100 anos de Jorge

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“Não tenho nenhuma ilusão sobre a importância de minha obra,

mas, se nela existe alguma virtude, é essa fidelidade ao povo brasileiro.”

Jorge Amado, o “contador de causos”, o “romancista do povo”, aquele que por meio de seus livros melhor descreveu a excentricidade de um país tão diverso e se tornou um dos mais ilustres escritores brasileiros da história. Sem ilusões sobre a importância de sua obra e sempre fiel ao povo brasileiro, seu feito é praticamente inigualável. Hoje, comemorando o centenário de seu nascimento, vale a pena relembrar um pouco de seu histórico e prestar-lhe uma singela homenagem no blog.

Quando se trata desse célebre e celebrado baiano, os números impressionam: sua obra é composta de 23 romances (além de memórias, contos, biografias e obras infantis), publicados em 49 línguas e 55 países. Trata-se do segundo escritor brasileiro com mais livros vendidos na história (cerca de 50 milhões), ficando atrás somente de Paulo Coelho (140 milhões).

Leitura obrigatória aos amantes da literatura brasileira, Jorge Amado é aclamado por seu estilo irreverente e seus personagens marcantes, tendo nos brindado com clássicos como “Capitães de Areia” (1937), “Gabriela, Cravo e Canela” (1958), “Dona Flor e Seus Dois Maridos” (1966) e “Tieta do Agreste” (1977). Histórias que já foram (e estão sendo) adaptadas para o teatro e a televisão, tornando ainda mais populares seus personagens. [Teste seus conhecimentos sobre a obra de Jorge Amado aqui.]

Narrando um Brasil à sua maneira, honrando suas origens baianas e ilustrando com suas palavras o que há de mais tradicional em nosso país, Jorge Amado se tornou um ícone. Neste dia em que, se vivo, comemoraria 100 anos, nada mais justo que comemorarmos todos sua existência, seu trabalho e seu legado. [Confira algumas das homenagens prestadas ao autor no dia de hoje aqui e aqui.]

“Eu sou muito otimista, muito. O Brasil é um país com uma força enorme. Nós somos um continente, meu amor. Nós não somos um paisinho, nós somos um continente, com um povo extraordinário.”

Que suas palavras possam nos inspirar a – como ele próprio tão bem o fez – conhecer cada vez melhor as origens de nosso país e transmitir ao mundo o que há de mais genuíno em nossa rica cultura. Só podemos ser um “povo extraordinário” graças a pessoas extraordinárias. E extraordinário assim Jorge Amado foi, e ainda é: eterno em sua obra que é lida e recriada a cada dia por seus milhões de admiradores pelo Brasil e pelo mundo inteiro. 


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Cultura armada

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Nessa semana, está se completando um ano do massacre de estudantes após um atentado a bomba na Noruega. O culpado, Anders Breivik, foi julgado, ganhou cela especial e vai ter o veredicto anunciado em agosto. Porém, a semana vai ficar marcada por uma coincidência macabra, com o ataque do tresloucado James E. Holmes, um doutorando que saiu atirando num cinema dos EUA e matou 12 inocentes. 

Toda vez que acontece uma tragédia dessas, entra em pauta o tema do controle de armas. Foi assim na Noruega, no caso recente do Colorado, e mesmo quando um atirador invadiu a escola do Realengo no Rio de Janeiro. E é interessante ver como esse tema, já espinhoso, fica ainda pior nos EUA

Os candidatos à presidência, Obama e Romney, sequer mencionam o tema em suas campanhas. Todo mundo sabe como é o lobby da NRA e das indústrias de armamentos nos EUA, mas no caso, é surpreendente ver como a própria sociedade lida com isso. Eles têm problemas mesmo para tentar limitar apenas a venda de armas automáticas (como as usadas no ataque ao cinema, que servem pra muito mais que proteção pessoal…). Tive a oportunidade de entrar em contato com gente de lá, que defende o porte de armas, e a opinião é unânime: qualquer tipo de legislação que restrinja a venda de armas é coisa de “comunistas e liberais querendo arruinar nossa pátria” e sequer mencionar o tema parece um insulto para eles. Em um primeiro momento, parece algo absurdo, ainda mais pra brasileiros como nós, que vivemos num país com um controle relativamente rígido mas que ainda sofre com violência urbana muito alta, e que se beneficiaria de um controle maior em outros países (que é de onde vêm essas armas). Não temos essa cultura de portar armas, salvo casos extremos. 

