De onde vem o perigo?

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A fofoca da vez no noticiário internacional é a venda de submarinos nucleares da Alemanha para Israel. O que está rendendo não é a venda em si, parte de um projeto de cooperação bilateral antigo, mas sim o fato de que os submarinos estariam equipados com um sistema de lançamento de mísseis balísticos. E caso Israel possua armas nucleares (sabe como é…aliás, o acordo dá a entender que a Alemanha já reconhece o programa nuclear de Israel desde os anos 70), poderiam ser equipados e lançados quase que imediatamente. Sombrio, não? 

O submarino é uma das armas mais aterrorizantes que um país pode possuir. Mesmo que não possua armas nucleares, é uma arma com potencial ofensivo muito acentuado. Já se foi o tempo em que aviões Catalina podiam despejar cargas de profundidade e afundar submarinos na superfície – um nuclear pode ficar literalmente meses embaixo d’água. Mas, pra dizer a verdade, a maioria deles não tem ogivas nucleares – são na maioria submarinos “caçadores”, feitos pra ir atrás justamente dos que têm mísseis. 

Uma arma defensiva então? Esse é o argumento da marinha brasileira, por exemplo, quando fala da compra dos submarinos nucleares franceses e da construção do nosso próprio: a ideia é defender o pré-sal e a costa brasileira (já não era sem tempo, aliás, sendo o Brasil um dos países com maior faixa litorânea do mundo). E acredito que a intenção é essa mesmo, mas digam isso pro resto dos países sul-americanos, que vão ter um vizinho com porta-aviões e um monte de submarinos nucleares podendo xeretar suas águas sem ser importunados. Amigos, amigos, submarinos à parte. 

É aí que mora o problema quando pensamos no caso de Israel. O caos recente do Oriente Médio pressiona demais Israel, como já estamos cansados de dizer por aqui no blog, e uma ação armada contra o Irã está cogitada faz tempo. A primeira coisa que a criança faz quando ganha um brinquedo novo é usar até enjoar. Eles têm armas nucleares, agora vão ter o vetor mais eficiente pra elas, e não é uma questão de “se”, mas de quando, eles vão começar o jogo de dissuasão contra o Irã. Claro que, por outro lado, a estratégia de Israel foi a de sempre esconder e negar a posse dessas armas, então seria um contra-senso fazer isso agora… Ou seria essa a oportunidade que esperavam? 

E o que os vizinhos vão pensar disso? Quando falamos de percepção de ameaças, aquela região é o lugar do mundo em que ninguém confia genuinamente em ninguém. Aliás, e o Irã? Uma das razões que alegam pra querer desenvolver um programa nuclear é o fato de Israel ter o seu próprio. Com esse tipo de arma, qual o reflexo nas negociações com Teerã? Boa coisa não vai sair disso. 

A ironia de tudo é que o tal do acordo com a Alemanha previa a instalação de uma usina de tratamento de água (paga pelos alemães…) e a redução dos assentamentos em Gaza, o que seria um passo incrível para resolver a questão com os palestinos, mas nenhuma coisa ocorreu. E pra completar o resumo da ópera, a Alemanha está vendendo o mesmo tipo de submarino pro Paquistão. Que tem armas nucleares. E não reconhece Israel.


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Liberdade privada

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Nesta semana, está prevista a libertação de um jornalista francês pelas Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia. Parece uma boa notícia, mas se formos pensar que há coisa de dois meses a FARC havia prometido acabar com o expediente de seqüestros, vemos que nem tudo são flores. Parece que a cada passo dado para a frente nas negociações com o governo da Colômbia, as FARC dão dois para trás. Mesmo por que uma das condições para que possa haver negociações é que a guerrilha cesse com as ações violentas, e nas últimas semanas o que ocorreu foi o contrário, com ataques letais a soldados em regiões rurais. 

