramos em um dos aspectos mais importantes do tema, a questão do “offset”. Esse termo, que ficou meio famoso por causa do Projeto F-X2 (de reaparelhamento da Força Aérea Brasileira), não é exclusivo de compras militares, mas no caso assume uma faceta mais importante. “Offset” é um pacote de, por assim dizer, “benefícios” que se obtêm ao comprar algo de fora – geralmente como acesso a códigos-fonte, financiamentos ou mesmo pessoal de fora, por um tempo limitado, como forma de “indenizar” o gasto feito pelo comprador. No caso do F-X2, por exemplo, a ideia é que, seja qual for o caça comprado pela FAB, fique disponível para o Brasil uma série de itens de alta tecnologia a fim de que o país consiga engrenar uma indústria efetiva no setor e, futuramente, ser capaz de produzir suas próprias aeronaves.

Se isso vai acontecer, ou não (o mais provável), é outra história. Existem casos de offset que funcionam, geralmente entre parceiros muito próximos ou estratégicos, mas via de regra nenhum país do mundo simplesmente repassa esse tipo de item de boa vontade. Não é o fim do mundo – nesse sentido, entram outras possibilidades, das mais divertidas como a engenharia reversa ou a espionagem, às mais pragmáticas, como o investimento para desenvolvimento interno e apoio a centros de excelência para desenvolver por conta própria. É um caminho duro, mas que dá resultado em longo prazo, e tema pra conversas mais pra frente.

Nesse ponto, vemos que cooperação internacional nesse setor sensível é algo bastante complicado… Mas, ao mesmo tempo, pode render dividendos muito bons. Se o desenvolvimento de capacidades estratégicas não acontece, pelo menos se formam laços de confiança, políticos e comerciais – por mais que não se repasse a tecnologia sensível, ainda se trata de um setor fundamental para a segurança e defesa dos países, e manter boas relações nessa seara é um bom sinal para as demais.


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Tarda… mas não falha?

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Nessa última semana relativamente histórica, em vários eventos deram fim a processos longos (o fim dos 9 anos de ocupação dos EUA no Iraque, a morte do longevo ditador norte-coreano…), o anúncio da entrada da Rússia na OMC não foge a essa regra – o processo estava em negociação há cerca de 18 anos já. Na verdade, tecnicamente, a Rússia ainda não entrou – sua adesão foi autorizada, e o processo de adequação ainda vai demorar até a acessão definitiva no meio do ano que vem. Muito longo, diga-se de passagem, mas o esperado em uma organização em que a entrada de novos membros tem que ser negociada em acordos bilaterais com todos os demais e aprovada por consenso na Conferência Ministerial.

Em tese, a entrada da Rússia na organização (uma meta antiga de Moscou, que tenta isso desde o momento em que a OMC foi criada) é boa para todo mundo: abre-se um mercado consumidor com potencial bastante elevado, criam-se empregos e atraem-se investimentos no maior país do mundo, e aumentam as possibilidades de acesso para parceiros comerciais. Isso sem contar que é uma meta da OMC em si garantir o peso de mercados em desenvolvimento na discussão da liberalização comercial, e a Rússia (em especial ao longo dos governos Putin-Medvedev) é um dos mais expressivos nesse quesito. Para o Brasil, em especial, o interesse é na liberalização do comércio – seria o fim das barreiras sanitárias e das cotas aleatórias que são aplicadas esporadicamente a produtos brasileiros?

Esse é o problema. O grande benefício dessa entrada para o Brasil, a esperada redução no protecionismo russo, não vai ter muitos efeitos justamente pelo modo como as negociações foram conduzidas: a Rússia vai manter barreiras e taxas elevadas, que só vão cair pra lá de 2018, e em setores mais estratégicos como a carne permanecerão cotas. Ao mesmo tempo, com a adesão a Rússia vai estar sujeita aos mecanismos de defesa comercial (que o Brasil conhece muito bem) e vai ter de aprender como funcionam as coisas no sistema multilateral de comércio a duras penas. A Rússia entrando na OMC é um desejo antigo e ao mesmo tempo um desafio para o país, e o tempo dirá quais as conseqüências econômicas (e políticas) dessa adesão.