Nos EUA, não. A famosa segunda emenda garante esse direito pleno, de defender cada cidadão dos EUA contra a ameaça inglesa – na verdade, a essência dela é a formação de uma milícia, mas hoje o que vale é a segunda parte, que garante a posse de armas para formar a tal milícia. Meio que uma aberração jurídica, mas enfim, eles interpretam assim há mais de 200 anos. E parece que, mesmo com as tragédias, é um risco que estão dispostos a correr, como que a chance de tragédias acontecerem compense a segurança e os milhares que foram salvos, se salvaram, ou à sua propriedade, por terem aquela escopeta guardada embaixo da cama. 

Até que ponto isso está certo ou errado? Ao nosso ver (e eu nem posso ser tão categórico, por que tem muita gente que adoraria ter sua arma por aqui), é obviamente errado que se venda armas. Basta pensar em como esse comércio alimenta o narcotráfico na fronteira com o México (quase todo o arsenal dos grupos criminosos de lá vem dos EUA). Mas, na terra do Tio Sam, os fatos da semana passada são apenas uma pedra no caminho de uma tradição muito forte e traço profundo de sua cultura (cadê o relativismo cultural nessa hora?) e, limitem a venda ou não, sempre vamos estar sujeitos a encarar esse tipo de notícia no futuro.


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Post do Leitor

Ideias que transcendem fronteiras [Post 3]

[A Página Internacional dá continuidade à série de postagens intitulada “Ideias que transcendem fronteiras”, com textos de autoria da leitora Tamiris Hilário de Lima Batista, graduada em Relações Internacionais pela UNESP – Campus Franca. Este terceiro post traz como tema central a educação, enfatizando-se novos projetos e iniciativas que procuram vinculá-la com a humanização dos aprendizes. Boa leitura!] 


Bê-á-bá com biscoitos: sinta, imagine e…



Como estabelecimento de fronteiras permeáveis, emergem desafios nas mais diversas áreas. Há ainda a perda de referencial em relação ao tradicional (e dogmático). Em grosso modo, a carcaça não se adapta mais ao conteúdo (e vice-versa). Não é diferente com a educação. Num contexto cuja formatação é tão densa, tem se pensado em como preparar indivíduos para conhecerem ao mundo, aos outros e, antes de tudo, a si mesmos. 

O sistema educacional adotado pelos Estados, hoje, parece seguir a linha de montagem proposta por Ford ao inicio do século XX. E em prol de um bê-á-bá esvaziado de sentido, admitiu poucas inovações ou sufocou aquelas iniciativas que teimosa e corajosamente o fizeram. 

Não há propriamente mocinhos e vilões, mas um descompasso entre modelos e contextos, isto é, a educação imposta sem que haja uma contrapartida de espaços e lugares compatíveis às necessidades e manifestações sociais contemporâneas. Em consequência, há o desgaste e, portanto, o vácuo na relação entre os envolvidos, os quais ora não se reconhecem, ora o fazem com demasiado estranhamento. Notou-se, então, a necessidade de revisão dos ambientes de aprendizagem bem como do papel daqueles que o integram. 

Voltadas a tal fim e com um jeitinho “diferentão”, nascem ações pedagógicas e metodologias pulverizadas pelo globo. Promovendo a junção entre cognitivo e afetivo são replicadas e multiplicadas em contextos extremamente plurais. 