Vamos pensar apenas na questão dos seqüestros. Não se enganem, isso é uma prática antiga, um procedimento comum ao longo da história, tomar reféns e exigir algo em troca por sua segurança. Mas, até que ponto isso seria legítimo? Numa guerra, podemos fazer trocas de prisioneiros – algo até justo. Mas, e quando os civis são envolvidos? Ou quando o seqüestro ocorre em um contexto fora da guerra? Boa parte dos conflitos de guerrilha dos séculos XX e XXI empregam esse artifício para obter fundos, ou algum recurso estratégico (ganhar tempo, barganhar, essas coisas), e em algum momento envolvem civis que não têm nada a ver com o processo da guerra em si. E não estamos falando apenas de guerrilhas – pensem em Estados, como os sequestros de sul-coreanos, levados para o norte na guerra da Coreia. Nesse ponto, uma forma de “resistência” se torna mero banditismo. Cria-se uma “indústria” do seqüestro, como aconteceu no Iraque após a queda do Saddam Hussein. E quando pensamos que as FARC estão enroladas até o pescoço com o narcotráfico, ou nos atentados a bomba, fica difícil tentar simpatizar com os “lutadores da liberdade” que procedem desse jeito. 

A meu ver, todo seqüestro é um crime. Por mais que se tente justificar ou atenuar, trata-se de envolver alguém que não tem nada a ver com um conflito em sua dinâmica; caso haja algum envolvimento, é um método covarde. Não defendo governos opressores, mas repressão violenta não justifica violência como resposta. Basta lembrar que o seqüestro priva o individuo de seu direito mais primordial, o da liberdade, abaixo apenas do direito à vida – que muitas vezes também é violado no cárcere, e nada pode justificar isso. E voltamos ao ponto inicial – retomando essa prática, as FARC apenas renovam o ciclo de violência e perdem legitimidade. Comparem com o ETA, por exemplo, que ainda não se desmantelou, mas cumpre um cessar-fogo permanente e que possibilita um diálogo real e definitivo para o conflito na Espanha. Ainda vamos levar muitos anos pra ver a situação na Colômbia estabilizada, e se continuar assim, vai ser por meio de um remédio amargo.


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Mais do mesmo?

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Depois de quinze meses sem negociações, Irã e as grandes potências voltaram a negociar no mês passado e mais acirradamente nessa semana novamente. Tempo suficiente para que os Estados Unidos e a União Europeia ampliassem as sanções econômicas sobre o país pegando no calcanhar de Aquiles iraniano: o petróleo. Quando parecia que finalmente as potências tinham adquirido aquela moeda de troca que precisavam para os  bons resultados nas negociações, veio a nova rodada de conversas para mostrar que, em se tratando de questões geopolítico-estratégicas, nada é tão simples assim. 

Após uma semana de muito trabalho para o negociador-chefe do Irã para a questão nuclear, Saeed Jalili, somente os próximos meses indicarão o resultado que todas essas negociações levarão, já que vimos uma semana de “vai e volta” nas conversas. Logo no início da semana, a AIEA já tratava dos bons resultados que estava adquirindo nas suas negociações com Irã. O inédito acordo entre a organização e o governo dos aiatolás tem tudo para sair e, supostamente, ampliar o grau de confiança do país perante a comunidade internacional. Uma reunião mal acabou, e ele já estava em Bagdá negociando com a boyband das potências, também conhecida como P5+1. Se o acordo com AIEA trouxe bastantes expectativas positivas para a negociação, bastou começar o encontro para se ver que os quinze meses sem conversas não facilitaram tanto as coisas. 

O embate prossegue com os mesmos argumentos que se tinha durante as últimas conversas. O Irã reitera seu direito natural ao programa nuclear e o condomínio das potências exige que o país retorne seu enriquecimento aos níveis seguros de 5%. Já dissemos em outras oportunidades que sanções não são a via capaz de resolver contenciosos como esses. Todavia, não dá pra dizer que o excesso de medidas contra o Irã não têm surtido efeitos políticos catastróficos para a sociedade (sem também que haja efeitos para a economia mundial). O país está com alguns problemas para a exportação de petróleo, a aviação iraniana não é capaz de obter peças (tornando-a uma das mais perigosas do mundo), além de outros severos efeitos para a economia do país. Essa situação aliada ao risco de um potencial conflito Israel-Irã parece estar forçando o Irã e as potências de volta à mesa de negociações. 

