A (luta pela) conquista de direitos

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Segundo o poeta francês Balzac, “A igualdade pode ser um direito, mas não há poder sobre a Terra capaz de a tornar um fato”. Será? Talvez o poder do diálogo e da luta social possa surtir efeitos – ainda que lentamente e a partir de muitos (e articulados) esforços. Mais um passo foi dado na Arábia Saudita no que se refere à igualdade de gênero: trata-se da importante conquista do voto e da elegibilidade feminina nas eleições municipais, a partir de 2015.

Em uma era de movimentos contra os regimes autoritários no Oriente Médio, a famosa “Primavera árabe”, esta recente conquista das mulheres árabes merece destaque, já que se trata de um direito básico e essencial à consolidação de sua participação na tomada de decisões (e na construção destas) em sua sociedade.

Vale lembrar que a rica e conservadora Arábia Saudita é uma monarquia absolutista, de forma que o rei concentra os poderes de chefe de Estado e de governo. Nesta semana estão sendo realizadas, apenas pela segunda vez na história, as únicas eleições existentes no país, para cargos municipais. Ainda sem a participação das mulheres, a falta de confiança nos órgãos públicos por parte da população marca o tom dessas eleições. Muito ainda precisa mudar para que o regime possa ser considerado efetivamente participativo…

A luta para que as mulheres sejam incluídas no sistema político (e tenham seus direitos básicos respeitados) não é de hoje, e as críticas à intolerância religiosa têm alcançado novos patamares nos últimos tempos, dada a facilidade de contato e de disseminação de ideias/propostas/revoltas/movimentos proporcionada pela internet, especialmente por meio das redes sociais (veja aqui post no blog a respeito do movimento pelo direito das mulheres a dirigir, também na Arábia Saudita). A pressão dos cidadãos árabes têm sido responsável por um incremento considerável em seus direitos: igualdade e democracia buscadas a cada dia!

É verídico afirmar que a igualdade (ainda) não é fato consolidado em nossos tempos, mas não seria excessivamente pessimista pensar que esta situação é irreversível? Para que se possa enxergar resultados práticos, é preciso que a mobilização social seja constante, diária, cotidiana… cada sociedade enfrenta seus próprios desafios na busca pela igualdade, nos mais diversos âmbitos. E, bom, será que estamos fazendo também a nossa parte?


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Post do Leitor

Post do Leitor – Tamiris Hilário

[Pessoal, esse é um texto da graduanda em Relações Internacionais pela Unesp, Tamiris Hilário, tratando da questão da arte como fator de transformação. Uma perspectiva muito interessante, vale a pena conferir! E, aos interessados em enviar posts do leitor e fomentar as discussões, basta enviarem um e-mail para [email protected]]

“uma fronteira não é o ponto onde algo termina, mas […] a fronteira é o ponto a partir do qual algo começa a se fazer presente”. Heidegger

A exposição paulistana “De dentro e de fora” , a ser exibida no MASP, de 17/08 a 23/12, apresenta trabalhos de arte contemporânea, dentre os quais se destaca a participação do fotógrafo francês JR , vencedor do TEDx2010 . JR, em face ao contexto vigente, oportunamente suscita a questão: poderia a arte salvar o mundo? De pronto, reconhece: não, não poderia. Isso porque, não se trataria de “salvar”, como afirma, mas de “mudar” o mundo. Vejamos de que maneira.

Parece confortável afirmar, hoje, que elementos culturais e artísticos se apresentam como transcendentes daquilo que se entende ou se convencionou chamar de fronteiras – físicas, sociais, econômicas, políticas e imaginárias. Carregam consigo, com isso, não apenas a idéia de agregação, mas também (e principalmente) de transcendência. Denso? Basicamente, estamos a falar da música, da fotografia, da dança, do circo, do teatro… como transgressores!

O Inside Out Projectde JR, por exemplo, é uma iniciativa a qual transforma fragmentos individuais pequeninhos em elementos artísticos. Qualquer um pode utilizar-se de fotografias em preto e branco para descobrir, revelar ou compartilhar histórias e imagens de sujeitos visivelmente invisíveis, ao redor do mundo.

Para além dos entraves e das burocracias tradicionais, comumente exigidas quando se quer mudar algo, neste faz-se necessária, apenas e tão somente, uma superfície sólida na qual a aplicação da imagem possa ser feita. Em grosso modo, uma parede. Testou-se assim, o poder da cola e do papel na África do Sul, Sudão, Serra Leoa, Libéria, Quênia, França, EUA, Inglaterra, Brasil, Índia…!