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A roda da história

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A história se repete. Ora como tragédia e ora como farsa, já disse Marx. Talvez fosse como tivéssemos uma equação histórica para eventos na qual só seria alterada a característica das variáveis. E o povo inglês veio a sentir isso depois de quase 30 anos. Desde 1979, sob os auspícios da dama de ferro, Margareth Thatcher, que a Inglaterra não passava por uma greve geral do setor público nas proporções daquela que ocorreu durante essa semana.

Eram tempos difíceis, a comunidade internacional sentia os ônus do grande otimismo depositado no petróleo (foi até o ano que o famoso milagre econômico do Brasil teve fim…). O choque do petróleo tinha elevado os preços do barril na casa dos 400% (de US$ 2,65 para US$11,65 no início de 1973 e para US$ 80 em 1979) em um curto período de quatro meses. E sobraria para a população pagar os custos sociais de toda essa brincadeira (clique aqui para uma reportagem que retrata discursos de várias pessoas que viveram o período).

Hoje, a comunidade internacional ainda está inserida em um bafafá semelhante. Só mudaram as variáveis. O otimismo do petróleo passou para o dos bancos, da desregulamentação financeira e das dívidas públicas. Os custos sociais até são parecidos. Desemprego e insatisfação baseados em ações dos governos. O projeto do primeiro ministro Cameron de aposentá-los mais tarde e reduzir suas pensões foi o estopim para todo a greve geral. Já em 1979, a tentativa de estabelecer uma regra para o aumento salarial de no máximo 5% engatilhou as demandas por um salário mínimo de 60 libras e uma jornada de trabalho de 35 horas por semana.

Hospitais e escolas pararam em ambos os casos. Histórias de mulheres grávidas que precisaram de hospitais, cirurgias canceladas e pais que teriam que levar seus filhos para o trabalho se repetiram. Em ambos os casos a organização do povo tem um recado claro e bem direcionado para o governo local: insatisfação. Por que raios teriam que receber as perdas de um sistema do qual não recebem os ganhos?

A grande diferença entre 1979 e hoje é o caráter da crise. Anteriormente, tínhamos a crença em um único produto e, no momento atual, temos a crença em um sistema: o dos bancos. E, como na década de 1970, os governos tem grandes dúvidas de como proceder. Austeridade, exclusão dos países deficitários da zona do Euro ou solução conjunta (aqui para um artigo interessante sobre o tema)? Nenhum dos caminhos é claro (a Inglaterra está dependendo principalmente de seu comércio externo para sustentar suas complicadas contas, clique aqui para artigo) e muito menos um remédio milagroso. Cabe ainda muita incerteza nesse cenário. E, enquanto há espaço para incertezas, a roda da história nos mostra que para o povo há somente uma certeza. A de sofrerem grandes efeitos sociais.


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Ladrão… que rouba ladrão?

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Enquanto o mundo presta atenção no Oriente Médio e suas agitações, vamos um pouco mais ao sul de lá, mais especificamente no Chifre da África. Já falamos da Somália aqui no blog esse ano. O tema foi, como muitos devem saber (e é o modo que a mídia mais mostra o país africano), a crise de desabastecimento e a fome decorrente. Mas a Somália também anda conseguindo destaque nos jornais com outro assunto, que é o ressurgimento da pirataria em suas águas, rota marítima obrigatória entre Ásia e Europa.

A história é conhecida: pequenos barcos rápidos abordam cargueiros e exigem resgates aos governos. Claro que os países civilizados, nobres e justos, não deixam isso barato e enviam navios de guerra pra protegerem suas frotas mercantes. Afinal, não é como se a OTAN tivesse coisa melhor para fazer. E o tratamento dedicado aos criminosos varia de acordo com o humor e a origem da marinha. Se os piratas têm sorte, podem ser presos por franceses, que dão até comida para os maltrapilhos. Agora, se tiverem o azar de encontrar os russos… (Talvez uma herança truculenta herdada da URSS? É famoso o caso de um navio ucraniano em que africanos clandestinos foram mortos friamente para que a companhia não pagasse uma multa ao chegar na Europa. Virou até filme.)