A proposta do P5+1 segue a mesma forma daquele acordo construído com o Brasil e a Turquia que foi rejeitado em 2010. O Irã receberia o urânio já enriquecido para usar em suas instalações. Só que desta vez não seria um país em desenvolvimento com aspirações de grandeza, mas as grandes potências que conduziriam o processo. Já o governo iraniano mantém sua posição de continuar seu programa nuclear, mas ofereceria, em troca de reduções das sanções (clique aqui para conferir as principais sanções contra o país persa), maiores inspeções da AIEA. Resultado, negociações postergadas até junho, nenhum acordo

O cenário é complexo e o retorno das negociações em detrimento de simplesmente ampliar sanções (algo que os EUA fizeram no mesmo dia que a AIEA apontou que havia avanços nas conversas com o Irã) é uma via sempre profícua. As sanções têm surtido efeito sob a economia iraniana, mas não sem receios para a economia mundial. Não temos, entretanto, nada de novo ou nenhuma posição que já não se tinha há quinze meses. Enquanto as tensões geopolíticas entre os vizinhos no Oriente Médio aumentam, as conversas continuam no mesmo pé que sempre estiveram, os Estados Unidos inflexíveis e exigindo flexibilidade do Irã. Ao final das contas foi uma semana de “vai e volta”. Avanços com a AIEA e quase de volta à estaca zero com o P5+1.


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Consequências transitórias?

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No Oriente Médio, enquanto a Síria lidera o ranking da contagem de corpos, o Iêmen está batendo um recorde nada invejável no dia de hoje, com um dos piores atentados desde que começaram os protestos no ano passado pelo região. Um homem-bomba explodiu em um ensaio para uma parada militar e até o momento já se confirmam mais de 60 mortes de uma só tacada, podendo aumentar esse número. 

O Iêmen é um caso bem interessante da região, por que foi um dos países em que houve repressão mais violenta, mas ao mesmo tempo a transição foi bastante pacífica. Foi o jeitinho que o ex-governante, Abdullha Saleh, deu para manter gente de confiança no poder, saindo por meio de um acordo mediado pelo Conselho de Cooperação do Golfo e deixando seu apadrinhado, Mansour Hadi. Ele assumiu em fevereiro e tenta se desvincular do governo anterior a todo custo (o que era de se esperar), mas persiste o rancor da população – as tropas que participariam do desfile eram da turma de simpatizantes de Saleh, o que já indica suspeitas do motivo. 

Porém, uma das jogadas de Hadi é se aproximar do Ocidente, e é aqui que entra o segundo fator dessa conta. O Iêmen é um país que tem muita atenção dos EUA. Isso por que o país foi por muito tempo um porto seguro para a Al Quaeda no Oriente Médio, onde aliciavam os locais e traziam gente de fora pra ser treinada, e de onde saíram muitos terroristas para a Europa e os EUA. Até que os EUA começaram a brincar de aeromodelismo e mandar drones para atacar bases da Al Quaeda (o que rendeu um burburinho ano passado). A presença da Al Quaeda era tolerada por Saleh, mas agora Hadi está mais inclinado a ficar do lado dos EUA, e esse atentado teria sido uma retaliação do grupo contra ataques do exército contra militantes islâmicos.  

Como se vê, a realidade por trás dos ataques não é tão simples quanto parece. Uma soma curiosa de fatores resultou nos ataques, indo além da chamada “primavera árabe”, mas não sendo explicado apenas pela presença dos EUA. Também mostra como o período após as tão desejadas transições pode não ser tão pacífico quanto o esperado, indicando como esse tipo de conjuntura pode afetar os demais países da região que estejam enfrentando instabilidade.


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Mãos atadas

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Outra semana estava comentando sobre como o conflito entre o Sudão e seu homônimo do Sul pode vir a ser uma das guerras atuais. Infelizmente, um pouco mais pra cima, não temos mais o que esperar, já temos uma guerra civil em curso. A esperança para a solução dos conflitos na Síria é cada vez menor, e já tem quem diga que vá ser o novo Líbano dos anos 80. Há algumas semanas, estávamos comemorando o envio de observadores da ONU, como uma das poucas chances de fazer funcionar um plano de paz. O problema é que, como se esperava, a presença dos observadores não deu em nada (e eles foram até alvo de atentados e tudo mais), e os ataques pioraram, de ambos os lados. As forças de segurança e os rebeldes fazem tocaias e emboscam uns aos outros, com a população civil no meio. Chegou-se praticamente a um ponto sem retorno, em que a pressão internacional não renderá nada e o ódio acumulado entre os grupos étnicos-religiosos vai explodir, sendo quase impossível evitar o massacre. 

