Uma boa semana

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Existe esperança no Oriente Médio? Apesar da matança de sempre na Síria e de problemas no Líbano, essa semana teve umas boas surpresas, todas relacionadas à Turquia, aquele que é considerado por muitos como o mais importante ator regional por estar ligado a quase todas as crises de lá. 

Primeiro, após décadas de atividade, o PKK (grupo curdo que pratica atos violentos como atentados e sequestros em retaliação a repressão cultural e pela formação de um Estado próprio) parece dar sinais de abertura à negociação, em carta direta do seu fundador ao governo turco. Sinais de reconciliação, como soltura de reféns e flexibilização de proibições estão aparecendo. Segundo, após intermediação do Mr. Obama, Israel finalmente pediu desculpas pelo absurdo do ataque à flotilha humanitária de 2010 e parece estar em vias de reatar relações com seu maior aliado na região até aquele dia fatídico. 

Isso é muito importante pelo papel da Turquia. O país está envolvido em problemas, com ocupação no Chipre (fazendo por lá basicamente o que Israel faz na Cisjordânia), grande influência na questão da Síria (apoiando grupos mais radicais e fazendo vista grossa a outros) e até essa semana pesava o seu mau tratamento aos curdos e o rompimento com Israel. A situação curda ainda não tem solução em curto prazo, mas a possibilidade de negociação é um alento para os dois lados. E retomando o diálogo com Israel, a Turquia também volta à cena como melhor negociadora para a solução da crise palestina, como estava fazendo antes de 2010. 

Nos últimos anos, parecia que a ação da Turquia estava tendendo à radicalização. Com esses pequenos passos, se vê que ainda é um aliado necessário para os países ocidentais, e a importância do país como um polo de estabilidade regional.


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Post do Leitor

Post especial: O Decênio Iraquiano e Suas Consequências para os Estados Unidos e o Mundo

[Hoje é dia de post especial! Colaboração de nosso colega, prof. Ms. Danillo Alarcon, mestre em Relações Internacionais pela UnB e professor da Faculdade Anglo-Americano, de Foz do Iguaçu-PR, que traz uma análise importante sobre a guerra ao terror dos EUA e suas consequências, no dia em que se completam exatamente 10 anos da invasão ao Iraque. Lembramos que caso se interesse em ter um texto publicado pelo blog, basta entrar em contato com a equipe pelo e-mail: [email protected]. Aproveitem!]

No dia vinte de março de 2003, há exatos dez anos, se iniciava uma das guerras mais infames na qual os Estados Unidos da América já participaram. Embasados em diversas contradições e manipulação de informações e discursos (inclusive desveladas depois por um ex-funcionário do governo), a Guerra contra o Iraque suscitou um amplo debate na comunidade internacional acerca das instituições básicas que a sustentam e do papel das organizações internacionais na promoção de seus objetivos de segurança coletiva, além de, obviamente, ter questionado o papel dos Estados Unidos na ordem global do século XXI. Por estas e outras razões, é prudente, então que façamos um momento de reflexão sobre tal conflito. 

Engana-se quem tira rápidas conclusões dessa guerra, quer pró quer contra a posição norte-americana no conflito ou em relação ao Iraque. Mas na exiguidade de linhas, tendências amplas podem ser apontadas. Antes, vale relembrar que após os atentados terroristas de 11 de setembro de 2001, os Estados Unidos contavam com considerável apoio internacional. A comoção com tamanhos atos de barbaridade fez Washington conseguir apoio de Moscou, a aquiescência global para atuar no Afeganistão e não ter problemas patentes em levar a OTAN ao distante país asiático. Além do mais, internamente, a histeria criada pelo medo de novos atentados terroristas deu base para medidas antes não aceitas, como um rigoroso controle imposto pelo criado Departamento de Segurança Nacional. 

