Imagem da Semana

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Reencontro argentino

A imagem da semana foi o emocionante reencontro da presidente da organização argentina “Avós da Praça de Maio”, Estela de Carlotto com seu neto, Guido de Carlotto – filho de pais militantes que foram assassinados durante a ditadura militar (1976-1983). A organização tem como objetivo descobrir o paradeiro de crianças desaparecidas nesse período por meio de um banco de DNA iniciado nos anos 1990 com o objetivo de comparar os dados das avós com possíveis netos que voluntariamente buscam o exame genético no país.

Antes da Copa do Mundo, foi realizado um encontro das Avós com a seleção de futebol argentina, tendo a foto com o jogador Messi (abaixo) motivado Guido a realizar o teste de DNA – ele hoje tem 36 anos e cresceu como Ignácio Hurban, com poucas e vagas informações sobre seus pais biológicos, já desconfiando há algum tempo de sua própria identidade. Seu parentesco com Estela foi, desta forma, confirmado.

Messi

O histórico de militância dos pais falecidos, somado à luta da avó para reconstruir seu passado e reencontrar o neto roubado apresenta um simbolismo ímpar para um país que, como vários na região, viveu um triste e violento período ditatorial. Há décadas buscando virar essa página de sua história, certamente a líder Estela tem sua motivação renovada para seguir na luta em apoio às suas centenas de companheiras na organização para as quais os netos seguem desaparecidos…


Imagem da Semana

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Srebrenica

Anualmente, a Bósnia vive um triste, mas necessário, ritual no mês de julho. Durante o massacre de Srebrenica, ocorrido nesse mês em 1995, as milhares de vítimas muçulmanas (mais de 8 mil) foram enterradas em dezenas de valas comuns nas proximidades da cidade. Desde então, a cada ano, nos esforços de memória do conflito, as vítimas cujos corpos são encontrados e reconhecidos, recebem uma homenagem no memorial de Potocari e são enterradas dignamente.

Esse ano, 19 anos depois do massacre, foram ainda identificadas 175 vítimas do massacre e a cerimônia ocorreu no último dia 11 (foto), revelando os esforços de reconstrução de uma sociedade ferida, que relembra o massacre em respeito às suas vítimas, mas certamente espera nunca mais reviver uma tal experiência…


Como entender?

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É praticamente uma obrigação falar sobre a crise entre Israel e palestinos, mais uma entre muitas, que estourou na última semana. Segundo relatos, em quatro dias mais de 100 palestinos morreram em ataques militares à Faixa de Gaza. Porém, se é fácil encontrar culpados, creio ser bem difícil pensar na questão como um todo de modo racional.

“Como assim Álvaro? Israel está massacrando inocentes”. Sim, isso é inegável. A roupagem de “alvos colaterais” que é dada aos civis nesse caso, em que segundo os agressores vale tudo para acabar com a ameaça existencial (o Hamas), vai encontrar semelhanças históricas com eventos que vão do ataque norte-americano ao Afeganistão à Segunda Guerra Mundial. Mas existe muita paixão nas análises. Podemos chamar Israel de estado terrorista? Por um lado, se pensarmos no dano a alvos civis e no efeito psicológico, sim. Por outro, as vitimas são (até segunda ordem) “efeito colateral”, e por mais abominável que seja, não é terrorismo em si.Nesse caso, chamar de Estado terrorista é, pelo menos em termos práticos, um exagero contraproducente por que apenas inflama a discussão sem chegar a qualquer tipo de consenso.

E eis que chegamos ao pomo da discórdia – quem é o culpado? Afinal, para resolver um problema, a lógica ensina que devemos saber sua raiz, certo? Vejam só como se desenrolou a crise atual: jovens israelenses são sequestrados e encontrados mortos, possivelmente pela ação de militantes palestinos. Em retaliação óbvia um palestino é queimado vivo – e o próprio governo de Israel abomina o crime e prende os culpados. Mas isso não basta – protestos em Gaza levam Israel a agir “preventivamente” e começa o bombardeio, prontamente seguido pela usual retaliação em forma de foguetes vindos de todos os lados da fronteira, de Gaza ao Líbano.

