Os confrontos esquecidos

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Central-African

Os distúrbios recentes na Ucrânia retiraram, por algum tempo, o foco do noticiário internacional da crise Síria. Agora que a situação parece “sob controle” (apesar de a anexação da Crimeia à Rússia trazer um abacaxi para o Direito Internacional e ser o prelúdio de uma complicada guerra econômica de sanções na Europa), podemos voltar a nos preocupar com as centenas de milhares de mortes na conta do senhor Basshar al-Assad e desafetos. Porém, aproveitaremos a postagem de hoje para mostrar que, se a situação Síria é ruim, temos muitos outros conflitos ainda piores rolando nesse exato momento.

A Somália, por exemplo, que apareceu mais por causa dos casos de pirataria em alto-mar que pela miséria que assola a nação há mais de 20 anos, está em guerra civil por quase todo esse tempo – o que não é nenhuma surpresa. A bola da vez é o conflito com extremistas islâmicos jihadistas, que trouxeram a novidade do atentado suicida a uma região já caracterizada pela brutalidade dos conflitos sectários africanos, com expedientes tradicionais como o estupro e a mutilação. Mais de 20 anos de guerra e corrupção arruinaram o país, considerado por muitos como um exemplo de Estado falido. Para piorar, ainda soma à sua contagem de corpos aqueles que não perecem no conflito, mas na travessia do Mediterrâneo, fugindo da situação desesperadora em que se encontram.

Um pouco ao sul, na República Centro-Africana, a violência aumenta. O conflito de natureza religiosa produz horrores como pessoas sendo atiradas em rios para serem devoradas por crocodilos ou crianças decapitadas. Mais uma vez, grupos islâmicos estão envolvidos, ao derrubarem o presidente no ano passado – porém, não são os “protagonistas”, já que sua violência serviu como justificativa a muçulmanos comuns pelo resto da população, o que tornou uma outrora pacífica convivência religiosa no mais sangrento conflito entre cristãos e muçulmanos no mundo de hoje. A França envia um contingente para auxiliar as forças de paz da União Africana, mas seu interesse é pontual (basicamente, espezinhar o interesse chinês na região) e apesar do discurso humanitário da União Europeia nenhum outro país europeu tenciona enviar tropas para conter a violência. O resultado é literalmente o risco de uma nova Ruanda, com um genocídio anunciado, mortes na casa de milhares e mais de um milhão (cerca de um quarto da população) de refugiados.

Agora, os campeões nesse “score” macabro são dois conflitos velhos conhecidos, do Afeganistão e do Iraque. Apesar de estarem mais em voga por causa da reação ao 11/09, essas guerras podem ter suas origens puxadas lá para a década de 80, já que ambos os países nunca experimentaram alguma estabilidade desde a invasão soviética ou a guerra com o Irã, respectivamente. O fracasso dos EUA em alcançar seus objetivos, com a retirada do Iraque e gradual abandono do Afeganistão, tornaram essas guerras “esquecidas” pela mídia, com a menção esporádica de algum atentado, mas que continuam a ocorrer diariamente. Mesmo desconsiderando o período histórico mais longo, estamos falando de conflitos onde o número de mortos pode chegar à casa dos milhões – e que, definitivamente, não estão encerrados: não passa uma semana sem o anúncio de algum atentado em Bagdá ou Cabul com dezenas de mortes. Existe até um site que faz a contagem dos mortos no Iraque desde a intervenção norte-americana.

Claro que, em termos de vidas humanas, qualquer guerra é negativa, sejam 100 ou 1 milhão de mortos. Porém, os casos apresentados (e são apenas alguns) mostram que, como sempre, o interesse da “opinião pública” internacional sobre os conflitos mostra um pouco do interesse dos grandes centros de poder da mundo – na Síria, onde há interesses de grandes potências em choque, se despendem recursos estratégicos e diplomáticos. Mas, como vemos, não parece ser o caso em um Estado falido, com interesse marginal de uma potência decadente, ou de fracassos da superpotência meio que jogados ara baixo do tapete.


