O dilema de Obama

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O Protocolo de Genebra, o primeiro documento que trata do uso de armas químicas, foi acordado há mais de 80 anos. Desde então, o mundo parecia caminhar para uma progressiva eliminação do seu uso. Por outro lado, a Cruz Vermelha, na celebração dos 80 anos do tratado internacional, apontava o aumento do número de agentes potencialmente perigosos e a ampliação dos atores com acesso a esse tipo de recurso como elementos que amplificavam os riscos existentes.   

Entre as lembranças que ajudaram a fortalecer o repúdio a esses armamentos estão: o uso na Guerra do Vietnã pelos Estados Unidos e os ataques de Saddam Hussein aos curdos. Na sequência do Protocolo de Genebra, foi-se além com a celebração de convenções complementares relativas às armas químicas e armas biológicas. Como exemplo do efeito devastador, ainda em 2012 os norte-americanos continuavam esforços de descontaminação no Vietnã, décadas depois dos ataques com um mistura de herbicidas (o agente laranja). 

Pois bem, mas por que estas armas são tão tenebrosas? Nesta semana um professor francês, ex-membro da organização Médicos sem Fronteiras, elucidou a questão. Perguntado sobre a diferença entre armas químicas e convencionais, respondeu que as últimas são empregadas para a conquista de pontos estratégicos e o uso é flagrante, enquanto as primeiras têm como objetivo aterrorizar a população e não se percebe de imediato qual a origem do ataque. Isto talvez valide, por exemplo, relatos que médicos que prestaram socorro aos bairros de Damasco atingidos tenham igualmente sido contaminados, muitos sem saber.  

Com estas imagens em mente, somadas ao cômputo de vítimas do mais recente evento (mais de 1000, segundo John Kerry), Obama medita sobre eventuais caminhos possíveis. A sombra da intervenção sob pretextos falsos no Iraque implicou certa cautela e oposição da população. Daquela vez, havia a “coalition of the willing”, com uma importante participação britânica. Agora, os britânicos estão fora. Hollande, presidente francês, inicialmente falou em punir Assad e já apresenta sinais de arrefecer os ânimos. Sobrou para o Obama, agora sem coalizão internacional, mas com indícios mais sólidos que o pretexto para intervir é válido. 

O Brasil segue com seu posicionamento de que a solução para a questão da Síria deveria surgir de negociações. Causa estranheza para muitos, mas em questão de Direitos Humanos a diplomacia brasileira defende que soluções devem vir do âmbito multilateral. África do Sul também se manifestou contrária a uma ação militar. O Conselho de Segurança da ONU não chega a um acordo, o Irã ameaça retaliar, Israel se prepara para um transbordamento do conflito para suas fronteiras, enquanto a opinião pública norte-americana é contra a punição militar à Síria. Assim, Obama ficou em uma situação desconfortável, afinal deixaram todos os riscos com ele.  

Caso o plano seja levado adiante, mesmo circunscrito à punição pelo uso de armas químicas por Assad e sem tropas americanas no terreno, será que passará sem resposta da Síria? Outra questão, estabelece-se então a linha do tipo de armamento que não se deve utilizar, mas como fica a crise humanitária? O objetivo não parece ser destituir Assad, a comunidade internacional continuará assistindo de longe a continuidade da guerra? Por fim, recuar igualmente seria temerário, especialmente depois de discursos inflamados em defesa de uma eventual resposta pautada em princípios humanitários. Em todos os cenários, o ônus cairá no colo do Obama. Ele traçou a linha vermelha, ele viu a repetição de ataques desafiando o limite que estabelecera e provavelmente atacará sozinho (sem coalizão e sem anuência das Nações Unidas). 

Update: Obama decidiu atacar. Contudo, quer a autorização do Congresso. No final das contas, ele quer dividiro ônus com alguém. Nada mais justo, considerando os exemplos recentes de crises decorrentes de ações internacionais.  


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O caminho para a destruição

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Desde 1994 a ONU tem um trauma. A falta de capacidade em evitar o genocídio em Ruanda e o modo como o mundo todo descobriu aquele massacre feito na base do facão é sempre a primeira justificativa quando se pensa em alguma resposta mais dura a crises humanitárias. Hoje, vemos a Síria em guerra civil e evidência lamentável do uso de armas químicas. A chamada “opinião pública” mundial clama por ação, e parece que Reino Unido, França e possivelmente os EUA estariam buscando uma resposta conjunta que pode sim render uma ação armada. 