A ação de indivíduos leva a consequências que batem na porta do Estado, que reage da maneira totalmente assimétrica em retaliação. Repare que, a rigor, os culpados não são os governos israelense ou o Hamas em si: uma fatalidade obscura acaba tendo consequências que desencadeiam uma reação sistêmica pior ainda que não tem outra explicação que não seja a completa falta de compreensão e perspectiva de negociação pelas partes, um barril de pólvora que tem o pavio aceso, explode e é preenchido de novo regularmente.

Não se trata de defender os ataques de Israel – isso é inaceitável. Mas é necessário compreender sua situação. Fechar os olhos ao “outro lado” é a principal causa desse conflito horrível. O Hamas simplesmente não ajuda em sua imagem quando pesa um histórico de atentados a populações civis (que, por mais nobre que seja a causa, nunca serão uma forma humanamente aceitável ou civilizada de reivindicação) e a aquisição de modelos mais modernos de mísseis contrabandeados, que supostamente poderiam alcançar centenas de quilômetros de distância. É comum ridicularizar o alcance destrutivo dessas ogivas artesanais, mas para um Estado que leve a segurança de sua população a sério, já é legitimação suficiente.

Israel não é santo, o Hamas tampouco. A solução pregada pela ala mais radical dos dois lados é inviável – Israel não vai deixar de existir, e os palestinos não podem ficar sem seu Estado.  Leituras desse conflito que enxerguem apenas o lado israelense, como uma vítima de terrorismo, e o dos palestinos como injustiçados, unilateralmente, vão ser de uma polarização nociva. Cada lado tem sua parcela de culpa, e não necessariamente iguais – Israel tende a pegar pesado com os assentamentos, possivelmente a questão central disso tudo e por isso na “liderança” das causas, e o efeito de ofensivas como a dessa semana em anos anteriores foi praticamente nulo em termos militares, mas não legitima ações violentas. Ignorar a necessidade de compreender o lado oposto, fruto da radicalização irracional do conflito, é possivelmente a principal causa de sua longevidade.


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Imagem da Semana

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China 2014

A imagem dessa semana é marcante: trata-se do registro do 25º aniversário do massacre da Praça da Paz Celestial, na China. No último dia 04 de junho, milhares de pessoas se reuniram nas ruas de Pequim para exigir liberdade e democracia relembrando as vítimas de repressão (em sua maioria estudantes) durante os protestos de 1989 na Praça da Paz Celestial.

Uma multidão (estimada em 100 mil pelo governo, 180 mil segundo outras fontes) se reuniu nesta data simbólica e fica o registro da imagem impactante dos milhares de pontos luminosos nas ruas, 25 anos depois da consagrada imagem do homem desconhecido enfrentando os tanques de guerra do governo

China 1989


E que vença… o melhor?

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post

Em meio a um conflito armado de proporções alarmantes, eis que estamos diante de eleições presidenciais na Síria. Se a ideia de eleição remete aos preceitos de defesa da democracia, promoção dos direitos humanos e expectativa de mudanças, talvez o processo eleitoral hoje no país pudesse ter outro nome…

Considerada uma farsa pelos opositores do regime atual, bem como por boa parte da comunidade internacional, a eleição que se realizará amanhã na Síria começou, na verdade, na última quarta-feira nas Embaixadas sírias pelo mundo afora.

Pela primeira vez em décadas, há que se reconhecer, o pleito ao mais alto cargo político do país tem mais de um concorrente – porém de acordo com uma polêmica lei eleitoral que aceitou apenas três candidaturas de 24 levadas à Suprema Corte Constitucional. Os restritos critérios de “aptidão” dos candidatos levam apenas dois desconhecidos (Maher al Hajjar e Hasan Nuri) a competir com Bashar al-Assad na disputa presidencial, sob o mesmo discurso de combate ao terrorismo.

Com um saldo assustador estimado em 162.000 mortes, Assad – no poder há 14 anos, herdeiro de um cargo que seu próprio pai ocupou por mais de 30 – deve permanecer como líder do país por mais sete anos, em um processo que parece apenas artificialmente indicar a liberdade de um povo em lutar por mudanças políticas.

Na semana passada, as eleições nas Embaixadas da Síria pelo mundo indicaram importante participação popular, porém com indicativos preocupantes de manipulação, especialmente em meio aos refugiados nos países vizinhos. Nos Estados Unidos, na França e em uma série de outros países, as votações sequer foram permitidas.