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A laranja seca

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UKRAINE-EU

Numa surpreendente reviravolta, a Ucrânia acordou hoje com a notícia de um acordo preliminar que restauraria a Constituição de 2004 e possibilidade de anistia aos presos nas manifestações e confrontos das últimas semanas. Um desfecho bastante interessante quando consideramos que ontem mesmo o presidente (em vias de defenestração) Viktor Yanukovich mandava a polícia mandar bala (literalmente) nos manifestantes gerando uma carnificina nos últimos dias com dezenas de mortes.  O que mudou nesse meio tempo?

Pressão internacional parece ser a primeira ideia. Lembramos que um dos maiores interessados nessa questão está ali do outro lado da fronteira, o russo Vladmir Putin, e a violência em Kiev estava tirando o brilho da imagem dos jogos de Inverno, que deveriam ter sido um show particular de pujança do governante. Parece um pouco tarde para contornar os estragos, mas certamente haveria interesse de Moscou em que as coisas esfriassem. Já os EUA estão interessados, mas muito mais para espezinhar a Rússia. Quem entrou com unhas e dentes na questão foi mesmo a União Europeia, que praticamente costurou esse “acordo” de paz, mas conseguiu apertar o governo ucraniano mesmo com uso das boas e velhas sanções. A Rússia deve perder influência e os ucranianos mostram claramente que rejeitam Moscou. Pressionado por todos os lados, o congresso expurgou o ministro do interior e cortou as asas do presidente enquanto Bruxelas aprova a tudo.  No fim das contas, é o único lado que parece ganhar com tudo isso.

Evitar uma guerra civil parece um triunfo daqueles, mas qual o significado disso? A anistia traz de volta a principal figura de oposição, a ex-primeira ministra Yulia Timoschenko, mas que não tem a força politica de quando conduziu a pacífica Revolução Laranja do começo da década passada. Escândalos de corrupção e brigas internas (como a que levou Yanukovich ao poder) mancham a política ucraniana, cuja população vê a associação à UE como uma última oportunidade de mudança e evolução contra velhos hábitos patrimonialistas lá da época dos soviéticos. As concessões de Yanukovich, que incluem antecipação de eleições, são sinais positivos, mas uma vez mais surge esse risco do “vácuo” de poder. Mesmo com um governo de coalizão entre situação e oposição, a falta de uma liderança que corresponda aos anseios dos protestos preocupa. O risco que a Ucrânia corre é proporcional à oportunidade que se apresenta, de passar uma borracha nos desmandos dos últimos anos, e literalmente começar de novo a revolução de 2004. Mas para isso é necessário ainda superar a onda de violência e confrontos, que ainda persiste e pode jogar por terra todos esses esforços caso não seja resolvida.


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De qual lado?

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A crise política na Venezuela (pouco divulgada, aliás) tem muito a ver com o que ocorre no Brasil. Nessa última semana, protestos explodiram em diversas localidades do país vizinho, começando como uma alusão ao dia do Estudante e que cresceu e inflamadas por líderes da oposição se tornaram marchas contra o governo, que resultaram em confrontos violentos e em pelo menos três mortes. De certo modo, lembra um pouco o que aconteceu no Brasil ano passado (apesar de, até onde eu saiba, a derrubada do governo nem ter sido pauta por aqui). Na verdade, o que chama a atenção é como a questão está sendo tratada, e nesse ponto encontramos a principal correlação.

Vejam bem, é complicado avaliar a informação de fora. Geralmente, busca-se um culpado quando há mortes. No caso venezuelano, levando em consideração o fato de que observamos de fora, é bem inconclusivo pensar em termos de “responsabilidades”. De um lado, as fontes do governo acusam a oposição defascismo. De outro, temos reivindicações acerca de problemas sérios e indícios de violência e abusos do governo na repressão. E a polarização acaba acontecendo naturalmente: quem não está conosco, está contra. O que leva ao questionamento é pensar se realmente se torna necessário “escolher” um lado. A polarização do debate se torna realmente necessária? É preciso ficar do lado de Maduro e escorraçar os “terroristas”? É necessário pleitear a queda do governante?

No Brasil, algo semelhante há bastante tempo, mas ficou mais agudo desde o ano passado. Pegamos o exemplo lamentável do cinegrafista que morreu na semana passada. Basicamente, temos aqueles que condenam completamente a atividade dos manifestantes, e aqueles que tentam mostrar que tudo foi uma armação ou resultado de manipulação do governo para desacreditar os protestos. Tem teoria da conspiração pra tudo. E nesse meio, perdem-se aqueles que expressam livremente suas ideias e colocam pautas de fato para as manifestações, assim como as ações que poderiam ser tomadas efetiva e legitimamente pelos membros do governo.