É claro que a pirataria tem muito a ver com a crise e a fome naquele país. E boa parte da culpa, adivinhem, é de outros países e causada por um fator que quase ninguém conhece por esses lados: a falta de controle do Estado sobre o mar por lá. A equação é simples: barcos pesqueiros de diversas nacionalidades (europeus, chineses, japoneses…) praticam toda sorte de pesca ilegal e irregular nos mares somalis, sem serem incomodados; acabam os cardumes, o principal recurso alimentar do país é esgotado e uma forma de sobrevivência milenar de comunidades pesqueiras é destruída. Com isso, muitos adotam a solução extrema de partir para o crime, e como em qualquer lugar do mundo, o lucro dessa “vida fácil” faz com que grandes “lordes” piratas enriqueçam astronomicamente e mantenham o ciclo funcionando – um negócio tão lucrativo que acabou com as rixas entre clãs, tão comuns na África. Ser pirata virou status e uma ocupação comum por lá. E a coisa ainda fica pior – depois do tsunami de 2004 (aquele que causou estragos cataclísmicos na Ásia) descobriu-se que o mar da Somalia também virou um depósito aberto de lixo nuclear e tóxico. Como se as coisas já não estivessem ruins por lá…

Você pode ver um chocante e breve documentário sobre o tema aqui. E esse é apenas mais um dos casos em que as questões que chegam aos nossos ouvidos não contam a história toda. Pense no que ouvimos sobre esse tema. Fome na Somália? Claro que é resultado de governos ruins e guerra civil, o de sempre na África. Pirataria? Um óbvio crime contra o comércio internacional, uma barbaridade, que deve ser combatida com medidas “extremas” pra não sair do controle. Mas são apenas peças de um quebra-cabeça muito maior, em que seus efeitos são cíclicos e alimentam a miséria e a corrupção, sob vista grossa dos governos ocidentais. Não se pode defender o crime dos piratas, mas ao mesmo tempo é lamentável ver a que situação se chegou naquele país e difícil não sentir pena dos que acabam enveredando por essa vida (claro que não se precisa sair do Brasil pra entender essa lógica… é a globalização da miséria). Nisso quem perde, é claro, é o lado mais fraco, com a Somália sendo roubada, massacrada e, o pior de tudo, ignorada.


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Recorde mundial

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A Bélgica está estabelecendo um recorde mundial difícil de ser batido. Contudo, infelizmente, não se trata de nenhum assunto do qual os belgas possam se orgulhar: o recorde em questão envolve o tempo sem um governo nacional estabelecido. Há um ano e meio (mais de 500 dias!) debates infrutíferos se alastram e a crise política nacional se intensifica…


Para um país de 10 milhões de habitantes (população equivalente apenas à cidade de São Paulo), a organização política da Bélgica é extremamente complexa de se entender (segundo os próprios belgas!). O país é composto por três regiões e três comunidades principais, bastante distintas entre si – tanto em termos culturais como políticos. Três também são as línguas oficiais belgas, mas isso não significa que as regiões do país inteiro se comuniquem entre si nas três línguas, muito pelo contrário (à exceção da região de Bruxelas).

A região de Bruxelas-Capital é a mais cosmopolita, que move o “coração da Europa” abrigando as principais Organizações Internacionais e sendo a capital de fato da União Europeia. Na Valônia, por sua vez, se encontram os francófonos, em Flandres os flamengos (língua holandesa) e na fronteira com a Alemanha a reduzida comunidade germanófona (mapa abaixo). [O vídeo da série “For dummies” sobre o assunto é crítico, mas bastante ilustrativo, disponível aqui.]

Em meio a toda essa diversidade, a Bélgica tem uma monarquia parlamentarista como sistema de governo, o que significa que existe um rei que exerce o papel de Chefe de Estado e (deveria existir) um Primeiro-Ministro no papel de Chefe de Governo. E aí é que se encontra a principal dificuldade: há cerca de um ano e meio o país não chega a um acordo em relação à formação do governo federal. [No começo do ano aconteceu até a chamada “Revolução das Fritas”, promovida pelos jovens belgas em protesto contra a situação.]

