Enquanto isso, no Afeganistão…

Por

 

Afeganistao

Enquanto a folia de Carnaval termina no Brasil, um relatório das Nações Unidas revela, em números, uma triste realidade que ainda aflige o Afeganistão. Ocorre que, durante o ano de 2014, foi registrado o mais alto número de civis mortos ou feridos em confrontos no país no comparativo dos últimos cinco anos.

No ano em que as tropas da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) encerraram oficialmente suas atividades no Afeganistão e os Estados Unidos iniciaram a retirada das suas tropas – após mais de uma década passada desde o fatídico 11 de setembro – os números revelam que o desafio da estabilidade persiste no país. [Confira o relatório completo aqui, em inglês.]

Segundo as Nações Unidas, por meio de sua Missão no Afeganistão (UNAMA, na sigla em inglês), o número de vítimas civis foi de 10.548 em 2014, dentre as quais estão registradas 3.699 mortes, 25% a mais que o ano anterior (2013).

Uma das razões apresentadas para justificar a alta cifra são os combates em solo, que envolvem armamento bélico em meio a grandes aglomerações, causando grande número de vítimas civis. Os talibãs são responsabilizados pela maior parte das casualidades, de acordo com o relatório.

A realidade demonstra que o Afeganistão, após tantos anos de intervenção da comunidade internacional (especialmente dos Estados Unidos), ainda vive uma situação de precariedade institucional, com inúmeras dificuldades que se refletem na vida da população civil. Os civis ainda se encontram em situação de extrema vulnerabilidade, em meio a uma fase de transição do país em que as responsabilidades parecem não estar claras, de modo que os maiores prejudicados são aqueles que menos vínculos possuem com as (já históricas) hostilidades políticas afegãs…


Categorias: Conflitos, Direitos Humanos, Organizações Internacionais, Oriente Médio e Mundo Islâmico


A desumanidade nossa de cada dia

Por

Broimp

 

A selvageria das execuções do grupo Estado Islâmico chama a atenção do mundo. Quando decapitações (nenhuma exclusividade deles, a propósito) não eram chocantes o suficiente, a imolação do piloto jordaniano causa comoção e uma reação de países ocidentais clamando pelo confronto ao grupo e da Jordânia executando terroristas convictos prisioneiros (mesmo não tendo, a rigor, nada a ver com o ISIS). É a improdutiva lei de Talião, pura e simples.

Por que isso chocou tanto? Na história da humanidade, se existe uma coisa que o ser humano demonstra saber fazer muito bem é matar uns aos outros. Decapitações são até benevolentes quando comparados a outros métodos de execução, e mesmo queimar gente viva não parece tão cruel. Entre outros, por exemplo, destaco o “necklacing” africano (em que um pneu cheio de óleo é colocado ao redor de uma pessoa e ateado fogo para que queime lentamente), a morte por animais selvagens nas arenas romanas, fervura (com a pessoa mergulhada em óleo ou água fervente e virando um pastel humano), evisceração (arrancar órgãos de pessoas vivas, especialmente o coração), empalação (atravessar com uma estaca de baixo para cima, famosa por conta de um certo Vlad Tepes, o lorde romeno que inspirou o Drácula de Bram Stoker) e, possivelmente o mais aterrador, aquele chamado escafismo, praticado pelos persas (em que uma pessoa é largada em um barco, besuntada em mel e nos próprios dejetos, para que seja devorada por aves, insetos e vermes num suplício que duraria mais de uma semana).

Isso serve para aliviar a barra dos radicais? De modo algum. Mas por que causa tanta indignação? Polícias do mundo todo cometem atos de tortura que, se não causam a morte, são tão dolorosos ou degradantes quanto os mencionados. Prisioneiros em campos de concentração nazistas passaram por horrores indescritíveis antes das câmaras de gás. Pessoas pobres sofrem privações e fome que são uma violência inadmissível no século XXI. O problema em si não é o modo como as execuções ocorrem, mas como são divulgadas. A tortura policial ocorre às escondidas. A tortura nazista é parte dos livros de história e da memória dos sobreviventes (apesar de ser uma das causas para o fortalecimentos dos regimes de Direitos Humanos, inegavelmente). Os miseráveis são “invisíveis” nas periferias e sarjetas. Mas as mortes do ISIS? Circulam pela internet e fazem parte do cotidiano do noticiário. É claro que o ultraje resultante é maior.