Não falo de ficar em cima do muro – fazer nada é tão ruim quanto ser extremista. Mas quando a insatisfação extrapola limites, a repressão responde na mesma moeda e chegamos às mortes, em um movimento de reivindicação em um Estado de direito, que tem ferramentas apropriadas para isso, existe alguma coisa muito errada. A polarização tende apenas a piorar o problema – em ambos os lados. Deixar de entender o “outro” lado significa deixar de perceber soluções diferentes para problemas comuns. Cruzar a linha do extraordinário faz com que algumas soluções não tenham mais volta – o que é muito comum na vivência internacional, hoje experimentamos na vida cotidiana. É o que está acontecendo em Caracas – um dos líderes da oposição, Henrique Capriles, se mostrava contra a estratégia dos protestos por achar que não era o momento nem o meio adequado. Não foi ouvido. Agora, o governo já manda prender mentores das manifestações. Não tem mais volta.


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As reais imagens de Sochi

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Sochi Simbolo

Na última sexta-feira houve a abertura oficial dos Jogos Olímpicos de Sochi 2014, na Rússia. O que apareceu na televisão foi eloquente, bonito e alegre como normalmente são todas aberturas de grandes eventos. A delegação de doze atletas brasileiros foi saudada como carinho, a delegação estadunidense entrou ovacionada parecendo esquecer-se do boicote ocorrido em ocasião passada e a delegação russa fechou tudo com o “espetáculo de encher os olhos”.

Até aí tudo bem. No máximo divulgou-se que houve uma falha na abertura dos anéis olímpicos, porque o último deles permaneceu fechado e, adivinhem, representa o continente americano. Talvez tenha sido até proposital para as teorias da conspiração dizerem que o suposto erro representa os velhos tempos de Guerra Fria com o embate entre Estados Unidos e União Soviética.

Brincadeiras à parte, vamos às reais imagens de Sochi:

1) Corrupção

Somente uma parcela mínima da mídia divulgou que a olimpíada russa custou mais que o dobro da Copa de 2014 e Rio 2016 juntas, somando um valor não-oficial de 50 bilhões de dólares! Isso, inclusive, foi postado no texto “Imagem é tudo” aqui na Página Internacional. Segundo dados da ONG Fundação Anti-Corrupção, esse montante representa de 1,5 a 2,5 a mais do que o normal se comparado com outras olimpíadas de inverno. Em Pequim (2008) foram gastos 43 bilhões de dólares, em Vancouver (2007) 7 bilhões, em Londres (2012) aproximadamente 14 bilhões e no Rio de Janeiro (2016) estima-se um total de gastos/investimentos nessa ordem também de 14 bilhões de dólares.

2) Preconceito contra homossexuais

Em janeiro, o presidente russo, Vladimir Putin, disse publicamente que os visitantes gays que desejavam ir aos jogos de Sochi não deveriam temer o país, mas que os mesmos precisavam “deixar as crianças sozinhas”. Dias atrás a ONG Human Right Watch (HRW) publicou um vídeo em que são mostrados diversos ataques a gays e lésbicas no país. As imagens são revoltantes e diversas organizações acusam o governo conservador russo de perseguir os homossexuais e não investigar seriamente os ataques feitos contra os mesmos. Essa questão vai muito além das olimpíadas, mas até mesmo Thomaz Bach, presidente do Comitê Olímpico Internacional (COI) afirmou na abertura que os jogos são “festival de esportes que abraça a diversidade humana e sua grandiosidade”.

3) Exclusão social

Em matéria intitulada “Sochi tem o ouro. Vila ignorada tem a poeira”, o New York Times trouxe a notícia do total descaso do governo para com regiões vizinhas de Sochi, citando o caso do vilarejo de Akhshtyr, o qual é situado entre dois complexos esportivos dos jogos. Lá não há combustível, a qualidade da água é horrível e não existem estradas de escoamento ou que permitam a saída tranquila e viável dos moradores. As imagens podem ser encontradas no link da notícia e revelam o outro lado de Sochi, literalmente.

