Há um ano...

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Em dezembro de 2011, o blog estava a todo vapor, e não era pra menos. Estava em curso a inédita operação de ocupação do morro do Alemão, e discutíamos a funcionalidade dessa operação militar. Uma postagem bastante crítica discutia, mais do que a presença do exército nas ruas, a própria função dessa Força, e como no Brasil está havendo gradualmente uma “desvirtuação” de sua função original. Por falta de uso ou acomodamento, o fato é que esse é um processo bastante atrativo para os governos estaduais (que se livram do custo de operação policial e em caso de fracasso podem jogar a culpa toda no exército). E isso prossegue, com os exemplos mais famosos, a ocupação do Alemão completando um ano, e a recente da Rocinha a perder de vista. Isso me faz me perguntar: em vez de usar o exército, por que não equipar melhor a polícia? Afinal, a justificativa é que o exército é melhor preparado (em termos de aparato) para essa situação de “combate”, uma vantagem contra os criminosos que geralmente a polícia não consegue ter. Não seria mais barato, por exemplo, em vez de colocar o exército lá, dar tanques para a PM? (E nem me venham dizer que é loucura, a SWAT dos EUA tem…). Piadas à parte, continuamos com as tropas enfrentando bandidos e tapando buraco de estrada em vez de patrulhar a fronteira.

Dias depois, comentávamos a questão da confiança entre os países, com o exemplo do caso (então recente) da Wikileaks, falando de transparência e outros temas relativos à diplomacia. Um ano depois, o que temos? A Wikileaks faliu e seu dono está enjaulado, mas o estrago parece perdurar – mesmo na Europa, onde tudo era perfeito, a crise de confiança faz com que ninguém queira arcar com o peso da integração e salvar a Zona do Euro. Não vamos dizer que a crise européia é culpa da Wikileaks, claro, mas percebe-se que há algo de diferente no ar no ambiente de negociação internacional, e isso mudou no último ano…

Por fim, um último post tratava das possíveis diferenças entre os perfis diplomáticos dos governos Lula (então em seu final) e Dilma (uma grande expectativa). Após um ano, ainda é bem difícil traçar um perfil definitivo sobre o atual governo, mas percebem-se grandes diferenças em alguns temas com relação ao anterior. Me parece que a diplomacia de Lula era bem mais “espetaculosa”, enquanto a de Dilma é mais discreta. Talvez isso se dê por conta do perfil dos ministros da pasta em cada gestão: com Celso Amorim, o Itamaraty era bem mais ativo, em sua busca incessante (e até mesmo obsessiva?) pela vaga no Conselho de Segurança da ONU, enquanto o atual, de Antonio Patriota, é bem mais pragmático e articulador. Ou, nas palavras de um conhecido, Amorim é o cara que atirava pra todos os lados com uma metralhadora, enquanto Patriota parece ser um atirador com um rifle de precisão. Exageros à parte, parece descrever bem a situação… Aliás, é interessante ver como, na atual gestão do Ministério da Defesa, Amorim parece bem mais comedido que em seus tempos de chanceler.

É isso aí pessoal, postando e relembrando.


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Um mundo em lotação: a esperança

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Enfim, chegamos à última postagem sobre os 7 bilhões de habitantes do planeta Terra e suas repercussões. Desde já, é preciso ressaltar que esta discussão não deve ser encerrada aqui, e sim prosseguir entre vocês, leitores, e seus familiares, amigos, namorados(as) e demais conhecidos, com a finalidade de produzir novas e instigantes reflexões. Afinal de contas, este é um tema que interessa a todos nós e nos permite, com muita atenção, prospectar o futuro e delimitar nossas escolhas, a bordo de uma astronave que tentamos pilotar, como canta Toquinho em sua Aquarela.


Acompanhamos, ao longo das postagens que cobriram esta temática, desafios hercúleos, dados intrigantes (alguns revoltantes) e perspectivas de mudança diminutas. Ficamos, sim, desolados. Mas a vida é uma caixinha de surpresas, como diria Joseph Climber, personagem interpretado pela companhia teatral Melhores do Mundo, e o que se deseja, ao fim e ao cabo destas postagens, é transmitir uma mensagem esperança. A humanidade, embora seja uma família estranha, detém amor profundo.

O potencial humano não pode ser subestimado nunca. E, muitas vezes, ele é encontrado nas coisas mais simples. Uma mãe faz o possível e o impossível para sobrevivência de um filho, um filho faz o possível e o impossível para cuidar do pai doente e assim por diante. Vejamos um exemplo. Em uma palestra em 2005, o ex-comandante da Force Commander da MINUSTAH, o General-de-Divisão Augusto Heleno Ribeiro Pereira, exaltou o amor próprio do povo haitiano, pois em se tratando de um país pobre e com freqüente falta de energia, as pessoas sempre andavam bem vestidas, limpas e com as roupas bem arrumadas. Com tantas coisas para se preocuparem, tanta tragédia acontecendo, lá estavam os haitianos valorizando-se e sorrindo.