Existe muita ironia em tudo isso. Basta lembrar a intervenção na Líbia. A ONU aprovou uma zona de exclusão aérea (por muito menos que o uso de armas químicas), o conflito se acirrou e hoje o país não tem governo. O resultado da intervenção, no fim das contas, é contestado e muita gente culpa os países ocidentais pelo aumento substancial das mortes e instabilidade que dura até hoje no país. 

O caso da Síria é bem diferente, em quase todos os sentidos, a favor e contra a intervenção. A favor, existem evidências do uso de armas químicas (a questão é saber exatamente de que lado), um sangrento prolongamento das hostilidades e, principalmente, o recurso ao conceito da “responsabilidade de proteger” (que a ONU trouxe lá no meio dos anos 2000 e visa justamente evitar esses genocídios), que já tem efeitos práticos na missão da ONU no Congo (que hoje tem um “braço armado” capaz de revidar às ameaças contra a população, coisa inédita). Contra, é claro, temos um elemento político. China e Rússia são totalmente contra uma intervenção de qualquer natureza, por diversos motivos – e alguns são bem pragmáticos, como o fato de não se saber exatamente ainda qual dos lados usou as armas, e defender a permanência de Assad por simplesmente não ser possível prever como seria instalado um novo governo caso ele seja derrubado, ou como isso afetaria a estabilidade da região. Há também a crítica dos “interesses escusos” das potências (que já vimos na Líbia), em que a defesa dos direitos humanos vira uma desculpa para o bom e velho imperialismo versão século XXI. E vozes na própria ONU ainda defendem que o caminho das negociações seria ainda a melhor opção. 

O Reino Unido vai levar o caso ao Conselho de Segurança, pedindo ações rígidas, mas qualquer medida nesse tom será barrada por Rússia e/ou China. Esse “travamento” na ONU vai acabar levando à ação unilateral, seja individualmente, seja por meio da OTAN, ou coisa do tipo. A movimentação já existe, com navios e porta-aviões de prontidão na região, e as evidências dos ataques químicos acabam sendo um marco do “ponto sem retorno”. Algum dos lados do conflito fez algo abominável para a sociedade internacional, e na visão das democracias ocidentais uma ação precisa ser tomada. Mas o quê vai ser feito? Uma invasão com tropas e tudo mais? Uma zona de exclusão aérea? Bloqueio naval? Qualquer opção vai render um banho de sangue para os dois lados e potencialmente tornar ainda mais letal o conflito. E não significa necessariamente que a intervenção vá ter sucesso. 

De qualquer jeito a reação será negativa. Em caso de intervenção, mesmo que milagrosamente dê certo e acabe com o conflito, vai haver protestos contra imperialismo, denúncia de interesses escusos e possivelmente desestabilização da região como um todo (o Irã pode fazer alguma bobagem, retaliação sino-russa, e por aí vai). Caso nada seja feito, mais uma vez a ONU perderá credibilidade por não ter evitado uma tragédia. A única solução que evitaria qualquer desfecho negativo seria a pacificação pela negociação, mas levando em conta quem está lutando, e o ponto a que chegaram as coisas, esse caminho é agora um sonho.


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10 anos depois

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Na última segunda-feira, dia 19 de agosto, comemorou-se o Dia Mundial da Ação Humanitária, em homenagem àqueles que dedicam suas vidas ao trabalho humanitário nas mais diversas situações de necessidade no mundo, recordando especialmente os trabalhadores que perderam (e ainda perdem) suas vidas no trabalho.

A data foi criada pelas Nações Unidas no ano de 2008, relembrando o triste atentado de 19 de agosto de 2003 em Bagdá, no Iraque, durante o qual 22 funcionários da ONU faleceram e mais de 150 ficaram feridos. Neste dia o Brasil e o mundo lamentaram a morte do brasileiro Sérgio Vieira de Mello, então chefe da missão no Iraque, funcionário de grande reconhecimento e possivelmente cotado para assumir o Secretariado-Geral desta organização à época (interessante documentário sobre sua vida e legado disponível aqui).

