Vinícius, eterno!

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[O colaborador Giovanni Okado nos brinda com um ótimo texto sobre Vinícius de Moraes – poeta, boêmio, diplomata, e, post mortem, Ministro de Primeira Classe da Carreira de Diplomata. Confira abaixo!]

“Meu Vinícius de Moraes,

Não consigo te esquecer,
Quanto mais o tempo passa,
Mais me lembro de você.”

Não apenas Tom Jobim, mas o Brasil inteiro se lembra. Há uma saudade cuja idade não falta a memória e o tempo não fenece: duas décadas sem a cultura, a música e a poesia do inesquecível Marcus Vinícius da Cruz de Mello Moraes, ou simplesmente Vinícius de Moraes (confiram sua biografia).

Nascido em 1913, no Rio de Janeiro, às vésperas da Primeira Guerra Mundial, Vínicius haveria de transcender com a beleza poética, transformada posteriormente em canções, à dureza da realidade: guerras, crises e tensões, externamente; lutas sociais e a ditadura, internamente. Poeta e diplomata, mas também boêmio. Uma boemia que lhe rendeu tanto críticas quanto uma criatividade extraordinária, inclusive para responder às críticas à altura e com elegância (como no episódio em que ele bradou os versos de Poética para os jovens salazaristas, ferrenhos à ditadura lusitana, e estes se curvaram ao gênio).

Pessoa de gostos simples, apaixonado pela carne seca desfiada da tia Beti (mulher de Pixiguinha), e requintados pela poesia francesa. Num país condenado por suas imperfeições, foi patriota como poucos, como expresso no poema Olha Aqui, Mr. Buster. Sofredor, como há de ser o grande poeta, perseguido pelo AI-5 e sempre saudoso do Brasil, quando no exterior. Em resposta à publicação do AI-5, Vinícius declamou Minha Pátria, juntando a perseguição e a saudade:

“Mais do que a mais garrida a minha pátria tem
Uma quentura, um querer bem, um bem
Um libertas quae sera tamem
Que um dia traduzi num exame escrito:
“Liberta que serás também”
E repito!”

Só que a perseguição lhe custou a carreira diplomática, já tão contestada por ser incompatível com a de músico. Não bastasse aposentá-lo compulsoriamente do serviço público, em 1969, classificou-o entre os “bêbados, boêmios e homossexuais”. Classificações que seriam varridas junto com o regime autoritário, preservando a herança cultural e literária, antes confinada aos círculos elitistas, por toda a nação. Vinícius não assistiu à queda da ditadura, morreu em 1980, vítima de um edema pulmonar. Partiu sem pedir a benção e dizer adeus. Mas segue como um ícone raro de nossa história, capaz de unir a ação ao sentimento (embora ele tenha dito isso a Carlinhos Lyra), de demonstrar que as palavras se sobrepõem à força.

É, Vinícius, sem você, o Brasil emudeceu e ensurdeceu. Ainda assim, não o esqueceu. Exemplo disso é a sua elevação post mortem ao cargo de Ministro de Primeira Classe da Carreira de Diplomata (aqui), o mais alto cargo dessa carreira. Você foi eterno enquanto durou, e que assim permaneça quando não mais dura. A benção a nós que ficamos e o reconhecimento a você que partiu…

[Para quem tiver interesse, no YouTube está disponível uma sequência de vídeos sobre Vinícius de Moraes, no programa Mosaicos. Acesse aqui a parte 1, a parte 2, a parte 3, a parte 4 e a parte 5. Vale a pena!]


Categorias: Brasil, Cultura, Política e Política Externa


Giro da semana

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18 de julho, Domingo – O vice-predidente dos EUA, Joe Biden afirma que as tropas americanas no Afeganistão deverão deixar o país em julho de 2011. Vice de Obama confirma data de saída de tropas do Afeganistão. Autoridades tem afirmado que qualquer redução de efetivo deve ser feita a partir de melhores condições de segurança no Afeganistão. A mudança estratégica no Afeganistão foi recentemente marcada pela destituição do general Stanley McChrystal do comando das tropas americanas no Afeganistão depois que ele expôs em entrevista a divisão da Casa Branca na questão afegã.