Nestas sombrias eras de escassez, de duas escassezes mais especificamente, uma que priva o mundo de seus recursos, outra que priva as pessoas de suas ideias, assistiremos a vivificação de muitos Fabiano’s de Vidas Secas, de Graciliano Ramos, e de muitos Severino’s, de João Cabral de Melo Neto. Os primeiros adaptam-se ao meio, os segundos retiram-se do meio. Água, alimentos, energia, entre outros recursos, não duram para a eternidade, e a má gestão deles pela comunidade internacional exacerba problemas, desloca pessoas, alimenta tensões e costura um frágil tecido social, materialmente distinto e culturalmente diversificado. Essas personagens já encontram seus dramas reais, como demonstra o Relatório do Fundo de Populações das Nações Unidas (UNFPA) sobre a situação da população mundial em 2011, e já articulam mudanças, despertam sonhos e sustentam a esperança.

Nossas personagens reais e seus congêneres responderão as escassezes, talvez com protestos que culminem em ciclos de violência, talvez com o diálogo pacífico que termine em processos negociados. Riqueza não é tudo. Uma vida digna que nos permita ser felizes, sim. Para isso, não importa se o país é rico ou pobre, democrático ou autocrático, se as pessoas forem privadas de direitos que lhes são inerentes, elas sairão às ruas e os protestos de 2011 exemplificam bem isso. Por enquanto, as pessoas enrolam-se em suas bandeiras, mas, no futuro, pode ser que se abracem em nome da bandeira da humanidade, independentemente de pátrias e territórios. Outra vez, poderíamos retomar a poesia de Melo Neto, em sua estrofe final: “E não há melhor resposta/que o espetáculo da vida:/vê-la desfiar seu fio,/que também se chama vida,/ver a fábrica que ela mesma,/teimosamente, se fabrica/vê-la brotar como há pouco tempo/em nova vida explodida.”

Por trás de cada número, há uma possibilidade e uma potencialidade. Há uma esperança. É certo que enfrentaremos grandes dificuldades quando uma nova aurora nascer, mas tempos difíceis existem para aperfeiçoar o aprendiz, diria Tom Zé. A incerteza, nas palavras do sociólogo polonês Zygmunt Bauman, é o hábitat natural da espécie humana, e as nossas vidas, quer queiramos ou não, são obras de arte, o que exige estabelecer desafios difíceis de confrontar e escolher alvos e padrões de excelência muito além do nosso alcance. É preciso tentar o impossível. A esperança não é necessariamente a última que morre, e sim a primeira que vive: é o que acreditamos e esperamos que determinam nossas escolhas. E lembremos, para encerrar, uma canção chilena de Violeta Parra, intitulada La esperanza: “Não pode nem o mais extravagante/passar em indiferença/se brilha em nossa consciência/amor pelos semelhantes.”


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Ladrão… que rouba ladrão?

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Enquanto o mundo presta atenção no Oriente Médio e suas agitações, vamos um pouco mais ao sul de lá, mais especificamente no Chifre da África. Já falamos da Somália aqui no blog esse ano. O tema foi, como muitos devem saber (e é o modo que a mídia mais mostra o país africano), a crise de desabastecimento e a fome decorrente. Mas a Somália também anda conseguindo destaque nos jornais com outro assunto, que é o ressurgimento da pirataria em suas águas, rota marítima obrigatória entre Ásia e Europa.

A história é conhecida: pequenos barcos rápidos abordam cargueiros e exigem resgates aos governos. Claro que os países civilizados, nobres e justos, não deixam isso barato e enviam navios de guerra pra protegerem suas frotas mercantes. Afinal, não é como se a OTAN tivesse coisa melhor para fazer. E o tratamento dedicado aos criminosos varia de acordo com o humor e a origem da marinha. Se os piratas têm sorte, podem ser presos por franceses, que dão até comida para os maltrapilhos. Agora, se tiverem o azar de encontrar os russos… (Talvez uma herança truculenta herdada da URSS? É famoso o caso de um navio ucraniano em que africanos clandestinos foram mortos friamente para que a companhia não pagasse uma multa ao chegar na Europa. Virou até filme.)

É claro que a pirataria tem muito a ver com a crise e a fome naquele país. E boa parte da culpa, adivinhem, é de outros países e causada por um fator que quase ninguém conhece por esses lados: a falta de controle do Estado sobre o mar por lá. A equação é simples: barcos pesqueiros de diversas nacionalidades (europeus, chineses, japoneses…) praticam toda sorte de pesca ilegal e irregular nos mares somalis, sem serem incomodados; acabam os cardumes, o principal recurso alimentar do país é esgotado e uma forma de sobrevivência milenar de comunidades pesqueiras é destruída. Com isso, muitos adotam a solução extrema de partir para o crime, e como em qualquer lugar do mundo, o lucro dessa “vida fácil” faz com que grandes “lordes” piratas enriqueçam astronomicamente e mantenham o ciclo funcionando – um negócio tão lucrativo que acabou com as rixas entre clãs, tão comuns na África. Ser pirata virou status e uma ocupação comum por lá. E a coisa ainda fica pior – depois do tsunami de 2004 (aquele que causou estragos cataclísmicos na Ásia) descobriu-se que o mar da Somalia também virou um depósito aberto de lixo nuclear e tóxico. Como se as coisas já não estivessem ruins por lá…