Essa semana, com o fracasso das negociações políticas (em relação à formação do governo) e econômicas (em relação ao Orçamento Nacional), ocorreu a renúncia de Elio di Rupo – líder francófono que exercia o cargo de Primeiro-Ministro interinamente por indicação do rei com o objetivo de buscar consensos – a crise se intensifica. E, pela primeira em todo esse tempo, hoje a União Europeia cobrou publicamente uma resolução da questão o mais rápido possível.

Se não bastasse a tensão política, hoje ainda foi divulgado mais um indicador negativo, dessa vez em termos econômicos: a classificação internacional da Bélgica no ranking financeiro da agência Standard & Poor’s foi rebaixada de AA+ para AA, em clara referência às dificuldades econômicas que atingem toda a Europa nesse momento.

Para um país cujo lema, paradoxalmente, é “A União faz a força”, a Bélgica enfrenta dificuldades históricas em termos de diálogo entre suas comunidades. O momento político e econômico europeu é crítico e a Bélgica, tal como a maioria dos países do continente, não passa ilesa por ele. Enquanto isso, o recorde mundial belga de tempo sem governo – infelizmente – só aumenta.


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Cai cai

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Ciao!

O dominó da economia europeia começa a derrubar peças cada vez maiores. Quando caiu, por exemplo, o primeiro-ministro de Portugal, um coadjuvante da crise, até era algo de se esperar, e não houve muito estardalhaço. Agora, quando se fala numa mesma semana de duas peças grandes dessa armação, e que estão sendo pressionadas como Grécia e Itália, a coisa muda um pouco de figura e deixa os investidores internacionais de cabelos em pé.

Na verdade, parece um pouco surpreendente que isso tenha acontecido apenas nesse momento (muitos já cantavam essa jogada). A saída do premiê Giorgos Papandreou na Grécia faz parte de um acordo interno do governo para tornar possível a implementação de medidas previstas no acordo europeu de ajuda à Grécia – apenas com a formação de um governo de coalizão seria possível aplicar as medidas de austeridade para que a UE venha em socorro dos irresponsáveis bancos gregos (incluindo um generoso corte de 50% na dívida…). Já na Itália, o problema é uma crise de credibilidade, e o bonachão Berlusconi anuncia que sairá do governo logo após implementar as medidas de controle e regulação de finanças, prevendo eleições das quais não participará. Claro que o primeiro-ministro italiano tinha muito mais problemas, que iam de escândalos sexuais a corrupção, e a crise econômica parece ter sido uma justificativa bastante oportuna para seu afastamento – afinal, a Itália seria “grande demais pra ser resgatada”.

Estariam esses líderes pensando em uma espécie de trade-off? O Giovanni mencionou esse tipo de mecanismo ontem – no caso os europeus optariam por algo ruim para evitar algo pior. Vejam só: quando a UE começou a aceitar os países menos ricos para seu clube, estes mascararam contas e inflaram números para parecer mais importantes. A falta de responsabilidade dos governos anteriores, a fartura de crédito e os lucros dos juros resultaram nessa bola de neve atual, e os governos atuais pagam o preço de processos e escolhas feitas há mais de 10 anos. Ao saírem nesse momento, impondo as medidas impopulares, não estariam esses governantes assumindo para si o ônus da fúria popular e tornando a missão dos governos que estão por vir menos indigesta?

É complicado imaginar que se haja um raciocínio tão altruísta. Mas o fato é que outros países estão na linha de tiro agora: na Espanha e na França os governos estão desacreditados e à sombra da oposição nas pesquisas para as próximas eleições, e uma hora essa bomba das medidas de austeridade vai estourar na mão de alguém – resta saber se nos governos atuais ou nos seguintes. E assim, as decisões de hoje podem reverberar por muitos anos no futuro…

Disso tudo, uma grande ironia: a Islândia. O pequeno país tem duas lições a ensinar aos seus companheiros europeus. Primeiro, quando seus bancos quebraram, em vez de onerar o contribuinte, deixaram que os bancos fossem para o ralo e cuidaram de resguardar sua estrutura fiscal e organizar a casa. Claro que a situação não se compara à dos outros países em crise, mas após 3 anos de dureza, sua economia é uma das poucas que dá sinal de recuperação na Europa. E isso pode ter a ver com o segundo fator – por não estar na zona do Euro, essa regulação foi bastante facilitada. Não seria isso um sinal para os demais?


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