Geralmente, a morte como pena serve como punição exemplar. Lembrem da casa do Tiradentes sendo demolida e o terreno salgado, para humilhar sua descendência e mostrar para o resto do povo como seria ruim se revoltar contra a Coroa de novo. As mortes do ISIS seguem esse padrão de mensagem? Aparentemente, nem tanto. “Aceitem nossas condições, libertem nossos colegas, reconheçam nosso califado, senão…”.

Não importa como a morte ocorre – poderia ser um fuzilamento, enforcamento, o que importa é a ideia de haver pessoas sendo mortas como uma moeda de barganha com a comunidade internacional. Em menor escala, é o que ocorre quando países negociam a troca de espiões capturados ou cidadãos presos – mas sem que, geralmente, essas vidas estejam em risco. Mesmo quando são pessoas condenadas à morte, como no recente caso dos brasileiros presos na Indonésia, a causa da pena capital é relacionada ao próprio indivíduo, não sendo uma ameaça a seus Estados de origem. O caso do ISIS é inovador no sentido que praticamente está havendo uma negociação de sequestro internacional com um grupo que almeja se tornar um Estado, quebrando todas as “regras” que os próprios Estados seguem, e que de maneira indireta consegue um pouco de sua intenção justamente pelo reconhecimento recebido e a importância que a questão consegue na política e mídia internacionais. O emprego de métodos não-convencionais e chocantes é apenas uma ferramenta, e não o objetivo da execução em si.

Mortes horríveis, vidas desperdiçadas de todos os lados. Mais que a obtenção de resultados políticos, o caso das execuções do ISIS reforça, uma vez mais, o velho argumento realista de que o ser humano, em geral, não presta mesmo.


Categorias: Ásia e Oceania, Cultura, Direitos Humanos, Mídia, Oriente Médio e Mundo Islâmico, Polêmica


Terrorismo, um rabisco sem graça

Por

charb

O mundo está comovido. Não importa a bandeira, ideologia, religião, convicção. Nem apenas porque o direito à vida é inalienável ou porque a liberdade de expressão foi fatalmente ferida. O atentado contra o jornal satírico “Charlie Hebdo” é uma afronta à genialidade humana, característica transcendental e atemporal, legado para gerações futuras. Entre os mortos, está o lendário cartunista francês Georges Wolinski, que inspirou até mesmo Ziraldo. A violência, sobretudo o terror, como manifestação inequívoca da discordância é a demonstração maior da intolerância e da segregação social – e entre povos. E também fica o alerta: a liberdade expressão, quando violenta – não necessariamente levando à agressão física, pode ser intolerante ou segregadora.

A deterioração da paz, conforme o Global Peace Index 2014, publicação anual do think tank australiano Institute for Economics and Peace, é traço marcante dos últimos oito anos, e o terrorismo é uma das principais motivação. A insegurança tem um impacto econômico expressivo. Em 2013, a violência causou um prejuízo de 9,8 trilhões de dólares, o equivalente a 11,3% do PIB mundial – ou duas vezes o PIB do continente africano. Mas a dimensão humana se sobressai, porque ela é irreparável. No levantamento do Global Terrorism Database, desde o início da incursão norte-americana ao Iraque, o número de mortes decorrentes de atividades terroristas aumentou no mundo todo, de 3.800, em 2002, para aproximadamente 11.000, em 2012 – estima-se que esse número chegue a 17.800, em 2013. Se, em 2002, 28 países eram afetados por essas mortes, em 2013, registrou-se 59 países.

Em um ambiente mais inseguro e menos pacífico, o terrorismo está se convertendo em um fenômeno verdadeiramente global, inclusive no aspecto geográfico, e não apenas político ou psicológico. É preciso, no entanto, cautela analítica. Na década passada, novamente em consonância com o Global Terrorism Database, 80% das fatalidades provocadas por atos terroristas ocorreram contra alvos não ocidentais. No mesmo dia em que dois irmãos abriram fogo contra a sede do “Charlie Hebdo” e mataram 12 pessoas, um carro-bomba explodiu em frente a uma academia de política em Sanaa, no Iêmen, causando 30 mortes. Mortes, a propósito, de muçulmanos. Pouco se noticiou. O Ocidente tem um peso simbólico nos valores que moldam a política mundial, o que reforça seu olhar narcisista: uma vida ocidental vale mais do que uma vida oriental.