Independentemente dos debates levados a cabo por muitos pesquisadores sobre a responsabilidade americana de ter nutrido seus futuros algozes,* é importante agora refletir sobre as possibilidades que o 11 de setembro trouxe para os Estados Unidos. Primeiro, uma considerável dose de apoio internacional – depois de nove meses de um governo que se fechava cada vez mais, era a possibilidade de levar adiante agendas que Washington considerava importante. Segundo, o revelar de um novo momento para a política externa do país, em que o apoio à democracia e aos valores que lhe são caros poderiam ser promovidos por meios softs. Por fim, a oportunidade de concretizar sua hegemonia, no que tange a assuntos sensíveis como, por exemplo, terrorismo. 

Todavia, nada disso fora aproveitado. A imprudência com que a administração Bush se lançou na caçada à cabeça do presidente iraquiano (conseguida em 2006), em especial com a junção de três senior players – Dick Cheney, vice-presidente, Donald Rumsfeld, Secretário de Defesa, e Paul Wolfowitz, Subsecretário de Defesa – não era justificável por medidas racionais. Na verdade, os três já buscavam o desmantelamento do regime iraquiano desde finda a primeira guerra do Golfo, e criticaram veemente a postura de fraqueza do governo Clinton por não agir decisivamente para acabar com os excessos que encontravam na postura de Bagdá. Oras, quer seja pelas pretensas armas nucleares, ou pela necessidade de mudança de regime, a comunidade internacional não aceitou a nova guerra, e eis que aí, houve o ocaso do breve momento unipolar da América. 

As fissuras mais evidentes se deram em relação aos outros grandes global players. A França, aliada na OTAN, se opôs veementemente à guerra. A Rússia e a China exerceram pressão para que os “planos quixotescos” – a exportação da democracia, como acabou sendo – não fossem levados a cabo. Mesmo países com importância menor no Conselho de Segurança, como o México, se opuseram ao movimento das forças armadas vizinhas rumo ao golfo pérsico. 

Para além disso, o tiro no Iraque saiu pela culatra. O país hoje é governado pela maioria xiita, liderado pelo primeiro-ministro Nouri al-Maliki, o que o aproxima do vizinho Irã, grande inimigo dos Estados Unidos. Os níveis de violência continuam alarmantes, sendo frequentes os relatos de atentados terroristas no país, chegando a uma média de 300 pessoas mortas por mês, fomentados justamente pelas divisões de cunho religioso. 

A credibilidade norte-americana, já abalada por seu jogo de superpotência e excessos cometidos há muitas décadas, sofreu duro golpe com a guerra contra o regime de Saddam Hussein. O número de mortos no conflito ajudou a cristalizar uma visão negativa da atuação internacional dos Estados Unidos na região. Em casa, os soldados, sem apoio perpetraram crimes contra seus próprios conterrâneos, e bem, nem os Estados Unidos, nem Israel, (o grande aliado norte-americano na região, impossibilitado ou indiferente a auxiliar o governo americano em diversas operações), estão mais seguros em um mundo cada vez mais efervescente, em que o uso da força é visto com cada vez mais suspeita. 

Por outro lado, o sistema onusiano, impossibilitado, pelos próprios mecanismos que lhe dão forma, de agir diante da ação unilateral norte-americana, vem tentando se reformular, para fazer frente aos desafios do século XXI e dos excessos de uma potência. Além do mais, outras instâncias internacionais foram criadas para abarcar países que discordaram das posições unilaterais de Washington. A América do Sul criou o Conselho de Defesa Sul-Americano no âmbito da Unasul; a União Europeia reforçou a partir de Lisboa (2007), a Política de Defesa e Segurança Comum, a União Africana está cada vez mais ciente de suas possibilidades de atuação nos territórios de Estados-membros; e no Golfo, o Conselho de Cooperação do Golfo se mantém firme em relação às ameaças que porventura surjam às monarquias do golfo (tal como as revoltas e levantes no Estado-membro Bahrein, desde 2011). Nenhum desses grupos ignora a importância norte-americana, mas hoje reconhecem que há agendas de segurança que devem ser debatidas localmente. 