Tomamos de empréstimo um movimento notável (e apaixonante): o Design For Change (DFC). Munida de uma metodologia peculiar, desde 2006 a idealizadora indiana Kiran Bir Sethi objetiva mudar os destinos de crianças e jovens em seu país e no mundo. [1] 

Em conversa, Anshul Aggarwal, articulador global do DFC, nos explicou por que, apesar de diferentes contextos, estão presentes em mais de 30 países (também no Brasil). Contou-nos que o design thinking [2], basicamente, põe o usuário no centro da experiência, já que são formuladas soluções voltadas às suas necessidades. Crianças e adolescentes são convidados a sentir, imaginar, agir e compartilhar ideias, tornando-se protagonistas de seus processos de aprendizagem. Uma vez aplicada ao ambiente educacional, tal metodologia contribuiria ao cultivo da empatia que seria o elemento chave para unir seres humanos, ensinando-nos a desenvolver novos olhares sobre o universo que nos rodeia. É assim que o DFC transcende fronteiras – quaisquer que sejam. 

No Brasil, por sua vez, há o exemplo emblemático do Centro Popular de Cultura e Desenvolvimento (CPCD), encabeçado pelo educador Tião Rocha. Desde 1984, roda, cafuné, abraço e sabão foram transformados em pedagogias e o pé de manga (isso mesmo!) em “sala de aula”. Além dos inúmeros projetos desenvolvidos em território nacional, países como Angola, Moçambique e Guiné Bissau também agregam experiências vindas lá das Minas Gerais. A essência do CPDC humaniza a educação e instiga ação e reflexão por meio de práticas de aprendizagem simples e construídas coletivamente – já pensaram em alfabetização com biscoitos? 

Em ambos, para lá do que já fora mencionado, saltam aos olhos outros predicados: customizam a relação “ensinar-aprender” e valorizam os múltiplos saberes dos agentes, o que enriqueceria ainda mais as vivências, tornando-as experiências completas de vida. E, ainda, ampliam as possibilidades de cada indivíduo em tomar para si o controle de seus próprios destinos. 

Ora, torna-se evidente que as possibilidades de transformação são infinitas e que há uma centelha de futuro bastante otimista. Mais que adaptáveis aos diferentes ambientes, são também (e principalmente) formas de compreensão da educação realmente voltadas e comprometidas com desenvolvimento humano.

[1] Kira dirige a River Side School, onde o DFC nasceu e é aplicado.
[2] Para conhecer mais sobre design thinking voltado à educação acesse Design Thinking For Educators e IDEO.
[3] Mais informações sobre as perspectivas da educação, segundo a UNESCO, disponíveis aqui.
[4] Infográfico sobre perspectivas da educação disponível aqui.


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Post do Leitor

Ideias que transcendem fronteiras [Post 2]

[A Página Internacional dá continuidade à série de postagens intitulada “Ideias que transcendem fronteiras”, com textos de autoria da leitora Tamiris Hilário de Lima Batista, graduada em Relações Internacionais pela UNESP – Campus Franca. Este segundo post traz como tema a emergência de novas organizações ditas “alternativas” e que impactam diretamente a realidade social. É o caso dos chamados “coletivos culturais”. Aproveitem a leitura!] 

Instinto Coletivo: “velhos sonhos, novos nomes”*. 


No Brasil, após o boom de iniciativas do terceiro setor e da sociedade civil na década de 1990, aspirando por demandas diversas, temos visto a emergência de outras formas de movimentação social, estabelecendo-se com solidez em território nacional. Nota-se, então, uma tendência à proliferação de manifestações e tipos de organização, cujas características tão peculiares se prestam a (re) colorir o imaginário e a realidade social brasileira. Estamos a falar de agrupamentos de pessoas voltadas aos mesmos fins, os chamados coletivos culturais. Em suma, representam as novas formas de produzir, organizar e valorizar o fazer cultural. Mais que isso, representam também a voz de uma geração que pensa, age e sente de forma articulada e colaborativa. 