É exagerado e falacioso refletir à luz do choque entre civilizações de Samuel Huntington, Ocidente x Oriente, colocando duas culturas – nelas, inserindo-se a ideologia, religião, etc. – em lados opostos e em confronto. Oriental também mata oriental, e vice-versa, por maiores que sejam as afinidades culturais. A percepção, mutuamente excludente e preconceituosa, que reforça a própria identidade em detrimento do outro, só alimenta a proliferação de radicais islâmicos e de islamofóbicos e aumenta a probabilidade de atos terroristas. Por que um ativista de extrema-direita e fundamentalista cristão, como Anders Behring Breivik, é taxado como louco após atentados de Oslo, em 2011, e todo ativista islâmico, ainda que não tenha perpetrado nenhum ato, é supostamente um terrorista?

O terrorismo também é um movimento de ação e reação. Não há como entendê-lo simplesmente pelo repúdio (natural e merecido) a quem comete um ato terrorista. Há um contexto histórico que levou à construção de uma narrativa sangrenta no século XXI. O 11 de setembro foi apenas o começo de uma nova velha saga, com novos atores, dinâmicas e enredos. A guerra global contra o terror e o discurso maniqueísta do então presidente norte-americano George Bush de “quem está conosco x quem está contra nós” disseminaram o sentimento do medo na política mundial e a necessidade empregar todos os meios necessários para contê-lo, mesmo diante de inimigos incertos, difusos e apátridas. De um lado, ocorreu uma confluência automática de posições entre Estados Unidos e alguns de seus aliados, de outro, uma radicalização progressiva das antipatias contra essa atitude do dito Ocidente, que acabou se casando – e ao mesmo tempo se legitimando – com o fundamentalismo islâmico. Uma década depois, todos se perguntam: quem venceu a guerra contra o terror?

Ninguém venceu. Todos perderam. É preciso rever as estratégias regionais e globais de combate ao terrorismo. Especialmente agora, em que pelo menos dois aspectos poderiam ser observados. O primeiro deles é que terroristas, mais do que disseminar o medo, passaram a ter ambições territoriais e constituir um espaço multinacional sob um governo, como é o caso do Estado Islâmico do Iraque e do Levante (EIIL). Segundo, a intensificação dos chamados “lobos solitários”, como o que ocorreu recentemente em Sidnei, em que indivíduos comentem algum ato de terror por vontade própria, ainda que seja justificada por um motivo religioso, e não porque recebeu a instrução específica de um grupo terrorista.

O terrorismo está colocando um rabisco vermelho na política mundial. As pessoas ficam amedrontadas; os governos, eufóricos. Uma resposta ríspida torna-se a necessidade imediata de líderes e da sociedade. A extrema direita francesa já tratou o incidente de anteontem como uma declaração de guerra do islamismo contra a França. É a típica atitude que faz o mundo mergulhar em uma espiral de violência sem fim, sem graça e trágica. Ela espraia a intolerância e o ódio, não a paz e o diálogo. Foi-se o tempo em que os terroristas entendiam apenas a linguagem do dinheiro e da força. Eles também compreendem a política. E sem esta, a força será um desperdício. Para terroristas e vítimas.


Categorias: Conflitos, Cultura, Direitos Humanos, Europa, Paz, Política e Política Externa, Segurança


A injustiça recorrente

Por

Rioting erupts in Ferguson, Missouri after police involved shooting of an unarmed teen

O enredo é conhecido, bem como o desfecho. Periferia de um centro urbano, jovem negro abordado pela polícia, algo sai muito errado. Os policiais atiram contra o suspeito, que acaba morrendo. Na versão oficial, era alguém perigoso, que reagiu e foi alvejado por resistir à voz de prisão. Segundo a família e conhecidos, era uma pessoa de ficha limpa, honesta, que se tornou a mais nova vítima de uma polícia despreparada. A indignação na comunidade explode rapidamente, com protestos nas ruas, pneus queimados para interromper o trânsito e as forças policiais são mais uma vez enviadas para conter a turba. Enquanto parte dos manifestantes aproveita a baderna para promover quebra-quebras, destruir vidraças e saquear lojas, a polícia reprime com violência desproporcional parte das manifestações, o que gera indignação na mídia local e internacional. Quando as coisas parecem esfriar, os policiais envolvidos na morte são absolvidos em júri popular e mais uma vez a tensão cresce, com a população indignada pelo fato de que as acusações parecem distantes da realidade.

Brasil? Poderia muito bem ser uma manchete daqueles programas de fim de tarde, mas é exatamente o que está acontecendo nos Estados Unidos, por conta da morte de Michael Brown, o jovem em questão. Durante a semana, até a Guarda Nacional foi enviada à antes pacata cidade de Ferguson para conter os distúrbios. Se o caso mostra que a truculência e despreparo policial para lidar com multidões, bem como a violência policial injustificada contra inocentes não são exclusividade tupiniquim (na verdade, parece ser a regra para o mundo todo), também serve de alerta para uma realidade de exclusão e preconceito ainda latente em um país que mantinha leis segregacionistas até o século passado.