JR acredita que a arte se apresenta como um instrumento real para fomentar trocas e enriquecer discussões, tornando-se com isso capaz, não propriamente de alterar as regras do jogo, mas de modificar percepções.

Trata-se de um exemplo dentre a ampla gama de ações culturais transformadoras capazes de propiciar o aprendizado do convívio com a diferença, desencadear a formação de sujeitos criativos e transformadores e promover o sentimento de coletividade e de convívio social. A arte que “transforma” desenvolve assim um leque iniciativas mais inclusivas e que considera as diversas maneiras de fazer parte e de ser. Permite, com isso, que os espaços sejam realmente vistos – e entendidos – de forma mais humana.


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Sociedade do consumo

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Como definir o mundo em que vivemos atualmente? Conceitos utilizados por abordagens pós-positivistas nas Relações Internacionais – as quais questionam discursos dominantes, propondo interpretações de um mundo que é socialmente construído – definem nossa sociedade em termos de pós-modernidade, capitalismo tardio, era da informação, pós-fordismo, etc. Fredric Jameson, importante teórico nesta área, agregou ainda um interessante conceito a essa reflexão: “sociedade do consumo”.

Consumir… verbo antes associado apenas a ações práticas (como fazer compras no mercado!), hoje em dia assume um caráter retórico cada vez mais forte em nossa sociedade. Consumimos informação. Consumimos ideias. Consumimos imagens. Consumimos até perspectivas idealizadas de vida!

E, nesta era globalizada, o que as grandes empresas menos esperam é ter suas marcas associadas a comportamentos negativos, que possam prejudicar sua imagem (e o “consumo” desta pela população, é claro). Segundo os noticiários de hoje, a conhecida marca francesa de roupas Lacoste teria solicitado que a polícia da Noruega impeça que Andres Behring Breivik, atirador responsável pelo desastre recente no país (veja post no blog a respeito aqui), utilize roupas da grife durante os julgamentos do caso (foto). O receio é que a marca se associe, de alguma forma, à imagem dele. E este não é o primeiro caso neste âmbito. Exagero, precaução ou mera consequência inevitável de uma lógica consumista? Em uma “sociedade do consumo” como a nossa, esta parece ser uma questão interessante…

Percebe-se ainda que o cuidado com a preservação da imagem não se restringe a empresas, alcançando também governos, organizações e quaisquer atores neste complexo e articulado cenário internacional em que vivemos. Segundo Jameson, teórico anteriormente citado, hoje a mídia ocupa o espaço da política, sendo que apenas existe o conteúdo veiculado por seus meios – e durante o tempo em que for veiculado. Será? Vale a reflexão.


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London Calling

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Quem lê sobre isso até pode achar que está acontecendo aqui no Brasil. Um jovem foi morto em circunstâncias suspeitas depois de ter sido abordado por uma força especial da polícia. A população se revolta e vai protestar conta a truculência policial e falta de trato com a comunidade; eventualmente a passeata perde o controle e vira uma verdadeira chusma. O resultado são saques coordenados a estabelecimentos comerciais, mais de 100 presos e 30 policiais feridos. Rio de Janeiro? Não, mas em outra cidade olímpica, Londres. Como cantava a banda The Clash:

London calling to the faraway towns

Now that war is declared-and battle come down

London calling to the underworld

Come out of the cupboard, all you boys and girls

As reflexões sobre esse caso são inúmeras. Antes de tudo, há coisa de 20 ou 30 anos fervilhava esse tipo de tumulto e agitações na Inglaterra. A contestação econômica (crise, desemprego, etc.) e política (questão da Irlanda do Norte, etc.) fomentava revoltas e movimentos de contra-cultura, e dessa violência latente que surgiu nesse contexto apareceram coisas do movimento punk aos hooligans do futebol. Claro que boa parte disso foi superada com a rigidez e disciplina britânicas.