O problema, talvez, seja que o foco esteja sendo dado muito para a questão de Assad. Afinal, a culpa dos massacres é dele, por ter mandado o exército pra cima dos manifestantes, ao longo do último ano. O problema é que pouco importa se ele esteja ou não no poder – a questão lá está saindo cada vez mais do cunho político e indo para aquele terreno perigoso da etnia e religião. Os manifestantes queriam melhorias e direitos políticos. Agora, querem a cabeça daqueles que os atacaram, o governante que representa uma minoria opressora. Aí que mora o problema. Assad é membro dos alauitas, um grupo étnico minoritário, e que tem apoio dos cristãos (em maioria ortodoxos), também minoria. Vale lembrar que a “maioria”, na Síria, é sunita (então nada de culpar os xiitas). Se Assad permanecer no poder, os conflitos vão continuar pela mera presença dele e a raiva que os grupos insurgentes acumularam ao longo do ano. Se ele sair, vivo ou morto, aí amigo, é que a coisa vai ficar feia, e vamos ter que nos reacostumar àqueles noticiários macabros dos anos 90 da antiga Iugoslávia ou das guerras civis na África. Quando a razão dá lugar à emoção da vingança na guerra, o resultado é o massacre, e já há relatos de gente sendo queimada viva, entre outras coisas. A tendência é que a coisa piore, e não temos mais razão (que não sejam picuinhas metodológicas ou teóricas) pra não dizer que a Síria vive uma guerra civil das piores. 

Como evitar isso? O plano de cessar-fogo da ONU é um fracasso total. Uma saída (a única viável “de fora”, e provavelmente a mais eficaz) seria cortar o financiamento e a venda de armas para os dois lados. Mas é praticamente impossível evitar que a Rússia abra mão de seu cliente fiel (e de sua base naval lá…). Claro que ninguém é santo – se a Rússia vende armas pro Assad, os EUA e outros países estavam contrabandeando pros insurgentes… Então, infelizmente, cortar o mal pela raiz está fora de questão. Uma invasão também, como os EUA descobriram no Líbano nos anos 80. Invadir um dado país com todo seu poder pra derrubar um regime “hostil” é uma coisa, mas mexer em uma briga de navalha entre grupos dispostos a tudo, isso já é algo totalmente diferente, por que limita muito as opções de ataque e operações – além de potencializar o envolvimento de vizinhos e o transbordamento do conflito (apesar de ser algo praticamente inevitável). 

Parece que a única solução possível é a pior, deixar a coisa rolar. Assim, se espera que os lados se esgotem, ou que um deles seja completamente exterminado, e os sobreviventes se acomodem, com a formação de bolsões de refugiados. Ou até mesmo, num caso extremo, a fragmentação do país, como na Iguslávia. O prognóstico é tenebroso, mas quando se trata do processo de manifestação mais violento das últimas décadas, não é de surpreender que o único desfecho que se vislumbre seja o mais pessimista.


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E no Sudão – de novo…

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A tradição das postagens de segunda-feira é comentar sobre eleições, e podíamos discorrer bastante sobre o Sarkozy escondendo seu relógio e seu provável fracasso no segundo turno francês. Mas, como o mundo não pára, estamos com uma crise bastante grave acontecendo em outra parte do mundo. E não são os coreanos do sul e do norte exibindo mais e mais foguetes uns pros outros e se jurando de morte, mas a possibilidade de um conflito entre Estados bastante real. 

Nas últimas semanas, o Sudão e o Sudão do Sul trocaram farpas. O pomo da discórdia é uma região petrolífera na fronteira, Heglig, que está sob disputa: é do Sudão, mas o Sudão do Sul clama ter a posse. O resultado foi uma invasão meio malfadada, que rendeu um monte de bombardeios, a morte de mais de 1200 soldados e a retirada estratégica das tropas do sul. Não houve declaração formal de guerra, mas está se encaminhando pra começar o primeiro conflito entre Estados diferentes na África desde o final da década de 90 – e, salvo engano, um dos poucos dessa natureza que vai estar acontecendo no mundo. 