Você pode ver um chocante e breve documentário sobre o tema aqui. E esse é apenas mais um dos casos em que as questões que chegam aos nossos ouvidos não contam a história toda. Pense no que ouvimos sobre esse tema. Fome na Somália? Claro que é resultado de governos ruins e guerra civil, o de sempre na África. Pirataria? Um óbvio crime contra o comércio internacional, uma barbaridade, que deve ser combatida com medidas “extremas” pra não sair do controle. Mas são apenas peças de um quebra-cabeça muito maior, em que seus efeitos são cíclicos e alimentam a miséria e a corrupção, sob vista grossa dos governos ocidentais. Não se pode defender o crime dos piratas, mas ao mesmo tempo é lamentável ver a que situação se chegou naquele país e difícil não sentir pena dos que acabam enveredando por essa vida (claro que não se precisa sair do Brasil pra entender essa lógica… é a globalização da miséria). Nisso quem perde, é claro, é o lado mais fraco, com a Somália sendo roubada, massacrada e, o pior de tudo, ignorada.


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Um mundo em lotação: os Adams vêm aí!

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Já apresentamos a situação do mundo na atualidade e os possíveis desdobramentos críticos para o futuro. Se, por si mesmo, os dados apresentados em outros posts chamam muito a atenção, imaginem quando adicionamos o crescimento populacional. Inevitavelmente, despertamos mais inquietações. Os Adams vêm aí… Pandandandan!

São sete bilhões de pessoas no mundo. Por vezes, uma família estranha, que a surpresa é tamanha, cheia de artimanhas, parecida de outro mundo, mas com amor profundo e sem parar um segundo. Sim, os Adams vêm aí! Este jingle, por certo, é uma representação simples, e muito boa, da humanidade vivendo em um planeta lotado, neste século XXI.

Ora, vejamos, inicialmente, por que o crescimento populacional é surpreendente, embora não destoe inteiramente das estimativas feitas. De acordo com os dados oficiais da Divisão de População do Departamento de Economia e Assuntos Sociais das Nações Unidas: “O rápido crescimento da população mundial é fenômeno recente. Há cerca de 2.000 anos, a população mundial era de cerca de 300 milhões. Foram necessários mais de 1.600 anos para que ela duplicasse para 600 milhões. O rápido crescimento da população mundial teve início em 1950, com reduções de mortalidade nas regiões menos desenvolvidas, o que resultou numa população estimada em 6,1 bilhões no ano de 2000, quase duas vezes e meia a população de 1950. Com o declínio da fecundidade na maior parte do mundo, a taxa de crescimento global da população tem decrescido desde seu pico de 2,0%, observado no quinquênio 1965-1970.”

Se isso já é surpreendente, vejamos os cenários futuros que advêm da chegada dos Adams ao mundo: 1) se a taxa de fecundidade se manter no atual patamar, em torno de 2,5, a população mundial chegará a 15 bilhões de habitantes em 2100; 2) se a taxa de fecundidade decrescer para 2,0, então, haverá 10,1 bilhões de habitantes; 3) se a taxa de fecundidade reduzir drasticamente para 1,6, então, a população mundial poderá diminuir para 6,2 bilhões de habitantes. O cenário mais realista é o segundo, e o terceiro é pouco provável: a diminuição da população só aconteceu em momentos de grandes calamidades, particularmente doenças, como a peste bubônica e a gripe espanhola na Europa. A não ser que o filme Contágio se converta em realidade, a população não deve diminuir, mas seu crescimento pode desacelerar.

O relatório do Fundo de Populações das Nações Unidas (UNFPA) sobre a situação da população mundial em 2011 apresenta considerações muito interessantes acerca do significado desses 7 bilhões de habitantes. Simultaneamente, estamos nos tornando uma população mais velha e mais jovem. Isso é paradoxal, mas é o que ocorre. Nos últimos 60 anos, a expectativa de vida saltou de 48 anos, no início da década de 1950, para 68, na primeira década do novo século, e a mortalidade infantil declinou de 133 óbitos para cada 1000 nascimentos, na década de 1950, para 46 em cada 1000, no período de 2005-2010. Pessoas com menos de 25 anos já compõe cerca de 43% da população mundial e, de acordo com uma reportagem do Valor, já nasceu a geração de pessoas que viverá 150 anos.