É o caso do Circuito Fora do Eixo (FdE). Trata-se de uma rede de trabalho concebida por produtores culturais, ao final de 2005, cujo objetivo era estimular a circulação de bandas, o intercâmbio de tecnologia social e o escoamento de produtos para além do eixo dito “tradicional” – em muitos sentidos. E, também, superar os desafios e a invisibilidade, na qual as múltiplas manifestações artísticas e culturais (são) eram relegadas. Tal perspectiva se reforça quando Pablo Capilé, um dos fundadores e articuladores do FdE, afirma: “[…] Não tem grana da iniciativa privada, não tem um mercado e o poder público não nos visualiza. A gente tem que empreender.” Criou-se, assim, um universo cultural paralelo e independente, que conta com uma gama de elementos próprios, os quais chamam de simulacros FdE: universidade (UniFdE), agente econômico e financeiro (Banco FdE), ação política (PCult – Partido FdE) e a Mídia FdE (que conta com diversas ferramentas para compartilhamento – e a consequente democratização –, do conhecimento, cujo o conteúdo está disponível na rede). 

Reconhecendo o alto potencial latino americano para o desenvolvimento de circuitos culturais independentes, o FdE transcendeu as fronteiras brasileiras e se integrou aos “hermanos”. É aquela velha história: realidades distintas, demandas semelhantes. Propuseram, então, um “junto e misturado” que fomentou iniciativas solidárias, colaborativas e articuladas – seja por meio de vivências e imersões, compartilhamento de ideias e tecnologias, debates, promoção de festivais e eventos. Países como Argentina, Venezuela e Uruguai se tornaram grandes parceiros sociais do FdE. 

O Grito Rock, por exemplo, maior festival de artes integradas da America Latina, fechou em 2012 um ciclo de 200 cidades em 15 países. Foram 170 mil pessoas em mais de 180 edições. Parte do financiamento do evento se deu por meio da moeda complementar do FdE. 

Se se trata de um movimento continental que estimula (inter)conexões e (inter)ações sadias entre as diferentes nações, talvez estejamos a falar de uma espécie de “panamericanismo” sob novas nuances – não nos prendamos ao que o signo tem feito menção historicamente, mas a uma releitura simbólica deste. Isso porque o movimento cultural ao qual nos referimos se pautaria também em princípios diplomáticos e sociais, agora livres de interesses meramente econômicos e/ou políticos que, ainda que timidamente, estimulariam o empreendimento conjunto de um novo universo. Num século XXI permeado por significações e ressignificações, não se trata agora de um libertar colonial – ainda que por vezes nos deparemos com seus resquícios – mas de um libertar de instintos coletivos, antes velados e esmaecidos. Velhos sonhos ganham, portanto, novos nomes. 

* Em referência à música Instinto Coletivo de O Rappa.


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De bobos e mentirosos

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Ontem foi o primeiro de abril. Na tradição original, é uma data em que celebra o “dia dos tolos”. A ideia é pregar peças nos incautos, e tem origem na Europa, quando houve a oficialização do 1º de Janeiro como início do ano-novo. Até então, em muitas partes da França isso ocorria em abril, e quando houve a mudança muita gente zombava dos desavisados. Algo como um tipo de rivalidade provinciana. Como isso descambou para um dia em que as pessoas atiravam peixes umas nas outras, é um mistério, mas da França a coisa ganhou o mundo e virou o “dia da mentira” em muitos lugares, inclusive no Brasil. 

É uma data relativamente universal, e se formos pensar, existe muita mentira (e tolos…) nas relações internacionais. Há as grandes mentiras, que mexem com países e causam guerras (lembram do Vietnã?). Hoje, por exemplo, completam-se 30 anos da Guerra das Falklands. E essa foi cheia de peças e tolices. A Argentina inventando um conflito para desviar a atenção da crise do regime militar, esperando o auxílio norte-americano (uma grande pegadinha do TIAR), ou a catástrofe militar que foi a campanha, enviando soldados inexperientes e comandantes incompetentes. 