Mais que o ultraje pela morte do inocente, percebe-se uma campanha de demonização da vitima. Mesmo que não fosse mal-intencionada, a culpa é sempre do que resistiu ou não obedeceu a ordens da lei. Provas e depoimentos inconsistentes, canais de notícias veiculando fatos enganosos ou pouco confiáveis sobre Brown, tudo leva a crer que a criação da imagem de um “vilão” para justificar a força letal é símbolo de um racismo que ainda possui grande apelo, mesmo que inconsciente, naquela sociedade.

Há pouco tempo também causou grande comoção a morte de Trayvon Martin, morto em circunstâncias parecidas. O caso de Brown causa mais comoção pelo fato de que alia ao racismo o elemento da injustiça pelo modo ambíguo com que o julgamento dos acusados está sendo conduzido. Mas nesta semana mesmo temos um novo candidato a caso de comoção nacional, com um elemento ainda maior de tragédia por se tratar de uma criança. Apesar de ser uma situação delicada (o menino estaria com uma réplica de arma de fogo ameaçando pessoas numa praça) um vídeo de segurança que capturou a ação mostra que os policiais atiram segundos após chegarem ao local – enquanto segundo a versão oficial teriam dado voz de prisão e apenas atirado quando o menino (mais uma vez) resistiu. Do modo como esse tipo de evento é retratado, fica difícil saber em que ponto terminam os fatos e começam as desculpas, e até mesmo se o menino efetivamente estava ameaçando as pessoas ou apenas brincando de uma maneira pouco saudável.

Dúvidas à parte, fica a certeza de que continuarão a ocorrer muitos fatos semelhantes pelo mundo afora, com jovens negros e pobres “resistindo” à voz de prisão e terminando estirados em calçadas. Mas aqui fica marcada a grande diferença disso para o Brasil – enquanto por aqui essas mortes são até comemoradas e os protestos ficam limitados à região ou bairro onde ocorreu o assassinato, nos EUA a onda de protestos contra o ultraje policial e legal está se alastrando por diversas cidades e terá um impacto social muito maior.


Categorias: Direitos Humanos, Estados Unidos, Mídia, Polêmica


O Papa é (mais que) pop

Por

Papa

A frase consagrada em 1990 pelo grupo “Engenheiros do Hawaii” parece mais atual que nunca quando se trata do Papa Francisco. Se ser “pop” é sinônimo de atrair a atenção dos demais para seus atos e mobilizar esforços por causas nobres, estando em posição de destaque, o Papa argentino é mais que pop.

266º líder máximo da história da Igreja, o primeiro latino-americano, Francisco assumiu o pontificado em março de 2013 e nesse um ano e meio já mostrou a que veio. Com suas declarações conciliatórias e demonstrações de humildade nos menores gestos (na foto acima, o Papa cumprimenta um integrante da Guarda Suíça), não caberia em apenas um post uma análise completa acerca da importância de seu papel nos dias de hoje, em que lideranças assim são tão caras e raras.

Entretanto, cabe um comentário reflexivo acerca de duas importantes participações do Papa Francisco em fóruns de grande repercussão internacional nos últimos dias.

Na última quinta-feira, discursando para representantes de mais de 170 países durante a Segunda Conferência Internacional sobre Nutrição, realizada na sede da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), o Papa se fez presente em momento importante de concertação política em torno do tema da fome da desnutrição no mundo.

Ressaltando a necessidade de não se tratar alimentos como quaisquer mercadorias, sua fala privilegiou, dentre outros, o argumento de que os tomadores de decisão na área precisam se guiar pela preocupação com o “sujeito real”, aquele que sofre de fato os efeitos da desnutrição (confira seu discurso completo aqui). Ainda hoje 805 milhões de pessoas sofrem de fome crônica no mundo, revelando que o problema é real e precisa de tratamento urgente por parte dos governos (reveja post no blog sobre o tema aqui e o último relatório da FAO aqui).

Em seguimento à sua participação na reunião em Roma, hoje o Papa discursou no Parlamento Europeu, em Estrasburgo, e comparou o continente europeu a uma “avó cansada”, insistindo para que o bloco não se preocupe apenas com questões econômicas. Um discurso forte, digno de nota, em que o Papa demonstra estar disposto, em suas próprias palavras a procurar “uma solução política para as crises em curso” (leia aqui post recente no blog sobre grandes crises pouco noticiadas).