As pessoas fazem artimanhas para viver: migram em busca de melhores oportunidades ou se envolvem com atividades ilícitas, fazem a paz ou a guerra, sonham ou morrem. Em meio as suas escolhas, há desafios, choques culturais e, também, possibilidades. Na China, por exemplo, além da “política do filho único”, Shangai, com seus 20 milhões de habitantes, adotou a “política do cachorro único”: um Snoop por família. Alguns lugares estão e estarão lotados, outros, seguem e seguirão no esquecimento, como os rincões da África, nos quais predominam o que o geógrafo brasileiro Milton Santos chamou de “tirania das distâncias”, condenados a exclusão. Na China, também, a tentativa de controle populacional provoca choques culturais: há muitos jovens homens morrendo sem se casar. Isso, para a cultura chinesa, é perigoso, pois a vida espiritual é idêntica a vida terrena, e um homem solteiro pode ser um homem infeliz. Então, tornou-se hábito, e até mesmo um negócio, o casamento entre defuntos, mas a quantidade de mulheres é menor do que a de homens.

Poderíamos, neste post, tratar de questões como: os países em desenvolvimento ou subdesenvolvidos estão crescendo, em termos populacionais, mais rápido que os desenvolvidos, que aqueles ainda não passaram por uma transição demográfica, o problema da mão de obra, entre outras questões. Mas isso acompanhamos diariamente na mídia. O importante, aqui, é tentar pensar na situação em que o mundo se encontra e como essas pessoas, esses Adams que vem aí, vão se inserir nele. Na semana que vem, fecharemos a série sobre o crescimento populacional, com as lições que poderíamos depreender de tudo isso e quais a possibilidades para o futuro.


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Papéis invertidos?

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Deu no jornal: o Brasil está se tornando um pólo de atração de migrantes. Não que não tenha sido no passado recente (no contexto da América do Sul e África), sem contar o passado que moldou a formação étnica variada do país – a imigração é um fenômeno histórico por essas bandas. A questão é que agora, com a crise no Europa, quem está vindo pra são trabalhadores altamente qualificados que vêm suprir deficiências de mercado.

Parece chocante receber gente de países mais ricos, mas não é nenhuma novidade o Brasil acolher gente do primeiro mundo. No passado vinham italianos, alemães, japoneses, mas para trabalhar de modo mais humilde, plantando café, soja e arroz. Agora, quem está vindo vem ocupar cargos importantes na construção civil, ciência e tecnologia e engenharia (como no setor petrolífero, que faz a alegria de holandeses e ingleses). Não deixa de haver a migração mais tradicional, como os refugiados políticos e os que vêm de países mais pobres em busca de melhores condições. A situação levanta duas considerações.

A primeira, é uma constatação surpreendente: segundo dados do Ministério da Justiça (veja aqui), apesar da fama de receptividade do povo brasileiro, o país recebe uma porcentagem de pedidos de asilo humanitário (de gente fugindo de perseguição ou guerras) semelhante ao dos EUA mas tem uma taxa de aceitação muito menor que em países com notórios problemas de aceitação ou contestação de imigrantes, como a Itália. O Brasil deporta muito mais “ilegais” que países europeus, e isso é um mero demonstrativo de como essas políticas de refugiados como um todo estão em xeque no mundo todo – até mesmo aqui… Agora, seria demais imaginar que esses “indesejáveis” estão passando pelo mesmo processo que muitos brasileiros enfrentam/enfrentaram no passado indo para Europa e EUA? Seria exagero pensar que o crescimento econômico está tornando o Brasil internacionalmente “elitizado”?

E isso nos traz ao segundo ponto: a onda de imigração por empregos de alta capacitação, além de expor uma grave deficiência na educação nacional (e não estamos falando apenas de engenheiros e pessoal de Exatas, mas técnicos, e essencialmente a debilidade do ensino médio e fundamental), mostra que o mercado em expansão está sendo obrigado a trazer gente de fora para cumprir funções específicas. É evidente que não vamos nos tornar uma Europa que joga a culpa de muitos problemas econômicos nas costas de ondas de imigração do leste, Ásia e África. Mas, até que ponto esse tipo de situação persistirá, e o Brasil começará a investir de maneira decente para suprir esses nichos com força de trabalho nacional? Não estamos falando que os estrangeiros não tenham direito de trabalhar aqui, se pinta a oportunidade, ótimo para eles. Mas, por que não temos brasileiros nesse tipo de função, que seria facilmente “ocupável” se tivéssemos gente capacitada?

Até quando um país que quer ser “grande” (e já diz há muito tempo por aí que é…) vai passar por uma situação dessas, tendo que importar mão de obra especializada e fechando a porta para quem precisa de asilo? Acho que deve ser um caso único no mundo, e não deixa de ser mais uma das inúmeras contradições (e, pra variar, coisas que se vê apenas por aqui) de nosso país…


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Um mundo em lotação: o que escolher?

