Tensões no Golfo

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É sempre interessante pensar sobre o Oriente Médio. Ultimamente muito se comenta sobre a Primavera Árabe e os supostos contornos democráticos que este processo impõe na região. Seja no norte da África, na Crescente Fértil ou no Golfo Pérsico, aos países árabes se juntam Israel e Irã, os quais, mesmo não sendo árabes propriamente ditos, também trazem sempre novos horizontes para a geopolítica local.

Por um lado, o conflito israelo-palestino é sabido por todos. E, de outro, a oposição iraniana aos Estados Unidos, bem como seus anseios nucleares na figura do então presidente Mahmoud Ahmadinejad, ilustram as principais capas de jornais e revistas nas seções internacionais. Todavia, existe uma questão de longa data não tão conhecida e divulgada pelas mídias: a balança de poder existente entre este mesmo Irã e a Arábia Saudita nos entornos do Golfo.

Além da Liga Árabe, existe outro bloco de países denominado Conselho de Cooperação do Golfo, sendo composto por Arábia Saudita, Bahrein, Emirados Árabes Unidos (EAU), Kuwait, Omã e Qatar. Como o próprio nome nos diz, tais países situam-se justamente na região do Golfo, a qual é de grande interesse dos iranianos. No último mês de Novembro o país fez manobras navais com o intuito de reforçar sua presença sobre três pequenas ilhas que disputa com os emirados.

Mais recentemente, o Irã foi acusado de interferir em assuntos internos dos países do Conselho, causando uma nova onda de comunicados entre autoridades, mais uma vez dizendo que nada passou de um mal-entendido. O que se sabe é que as manobras continuarão. Navios, submarinos e sistemas de mísseis de defesa serão testados num futuro bem próximo.

É uma questão majoritariamente geopolítica e estratégica por dois fatores bastante simples de serem entendidos. Primeiro, o Golfo é um mar interior que serve como rota marítima e saída principal para o Mar Arábico. Segundo, concentra algumas das principais zonas de exploração de petróleo a nível mundial. Assim, nada mais justificável para se confirmar esta rivalidade que perdura há anos. 

Com exceção do gigante saudita, todos os outros países do Conselho são pequenos. Por conseguinte, Arábia Saudita acaba por ser um rival do Irã em nível de igualdade. Isso se reflete nas relações entre a Liga Árabe e o Conselho em si. Não podemos esquecer que existem diferenças culturais, religiosas e socioeconômicas milenares. Todavia, sendo um tanto quanto realista, a disputa pelo poder permanecerá e os iranianos sentem-se com todos os direitos de fazê-la.


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A ocasião faz a violência

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[Texto do colaborador Giovanni Okado]

A velha sabedoria machadiana já pregava que a ocasião não faz o ladrão. Ela faz o furto; o ladrão nasce feito. Não obstante o exagero do determinismo histórico, esse provérbio é aplicável à violência e suas causas no Brasil: a ocasião faz a violência; as causas nascem feitas. 

Se, em suas relações exteriores, o Brasil é um país pacífico,internamente, o cenário é violento. E muito! Entre 2004 e 2007, nos 62 conflitos armados existentes, morreram 208.349 pessoas; nesse mesmo período, no país, livre de disputas territoriais, movimentos emancipatórios, guerras civis, entre outros enfrentamentos, morreram 192.804 pessoas vítimas de homicídio. Não é por acaso que 62,4% da população brasileira tem muito medo de assassinato e 23,2% dela tem um pouco de medo.

Em se tratando da violência homicida, os dados impressionam e demonstram mudanças nem sempre perceptíveis. O senso comum é colocado à prova. De 2003 a 2010, o crescimento das taxas de homicídio foi negativo (- 1,4% aa). Mesmo que elas tenham se estagnado, o índice é elevado e preocupante: são 26,2 homicídios em 100 mil habitantes, acima dos 10, valor que já é considerado uma epidemia. E, pior, essa violência homicida exibe novos padrões. 