Pois bem, os tumultos que aconteceram no último fim de semana foram no bairro de Tottenham, um dos bolsões de pobreza e imigrantes da capital inglesa. Quando estouraram problemas parecidos em Paris, há alguns anos, até era de se esperar algo assim por causa do volume de imigrantes e todos os problemas de desequilíbrio de renda envolvidos que criaram um verdadeiro barril de pólvora. Mas, em Londres? Onde daqui a um ano tem um super evento multicultural com a Olimpíada, mesmo com a crise as coisas não vão mal, e uma tradição centenária de imigrações criou uma atmosfera meio que cosmopolita? Vale lembrar que por conta de fatores como a abolição precoce da escravidão e o Commonwealth (que torna até hoje súditos da rainha os povos que já foram parte do Império Britânico), sempre houve um grande volume de “não-europeus” (paquistaneses, indianos, negros africanos) na Inglaterra. Preconceito e atritos sociais não deixam de existir, mas são bem mais amenos que em outros países da Europa por conta dessa tradição.

E agora, o que esse evento pode nos mostrar? É impossível não traçar um paralelo com a morte do brasileiro Jean-Charles, fruto (também?) de erro da polícia. Situações parecidas, resultados diferentes. Não houve revolta no caso do brasileiro por ser imigrante e no de Mark Duggan por ser alguém do povo? Ou os tempos eram diferentes? O contexto atual de crise e incerteza, somado a tensões acumuladas da população mais pobre contra o tratamento da polícia (que parece ser o mesmo em qualquer lugar do mundo… até mesmo na Inlgaterra, onde os policiais nem andam armados!) resultou em uma onda de violência “ultrajante” e como não se via há tempos. A morte de Duggan e a ação de bandidos no meio dos protestos foi um gatilho para que alguns membros da população exprimissem uma enorme insatisfação reprimida. Não é o caso de ser alarmista, e pode ter sido algo isolado, mas de todo modo, esse fato improvável pode ser um sinal preocupante de como as tensões sociais e econômicas na Europa estão atingindo um limite – se na Inglaterra as coisas vão mal assim, quanto mais na França ou Alemanha…

PS.: O título do post é homônimo da música citada. É uma alegoria dos problemas sociais e econômicos ingleses dos anos 70, e pode vir a servir para a situação atual. Uma análise bem interessante de como se tornou um hino involuntário e inapropriado dos jogos de 2012 se encontra aqui.


Categorias: Cultura, Economia, Europa


Independência…

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4 de julho. O mais importante feriado dos EUA, o dia da independência. Poderíamos falar de um monte de assuntos políticos, mas acho que já fazemos isso demais por aqui. Então, que tal tratarmos um pouco de… futebol?

Sim, futebol. Antes que digam o que isso tem a ver com relações internacionais, saibam que a FIFA tem mais países filiados que a ONU, e é uma organização poderosa o suficiente, tanto financeira quanto politicamente, para influenciar mudanças na legislação interna de países. Nem vamos comentar o caso da organização da Copa de 2014, com as exigências absurdas e todas as negociações misteriosas de licitações e afins. Basta ver o caso da Venezuela – a FIFA ameaça impedir o país de participar das Eliminatórias caso seja aprovada uma lei que deixará exclusivamente ao governo a escolha de dirigentes e organização de eventos esportivos. Não vamos discutir se a decisão do governo de Chavez é correta ou não, e é claro que a “ameaça” é feita à Federação de Futebol da Venezuela, não ao país, mas o fato é que, de certo modo, vemos a FIFA pressionando, mesmo que indiretamente, um Estado soberano no sentido de rever sua legislação interna.

E os EUA com isso? Em 1994, nesse mesmo dia 4 de julho, eles foram eliminados pelo Brasil em partida memorável (se não pelo jogo duro, pelo maxilar quebrado do pobre Tab Ramos). Na época o futebol era um esporte semi-amador no país, mas organizaram uma Copa exemplar, revolucionaram a transmissão do evento, e conseguiram um desempenho formidável (lembro de um texto da época dizendo que os EUA conseguiram colocar “22 surfistas em um hotel com dieta de pára-quedista”, e jogar em pé de igualdade com os futuros tetracampeões).

Nos EUA, o futebol ainda é um esporte que alterna momentos de euforia…

A partir daí o esporte só fez crescer no país: no ano seguinte esse mesmo time ganharia da Argentina por 3 a 0 na Copa América, e seria criada a liga norte-americana de futebol, nos mesmos moldes de outras competições como o beisebol e o basquete. Desconsiderando o fiasco de 1998, podemos dizer que os norte-americanos tenham começado a gostar bastante do nobre esporte bretão. E ainda assim, parece que não embala.

…e de indiferença.