10 anos depois, vemos que as condições de trabalho humanitário no mundo têm se tornado cada vez mais difíceis, com crises que impressionam pela quantidade de vítimas, pela dificuldade de acesso da ajuda e, frequentemente, pela imobilidade internacional diante dos grandes interesses político-econômicos em jogo. Uma Síria especialmente preocupante nos provoca hoje reflexão sobre as condições de trabalho humanitário no mundo. Quantos Sérgios anônimos não perdem a vida diariamente na realização de seu trabalho? Quanto ainda deve ser feito para garantir a proteção daqueles que escolheram a proteção dos mais vulneráveis como opção de vida?

Incertezas ainda rondam o atentado ao Iraque em 2003 (leia aqui artigo de Carolina Larriera, companheira de Sérgio Vieira de Mello também presente no momento do atentado) e aceitar esse contexto político de interesses obscuros talvez seja uma das tarefas mais difíceis para qualquer pessoa envolvida com cooperação humanitária. Os ideais se veem confrontados com uma realidade muito menos gentil, mas diante da qual não se pode deixar de acreditar na possibilidade de fazer a diferença em sociedades afetadas pelas mazelas de conflitos armados e desastres socioambientais.

Que este marco de 10 anos desde o atentado em 2003 possa de alguma forma nos lembrar do que já passou, nos fazer questionar o que ainda não está claro, nos inspirar pelo exemplo de tantos – mas especialmente de Sérgio Vieira de Mello – e nos mostrar que os caminhos a seguir ainda estão sendo traçados e que devem respeitar sempre os princípios humanitários para aqueles que sofrem e também para aqueles que trabalham para minimizar este sofrimento.

[Em meio às homenagens ao Dia Mundial da Ação Humanitária, a campanha anual da ONU tem como conceito “transformar palavras em ações”, incentivando as pessoas a completarem a frase “O mundo precisa de mais…” para que as palavras sejam financiadas pela iniciativa privada em prol das ações humanitárias que estão se desenvolvendo hoje no mundo. Veja mais aqui e participe aqui.] 


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O retrato da indolência

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Fonte: New York Times


Ou negligência, se preferirem. Há tempos que o conflito na Síria vem levantando novos debates a respeito da morte incansável de milhares de civis. Muitos são os problemas apontados: uso excessivo de força por parte do governo de Al-Assad, falta de comprometimento das grandes potências, indiferença por parte da comunidade internacional, violação de direitos humanos e de tratados internacionais. Existem, ainda, indícios sobre o uso discriminado de armas químicas, conforme já apontei em outro texto aqui na Página Internacional. 

Sobre esse último ponto, um grande mistério vem rondando os noticiários esta semana. Em um vídeo divulgado pelo jornal “The New York Times” em matéria intitulada “Images of Death in Syria, but No Proof of Chemical Attack”, são vistos centenas de civis (crianças e adultos) sendo atendidas por conta de um suposto ataque químico perto da cidade de Damasco. Entretanto, as pessoas que auxiliam nos atendimentos não usam nenhum tipo de proteção. O ministro sírio al-Zu’bi disse que as imagens foram planejadas… 

Faltam provas, mas nem tanto. Sabe-se que o conflito interno na Síria já alcançou patamares inimaginados anteriormente. Obviamente que as mortes são as piores consequências, só que o principal problema é saber como os sírios reagirão a essa maré de má sorte. Falta o básico, falta qualidade de vida. A Organização das Nações Unidas (ONU) disse que existe cerca de um milhão de crianças refugiadas por causa dos combates. E isso tende a aumentar. 

Por falar em ONU, a organização vem mostrando sua fraqueza. Sempre fui uma pessoa que tem a seguinte opinião sobre os capacetes azuis: “Ruim com eles, pior sem eles”. Suas ações são louváveis em inúmeros eventos históricos e sua voz no cenário internacional é vital. Mas não podemos deixar de notar que sua presença na Síria deixa a desejar. Somente agora que a ONU pediu autorização ao governo sírio para investigar os ataques com armas químicas. 

