Há um ano...

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Há um ano o blog tratava de alguns assuntos que mantém sua atualizade mesmo hoje. Parece chavão, mas deve ser uma das provas de como a evolução do processo internacional é lenta e gadual…

No dia 9 de agosto, comentávamos sobre os 65 anos das bombas atômicas lançadas sobre o Japão na II Guerra Mundial. O final do texto falava um pouco desse pesadelo nuclear ainda ser uma ameaça real e até mesmo absurda no mundo de hoje. Ironia do destino, ou um presságio funesto, no ano seguinte o Japão se vê assolado novamente por esse terror, claro que por razões bem diferentes, mas que ainda assim mostra como a energia nuclear pode ser um tema controverso e que desperta debates apaixonados. Num momento, é a salvação da lavoura com o “fim” do petróleo, e até ambientalistas dão o braço a torcer; noutro, é desculpa pra radicais fazerem bombas atômicas ou uma ameaça latente nos reatores nucleares mal-administados…

No dia 10, comentávamos sobre as relações entre Colômbia e Venezuela. Com a saída de cena do combativo Uribe, havia a expectativa da reconciliação de seus líderes Chavez e Santos, encarada como um “espetáculo”, quase que planejada. Dito e feito: os países estão em bons termos novamente, e o espetáculo continua, agora com o tratamento médico de Chavez. Sua luta aguerrida e otimista contra o câncer acaba sendo uma mostra de tenacidade que tem tudo pra aumentar muito sua popularidade (já está confiante para as eleições de 2012), principalmente nesse contexto de crise em que a Venezuela se encontra.

Por fim, no dia 13, falávamos da “síndrome de Dom Quixote”, que nas Relações internacionais parece afetar muitos líderes mundiais, em que atitudes consideradas sem muito juízo na verdade são revestidas de interesses bem específicos. Os eventos recentes no Oriente Médio, em que vemos mandatários enviando suas forças armadas pra enfrentar civis, da Síria à Líbia, mesmo com a condenação internacional, mostram o quanto essa “loucura” parece estar preesente no dia-a-dia internacional.

É isso aí pessoal, postando e relembrando.


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Reflexões para o futuro

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Uma questão intrigante para começarmos, que expressa bem a redistribuição global do poder e o reposicionamento dos países no mundo, é o Conselho de Segurança da ONU. Todos sabemos que a missão central do organismo é zelar pela paz e segurança internacionais. Também sabemos que isso inclui deter um poder militar condizente a essa missão, certo? Pois bem, de acordo com os dados do site Global Firepower, a França não mereceria mais ocupar um assento permanente, já que ocupa apenas a 8ª posição, atrás de três países emergentes: Índia (4ª), Turquia (6ª) e Coreia do Sul (7ª). Mas é claro que esse posto também é assegurado por razões históricas, prestígio e poder econômico. Neste último aspecto, os top-5 deixam a desejar ainda mais: não apenas pelas consequências da atual crise financeira que enfrentam, senão pela posição que ocupam na economia mundial, de acordo com PIB. Reino Unido e França, por exemplo, ocupam, respectivamente a 8ª e 9ª posição.

O agravamento da violência na Síria, que suscita uma resolução de condenação pelo Conselho de Segurança e abre espaço para uma possível intervenção militar, é um exemplo da manifestação das transformações em curso no âmbito do poder global. As potências tradicionais, notadamente Estados Unidos e Europa, querem adotar a resolução, enquanto os países emergentes, principalmente Brasil, Índia e África do Sul, são contrários. De um lado, uma estratégia de força; de outro, uma estratégia de fala. A dúvida é: qual o limite para as duas serem levadas separadamente e de que maneira elas se relacionam? Este debate provavelmente permanecerá em aberto e trará tanto dificuldades para administrar a ordem mundial quanto possibilidades mais amplas para a cooperação. Uma coisa é clara: não é mais possível prevalecer apenas a opinião das potências tradicionais. O Concerto Europeu ou a Pax Americana pertencem à história.