O grande problema não é a região de Heglig isoladamente – essa situação parece ter sido contornada, apesar do morticínio, já que os EUA e a ONU chegaram para fazer aquela pressão e pedir pro pessoal ir à mesa de negociação. Mesmo a China, que manda e desmanda por aqueles lados, não tem nada a ganhar com um conflito desses. O problema é o resto da fronteira. Ainda há inúmeros campos petrolíferos e cidades que podem virar objeto de disputa, e a possibilidade de um conflito generalizado (que, muito provavelmente pode se espalhar pra países vizinhos, seja pela participação direta – mandando tropas – seja indireta – recebendo refugiados, por exemplo) é muito grande. 

Temos um país criado recentemente, com um governo instável, e que está com o brio ferido por essa derrota. Por outro, um país que sofreu uma fratura territorial enorme, grande instabilidade interna, que corre o risco de perder áreas economicamente importantes, e com um histórico nada pacífico. Ao contrário das Coreias, que estão no discurso ainda, os Sudões já foram às vias de fato, e a possibilidade de conflito não é apenas enorme, como apenas uma questão de tempo para que ocorra de fato, infelizmente. Se as negociações vingarem e a coisa esfriar, vai ser uma surpresa muito grata. 

É triste ver como um caso bonito como o do Sudão do Sul (criado por referendo, uma autêntica demonstração de autodeterminação de um povo), que trazia tantas esperanças para resolver uma das crises humanitárias mais terríveis da história, esteja descambando para a guerra. Onde foi o erro, na delimitação das fronteiras? Era tão inevitável assim a possibilidade de conflito? Ou seria a mera presença do “excremento do diabo”, o petróleo, que a tudo corrompe? A esperança é a última que morre, mas no Sudão ela parece amordaçada.


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Quem tiver olhos, veja

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Chega de notícias ruins sobre a Síria! Não que seja necessariamente boa, ou que vá mudar muita coisa do que está ocorrendo por lá, mas na semana passada foi assinado um cessar-fogo entre governo e oposição. Claro que o governo continua reprimindo os manifestantes e matando gente a rodo, mas pelo menos é um passo inicial pro plano de paz negociado por Koffi Anan. Além disso, o Conselho de Segurança finalmente baixou uma resolução aprovando o envio de observadores pra região. Isso depois de muito tempo amaciando China e Rússia, mas poderemos finalmente ter gente checando os abusos e violações dos direitos humanos enquanto não podem fazer nada. Mas, já é um começo. 

Qual vai ser o papel desses observadores? Manter contato com as duas partes, verificar e denunciar abusos, além de preparar a chegada de grupos maiores depois dessa experiência inicial. A ideia, como em todo grupo de observadores enviado, é “constranger” as partes com a presença de gente de fora, evitando que cometam “excessos”. É como receber convidados num jantar – você não faz nada (ou ao menos tenta…) que possa render comentários maldosos que possam se espalhar pela vizinahça. E fica complicado quando o resultado desses comentários pode se tornar o envio de uma missão de paz da ONU ou coisa que o valha. Basicamente, é esse o poder desse tipo de missão. Porém, de certo modo, ainda é um modelo eficaz, afinal permite que se chegue a uma negociação mediada. Isso é importante em um país tomado por uma colcha de retalhos étnicos e religiosos como a Síria, em que existem divisões na própria oposição e caso haja a ascensão ao poder de um desses grupos minoritários, uma provável saída de Assad do poder apenas modificaria o nome do governante mas persistiria o conflito. 

Nem vamos entrar no terreno desastroso que seria uma solução pela via armada, como podemos ver no Afeganistão ou na Líbia. Esse é um momento crítico para esse conflito. A possibilidade de negociação é pequena, mas se vingar, pode ser a solução mais satisfatória para essa crise.


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Uma festa do barulho

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O rojão de São João vem mais cedo na Coréia do Norte. Semana que vem eles comemorarão o centenário do nascimento de Kim Il-sung, o pai do falecido Jong-Il e que governou o país de 1948 a 1994. Para isso, nada melhor que fogos de artifício, incluindo um foguete levando um satélite de observação a ser lançado muito provavelmente na data do aniversário. O Japão e os EUA querem participar da festa e trazem os seus próprios mísseis, esperando para derrubar o brinquedo coreano caso eles inventem de mudar a rota do espaço para o chão – especialmente se for solo japonês ou sul-coreano. 