Vai e vai rápido! Ban Ki-moon é uma excelente figura e conquistou seu espaço no cargo máximo. Tem grandes problemas nas mãos e um deles é a Síria. Não podemos culpa-lo por tudo. Boa porcentagem dessa “indolência” no país é decorrente da falta de vontade política das grandes potências. A França propôs o uso da força para combater os ataques químicos, Alemanha e Estados Unidos ficam com o rabo entre as pernas e passam a bola para a Rússia, “acusada” de enviar armas para Al-Assad e por aí vai. 

E o que fará, agora, Mister Obama? Conforme atestado por matéria da BBC, há um ano o presidente disse que, caso fossem utilizadas armas químicas na Síria, os Estados Unidos recalculariam sua posição. Será que os norte-americanos vão para o front de guerra? Difícil, heim! Iraque e Afeganistão mandam lembranças. 

O estágio atual da Síria é insustentável e, se assim permanecer, não continuaremos a colocar a culpa somente em autoridades nacionais. Falta força política da ONU e, mais impactante ainda, força de vontade das grandes potências. Se “indolência” é um termo feio e pesado, podemos colocar como sinônimo a “preguiça”. Obama e companhia dormem no ponto.


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Vamos falar sobre os Ciganos

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“A globalização aproximou todas as culturas”. Essa é uma das frases mais comuns que ouvimos em conversas descompromissadas do dia a dia. Em parte uma afirmação correta. Longe de imaginar o desconhecido de novos lugares, do “descobrimento de novas Terras e povos”, tudo se parece igual. Então começamos a pensar que o restou da diversidade de povos no mundo foram pequenas diferenças, o restante de singularidades que ainda os caracterizam. 

Como bons ocidentais, esquecemos populações inteiras, completamente distintas de nós. Esquecemos a África, minimizamos as superpopulações dos países asiáticos, reduzindo aos poucos imigrantes que conhecemos. Talvez tenhamos pontos em comum aos europeus. Copiamos em parte o modo de vida americano. Mas não temos ideia de quem é o camponês chinês, que representa cerca de 10% da população mundial. Como não o conhecemos e não fazem parte do nosso raciocínio de globalização, os esquecemos.

Mas não precisaríamos cruzar o mundo em busca de populações exóticas ou excluídas para encontrar exemplos desse tipo de esquecimento moderno. Poderíamos usar como exemplo o Brasil. E não falo de tribos indígenas ou povoados distantes, sem fácil conexão com a “civilização”. Fazemos o mesmo com quem vive em nossas cidades, por vezes são nossos vizinhos de bairro ou até mesmo de rua: os Ciganos. Uma junção de diversos povos nômades, compartilhando da mesma língua, o Romaní. 

Os ciganos são bastante peculiares. A maior parte da sua historia é baseada na exclusão de qualquer território pisado. E os territórios são muitos. Talvez os Ciganos tenham sido o primeiro exemplo de estereotipo da ficção literária e do imaginário popular. O grande retrato de um povo inferiorizado. Muito antes dos Nazistas publicarem em suas revistas caricaturas pejorativas de judeus, os Ciganos cumpriam papéis nessas publicações de assassinos, artistas de circo, piratas, farsantes, cartomantes, charlatões. Sempre pessoas a serem evitadas ou eliminadas. Diz-se que o ser humano, diante do medo do desconhecido, tende a cobrir o outro de véus. Uma boa metáfora aos muçulmanos, já literalmente vestidos da forma como os imaginamos ou desconhecemos. Melhor ainda para representar os ciganos. 

Interessante que intactos aos diversos ataques que sofreram de todos os Estados em que viveram, permaneceram em comunidades bastante exclusivas, bem cristalizadas, defendendo a sua cultura e crenças. E durante décadas passaram distantes de obrigações impostas. Não como os Amishes ou índios, reconhecidos juridicamente como donos de terras, de uma própria lei, da liberdade e reconhecimento. Os Ciganos se mantiveram unidos sob fortes ameaças, entre a cruz e a espada.

 No Brasil, entre as antigas discussões que negaram a legitimidade do povo cigano, estava a afirmação de que “não eram um povo em si, mas sim várias populações que compartilhavam ‘apenas’ da mesma língua”. Que grande surpresa isso não representar um povo para as autoridades brasileiras, assim como de muitos outros países. Afinal, não seria o Brasil o maior exemplo de torre de Babel em que diversas culturas compartilham  a mesma língua, e apenas por esse motivo se formaram como sociedade?  