Em Brasília, por sua vez, as eleições transcorreram em clima festivo (fotos), reunindo a comunidade síria local com o intuito do voto e da confraternização. Não se pode negar que o fato de que os sírios tenham a possibilidade de votar em três candidatos diferentes (e não apenas responder sim ou não em um plebiscito) por si só não deixa de ser importante.

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Contudo, inocência seria acreditar que os dois novos candidatos possuem iguais possibilidades de vencer uma disputa com aquele que estampa quadros e faixas, reprimindo as forças rebeldes (!), mas tornando cada dia mais complexa a evolução de uma crise regional que se alastra há três anos, ainda sem perspectiva de ser encerrada. Contradições que persistem em um país cujos anseios por paz e democracia contrastam com a dura realidade de uma guerra civil.

Nesta disputa síria, só nos resta esperar que, muito em breve, possamos nos referir a batalhas apenas eleitorais com um candidato vitorioso cuja missão venha a promover a paz e a reconciliação neste mandato que se iniciará.

[ATUALIZAÇÃO: E não houve surpresa na confirmação da vitória de Bashar al-Assad para seu terceiro mandato consecutivo, eleito com 88,7% dos votos (alcançados, não por acaso, apenas nas áreas sob controle do governo…). Sob a alegação de que as eleições foram ilegítimas, a oposição argumenta que a luta contra o regime deve continuar, em um cenário trágico de conflito, disputa política e convulsão social completa.]


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Somos todos humanos

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post racismo

Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e em direitos. Se a Declaração Universal dos Direitos do Homem fosse respeitada por todos aqueles a quem ela se refere, certamente não teríamos tantos casos de racismo sendo noticiados na mídia internacional ainda hoje.

Às vésperas do maior evento do futebol mundial, temos visto uma série de manifestações racistas no esporte, gerando debate sobre um tema que não deveria nem mais entrar na pauta, já que distinção alguma existe (ou deveria existir) entre os seres humanos.

O jogador da seleção brasileira Daniel Alves, ao comer uma banana que lhe foi lançada em campo durante o importante torneio de futebol espanhol, provocou uma polêmica reação liderada por Neymar (a partir de uma ação de uma agência de publicidade, vale registrar) em que o lema “#somostodosmacacos” rapidamente causou grande repercussão nas redes sociais.

O que aconteceu com Daniel Alves não representa um caso isolado no esporte, mas, muito pelo contrário, infelizmente – e não apenas no futebol – casos semelhantes têm acontecido com frequência no Brasil e no mundo inteiro.

Fato é que o esporte tem um poder de mobilização talvez muito maior que qualquer outra área, e que racismo não é uma problemática que se restringe às quadras e campos, mas que ainda aflige especialmente os mais vulneráveis espaços da sociedade. Merece, portanto, ser combatido não apenas com frases em redes sociais, mas também e principalmente por ações no dia-a-dia.

Em situação internacional emblemática essa semana, a ministra francesa da Justiça não cantou o “A Marselhesa”, o tradicional hino da França, em cerimônia de comemoração da abolição da escravidão no país. A polêmica se alastrou devido à frase do refrão do hino em que se entoa “nossa terra do sangue impuro se saciará”, em alusão às lutas contra exércitos estrangeiros…

Independentemente da situação, vemos que a questão racial ainda persiste como uma fonte de rancor, violência e distinções na sociedade. Campanhas publicitárias representam apenas estratégias para uma reflexão que precisa ser intrínseca a todas e a cada uma das pessoas para que a raça deixe de se tornar critério, razão ou fundamento de qualquer ação ou discussão. Acima de tudo, somos todos humanos.


Categorias: Brasil, Direitos Humanos, Mídia, Polêmica


Explicar o inexplicável

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O que significa o rapto de mais de 200 meninas de uma escola na Nigéria? E dizemos rapto no seu sentido verdadeiro, de abdução com fim libidinoso, e não como se diz equivocadamente por aí quando se referem a sequestros.

Provas de que a humanidade não merece o ar que respira existem aos montes no noticiário internacional, mas a notícia dessa semana despertou uma repulsa poucas vezes vista anteriormente. Países com EUA e China, que tecnicamente não têm nada a ver com o assunto (pelo menos, de maneira direta) estão ajudando o governo da Nigéria com informações de inteligência e imagens de satélites. Então existe comoção. É algo inadmissível. Mas o que significa?