Sua visita ao Parlamento acontece 26 anos depois da visita do Papa João Paulo II no mesmo espaço, em um contexto ainda de Guerra Fria em que a Europa permanecia dividida. Criticando uma Europa hoje “envelhecida”, o Papa reforça a necessidade de que a Europa reassuma seu protagonismo internacional, com ênfase para a questão da imigração, instando o continente a trabalhar para que o mar Mediterrâneo não se torne um “grande cemitério” (leia posts no blog aqui e aqui).

Comentário ainda sobre a necessidade de se manter a “porta aberta” ao diálogo com o Estado Islâmico, apesar das dificuldades no contexto iraquiano. [Lembrando que esse assunto gerou recentemente enorme polêmica em interpretações realizadas sobre o discurso da Presidenta Dilma na abertura da Assembleia-Geral das Nações Unidas, em Nova York…]

Diante dessas situações, vemos um Papa que, mais que pop, se mostra disponível e atuante no cenário global. Líder religioso cuja projeção se estende muito além do mundo católico, o Papa Francisco tem garantido visibilidade às mais diversas causas humanitárias, revelando que os desafios internacionais nos dias de hoje exigem ação coordenada e disposição redobrada…


Categorias: Direitos Humanos, Europa, Mídia, Paz


Ambiente inóspito

Por

999a3f73e5ca1c24600f6a706700c7d5

Quem navega a internet sabe que a Austrália é famosa pela fauna bizarra e letal, inglês com sotaque e gírias indecifráveis e por usarem as cores do Brasil nos esportes apesar de sua bandeira ser azul e vermelha. Nesta semana, o país vem ao noticiário com notícias bem chamativas – e polêmicas.

Primeiro, foi o primeiro país a fechar oficialmente as portas a cidadãos do oeste africano afetados pela epidemia de ebola. A medida, com a intenção de evitar o contágio do vírus no país, é polêmica pois vai contra instruções da própria OMS (Organização Mundial de Saúde) e os fatos – apesar do pânico, o número de pessoas infectadas fora da África não chega a uma dezena. A paranoia deu certo (como mostrou bem o caso suspeito que mobilizou o Brasil há umas duas semanas), e quase todos os países estão tomando medidas preventivas e de isolamento satisfatórias quando há suspeitas. A chance de uma epidemia em outros continentes é remota. E negar vistos é considerada uma atitude grave no cenário internacional – claro que os países podem escolher quem pode ou não entrar, mas na maioria, desde que tenha o visto, a circulação de pessoas é livre. Negar esse direito equivale à privação de um direito universal, e definitivamente não é uma medida que ajuda na luta contra a epidemia, pois significa que o envio de pessoal australiano para ajudar nas áreas afetadas (onde números oficiais contam mais de 5 mil mortos mas estimativas chegam a quatro vezes mais) também fica proibido.

Segundo, o país está endurecendo leis contra terrorismo. Pode parecer uma coisa positiva, mas a exemplo do Ato Patriota de Bush há acusações de ser uma justificativa para ameaçar direitos civis, discriminar indivíduos de religiões específicas e “imunidade civil” para agentes da lei – o que poderia liberar geral, por exemplo, a prática de tortura, à sombra do Estado. Desnecessário dizer que isso revoltou defensores de direitos civis e organizações islâmicas pelo mundo. Isso vem no momento em que a Austrália se junta à coalizão internacional contra o ISIS, e a medida que tem como objetivo “proteger” o país pode ter o efeito oposto, trazendo atenção internacional e ódio daqueles a que se dirige. Basta ver o que aconteceu no Canadá semana passada para entender que não é nada impossível uma ação desta natureza em um país aparentemente pacífico e longe da carnificina do Oriente Médio.

Essas duas notícias mostram um pouco de intransigência – o governo conservador do premiê Tony Abbott mostra claramente que, em momentos de crise, uma guinada conservadora pode ser a medida considerada mais segura pelos governos para preservar sua integridade. Porém, os resultados são os mais adversos possíveis.


Categorias: África, Ásia e Oceania, Direitos Humanos, Organizações Internacionais, Polêmica, Política e Política Externa


Indignação à mexicana

Por

606x340_284884

Existe muita indignação com o grupo Estado Islâmico pelo modo ultrajante pelo qual elimina seus opositores e prisioneiros, degolando pessoas em pleno século XXI. Mas o ultraje deveria ser muito maior quando se pensa que muito mais pessoas sofrem esse destino, ou pior, bem ali no quintal do Tio Sam, por obra dos carteis de narcotraficantes mexicanos.