Também há muitas mentiras (ou equívocos?), como o jogo de empurra-empurra diplomático. Ao pé da letra, a soberania é inglesa, por ocupação efetiva. Por outro, é algo escorado pela ocupação com força e uma “soberania” dos habitantes meio que artificial. Até eu que sou mais bobo quereria permanecer como súdito inglês em vez de uma república sul-americana relativamente instável. O fato é que ninguém tem uma resposta efetiva, os dois lados têm sua razão, e se a resposta fosse fácil a ONU não estaria recomendando o diálogo entre as partes pra resolver a pendenga. Quem é o bobo nessa história? Talvez quem fique se estressando com um assunto que muito provavelmente não vai causar um conflito armado tão cedo e que vai se arrastar ainda por muitas décadas de diplomacia. 

Mas também tem quem se aperte por conta das pequenas mentiras. Quem diria, por exemplo, que um plágio maroto na época em que defendia seu doutorado faria com que o presidente da Hungria, Pal Schmitt, tivesse que renunciar. A lógica é simples – se ele foi desonesto com idéias, quanto mais com o cargo mais importante do governo… Num momento em que o país tenta se recuperar da crise européia, são essas pequenas mentiras e segredos (pensem no caso Strauss-Khan, ou das festas animadas de Berlusconi) que perseguem e, num efeito cascata, mostram como o indivíduo tem sua cota de importância na vida internacional… 

Por mais que seja uma brincadeira, essa é uma data bastante significativa. Existem muitas mentiras que movimentam as relações internacionais. Ou meias-verdades. São poucas as vozes pela verdade absoluta, como o Wikileaks, que recebeu o prêmio de ser perseguido e fechado. Mas também existem muitos tolos, e a história certamente trata de desmascará-los com o tempo…


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Vai um livro aí?

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A vida moderna certamente oferece muitas comodidades. Entre elas, talvez uma das principais, seja a possibilidade de comprar diversos produtos sem sair do conforto de casa.  Pois bem, o governo argentino decidiu inovar. Não bastasse outras tentativas de dificultar importações, como no caso da carne suína brasileira, agora se tentou agregar barreiras a livros e revistas.

Imaginem a situação: um cidadão argentino compra um livro advindo do exterior e é obrigado a retirar seu pedido no aeroporto de Ezeiza, localizado a 35 kilômetros de Buenos Aires, após pagar devidamente uma taxa imposta. Em outro cenário, as editoras se veriam obrigadas a contratar um despachante, na medida em que o processo na aduana para materiais impressos seria o mesmo aplicado a mercadorias, digamos, mais complexas. O mais intrigante é que o mercado editorial argentino é composto por quase 80% de livros importados. Desta forma, o impacto se faria sentir de forma imediata.

Segundo a versão oficial, no entanto, criou-se o novo procedimento com o intuito de proteger a saúde dos hermanos. Buscava-se limitar a difusão de livros com conteúdo de chumbo superior a 0,06%. Para outros, a verdade reside na tentativa de aumentar a produção editorial nacional e impedir a saída de dólares do país rumo ao exterior. No final das contas, já revogou-se o procedimento que obrigaria os argentinos a buscarem seus materiais literários no aeroporto, tal qual fazemos com nossos amigos e familiares. Segue somente a preocupação com o chumbo nos livros.  

Tudo isso justamente na Argentina, cuja capital possui mais de 1000 livrarias. Bom, diante do risco químico dos livros deve ser melhor mesmo não ler nada. Melhor esperar uma solução nacional, a qual muito possivelmente deve estar a caminho. Ironias a parte, desta vez foram longe demais. A tentativa de controlar a cultura, a expressão do pensamento e a arte – sob o formato literário – nunca poderia funcionar. Muito menos na Argentina, que, a despeito de todas as crises recentes, se defende através da cultura e se orgulha do nível educacional de sua população. Melhor que o desatino durou poucos dias, o que será que eles esperavam?   