Cidade Sochi

Obviamente, a abertura dos jogos é legal de assistir e os esportes ganham uma nova roupagem nessas épocas. Entretanto, muito mais do que isso, é preciso atentar-se e aludir algumas questões que ficam “embaixo do tapete”. Era para eu ter escrito o texto da “Imagem da Semana” aqui na Página Internacional, mas acabei escrevendo sobre as reais imagens de Sochi que não aparecem na TV. Corrupção, preconceito e exclusão social são algumas delas.


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No meio do caminho tinha Pedrinhas

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Tinha Pedrinhas no meio do caminho. A realidade da segurança pública brasileira reescreveu Carlos Drummond de Andrade: cenas de horror trouxeram à tona uma grave crise que se arrasta há anos. A segurança pública é retrato da desigualdade do Brasil, e sua expressão mais nefasta talvez seja o sistema presidiário. A sexta economia do mundo é também uma das mais desiguais. O índice de Gini – que varia entre 0 (mais igual) e 1 (mais desigual) – brasileiro é 0,547 (11º do mundo no ranking do Banco Mundial). Um país que não entra em guerra com os vizinhos há mais de 140 anos, nem participa de guerras há quase 70 anos, é um dos mais violentos do mundo. O Brasil detém a 7ª maior taxa de homicídios, com 27,4 mortes por 100 mil habitantes, em um ranking de 95 países – acima de 10 por 100 mil, o valor é considerado endêmico.

Enquanto o Índice deDesenvolvimento Humano dos municípios (IDH-M) cresceu 47,5% em vinte anos (1991-2010), as taxas de homicídio cresceram 275,3% em trinta e dois anos (1980-2011). Mas os dados da violência no Brasil, quando comparado com os principais conflitos armados internacionais, são ainda mais assustadores. De 2008 a 2011, o país registrou 206.005 vítimas de homicídios, número bastante superior às 169.579 mortes diretamente relacionadas com os 12 maiores conflitos ocorridos entre 2004 e 2007. E o pior: esse número quase equivale às 208.349 mortes registradas nos 62 conflitos deste mesmo período.

Na década de 1970, o economista Edmar Bacha cunhou o termo “Belíndia” para se referir ao Brasil: uma mistura de leis, impostos e riqueza da Bélgica com a realidade social, imensidão e pobreza da Índia. Esse termo, já defasado, não se aplica à correlação entre desigualdade e insegurança. Considerando apenas estas duas variáveis, o Brasil corresponderia a apenas um país: Belize, com o índice de Gini de 0,531 e a taxa de homicídio de 27,3 por 100 mil habitantes. O curioso é notar que a Índia, além de ser o segundo país mais populoso do mundo, possui 32,7% de seus habitantes vivendo com menos de 1,25 dólares por dia e 68,8% deles com menos de 2 dólares por dia, mas a taxa de homicídio é 3,4, cerca de oito vezes menor que a brasileira.

Conforme levantamento de uma instituição de pesquisa mexicana, em 2012, 15 das 50 cidades mais violentas do globo eram brasileiras (30% delas estão aqui). Não obstante os dados desta pesquisa destoem do Mapa da Violência 2013, dois pontos chamam a atenção. Primeiro, essas 15 cidades brasileiras apresentam Alto ou Muito Alto Desenvolvimento Humano (IDH-M superior a 0,7): Vitória (0,845), Curitiba (0,823) e Brasília (0,824) estão entre as primeiras cidades com melhor IDH-M do Brasil. Segundo, a média do índice de Gini dessas quinze cidades brasileiras é 0,609, equivalente ao índice de Botswana (0,610), o quinto país mais desigual do mundo.

É possível dar um “rolezinho” por estas cidades. De Maceió, primeira cidade brasileira a aparecer e sexta no ranking, a Brasília, última cidade do país e penúltima mais violenta do mundo, saltam aos olhos uma realidade muito contrastante, mas marcada pela insegurança coletiva. A capital alagoana possui 11,9% da população analfabeta, superior à média do Brasil (9,6%) e Curitiba, 42ª cidade do ranking, a menor taxa de analfabetismo (2,1%). São Luís, capital do estado mais pobre do país (37% da população encontra-se nesta situação) e 23ª do ranking, apresenta uma média de rendimento mensal domiciliar per capita, em termos nominais, de R$ 653,00, enquanto Brasília detém o quarto maior valor nesse quesito, com R$ 1.404,00.