19 de julho, Segunda – Já no Iraque, um homem-bomba matou 45 pessoas na base militar de Radwaniya. A maioria era integrante da milícia sunita Sahwa, grupo armado pró-governo que renunciou à Al-Qaeda e para combatê-la a partir de 2006. Em março, nas eleições, não houve a formação de um governo de coalizão já que os dois primeiro-ministros (atual e anterior) disputam a chefia do governo. Em 2012, os EUA devem retirar suas tropas do local.

20 de julho, Terça – Na Espanha, alguns ex-presos políticos cubanos, soltos graças ao acordo entre Cuba, Vaticano e Espanha, divulgaram um comunicado demandando que a União Européia não amenizem sua posição no que tange a ilha de Fidel. O problema é que a Espanha realiza o acordo com o objetivo de que a UE reformule seu direcionamento para Cuba, que atualmente só aceita aproximação caso haja mais abertura no regime comunista. Parece que não vai ser dessa vez.

21 de julho, Quarta – A presidente argentina Cristina Kirchner promulga a lei que permite o casamento entre pessoas do mesmo sexo. A Argentina é o primeiro país a oficializá-lo nacionalmente. Enquanto alguns apontam a rapidez com que essa lei foi aprovada como ‘indício da perda de influência da Igreja’, ‘parte natural do processo de secularização’, ‘avanço da democracia’, ‘causada pela urbanização da América Latina’, há de se lembrar que a proximidade do pleito eleitoral argentino eleva a estima da população de Buenos Aieres (onde a maioria da população é favorável à lei) sobre o governo.

22 de julho, Quinta – O presidente venezuelano Hugo Chávez anuncia rompimento de relações diplomáticas com a Colômbia. A crise entre os dois países já ocorria desde ano passado, à ocasião da assinatura de acordo militar entre Colômbia e EUA. Passada a tormenta, há pouquíssimo tempo de encerrar o mandato, Uribe anunciou ter provas da presença de líderes das Farcs e da ELN. Convocados de volta os embaixadores de ambos os países, ocorre uma reunião emergencial da OEA. As evidências são mostradas na plenária, o representante venezuelano afirma que tudo foi gravado em território colombiano. Ao lado de Diego Maradona, Chávez anuncia o rompimento.


23 de julho, Sexta – Sérvia e Kosovo retomam empreitadas diplomáticas após reconhecimento do Tribunal Internacional de Justiça sobre a independência de Kosovo. A decisão é uma faca de dois gumes. Apesar de não possuir valor compulsório (a soberania de um país depende do reconhecimento dos outros para ser efetiva), ela abre uma brecha para que movimentos separatistas em todo o mundo cresçam. Kosovo vai aumentar esforços para que mais países reconheçam sua soberania, a Sérvia vai se lançar no sentido contrário. A Sérvia também perde ao resistir quanto à sua antiga provincia: sua entrada na UE fica seriamente comprometida.

24 de julho, Sábado – O governo colombiano estuda enviar o caso da presença de guerrilheiros das Farcs em território venezuelano ao Tribunal Penal Internacional (TPI). Os EUA prometeram ajudar nas investigações do envolvimento venezuelano com as Farcs. Chávez anuncia que cortará o fornecimento de petróleo aos EUA caso eles se envolvam. E enquanto isso Chávez ganha tempo nessa enorme cortina de fumaça erguida para que não se veja a previsão de crescimento negativo da economia por mais dois anos.


Categorias: Cultura


Gringos gente fina

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Vi um vídeo esses dias do TED (que tem vídeos muito bons e altamente recomendados) de um pesquisador dos EUA que fala sobre as mudanças urbanas, ambientais e etc. O mais interessante no entanto, não eram as idéias do Stewart Brand, mas sim a forma que ele comentava as adaptações.

“É assim no Rio de Janeiro” – com imagens de um super-mega-gato de energia na favela. Esse, e vários comentários bizarros sobre a vida nas metrópoles de países “não-ocidentais” que tentam passar a idéia de que pobre em cidade grande é super feliz e se adapta a qualquer adversidade. Primeiro que ele ignora as causas dessa adversidades que não deveriam existir, segundo que só faltou uma viseira e uma câmera pendurada no pescoço pra ele se tornar o perfeito gringo que não quer entender o “resto”.