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Post do Leitor

Post do leitor – Laura Pimentel Barbosa

[Hoje apresentamos mais um post do leitor que nos foi enviado por Laura Pimentel Barbosa, recém-formada em Relações Internacionais pela UNESP – Campus Franca. Nesta oportunidade, ela discute um tema bastante atual, a respeito da internet e sua relação com o desenvolvimento econômico e social, sugerindo uma interessante reflexão a respeito. Vale a pena conferir! Agradecemos a participação dos leitores e os convidamos a construírem sempre conosco o conteúdo da Página Internacional! Boa leitura!]

Criatividade em rede

Quaisquer que sejam as antinomias que

se apresentem entre as visões da história
que emergem em uma sociedade, o
processo de mudança social que chamamos
desenvolvimento adquire certa nitidez quando o
relacionamos com a idéia de criatividade.
Celso Furtado

Nos últimos dias assistimos ao aprofundamento do debate a respeito das regulamentações contra a pirataria na Internet propostas pelo Congresso estadunidense. As indústrias fonográficas e cinematográficas têm interesse na aprovação da SOPA (Stop Online Piracy Act) e PIPA (Protect IP Act), porque vêem o sistema de funcionamento da Internet, abalizado no compartilhamento descentralizado de informações, um risco aos lucros fundamentados nos direitos de propriedade intelectual, tão caros ao nosso sistema econômico. É importante lembrar que no Brasil também tivemos um caso semelhante, embora infelizmente a visibilidade tenha sido bem menor, como foi o caso da Lei Azeredo.

Apesar de ser possível apreender diversos temas a partir desse debate, achei que seria pertinente colocar em discussão a relação entre o caráter da Internet e os novos rumos para a cidadania e para o desenvolvimento econômico e social.

Para tanto, faço uma breve introdução aos princípios da Internet. Durante os anos 60 e 70 houve um debate acirrado a respeito de quais deveriam ser os padrões que regeriam a rede, em razão da forte influência dos setores acadêmicos com ideais libertários na sua criação, os padrões mais simples, ou seja, com menos regulamentação tanto no processo de geração do conteúdo quanto no de compartilhamento, acabaram por se tornar os princípios da rede*.

A informação é condição necessária aos investimentos internacionais, e os padrões abertos facilitam a inovação e a criação de novas ferramentas para que se tornem mais sofisticados os modelos de desenvolvimento, tornando a pluralidade cultural e informacional cada vez mais valorizadas no sistema econômico internacional. A SOPA e a PIPA são propostas oriundas de um sistema econômico que não parece ter acompanhado as demandas do desenvolvimento tecnológico e científico que ele próprio incentivou.

Nesse sentido, os convido a fazer um paralelo entre a cidadania e como ela pode se beneficiar através de um recurso tão importante como o é a Internet. Yonchai Benkler** afirma que as relações no ecossistema digital, baseadas na colaboração e em uma infra-estrutura orientada a serviços públicos ou bens comuns, pode ampliar a voz dos cidadãos. E esses bens comuns não necessariamente obedecem aos padrões de propriedade, ou seja, às relações tradicionais do mercado, que por sua vez são fundamentadas na apropriação e na restrição.

A justificativa de proteção às patentes pela SOPA e PIPA pode resultar em mais do que a restrição ao acesso à informação, cultura e conhecimento, pode ser um freio à inovação e criatividade que vem impulsionando planos para o desenvolvimento econômico de países em desenvolvimento e subdesenvolvidos.

Por fim, gostaria de colocar como reflexão a questão da apropriação social da tecnologia da informação e comunicação, que pode ser sim um risco ao sistema econômico e produtivo como o conhecemos, mas talvez seja uma oportunidade para um novo modelo econômico, mais plural e cooperativo, que encontre caminhos para a superação das desigualdades que a apropriação e a acumulação ajudaram a criar…

* GETSCHKO, Demi. Algumas características inatas da Internet. Publicação do Comitê Gestor da Internet do Brasil, ano 1, 2009, ed. 1. p. 42-43.
** AMADEU, Sérgio. Cidadania e redes digitais. São Paulo: Comitê Gestor da Internet no Brasil, 2010. p. 22-25.