É um caso muito curioso, e até meio complicado de avaliar. Por um lado, desde que Kim Jong-um ascendeu ao poder, parece que a Coréia do Norte tem agido de modo a evitar problemas e meio que aliviar a pressão sobre os vizinhos, inclusive com a promessa de encerrar seu programa nuclear (em troca de comida!). Além disso, por acordo internacional todos os países têm direito a um programa espacial pacífico, e ao que parece, segundo especialistas, é esse o caso. 

Por outro lado, se há duas coisas que andam de mãos dadas são foguetes e mísseis. Basta lembrar que um dos homens que tornou a ida à Lua possível, Wernher von Braun, antes de ser trazido pro lado de cá do Atlântico, fez também os mísseis V-2 que os nazistas lançavam sobre a Inglaterra (antes disso, o máximo que os EUA tinham em matéria de foguete eram os que Robert Goddard lançava no quintal de sua casa). Não adianta reclamar, é a mesmíssima tecnologia, e os EUA e Japão afirmam de pé junto que esse lançamento é um teste balístico disfarçado, o que violaria resoluções do Conselho de Segurança e a promessa de suspender o programa nuclear. Por fim, é complicado medir as intenções de um país com um nacionalismo inflamado (ainda mais por conta da data), que tem armas nucleares e um exército regular menor apenas que os da China, EUA e Índia. O menor erro de cálculo pode causar uma queda acidental (ou não…) e causar uma catástrofe diplomática naquela região. 

 Esse lançamento é uma óbvia provocação, mas até que ponto a paranóia do “teste disfarçado” tem validade? Após tantos avanços (e parecer que o impasse do programa nuclear tem solução, e que a própria Coréia do Norte dá sinais disso), eles vão mesmo dar esse passo pra trás? Duvido. A mensagem de Pyongyang parece ser a de que “temos a tecnologia, então não pisem na bola”. Mas, quando falamos do regime mais fechado do mundo, tudo é possível, então vamos ver o resultado da festa do próximo fim de semana…


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China in (and out of the) box!

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Como será o mundo em 2030? A China desejará expandir seu domínio somente na Ásia ou em todo o mundo? Os Estados Unidos ficarão imunes a isso? Qual a probabilidade de haver uma mudança na balança de poder mundial? Haverá uma transição de poder rumo à China ou o Sistema Internacional continuará imutável? São estas e outras questões que, há anos, estão sendo respondidas com relativo sucesso. Mas a dúvida ainda permanece… 

De duas, uma: a ordem internacional sofrerá grande transformação ou continuará sendo a mesma. Não há meio termo! A China prosseguirá com seu crescimento econômico e suas reformas internas até alcançar o patamar dos EUA, isso já é um fato consumado. Entretanto, e depois? E quando falamos em gastos militares e segurança internacional? Como sustentar uma “dupla hegemonia” nas relações internacionais? O mundo tem espaço para dois gigantes novamente? O segundo gigante vermelho, levando-se em consideração que a União Soviética foi o primeiro, está lidando com um novo tipo de status quo jamais presenciado por outra potência em ascensão no mundo. 

Para facilitar o debate, e como vocês, leitores, já estão familiarizados com as perspectivas neorealista e neoliberal tratadas no blog na seção “Conversando com a Teoria”, há dois possíveis campos de análise quando se fala na forte promoção internacional chinesa e, consequentemente, nas transições de poder mundiais. A perspectiva realista de John Mearsheimer pontua como será o choque de lideranças entre EUA e China. Por outro lado, a visão institucionalista (e, em partes, liberal) de John Ikenberry analisa as possibilidades de continuidade da balança de poder que tomou forma na última década do século XX, logo após a Queda do Muro de Berlim em 1989 e o fim da União Soviética em 1991. 

Sendo assim, o primeiro cenário será a total mudança do ordenamento internacional, havendo forte desavença entre os chineses e os norte-americanos para ver qual potência seria a única grande hegemonia mundial. Para Mearsheimer, o futuro não será tão bom, pois logo que a China tiver uma economia maior que a dos EUA, concentrará seus esforços em gastos militares. Maior destaque, ainda, reside na sua seguinte afirmação: o comportamento chinês será semelhante àquele da União Soviética durante o período bipolar. Desta forma, o país asiático não conseguiria sustentar seu crescimento de forma pacífica por muitos anos e teria potencial bélico para competir com os norte-americanos. A dominação começaria na Ásia e depois se expandiria para o resto dos continentes. É a perspectiva da guerra direta. 