Isoladamente, a desigualdade não explica a situação caótica da segurança pública. São Paulo e Rio de Janeiro, por exemplo, com o índice de Gini de 0,6, reduziram suas taxas de homicídio, respectivamente, em 81,3% e 58,4% entre 2001 e 2011. Outros fatores, como a debilidade das estruturas policiais e a dinamização dos polos econômicos do país, também interferem na questão. Mas deixar de considerar a desigualdade no cálculo político-estratégico para solucionar o problema pode ser ainda pior, prosseguindo o processo de deslocamento e interiorização dos homicídios pelo país.

Nunca nos esqueceremos, para retomar a única variação do poema de Drummond, desse acontecimento na vida de nossas retinas tão fatigadas. Variam os locais, ficam as pedrinhas no meio de um caminho mais largo: garantir a segurança de todos os cidadãos brasileiros.


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A impunidade exemplar

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Em um dos estados mais pobre do país, com os piores indicadores sociais, a superlotação dos presídios causa um rebelião que será seguida da barbárie. No dia seguinte, circula pela internet e pelos jornais impressos fotos de homens decapitados, celas cheias de gente, pessoas vivendo fora do que lhe garantam o mínimo de humanidade.

Apenas alguns dias depois, em Campinas, terceira cidade mais populosa do estado mais rico, a polícia invade um dos bairros periféricos da cidade à procura de um suspeito de assassinato de um dos seus agente. Durante a busca, homens não fardados são responsáveis para que mais 12 jovens sejam mortos. Entre todas as vítimas, nenhum deles é o acusado.

Campinas e Maranhão, duas cidades que poderiam ser os exemplos da violência e do desmando policial em nosso país, algo generalizado. Territórios com histórico recente de governos corruptos e da ineficiente do judiciários. Um deles, governado pela tradicional família Sarney, a oligarquia política de sempre. O outro, com recentes desvios milionários da prefeitura, com seu último prefeito no banco dos réus.

São em lugares assim que a “justiça” no Brasil vem à galope, tortuosa e fora da lei. Hoje, somos o Estado democrático campeão do mundo no desrespeito aos Direitos Humanos. Um dos últimos alicerces de nossa cultura totalitária, a ação fora da lei de agentes públicos de segurança ainda preocupa, parece um problema longe de se esgotar.

É exatamente isso que critica o relatório da ONG Human Rights Watch, que aborda a triste realidade brasileira. A organização defende que as prisões ilegais no país, as torturas e os assassinatos cometidos por agentes do Estado colocam o Brasil distante de se tornar uma democracia influente no mundo, a despeito de sua crescente importância econômica.


Essa não é a primeira vez que o Brasil é alvo de criticas desse tipo. Relatórios de organizações internacionais e manchetes vergonhosas em importantes jornais do mundo são bastante comuns, todos estampando a triste situação dos Direitos Humanos no país. Situação essa que causa muito menos inconformismo por esses lados do que no exterior, numa democracia em que não é raro assistir a âncoras de jornais supostamente sérios e de programas policiais defendendo a quebra do Estado de Direito por agentes policiais em rede nacional, e jogando os militantes de Direitos Humanos aos cães da audiência de telespectadores pouco informados, como se isso fosse a representação genuína da justiça.

O forte apoio popular de ações fora da lei cometidas pelo Estado, desde que sejam contra “suspeitos” ou “bandidos”, e nossa forte tradição institucional totalitária garantem a continuidade desse tipo de anomalia. As causas de nossa atual situação são evidentes. Em um país cercado pela impunidade legal, os mais pobres pagam o preço de sofrerem os crimes cometidos pelo Estado e por oportunistas, todos em nome da lei.

Tal situação ainda é legitimada pelo restante da população, os por muitos vezes chamados, como forma de diferenciação, de “cidadãos de bem”. Em grande parte das vezes, em uma visão distorcida do que seria justiça. Não à toa, pesquisas recentes apontam que metade dos brasileiros defendem a tortura e outras medidas que deveriam ser consideradas deploráveis, desde que contra suspeitos de cometerem crimes.