A prevalência de uma opinião absoluta do Ocidente pseudo-hegemônico silencia riscos importantes. Mesmo o terrorismo é preciso ser desmistificado. A Guerra Global contra o Terror, capitaneada pelos Estados Unidos, infundiu um maniqueísmo sem precedentes – “ou vocês estão conosco ou contra nós” – e marchou sobre a diferença, denegrindo a imagem de religiões e povos. Quer exemplo melhor dessa situação do que o ocorrido na Noruega? O dedo acusador do governo apontou um muçulmano como culpado, quando, na verdade, era um nacional da extrema direita. (Vejam estes dois artigos 1 e 2, de um professor de Filosofia da UFRGS e do ex-Ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, respectivamente). Mais do que isso, demonstrou que o terrorismo não está “lá fora” ou é praticado por quem vem de fora, e sim que é algo endógeno. Aliás, é só pensarmos: além do 11/09, Madri e Londres, quais foram os grandes atentados terroristas tidos como globais?

O terrorismo ainda conduziu a uma espécie da amnésia coletiva. Não é apenas a política conduzida de maneira extrema que mata, a ausência da política é igualmente fatal. Previsões indicam que a população mundial deve ganhar a adição de mais 1,2 bilhões de pessoas, o que provocará pressão sobre os recursos alimentares, energéticos e hídricos. É calculado que a demanda por esses recursos aumentará entre 30-50%, já levantando o problema da escassez. Hoje, as estimativas são de que um em cada cinco habitantes do planeta não tem acesso à água potável, sem contar que cerca 70% dela, em nível mundial, é utiliza para a irrigação. Dois dados já antigos, que prevalecem praticamente semelhantes hoje, em 2002, 1,2 bilhões de pessoas viviam com menos de um dólar por dia; com menos de dois dólares diários, esse número se elevava para 2,8 bilhões. A questão é que problemas como esses não aparecem todos os dias na TV ou na internet.

Caetano Veloso já cantava, “Alguma coisa/ Está fora da ordem/ Fora da nova ordem mundial”, agora, acontece. Por um lado, os países que sobem e os que descem precisam encontrar mecanismos comuns para a governança global, por outro, devem permanecer atentos aos novos riscos. Do contrário, não será mais uma escolha entre a vida e morte, mas entre a escassez e a morte. Costuma-se dizer que toda civilização evolui quando atinge um ponto crítico. Será que chegamos ou precisamos chegar a um ponto mais crítico para evoluir? Em algum canto do mundo, as pessoas estão morrendo não pelas decisões que os países estão tomando, mas pelas questões que estão deixando de tratar, por esquecimento ou impasses. Infelizmente…

[As informações para este post foram coletadas, principalmente, no site do PNUD.]


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Tragédia de Primeiro Mundo

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Agora que a poeira assentou, parece ser um momento oportuno pra falar sobre a tragédia ocorrida na Noruega. Pra quem não sabe, na semana passada um maluco explodiu um carro-bomba em Oslo e chacinou jovens em um encontro do Partido Trabalhista, totalizando 93 mortes até o momento.

Apesar de se suspeitar do bom e velho fundamentalismo islâmico, o maluco da vez se chama Andres Behring Breivik, um radical cristão de extrema-direita com um plano meio audacioso de limpar a Europa dos muçulmanos e marxistas. Fosse nos EUA, onde se compra munição no mercadinho da esquina, até se esperaria algo assim (na verdade, virou algo bem comum por lá), mas na Noruega, onde o tempo de prisão máximo é de 21 anos e pode ser abreviado pela metade por bom comportamento (é o preço da reabilitação no primeiro mundo…), é um choque.

Fundamentalismo por fundamentalismo, de cristão a muçulmano, todos são nocivos. Mas o problema maior talvez seja a relação das políticas de segurança da região. Quando ocorreram os ataques, pipocaram análises sobre sua possível relação com terroristas islâmicos infiltrados, a participação da Noruega no Afeganistão e na Líbia, entre outros. Isso seria algo realmente problemático, por que se os ataques a Madri e Londres se deram como represália ao apoio às políticas de intervenção dos EUA, no momento atual o caso é completamente diferente – e isso implicaria em rever políticas de segurança da região como um todo (agora vista como um alvo “isolado”, sem precisar da justificativa de aliança com os EUA pra ser atacada). Mesmo não sendo esse o caso, cabe pensar na própria política norueguesa, pois ainda assim temos repercussões na União Européia como um todo.