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Em seguimento ao post da semana passada, continuemos apresentando um retrato deste mundo em lotação e suas implicações para as relações internacionais. Nestes tempos de escassez, inevitavelmente, teremos que fazer escolhas. Que escolhas faremos? Eis um princípio basilar da economia, as pessoas enfrentam tradeoffs: para conseguirem algo que desejam, precisam abdicar de outra coisa de que gostam. Isso é importante para que elas tomem boas decisões, na medida em que compreendam as opções disponíveis.


Que tal voltarmos à questão dos alimentos? Vejamos este dado: para se produzir 1 kg de carne, são necessários 20.000 litros de água, enquanto que produzir 1 kg de cereal demanda 1.200 litros. Mas é possível aumentar a produção de carne e de cereais indiscriminada e simultaneamente? Comeremos carne ou cereais? E, se decidirmos comer os dois, beberemos água ou tomaremos banho? De acordo com o Relatório de Desenvolvimento Humano de 2006, 1,1 bilhões de pessoas não têm acesso à água potável e 2,8 bilhões não têm as mínimas condições de saneamento; apenas a agricultura responde por 70% do uso da água doce disponível no mundo. Para 2030, estima-se que a demanda por alimentos aumentará em 50% e a demanda por água, em até 40%.

Este cenário ainda se agrava. A escassez dos alimentos e da água enfrenta ainda outros tradeoffs, quando se adiciona as mudanças climáticas e a questão energética. Um estudo realizado em 2006, pela Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação (FAO, na sigla em inglês), verificou que a emissão de gases estufas das atividades pecuárias supera a emissão do sistema de transporte mundial. Gases estufas, como se sabe, geram aquecimento global, e o aumento de um grau Celsius na temperatura do planeta provoca a diminuição de 10% no rendimento da produção de cereais. Nós comeremos menos cereais… E menos carne, a não ser que queiramos viver no Saara e os rebanhos aprendam a fazer fotossíntese.

Então, o que vamos comer? Aí, depende da criatividade. Que tal um grilo? Só não façamos isso na China; lá, os grilos têm sua própria UFC. Mas não desanimemos, já há mais de 1.000 variedades de insetos comestíveis em pelo menos 80% dos países do mundo. Algum dia, talvez peçamos um Mc’ Gafanhoto, com saúvas crocantes. Em 2013, está prevista uma conferência mundial para discutir sobre os insetos comestíveis. Há bandas de rock ou pessoas famosas que adquiriram o hábito de deixar de comer carne um dia por semana. Por falar em China, como sabemos, o consumo de cachorro é uma tradição milenar no país, que, com a ascensão de uma nova classe média, procura-se coibir a prática. O que há de errado em mandar o Snoop para a panela? É preferível um chinesinho roubando cachorro para alimentar o mercado negro?

Vamos para a questão energética. Qual o tradeoff que enfrentaremos? A matriz energética mundial é composta por 85% de hidrocarbonetos. Petróleo polui. Energia nuclear dá problema, não só pelo temor de novos “Japões”, mas porque alguém, de repente, pode acusar outrem de fazer bombas. Isso permitiu um regresso para o passado: continuar gerando energia energética com reatores da época de “Os Trapalhões” e fazer guerras infantis. Escolhas precisarão ser feitas, ainda mais em se tratando de uma demanda energética mundial que se elevará 40% em 2030. Por um lado, a atual matriz causa o aquecimento global, que causa a queda na produção de alimentos, mas, por outro, a busca por fontes alternativas tem suas implicações; por exemplo, há uma previsão de que 5% do transporte rodoviário global será abastecido por biocombustíveis, o que representaria um consumo impreciso, entre 20% e 100%, da quantidade total de água destina à agricultura – a extração de gás natural também demanda o uso altamente intensivo de água.

(Confiram as publicações do Forum Econômico Mundial, particularmente as publicações intituladas “Global Risks“. Vejam também o site da FAO e estes artigos 1 e 2. A maioria dos dados forma extraídos destas fontes.)

É muito simples nós dizermos que a escassez gera conflitos, imigrações, instabilidade, entre outras coisas, mas é preciso ver, nas minúcias, como isso ocorre. O reino da vida e da morte, nas relações internacionais, pertence cada vez mais aos indivíduos e menos aos Estados. Por falta de alimentos, água, energia e pelo calor, as pessoas fenecem antes dos príncipes. Ainda pior, os tradeoffs que já se enfrentam parecem conduzir a uma inevitável Lei de Murphy: tudo dá errado! Qual é a saída? Do que abdicaremos para ter o que queremos? Somos 7 bilhões em ação, 7 bilhões de opções e 7 bilhões de expectativas…


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Um mundo em lotação: entre a escassez e a omissão

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No post de ontem, o Álvaro já destacou um acontecimento histórico: ontem, chegamos a 7 bilhões de habitantes no mundo. Quando Piotr, o bebê russo que nasceu em Kaliningrado, ou quando Enrique Ona, o bebê filipino que nasceu em Manila, chorou pela primeira vez, a marca foi alcançada. Uma hora ou outra, atingiríamos esse número, porém, é preciso uma análise mais detalhada sobre o crescimento populacional e suas repercussões, em médio e longo prazo. (Vejam esta avaliação da OECD).