Só será possível uma real ajuda a nós, países que não fazem parte do ocidente (também conhecido como países desenvolvidos) quando a turma do hemisfério do meio-norte lembrar que fazmos parte do mesmo planeta e que os problemas são mais abrangentes e complexos do que pensam que sabem.

Já passou da hora de continuarmos como capas da National Geographic estampando títulos semelhantes a “mundo exótico”, temas de documentários “mundo estranho” e etc. O fato de não sermos reconhecidos pelos tomadores de decisão mundiais como integrantes do mesmo sistema é razão de muitos dos nossos problemas referentes a esfera internacional. Lembrar que os eleitores e pessoas de “consciência social” mundo afora pensam de maneira semelhante traz tristeza e desespero.

Algum conservador de dentro de seu SUV diria “Ledo engano, nós sabemos da importância de vocês na cadeia produtiva e da relevância econômica na economia global.”. Sabem mesmo. Sabem tanto que só depois da crise recente o G8 foi dissolvido pra dar lugar ao G20. Afinal, como poderiam esquecer do estimado outsourcing indiano, da produção em massa chinesa ou do campo de produção agrícola brasileiro?

Tanto gostam de nós, que precisamos modificar nosso posicionamento de marca em muitos países para não perceberem que o produto veio de país pobre. Se um tailandês vence o Festival de Cannes, a mídia local avacalha a premiação.

Talvez o que tenha escrito tenha pouca relevância para nós brasileiros que sabemos – ou deveríamos saber – muito bem das implicações dessa situação. Mas são poucos os esforços coletivos populares para mudar essa situação. De forma alguma devemos desmerecer os grandes talentos e idéias que fazem o Brasil e outros países serem cada vez mais respeitados no mundo, já que sem eles existiriam mais gringos com a idéia da moradia brasileira ser a copa de uma árvore. Também temos que louvar o numero crescente de pessoas estrangeiras que pensam diferente disso.

Fica uma pergunta para vocês: sendo completamente possível esse pensamento diferente ser apresentado e compreendido pelo mundo, o que poderíamos fazer para por isso em prática?


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Saramago: entre ensaios e memórias

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“Nada é para sempre, dizemos, mas há momentos que parecem ficar suspensos, pairando sobre o fluir inexorável do tempo”. E hoje paira sobre o nosso tempo o falecimento do autor dessa frase. José Saramago, figura internacionalmente conhecida por seu importante papel na literatura, deixa um grande legado ao final dos seus 87 anos de vida.

Antonio Gramsci, teórico bastante conhecido na Ciência Política e nas Relações Internacionais, conceitua as idéias de hegemonia, apresentando a importância dos estudos culturais na sociedade. Sociedade esta que, para o autor, é composta pela infra-estrutura (notadamente focada nos aspectos econômicos) e pela superestrutura, a qual, por meio da formação ideológica pode promover transformações sociais.

Tal como Juliano Candido apresenta em sua monografia, “o aparato cultural é entendido por Gramsci como sendo o veículo de difusão de ideologia, portanto, de luta por hegemonia, uma vez que possui função educativa e é continuamente mediado pela censura”.

Neste contexto de valorização do aparato cultural é que o legado de José Saramago se insere e ao qual devemos dedicar especial atenção. Polêmico, o português Saramago abandonou voluntariamente seu país de origem, após o escândalo no meu católico português advindo da publicação de seu “Evangelho”, no qual Jesus perde a virgindade com Maria Madalena.

Neste contexto, em 1993 o governo português suprimiu o autor da lista de candidatos ao prêmio europeu de literatura. Cinco anos depois, em 1998, Saramago seria o único escritor de língua portuguesa a receber o prêmio Nobel da Literatura, reforçando a importância da superestrutura gramsciana na sociedade em que vivemos.

Seu legado literário e sua atuação marcante como defensor dos oprimidos e crítico do ex-presidente americano George W. Bush faz com que sua morte ganhasse espaço na mídia internacional, repercutindo inclusive politicamente em Portugal. Destaca-se também sua defesa da causa palestina, sendo que o chefe do Comitê de Relações Internacionais do Fatah, lamentando oficialmente a morte de Saramago, reforçou que este “mostrou ao mundo que a causa palestina é universal”.