Hoje, os homicídios não se concentram nos principais estados e nas grandes cidades. Há uma década, Alagoas, Pará e Bahia ocupavam, respectivamente, o 11º, 21º e 23º lugar no ranking nacional das taxas de homicídio e passaram a ocupar, agora, o 1º, 3º e 7º lugar. São Paulo e Rio de Janeiro, no mesmo período, tiveram uma redução acentuada, respectivamente, de 63,2% e 42,9%, deixando a 4ª e 2ª posição para ocupar a 25ª e 17ª. Nesses dez anos, também, o interior, e não as capitais e regiões metropolitanas (RM), impulsionou o crescimento dos homicídios: o Brasil, como um todo, passou de 45.360 para 49.932 homicídios; as capitais e as RM, de 32.339 para 28.797; e o interior, de 13.021 para 21.135.

Os dados demonstram a ocorrência de dois processos simultâneos: a disseminação e a interiorização da violência. Nas décadas anteriores, os homicídios acompanharam o dinamismo econômico dos principais estados e metrópoles. Ao final do século XX, com a reestruturação da produção industrial brasileira, deslocando-se para outros estados e para o interior, houve a migração dos polos dinâmicos da violência. E, infelizmente, essas áreas apresentavam estruturas precárias ou incipientes de segurança, sem experiência histórica, que impediram o combate eficiente do problema. 

Que lições ficam? Primeiro, é preciso ponderar sobre a violência. A chamada “onda de violência” que atualmente se alastrou pelo país é, sim, drástica. Mas não deve ser superdimensionada, para evitar ações equivocadas e negligenciar o tratamento adequado da segurança pública como um todo, e não localizado. Segundo, as autoridades competentes na matéria devem permanecer sempre atentas à evolução da realidade político-econômica do país. Terceiro, é melhor prevenir do que remediar. Ao invés de se investir na construção de novos presídios, é preciso aumentar o investimento em policiamento e informação/inteligência policiais. De 2006 para 2011, essas rubricas diminuíram: os gastos com policiamento passaram de 17,13% para 8,16% das despesas realizadas com segurança pública, enquanto aqueles relativos à informação/inteligência foram de 1,95% para 0.66%. Outros problemas estruturais também poderiam ser debatidos, como as brechas na legislação e a coordenação entre as esferas federal, estadual e municipal. 

A ocasião, de fato, faz a violência. Há mudanças em seus padrões, mas suas causas são as mesmas. Uma hora ou outra, o descaso cobraria seu preço. E ele é alto! Por trás das estatísticas, estão pais sem filhos, filhos sem pais, maridos sem mulheres, mulheres sem maridos, jovens, adultos ou idosos… Não existe número que meça a dor que fica, muito menos os sonhos que partem. 

*Obs: os dados apresentados foram extraídos de três documentos – Mapa da Violência 2012. Novos Padrões da Violência Homicida no Brasil; Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2012; SIPS – Segurança Pública.


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Nuvens sombrias em Gaza

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Não teria como ser outro assunto – a sombra da guerra se espalha no Oriente Médio, com a Síria em convulsões e Israel atirando para todos os lados, literalmente. A nova onda de ataques com foguetes a território israelense valeu uma resposta absolutamente desproporcional que assombra o mundo desde a última semana. Em última instância, Israel não estaria “errado” ao retaliar ataques contra seu território e tentar desarmar os arsenais do Hamas. Mas quando se compara o grau de destruição causado por cada ataque, é cada vez mais difícil justificar qualquer tipo de apoio. 

Por hoje, vamos focar nas relações regionais – mesmo por que poderíamos ficar o dia todo aqui discutindo sobre a viabilidade do Estado palestino (a solução que acabaria com esse rebu) e como os radicalismos de ambos os lados jogam terra sobre isso. A diferença dessa nova onda de violência com relação à ultima, de 2008, é o fato de que Israel está cada vez mais isolado. 