Será que representa a opressão feminina em uma sociedade machista? Especialmente na África e na Ásia persistem padrões mais claros de patriarcalismo. Não que isso não aconteça do lado de cá do Atlântico, mas por aquelas bandas a coisa é escancarada. E o anúncio do líder do grupo responsável pelo rapto de que as meninas serão vendidas como esposas para líderes e ricaços nos países vizinhos fortalece essa mensagem. Mas na Nigéria os problemas são mais profundos. Os alvos não são apenas mulheres – há relatos de escolas atacadas, em que todas as vítimas massacradas eram meninos. A opressão de gênero parece ser mais uma consequência de uma estrutura maior.

Seria religião o problema? O tema tem sua cota de responsabilidade pelo sangue derramado no país, mas o radicalismo de grupos como o Boko Haram é rejeitado pela grande maioria dos muçulmanos mundo afora. Não chega a ser representativo de um conflito sectário maior, como o que está rolando na República Centro-Africana.

Será então que o problema é a falência do governo? Notícias do dia mostram haver evidências de que o governo sabia da iminência dos ataques mas não conseguiu de organizar a tempo. E protestos por uma atitude mais eficiente do governo no resgate foram respondidos à maneira dos ditadores truculentos, com a prisão de líderes manifestantes sob a acusação de estarem patrocinando a instabilidade do Estado. E não vamos esquecer da pobreza, que é a fonte de recrutas para esses grupos, bem como possivelmente a fonte da maioria dos males do mundo.

Crianças que buscam educação, para superar a pobreza e as deficiências de um Estado ausente. Grupos radicais que agem à revelia do mesmo e destroem potencialidades em cada uma dessas vítimas. A questão é a busca pela educação, e o problema se constrói como se isso fosse algo errado! O que choca nessa caso é justamente a proximidade da situação. Pode-se contestar o meio como isso é feito, mas os programas de inclusão no Brasil, por exemplo, servem para tentar evitar esse tipo de “erosão” social. Pode ser que nem todos que leem estas linhas estejam em fuga de suas casas, amontoados em caminhões e dividindo espaço com cadáveres como na RCA (onde, por sinal, a coisa está MUITO pior que na Nigéria), mas a maioria conhece a história de alguém esforçado, que trabalha e faz algum curso noturno para ter um diploma técnico para tentar um padrão de vida melhor. É uma situação mais próxima, e por isso ainda mais revoltante que qualquer relato de combates ou mortes. Sem contar o lado da violência e humilhação de gênero, que causa asco na sociedade (ou deveria, haja visto a repercussão daquela famosa pesquisa equivocada do IPEA como vimos há pouco tempo). O rapto dessas meninas na Nigéria tem muito significado, mas principalmente, nos mostra a aparente impotência e incredulidade contra a ignorância que parece ser a única característica verdadeiramente comum no gênero humano, além da violência, seja com raptos na Nigéria, linchamentos no Brasil, ou atirando bananas na Espanha.


Categorias: África, Assistência Humanitária, Direitos Humanos


Fraternidade

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A Argentina e a Venezuela são muito parecidas, e muito diferentes. O continente está no meio de uma turbulência política, e os centros dela são esses dois países, em que um modelo de regime prosperou nos últimos 10 anos e agora não sabe exatamente como lidar com a insatisfação quando as coisas não funcionam. Mas a reação é meio diferente nos dois casos.

Da Venezuela já falamos recentemente. O presidente, Nicolas Maduro, herdeiro do Chávez, enfrenta uma onda de protestos que começaram despretensiosos e agora já chegam a ser contabilizados em mortes. Organizações alertam para a violação de direitos humanos enquanto o governo acusa a oposição de estar sendo financiada por potências imperialistas e de criar discórdia. Mas lembremos que nas eleições do ano passado sua vitória foi apertada, então não é exagero pensar que pelo menos metade do país pode sim estar insatisfeito com os rumos da Venezuela. Disso para derrubar um governo são outros quinhentos, mas não dá pra dizer que seja uma conspiração ou algo do tipo, e a economia vai de mal a pior.