Aliás, o mundo inteiro se mobilizou em declarações e homenagens a José Saramago. Nas suas próprias palavras, “Como cidadão, o escritor tem compromisso com seu tempo, seu país, as circunstâncias do mundo. O futuro vai julgar a obra do autor, mas o presente tem o direito de fazer um juízo sobre o autor que ele é.” E certamente trata-se de um juízo muito positivo tanto para os países de língua portuguesa como para a comunidade internacional em geral.


Categorias: Cultura, Europa


And the Oscar goes to…

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Para Rob Cohen, “o cinema possibilita o contar histórias diferentes por mais que o tema seja o mesmo: flagrar o movimento do homem rumo à redenção. Há sempre uma alegoria por trás da história.” Neste sentido, pode-se enxergar o impacto do filme ‘Guerra ao Terror’ (assista ao trailer oficial aqui), na medida em que traduz uma história fictícia – porém baseada em situações reais vividas na conjuntura internacional dos últimos anos – devidamente adaptada para o sucesso cinematográfico.

Sucesso este que pode ser traduzido pelos muitos prêmios já recebidos e, é claro, pela constatação das nove indicações ao Oscar de 2010, incluindo melhor filme, direção e roteiro original. Com a proximidade da maior premiação internacional da indústria do cinema (que acontecerá no próximo domingo), a diretora do longa, Kathryn Bigelow, pode se ver em face de uma conquista inédita para uma mulher pelo sucesso da história de um esquadrão voluntário de soldados anti-bombas norte-americanos em missão no Iraque.

Premiações à parte, fato é que a indústria cultural, em que o cinema se destaca enormemente, se mostra como uma esfera analítica cada vez mais importante no âmbito das Relações Internacionais. Refletir acerca dos impactos da veiculação de informações no mundo, especialmente na área de entretenimento, tem sido notável para a compreensão da amplitude do poder cultural sobre a formação de opiniões, discussões e mesmo consensos.

Neste sentido, tal como várias críticas cinematográficas apontam, o ponto de vista do filme ‘Guerra ao Terror’ é predominantemente norte-americano, de forma que caracteriza a vida (e as dificuldades) dos soldados em missão no Iraque, sem que o ponto de vista iraquiano seja contemplado de igual modo – uma ótima análise sobre o filme pode ser acessada aqui.

[Apenas a título de consideração, o nome original do filme, ‘The Hurt Locker’, significa “grande sofrimento”, já expressando a visão presente no desenrolar das ações. Aliás, teve até sargento “da vida real” processando os produtores por acreditar que a história do personagem principal – o comandante do batalhão, um sargento “viciado” na missão da guerra – coincide com a sua…]

É inegável que a discussão sobre os aspectos e conseqüências da factual Guerra ao Terror deve perdurar por algum tempo e ser explorada ainda de formas diferentes (e possivelmente parciais) pela indústria cultural. Resta saber, pois, se a famosa frase do Oscar de 2010 confirmará o aparente favoritismo do presente projeto hollywoodiano relacionado a esta questão.


Categorias: Cultura, Estados Unidos, Oriente Médio e Mundo Islâmico


Post do Leitor

Post do Leitor – Felipe Pötter

[Tenho o prazer de apresentar mais um post do leitor. Dessa vez, Felipe Pötter*, graduado em Relações Internacionais pela Universidade Católica de Goiás (UCG), escreve sobrea utilização das novas formas de mídia na interação entre o governo Obama e a população norte-americana. Aproveitem a leitura!]

Obama, as forças profundas e as novas mídias

Em meados da década de 30 Pierre Renouvin apresenta às Relações Internacionais o termo “Forças Profundas” ao estabelecer a importância do estudo de diferentes aspectos, forças, influentes na política internacional e que portanto devem ser consideradas para o estudo da história.

Segundo Renouvin, um pensador base da escola francesa de Relações Internacionais, estas forças são múltiplas, partindo da política, economia geopolítica, sociedade civil, entre outras, e devem ser analisadas em sentido e intensidade de acordo com o período em que agem.