Culpa da Primavera Árabe, em partes. O Egito, antiga liderança (e que ajudava Israel) agora está muito mais para o lado dos palestinos e do Hamas (primo distante da Irmandade Muçulmana que agora manda por lá). Temos o Qatar e a Arábia Saudita tentando aumentar sua influência mas sob suspeita aos olhos dos árabes (que temem qualquer elite que venha do Golfo). E por último, e mais importante, temos a Turquia. O país azedou as relações com Israel desde o ataque à flotilha de ajuda humanitária e cada vez mais tenta se consolidar como a potência regional em uma parte do mundo que carece de liderança nesse momento. O potencial econômico e militar para isso a Turquia tem, mas faltam elementos culturais, e mesmo os atritos como a fronteira com a Síria. Aliás, esse é um dos principais fatores que pesam na possibilidade de um conflito regional… 

Mais do que as discussões sobre guerras assimétricas ou a natureza de um Estado contra entes não-estatais, fica a perplexidade por conta do excesso de força. Isso por que não faz sentido que Israel comece um conflito desse tipo agora – e parece ainda mais despropositado clamar que reduzirão a outra parte “à idade média”. Se um conflito no Irã parece pouco vantajoso por causa das dificuldades logísticas, quanto mais contra todo mundo ao redor e com a opinião pública mundial ficando contrária a essa violência. Ascensão de ultra-conservadores ao poder? Saber que terão apoio dos EUA e fazer o que der na telha? Conspirações? O mundo fica de olho no que vai resultar das possíveis negociações no Egito, e na possibilidade de um cessar-fogo que evite um massacre ainda maior – e tomara que deem certo, já que a chance de invasão caso as negociações fracassem é iminente.


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Nada de novo na Síria

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Nunca falta o que se falar da Síria. Muito provavelmente por que essa é uma guerra que não vai terminar tão cedo – há pouco tempo, por exemplo, nem conseguiram manter um frágil cessar-fogo por conta de um feriado islâmico. E boa parte disso por culpa da desorganização dos rebeldes contra o governo de Bashar al-Assad, que sem unidade fragmentam a luta e se enfraquecem. Nessa semana, aliás, a oposição está se reunindo em Doha pra ver se consegue dar um jeito nisso. Muito improvável, diga-se de passagem, e o futuro do conflito parece cada vez mais prolongado. 

Na verdade, o que podemos pensar para o futuro? Acabou de se confirmar o que todo mundo já sabia: a Rússia vende armas para a Síria por conta de acordos da época da URSS. A justificativa é a de ajudar a proteger a Síria de ameaças externas – leia-se, EUA e amigos – e não de tomar parte de um dos lados. E por que a Síria estaria se sentindo ameaçada de intervenção? Justamente por usar essas armas contra os opositores. O ciclo se fecha e vai depender bastante do resultado das eleições nos EUA. Tem ainda o problema do conflito se espalhar, uma possibilidade cada vez mais real. A situação mais crítica é na Turquia, que já anda às turras com a Síria por conta dos refugiados e escaramuças na fronteira, e ainda mais com os problemas de atentados internos por conta do PKK (um grupo terrorista curdo), falta pouco para a coisa estourar. O Líbano seria a segunda pior opção, mas as rachaduras internas e o apoio da França parecem que vão esfriar essa possibilidade. 

Mas talvez o mais preocupante seja a notícia de que a fronteira de Israel estaria sendo visitada por tanques sírios. Pra quem não se lembra, Israel ficou com um território ao sul da Síria após a Guerra dos Seis Dias de 1967, e nesse fim de semana tanques sírios apareceram nessa zona desmilitarizada. Nada grave, mas traz duas perspectivas preocupantes. A primeira, de que “dê a louca” em alguma das facções de oposição (nunca se sabe o que se passa na cabeça de grupos tão variados), ou que Assad jogue por terra as negociações por causa da guerra civil e até resolva disputar novamente a posse da região. Trazer Israel pro samba significa a segunda preocupação, pois o país ainda está em guerra com a Síria, tecnicamente, e a negociação da posse das colinas é uma das barganhas de Israel para afastar a Síria de Irã e grupos hostis como o Hezbollah. Esse pessoal todo envolvido no conflito transforma um barril de pólvora numa bomba de napalm. E a depender do resultado das eleições dos EUA (ou não), isso traz o Tio Sam pra parada. E junto  acabarão vindo China e Rússia do outro lado. Imaginem só. 