Os motivos usuais são dizer que nos EUA o futebol é esporte de meninas, ou que simplesmente não seja tão atrativo num país que domina tantos esportes de ponta. Uma explicação mais filosófica envolve o fato do futebol ser muito imprevisível e isso desagradar ao “racionalismo” e previsibilidade anglo-saxões (afinal, é inadmissível que haja um esporte no qual o time mais fraco tem as mesmas chances de vitória do time tecnicamente superior…). E isso parece muito estranho em um dos poucos países com o potencial de variedade populacional que é atribuída como fator de vantagem para o surgimento de craques – como no Brasil.

Imagino que uma outra resposta possa estar justamente nesse modelo de esporte, como é praticado por lá. Os norte-americanos são relativamente auto-suficientes e tradicionalistas nesse setor de entretenimento: a final do campeonato nacional de beisebol tem o nada pretensioso nome de “Série Mundial”, como se não houvesse times no Japão, na Venezuela… ou em Cuba. Se o “soccer” está se popularizando, muito se deve a imigrantes hispânicos que trouxeram o amor pelo “fútbol”. Ainda assim, o modelo da liga de futebol, a MLS, mesmo com um nicho pequeno de mercado comparando a outros esportes, segue o mesmo padrão, comercial e rentável, como quase tudo que os dedos do Tio Sam toca quando se trata de espetáculo. É uma liga privada, com interesses de empresas (e seus donos) investidos em clubes. Isso não ocorre em lugar algum do mundo – mesmo onde isso começou a acontecer recentemente, de forma mais deslavada como na Inglaterra, ou de forma pontual como alguns times espanhóis e italianos, o estrago da popularidade do futebol já foi feito há muito tempo, e essa “mercantilização” apenas se beneficia disso.

É esta a ironia. Os EUA são uma potência média do futebol; e os donos de seus times realmente não se importam muito com que ganhem campeonatos, e sim que rendam o máximo que puderem, como empresas. No país do lobby generalizado, o esporte se mantém à distância (até onde se sabe) de influências políticas como a da FIFA, por exemplo. E assim, nesse 4 de julho, podemos ver ironicamente que o esporte mais popular e rentável do planeta ainda não é um hit no país mais rico e onde o esporte mais rende no mundo, justamente pelo fato de ser independente por lá…


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Isso é Globalização?

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[O texto abaixo foi publicado há exatamente um ano aqui no blog, porém – considerando a atualidade da reflexão – segue novamente para discussão e análise. Aproveitem a leitura!]

“E o povo escolheu a Globo, isso é Globalização”. […] Este é o refrão da vinheta intitulada ‘Samba da Globalização’, veiculada por essa tradicional emissora televisiva em rede nacional há anos na época que antecede o Carnaval. O samba, de autoria de Arlindo Cruz, Helio de La Peña, Mú Chebabi e Franco Lattari, está em sua quarta edição e foi muito bem elaborado para os seus fins, não se pode negar. O que impressiona, contudo, é a notável capacidade de manipulação da informação e construção de ideologias existente em tempos modernos.

O termo ‘globalização’ se tornou recorrente em nosso vocabulário nos últimos anos, possuindo múltiplas acepções possíveis. Comumente, este conceito é apresentado simplesmente como “fenômeno ou processo mundial de integração ou partilha de informações, de culturas e de mercados”. Com maior aprofundamento teórico na área de Relações Internacionais, Held e McGrew (2001) descrevem a globalização enquanto um “conjunto de processos inter-relacionados que operam através de todos os campos primários do poder social, inclusive o militar, o político e o cultural”. As definições podem variar em alguns aspectos, porém costumam se complementar de forma geral. Definir, entretanto, globalização como palavra derivada do nome de uma emissora televisiva e apresentar sua abrangência como escolha do povo, tal como indica o refrão do samba supracitado, deve trazer à tona certa discussão.

Milton Santos (2000), importante geógrafo brasileiro, aprofunda a reflexão neste eixo temático ao expor três possibilidades de se enxergar o processo da globalização. Em um primeiro momento, esta pode ser vista como fábula (“O mundo como nos fazem crer”), em que se nota o papel da máquina ideológica, destacadamente dos meios de comunicação de massa: fantasias repetidas acabam por se tornarem sólidas. Qualquer semelhança com a idéia da primeira frase deste post não é mera coincidência…

Em seguida, tem-se a noção de globalização enquanto perversidade (“O mundo como é”), em que se percebe a situação de desigualdade de boa parte da humanidade que sofre com as mazelas do desemprego e da pobreza. Por fim, vê-se, de forma otimista, a possibilidade de se pensar em uma outra globalização (“O mundo como ele pode ser”) – aquela que valoriza o humano, a consciência e a sociodiversidade na construção da história.