Desta feita, não defendemos aqui que a Guerra do Iraque foi a causa nem o estopim para tamanhas mudanças. Todas elas, de alguma maneira, já haviam sendo gestadas desde o 11 de setembro. O que apontamos é como os Estados Unidos remaram na maré contrária ao dar continuidade ao plano de guerra, ao atacar o Iraque e ao tentar impor a visão maniqueísta de mundo sustentado por homens como Cheney, Rumslfed e Wolfowitz. É compreensível que a política externa norte-americana tenha ecos da política interna, dos lobbies e dos mais diversos grupos de interesse, mas dessa vez, a desconsideração para com o interesse nacional, ou sequer com valores internacionalmente aceitos, formulados a partir de uma hegemonia norte-americana, foram longe demais. Arriscaram a hegemonia, conquistada após a Guerra Fria, e por imprudentes que foram, se veem hoje diante de um mundo que não esqueceu a invasão iraquiana e todas suas consequências. 

*Para mais informações sobre o tema, consultar a dissertação do autor aqui.


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Consumidor de Defesa

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A economia do mundo vai mal, especialmente no setor de Defesa. As maiores indústrias militares são de países desenvolvidos, e estão puxando o freio com seus maiores compradores deixando de gastar em armas pra pensar em coisas mais frugais como conter o desemprego. Não deixa de ser um negócio bilionário, mas a tendência é a retração. Por isso destoa nesse cenário a ascensão da Embraer, que vai contra tudo nessa tendência, e diz um pouco de como está esse mercado atualmente. 

Ontem, por exemplo, confirmou-se a vitória da empresa e sua parceira norte-americana para um contrato de venda de aviões de treinamento para a força aérea dos EUA. Já tinha vencido em 2011, mas o processo foi embargado pela concorrente e acabou minguando. O negócio não é apenas um feito incrível, com a entrada no mercado da maior potência militar do planeta, mas garante 430 milhões de dólares no caixa e é mais um sucesso de uma menina dos olhos da empresa, o Super Tucano, em operação da Colômbia à Indonésia. 

A tendência é a melhora, especialmente com a expectativa de vendas do KC-390, aeronave de transporte médio, que deve sair ano que vem e já tem entre prováveis compradores Colômbia e República Tcheca. A maior parte dos clientes desse setor são justamente países onde os gastos militares não tiveram muita redução. A Embraer, inclusive, teria compras infladas pelo próprio governo brasileiro, mas tem um mercado potencial na América do Sul e na Ásia. Ironicamente, a melhora nesse ranking dos fornecedores de armas não acompanha a venda de aeronaves civis, que tem mais abrangência (leia-se, mais clientes que hoje estão em crise) e impacto na renda da empresa (que teve prejuízo em 2011). 

Disso tudo fica a percepção de que bem ou mal as indústrias de defesa sempre têm um porto seguro. Seus maiores compradores são os Estados, e teoricamente nunca vai faltar comprador. O interessante disso é ver que, mesmo em tempo de crise, especialmente na Europa, outras regiões do mundo, especialmente os países periféricos, continuam com os gastos militares a todo vapor. Necessidade ou displicência? A questão é ver até onde aguentam manter esse ritmo.


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From Russia with love

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Ontem, teve grande repercussão no noticiário a visita a Brasília do primeiro-ministro Medvedev da Rússia. Se falou de muita coisa, de rodada Doha e eleição da OMC ao embargo russo de carne bovina de estados brasileiros (que aliás, continua). Mas o que chamou a atenção mesmo é que vamos comprar equipamento de defesa antiaérea (aqueles famosos SAM) deles. 

É interessante como hoje o Brasil parece diversificar (outro jeito de dizer “atirar pra todos os lados”) os fornecedores militares. Há alguns anos a expectativa era de uma aproximação cada vez maior com a França nesse setor, mas parece que era muito mais um negócio de compadres entre Lula e Sarkozy – sem os dois na parada, o principal negócio (o F-X2, de compra de caças) esfriou e não parece mais favorável a Paris. Ao mesmo tempo, nos aproximamos da Rússia, comprando helicópteros e outros equipamentos. Quando se falava em reaparelhar o Brasil e defender de “potenciais” ameaças sul-americanas, um dos pontos que os mais exaltados sempre levantavam era que deveríamos evitar ter o mesmo fornecedor dos vizinhos pra evitar que alguém de fora tivesse o poder de decidir os rumos de um eventual conflito por essas bandas. No fim das contas a possibilidade de conflito é bem remota, e as ameaças de verdade ainda são combatíveis de um jeito mais simples, como reforço de patrulha nas fronteiras e tudo mais. 