Na Argentina, a coisa também desanda após mais de uma década de “kirchnerismo” e Cristina K., que já anda às turras com imprensa e diversos setores do empresariado,  enfrentou uma greve geral nesta quinta-feira. O impacto é notado até mesmo em outros países – voos para a Argentina estão sendo cancelados por todo o continente. Assim como na Venezuela, existe uma liderança personalista e forte na oposição (o caminhoneiro Hugo Moyano, líder do fortíssimo sindicato de transportadores), e o país está praticamente dividido, com sindicatos peronistas alinhados ao governo (como o dos professores e bancários) não aderindo às paralisações.

O interessante é justamente notar como a reação foi diferente em cada caso, e diz um pouco da própria cultura política de cada país. Na Argentina, cujo governo militar foi possivelmente o mais sanguinário das Américas, o debate político ainda é muito forte e confrontos violentos não costumam ser a tônica das reivindicações. Greves e panelaços são bem seu estilo. Já na Venezuela, que não passa uma década sem alguma tentativa de golpe, a insatisfação escalou muito mais rapidamente para chegar ao confronto, com repressão violenta do governo, prisões aparentemente arbitrárias e mortes anunciadas. Mas a conclusão é a mesma, com os governos não dando o braço a torcer – mesmo na Venezuela, onde está havendo intermediação internacional, o diálogo com a oposição não parece que vá render grande coisa. Na Argentina, Cristina dá de ombros aos grevistas. Ambos continuam acusando a oposição e “forças externas” pelos problemas de dentro. E a vida continua…


Categorias: Américas, Direitos Humanos, Economia, Política e Política Externa


1994, 20 anos depois

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Ruanda
1994, 20 anos depois. Há exatas duas décadas, o horror se iniciava em um país africano, até então, do qual pouco se sabia ou se procurava saber. O pequeno território de Ruanda se tornou palco de um dos maiores massacres da década de 1990 – um genocídio que, em aproximados 100 dias, levou à morte cerca de 800 mil inocentes, marcando tristemente e para sempre a história de um país e do mundo inteiro.

Tentar entender o genocídio de Ruanda em poucas linhas não é tarefa fácil, dada a complexidade histórica de um país cujas marcas da colonização europeia deixaram raízes profundas, influenciando na própria diferenciação étnica entre “hutus” e “tutsis”, origem social e política de toda a violência que seria presenciada anos depois.

A (ainda obscura) queda do avião do presidente Habyarimana, hutu, em 06 de abril de 1994 desencadeou uma situação de instabilidade política e rejeição à minoritária, mas historicamente dominante no poder, etnia tutsi que definiu os traços de um genocídio – sinônimo de extermínio de todo um povo ou grupo étnico – como ainda não se havia (ou nunca se deveria ter) visto no mundo pós-Guerra.

Em linhas gerais, e para além de todo o atentado contra a humanidade que Ruanda vivenciou, fica o registro histórico da incapacidade internacional em (re)agir à situação. Passividade, inoperância, inconsequência… não há conceito que traduza a postura de uma comunidade internacional cujo choque diante das imagens ruandesas provocou talvez muita indignação retórica, mas pouca ação prática em um país onde as Nações Unidas já possuíam o mandato de proteger civis, mas se abstiveram de sua nobre missão, diante de claro desinteresse político na crise.

Sob o lema “Lembrar, unir e renovar”, o Secretário-Geral da ONU, Ban Ki-moon, incitou há semanas o debate sobre as lições aprendidas pós-Ruanda no seio da organização, a qual reconhece ter pouco ou nada feito diante da situação no país. Hoje, no “Dia Internacional para Reflexão do Genocídio de 1994 em Ruanda”, celebrou-se uma memória ainda muito viva, talvez pela experiência de seu próprio presidente, Paul Kagame, cujo envolvimento na morte do presidente Habyarimana ainda é questionado, bem como sua influência na escalada da violência na vizinha República Democrática do Congo, talvez pela ferida que segue contrapondo colônia e colonizadores tanto tempo depois de sua emancipação. Farpas políticas trocadas por Ruanda e França ainda trazem a polêmica “Operação Turquesa” ao centro do debate…

Diante de um país que prospera crescentemente nos indicadores econômicos e sociais, fato é que parece inconcebível constatar que, há vinte anos, se iniciava o massacre de aproximadamente 10 mil (sim, 10 mil!) tutsis e hutus moderados por dia (sim, por dia!) em um horizonte de três infindáveis meses. Cada ser humano sendo muitos, o número total de vítimas ultrapassa qualquer soma. Não há palavras para justificar ou compreender motivação genocida como aquela vivida em Ruanda, semeada por tantos anos, e com consequências tão desumanas.