Isso por que tudo que o terrorista conseguiu obter para seu massacre foi feito de maneira legal (das armas de caça e munição comprada em outros locais da Europa ao fertilizante que usou nas bombas), e claro que o que é posto no centro dessa discussão é a questão do porte de armas. Mesmo que seja para a caça, ocorreu alguma falha no sistema de regulamentação que deixou um radical notório obter munição pesada, trafegar livremente com ela pela Europa e entrar no país sem nenhum problema. Não se trata apenas de rever a liberdade prevista na Noruega, mas regulamentar essas situação na UE como um todo. Isso é um desafio: se não há nem a discussão em relação a temas menores, mas polêmicos, como o porte de armas e munições, quanto mais os complicados e abrangentes. Isso tudo em meio aos problemas econômicos e políticos (especialmente no tópico “imigração”) da UE. Mas se a idéia do bloco é unificar políticas como um todo, já passou da hora de pensar nessas questões.

Enquanto isso, restam as condolências pelas vítimas, e a perplexidade de que haja esse “Bin Laden loiro de olhos azuis”.


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Post do leitor – Danillo Alarcon

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[Hoje temos uma postagem muito oportuna e especial do nosso colega Danillo Alarcon, graduado em Relações Internacionais pela Unesp-Franca e mestrando também em Relações Internacionais pela UnB, sobre a emancipação do Sudão do Sul. Aproveitem! E lembramos que se quiserem escrever para o blog, basta mandar o texto para o e-mail da Página Internacional – [email protected], fiquem à vontade para participar]

É bom chamar o síndico: al-Bashir e seu novo vizinho

O cenário internacional está em constante mudança. A imagem congelada do mundo que temos nos mapas e globos que ornamentam bibliotecas e escolas não dá conta deste processo, e a atualização é constante. Neste início do século XXI, algumas mudanças são consideráveis dentre as quais a criação de Estados como o de Montenegro, o de Kosovo, o de Timor-Leste e mais recentemente o do Sudão do Sul. A criação de um novo Estado suscita um bom número de questões importantes, desde o seu reconhecimento à própria forma como este foi criado. Este artigo tem, assim, por objetivo enfrentar algumas questões referentes à situação no Sudão do Sul, recém criado a partir da divisão do antigo Sudão.

A primeira consideração a ser feita é em relação à própria forma como esse novo Estado, com capital em Juba, foi criado. Um referendo foi adotado para tal consulta. Apesar da influência internacional pressionando para a aceitação deste tipo de meio político, Cartum – agora capital do ‘novo’ Sudão – respeitou e reiterou seu compromisso com os resultados obtidos em janeiro de 2011. Omar Al-Bashir, atual presidente do Sudão, demonstrou que a voz e os anseios do povo são dignos e passíveis de serem ouvidos, onde quer que se esteja. Ponto para as teorias democráticas neste quesito.

A influência estrangeira em assuntos internos de determinados países é o segundo elemento a ser ressaltado. O Estado hodierno não é este ente ‘mágico’ que muitos acreditam ser – indivisível, inviolável e insuperável. Aliás, quanto mais dependente economicamente, mais vulnerável se torna um Estado. Esta situação é, contudo, aplicada aos grandes países, que agora tem acesso às reservas de petróleo do Sudão do Sul, sem passar pelo empecilho “Omar al-Bashir”. Ou seja, a criação do novo Estado ressalta também a situação de emergência em que se encontram os consumidores de produtos advindos do petróleo.

A questão econômica é deveras importante, e é destacada como a terceira questão aqui analisada. O novo Estado congrega ao longo de sua fronteira norte boa parte das reservas de recursos naturais que antes pertenciam ao todo. Há inclusive uma zona fronteiriça que ainda está sendo contestada pelas duas partes. De um lado, há um enorme potencial para um conflito, entre dois Estados independentes, ou seja, não mais seria uma guerra civil. Isso poderia acarretar a influência de outros atores e fatores na possibilidade de um conflito. Do outro, existem possiblidades de cooperação, pois a estrutura para exportar e submanufaturar os produtos extraídos no sul, estão no norte. O interessante é que há possibilidades de escolhas, e o resultado disso só virá com o tempo. Além desta questão, deve-se ressaltar o peso que haverá de ter a China no novo país criado, já que no Sudão de al-Bashir ela é a grande investidora.

O quarto ponto ressaltado está relacionado às dificuldades ainda sentidas pelo ser humano em conviver com o diferente. Um dos fatores que motivou a divisão dos dois países foram as diferenças religiosas e étnicas. O sul é majoritariamente cristão e animista, enquanto que o norte é islâmico. Como o próprio termo já ressalta, cada novo país é “majoritariamente” uma coisa ou outra, o que reascende a preocupação de todos para com a situação criada nos novos países, e atenção deve ser dada ao trato das minorias em cada lado da fronteira. Além do mais, a situação no ‘novo’ Sudão não é nada animadora para boa parte da população que vive na região de Darfur, e nem mesmo para o Sudão do Sul, onde convivem mais de 60 etnias, com potencial para severas divergências.