E certamente o Brasil não parece inclinado a depender de um único fornecedor, ainda mais com os planos de Defesa em longo prazo que temos desde a END de 2008. A aproximação com a Rússia é uma boa, ainda mais em um setor que ainda está mal das pernas que é o da defesa do espaço aéreo. A Índia está se dando muito bem fazendo o mesmo, e Medvedev até comentou que a tal transferência de tecnologia pode acontecer se o Brasil pagar o suficiente. Mais direto impossível, mas do discurso pra prática existe um abismo, e do lado de cá não estamos mais em 2008 e a montanha de dinheiro que parecia disponível na época parece cada vez mais uma miragem. 

A aproximação bilateral é vantajosa para os dois países, em muitos sentidos, mas tem muito chão pela frente pra que haja uma eventual cooperação militar. Se nessa brincadeira conseguirmos negociar a suspensão do embargo da carne, já vai estar ótimo.


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Vendendo o peixe

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O programa nuclear do Irã é aquela incógnita. Alega que é civil, mas tem jeito de ser militar. Nessa discussão com suas idas e vindas, é sempre uma boa notícia quando uma das partes (o Irã ou o grupo de países que tenta negociar a suspensão do programa) resolve voltar às negociações. E nessa semana a boa novidade foi o fato de os EUA e o Irã terem se mostrado abertos a discussões diretas sobre o tema. Claro que isso se seguiu da usual desconfiança e troca de farpas, com os EUA dizendo que a negociação seria possível apenas com representantes “sérios”, enquanto Teerã acusa Washington de não cumprir seus compromissos. 

Já disse isso aqui em algumas postagens anteriores, e por mais que se critique a possível interferência internacional, o caso do Irã é chato porque eles mesmos costumam complicar as coisas. Entram em negociações pra em seguida fazer testes que praticamente anulam suas boas intenções. E a última semana não foi exceção, ainda mais com o aniversário da revolução de 79. 

Na segunda-feira o país anunciou que mandou um macaco para o espaço num foguete e trouxe de volta com vida. A informação, como tudo que vem de fonte estatal, é meio contestável, mas se for verdade, palmas pra Teerã (que mesmo com sanções tem um programa espacial que funciona, enquanto nós… bom, deixa pra lá). O problema é que o mesmo mecanismo que lança um macaco em órbita pode ser usado num míssil balístico, e nesse caso viola as sanções da ONU.

Pra coroar a semana, na sexta-feira o próprio Ahmadinejad participou do anúncio do lançamento de um caça made in Iran” supostamente de quinta geração (invisível ao radar, etc.). É no mínimo suspeito, com um design cheio de falhas e que parece copiado dos modelos norte-americanos, falta de aviônica (apesar de ter algo muito parecido com um moderníssimo toca-fitas de automóvel no painel) e que se parece muito mais com uma maquete. O vídeo de divulgação mostra um avião ao longe que possivelmente é uma miniatura controlada por rádio. Mas não deixa de ser o anúncio de que o Irã estaria entrando num clube seleto, em que estão apenas os EUA, Rússia/Índia e China, e apesar de ser para “defesa”, teria obviamente as características de uma arma ofensiva. 