Desde 2010 temos notícias escabrosas de covas coletivas cheias de pessoas decapitadas, sejam imigrantes ilegais ou pessoas com dívidas do tráfico. Mas parece que foi preciso um novo grau de crueldade para que a indignação internacional finalmente fizesse com que o mundo volte os olhos para a situação do México. Há algumas semanas, estudantes de uma escola rural participavam de um ato em prol de melhorias na educação no estado de Guerrero, e logo veio a repressão policial. Nada de novo, infelizmente, mas o desfecho foi trágico – levados em camburões, 43 estudantes estão desaparecidos até hoje, apesar de dezenas de cemitérios clandestinos e corpos carbonizados terem sido encontrados. A suspeita é de que o governo esteja envolvido com um cartel criminoso e tenha enviado os estudantes para os traficantes realizarem seu trabalho sujo.

A situação do México já era considerada calamitosa há muito tempo do ponto de vista humano – mais de 10 mil mortos na “guerra” contra o narcotráfico desde a década passada. Porém, o aumento da violência escancara uma realidade comum até mesmo ao Brasil – a participação de agentes da lei no crime, mas de maneira muito mais profunda. Denúncias de militares eliminando civis são exemplares não apenas de despreparo das forças de segurança, mas de um governo em que a corrupção e o crime se imiscuem com o Estado.

O que mudou para que esse caso causasse tanta comoção? Talvez o fato de serem apenas estudantes, jovens lutando por seus direitos. Ou o fato de que, estando desaparecidos, ainda haja uma esperança, por menor que seja, da possibilidade de resgate. O fato é que a conivência de setores do Estado para com essa violência está gerando uma onda de protestos pelo mundo, inclusive no Brasil, além de reprimendas oficiais da OEA e da ONU. E claro, apesar da reação do governo federal, inflamou os protestos no próprio México, se espalhando da região para o país todo.

Fora o aspecto humanitário, acima de tudo, este ocorrido deixa uma importante informação sobre os protestos – desde a tal Primavera Árabe de 2011, quase todos os protestos que ocorrem ao redor do mundo estão tendo, em certo grau, uma repressão violenta. Do Bahrein à Ucrânia, de Hong Kong ao México, o desejo de mudança parece não ser compreendido pelos governantes, sob o risco de inadvertidamente fortalecerem o próprio movimento que visam a debelar. Esperamos que seja o caso do que está acontecendo no México.

 


Categorias: Américas, Direitos Humanos, Mídia, Política e Política Externa, Segurança


As boas armas

Por

1412934608861_wps_5_Undated_handout_photo_iss

Demorou, mas com um ano de atraso, Malala Yusafzai, junto do ativista Kailash Satyarthi, ganhou o prêmio Nobel da Paz. A menina paquistanesa que levou um tiro na cabeça por defender a educação para crianças, especialmente meninas, foi agraciada junto ao indiano por seu trabalho contra o trabalho infantil há mais de 20 anos. Já havíamos comentado como essa premiação tem muitas vezes um caráter mais político (como no ano passado, em que Malala era cotada como favorita mas o prêmio foi para a organização de regulação de armas químicas pela atuação com a ONU na crise do momento, na Síria). E quando pensamos que a honraria já foi concedida recentemente a Obama e à União Europeia, cabe aquela reflexão sobre o que anda acontecendo no Oriente Médio – as premiações e os envolvidos podem não parecer mas tem muito em comum.

Malala e Styarthi são defensores de direitos fundamentais. Direitos que tanto Estados agressores como a Síria quanto invasores como os EUA e as forças insurgentes costumam desrespeitar. O caso do ISIS/Estado Islâmico é o mais emblemático – estabelecendo um “califado” nas regiões entre Iraque e Síria, persegue causa a fuga de curdos, cristãos e outras minorias. O desrespeito ao gênero é ainda mais gritante, com casos de casamentos forçados e outros ultrajes.

E chegamos ao segundo ponto – aqueles que ganharam o prêmio antes, como Obama e a UE, são tanto causa do problema como aprofundadores do mesmo. Ninguém pode negar que a ação desastrada dos EUA na última década forneceu o espaço inédito para que esses grupos se desenvolvessem na terra sem lei pós-Saddam Hussein. E hoje, com campanhas de ataques de drones, bombardeios cirúrgicos e intervenções “limpas” que deixam o trabalho sujo nas mãos ensanguentadas dos locais, reforçam a tese de que a preocupação não é resolver o problema, mas mostrar que estão fazendo algo. Novamente, as intervenções militares (pra não dizer invasões) a Iraque e Afeganistão comprovaram que apenas o componente militar não é suficiente para resolver questões de governança e estabilidade. Tampouco com a entrada de empreiteiras texanas.