A divisão de um país, devemos ressaltar, não cria somente um outro país, pois o Estado original deixa de existir para dar lugar a duas ou mais entidades. Essa pode ser a chance para um novo começo, mas “enquanto o mundo continua parolando”, nem o Sudão nem o Sudão do Sul têm reais condições de proporcionar boas condições de vida para sua população, quanto mais de assegurar a paz entre si, Al-Bashir continua sendo o mesmo facínora de antes da divisão e movimentos de resistência continuam causando muitos problemas nos dois lados da fronteira. Há, claro, motivos para comemorar, mas há muito trabalho a fazer, e neste quesito, os atores internacionais – quaisquer que sejam (outro Estados, organismos internacionais, ONGs, indivíduos, etc) – têm deixado muito a desejar.


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Há um ano...

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Nas Relações Internacionais, uma coisa puxa a outra. Há (cerca de) um ano, duas postagens da Página Internacional se referiam ao tema do Oriente Médio e seus problemas intermináveis. No dia 6, Giovanni comentava exatamente sobre esse aspecto de déjà vu quando analisamos a questão da paz na região, então pautadas na negociação com os EUA em um misto de ceticismo e esperança. Em seguida, no dia 10, Luis Felipe comentava sobre as negociações e como não frutificaram. A conclusão (como era de se esperar) foi de que o processo de paz na região estava muito longe de se concretizar…

Vamos transpor essa questão para outra região, não menos conturbada? O Afeganistão e seus vizinhos estão em situação igual ou pior à do Oriente Médio, sem vislumbrar uma saída próxima. Com Bin Laden morto, os EUA estão se retirando o mais rápido possível, e deixam o abacaxi dos insurgentes para o próprio governo afegão. E os problemas não se restringem às suas fronteiras.

O mais imediato é o Paquistão. As suspeitas de colaboração interna ao terrorista por lá e o mal-estar que se seguiu à operação dos SEALS está causando muitos problemas no até então maior aliado dos EUA na região. Estes vão cortar um bom naco da ajuda militar que prestavam ao Paquistão, tudo indica que a violência no país aumentou desde que se deu a eliminação do homem mais procurado no mundo, e já se diz que seu sucessor teria dado as caras em regiões isoladas, o que obviamente tende a piorar a questão.

Outro em maus lençóis é o Quirguistão. Com o fim das operações no Afeganistão, existe uma grande probabilidade de que seja fechada a base norte-americana no país (o principal ponto de abastecimento dos EUA para as missões em território afegão), que além de gerar alguns atritos com a Rússia é uma grande fonte de renda para o país, com o aluguel e taxas administrativas. A perda dessa fonte de renda seria por demais danosa a um país ainda imerso no caos da reconstrução após a turbulência política do ano passado, e onde acusações de impunidade e violência são constantes.

A solução de conflitos no Oriente Médio parece um problema sem fim, mas do jeito que as coisas andam não vamos ter um quadro muito diferente nessa região montanhosa da Ásia, nem daqui a um ano, nem um futuro próximo…


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Um senhor respeitável

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Há algumas semanas estávamos comemorando os 20 anos de democracia na Rússia. Pois bem, hoje temos um aniversario ainda mais expressivo, o do nonagenário Partido Comunista Chinês. Ao contrário da democracia surgida com o fim da União Soviética, que anda meio mal das pernas, o governo de Pequim (não me venham com Beijing) está firme e forte como nunca. Mas é um aniversario sem ter muito que comemorar.

A economia chinesa, até segunda ordem, vai bem, obrigado. Claro que tem o problema da inflação, mas nada que não se consiga contornar. Acho que é o que podemos chamar de males do crescimento… Agora, se nos últimos anos a economia se abriu, as expectativas de abertura política parecem diminuir à medida em que o partido envelhece.

Havia uma esperança de abertura com a sucessão de Hu Jintao, mas com a provável ascensão de Xi Jinping em 2012, considerado conservador, vai persistir a o padrão de atuação política atual e truculência no trato com os insatisfeitos. Com medo dos efeitos da “primavera árabe”, o governo chinês aumentou a repressão e passa esse aniversário no vermelho, literalmente, reforçando símbolos dos “bons tempos”. É a boa e velha propaganda em seu sentido original, de difusão política. Enquanto isso, aumentam incertezas e continuam pipocando os que protestam contra a corrupção e abusos.