A ideia aqui é bem clara – pouco importa se o macaco voltou vivo (isso se chegou a ir pro espaço), ou se esse blefe que chamam de avião funciona (pra ser justo, pode realmente ser apenas uma maquete/mock-up do modelo, mas é difícil, considerando o perrengue econômico daquele país, que simplesmente não tem dinheiro pra fazer um avião dessa linha). Ahmadinejad quer mostrar seus brinquedos para o mundo, que olhem para o Irã com respeito (ou temor?), e nisso tem sucesso. No jogo de palavras, as intenções de Teerã ficam um pouco conflitantes, com a divulgação de um programa nuclear pacífico contrastando com os testes e ameaças. É demonstração de força, naquela linha de “a melhor defesa é o ataque”. A ideia parece ser que pareça robusto nas negociações, buscando ser um interlocutor de igual para igual com os EUA e amigos, e faz todo sentido – o problema é que até agora isso nunca deu sinais de ter funcionado. Resta o alívio para a estabilidade regional de que, por enquanto, se fica apenas na propaganda e no discurso mesmo.


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A invasão misteriosa

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Naqueles grandes filmes e romances policiais sempre há, no enredo, um crime misterioso. Todos eles começam quase que da mesma forma. Alguém morre. Um policial, detetive ou um interessado qualquer é envolvido de alguma forma na história. Começa-se, então, a buscar o tal assassino. A partir desse ponto que esses enredos podem mudar, sem que se altere esse esqueleto inicial. 

Mas e se, hipoteticamente, tivéssemos uma situação na qual se sabe claramente quem cometeu o crime, contudo, o alvo não é de conhecimento de ninguém. E, para piorar, uns juram de pés juntos que quem morreu foi Beltrano e outros confirmam que foi Fulano. Em um romance policial esse enredo talvez ficasse um pouco estranho. Contudo, para o Oriente Médio, é mais do que suficiente para gerar nosso mais novo bafafá internacional. 

Como comecei dizendo, não se sabe ao certo o que foi o alvo. Apenas que ontem houve um bombardeio de aviões israelenses em território sírio. O governo de Israel manteve aquela postura de sempre depois cometer alguma violação em território alheio. Silêncio. Agências de notícias dos Estados Unidos apontaram que, quase na fronteira com o Líbano, um carregamentos de mísseis antiaéreos de fabricação russa, os SA-17, foi alvo desses aviões. Já o governo sírio afirmou que as tais aeronaves voaram baixinho, abaixo do alcance dos radares, e destruíram um centro de pesquisa militar a 15km de Damasco. 

As condições nas quais o ataque ocorreu já são suficientes para render uma história interessante. Agora, adicionada essa completa divergência de informações, temos material para um best-seller. A situação toda é difícil de averiguar, principalmente, pela falta de detalhes do que tem ocorrido dentro da Síria, pelos locais que os supostos eventos ocorreram e pelo total silêncio de Israel. 

Olhando mais de perto o ocorrido, independentemente de qual das versões seja confirmada, houve aí uma clara violação de soberania da Síria. E, em caso de guerra civil ou não, invadir o espaço aéreo de um país e bombardear uma área qualquer (por mais ínfima que seja) sem o crivo da ONU é intervenção em assuntos internos. Basta lembrar de todo o problema que ocorreu na invasão do território equatoriano pelo exército colombiano para buscar o número 1 das FARCs em 2008 e das bombas e mísseis sírios que ultrapassaram a fronteira com a Turquia durante esse conflito atual (para mais, clique aqui). 

Uma violação que parece ter sido muito bem pensada por Israel, em caso de o alvo ter sido o carregamento de mísseis. Puro cálculo de estratégia e poder. Como o governo teme que o Hizbollah recebesse armamentos antiaéreos e conteste seu poderio de sua Força Aérea, destruir o carregamento enquanto ainda é transportado para o Líbano é a melhor forma de cortar o mal pela raiz. Isso porque, uma vez chegado no país vizinho, essas armas desapareceriam em estoques e túneis subterrâneos, podendo jamais serem localizadas novamente. 

Enquanto isso, do lado sírio, outro movimento foi muito bem pensado. O tal centro de pesquisa militar destruído foi, segundo a agência de comunicação do governo sírio, também alvo dos rebeldes, também conhecidos como CNFROS. Todavia, eles não tiveram sucesso em ocupá-la. Uma bela forma de ligar a atuação de Israel à Coalização para as Forças da Revolução e a Oposição Síria (CNFROS). 