Recordemos uma historinha narrada pelo renomado economista indiano Amartya Sen, ganhador do Nobel de Economia em 1998. Conta-se que, por volta do século VIII a.C., uma mulher chamada Maitreyee e seu marido, Yajnavalkya, estavam debatendo sobre os caminhos e os modos de se tornarem ricos, e em que medida a riqueza os ajudaria a obter o que desejavam. Maitreyee questiona se a riqueza lhe traria a imortalidade, ao que responde Yajnavalkya: “não”. E replica Maitreyee: “de que me serve isso, se não me torna imortal?”. Esse é ponto central do desenvolvimento humano, um processo expansivo das liberdades fundamentais dos seres humanos e da libertação de todas as formas de privações (pobreza, fome, desemprego, racismo, etc.) que os impedem de viver uma vida digna. É possível conciliar desenvolvimento humano e crescimento populacional?

Fonte: UNPA, Relatório sobre a população mundial 2011.

As pessoas que vêm aí não querem apenas dinheiro; querem comer, vestir-se, votar, amar, enfim, fazer escolhas sem qualquer constrangimento estrutural, para serem felizes, ainda que isso não lhes traga a eternidade. Mas vivemos em tempos difíceis e, a despeito dos excessos malthusianos do século XIX, um dilema é certo: mais habitantes significa menos recursos (água, alimentos, energia, etc.). O século XXI, inevitavelmente, será o século da escassez, e o grande desafio, postulado básico da economia, é como gerenciar os recursos escassos para uma população cada vez mais crescente.

A escassez dos recursos suscita inúmeras e infindáveis discussões. Alguns dizem que o problema dos recursos é o gerenciamento inadequado, outros dizem que eles inevitavelmente se esgotam. Qual a capacidade que temos de responder a isso? (Confiram este artigo da Al Jazeera) Além dos recursos naturais, muitos problemas giram em torno de recursos materiais, que exacerbam a má gestão dos recursos. Vejamos os dados de um estudo do PNUD, liderado por Caroline Thomas: no final dos anos 1990, a estimativa é que o organismo gastava, anualmente, US$ 6 bilhões com a educação básica, US$ 9 bilhões com água e saneamento e US$ 13 bilhões com a saúde básica e reprodução, enquanto os gastos anuais dos Estados Unidos com cosméticos eram de US$ 9 bilhões, da Europa com sorvete eram de US$ 11 bilhões, e os gastos militares globais atingiam US$ 780 bilhões.

Com base nos dados acima, poderíamos dizer que os problemas sociais que se alastram pelo globo são eminentemente um problema político, e não simplesmente de escassez. Falta vontade da comunidade internacional. Não fosse assim, não teríamos 1,2 bilhões de pessoas vivendo com menos de um dólar por dia, número que aumenta para 2,8 bilhões quando se eleva para menos de dois dólares diários e, até mais alarmante, 80% da população mundial vive com menos de dez dólares por dia! Em países como Etiópia, Tanzânia, Burundi, entre outros sete países, praticamente, 100% da população vive nessa última faixa.

É fato que a escassez de recursos naturais é indissociável à escassez de recursos materiais. A fome, por exemplo, tem duas facetas: por um lado, produzem-se alimentos suficientes para a população mundial, mas são mal distribuídos (às vezes, opta-se por alimentar rebanhos a alimentar seres humanos!); por outro, os preços dos alimentos encarecem e tendem a permanecer alto (ver também este artigo do futuro diretor da FAO, o brasileiro José Graziano), talvez até superem o pico que atingiram na década de 1970, à medida que aumenta a demanda (em longo prazo, a tendência é também a diminuição da oferta, o que elevaria ainda mais os preços). Como disse Lester Brown, em artigo na Foreign Policy, um aumento no preço do pão pode fazer um norte-americano comprar menos pão, mas, para um indiano, isso significa fazer uma refeição diária. Atualmente, há 925 milhões de pessoas desnutridas no mundo e cerca de 25.000 morrem de fome, ou de causas relacionadas à fome, por dia (isto representa uma pessoa morta a cada três segundos e meio em 24h).

Para não nos cansarmos com este post, paremos aqui. Façamos uma reflexão sobre o que estes dados representam e retomemos nosso fôlego para prosseguirmos em outra oportunidade, na qual teremos mais números inquietantes.


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A flor da mocidade

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Goza, goza da flor da mocidade,
Que o tempo trota a toda ligeireza,

E imprime em toda a flor sua pisada.

Oh, não aguardes, que a madura idade
Te converta em flor, essa beleza

Em terra, em cinza, em pó, em sombra, em nada.