Fica apenas um sentimento misto de luto, memória e culpa, aliado à necessidade de que tanto sofrimento desabroche finalmente em frutos de paz e convivência fraterna entre indivíduos, povos e sociedades.


Categorias: África, Assistência Humanitária, Direitos Humanos, Organizações Internacionais, Política e Política Externa


Não violentem as brasileiras mulheres de Atenas

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As mulheres de Atenas são exemplos. Vivem, sofrem e despem-se para os seus maridos. Geram seus filhos, temem e secam por eles, orgulho e raça de Atenas. E as mulheres de cá, brasileiras, da canção de Chico Buarque, também são de Atenas. De uma Atenas que os milênios não afastaram da memória, em seus sutis devaneios democráticos. Democracia, sem igualdade de gênero, não é uma democracia plena. É impossível ser igual enquanto a violência persistir, em todas as suas manifestações (estupro, discriminação, etc.).

São elas que, quando amadas, perfumam-se e arrumam-se, e que, quando fustigadas, ajoelham-se, pedem e imploram mais duras penas. Recente pesquisa do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) revelam dados da sociedade ateniense do Brasil: 26% dos entrevistados concordam que uma mulher agredida continua com o parceiro porque gosta de apanhar; 63% concordam que casos de violência dentro de casa devem ser discutidos somente entre os membros da família; 33,9% concordam ser compreensível que um homem que cresceu em uma família violenta agrida sua mulher. Pobres brasileiras mulheres de Atenas!

São elas que esperam seus maridos voltarem aos lares, sedentos, para arrancar delas, violentos, carícias plenas, obscenas. Ou esperam por eles, bêbados, para acariciá-los no fim da noite. Segundo a pesquisa, 27,2% dos entrevistados concordam que a mulher deve satisfazer o marido na cama, mesmo quando não tem vontade. Pior quando as carícias são arrancadas à força por estranhos: 65,1% concordam que mulheres vestidas com roupas que mostram o corpo merecem ser atacadas, e 58,5% acreditam que haveria menos estupro se as mulheres soubessem como se comportar. De vítima, a ateniense mulher brasileira torna-se incitadora; alguns até dirão agressora. A sociedade, coitada, torna-se tão antiga quanto à própria História.

Muda-se a paisagem, permanece o retrato de uma era remota que insiste em não passar, em descompasso com o que ocorre em outros cantos do mundo.

A mulher brasileira é muito mais do que forma. É conteúdo. É mais do que beleza. É ternura. É um samba que ao mesmo tempo é poesia. Poesia que oscila entre a epopeia e o soneto. Uma luta diária pelo pão ou pelo reconhecimento, misturada com a veneração masculina, umas ofensivas, outras não; umas carnais, outras românticas.

É a mesma mulher, o gênero, que acompanhou os soldados nos campos de batalha da maior guerra que este país travou. Aquela que pegou em armas e pela pátria lutou quando os homens caíram. A outra que gritou pela liberdade, pela democracia, pelos seus direitos… E tantas e tantas que coloriram a História do Brasil. Inabaláveis, como o destino; intensas, como o amor. Agora, sujeitas à condenação pelo que vestem, pelas covardes veleidades masculinas e pela sociedade que confiou o esquecimento ao tempo. E, lamentavelmente, condenadas pelo que são: mulheres, afinal.

No mínimo, é contraditória, por exemplo, uma propaganda incentivando o “xaveco” no metrô lotado e a inserção da violência contra a mulher como foco social no âmbito do Programa Nacional de Segurança Pública com Cidadania (PRONASCI), lançado em 2007. Antes de qualquer lei ou atitude governamental, independente da esfera, é preciso uma atitude individual, uma mudança de mentalidade na própria sociedade.

A pesquisa vem em boa hora. Como dizem as vozes nas redes sociais, “ninguém merece ser estuprada”. A violência contra a mulher, em todas as suas formas, sem exceção, é imperativo de uma razão inaudita praticada por idiotas que, à Nelson Rodrigues, perderam a modéstia. Deixem que as mulheres, orgulho e raça do Brasil, vivam no Brasil do século XXI. Atenas passou. Deveria a desigualdade de gêneros também passar.


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