A complexidade desse quase-romance policial cresceu ainda mais quando o Irã também anunciou que Israel poderia sofrer retaliações. O inimigo mortal do governo israelense aliado ao Hizbollah e a Síria de fato poderiam oferecer riscos. Mas no cenário atual, qualquer retaliação, por mais que não possa ser descartada, pode ser mais custosa que benéfica. 

A situação é complexa e, de certa forma, um retrato do funcionamento das relações internacionais no Oriente Médio. Uma região onde ainda a disputa pelo poder militar e o receio do crescimento do poder do outro são o imperativo. E que as forças armadas ainda ditam as regras.

[Para mais: 1, 2, 3, 4, 5]


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Afronta aos bons costumes internacionais

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A Coreia do Norte atacou de novo. Não, não houve nenhum ataque a um território concreto. Já basta a Guerra da Coreia que jamais teve um fim oficial decretado. O que houve foi outro claro atentado à moral e aos bons costumes das relações internacionais. Uma provocação à ordem estabelecida, à liderança dos Estados Unidos e, consequentemente, ao regime de não-proliferação nuclear. 

Ontem o país anunciou que fará outro teste nuclear em breve e defendeu que continuará com o lançamento de foguetes e mísseis de longo alcance. A declaração publicada pela agência estatal KCNA não veio do nada. Coincidência ou não, ocorreu dois dias após a resolução do Conselho de Segurança sobre novas sanções econômicas contra o país, no último dia 22. A resolução foi referente ao bafafá de 12 de dezembro do ano passado, quando a Coreia do Norte fez um teste de lançamento de foguete apontado pela Coreia do Sul e pelos Estados Unidos como um míssil balístico disfarçado, e não um meio de colocar satélites em órbita. 

E tão cedo quanto as declarações foram proferidas, seus efeitos já foram sentidos. Os Estados Unidos reagiram. Medo e disposição foram as palavras mais ouvidas. Medo das ogivas nucleares e de testes de mísseis balísticos bem sucedidos; pois, como já anunciou Kim-Jong-un, o Tio Sam seria o alvo principal. Disposição em agir com todas as medidas cabíveis. Nem mesmo uma invasão foi descartada. 

Isso nos faz pensar. Refletir que no mundo atual é muito difícil bater de frente com uma superpotência militar como os Estados Unidos, apoiada no sistema ONU. Por mais injusto que o regime de não-proliferação nuclear seja (pois o TNP garante que os países que já tem a bomba não precisem se livrar dela, enquanto que os que jamais tiveram não podem tê-la) aqueles que não aderiram a ele sofrem pressões constantes da ONU. Para conseguir afrontar essa superpotência, nem que seja com uns latidos um pouco mais altos, parece que se precisa de alguns pré-requisitos. Ter uma capacidade militar capaz de assustar o Tio Sam e sua trupe, ou seja, uma bomba nuclear e/ou armas químico-biológicas. Ser um regime fechado e isolado politicamente o suficiente para não se deixar influenciar demais por sanções do Conselho de Segurança e de órgãos regionais. 

A Coreia do Norte possui ambas as características. Acima de tudo, o governo norte-coreano fez questão de concentrar todas as forças em ameaçar diretamente os Estados Unidos. Uma situação intrigante, que remonta um pouco o caso do programa nuclear do Irã. Sanções econômicas no geral surtem pouco efeito. O isolamento político do país permite certa blindagem contra elas. A menos que toquem no calcanhar de Aquiles do país, no caso, o fornecimento de alimentos. 

Mas qual o objetivo internacional principal dessa política externa caótica? É difícil dizer. Minha aposta ainda é a do início do texto. Afrontar a falsa moral e os bons costumes internacionais, a ordem injusta estabelecida. Para tanto, o país buscaria afetar a balança de poder militar da Ásia e no mundo, tornando-se outro no seleto grupo de países com ampla capacidade nuclear e de mísseis balísticos. Agora se o país está perto ou não e se é apenas um cachorro que late demais e não morde é outro ponto complicado. Na dúvida, os EUA se preparam.