O fato é que a oposição só vai negociar quando Assad sair, e isso não vai ocorrer tão cedo. Os lados vão continuar conversando por meio das balas, e o killscore desse jogo macabro batendo novos recordes, na casa de 36 mil mortos até o momento. Isso só na Síria – imaginem se a coisa se espalhar.


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Quem sair fecha a porta

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Quando falamos de política externa dos EUA na última década, todos estão cansados de dizer que eles tinham duas pedras de tropeço, as guerras do Iraque e do Afeganistão. Enquanto Obama já conseguiu se livrar da primeira (mal e mal e deixando um abacaxi que mais parece um porco-espinho pra trás), ainda restam promessas e uma trilha de cadáveres na segunda. Mas não devemos esquecer que essa é uma empreitada em que os EUA não estão sozinhos – o Reino Unido e diversos países europeus estão envolvidos nesse consórcio da OTAN,e essa semana está havendo uma importante novidade pro desfecho desse conflito. 

Ou, pelo menos, pra fim da participação britânica nessa guerra. Segundo o secretário de Defesa, o país deve retirar boa parte dos soldados até 2013 e possivelmente a retirada total até 2014. Mais do que impopularidade, parece ser uma questão de custos: assim como na maioria dos países que não são os EUA, quando o dinheiro falta a primeira coisa que o governo faz é apertar o cinto e cortar gastos de defesa. E o Reino Unido está num ambiente nada favorável a manter aventuras na Ásia Central custeadas pelo contribuinte. 

Mas pesa sim o fator “popular”. Na última semana fuzileiros britânicos foram acusados de matar um inocente em combate. Não chegou a ser como o caso do americano que massacrou dezenas de civis, mas mostra como as tropas já chegaram àquele ponto em que existe uma pressão psicológica sobre os indivíduos, e uma notícia dessas não pega nada bem na maliciosa imprensa inglesa. Não está ajudando nada um escândalo envolvendo tráfico de influência por parte de ex-oficiais, que estariam favorecendo empresas em concessões para as forças armadas violando a legislação inglesa. Isso estourou deixando o governo com mais uma dor de cabeça financeira e midiática. 

Mais do que os gastos financeiros e em vidas humanas, fica a sensação de perplexidade com relação ao desfecho desse conflito. Se os EUA e amigos deixarem o Afeganistão, do modo como está, não apenas não vão ter removido completamente o Taleban (ideia original disso tudo) como deixarão um ambiente regional altamente instável. A coisa transbordou e agora se fortaleceu o Taleban no vizinho Paquistão, e a situação, se não parece pior do que era em 2001, não parece melhor. Pra se ter uma ideia, uma menina de 14 anos, defensora dos direitos das mulheres, virou alvo oficial do Taleban (com nota e tudo mais) e sofreu um atentado. Baleada, em estado grave, está finalmente sendo transferida, ironicamente, para a Grã-Bretanha. A saída dos principais atores ocidentais desse conflito não vai ser o fim dos combates ou da instabilidade. O veredito final sobre essa guerra vai ser mais fácil de emitir no futuro, mas é aparente o fracasso.


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A guerra sem glória

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O tema da moralidade, justiça e de ética para as guerras tem caminhado lado a lado com esses eventos na história. Não é de hoje que se discute isso e parece que a questão quase nunca vai perder sua polêmica e originalidade. Para muitos, como o famoso autor Michael Walzer, o limiar entre o argumento moral e o de interesse é muito tênue. Daí toda a dificuldade de se discutir questões subjetivas como ética e intenções nesses conflitos. 