A partir da exposição destes pontos, convém perceber o grande poder de influência do conteúdo veiculado pela TV Globo sobre a população brasileira. Esta emissora possui, visivelmente, uma destacada concentração das atenções populares, da audiência geral e da publicidade, o que a torna um meio cultural de enorme destaque no país. O trocadilho feito com o termo “globalização” apenas elucida a forma como este meio pode atender a interesses específicos. (Um artigo interessante sobre diversidade cultural no Brasil pode ser acessado aqui.)

Para finalizar a análise, pretende-se ressaltar o otimismo de Milton Santos para entender que a globalização atual não é irreversível (em todos os sentidos que o termo possa suscitar). A dissolução de ideologias é possível, mas requer esforços coletivos, evitando-se o conformismo generalizado que parece pairar sobre nossos tempos. Nas próprias palavras de Milton Santos, “devemos nos conscientizar de que o mundo é formado não apenas pelo que já existe, mas pelo que pode efetivamente existir. Não há verdades eternas”. Fato.


Categorias: Brasil, Cultura


É hora da "hamanização"

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Particularmente, fui atraído por uma notícia que ocupou grande espaço na Folha de São Paulo no último domingo: a “talebanização” da Faixa de Gaza. Processo similar ao ocorrido no Afeganistão pode estar ocorrendo lentamente e de maneira imperceptível nessa região, com a perspectiva de se espalhar pelos territórios palestinos, à medida que o Hamas ganhe projeção política. Em outras palavras, expliquemos melhor o termo: assim como o Talebã, o Hamas está passando da resistência ao controle do país. Porém, diferentemente do primeiro, este se converteu em partido político no ano de 2006, abandonando a luta armada (será?).

À parte dos esforços travados e confusos pela paz no Oriente Médio, fato interessante é a reorganização interna de uma sociedade. Reorganização que passa, primeiramente, pelo intenso bloqueio promovido por Israel à Faixa de Gaza, mesclada com as ondas de aversão e inação. Os ataques à flotilha humanitária no ano passado, o fracasso das negociações diretas, a entrevista à Folha do ex-presidente norte-americano Jimmy Carter sobre a incapacidade dos Estados Unidos de conduzirem sozinhos a paz na região são exemplos de fatores que induzem à reclusão palestina em territórios esfacelados e permitem a ampliação do raio de ação do Hamas, sob a justificativa da proteção de seu povo.

Agora é a vez a “hamanização”! Sob este altar, ocorre o casamento entre cultura e poder. Alguns costumes estão mudando, como a proibição ao fumo do narguile para as mulheres em locais públicos, o tom islâmico está aumentando, tal como a intolerância para com a oposição. O Hamas dissemina idéias para reforçar a sua autoridade. Procura se impor diante de uma sociedade que teme Israel e o Ocidente. Para tanto, precisa da relação biunívoca entre cultura e poder, crenças para serem seguidas e para ganhar poder, e poder para ditar crenças.

[Uma indicação bibliográfica indispensável sobre a discussão entre cultura e poder é o livro de Estevão Chaves de Rezende Martins, intitulado “Cultura e poder”.]

Se os impasses perduram externamente – a guerra bate outra vez na soleira das fronteiras, para os israelenses, Abbas teme pelo futuro caso não venha a paz –, no plano interno, a sociedade vai ficando sob o controle do Hamas. Como partido político ou milícia, ainda não sabemos. A história pode estar se repetindo, primeiro como tragédia, depois como farsa, numa paráfrase de Marx.


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A invenção do inimigo: vidas contadas e histórias vividas

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[Antes de começar, gostaria de fazer uma menção especial: este post só foi possível graças às interessantíssimas aulas sobre Oriente Médio, ministradas pela Profa. Dra. Vânia Carvalho Pinto no Programa de Pós-Graduação em Relações Internacionais da UnB.]