Eis um trecho do poema “À sua mulher antes de casar”, de Gregório de Matos, considerado o maior poeta barroco do Brasil. Não é por acaso que se escolhe o poema e o estilo artístico barroco para este post, cujo objetivo é tratar dos protestos que se disseminam pelo globo e ganham cada vez mais força. Em todos os cantos, há cidadãos lutando contra o trote do tempo, que imprime sua pisada nos sonhos desabrochados da modicidade, sem deixá-los florescer nos jardins de esperança do futuro.

No século XVII, o estilo barroco surgiu de duas crises: a dos ideias e valores renascentistas, oriunda das lutas religiosas e marcada pela Contra Reforma, e a econômica, decorrente da decadência do comércio com o Oriente. Quando se pára para pensar cuidadosamente, observa-se que também há uma crise de ideias e valores, além da econômica, por trás de todos os protestos que sacodem o mundo. Ambas as crises apresentam características intrínsecas ao pensamento barroco, caracterizado pelo culto ao dualismo, pessimismo diante da vida e literatura moralista (em termos contemporâneos, seriam ‘protestos moralistas e educadores’). Autoritarismo x liberdade, capitalismo x (?), bancos x pessoas, são dilemas que se impõe, expectativas que se frustram e gritos que ecoam nas ruas.

O barroco voltou?

Da Primavera Árabe ao Outono Americano (ou “Ocupem Wall Street”), as pessoas contestam o exercício da tirania, muitas vezes imperceptível, da minoria. Ditadores, governantes, banqueiros, corporações, ou seja lá o que for, por toda parte, alguém é culpado por abusar do poder (político, econômico, cultural, etc.) e condenar milhões a uma vida indigna e sofrível. As ideias e os valores historicamente construídos por essa tirana são colocados em xeque, mesmo sem saber que ideias e valores se possam reinventar. Críticas são feitas aos regimes políticos árabes, outras atingem o sistema capitalista ocidental. O consumo não se traduz mais em felicidade e bem-estar, nem a religião traz alívio. As motivações comuns entre os protestos são o desemprego, a falta de moradia, o dinheiro, a fome, entre outras questões que agravam as condições sociais.

O mundo está se transformando em uma grande ágora contemporânea. Da praça Zuccotti, nos EUA, à praça de Tel Aviv, as pessoas acampam e protestam. Elas dormem e acordam em frente ao Banco Central Europeu, em Frankfurt, pedem a reforma do sistema educacional no Chile, enfim, as pessoas querem voz, demonstram sua insatisfação e querem participar diretamente dos governos, excedendo os meros caprichos eleitorais, manifestados pelo voto. Mas elas assustam. Na Inglaterra, foram tachadas como vândalas, desocupadas, para serem reprimidas, assim como são reprimidas nos países árabes. Volta à tona o príncipe maquiavélico, da época barroca, em que é melhor ser temido do que ser amado. Putin já deu o recado na Rússia.

Até quando esta flor da mocidade adornará os campos de penúria que se espraiam? O que esta pintura barroca do mundo sugere? A despeito da participação popular nos rumos de seus respectivos países, o grande desafio é proposicional. Por enquanto, os protestos são marcados pelo que elas se opõem, e não pelo que propõem, alertando os governos sobre suas práticas excludentes. Goza, goza da flor da mocidade, antes de ser acometida pelos passos abrasivos do tempo.

[Artigos interessantes sobre a temática tratada: 1, 2, 3, 4, 5, 6]


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Um por todos, e todos por um

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Quando Alexandre Dumas escreveu “Os Três Mosqueteiros”, nem imaginava que um dia o lema dos seus heróis poderia ser usado para caracterizar uma barganha de vidas humanas. E muitas vidas. Já ouviram falar em Gilad Shalit? Esse é o nome de um jovem soldado israelense seqüestrado pelo Hamas e cuja libertação foi definida após negociações meio ambíguas com Israel, que vai libertar cerca de 1000 prisioneiros palestinos acusados de crimes relacionados ao terrorismo, incluindo alguns que estavam em prisão perpétua. Todos ficam felizes e a vida continua, certo?

Bom, esse expediente de troca de prisioneiros não é coisa nova – teria começado mesmo na Guerra de Secessão dos EUA. Antigamente, prisioneiros eram simplesmente mortos ou vendidos como escravos. Claro que isso não pegaria bem na pátria da liberdade, e como as prisões chegaram a um ponto de superlotação, os comandantes da União e confederados chegaram à conclusão que o ideal seria simplesmente trocar os prisioneiros de uma maneira justa. Assim, quem fosse capturado podia circular livremente (sob a condição de ser morto sem piedade caso fosse pego com armas na mão) até que os exércitos encontrassem um lugar neutro pra fazerem a troca de figurinhas. E com isso começou uma tradição que hoje é regulamentada pela Convenção de Genebra, que diz que soldados doentes ou incapacitados para o esforço de guerra e que estejam em território inimigo devem ser repatriados.