A guerra do Afeganistão, por exemplo, foi muito discutida em seu aspecto moral. Aproveitou da fragilidade da população no contexto da tragédia do 11/09 para empreender uma missão estratégica em um país de importância geopolítica no Oriente Médio, contra um inimigo sem face, difícil de ser detectado e derrotado. Atualmente esse mesmo discurso parece desaparecer nos anos finais da guerra. Não há glória ao povo estadunidense, os soldados questionam a resiliência do Taliban e da Al Qaeda (clique aqui para um artigo sobre isso) e nem mesmo a população parece acreditar mais na causa. Aquela obrigação moral parecia se sustentar apenas em um contexto específico. 

Após 11 anos, o discurso desmorona e das palavras faz-se o silêncio. A disseminação do ódio contra os Estados Unidos nos países muçulmanos coloca-se como algo que reforça a perda de popularidade da guerra. Parece que, cada vez mais, aumenta o número de pessoas, tanto entre a população civil, quanto entre os militares que não entende mais essa guerra como necessária. A OTAN já havia refeito sua estratégia para suspender sua atuação no país e, agora, Obama retirou os 33 mil contingentes adicionais que enviou em 2010. Imaginava-se que, como foi na morte de Bin Laden, essa redução de soldados na região iria poder ser transformada em capital político para o “Obaminha paz e amor”. Bom, não foi dessa vez. Nem o presidente, nem o general responsável pelas tropas no país e nem mesmo o presidente afegão, Hamid Karzai, fizeram o anúncio. O comunicado emitido pelo secretário de Defesa, Leon Panetta, enquanto viaja à Nova Zelândia. Não que ele não seja uma autoridade importante, mas substituiu-se a possibilidade de se obter um capital político interessante, por um anúncio burocrático em low profile. 

Isso demonstra duas coisas. A primeira, como já dissemos, que o argumento moral dessa guerra já está dissolvido e o que resta é uma espécie de novo Vietnã. Com a diferença de que não há tantas mortes de americanos e nem vitória do outro lado; apenas sua não-derrota, que, para os grupos terroristas, já significa um duro golpe político ao Tio Sam. A segunda é que, não sem razão, o governo Obama e a OTAN estão morrendo de medo das reações dos países com grandes concentrações de muçulmanos. E essa onda de violência também escancara o estado frágil que essa guerra se encontra hoje, pois os ganhos de manter as tropas por lá, com a intensificação dos protestos antiamericanos no Afeganistão (e mundo afora) e de atentados contra militares na região, não parece exceder os custos. 

O argumento que sustenta essa guerra já se foi. O que resta é a luta de soldados que não compreendem a tamanha resiliência do inimigo e de governantes que não parecem querer comentar muito sobre o que tem se passado por lá. Em uma guerra sem glória, aceitar a derrota seria aceitar a limitação da política externa americana na região, algo que, certamente Obama não gostaria de fazer. Assim a guerra arrasta-se.



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11 anos depois do 11/09

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11 anos se passaram desde o fatídico 11 de setembro de 2001, a data que ficou eternizada na memória internacional como o dia em que o grande império estadunidense se viu abalado por uma ameaça até então desconhecida, o terrorismo. Ano após ano, homenagens às vítimas são feitas e a tragédia é relembrada, assim como são relembradas todas as suas consequências que marcaram a política internacional desta última década.

No dia de hoje, Obama (re)afirmou que as vítimas destes atentados nunca serão esquecidas. De fato, eterno deve ser o respeito à dor dos familiares daqueles que morreram sem saber que se tornariam parte de um momento assim histórico (infelizmente). Entretanto, um sábio pensamento de Benjamim Franklin pode nos proporcionar uma válida reflexão: “O esquecimento mata as injúrias. A vingança multiplica-as”…

Talvez seja tempo de esquecer um pouco. O que não significa desmerecer o acontecimento ou defender posições extremistas – de quaisquer que sejam os lados. Apenas esquecer, deixar um pouco de lado, olhar com outros olhos. E, forçosamente ou não, parece que este tem sido o tom para boa parte dos cidadãos dos Estados Unidos neste momento.