Foram os resultados destas forças que moldaram o sistema internacional, o vai e vem do pêndulo do poder, e são estas que por vezes aliam-se as aspirações de um individuo. Assim aconteceu durante a implementação da Raison d’etat de Richelieu, durante a unificação Alemã de Bismark, ou ainda, em um exemplo mais próximo a eleição do Tancredo Neves em 85 no Brasil.

Na última eleição norte-americana também podemos identificar situações que geraram tais forças. O desgaste tanto da imagem quanto da política norte-americana no meio internacional provocado pelas duas guerras em curso durante o governo Bush, o resultado da demora e baixas destas guerras na opinião pública, a crise econômica mundial com efeitos severos na classe média estadunidense, além da movimentação pendular esperada na sucessão presidencial do país foram, entre outros, fatores que demandavam uma mudança de postura de governo.

O candidato democrata Barack Obama utilizou-se dessas forças como seu superte de campanha. Seu discurso moldou durante o período de campanha a saída para varias destas questões. No entanto, sua concorrente à candidatura pelo partido democrata, a ex-primeira dama Hillary Clinton, também possuía discurso similar. Dentre as diferenças entre as duas pré-campanhas estava um dos trunfos de Obama até então: A utilização das novas mídias.

Desde o princípio, o atual presidente norte-americano fez uso de ferramentas não convencionais, porém muito eficazes, no meio político, afim de promover suas idéias e angariar apoio. Convencionalmente se denominam novas mídias aqueles meios de comunicação de popularização relativamente nova em vista aos convencionais rádio, televisão e imprensa, tais quais a internet, celulares, IPTV, entre outros.

A relação entre as chamadas forças profundas e as novas mídias começa na utilização deste meio por Obama. Através do uso destas novas ferramentas, e com um conteúdo surpreendentemente interessante em se tratando de um discurso político, um público maior foi alcançado. Não obstante o maior alcance, a abordagem do publico atingido é incomparavelmente mais participativa e transparente.

Assim, não só Barack Obama logra um maior alcance de suas idéias mas canaliza duas forças políticas em seu favor, uma vez que a sociedade civil obtém maior poder de participação e parcelas desta que antes não participavam ativamente da política vêem-se interessadas nesse debate.

Dia 20 de janeiro completou-se o primeiro ano de governo de Barack Obama, e apesar de toda sua desenvoltura pública, a popularidade do presidente estadunidense está aquém daquela esperada logo após sua eleição. Entretanto, as forças canalizadas pelo presidente ainda continuam o apoiando.

A participação pública continua sendo direcionada através de movimentos como o Organizing For America que orienta aqueles que apóiam o presidente a agirem como um grande grupo de stakeholders. Através de mídias sociais como o Twitter e Facebook, essa organização aponta àqueles cadastrados os meios de pressão a serem utilizados e organizando seus próprios, como a arrecadação de assinaturas para aprovação de projetos.

No que tange a demanda por transparência, pode-se citar a parceria de Obama com o site YouTube. O presidente, além de seu próprio canal, participou já por duas vezes de uma entrevista montada pelo canal CitzenTube na qual Obama respondeu perguntas em vídeo enviadas por usuários do site. É valido ressaltar também que todos os canais de comunicação de nova mídia utilizados são bilíngües, em inglês e espanhol, até mesmo a página da casa branca no Twitter, @thewhitehouse, tem seu equivalente na língua latina: @lacasablanca.

Nesse mesmo tópico também se pode citar o uso conjunto de multimeios, como os canais de transmissão via web e celulares. São disponibilizados tanto no blog da Casa Branca quanto no site oficial do presidente aplicativos para Iphone nos quais se pode assistir a discursos ao vivo do presidente, receber informações sobre comitês locais do Organizing For America e como opinar em enquetes de opinião, entre outras noticias sobre o governo.

A atitude do atual governo norte-americano é louvável. A atualização dos canais de informação e participação entre população e governo favorece não apenas às suas intenções políticas como também à todo o processo democrático.

Edward Carr, teórico de valor inestimável ao realismo, defendia a ação política racional como sendo aquela voltada pela busca de poder, e ainda, que os meios de obtê-lo mudam e atualizam-se conforme o contexto temporal. Assim sendo, ao utilizar novas formas de propagação de suas idéias, Obama consagra-se não apenas racional, mas também astutamente realista.