Governos opressores não duram para sempre – nessa mesma semana, por exemplo, começa o julgamento dos últimos 4 líderes vivos do Khmer Vermelho (o então governo comunista do Camboja, que foi responsável pela morte de cerca de 2 milhões de pessoas, e é o caso mais absurdo e truculento de como os regimes comunistas lidavam com seus cidadãos). É pouco provável que haja um novo massacre da Praça da Paz Celestial, mas vai ser gradualmente mais difícil a esse governo, cada vez mais fechado e defensivo, que continue a manter os ânimos apaziguados sem que ocorra algum incidente mais grave.

Além do mais, um país não pode viver só de uma economia pujante, e se essa degringolar, aí a coisa fica feia. O partido continua firme, e ainda vai fazer muitos aniversários. Mas, até quando?


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Será que eles aprenderam?

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Boa pergunta! Mas eles… eles quem? As grandes potências, vivendo em tempos de impotência econômica e incompetência política, ainda querem dizer que reinam absolutas no mundo, quando se trata de manter a paz e segurança internacionais. França, Reino Unido, Estados Unidos e Alemanha, valendo-se da velha estratégia da OTAN do pós-Segunda Guerra, pretendem recorrer à força para estabilizar a situação na Síria.

Ora, ressalta-se, certamente ninguém deixaria de reprovar a violenta repressão do governo sírio contra as manifestações civis. Porém, é preciso refletir se o uso da força realmente é a maneira mais apropriada para conter a repressão e trazer a estabilidade novamente para o país. A princípio, prevalece uma zona obscura na resolução contrária à Síria que está tramitando no Conselho de Segurança: pede-se o fim da violência, a libertação de presos e que o próprio povo sejam os agentes das reformas, notadamente políticas, até então prometidas, mas negligenciadas pelo governo. Não está claro se serão adotadas sanções econômicas, diplomáticas, e nem fecha qualquer possibilidade para uma eventual intervenção militar.

Aqui reside o problema. O Brasil, bem como os países dos BRICs, deve votar contrário à resolução, no esteio dos desdobramentos observados na Líbia. Ao contrário do que se imaginava, a resolução 1973 não se limitou ao estabelecimento de uma zona de exclusão aérea. Serviu também para alimentar os escondidos desejos iniciais da queda de Kadafi, agora bem expressos, e levou a morte de civis. Tudo bem que aí vêm os franceses e dizem que “cada caso é um caso”, só que se esquecem de casos recorrentes em que a pretensa intervenção salvadora criou uma insuperável desestabilização: Afeganistão e Iraque. É claro que pode ter uma escola a mais aqui, um hospital acolá, e inclusive o fim de governos perversos, mas a violência se tornou endêmica, corroendo as entranhas de toda e qualquer ordem jurídico-legal que se tenta estabelecer.

Em caso de intervenção, por que seria diferente na Síria? Só por que é considerado o regime mais ‘ocidentalizado’ do Oriente Médio? Primeiro, existe um “paradoxo da proteção de cidadãos” recorrente: ao mesmo tempo em que se busca protegê-los, acaba os matando. Por mais que os exércitos venham se preparando para atuar em ambiente urbano, com estratégias de contra insurgência, é cada vez mais difícil distinguir o civil do inimigo. Segundo, supondo-se que caia o presidente Bashar al Assad, seria possível manter a ordem institucional, com um governo fantoche ou sem governo algum? O primeiro deve despertar o repúdio nacional, o segundo é impossível. A Síria, com seus alauítas, sunitas, xiitas, etc. e tal, não é uma Bélgica, capaz de superar as rivalidades entre franceses e flamengos e manter a ordem sem governo por quase um ano. Terceiro, os sírios realmente desejariam uma intervenção estrangeira?

E aí, intervir ou não intervir? As ditas grandes potências devem pagar um preço alto pela estabilidade da Síria, se recorrem ao uso da força. Vão colecionar mais uma guerra desnecessária e acentuar o atual desgaste do status quo que enfrentam. As potencialidades do passado não são mais inteiramente aplicáveis ao presente. Melhor não arriscar!