Diante do fenômeno da crise financeira e dos elevados índices de desemprego que têm assolado a população nos últimos tempos, a ameaça terrorista assume papel secundário no presente ano de eleições estadunidenses. A economia e o trabalho têm se mostrado aspectos muito mais sensíveis aos eleitores, evidenciando uma mudança de perspectiva – a qual não poderia nem ser imaginada há alguns poucos anos atrás.

Se seguirmos a filosofia de Franklin, ao esquecer podemos provocar o efeito pretendido pela vingança, liquidando as injúrias pela falta de importância que lhes conferimos. Talvez essa lógica não possa ser assim tão facilmente aplicada ao complexo cenário das relações internacionais, dadas as intricadas consequências derivadas do posicionamento de cada ator – especialmente quando se trata dos irmãos do norte.

Contudo, esta década parece estar sendo marcada por novos desafios, mesmo no que se refere ao gigante estadunidense. Esquecer ou, talvez melhor, reavaliar se torna uma necessidade, diante da qual a realidade se vê. Quantos 11 anos ainda serão necessários para que o 11/09 seja “esquecido”, no sentido mais respeitoso que se possa conferir ao termo, ainda é difícil prever, mas que durante esses 11 anos passados muitas coisas mudaram, ah, disso ninguém duvida.


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Fugir, para onde?

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Lembram do noticiário do Iraque no começo dos anos 2000? Era comum ler manchetes sobre massacres, atentados e dezenas (até centenas) de mortos por dia. E nesse início de década, esse papel é da Síria. Principalmente desde o final do ano passado, o leitor regular deve estar se acostumando com essas notícias de mortes causadas pela repressão (e, é claro, pelos revoltosos) no confronto atual mais sangrento fora da África (por que lá as coisas estão bem piores, é só lembrar do Congo ou da Somália). Mas, se a guerra do Iraque alterou bastante a geografia do poder na região, a da Síria é o elemento para o desastre completo. 

A causa disso tem um nome: refugiados. Não que eles sejam um problema em si (longe disso), mas o seu deslocamento é o que gera reações nos países vizinhos, e aqui mora o problema. Em uma região com governos instáveis ou população dividida, qualquer “desnível” na proporção de certa etnia ou grupo religioso é suficiente pra começar o caos. Até o momento, estima-se que quase 200 mil pessoas já fugiram do país, a maioria para a Turquia. O problema é que o governo turco já está gastando demais com os refugiados (o que nunca é bem visto pela população local) e já não tem mais espaço para acomodá-los. É o mesmo problema que a Jordânia enfrenta, mas numa escala ainda maior, sendo um país menor e com menos recursos, mas que proporcionalmente recebe muito mais refugiados. 

Mas a coisa fica séria mesmo é no Líbano. Primeiro, por que os refugiados estão sendo alocados na região da fronteira com a Síria, que não uma área das mais seguras. Segundo, o fervor político já atingiu a capital, Beirute, que está enfrentando conflitos isolados nos últimos tempos. E terceiro, o Líbano é um país essencialmente dividido. Alauitas, cristãos, sunitas, pró ou contra Assad, tem pra todo gosto. A chegada dos refugiados seria apenas uma faísca estourando um barril de pólvora. Chegou ao ponto de que a guerra da Síria já se espalhou pro Líbano, e não estourou apenas por que, ironicamente, é o Hezbollah (a força irregular que consegue lutar em pé de igualdade com o exército mais bem treinado do mundo, o de Israel) que, sendo  muito superior a todas as demais facções, faz com que os outros deixem de agir. Por enquanto. 

A coisa está tão feia que tem refugiados sírios fugindo até para o Iraque, de todos os lugares! Quando o Iraque está mais seguro que seu país, tem algo MUITO errado. E isso sem pensarmos nas consequências indiretas, como a mudança do poder regional, alianças, e o papel de Israel nisso tudo. Se os protestos no Oriente Médio começaram cheios de esperança em 2011, fica cada vez mais a sombra da tragédia sobre os seus resultados.