Por certo, já virou clichê falar dos vazamentos do Wikileaks e debatemos bastante isso no blog. Ainda assim, por essa peneira furada, muitos sedimentos impróprios têm caído sobre as areias do tempo, que agem na construção do edifício das relações internacionais. Para a surpresa de muitos, o maior inimigo dos árabes é o Irã, não Israel. Historicamente, o Irã é visto por eles como o “mentiroso” (liar) ou a “cobra” (snake). Na inversão dos adjetivos que Zygmunt Bauman sugere no subtítulo de sua obra A sociedade individualizada: vidas contadas e histórias vividas, é que procuraremos explicar esta confusão. (vejam o artigo)

Primeiro, conta-se a vida para depois vivê-la, uma história vivida. Escolhas demarcadas num horizonte de possibilidades preconcebidas. O inimigo é inventado, na seqüência, combatido. No marco da Revolução Islâmica, durante a década de 1970, exacerbou-se a construção da inimizade iraniana no mundo árabe. O medo de que o processo revolucionário se espalhasse e derrubasse as monarquias hereditárias – Kuwait, Emirados Árabes, Arábia Saudita – tornou o Irã uma ameaça concreta. Porém, como poderiam os reis justificar a necessidade de conter tal processo perante os seus súditos? Isso ficou a critério do Partido Baath e de Saddam Hussein, que recorreram à história.

O Irã não é de origem árabe, mas persa. Em tempos imemoriais, o Rei Ciro concedeu abrigo aos judeus que eram perseguidos pelo rei babilônio Nabucodonossor. Tal atitude passou a ser interpretada como uma clara afronta aos árabes. A recriação do mito serviu para definição de uma identidade árabe oposta à iraniana. Saddam aproveitou-se disso para assumir a liderança e a defesa do mundo árabe e se lançar numa guerra contra o Irã entre 1980 e 1988.

Mas por que voltou a ameaça iraniana, a ponto de a Arábia Saudita pedir que os Estados Unidos invadissem o Irã? Uma resposta possível seria o programa nuclear iraniano. Por mais que Ahmadinejad afirme que busca finalidades pacíficas e faça uma leitura muito precisa da realidade internacional acerca do desarmamento (vejam este discurso dele), nunca deixa de dizer que é necessário riscar Israel do mapa – isso porque, como vimos acima, os germens de Irã e de Israel já marcharam juntos. Luta também pela causa palestina, porém, nem assim é árabe. Persa não é árabe nesta vida contada para ser vivida! Além disso, predomina uma desconfiança no mundo árabe quanto à possível instalação de um regime secular no Irã que se dissemine pela região.

Já a relação entre as ambições – muitas vezes desmesuradas – e a própria biografia do líder iraniano é pouco vista. Pessoa de origem humilde, que trocou o nome anterior (Saborjhian, algo que denota a ocupação dos trabalhadores da indústria de tapete) para Ahmadinejad (raça do profeta), ao se mudar para Teerã, e que se envolveu intensamente com a política desde os tempos da faculdade. Em sua formação, desenvolveu uma visão extremamente negativa do Ocidente e, por extensão, a Israel. Ahmadinejad também inventa os seus inimigos, como fazem os árabes e os ocidentais.

As invenções, as vidas e as histórias permanecem no séquito árabe e no colóquio iraniano, na construção histórica persa-iraniana e nas tentativas de Ahmadinejad de dialogar e afrontar inimigos alhures, que não é árabe e nem si mesmo.


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A arte influencia a vida e a vida influencia a arte, mas e as Relações Internacionais? – Cinema de massa

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A produção artística sempre procurou estar interligada com tudo que acontece, e tem papel crucial na geração de debates sobre assuntos urgentes e possivelmente recorrentes. Mas até que ponto essa produção, influencia a tomada de decisão no plano internacional? Durante esse e alguns outros posts discorrerei brevemente sobre alguns meios, começo aqui pelo cinema mainstream/de massa.

Vejamos por exemplo os filmes de guerra. Grande parte deles, em especial dos clássicos, tem no seu centro a questão do soldado e da dificuldade que é lutar no campo de batalha em situações adversas junto com questionamentos sobre a natureza e os porquês da guerra, como em Nascido Para Matar, Platoon ou Apocalypse Now. Porém, ao contrário da época do Vietnã, os filmes hoje têm como foco mais a primeira parte (o soldado, o individuo) do que a segunda (o contexto, as motivações).