Assim, os ciganos foram lançados ao maior abismo possível da exclusão. Maior que o do ódio, como sofreram os judeus. Foram jogados ao esquecimento, à falta de identidade. Invisíveis, seguiram como alvos de todas as barbáries possíveis. Estiveram nos massacres das guerras desde o século X, nos êxodos de populações, na Segunda Guerra Mundial, sofrendo um holocausto tão terrível quanto qualquer outro povo odiado pelos alemães. Mas um holocausto esquecido, nunca noticiado. 

Sempre comparado a ratos, como uma população de uma raça ou cultura inferior. Sem uma Terra, sem lobby político, sem órgãos de Direitos Humanos atentos, sem defensores. Massacrados pela Direita, pela Esquerda, pelo Centro e por Comunistas. Também por Ditaduras e Regimes Democráticos. Vezes mais, vezes menos. Vezes sem direito à dignidade, vezes sem direito à vida.

Mesmo diante de uma situação bastante negativa, o que é interessante é que os ciganos por muitas vezes deram as costas a qualquer tipo de oportunidade de se misturar às populações dos países em que viveram. Não deixaram suas crenças e muito menos se prepararam para o mundo globalizado. A falta de escolaridade é uma das provas dessa afirmação. O analfabetismo veio bater forte no modo de vida cigana no mundo capitalista, jogando a população ainda mais na pobreza. O seu maior líder, autointitulado “rei dos ciganos”, Florín Cioaba, foi um dos primeiro a tentar modificar essa rebeldia contra qualquer tipo de instituição do Estado. Também aboliu o casamento de pessoas menores de 15 anos, muito comum em sua cultura. Pensou assim diminuir a exclusão Cigana no mundo moderno, a diminuição do preconceito contra seu povo. Esqueceu que não é nada moderna a segregação Cigana. 

A cultura, conhecida como anacrônica ao mundo atual e a obscuridade do modo de vida cigano fizeram com que se construísse a ideia de um povo negativo, mais uma vez. Logo, o cigano ganhou o papel moderno de único portador de fé em crendices, da ignorância, aquele retrato da mulher que faz leitura de mãos no centro decadente da grande metrópole. O que realçou ainda mais a visão de povo a ser ignorado. Diante de tantas populações nada esclarecidas, como a do Brasil, que desafiam o bom senso com discursos religiosos contrários ao relacionamento homoafetivo e mais recentemente, de forma absurda, contrários ao direito ao aborto em casos de estupro, o Cigano ainda se tornou a “antiguidade indesejada”, o bode expiatório do desejo progressista.

Distante da modernidade, do Estado, das elites e até dos “descolados”, os Ciganos permanecem esquecidos. Sofrendo massacres em parte da Ásia e leste europeu, excluídos no restante da Europa e nas Américas. Não saem em jornais, não há pesquisas acadêmicas sobre eles, nem história de seu povo. Não são incluídos em estudos nas escolas sobre migrações, muito menos lembrados em sua existência. Permanecem apenas no imaginário do artista de circo, da cartomante, da dançarina exótica.

Mas os Ciganos desafiam o silêncio e continuam a ser uma comunidade bastante restrita, mantendo laços de proximidade que protegem a sua cultura até mesmo da igualdade globalizante. E seguem às sombras, compondo o mais curioso retrato de povo do mundo globalizado.

Deixo alguns links para quem se interessou sobre o tema:

Embaixada Cigana no Brasil e um pouco de história desse povo.

Construção de muros anti-ciganos na Europa, exemplo muito comum da exclusão atual.

O Holocausto Cigano, ocorrido junto ao judeu pelos Nazistas, mas pouco noticiado.

Discussão sobre a exclusão Cigana da sociedade, dos noticiários e das pesquisas sociais e históricas.

O Cigano no mundo globalizado.


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Cooperação Brasileira para o Desenvolvimento

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A Cooperação Brasileira para o Desenvolvimento é um assunto que tem alcançado repercussão crescente em nossa agenda de relações internacionais. O lançamento, há uma semana, de relatório com dados relativos ao ano de 2010 a esse respeito só evidencia a forma como o tema já pode ser considerado uma prioridade para as diretrizes nacionais de política externa.