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Mais uma semana

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E lá se foi mais uma semana. Estou falando da 10ª Semana de Relações Internacionais realizada por docentes e discentes dos cursos de Relações Internacionais da UNESP dos campi de Franca e Marília. Para quem não sabe, as duas universidades possuem este curso e, em conjunto, realizam uma série de debates, palestras, mesas redondas, mini-cursos e apresentações de trabalho uma vez por ano. Comemorando uma dezena de encontros, o evento foi lotado na UNESP/Franca, na qual todos os colaboradores do blog estudaram. Escrevo, desta vez, de maneira diferente e proponho mostrar a seguir alguns dos debates que observei durante a semana. É bastante válido para todos acompanhar um pouco do que está rolando no mundo acadêmico e creio que este é um dos objetivos da própria Página Internacional: difundir as ideias para além das universidades. 

Começo pelo título do evento: “A construção das relações internacionais no Brasil no início do século XXI”. Desde já é nítida qual foi finalidade desta Semana de RI, fomentar o debate sobre as assim chamadas “relações internacionais brasileiras”. Nada mais correto, uma vez que o grande protagonismo nacional mundo afora vem aflorando nos últimos anos. Na conferência de abertura houve a participação do Embaixador Samuel Pinheiro Guimarães, atual Alto-Representante Geral do MERCOSUL. Sua fala centrou-se no futuro da política externa brasileira (PEB), afirmando que a região da América do Sul, e não a África, a Ásia ou a Europa, será a chave-mestre nacional. Nosso país tenderá a fortalecer a cooperação regional, promover a integração e, é claro, alimentar o seu interesse nacional enquanto, como todos dizem, país ou potência emergente. 

Posteriormente, destaco a mesa redonda sobre “Cultura e Relações Internacionais”. Foram discutidos os mais diversos temas, deste a própria conceitualização do que é cultural, até teorias feministas e intervenções externas norte-americanas. Do que mais me marcou, ficam as ideias do Professor Estevão Chaves de Rezende Martins (da UnB), que afirmou com convicção sobre a falácia da Primavera Árabe. Para ele, o termo é mal empregado e reflete apenas um conceito utilizado por leigos para que seja noticiado nos telejornais. Sumariamente, seu pensamento condiz com o fato da região (Egito, Líbia, Síria, etc) ser extremamente heterogênea e ter um histórico bastante variado, fatos que culminam na impossibilidade de amontoar tudo em apenas duas palavras. Se fosse assim, já ocorreram verões, outonos e até invernos árabes. Mas quase ninguém tem conhecimento disso. 

Por fim, mudo o tema para defesa e segurança. Acompanhei os debates a respeito da criação da UNASUL e consequentemente do seu Conselho de Defesa Sul-Americano (CDS). O que deve ficar claro para todo mundo é que a UNASUL não porá fim ao MERCOSUL, porque tem objetivos diferentes. Tão diferentes que, se este ficou sobrando nos aspectos econômicos, aquela tenta promover uma maior cooperação política na região, indo ao encontro, também, do citado CDS. De acordo com os professores Jorge Szeinfeld (da Universidade de La Plata – Argentina) e Héctor Saint-Pierre (da UNESP/Franca), falta articulação política na região e, especificamente sobre defesa, é exatamente isso que o conselho vem tentando articular. Como a organização é muito nova, resta esperar as cenas dos próximos capítulos que estão sendo pesquisadas por vários alunos. 

Estas foram algumas das temáticas que fizeram parte da 10ª Semana de RI da UNESP. Daria pra citar uma série de outras coisas, principalmente sobre os mini-cursos ministrados que versaram sobre governança, identidade brasileira, teorias de integração regional, políticas públicas, dentre outros. Quem sabe a cobertura de eventos torne-se algo mais constante aqui no blog. É interessante, sempre interessante, fazer este paralelo e dividir o espaço entre academia e o “bate-papo internacional” do dia-a-dia.