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20 anos com corpinho de 90…

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Nesse fim de semana a Rússia fez 20 anos – ao menos, sua democracia, pois em 1991 era eleito Boris Yeltsin e terminava o sombrio período do desmoronamento da União Soviética. Indícios de uma era de paz e prosperidade pós-comunismo? Nem tanto, pois a primeira coisa que fizeram foi invadir a Chechênia, e repartir todo o aparato estatal entre oligarquias misteriosas que encheram as listas de “mais ricos do mundo” de magnatas russos.

Em 20 anos, o que conseguiram? 3 presidentes, uma certa melhora em níveis de vida, crises econômicas, alguns atritos com países vizinhos, o direito de sediar uma Copa do Mundo… Bem parecido com o Brasil pós-1988 não? Fora o número de presidentes, o Brasil e a Rússia passaram por poucas e boas desde que adotaram formalmente a democracia. Qual a diferença primordial? A Rússia ainda tem muita influência na política mundial. Não apenas por sua cadeira permanente herdada da URSS no Conselho de Segurança da ONU e as centenas de ogivas nucleares em sua posse (ainda a segunda reserva destas em número no mundo; vale lembrar uma antiga piada: os EUA disseram à URSS que tinham um arsenal nuclear capaz de destruir o mundo 10 vezes, ao que os soviéticos respondem que se quisessem seu arsenal bastava para fazê-lo uma única vez…), mas pela capacidade de influência na região e mesmo na Europa. Basta ver como decisões da UE ou da OTAN sempre levam em consideração as possíveis reações russas.

Por isso podemos dizer que a Rússia tem um corpo de 90 anos – afinal, muito de seu poder e instituições são herdeiros diretos da URSS, e se criou uma situação paradoxal. Se a China é um país comunista atípico, “capitalizado”, ao mesmo tempo a Rússia é uma democracia consolidada, mas ao mesmo tempo “ditadorizada”, com eleições livres, oposição organizada e afins, mas onde opositores são marginalizados e eliminados sumariamente, o Estado é truculento e sua burocracia é rígida, centralizada, e serve aos interesses de um hiperpresidencialismo. Nas mãos de Putin e Medvedev, ficou bem claro nas entrelinhas de seus projetos políticos o desejo pela nova ascensão da Rússia como potência mundial, e para isso o Estado precisaria de mão forte. Há até mesmo quem diga que as recentes rixas entre os dois sejam uma mirabolante manobra planejada por Putin para mostrar que existe dissonância interna e legitimar sua eventual terceira vinda ao poder.

Teorias da conspiração à parte, o fato é que a democracia russa cambaleia, fragilizada ao longo de 20 anos de tratamento de choque. E o irônico é que, enquanto persistir essa estrutura vertical e robusta de poder político centrado, essa nova e sui generis democracia russa ainda vai fazer muitos aniversários…


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Personagens da história

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Coronel Ryszard Jerzy Kukliński (1930 – 2004): o traidor herói

 

O que poderia levar um oficial do exército a cooperar com um inimigo? Existe algum contexto que transforme tal personagem em herói? Historicamente, governos utilizaram atividades de inteligência e contra-inteligência com o intuito de obter vantagens estratégicas frente a adversários em potencial. Nesse sentido, ter um informante próximo ao alto comando do outro lado representa um bilhete de ouro.

A Guerra Fria dividiu o mundo, todos os integrantes de comunidade internacional elegiam seu bloco político, econômico e ideológico. Outros países simplesmente se viram cooptados ou anexados por uma das grandes potências. A coexistência pacífica é um dos momentos mais obscuros da história, especialmente devido à garantia da mútua destruição em caso da eclosão de conflitos massivos entre a OTAN e o Pacto de Varsóvia.

As alianças militares OTAN (Estados Unidos e aliados) e o Pacto de Varsóvia (União Soviética e aliados) traçavam planos para cenários de confrontação direta. Oficiais de ambas as partes destacavam a natureza eminentemente dissuasória e contra-ofensiva de suas estratégias. Historiadores e analistas contam em primazia com fatos históricos construídos a partir da veracidade de tais depoimentos. Houve, no entanto, quem desafiasse a ordem natural dos eventos.