 

*Contato: [email protected]


Categorias: Cultura, Estados Unidos, Mídia, Post do leitor


Globalização?

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“E o povo escolheu a Globo, isso é Globalização”. […] Este é o refrão da vinheta intitulada ‘Samba da Globalização 2010’, veiculada em rede nacional desde o início do ano por essa tradicional emissora televisiva. O samba, de autoria de Arlindo Cruz, Helio de La Peña, Mú Chebabi e Franco Lattari, está em sua terceira edição e foi muito bem elaborado para os seus fins, não se pode negar. O que impressiona, contudo, é a notável capacidade de manipulação da informação e construção de ideologias existente em tempos modernos.

O termo ‘globalização’ se tornou recorrente em nosso vocabulário nos últimos anos, possuindo múltiplas acepções possíveis. O Dicionário Priberam da Língua Portuguesa apresenta este conceito simplesmente como “fenômeno ou processo mundial de integração ou partilha de informações, de culturas e de mercados”. Com maior aprofundamento teórico na área de Relações Internacionais, Held e McGrew (2001) descrevem a globalização enquanto um “conjunto de processos inter-relacionados que operam através de todos os campos primários do poder social, inclusive o militar, o político e o cultural”. As definições podem variar em alguns aspectos, porém costumam se complementar de forma geral. Definir, entretanto, globalização como palavra derivada do nome de uma emissora televisiva e apresentar sua abrangência como escolha do povo, tal como indica o refrão do samba supracitado, deve trazer à tona certa discussão.

Milton Santos (2000), importante geógrafo brasileiro, aprofunda a reflexão neste eixo temático ao expor três possibilidades de se enxergar o processo da globalização. Em um primeiro momento, esta pode ser vista como fábula (“O mundo como nos fazem crer”), em que se nota o papel da máquina ideológica, destacadamente dos meios de comunicação de massa: fantasias repetidas acabam por se tornarem sólidas. Qualquer semelhança com a idéia da primeira frase deste post não é mera coincidência…

Em seguida, tem-se a noção de globalização enquanto perversidade (“O mundo como é”), em que se percebe a situação de desigualdade de boa parte da humanidade que sofre com as mazelas do desemprego e da pobreza. Por fim, vê-se, de forma otimista, a possibilidade de se pensar em uma outra globalização (“O mundo como ele pode ser”) – aquela que valoriza o humano, a consciência e a sociodiversidade na construção da história.

A partir da exposição destes pontos, convém perceber o grande poder de influência do conteúdo veiculado pela TV Globo sobre a população brasileira. Esta emissora possui, visivelmente, uma destacada concentração das atenções populares, da audiência geral e da publicidade, o que a torna um meio cultural de enorme destaque no país. O trocadilho feito com o termo “globalização” apenas elucida a forma como este meio pode atender a interesses específicos. (Um artigo interessante sobre diversidade cultural no Brasil pode ser acessado aqui.)

Para finalizar a análise, pretende-se ressaltar o otimismo de Milton Santos para entender que a globalização atual não é irreversível (em todos os sentidos que o termo possa suscitar). A dissolução de ideologias é possível, mas requer esforços coletivos, evitando-se o conformismo generalizado que parece pairar sobre nossos tempos. Nas próprias palavras de Milton Santos, “devemos nos conscientizar de que o mundo é formado não apenas pelo que já existe, mas pelo que pode efetivamente existir. Não há verdades eternas”. Fato.


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O Empreendedorismo Social – Parte 2 (Saúde)

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Em meados da década de 1980, a cada ano morriam cerca de 14 milhões de crianças menores de 5 anos. A maior parte dos óbitos era relacionada a doenças como diarréia; desnutrição; pneumonia; e outras enfermidades que uma simples vacinação poderia evitar maiores complicações. Assim, o quadro mostrava-se reversível através de medidas preventivas relativamente simples e baratas.