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Bombas nucleares, mísseis, drones e afins

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Foto de um drone, aeronave de combate não tripulada,

retirada do ensaio “O efeito dos drones em regimes e conflitos internacionais”

de autoria de Rafael Dantas e disponível aqui.

Fonte: Cenário Estratégico

Passados quase doze anos dos atentados terroristas do 11 de Setembro, uma designação proferida pelo então presidente George W. Bush no ano seguinte, em 2002, em seus habituais discursos ainda tem um peso muito grande nos dias de hoje. Trata-se do bem conhecido “eixo do mal”, composto por Irã, Coreia do Norte e Iraque, os quais, para os norte-americanos, ameaçam as tão almejadas paz e estabilidade internacionais. 

Paralelo a eles, ainda temos Cuba, Líbia e Síria, mas meu enfoque será nos dois primeiros países citados anteriormente. Irã: suspeito de enriquecimento de uranio para fins militares, alvo de inúmeras sanções econômicas, isolado politicamente no Oriente Médio, único a fazer frente ao poderio dos EUA na região. Coreia do Norte: um dos regimes políticos mais fechados do mundo, vizinho barulhento da Coreia do Sul, incógnita permanente e, do mesmo modo, receptor de sanções. 

Inicio pelas armas nucleares. Os iranianos já têm tecnologia suficiente para enriquecer urânio e plutônio (eu acho, não sou especialista) na escala de 20%. Para se fazer uma bomba, é necessário mais do que isso, mas nada muito além. Lembremo-nos da Declaração de Teerã e do acordo Brasil-Irã-Turquia sobre esta questão. A Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) vem tentando averiguar este desenvolvimento, mas sem muito sucesso. “We are prepared for everything”, afirmou o Ministro de Relações Exteriores iraniano, Ali Salehi. Já do lado da Coreia do Norte, tem-se mais incerteza ainda. Sabe-se que o país realiza testes frequentes em águas adjacentes e conseguiu lançar foguetes via satélite com sucesso nos últimos meses. 

O Irã é o único país do Oriente Médio capaz de balancear poder com os EUA. Tem um histórico de confrontação com as monarquias do Golfo Pérsico (Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos e assim por diante) e a maior frota aérea da região com cerca de 400 aviões de combate. Evidentemente, possui um Programa de Mísseis Balísticos. Já na Ásia, os norte-coreanos estão fomentando a criação de mísseis móveis, os KN-08. Ninguém sabe ao certo a sua aplicabilidade, só que os testes sempre são considerados um sucesso. Sucesso para que? Para alcançar alvos fora do continente. 

E os drones? Eles são notadamente conhecidos como aeronaves de combate não tripuladas e foram utilizadas pela primeira vez na década de 1980 em pleno conflito Irã-Iraque. Quem possui este tipo de tecnologia são, em sua maioria, países ocidentais ou que estão sob o crivo da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN). No final do ano passado, os EUA propuseram a venda dos RQ-4, drones espiões, à própria Coreia do Sul, gerando ceticismo sobre a estabilidade regional com o vizinho do norte. Na gíria do dia-a-dia, o “papo reto” é observar mesmo o que o “eixo do mal” faz ou deixa de fazer.

Conclusões? Irã, Coreia do Norte, EUA ou quem mais for, estão armados até os dentes. E pensar que a Guerra Fria é passado…só resta ver que o debate está mais quente do que nunca.


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Os males de Mali

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A próxima moda do noticiário de intervenções armadas vai ser o Mali. O que surpreende um pouco já que a coisa estava feia por lá desde o ano passado (e pouco se comentou por essas bandas). Como havia comentado em outro post, o Mali se tornou uma espécie de mini-Afeganistão, com grupos islâmicos radicais ligados à Al Quaeda tomando a porção norte do país e com tudo levando a crer que formariam um novo santuário terrorista. Pra evitar maiores problemas, a ONU deu um aval tácito a uma intervenção e só faltava alguém para sujar as mãos. Quem se voluntariou foi a França, que justificou a ação com base em “estar em guerra com o terrorismo” (já não vimos isso antes?) e o fato de o Mali ser uma ex-colônia, o que incorreria nesse “dever” histórico de ajuda. Claro que tem outros interesses por trás, e a França não se faria de rogada pra fazer propaganda bacana dos Rafale. 