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O som da globalização

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Quando vi um chinelo “Havaianas” no chão do hostel onde fiquei na Argentina, com uma bandeira do Brasil nas “tiras”, logo pensei: deve ter um brasileiro aqui. Para minha surpresa, as Havaianas pertenciam a um israelense, que mal sabia que o desenho ali era a bandeira do Brasil. 

Aliás, sobre as Havaianas, vale a pena relembrar (ou para os mais jovens até mesmo saber, pois muita gente ainda não sabe) o que era esse produto há uns 15 anos atrás… Para os quiserem, leiam aqui uma matéria interessante. Para se ter uma idéia de como o produto era visto, o antigo slogan era: “não deforma, não solta as tiras e não tem cheiro”.

Mas o que mais impressiona (fui ao Uruguai e estou no Chile e o mesmo se repete, e como repete…) é o tal do Michel Teló. Depois de ser comparado com Carmem Miranda e Justin Bieber, a Forbes chamou o brasileiro de fenômeno. “Você já ouviu falar de Michel Teló? Então ouvirá!” diz a revista. Ele já é o mais vendido em muitos países no mundo.

E a música já tem versões em vários idiomas. Clique aqui e descobra como se diz “Ai se eu te pego” em várias línguas.

Contudo, não é só de Michel Teló que vive a globalização. É estranho ir a outro país e ouvir sua língua o tempo todo e encontrar nos supermercados as mesmas marcas e produtos que se encontram no Brasil. Por mais longe que se vá, sempre se encontrará um chocolate Nestlé, uma Heineken ou Budweiser para beber.

Sinceramente, não sei explicar o fenômeno (neste caso não o Teló), que é estudado por diversos pesquisadores sem que se chegue a um consenso sobre o que é, afinal, a globalização. A Rede Globo de televisão, há alguns anos, tentou explicar através do pagode e a nossa colaboradora internacional Bianca Fadel nos escreveu um excelente post sobre o assunto que vale a pena reler.

A Globo dizia, em meio a um pagodão: “Isso é globalização”! 

O fato é que, entre as diversas facetas dessa globalização, surgiu o Michel Teló, que se espalhou viralmente pelo mundo em tempo recorde e é ouvido pelos brasileiros, argentinos, eslovacos, japoneses…

Não temos nenhum prêmio Nobel, mas temos Michel Teló. Quem não tem cão, caça com Teló. Fazer o que, né? Isso é globalização!


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Brasil, meu Brasil brasileiro…

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“Quem somos nós, os brasileiros, feitos de tantos e tão variados
contingentes humanos? A fusão deles todos em nós já se
completou, está em curso ou jamais se concluirá?”

Em meio a questionamentos sobre nossa identidade como estes do renomado antropólogo Darcy Ribeiro em sua clássica obra “O povo brasileiro”, eis que se inicia uma iniciativa cultural com o objetivo principal de apresentar o Brasil – em suas diferentes facetas, cores e ritmos – à Europa, mais especificamente à Bélgica e a seus arredores.

O Festival Europalia (site oficial aqui) é um evento bienal que acontece desde 1969 em terras belgas, considerado o maior festival cultural multidisciplinar do mundo. Segundo os organizadores, a proposta de cada edição é reunir as atividades artísticas de um país, de forma a apresentar sua diversidade ao público. Depois da Rússia e da China nos últimos anos, é a vez de o Brasil ser homenageado por aqui. Esta 23ª edição do festival teve início no último dia 04 de outubro, com a inauguração oficial pela presidente Dilma, e tem previsão de encerramento em janeiro de 2012.

É claro que não se pode negar o prestígio internacional do nosso país atualmente, mas o investimento nacional neste sentido também não tem sido baixo: o Europalia é o maior e mais caro projeto da atual gestão do Ministério da Cultura, representando um investimento/custo de aproximados 30 milhões de reais – advindos do governo em sua maior parte, mas também da iniciativa privada. Também a Bélgica investiu cerca de 10 milhões de euros para a consolidação do festival.