Contrariamente, o segundo cenário consistirá na manutenção do atual ordenamento internacional, no qual haverá a continuidade do poderio dos países ocidentais juntamente com o adendo dos interesses chineses. Para Ikenberry, a política norte-americana e dos seus aliados durante a Guerra Fria e na década de 1990 alterou as dinâmicas da alternância de poder na ordem mundial e isso terá impacto direto no papel da China enquanto potência em ascensão. Levando-se em consideração as capacidades econômicas e militares dos países da OCDE (Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico – composta, majoritariamente, por países do Ocidente, com destaque para os EUA e os europeus), os chineses não terão condições de fazer frente a este montante; sendo assim, se acomodarão e integrarão a atual ordem internacional. Como os EUA fortaleceram a institucionalização do sistema, mudá-lo seria bastante custoso e difícil. É a perspectiva da continuidade e da cooperação. 

Mas a dúvida ainda permanece… conforme foi afirmado no primeiro parágrafo do presente texto. Em termos econômicos, as previsões são mais factíveis e corretas, todavia, quando se fala em questões de segurança, torna-se mais complicado afirmar, com absoluta certeza, como será o mundo daqui vinte ou trinta anos. A China já está aumentando sua influência na Ásia e vem fomentando seu papel enquanto “hegemonia regional”. Resta saber se ela ficará somente “in the box”, ou seja, no próprio continente, ou “out of the box”, expandindo seus ideais ao restante do mundo.


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Conselho pra uma região turblenta…

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E no Oriente Médio, as coisas estão fervendo com a crise da Síria, e agora com a briga de Israel com o Conselho de Direitos Humanos da ONU. Só pra explicar, na semana passada o Conselho votou pela condenação da construção de assentamentos na Cisjordânia e Jerusalém ocidental, além do envio de uma equipe para investigar. Claro que o governo de Israel se sentiu ultrajado pela condenação e pela parcialidade do Conselho, e hoje rompeu com a organização, terminando qualquer cooperação que mantivesse e causando aquele estardalhaço de sempre. 

É interessante reparar nesse argumento da parcialidade. Todos sabem que ninguém é santo nessa história, e das 91 resoluções do órgão, 39 foram relativas a Israel, certamente não sem motivo. Mas quando reclamam do órgão ser tendencioso não podemos esquecer do ranço que esse órgão carrega. Isso por que herda uma “herança maldita” do antigo Comitê de Direitos Humanos da ONU (extinto em 2006 e substituído pelo atual Conselho), que já acolheu coisas bizarras como ser presidido pela Líbia. 

 O fato é que, no sistema ONU, a distribuição de cargos e vagas nas organizações meio que obedece a padrões de poder informais que premiam países mais “populares” ou influentes. É assim que notórios violadores de direitos humanos latino-americanos e africanos conseguiram ocupar cadeiras no órgão que velava pela defesa desses mesmos direitos, empacando as coisas. Além disso prevalece uma seletividade de temas, predominando aspectos políticos em vez de técnicos nas discussões e decisões. O caso de Israel é grave? Sim. Mas não deixa de transparecer um certo grau de interesse pela pressão política contra EUA (único que votou contra, diga-se de passagem) e Israel ao escolherem esse tema, enquanto crises mais graves como da Somália ou do Sudão estão aí. 

 Por outro lado, o Conselho é mais atuante que o finado Comitê, e está participando ativamente, por exemplo, do caso sírio. Mas como tudo que vem da ONU, é um órgão sem muito poder de agir pra valer, e no fim das contas, o rompimento não é tão grave assim em um terreno em que impera a retórica e a politicagem em vez da ação concreta. A maioria dos países que se abstiveram da votação justificaram que as investigações seriam apenas repetições de outros mecanismos e não mudariam nada na prática. Segue assim o mal-estar no cenário internacional, o crescente isolamento de Israel, e o drama dos que sofrem nesse jogo de atritos, de ambos os lados.


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