O nosso personagem da história é o Coronel Ryszard Jerzy Kukliński (codinome Jack Black), oficial do exército polonês e participante de discussões sobre as próximas ações do Pacto de Varsóvia. A lembrança dos excessos cometidos na repressão aos protestos de 1970 na Polônia e a preparação para a invasão da Tchecoslováquia foram determinantes para a cooperação estabelecida pelo Coronel com oficiais norte-americano. O principal temor de Kukliński era a possível destruição ou sofrimento que o alto escalão do Pacto de Varsóvia não hesitaria em impor sobre o povo polonês caso o pior cenário de confrontação com a OTAN irrompesse.

Entre 1972 e 1981, o Coronel forneceu mais de 40.000 páginas de documentos secretos soviéticos aos norte-americanos, por intermédio de agentes da CIA presentes na Polônia. Kukliński e sua família foram removidos de Varsóvia e refugiados nos Estados Unidos. A cooperação ilegal do oficial com o governo americano foi julgada no início da década de 1980, culminando na sua sentença de morte. O colapso da União Soviética e a subseqüente libertação polonesa não foram suficientes para o cancelamento do julgamento de Kukliński. Somente em 1997 caiu sua sentença, possibilitando uma visita à terra natal.

O julgamento histórico ainda segue em construção. Contudo, o conhecimento prévio dos planos estratégicos soviéticos foi importante para a manutenção de estratégias, por parte da OTAN, voltadas para a dissuasão. A imprevisibilidade e a incerteza, as quais poderiam levar a ações mais extremas, foram suplantadas por informações-chave repassadas por um informante dentro do Pacto de Varsóvia. De uma forma ou de outra, Kukliński viu sua Polônia segura e finalmente livre, ainda que somente pela televisão.


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A audácia da desesperança

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Até que ponto os Estados Unidos estão na página errada da história?

Obama realizou o anseio premente de uma nação através da operação que vingou os atentados terroristas do 11 de setembro. No mais recente capítulo da saga norte-americana, o presidente fez um esperado pronunciamento sobre as revoluções no Oriente Médio e as perspectivas para o processo de paz entre palestinos e israelenses. Os pontos principais a se destacar foram as demandas com relação à atuação de Israel em territórios originalmente palestinos (de acordo com resolução das Nações Unidas de 1967) e a promessa de financiamento para projetos que fortaleçam a democracia nos países de região.

Pouco ou nada mudou. Israel é um dos aliados mais antigos dos Estados Unidos e o compromisso elementar da parceria é a manutenção da segurança dos israelenses. Obama já havia, em outras oportunidades, solicitado o congelamento da expansão dos assentamentos em territórios palestinos. Netanyahu, primeiro-ministro de Israel, não parece dar atenção às demandas. Não há indícios que um discurso, repleto de intenções, do principal aliado tenha força suficiente para ensejar mais uma rodada de negociações. Israel tem forte resistência interna a qualquer ajuste. No final das contas, Netanyahu reconhece que as discussões devem ser baseadas nas fronteiras definidas em 1967, porém nunca as mesmas serão restabelecidas por representarem riscos à segurança dos israelenses.

Não só Obama não disse nada novo, muito menos algo que mudasse a figura das negociações, como abriu um precedente para Netanyahu destacar a posição oficial de seu país. O destaque, novamente, foi retórico. Vieram à tona os “valores” e o “dever” norte-americano de promover a democracia pelo mundo. As revoluções no Oriente Médio já ocorreram, algumas seguem em andamento, e suas motivações e seus líderes foram gestados internamente. Para piorar, muitos dos governantes depostos foram aliados de longa data dos americanos. Nesse sentido, estariam os Estados Unidos lendo os livros de história errados?

Como em um “revival” de outros momentos históricos, os norte-americanos ficaram à margem do que ocorreu. Contudo, dessa vez sua participação não foi encoberta, os revolucionários não foram patrocinados pela CIA, nem mesmo se previa tal cenário. Obama tenta marcar posição por meio do discurso, garantindo seu país na página certa da história. Será? Ontem, a TV Cultura mostrou um documentário sobre a invasão do Panamá em 1989, a mesma que forçou a renúncia do ditador Noriega. Os princípios, os valores, a influência e o poder bélico seguem quase os mesmos; as ações e os resultados não. A região que se tornou o eixo estratégico para a política externa norte-americana, o Oriente Médio, se liberta de seus ditadores sem uma participação tão profunda da (ainda) maior potência mundial.

Obama, representante da esperança e audácia pela mudança, ruma forte para a reeleição. No plano externo, nada mudou, nem parece que vai. Até o Super-Homem não acredita mais, afinal verdade, justiça e o “american way” não são mais suficientes.


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