Um exemplo disso é o tratamento desenvolvido, na década de 1970, para a diarréia – que provocava 5 milhões de mortes anualmente. Pesquisadores descobriram que uma solução de água, sal e açúcar auxiliava na retenção de fluidos e sais minerais, o que possibilitou a diminuição em mais de 50% das mortes por desidratação decorrentes da diarréia. Não havia a necessidade de grandes infra-estruturas ou equipamentos para evitar milhões de mortes todos os anos. Na verdade, o custo desses kits de hidratação ficava em centavos.

James Grant, norte-americano, assumiu a diretoria da Unicef (Fundo das Nações Unidas para as crianças) e deu início a uma vigorosa estratégia de combate ao que chamou de “emergência global silenciosa”. Fazia referência justamente aos óbitos de crianças fruto de doenças que poderiam ser facilmente tratadas ou prevenidas. No início foram grandes as resistências dentro da Unicef, à medida que Grant promoveu uma completa mudança no modus operanti da organização, passando do simples apoio a campanhas e projetos para a execução direta de iniciativas. Dessa maneira, eram utilizados o prestígio, o reconhecimento global, a neutralidade política e a influência moral das Nações Unidas (ONU), que acabaram sendo fundamentais para consubstanciar tais iniciativas.

O final de 1982 marcou o início da jornada, com o lançamento da estratégia inicial do planejamento de Grant no comando da Unicef, era a GOFI. Fazia referência a quatro ações: o acompanhamento do crescimento, a reidratação, a amamentação e a imunização. Logo foram acrescentadas mais três ações: a suplementação alimentar, o planejamento familiar e a educação das mulheres. A estratégia de Grant foi severamente criticada, mesmo pela Organização Mundial da Saúde (OMS), que defendia a mudança do quadro mediante a uma reestruturação mais abrangente da assistência médica. O trabalho da Unicef não parou; a situação das crianças dos países em desenvolvimento exigia uma ação imediata. Aos poucos, a organização construiu uma sólida base de apoio, através do incansável trabalho da equipe de Grant, junto a organizações civis; lideranças políticas e religiosas; e empresários. Eventualmente, mesmo a OMS engajou-se nas iniciativas da Unicef.

Os resultados foram surpreendentes, no início da década de 1990, dados apontavam que, por exemplo, a imunização atingia 80% da população dos países em desenvolvimento, antes não alcançava 20%. Outra proposta de Grant foi uma reunião na sede da ONU, em Nova Iorque, com os chefes de Estado para discutir a situação das crianças no mundo – nunca as Nações Unidas haviam proposto um encontro com todas as lideranças mundiais. Nem mesmo os membros da Unicef acreditavam na idéia de Grant. A World Summit for Children (Reunião Mundial para as Crianças – em tradução livre) terminou acontecendo, em 1990, sendo a maior reunião já realizada em âmbito da ONU para se discutir um único assunto, com a presença de 71 chefes de Estado. Desse encontro, surgiu a Convenção dos Direitos da Criança, ratificada por todas as nações presentes, menos Estados Unidos e Sudão.

O exemplo utilizado evidencia dois fatos. O primeiro é o potencial de ação das agências das Nações Unidas – que possuem grande poder de mobilização seja moral, econômico ou político. Em segundo lugar as características que promovem o sucesso de iniciativas sociais: o forte referente ético; a constante disposição a corrigir estratégias para vencer obstáculos; a abertura a mudanças em estruturas previamente empregadas; e a busca pela colaboração – por vezes multidisciplinar. Tantos outros são os exemplos de empreendedores sociais no campo da saúde, mas é inegável o potencial para a mudança advinda da soma de uma vontade e disposição inquebrável (personificada pelo empreendedor social) a uma organização descentralizada de alcance e influência capazes de gerar efetivas alterações junto à comunidade internacional, como no caso tratado.

Fonte: Como mudar o mundo: empreendedores sociais e o poder das novas idéias – David Bornstein (Editora Record)


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As culturas evoluem!

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Primeiramente, gostaria de reiterar os agradecimentos do Alcir e também parabenizá-lo, caro leitor, visto que foi essa parceria de sucesso que colocou a Pagina Internacional entre os 100 blogs mais votados no concurso Top Blog.

Gostaria de retomar um assunto que abordamos semana passada e que, embora não seja um tema estritamente de Relações Internacionais está sob o guardachuvas dessa disciplina. Estou falando as diferentes culturas que existem, e que direta ou indiretamente, muitas vezes são determinantes no estabelecimento de relações entre países.