Engana-se quem acredita que o descaso pelos Direitos Humanos seja algo somente construído pela ação das autoridades responsáveis, e não por uma vocação cultural de violência, impregnada na sociedade. Mais enganado está quem acredita que a violência policial é apenas contra criminosos e somente por motivos policiais “honestos”. Basta lembrar do assassinato de um publicitário nas movimentadas ruas de um bairro central de São Paulo, motivadas pela infidelidade da mulher de um dos agentes envolvidos, não faz um ano. Também das fortes suspeitas de envolvimento policial no assassinato recente do funkeiro MC Daleste.

Mas o exemplo mais chocante a respeito de atitudes acima da lei de policiais, fica por conta do assassinato da juíza no Rio de janeiro em 2011, responsável pelo julgamento de diversos casos de corrupção e abusos de autoridade cometidos por membros da polícia militar. Um vergonhoso “cala a boca” em uma das poucas vozes no judiciário que negaram a se calar diante de tal afronta ao Estado de Direito.

Em nosso país, quem luta pelo cumprimento da legalidade democrática também deve ser atingido por argumentos rasteiros de que os “Direitos Humanos visam defender apenas bandidos”, e não a todos, ou pelo menos não aos “de bem”. Ingênuo é quem acredita que as ações policiais não atingem inocentes todos os dias, ou que ao menos não poderiam atingir.

Outros pedem aos defensores dos Direitos Humanos que acusem criminosos pelos seus atos, e não somente o Estado e a polícia. Ora, se os crimes cometidos pelo Estado são exatamente os que preocupam tais organizações! Os crimes comuns, cometidos por indivíduos como eu e você, já contam com um sistema judiciário e policial estabelecido, eficiente ou não, para serem coibidos. Falta boa vontade e inteligência para compreendermos a importância de leis que deveriam ser tão básicas e enraizadas.

O Brasil é de longe um dos países mais violentos do mundo.Não só nos indicadores criminais comuns, mas em casos de violência específicos. É o campeão mundial de quase tudo que envolva ódio, exploração e preconceito. Muitos desses crimes são tratados como “menores” pela população, ainda mais quando cometidos por autoridades. Logicamente, sempre quando são contra os mais pobres. Uma visão estranha de “punição” contra os malfeitores sociais. Para o restante, a impunidade pode prosseguir exemplar. E assim construímos a infância da nossa democracia, em nossas rua periféricas, presídios lotados e estampados em relatórios e notícias vergonhosas mundo afora.


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Rumo a um mundo melhor…

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Trazer à tona o drama vivido diariamente por pessoas em situação de migração ou refúgio nunca é demais. Em 20 de junho, celebra-se o Dia Mundial do Refugiado, estabelecido pelo Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR), em 1951. E, hoje, 19 de janeiro, celebra-se o Dia Mundial dos Migrantes e Refugiados, data instituída pela Igreja em 1914, no momento em que se iniciou a Primeira Grande Guerra.

No centenário da data, e sob o lema “Os migrantes e refugiados: rumo a um mundo melhor”, o Papa Francisco instigou, em seu discurso proferido hoje, a necessidade de esperança e de combate aos “mercadores de carne humana”, que buscam escravizar pessoas em situação de risco.

Trata-se, de fato, de uma situação com dados nem um pouco animadores. Vemos uma colônia de mais de 45 milhões de refugiados e 230 milhões de migrantes nos dias de hoje, especialmente ao considerarmos regiões em meio a conflitos, em que os países vizinhos se tornam os grandes receptores de pessoas que fogem por suas vidas. Afeganistão, Síria, Somália, Sudão e República Democrática do Congo lideram a lista de países de origem dos refugiados de hoje. E os números, infelizmente, parecem apenas aumentar

No nosso próprio país, o total de refugiados no último ano triplicou em relação a 2012, de acordo com informações do Comitê Nacional para Refugiados (CONARE), sendo que quase a metade dos mais de 600 pedidos aceitos pelo governo brasileiro foram oriundos da Síria.

Quando o problema tem raiz política, apenas uma solução política pode saná-lo definitivamente. Os meios humanitários utilizados para lutar contra as dificuldades dos refugiados, essenciais devido à gravidade da situação, veem-se, com frequência, restritos a medidas paliativas, temporárias. Estamos falando de indivíduos cujas vidas foram (e são) diretamente afetadas por conflitos que não são seus. 