Falcão Negro em Perigo (filme que trata de uma batalha crucial da Guerra Civil da Somália) buscava dizer que “como nós soldados passamos perrengue, tudo bem lutar sem razões claras”, até mesmo o Senhor dos Anéis veio em boa hora para legitimar a luta “contra o mal e pela liberdade”. Isso fica explícito no Falcão Negro e sua representação dos somalis, mostrados como imbecis que lutam por ganância ou sem motivação real, nada diferente dos orcs da Terra Média. Mas sempre tem uma surpresa boa na contramão como o Distrito 9, que conseguiu promover uma discussão interessante sem ser 100% explícito e com um tema fora das agendas comuns (leia-se: realistas) de análise internacional, a segregação racial.

Não podemos deixar de apreciar o fato que muitas pessoas nem saberiam desses assuntos se não fosse por esses filmes, mas será que não estão aprendendo da forma errada? Afinal, são poucos aqueles que buscam aprender mais e ir mais fundo na discussão quando ela é apresentada, algo excelente quando ocorre, mas normalmente se contentam com a  – dita – impossibilidade de fazer algo pra mudar e acabam por absorver a mensagem como se tivessem assistido uma comédia romântica.

Resta aos poucos (sim, dentro dos milhões que assistem, somos poucos..) que sentem uma inquietação para discutir mais a fundo, perder um pouco da vergonha e tentar aprofundar o papo com amigos, família, etc. Já que, não é culpa dos filmes a falta de atenção aos debates internacionais e muito menos podemos ficar parados assistindo a manipulação a céu aberto.


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A síndrome de Dom Quixote nas Relações Internacionais

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[post do Luís Felipe]

Não houve cavaleiro andante mais valente que Don Quixote. Junto com seu leal escudeiro de aventura Sancho Pança e montado em seu cavalo Rocinante, viveram grandes aventuras para honrar a sua grande amada Dulcinéa. É a história de um fidalgo que lendo diversas histórias de aventuras e batalhas vividas por cavaleiros, desde os mais remotos tempos da história, terminou por perder o juízo e sair a viver sua própria loucura (autodenominadas aventuras pelo próprio Don Quixote). Não bastasse lutar contra guerreiros imaginários e viver honrarias inexistentes, o nosso cavaleiro andante ainda promete um reino a Sancho Pança.

Esse livro que eleito com a melhor obra de ficção da história por críticos literários em 2002, traz algumas reflexões sobre os líderes mundiais. O poder pode se tornar um vício para muitos líderes, que de alguma maneira desejam continuar ininterruptamente envolvidos nos processos de decisão mundial. Assim como narra Cervantes, um cavaleiro que sai pelo mundo lutando contra os agravos e coisas erradas que vê – ainda que completamente sem juízo e razão, há líderes que parecem cegados por algum fator externo e que passam a viver mais fantasia do que realidade.

Por vezes, o próprio Sancho Pança, apesar da ilimitada cumplicidade ao seu líder, parece duvidar de suas histórias, promessas e crenças. A tradicional divisão entre política interna e externa parece um bom pano de fundo para a correlação entre Don Quixote e os nossos líderes. Quantas não foram as vezes que um líder não bradou pelos mais caros valores nacionais frente a qualquer crise que ameaçasse sua popularidade, sejam nacional o internacional. A tentação de utilizar-se de subterfúgios é imensa, poucos são as pessoas que não preferem culpar outros por seus próprios erros.

O jogo diplomático, contudo, ainda pode ser considerado o principal campo em que os líderes são afetados pela Síndrome de Don Quixote. Como bem cita Sombra Saraiva, interesses são camuflados na forma de valores. O eixo do mal, a ameaça a democracia, o perigo das armas de destruição em massa, entre tantos outros exemplos na história, nos mostram que a ilusão e a imaginação de Cervantes para criar seu personagem, já encontraram luz em eventos nas Relações Internacionais. Há loucura nas Relações Internacionais, pessoas cegadas por ideologias? Ou simplesmente interesses?

Como toda pessoa sem juízo, Don Quixote encontra muitas pessoas que preferem deixar-lhe viver seu sonho, afinal é só mais louco no mundo. Nas Relações Internacionais, no entanto, uma pessoa sem juízo é suficiente para causar estragos que podem levar décadas para serem dirimidos. No jogo das decisões políticas de todas as esferas existe uma loucura aparente, tal qual do nosso cavaleiro andante, advindas de leituras de grandes teóricos políticos e desventuras de outrora. Parece neste caso, ainda assim, que toda a loucura está revestida de um interesse, ao contrário de Quixote que tanto ler e ouvir falar de aventuras, terminou inocentemente insensato.


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