O problema é que, enquanto os dois lados do conflito são Estados, dá pra seguir essa regra sem muito problema (e mesmo assim nem sempre é garantia de proteção aos prisioneiros, basta ver a II Guerra Mundial…), mas quando o conflito tem um ator não-estatal, especialmente conflitos civis, o que antes era um recurso humanitário passa a ser um elemento de barganha. Ou seja, se torna não uma decorrência natural do combate, mas um meio para atingir o fim específico de libertar prisioneiros, muitas vezes condenados criminalmente. Basta pensar no seqüestro de diplomatas para trocar por prisioneiros políticos na época da ditadura, no caso das FARC, que mantém gente presa há mais de 10 anos no meio do mato para trocar por terroristas presos, ou dos funcionários de empresas de construção capturados no Iraque.

Esse é o problema desse tipo de troca, pois não são prisioneiros de guerra, apenas vítimas de um crime bastante específico. O próprio Gilat não é um prisioneiro de guerra – foi seqüestrado deliberadamente por um túnel na fronteira. E isso traz mais drama pra situação: pode parecer que todos ficam satisfeitos com o resultado, mas no fundo isso só traz problemas em longo prazo. Essa troca do Gilat é particularmente ruim por que abre um precedente: o pessoal do Hamas já ameaça seqüestrar mais soldados israelenses até que consiga a libertação de cerca de 6000 palestinos presos em Israel. Ao mesmo tempo, os conservadores de Israel repreendem o acordo por considerarem “fraqueza”, além de considerarem que o país perde uma importante moeda de troca nas negociações com os palestinos. Familiares de vítimas de ataques condenam a libertação de “terroristas e assassinos” (inclusive entrando na justiça contra esse acordo). E até mesmo há discussão interna entre Hamas e Fatah – esse acordo teria sido uma manobra de Israel pra tirar a atenção da mídia da questão do reconhecimento do Estado palestino, o que é muito provável, dadas as condições “desvantajosas” que Netanyahu acatou.

Entre mortos e feridos, salva-se o pobre Gilat, que (espera-se) volta para sua família. Mas fica a apreensão de tantos outros, em Israel e pelo mundo, que possam vir a passar pelo mesmo com o sucesso da barganha feita com sua vida.


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Outono árabe

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A primavera árabe já virou um outono?

Tivemos um fim de semana sangrento por aqueles lados. No Egito, confrontos entre minorias cristãs e muçulmanos que se seguiram a um grande protesto renderam cerca de 30 mortos. Segundo as autoridades, foram os manifestantes que começaram. Já os manifestantes afirmam que era uma passeata pacífica e que foram atacados por bandos armados e pelo exército. O fato é que o Egito, desde que removeu Mubarak do poder, ainda está enfrentando questões internas graves de segurança, com divisões sectárias que eram controladas pelo antigo ditador, e parece que ainda não consegue decidir que forma seu novo governo vai possuir. O mais provável é que o poder continue nas mãos dos militares (que foram o elemento-chave na derrubada de Mubarak). Por mais que os manifestantes da Praça Tahir quisessem mudanças, democracia não parece ser o resultado disso em curto prazo…

Agora, esse lance de passeatas pacíficas sendo atacadas pelo governo, não parece familiar? Quem soube minimamente do que se passou no Bahrein vai reconhecer essa situação. Naquele pequeno país, manifestantes pacíficos foram violentamente massacrados e perseguidos (inclusive os médicos que tratavam dos feridos), com apoio de tropas sauditas e de outros países do Golfo, e a situação continua até hoje. Isso pode ser visto em um documentário polêmico e chocante que chegou a causar um mal-estar diplomático entre o Bahrein e o Qatar, sede da emissora. (Se tiver algum tempo livre, veja o vídeo completo aqui.)

Podemos imaginar que algo semelhante (ou pior!) acontece na Síria, onde falta de informação torna o número de mortos mais impressionante. Lá, onde milhares de pessoas já morreram nos protestos, agora há o risco de guerra civil iminente – após o governo massacrar civis, é a vez de milícias de oposição enfrentarem tropas do governo diariamente. Parece que, quando a coisa aperta, os revoltosos acabam se radicalizando.

Duas coisas que aprendemos com essa situação de repressão governamental. A primeira, é que os países desenvolvidos estão pouco se importando com a questão democrática dessas revoltas. Na Líbia, houve a intervenção (desastrada, diga-se de passagem) por conta de fatores econômicos sob risco iminente que pesavam para os interesses europeus. Na Síria, por mais que haja retórica contra o “tirano”, interesses sino-russos impedem ações práticas. E as demais revoltas, como no Bahrein, foram ou continuam sendo simplesmente ignoradas.

A outra, é que com a repressão nos protestos em andamento, e o aparente insucesso das que deram certo (Egito, Tunísia, Líbia), a “primavera árabe” parece cada vez mais um evento isolado, algo como fogo de palha. Nosso colega Mário Machado disse certa vez que não gostava de se referir a essa onda de protestos como “primavera” dada a carga negativa de insucessos que esse tipo de predicado teve em revoluções no passado. Pelo jeito, não estava enganado, e pode ser que na prática não passem disso, uma simples onda…


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