O fato é que os ataques começaram na semana passada pra valer, com bombardeio a campos de treinamento e coisas do tipo. A expectativa é que a intervenção acabe em coisa de semanas, mas a julgar pelo histórico desse tipo de expediente é bom pegar uma cadeira pra ver o que vai rolar. Países como Reino Unido e EUA estão ajudando (novidade), o CS da ONU vai discutir o assunto nessa semana para dar respaldo e até mesmo tropas africanas (lideradas pela Nigéria) se preparam para entrar no Mali e conter a insurreição. 

É mais uma questão de manda quem pode, obedece quem tem juízo. Mesmo que haja problemas de legalidade na ação francesa (e toda aquela questão de soberania), quem vai impedir? A impressão que fica é de que a ação é “boa” pra todo mundo (que não seja a Al Quaeda), então tanto faz, nessa terra de ninguém da política internacional que é a África subsaariana (apesar de ficar na região do Saara…enfim, é aquele caos que todos conhecemos). Ironicamente, o único resultado concreto, até agora, foi a troca de uma possibilidade de ameaça pela certeza dela, já que os grupos que tomaram a região anunciaram que a França está atacando o Islã, e vão revidar. Sacrebleu!


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Queima de fogos

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O ano novo já passou mas tem gente soltando rojão até hoje. E do jeito que as coisas estão, vamos ter uns fogos de artifício bem assustadores no Oriente Médio. Foi noticiado que os EUA e aliados da OTAN começaram a mandar mísseis para instalar na Turquia, sua aliada, em resposta a possíveis agressões da Síria (que continua na mesma matança de sempre). 

A história não é nova. Muita gente não sabe, mas quando a União Soviética mandou os mísseis nucleares para Cuba em 1962 (e deu no que deu), não foi uma “agressão” gratuita, mas sim uma resposta à instalação de mísseis norte-americanos em vários países, incluindo a Turquia. Não é nenhuma novidade. Mais do que proteger um coleguinha da OTAN, a mensagem parece clara para os países da região: após a catástrofe na Líbia, a palavra de ordem é “sosseguem o facho”, e os EUA parecem não querer que as coisas saiam do controle como no norte da África. Como dissemos em outras postagens, o perigo de a crise síria se espalhar é muito grande e seria danoso para muita gente, especialmente os EUA, que se veriam na urgência de acudir aliados como Turquia e Israel. 

O principal destinatário desse recado, mais do que Assad, parece ser Ahmadinejad. O Irã está prestes a entrar em negociações com seis potências (EUA, Rússia, França, Grã-Bretanha, Alemanha e China) acerca de seu programa nuclear, ao mesmo tempo em que realizou testes de lançamento de mísseis avançados nos últimos dias. É aquela velha conversa de morder a assoprar, e o governo de Washington parece estar farto. Isso pra não entrar na questão do apoio velado do Irã aos palestinos de Gaza, que uma hora vai trazer Israel pro bolo e não demora nada para os fogos começarem a estourar. Para os EUA é muito mais interessante (tentar) mostrar quem manda do que ter apagar um rastro de pólvora em um barril que já explodiu. 

Os EUA podem ter perdido influência e até mesmo o posto de ter o seu presidente como o homem mais poderoso do mundo (honraria que a Foreign Policy deu ao presidente russo Vladmir Putin, na falta de um ocupante para o primeiro lugar), mas com essa atitude preventiva mostram que não largam o osso tão cedo naquela região. Ainda valem as duas faces da política externa de Aron, com as figuras do diplomata e do soldado, e os EUA mostram que ainda tem muito gás em qualquer uma delas.


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