É necessário educação, condições de moradia, oportunidades somadas à ajuda humanitária. E isso os países ocidentais não se sentem dispostos a fazer. Nunca estiveram – vejam o caso da crise de ebola na África, em que foi necessária a explosão da epidemia e infecção de pessoas na Europa e nos EUA para que ajuda mais maciça fosse enviada. O discurso soa eleitoreiro (especialmente no mês atual para nós), mas em sua simplicidade, como ao informar que a melhor arma contra o terrorismo é a educação, Malala e Satyarthi demonstram ser campeões entre os gigantes da política internacional e que compreendem com muito mais profundidade os problemas tão simples mas de solução tão complexa.


Categorias: Conflitos, Direitos Humanos, Estados Unidos, Europa, Oriente Médio e Mundo Islâmico, Paz


O Estado da Insegurança Alimentar no Mundo

Por

Fome no mundo

Que a fome é um dos mais graves problemas sociais no mundo ninguém desconhece, mas não deixa de ser assustadora a estimativa de que, ainda nos dias de hoje, uma em cada nove pessoas no planeta sofre de fome crônica, totalizando aproximadamente 805 milhões de indivíduos em tal situação.

O dado foi divulgado essa semana com o lançamento do relatório “O Estado da Insegurança Alimentar no Mundo” (SOFI 2014, na sigla em inglês), por parte da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), em conjunto com o Programa Mundial de Alimentos (PMA) e o Fundo Internacional para o Desenvolvimento Agrícola (FIDA).

As agências romanas, que lidam mais diretamente com o tema da alimentação no sistema das Nações Unidas, publicizaram as últimas tendências no que se refere ao combate à insegurança alimentar e nutricional. Apesar de os números ainda demonstrarem que grandes esforços internacionais ainda são necessários na luta contra a fome, as perspectivas não deixam de ser positivas.

Na última década, cerca de 100 milhões de pessoas deixaram de passar fome, em um percentual mundial que baixou de 18,7% para 11,3%, segundo os dados do relatório. Nos países em desenvolvimento, a diminuição é ainda mais expressiva, caindo de 23,4% para 13,5%. Lembrando que a redução pela metade da fome no mundo se enquadra no primeiro dos “Objetivos do Milênio” até 2015, meta já alcançada por 65 países em desenvolvimento no mundo, dentre os quais se encontra o Brasil.

O estudo do caso brasileiro demonstra que os esforços empreendidos notadamente a partir do Programa “Fome Zero” têm garantido bons resultados e uma redução de 75% da pobreza extrema no país entre 2001 e 2012. Entretanto, dadas as proporções continentais de nosso país, o número de pessoas que permanece em situação de fome ainda é representativo: cerca de 16 milhões de pessoas (8,4% da população brasileira) – o que representa, por exemplo, o total de habitantes de Portugal e Finlândia somados…

O problema da fome tem solução, isto é fato. Engano é apenas pensar que se trata simplesmente de uma questão de doação de alimentos – pelo contrário, a fome representa um problema complexo que requer ações múltiplas e coordenadas em seu combate. O acesso aos alimentos deve ser viabilizado em consonância com o acesso à terra, a serviços públicos de qualidade, à tecnologia, etc. – um esforço integrado que viabilize a consecução do direito humano à alimentação adequada para a totalidade dos cidadãos do planeta.

[No site da FAO podem ser encontradas maiores informações sobre o tema: http://www.fao.org/publications/sofi/en/]


Categorias: Brasil, Direitos Humanos, Organizações Internacionais


100 anos depois: Visões da Guerra

Por

 

Réconciliation

[Franz Marc, Réconciliation, 1912]

Sobre reconciliação e transformação

Uma guerra pode ser analisada sob diferentes perspectivas. Os principais aspectos políticos, econômicos e estratégicos tendo sido apresentados em textos anteriores da série “100 anos depois: Visões da Guerra” (confiram aqui), a reflexão de hoje se concentra nos aspectos de reconciliação e transformação do conflito.

Em uma linha temporal, pode-se avaliar que qualquer conflito passa por diferentes momentos: prevenção (antes), gestão de danos (durante), e resolução e transformação (depois). Isto significa que, quando os mecanismos pacíficos de negociação e diálogo se esgotam, têm início confrontações diretas que levam ao sofrimento de todos, mas especialmente da parte que se mostra mais frágil durante os confrontos. Fatores que impactaram diretamente no pós-Primeira Guerra foram: a duração do conflito, sua quantidade de vítimas, o poder de destruição vislumbrado e as perdas provocadas por um confronto sem precedentes.