Em primeiro lugar, é importante considerar que o que se entende por cooperação em termos gerais faz parte de uma estratégia brasileira que existe há muito tempo, desde a década de 1950. Contudo, até 2005, é bastante difícil distinguir entre as modalidades desta cooperação, tornando a análise complicada, já que as definições de cooperação técnica e cooperação humanitária, por exemplo, muitas vezes se confundem nesse período.

A partir de 2006, importantes são os esforços de institucionalização e aprimoramento na promoção dessa cooperação por parte do governo. A criação, por exemplo, do Grupo de Trabalho Interministerial sobre Assistência Humanitária Internacional naquele ano reflete, por um lado, a relevância do tema e, por outro, a falta de mecanismos internos devidamente articulados para a necessária coordenação que se espera de um país com participação cada vez maior nesse cenário.

A dificuldade em termos de transparência e sensibilização do tema em meio à sociedade civil também é grande. Em 2010, foi lançado pela primeira vez um balanço oficial a respeito dos investimentos em cooperação promovidos pelo governo entre 2005 e 2009, com dados e informações orçamentárias agrupadas em um só relatório.

O que se entende por cooperação, neste relatório, foi sistematizado em cinco grandes áreas: (1) assistência humanitária; (2) bolsas de estudo para estrangeiros; (3) cooperação técnica, científica e tecnológica; (4) contribuições a organizações internacionais e bancos regionais; e (5) operações de paz. (Todas as informações se encontram disponíveis no primeiro relatório de balanço aqui.)

A metodologia do relatório ainda precisa ser aperfeiçoada e melhorias ainda para evitar informações desencontradas em relação aos valores são necessárias. Mas a iniciativa em si merece, sem dúvida, mérito no avanço para tornar transparentes os investimentos brasileiros nesta área.

Com o lançamento do segundo relatório da mesma série (só que relativo a 2010) há uma semana, o principal questionamento é o fato de este material estar sendo disponibilizado com mais de dois anos de atraso (!), o que foi justificado por questões de acertos metodológicos. Com um aumento de quase 100% em relação aos recursos investidos na mesma área durante os anos anteriores, 2010 representou um ápice em termos de cooperação – principalmente devido aos esforços brasileiros no Haiti. (Veja o novo relatório e todos os investimentos em cooperação no ano de 2010 aqui.)

Desde então, o pico jamais foi alcançado novamente, mas os dados recentes ainda não se encontram totalmente disponíveis, o que deve ocorrer, segundo previsões otimistas, ainda antes do final deste ano.

Pode-se certamente afirmar que a cooperação para o desenvolvimento tem alcançado patamares inéditos e que sua importância para a agenda brasileira é crescente. Contudo, a necessidade de aperfeiçoamento das metodologias utilizadas para o monitoramento e a prestação de contas dos projetos também é nítida e os esforços neste sentido têm começado a ser empreendidos muito recentemente.

Isto reflete a importância de se desenvolver a área de cooperação para o desenvolvimento, revelando à sociedade civil e à comunidade internacional todo o potencial e o impacto das ações brasileiras realizadas de forma objetiva e transparente, tal como deve ser qualquer ação governamental. 


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Melhore, Mandela

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Melhore, Mandela. Melhore porque sua contribuição para a construção de uma sociedade baseada na igualdade racial ainda não está encerrada, apesar de já ter sido esplêndida. Melhore porque seu ativismo e seu exemplo político ainda emanam vida, muita vida em seus 95 anos quase completos. Melhore porque o mundo ainda não está preparado pra se despedir de você, herói sul-africano, herói internacional.

E, de fato, não estamos preparados e nem devemos nos preparar. Após mais uma internação preocupante (pela quarta vez desde dezembro do ano passado), por conta de uma infecção pulmonar, Mandela passa bem e se recupera, a um mês de completar 95 anos de vida. A data do seu aniversário é, na verdade, reconhecida pela ONU como o seu próprio Dia Internacional, em homenagem a tudo que Mandela construiu e representou em sua luta – ou melhor, representa em um mundo ainda carente de diálogo inter-racial e paz em tantas localidades em conflito.

Se a história de Mandela marcou a luta contra a segregação racial no século XX, desde o fim do apartheid muitos desafios em termos de igualdade racial permanecem não apenas na sociedade sul-africana, mas em todo o mundo. Ainda é, infelizmente, mito dizer que não existe racismo no Brasil, por exemplo, assim como ainda há muito que ser discutido para que eliminemos a discriminação nos mais diversos âmbitos da sociedade.