Lendo a Folha de São Paulo hoje (sem querer fazer propaganda…), na seção de notícias internacionais, deparei-me com uma matéria sobre o novo modo de jovens afegãos e paquistaneses “paquerarem”. Acredito que seja de conhecimento geral, que esses países possuem tradições rígidas no que diz respeito a namoros, virgindade, sexo, casamento. Pois é.

Os jovens desses países, muito criativamente, e com a ajuda da tecnologia, até pouco tempo impensada na região (os celulares chegaram por essas bandas somente em 2006), estão “inovando” o modo de se conhecerem e namorarem.

A troca de torpedos via celeular é a mais nova forma de marcar encontros e enviar juras de amor. Por meio de tal conduta, tem sido possível diblar os olhares vigilantes dos pais e se arriscar em aventuras amorosas. Os jovens estão rompendo com os laços opressivos de sua própria cultura.

Penso que essa é uma prova inegável de que as culturas evoluem de uma forma ou de outra. Seja porque percebe-se que seus valores não têm mais lugar em um mundo em constante mutação, seja porque há o desejo de viver melhor e usufruir dos avanços desse mundo.

Mas, para que essa evolução cultural ocorra de forma legítima, ela tem que encontrar motivações intrínsecas. Imposições culturais são necessariamente contra ao que o mundo ocidental entende como democracia, cujo principal valor é a liberdade. Tais imposições são uma contradição em termos.

Hoje o post para reflexão é curto, afinal é sábado. E ficar pensando nas mazelas ou virtudes desse mundo louco no fim de semana ninguém merece.

Até a próxima!


Categorias: Cultura, Política e Política Externa


Sincronizando Babel…

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Apesar de quase dois meses da vigência no Brasil da reforma ortográfica da língua portuguesa, que tenta unificar a escrita dos 8 países lusófonos desde 1990, o assunto ainda apresenta pontos que dão pano pra manga. Sumiram o trema, alguns acentos, hífens, e restou um número hiperbólico de livros desatualizados nas estantes. Além dos altos custos da reforma (estima-se que revisar um livro no Brasil custe cerca de 5 mil reais), o acordo da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) prevê uma série de formas facultativas (prêmio/prémio, acadêmico/acadêmico; aritmética/arimética, súdito/súbdito). Ou seja, um livro editado do Brasil não atravessará o Atlântico, e vice-versa.


Portugal, extremamente relutante em aceitar a reforma por acreditar que ela serve aos propósitos geopolíticos brasileiros, finalmente ratificou o acordo em julho de 2008. A pressão interna contrária à reforma, contudo, ainda é muito intensa e conta com o apoio maciço dos editores lusitanos. Apesar de extremamente comemorada do lado de cá do oceano, a aquiescência portuguesa ainda levanta dúvidas: a lei que regulamenta a transição da antiga ortografia para a acordada ainda não aconteceu. Sabe-se também que um livro didático na terra de Camões deve durar ao menos 6 anos. Isso significa que a lei, se promulgada esse ano, deve entrar em vigor apenas em 2015.

Feita a trancos e barrancos, a reforma é custosa e pouco efetiva. Custosa pela necessidade da reedição de várias obras, treinamento de professores e livros subitamente obsoletos. Pouco efetiva porque, além da dupla escrita de várias palavras, a unidade ortográfica não garante o entendimento entre lusófonos por não englobar alterações sintáticas e léxicas. O argumento de tornar o português numa língua-potência, transformando-o, por exemplo, em idioma de trabalho da ONU é igualmente sofrível. O chinês tem diversos dialetos e, no entanto, só se fala na importância de dominar o mandarim em nome da ascensão econômico/política pela qual o país passa. E quanto às variantes do inglês então? Por fim, Portugal vai mesmo efetivar a mudança? Os demais países africanos e Timor só devem concretizá-la caso a antiga metrópole o faça. Resta-nos torcer para que Portugal prossiga com as alterações, já que a reforma é uma realidade para os falantes brasileiros.

A propósito, fico contente que possamos usar a ortografia antiga até 2012…


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