Um legado importante para esse processo, protagonizado por parte do Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV), foi a evolução no tratamento dos prisioneiros durante a guerra. Antes, no decorrer de um conflito, dificilmente poderia ser esclarecido se os soldados dados como desaparecidos tinham efetivamente morrido durante os combates ou se encontravam em poder do inimigo. Destaca-se a importância da “Agência Internacional de Prisioneiros de Guerra” no árduo processo de reestabelecimento de laços familiares entre aqueles milhares de prisioneiros que, protegidos pelo direito internacional humanitário, não mais podem constituir alvo ou “moeda de troca” durante o conflito, e suas famílias. Os esforços neste sentido culminaram na Convenção relativa aos Prisioneiros de Guerra de 1929 (arcabouço utilizado durante a Segunda Grande Guerra) que baseou a própria III Convenção de Genebra de 1949. Garantir, reciprocamente, a dignidade de tratamento dos combatentes em poder do inimigo por si só constitui um argumento importante para criar as bases futuras de reconciliação pós-conflito.

A resolução do conflito, no momento em que as partes chegam a um acordo de cessar-fogo, constitui momento essencial para o fim das hostilidades, porém representa apenas o primeiro passo de um longo caminho de transformação que deve ser percorrido pelos beligerantes para uma paz duradoura.

Conceitos como memória, perdão, verdade e justiça se enquadram no dito momento de transformação, talvez o mais complexo e demorado a ser alcançado. Entender a paz não somente como ausência de guerra (a chamada “paz negativa”), mas principalmente como construção de um ideal comum de convivência destaca-se como elemento crucial no processo de reconciliação.

Com a Conferência de Paz de Paris, em 1919, foi ainda constituída a Liga das Nações (ou Sociedade das Nações), organismo internacional multilateral destinado à meta de manutenção da paz que se desenhou no pós-Guerra, porém diante de um contexto geopolítico de grandes diferenças e desconfianças, pautado pela visão dos “vitoriosos” que logo veria uma nova ascensão de regimes totalitários. O “esboço” da estrutura da atual Organização das Nações Unidas (ONU) apresentou ideais importantes, apesar de suas dificuldades de concretização na prática, e lançou as bases para o debate sobre responsabilidades coletivas em prol da reconciliação e da paz.

Uma Europa pacificada não seria, contudo, realidade duradoura após o final da Primeira Grande Guerra, que só foi “primeira” porque não foi única, tendo sido seguida, poucos anos depois, por mais um confronto de dimensões mundiais.

Charge Plantu

[Tradução: 1) Membro de milícia vingando a morte de seu cunhado em 1917; 2) Soldado vingando o estupro de sua prima em 1944; 3) Bebê pensando em vingar seu pai em 2023.]

A construção de uma memória coletiva em que a vingança não figura como atitude prioritária leva gerações, tal como a charge acima ilustra. Se a guerra oficialmente se encerrou em 1918, certamente na prática levaria décadas para desaparecer do imaginário popular – tempo não respeitado pela subsequente consecução da Segunda Grande Guerra.

Relembrar o ocorrido, com o grande objetivo de não reproduzir atos nefastos como aqueles perpetrados há 100 anos, constitui parte do processo de transformação ainda vivido pelo continente europeu e pelo mundo inteiro. A imagem abaixo retrata o projeto comum de paz, união e democracia por meio de um abraço carregado de simbolismo e impensável há exatamente um século.

Abraço

Os presidentes da França e da Alemanha, Francois Hollande e Joachim Gauck, respectivamente, estiveram na última semana em Hartmannswillerkopf, na Alsácia, em um monumento que marca os cem anos da declaração de guerra da Alemanha à França, local onde estão as cinzas de aproximadamente 12 mil soldados desconhecidos, cujas vidas se perderam durante os anos de conflito.

Nas palavras do general norte-americano William T. Sherman, “somente aqueles que nunca deram um tiro, nem ouviram os gritos e os gemidos dos feridos, é que clamam por sangue, vingança e mais desolação. A guerra é o inferno”. Se as consequências da guerra são dolorosas, tal como as da Primeira Guerra o foram, construir coletivamente os meios para superá-las se faz mais do que necessário. Deve-se potencializar, portanto, uma reconciliação não apenas baseada em imposições, mas principalmente na transformação de mentalidades de modo a que não mais se enxergue a guerra como uma opção e tampouco o outro como inimigo.


Categorias: Direitos Humanos, Europa, Post Especial, Primeira Guerra Mundial