Se, segundo suas próprias palavras, “o que conta na vida, não é o quanto se viveu, mas a diferença que fizemos para a vida dos outros”, a certeza de que este líder fez e faz a diferença no mundo é clara. Por isso e por tudo o mais, melhore, Mandela, melhore, por favor.


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Sobre patos e tanques

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Patos amarelos no lugar de tanques. Essa foi uma das formas que internautas encontraram para, driblando a censura, relembrar uma data que marcou tristemente a história chinesa em termos de direitos humanos. Ontem completaram-se 24 anos desde o massacre ocorrido na Praça da Paz Celestial (Tiananmen) e esta foi uma das maneiras de disseminar o assunto nas redes sociais na China.

O número de vítimas do massacre, na verdade, nunca foi confirmado (sendo estimado em cerca de 4 mil mortos e 60 mil feridos por certas fontes) e qualquer recordação pública deste acontecimento é ainda hoje refreada pelo governo, assunto tabu mesmo mais de duas décadas depois. Tanques de guerra (!) – hoje ironizados pelos patos amarelos, inspirados na obra de um artista holandês que fez sucesso em Hong Kong recentemente – foram enviados pelo Partido Comunista para reprimir protestos inéditos por liberdade e democracia.

Protestos estes pacíficos que, iniciados por universitários, reivindicavam mudanças, maior transparência e liberdade a nível nacional. Sua repressão e as informações sempre nebulosas por parte do governo neste sentido demonstram que o gigante chinês ainda encontra no respeito aos direitos humanos sua maior fraqueza.

No último domingo, faleceu o prefeito de Pequim à época, o qual foi um dos principais responsáveis pela brutalidade na repressão aos protestos, condenado à prisão por crimes de corrupção. Mudam-se os indivíduos, mas não a influência do Partido Comunista no país. A influência que ontem foi responsável por tantas mortes após reivindicações pacíficas hoje tenta de todas as formas invisibilizar as memórias deste acontecimento trágico, evitando o reconhecimento de sua importância.

A verdade é que os esforços governamentais parecem levar a um efeito contrário, indesejado pelo governo, de motivar os estudantes de hoje a buscarem novas formas de manifestação, tornando o assunto, de alguma forma, cada vez mais visível para as sociedades chinesa e internacional. Grandes patos amarelos que representam a ironia de um regime que ainda comanda uma gigantesca potência sem o devido (e necessário) respeito aos direitos humanos de sua população. 


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Existem limites?

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A mais nova atrocidade cometida no contexto dos conflitos na Síria chegou às manchetes essa semana e levanta uma questão: existem limites? Em uma situação de conflito interno que talvez já tenha ultrapassado todos os limites de violência e de vítimas inocentes que poderíamos supor existir em pleno século XXI, este caso vem para impressionar pela crueldade do ato – que por si só já é motivo de sobra para enorme repulsão – mas, paradoxalmente, pode trazer o debate a um nível diferente, em que (mais do que) urgente é a tomada de decisões para evitar situações parecidas.

Para quem não viu nos noticiários dos últimos dias, o caso em questão se refere ao rebelde sírio da cidade de Homs, identificado como Abu Sakkar, que foi filmado arrancando o coração (ou o fígado, segundo outras fontes) de um soldado sírio já morto e mordendo tal órgão. Trata-se de uma situação de tamanha degradação humana que não é necessário visualizar o vídeo em si para imaginar a cena (apesar de este estar disponível no YouTube).

Alegando a política de Hamurabi de “olho por olho, dente por dente”, a justificativa (se é que se pode chamar assim) de Sakkar é de que foram encontradas imagens gravadas no celular do soldado de abusos sexuais cometidos anteriormente por este. É claro que nenhum julgamento é fácil e que o conflito sírio é muito mais complexo e envolve muito mais interesses que se possa imaginar, mas a brutalidade deste ato parece trazer o debate para um nível diferente.