Centenas de eventos compõem a programação, desde apresentações musicais a exposições e palestras, com o objetivo de demonstrar a riqueza cultural brasileira, desvinculando-a unicamente das ideias de samba, carnaval e futebol, segundo o Sérgio Mamberti, atual secretário de Políticas Culturais do Ministério da Cultura. Fugir dos “estereótipos” foi um argumento destacado também por Ana de Hollanda, Ministra da Cultura. Contudo, é claro que polêmicas são inevitáveis quando se trata de um investimento e divergências entre organizadores belgas e brasileiros sobre os nomes para compor a programação marcaram o processo de seleção das atividades.

Em um momento crítico de consolidação da identidade brasileira internacionalmente, percebe-se o claro interesse do governo em disseminar a riqueza de nossa cultural, reafirmando a visão de um país multifacetado e em franco crescimento. Entretanto, as cifras que envolvem o festival são impressionantes – investimento justificado ou exagerado? E sobre os ditos “estereótipos”, será que é realmente possível desvincular-nos de uma visão que parece, ao mesmo tempo, ser reforçada a cada Copa do Mundo ou Carnaval?

De qualquer forma, vale a pena recorrer novamente a Darcy Ribeiro para incitar a reflexão sobre a perspectiva que temos de nossa própria formação:

“Nós, brasileiros, somos um povo em ser, impedido de sê-lo. Um povo mestiço na carne e no espírito, já que aqui a mestiçagem jamais foi crime ou pecado. Nela fomos feitos e ainda continuamos nos fazendo. Essa massa de nativos oriundos da mestiçagem viveu por séculos sem consciência de si, afundada na ‘ninguendade’. Assim foi até se definir como uma nova identidade étnico-nacional, a de brasileiros”.

O Europalia deste ano que o diga…


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O embalo da popularidade…

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“Shakira vira assessora de Barack Obama”. Aos desavisados essa frase que percorreu os noticiários dessa semana pode parecer, no mínimo, estranha. Contudo, o fato é que a Casa Branca anunciou mesmo que a estrela latina fará parte de uma Comissão Presidencial voltada ao desenvolvimento de projetos na área de educação para a população hispânica nos Estados Unidos.

Parece que, no embalo da Shakira – cujos hits e carisma têm conquistado multidões nos últimos anos – Obama tenta também retomar sua popularidade com o eleitorado latino. Realmente, o atual momento político do presidente norte-americano não é dos mais favoráveis. E, na medida em que 2012 é ano eleitoral, os democratas (partidários de Obama) entendem que a aproximação com a população latina que reside no país poderá constituir o diferencial para a possível (apesar de hoje não muito provável) reeleição do presidente.

Vários são os aspectos reivindicados pela população latina – e prometidos durante a campanha presidencial há três anos – que ainda permanecem sem encaminhamento, tais como a reforma nas leis de imigração, o Dream Act, a geração de empregos e a qualidade da educação, por exemplo (mais detalhes aqui). O fato é que “Obama terá trabalho para ganhar os votos latinos”.

Impossível, pois, não vincular a nomeação de Shakira a essa demanda de Obama por popularidade junto ao principal “público” da cantora. Em verdade, não se pode deixar de mencionar que Shakira desenvolve projetos muito importantes e reconhecidos internacionalmente no que se refere à educação na América Latina. Sua ONG Pies Descalzos é um exemplo de trabalho filantrópico, e a colombiana foi recentemente também nomeada embaixadora da Boa Vontade da Unicef, órgão das Nações Unidas responsável pela defesa e promoção dos direitos infantis. A nomeação, pois, se justifica não apenas em termos midiáticos, mas também pela coerência da postura da cantora nestas questões. Obama não poderia ficar mais satisfeito!

A midiatização natural dessa nomeação não poderia ter sido mais expressiva no cenário internacional em geral. Resta visualizar efetivamente quais serão os reais impactos deste ato político na vida prática e no incremento real das políticas educacionais para a população latina nos próximos meses…


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