“Rumo a um mundo melhor”: a mensagem certamente deve ser de esperança aos que buscam refúgio, mas principalmente de esperança que aqueles que possuem os meios políticos para sanar os conflitos se atentem às suas responsabilidades e avaliem o impacto de suas decisões não apenas em termos financeiros, mas – justamente – em termos humanos. 


Categorias: Assistência Humanitária, Conflitos, Direitos Humanos, Política e Política Externa


Resquícios pós-conflito

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O encerramento de grandes conflitos muitas vezes não representa efetivamente seu final. Os anos que se seguem após os enfrentamentos são decisivos para o processo de reconciliação e recuperação de uma rotina de paz, o trabalho com a memória e a reconstrução – física e mental – dos indivíduos e dos locais que sofreram com a violência de uma guerra.

Contudo, mesmo após muitos anos, bombas e minas antipessoal ainda tornam vivas as lembranças dos horrores passados, vitimando inocentes após gerações e demonstrando a perversidade desse tipo de armamento.

Uma explosão na última sexta-feira levou a uma vítima fatal e oito pessoas feridas na cidade de Euskirchen, no Estado da Renânia do Norte-Vestfália na Alemanha, após uma escavadeira colidir com uma bomba da Segunda Guerra Mundial (foto). As áreas industriais do país ainda revelam incidentes similares com frequência, evidenciando a necessidade de esforço especial do governo para a desativação de bombas.

Apesar de não terem sido registradas vítimas fatais recentemente na Alemanha, milhares de pessoas têm de ser evacuadas a cada nova descoberta. Apenas no ano de 2012, 706 bombas foram desativadas, mais de um terço pesando mais de 50 kg. Em novembro do último ano, uma bomba de impressionantes 1,8 tons (!) foi desativada em Dortmund.

O drama de bombas atiradas à época das Grandes Guerras na Europa (especialmente remanescentes na Alemanha, na França e no Reino Unido) revela tragédia similar àquela das minas antipessoal plantadas em muitos lugares do mundo em situações de conflito. A chamada Convenção de Ottawa proíbe totalmente seu uso desde 1997, em campanha humanitária que revela a importância de que o assunto permaneça em pauta. Com 161 Estados-Parte, o tratado mobiliza a comunidade internacional e supera antigos paradigmas de segurança nacional em prol da desminagem.

Entretanto, ainda recentemente o governo sírio foi acusado de se utilizar do armamento no conflito que persiste no país, o que demonstra que o tema ainda não foi superado e se faz presente nos grandes debates internacionais.

Desafio atual, demonstrando que as consequências dos conflitos permanecem por anos a fio após a celebração da paz – momento importante, mas que não se encerra em si mesmo, em um longo processo histórico para a superação dos últimos resquícios de conflitos na vida dos civis. 


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"No rape"

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“No rape”. Frase curta, mas de impacto gigantesco na Índia e no mundo inteiro. Há um ano, o caso de estupro coletivo de Jyoti Singh Pandey chocou o mundo e mobilizou as indianas na luta contra esse crime tão sério quanto repugnante em qualquer localidade, cultura ou credo.

Jyoti foi a jovem estudante de medicina que sofreu violência sexual por parte de seis homens ao voltar de ônibus do cinema, acompanhada de seu namorado que também foi agredido, mas sobreviveu. Após dias internada, ela não resistiu e tornou-se mais uma vítima dessa prática pavorosa que tem como fim não o prazer, mas apenas a humilhação e a expressão de poder e superioridade.

Em uma sociedade ainda patriarcal e machista como a indiana, infelizmente as vítimas são, muitas vezes, consideradas culpadas pela violência vivida. É a deplorável lógica de que, mesmo ao exercerem seus direitos básicos de “ir e vir” do modo e no horário que lhes convier, vestidas como igualmente lhes convier tal como qualquer cidadão livre, as mulheres “estão pedindo” para serem violentadas. Lógica ilógica que garante a perpetuação de uma cultura de violência em um país com histórico já manchado pelo sangue de tantas vítimas inocentes.