Um crime de guerra de tal repercussão cometido por um rebelde em um contexto de conflito armado que perdura desde março de 2011 e que já causou aproximadas 80 mil mortes (ou 120 mil, de acordo com outras fontes), além de mais de um milhão de refugiados (mapa interativo sobre a situação dos refugiados aqui) e milhões de deslocados parece (ou pelo menos deveria) ser o estopim para que os esforços pela paz sejam redobrados, triplicados, multiplicados por todas as menores chances de se alcançar um diálogo entre governo e rebeldes pelo final da violência no país.

Uma Conferência de Paz está sendo proposta pelos Estados Unidos e pela Rússia para junho, mas informações relativas à possibilidade de não comparecimento do governo sírio já foram divulgadas, alegando riscos à soberania do Estado… será?

O rebelde “canibal” alega não estar arrependido de sua atitude, mas líderes do maior grupo rebelde da Síria garantem que ele será punido por sua conduta, sugerindo que, sim, existiriam limites à crueldade e que a indignação seria compartilhada por todos os lados. Com tamanha crueldade ele agiu (e quem saberia dizer quantos outros combatentes, rebeldes ou partidários do governo têm agido sem serem filmados?), mas também com crueldade ele será provavelmente punido, e de enorme crueldade (mas talvez não tão midiatizada) milhões de inocentes estão sofrendo, em incontáveis dramas anônimos e particulares…

A comunidade internacional se comove, se choca e se revolta. Contudo, ainda assistimos impotentes a uma carnificina que aflige a população síria e cuja perspectiva de solução ainda parece estar longe de ser alcançada no plano político. Existem, pois, limites? 


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150 anos de Cruz Vermelha

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Há 150 anos, ninguém talvez pudesse imaginar que a iniciativa de um homem de pensar em formas para aliviar o sofrimento humano em situação de conflito armado proporcionaria as bases para a criação de uma organização de porte inigualável no mundo inteiro.

No dia 08 de maio comemora-se o Dia Mundial da Cruz Vermelha e do Crescente Vermelho, ao relembrar-se a data de nascimento de Henry Dunant, seu principal fundador. Este suíço foi levado pelo acaso a vislumbrar os horrores da batalha de Solferino em 1862, na Itália, o que o fez perceber que os feridos e as vítimas de guerras não recebiam o suporte mínimo necessário à sua dignidade enquanto seres humanos.

Não por acaso, entretanto, ele posteriormente relatou sua experiência e idealizou a proposta de uma instituição que, em sua neutralidade, pudesse proteger os civis das consequências nefastas de conflitos e desastres. O Movimento Internacional da Cruz Vermelha aí se delineava – pelas ruas de Genebra e pelos meios políticos suíços em que este lograva difundir seus ideais.

Sendo por muitos considerado o pai do “humanitarismo moderno”, foi no ano de 1863 que Dunant viu os primeiros frutos de sua mobilização, alcançando apoio político para tornar real o seu projeto. “Tutti fratelli” (“todos irmãos”, em italiano) se tornou uma mensagem aos poucos internacionalmente reconhecida, já que aqueles afetados por um conflito armado deixariam de ser julgados pelas bandeiras que defendessem, passando apenas a tornar-se indivíduos em situação vulnerável, precisando de apoio.

Muitos seriam os posts necessários para detalhar o histórico e a importância desta organização e de seu principal fundador. Talvez seja, por ora, suficiente apenas ressaltar que, 150 anos depois, o ideal de uma pessoa propiciou a mudança da realidade de milhões, sejam estas vítimas dos vários conflitos que foram vivenciados no mundo inteiro; voluntários que descobriram sua vocação de ajudar através de uma instituição que lhes proporciona segurança e garantia de imparcialidade; Estados que têm trabalhado pelos princípios do Direito Humanitário Internacional; ou apoiadores em geral que tornam a credibilidade da Cruz Vermelha amplamente reconhecida pelo mundo afora.

A noção de que o uso da força deve ser regulado mesmo em momentos de guerra (que pressupõem situações extremas), acompanhado por um espírito de proteção dos direitos humanos tornam esse dia importante no contexto internacional. Sendo celebrada em todo o mundo, a data reconhece o trabalho já realizado nesta área e relembra os Estados e indivíduos das obrigações assumidas nas mais diversas situações atuais de conflito, reconhecendo o impacto positivo dos esforços de assistência humanitária e de promoção da dignidade humana em todas as circunstâncias…


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