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Egito das idas e vindas

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Idas e vindas. Esse seria um bom título para um livro que tratasse da história recente do Egito. Seria uma trama recheada de idealismo, violência e disputas por poder, localizado no grande centro histórico e econômico do mundo árabe. Durante a história, os personagens se veriam em um ambiente de incertezas, onde a moral da história provavelmente teria algo acerca das dificuldades inerentes a quaisquer mudanças políticas. Nesse cenário, da dita Primavera Árabe, o imperativo que uniria a população seria o da alteração do comando do país e não trataria necessariamente de democracia. Bom, se já temos o suficiente para um bom romance histórico, para a construção de um regime adaptado ao povo egípcio o caminho ainda é longo. Com a queda de Hosni Mubarak do poder, o país ainda está sob os auspícios de uma Junta Militar que quer ser tão temporária quanto a famosa CPMF brasileira. 

O processo de transição política no Egito tem caminhado a passos de tartaruga, de carangueijo ou de qualquer outro animal bizarro. Observa-se reiteradamente um caminhar de dois passos para a frente e um (ou mais) para trás. Os avanços convivem com os velhos hábitos de gestão que vivem à sombra dos tempos autoritários.   Entre os ânimos renovados pela queda de Mubarak e os protestos violentos contra a Junta Militar, as eleições parlamentares e à dissolução do Parlamento às vésperas do pleito presidencial, os analistas políticos patinam do idealismo da revolução ao realismo da transição política. 

A novidade que poderia levantar os ânimos seria a vitória de Mohamed Mursi, membro da Irmandade Muçulmana, como o primeiro presidente eleito em um pleito democrático em 30 anos. Ora, a novidade poderia até ser louvada se as circunstâncias não nos levassem a crer que o continuidade prevalece sobre as mudanças. Primeiro porque o presidente representa uma maioria que a Junta Militar parece temer, os muçulmanos. Como a movimentação contra os 70% de parlamentares muçulmanos nos mostra. Segundo porque, a despeito de iniciar o governo sem constituição nem parlamento, Mursi parece estar com pouca liberdade deliberativa. 

O último episódio que indicou isso começou no último dia 08, quando o presidente baixou um decreto para revogar a dissolução do parlamento. A medida foi tida por muitos como muito ousada, mas, fosse pela Junta Militar, fosse pelos juízes herdados do governo Mubarak, já era de se saber que não iria durar. Dois dias depois, juízes declaram que a decisão da Suprema Corte Constitucional de dissolver o parlamento tinha suporte legal. A Mursi não restava nada, mas acatar à decisão ou observar o desenrolar de seu isolamento político. Por mais curto que toda essa aventura tenha durado, ela é a demonstração de que, mesmo após as eleições, não há muito o que comemorar. 

O jogo de poder ainda pende para a Junta Militar por demais. Enquanto Mursi teria controle do parlamento, pela maioria muçulmana, os militares tem o apoio do poder judiciário e, agora, legalmente também controla o legislativo até segunda ordem. O tribunal declarou a legalidade da dissolução da câmara baixa (equivalente à Câmara brasileira) enquanto que ainda irá se pronunciar sobre a Câmara Alta (como o Senado), ou seja, ainda tem mais por vir. Parece que, enquanto Mursi não desvincular-se da Junta Militar e não tiver um apoio constitucional, pouco conseguirá avançar. 

As tais idas e vindas são a característica dessa primavera egípicia. Se até há indicações de mudanças substanciais na política externa, como a ideia de reaproximação com o Irã (os dois países não tem relações diplomáticas desde o tratado de Camp David sobre Israel), a política interna ainda mostra que, mesmo com Mubarak de fora, o Egito está mais com um regime político novo para “inglês ver” do que com algo de fato novo. De mãos atadas, o Executivo não poderá trabalhar, e sem legislativo, não há nova constituição. Se o país descurar do processo de transição o Egito pode acabar próximo do mesmo marco zero de que partiu.

[Para mais artigos e reportagens sobre: 1, 2, 3]


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