Após a triste história de Jyoti, o número de registros de casos de estupro na Índia aumentou, revelando que a mobilização ampliou a coragem das vítimas em denunciar – trazendo a verdade à tona e contribuindo para um processo de reeducação que deveria envolver a base da sociedade. Processo, entretanto, que se vê em face de um tradicionalismo por vezes extremado que ainda torna as mulheres vulneráveis às mais cruéis práticas no dia-a-dia.

Em termos numéricos, os casos de estupro aumentaram em 70% nos últimos dois anos no país (apesar do endurecimento de leis para crimes sexuais em março deste ano, o qual não foi acompanhado pela celeridade nos tribunais…), enquanto o turismo, notadamente feminino, caiu em aproximados 25% devido à sensação de insegurança generalizada.

Não que a violência sexual seja um problema exclusivo da Índia, pelo contrário. Contudo, casos como o de Jyoti sensibilizam a mídia devido ao grau de violência envolvido e especialmente considerando seu padrão de vida de classe média, mais próximo da cultura ocidental que boa parte dos casos de vítimas indianas.

“No rape”. Que esse seja um dos desejos em nossos anseios por um 2014 mais bonito, menos violento e em memória daquelas(es) que já sofreram qualquer tipo de violência sexual, na Índia ou em qualquer outra parte do mundo. 


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Post Especial: homenagem a Nelson Mandela (1918-2013)

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“Ninguém nasce odiando outra pessoa pela cor de sua pele, por sua origem ou ainda por sua religião. Para odiar, as pessoas precisam aprender, e se podem aprender a odiar, podem ser ensinadas a amar” (Nelson Mandela) 

O dia 05 de dezembro de 2013 entra, a partir de hoje, para a história. Faleceu agora há pouco o primeiro presidente negro da África do Sul, ganhador do Nobel da Paz e símbolo da resistência contra o Apartheid – política de segregação racial adotada no país durante grande parte da segunda metade do século XX –, seja ele um dos maiores ícones pacifistas de nosso tempo: Nelson Mandela, então com 95 anos. 

“Madiba”, como era carinhosamente apelidado, já se encontrava em precárias condições de saúde, tendo sido internado cinco vezes no decorrer dos últimos dois anos. A causa de sua morte adveio de infecção pulmonar. Vai-se uma das maiores personalidades do último século. Um ícone, um idealista feroz na defesa dos direitos humanos. O líder que tentou trazer aos sul-africanos um pouco de paz em meio a regimes segregacionistas e racistas. 

Em decorrência de sua luta ferrenha por maiores direitos da população negra, passou 27 anos da vida aprisionado. Após este período, tornou-se presidente de 1994 a 1999, tendo rejeitado permanecer no cargo mesmo com 80% de aprovação da população. Era simples e humilde: doava um terço do salário para fundação de caridade criada com o dinheiro do Prêmio Nobel da Paz de 1993. 

“A educação é a arma mais poderosa que você pode usar para mudar o mundo”, afirmava Mandela. Nasceu em 1918, formou-se em Direito em Johanesburgo e logo criou uma instituição chamada Liga da Juventude. Em 1958 foi preso acusado de traição, conseguiu escapar, mas anos mais tarde foi condenado à prisão perpétua. Neste período as manifestações ocorriam em peso no país, a exemplo do acontecido no famoso “Levante de Soweto”, episódio em que mais de quinhentos estudantes negros foram mortos em meio a passeatas pacíficas. Foi liberado em 1990, sendo que três anos mais tarde fora decretado o fim do Apartheid. Depois, conforme dito acima, tornou-se presidente e retirou-se da vida pública em 2004. Teve suas últimas aparições públicas durante a Copa do Mundo de 2010 e recentemente quando estava saindo de hospital em Pretória ao lado do atual presidente Jacob Zuma. 

De palavras finais, ficam as do presidente norte-americano Barack Obama, ganhador contestável (e político) do Nobel da Paz em 2009. Segundo ele, Mandela atingiu mais do que seria esperado de qualquer homem e, a partir de hoje, não mais pertence a nós, mas sim às eras. Seria muita pretensão admitir que há possibilidade de haver outros líderes do porte de Mandela. Figura-se ao lado de Gandhi e Luther King, outros inigualáveis. Que ele continue servindo e deixando seu legado no combate a um dos maiores males existentes a nível mundial: a intolerância. Vai-se o homem, permanecem seus ideais.


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